setembro 26, 2009

MARINA SILVA: GRANDE DAMA PARA UM PARTIDO SEM EIRA NEM BEIRA



Há já alguns anos, li algures uma entrevista de Marina Silva. Encantei-me com a história de vida da senadora; emocionei-me com suas palavras lúcidas e claras; impressionei-me com sua coerência. Enfim, fique fã de carteirinha de dona Marina Silva. Queria-a candidata à presidência (à época, Lula ainda não havia se lançado candidato, afinal vitorioso, no pleito seguinte).

Os anos passaram. Não fizeram diminuir minha admiração pela senadora e, depois, Ministra do governo Lula. Mesmo com altos e baixos no Ministério do Meio Ambiente, manteve sempre a postura de estadista, que ela é. Entrou no governo porque tinha competência para tal e saiu do governo porque quis, porque achou que se fechara um ciclo de vida, de trajetória. Coerente, muito coerente.

Bem, pensei muito antes de escrever o que se segue. Levei algum tempo matutando. Pensando na coerência de Marina Silva. Que ainda admiro. Mas...

Sair do Partido dos Trabalhadores, apesar de todo o destaque que a mídia deu, por motivos óbvios (afinal, tudo o que espicaça o PT é motivo de grandes manchetes) pode ainda ser considerado um sinal de coerência. Não saiu atirando, saiu porque viu diminuído seu espaço, talvez. Saiu porque precisava de novos ares políticos, de iniciar uma nova trajetória política. Todos têm o direito a mudar um pouco de ares. Isso não é incoerência. Mas...

Agora o Partido Verde, o PV. Não tenho antipatia pelos fundadores e participantes do Partido Verde. Até admiro sua coragem, seu denodo e... sua ingenuidade.

Porque aí é que está o nó da questão: o Partido Verde é uma agremiação ingênua, não no sentido político do termo, mas no sentido filosófico da idéia de um partido político de defesa do meio ambiente.

Explico: ser “verde”, ou seja, ser ecologista não é uma posição exatamente político-partidária. É, sim, uma posição política no sentido mais nobre do termo, de posicionamento na polis, hoje na República, na sociedade. E não depende da cor partidária de quem quer que seja. Há ecologistas, ou seja, defensores do meio-ambiente, da sustentabilidade, do progresso sem poluição, em todos os partidos. Basta procurá-los.

O movimento ecológico, principalmente diante da urgência da salvação do planeta, transcende cor partidária. Deve estar, e está, em muitos partidos que têm idéias políticas completamente divergentes na maioria dos assuntos de cidadania, mas que podem, e devem, acolher cidadãos com preocupação ambiental.

A existência de um partido verde, como a ser o único a erguer a bandeira ecológica, é, em minha opinião (modesta, muito modesta, aliás), um grande equívoco filosófico, portanto.

Já disse algures, e repito aqui: o cidadão pode ser nazista ou comunista e, ao mesmo tempo, ter preocupações ambientais. Salvar o planeta ou defender a natureza como condição de melhoria de vida para o homem pode ser (e deveria ser) a preocupação da maioria dos cidadãos, independentemente de sua cor partidária, filosófica, religiosa ou futebolística.

A ecologia precisa de um movimento sério. Apartidário. Acima de quaisquer querelas políticas. Só assim pode enfrentar os selvagens que destroem e matam a natureza em prol de seus lucros, apenas de seus lucros, numa visão imediatista e suicida. Contra eles é que deve lutar o movimento ecológico, e não se envolver em disputas político-ideológicas que não cabem (e não devem caber) na mente dos verdadeiros ambientalistas.

Por isso, dona Marina Silva, apesar de admirá-la tanto, de achar que a senhora tem uma postura acima de qualquer suspeita na defesa de interesses realmente fundamentais da raça humana, apesar de ser uma lutadora em termos de propostas para a melhoria de condições de vida do homem, acho que deixar o PT, buscar novos ares foi uma ação corajosa, mas filiar-se ao PV é de um equívoco lamentável.

Porque a senhora, dona Marina Silva, é muito, mas muito maior que o PV, um partido sem eira nem beira. Sem futuro. Ao contrário do movimento ecológico, de que a senhora, por sua trajetória de vida, por sua coerência, é um símbolo em nosso País.

setembro 23, 2009

A ABERTURA DO JOGO: É PRECISO MAIS RESPONSABILIDADE!




Parece inevitável que o Congresso Nacional acabe por aprovar a abertura da jogatina no Brasil. A pressão é muito forte e há, além de argumentos, muitos interesses, de grupos muito poderosos, de gente que já está há muito tempo no negócio da exploração dos incautos.

Não sou totalmente contra a abertura de cassinos e a regulamentação dos jogos de azar. Há pontos positivos. E não adianta muito ficarmos com argumentos moralistas contra a compulsão humana de buscar um entretenimento tão estranho quanto o prazer dos indivíduos de arriscar todo o seu dinheiro em cartas, roletas, máquinas e não sei mais quantas outras formas de ilusão.

No entanto, há que se fazerem as coisas de forma a que não se transforme o País num imenso cassino. Porque, se há aqueles que apreciam, há também os que são “doentes compulsivos” pelos jogos de azar. E esses precisam de algum tipo de proteção do Estado. Mas, há mais: além dos compulsivos, há os milhares, talvez milhões, de cidadãos que, num momento de desespero, se iludem com o ganho fácil e se enterram definitivamente no canto da sereia de um possível ganho fácil e momentâneo, sem terem as mínimas condições para enfrentar um endividamento que pode levá-los e à família à falência total.

Por isso, mesmo não sendo um especialista na questão, mas um cidadão preocupado não só com a saúde emocional das pessoas e dos jovens que podem ser atraídos para a jogatina, mas também com a possibilidade de que nossas cidades se deteriorem com a abertura indiscriminada de casas de jogos (a distância de quinhentos metros de escolas nem sempre é bem fiscalizada, além de insuficiente), proponho a nossos Congressistas que lutem por uma idéia bastante simples, mas que pode ser eficaz:

Que somente municípios com mais de duzentos mil habitantes possam ter casas de jogos. E, principalmente, que só possam ser abertas tais casas fora dos limites urbanos dessas cidades, com o compromisso de que, se a cidade estender seus limites, as casas de jogos também se mudem sempre para mais longe.

Eu acredito que, com isso, não teríamos de conviver com a proximidade e a atratividade dessas casas de jogos. Não veríamos o ambiente urbano se degradar com a construção ou adaptação de grandes imóveis que atraem movimentação excessiva de pessoas e, consequentemente, provocam congestionamentos, barulho e poluição.

Enfim, além de todos os demais cuidados na regulamentação, que não deixem os nossos Congressistas, diante da inevitabilidade dos cassinos, que nossas cidades se degradem ainda mais, com a proliferação indiscriminada de casas de jogos.

setembro 11, 2009

UM CRIME CONTRA SÃO PAULO. MAIS UM!




A cidade de São Paulo sempre foi governada por cabeças de engenheiro, mesmo quando seus prefeitos não tivessem tal formação. Desde as primeiras décadas do século passado e, principalmente, nas gestões de Prestes Maia e Faria Lima, o primeiro projetando e o segundo, executando, que um plano de grandes obras transformou a cidade na megalópole que é hoje.

Os acertos foram muitos. Os erros, também.

E um dos principais equívocos e crimes urbanistas foi a retificação dos rios, principalmente o Tietê, que cruzava a ainda pequena São Paulo em meandros magníficos, no começo do século passado. As águas calmas passaram a correr mais apressadas, na velocidade do crescimento da cidade. E as chuvas, também apressadas, iniciaram um longo ciclo de enchentes que se agravaram ainda mais com a ocupação criminosa das margens do rio, ao se construírem as famosas avenidas marginais que o acompanham desde Guarulhos até o outro lado, já na Cidade Universitária. Ocupação criminosa porque várzeas são inundáveis, no movimento natural do rio que sobe e desce, conforme o ciclo da chuva se cumpre.

O segundo crime foi a projeção e construção das grandes avenidas de fundo de vale, onde outros rios, outros córregos e riachos corriam, sufocando as águas, transformando-as em filetes embutidos e revoltados debaixo do asfalto. Outras soluções, mais inteligentes e mais ecologicamente corretas podiam ter sido buscadas, tanto para as avenidas marginais quanto para as de fundo de vale, quando a cidade ainda era bem menor do que é agora.

O terceiro grande crime cometido contra as águas que corriam livres na Piratininga dos velhos tempos foi a total canalização de todos os córregos e riachos, exigência de ocupações desordenadas de suas margens por populações ansiosas por moradias e mal orientadas pelo poder público ou enganadas por grileiros irresponsáveis, muitos deles políticos ou grandes empresários da construção civil.

O quarto grande crime ambiental foi a pavimentação sem critério de toda e qualquer rua e avenida, sem a preocupação de deixar espaços de terra para a absorção da água da chuva. Exemplo seguido de forma cabal por quase todos os construtores de casas, prédios, galpões, fábricas etc. A cultura do cimento prevaleceu e ainda prevalece na mente de todo paulistano que constrói, compra ou aluga uma casa ou um apartamento: pouco espaço de terra, para absorção das águas pluviais.

O quinto grande crime foi o assassinato frio e permanente da cobertura vegetal. Árvore, durante muito tempo, foi sinônimo, em São Paulo, de inimigo que deve ser combatido. E as que sobraram se viram sufocadas com calçadas que não deixam sequer um centímetro de solo em torno de seus troncos. A poda e o corte de árvores, hoje, ainda continuam, mas esse crime já tem a oposição da sociedade que sempre reclama e esperneia contra os que o cometem. No entanto, basta caminhar por qualquer rua e observar as calçadas que ainda se percebe o descaso para com as grandes árvores que teimosamente subsistem apesar do cimento a comer-lhes as raízes e até o tronco.

O sexto grande crime foi o não investimento em coleta e tratamento de esgoto e de produtos e efluentes das grandes indústrias. Tudo vem sendo jogado nos rios, há tanto tempo, sem nenhum critério, transformando-os em esgotos a céu aberto, em águas mortas, que, agora, a despoluição dessas águas custará à sociedade um preço exorbitante. O Tietê e o Pinheiros, por exemplo, são rios mortos, quase sólidos, quando podiam ser motivo de orgulho e lazer para a população. E são objeto, também, de grandes obras de alargamento e aprofundamento de suas calhas, para obter maior vazão e tentar evitar as cheias, obras que gastam bilhões e geram receitas para empreiteiras e, mais uma vez, comissão para políticos.

Há muitos outros crimes que se cometeram contra a cidade, por prefeitos de cabeça gorda de engenheiros cuja única preocupação era construir grandes obras das quais obtivessem gordas comissões, para si e para seus apaniguados. O famoso elevado Costa e Silva, o minhocão, é um desses exemplos de obra condenada e absurda, por sufocar uma avenida e poluir a paisagem com seu cimento escuro como a consciência de quem o projetou e construiu.

Assim, cada prefeito que entra quer construir mais obras. E obras contra enchentes são as que mais recebem verbas e o aplauso dos cidadãos mal informados, porque parecem definitivas na resolução de um problema que não tem, atualmente, solução nenhuma de curto prazo. E inventam coisas tão absurdas como, mais recentemente, os piscinões que têm o objetivo de reter as águas da chuva e depois dar-lhes vazão, para evitar enchentes. Custam muito caros esses piscinões e, depois de prontos, resolvem, sim, por algum tempo o problema das enchentes localizadas. Mas trazem tantos outros problemas, como os de saúde pública, por se tornarem depósitos de lixo, de lama e viveiro de ratos e ratazanas, exalando mau cheiro e doenças, nas épocas das cheias. Além disso, as águas que o enchem durante as chuvas trazem também um grande volume de terra que decanta e se deposita no fundo, tornando sua limpeza e manutenção caríssimas. Mais ganhos para empreiteiras e políticos com suas comissões.

Agora, neste exato momento, mais um grande crime se comete contra a cidade, sob os auspícios do Governo do Estado, a complacência da Prefeitura e a inércia da população, do Ministério Público e dos órgãos de proteção ambiental: a transformação dos canteiros centrais das marginais do Tietê em novas pistas para trânsito de veículo.

Gastam-se um bilhão e tanto de reais numa obra absurda, que derruba milhares de árvores, que impermeabiliza o solo que serviria para minimizar as cheias, com a absorção da água das chuvas, para transformar em pista de engarrafamento de trânsito mais larga, mais gorda, porque não se resolverá o problema de congestionamentos, já que todo o trânsito das marginais desemboca em ruas de pequena vazão, o pouco que havia de verde nas marginais do rio morto pela poluição.

E não adianta o senhor governador vir a público, de forma irada, como sói acontecer sempre que é criticado, para falar de compensações ambientais: podem-se plantar milhões de árvores no lugar das que dali foram arrancadas, que o crime continua o mesmo e a natureza vai fazer o paulistano sofrer com mais enchentes nas famosas marginais, enchentes que provocarão ainda mais amplos congestionamentos, com mais gente tendo prejuízos, já que mais veículos estarão trafegando pelas marginais. E serão bilhões jogados fora. Dinheiro que poderia ser investido no que todos falam, mas ninguém resolve: no famigerado e primo pobre de todas as administrações, o transporte público.

Também o senhor prefeito não lhe traz nenhum mérito vir a público culpar administrações anteriores pelas enchentes, cada vez que uma chuva mais forte atormenta os paulistanos. Se há erros de praticamente cem anos, o senhor prefeito está dando sua forte contribuição para todos os desmandos que se fizeram e ainda se fazem nesta cidade, ao ignorar qualquer medida de bom senso que possa dar um pouco de esperança a essa gente que, se também tem culpa, por seu descaso para com a cidade, mas é quem, em última análise, paga a conta e ainda sofre.

Até quando veremos esse festival de gastos inúteis, de medidas absurdas, de obras faraônicas e sem propósito, que só servem ao bolso e à vaidade de governantes burros, inescrupulosos e manipuladores?

Pobre São Paulo. E tão rica!

agosto 11, 2009

POR QUE MORREMOS E POR QUE MATAMOS, NO TRÂNSITO?




Uma vez, dentro de um táxi, em São Paulo, conversava com o motorista a respeito do trânsito, dos acidentes, da irresponsabilidade. A certa altura, soltou ele esta pérola, a respeito de pedestres:

- Mas tem pedestre que é folgado, merece ser atropelado!

Respirei fundo e argumentei com ele que, por mais “folgado” ou errado que fosse o pedestre, ninguém tinha o direito de, por isso, jogar um veículo de aço de uma ou mais toneladas sobre ele, que tem, sei lá, sessenta ou oitenta quilos de carne e ossos.

A conversa morreu aí. Acho que o cara ficou com vergonha de continuar o papo.

Não é só esta a mentalidade de nossos motoristas. Quando, ao volante, as pessoas se transformam em seres superpoderosos, a desafiar a lei, as regras, a abusar da sorte, sem se preocupar com os demais motoristas ou com as demais pessoas que usam a via.

Regras de trânsito, para muitas pessoas, existem para serem desrespeitadas. Depois, quando têm acesso à mídia, reclamam da famosa “indústria de multas”.

No trânsito, provocam acidentes os que são irresponsáveis. Os que acham que estão sozinhos no mundo ou não têm respeito pela própria vida e pela vida das outras pessoas.

Se eu desrespeito uma sinalização de trânsito, estou assumindo, de forma consciente, que posso provocar danos. Que estou colocando em risco a vida de outras pessoas. Então, não é possível que aquele que mata no trânsito não receba punição exemplar.

O mínimo que se espera de quem assume o risco é que pague por ele. Mesmo que não seja a pena de prisão, que seja o banimento para sempre desse motorista de nossas ruas e que indenize de tal forma a vítima que nunca mais se esqueça do que fez.

O que não podemos é continuar com o comportamento complacente de que acidente de trânsito com vítima se pune com meia dúzia de cestas básicas. Porque isso é incentivar o desrespeito às leis e desafiar a nossa razão.

agosto 08, 2009

RENÚNCIA DOS 81 SENADORES





Fora, Sir Ney! E daí?

Se ele renunciar, mesmo que ao mandato, o que acontecerá?

Nada. Absolutamente nada. Outro igual ou pior que ele assumirá a cadeira ou a presidência do Senado. E tudo continuará na mesma.

E ele voltará na próxima eleição. Ainda mais forte. Nos braços do povo do Amapá, do Acre, do Maranhão ou de qualquer outro estado onde possa colher votos à custa de... deixa pra lá!

Se todos os 81 senadores renunciarem ao mandato? O que acontecerá?

Nada, absolutamente nada.

Porque 81 suplentes sem voto assumirão os seus lugares e continuarão a fazer a mesma coisa que os titulares fizeram até agora. Não vai mudar nada, absolutamente nada.

E, nas próximas eleições, a maioria estaria de volta, mais forte ainda, nos braços do povo, que vota no mais simpático, no que grita mais, no que denuncia mais, no que olha melhor o rabo do outro para esconder o seu próprio.

Enfim, não mudaria nada. Absolutamente nada.

Acabar com a reeleição indefinida de políticos é uma medida mais do que necessária para acabarmos com a casta de privilegiados que fica no poder ou à sombra dele por décadas e décadas.

Há, por esse Brasil afora, vereadores e deputados estaduais eternos, vitalícios. Ficam na política rasteira de pequenos favores a eleitores durante a vida toda, colhendo a mordomia dos pequenos poderes, à custa de verbas de representação e outras. Inúteis, inúteis como a gravata que usam para discursos vazios, nas Câmaras.

Há, nesse Brasil, deputados federais e senadores eternos, vitalícios. Ficam na política mais ou menos rasteira de favores aos eleitores, através de escritórios de representação que prestam pequenos serviços, que deveriam ser fornecidos pelos órgãos públicos, e trocam seus votos na Câmara ou no Senado por verbas e um pouco de poder. Inúteis, como os ternos bem cortados que usam para frequentar os gabinetes do poder.

Todos eles, senadores, deputados estaduais e federais, vivem da chantagem do poder executivo. Porque só assim podem se reeleger e se reeleger e se reeleger.

Todos os Governadores e o Presidente da República, não importa o partido, são reféns dessa corja que não tem compromisso algum com a coisa pública, com o povo, mas apenas com a possibilidade de deter um pouco do poder que possam adquirir com a barganha de seu voto e de nossa miséria e ignorância.

É claro que exagero. É claro que pode haver políticos bem intencionados. Mas são minoria. E logo que se acostumam, através de sucessivas reeleições, com os mecanismos do poder e com as mordomias do poder, esquecem as boas intenções, consumidos pela mesquinharia da política suja do dia a dia.

É claro, também, que só acabar com a reeleição não é suficiente para que tenhamos verdadeiros representantes a se preocupar com nossos problemas nos diversos níveis de parlamento dessa nossa incipiente democracia.

Não, só isso não resolve.

Mas, que seria um grande passo, disso não tenho a menor dúvida.

Então, acabar com a reeleição sucessiva de vereadores, deputados estaduais e federais e senadores não é nenhuma panacéia para nossos problemas, mas é uma luta legítima e importante para aperfeiçoamento democrático.

Compre essa idéia. DIGA NÃO À REELEIÇÃO! Porque não vai adiantar nada, absolutamente nada, tirar o Sir Ney da Presidência do Senado ou, até, levar a que renunciem todos os 81 senadores.

Porque eles voltam. Sempre voltam. Se não eles mesmos, mas seus filhos, genros, noras, netos, afilhados, agregados...

julho 24, 2009

ATIRE A PRIMEIRA A PEDRA, AI, AI, AI, AQUELE NÃO...



“Covarde eu sei que me podem chamar” (como dizia Mário Lago, na bela canção de mestre Ataulfo) e de outras coisas também.

Nem te ligo, farinha de trigo.

Porque já não aguento mais essa indignação virulenta da oposição (leia-se: dos senadores tucanos e demos) contra o Sarney e família. Está certo: são uma quadrilha que manda no Maranhão, manda em parte do Brasil e que está no poder há muitos anos. Não gosto dele, do Sarney pai, e não gosto do clã. Marimbondos não são o meu forte.

No entanto, a gritaria da oposição me irrita.

Que a imprensa, ou parte dela, procure a história dos Sarneys, publique seus podres, tudo bem. Faz parte do ofício, além de contar número de mortos pela gripe A. Mesmo assim, faço restrição a certos órgãos de imprensa, que só publicam ou inventam escândalos quando lhes interessa. Mas isso é outro papo.

Repito: que a imprensa cumpra seu papel de instigar, de denunciar.

Mas a cambada da oposição, que já governou este País por tantos anos (e, para ser menos radical, desde 1964!), sabia e sempre soube de todas essas trampolinagens que a família Sarney pratica, e as praticou também. Com grandes roubalheiras ou com pequenos favores. Com sinecuras e compras de parcerias e adversários. Com a venda de quase metade do Estado essa gente já... bem, deixa pra lá, por enquanto. Só por enquanto.

Atire a primeira pedra aquele que nunca... nunca, mesmo, ligou para fulano e beltrano para pedir ou exigir ou trocar por favores o favor de empregar um tio, um sobrinho, um agregado qualquer! Isso em todas as estâncias de poder: não está a salvo ninguém, nem o Executivo nem o Judiciário!

Quem são os álvaros e virgílios para dizerem que nunca, mas nunca mesmo, não pediram sinecuras a apaniguados que estivessem em postos chave dos governos de que eles faziam parte?

E agora ficam aí, a atirar pedradas e mais pedradas. Como se fossem as vestais do templo da democracia!

Jogam, como sempre, para a arquibancada, com intenções claramente eleitoreiras. Ou antes, atacam para não precisarem se defender, depois. Acuam para não serem acuados.

Mas são todos um bando de hipócritas e desonestos. Agem em função do momento, porque sabem que, com seu palavrório falsamente moralista, obterão os votos necessários para se perpetuarem no poder. E depois, para fazerem exatamente como fazem os Sarneys. Talvez com um pouco mais de competência, já que estão aprendendo hoje, para não cometerem os mesmos erros depois.

Quantos políticos existem neste País que limpam muito bem a cadeira do poder a que se sentaram, antes de sair! E tornam-se, na oposição, moralistas de carteirinha!

São todos uns caras de pau. Não merecem o voto de ninguém.

Infelizmente, são eleitos e reeleitos ad aeternum, por obra e graça desse maldito estatuto da reeleição.

Enquanto houver a possibilidade de reeleição infinita para o mesmo cargo, a cachorrada não vai largar o osso. E muitos são os cães que ladram para não serem mordidos!

Podem, sim, me chamar de qualquer coisa, mas não abro mão de não entrar nesse joguinho sujo de indignação moralista dos que têm o rabo muito bem preso.

Fora Sarney e fora toda a cambada que se reelege... e se reelege... e se reelege!

julho 17, 2009

COMO CHIAM OS PIZZAIOLOS!




Todo mundo sabe que o Presidente Lula fala demais. É o seu jeito. E quem fala demais sempre acaba dando bom dia a cavalo, como dizia minha mãe.

Pois é, foi o que ocorreu, quando disse que na oposição (do Senado) há muitos pizzaiolos, ao responder uma pergunta sobre a malfadada CPI da Petrobrás.

Não vou exatamente defender o Lula. Vou tentar apenas pôr os pingos nos is.

Talvez o Presidente não queira lembrar, mas todos se lembram de quando ele disse, há muito tempo, que no Congresso havia pelo menos uns trezentos picaretas. Que viraram até música de uma banda de rock.

Ora, alguém, em sã consciência, vai discordar dessa afirmativa? Claro que não. Então, quantos picaretas há hoje, por exemplo, no Senado? Quantos?

Além disso, a afirmativa de Lula se refere à oposição e não exatamente ao Senado. Oposição que, quando situação, assou belas e apetitosas pizzas, no tempo do famigerado FHC.

Todo mundo sabe que os picaretas da oposição jogam para a arquibancada o tempo todo. São os típicos moralistas rodriguianos: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento. Que ninguém se engane com as diatribes de virgílios e agripinos, cristovans e álvaros, que é tudo um jogo bem ensaiado para que voltem ao poder os destruidores de empregos, os privatistas e entreguistas de sempre.

A CPI da Petrobrás tem objetivo certo e determinado: desmoralizar sua administração, para que possam continuar a velha pregação de que o Estado não sabe administrar, como foi o mote neoliberal importado da Inglaterra de Margareth Thatcher (nem idéias próprias eles têm), para justificar a sacanagem privatista que o ex-presidente promoveu.

Então, nessa história de pizza, as que eles promoveram quando governo tiveram o gosto amargo do jiló e o tempero de negociatas muito bem planejadas.

E mais duas coisinhas apenas: pelo atual sistema político-eleitoral, é impossível a qualquer governo conseguir fazer alguma coisa sem o PMDB. Que nasceu descente e se perdeu nos descaminhos do poder a qualquer custo. O último grande peemedebista jaz no fundo do mar, infelizmente. Então, defender o Sir Ney e elogiar o Collor pode não ser lá muito ético, mas é o único jeito de manter alguma governabilidade. Aliás, os atuais oposicionistas sabem muito bem disso.

A segunda coisinha: esse Sindicato dos Trabalhadores em Gastronomia e Hotelaria de São Paulo entrou na história para quê? A serviço de quem? Sob inspiração de qual ou quais políticos? Os pizzaiolos de todo o Brasil entenderam muito bem o que o Lula quis dizer e acho que não precisam de defesa, não. Isso é só mais um joguinho de cena, para aparecer ou a serviço da mesma cambada de sempre.

O Lula falou demais, e acabou dando bom dia à cavalaria toda da oposição, que estrebuchou. Que estrebuchem, é direito deles. O que não quer dizer que tenham razão. E que os verdadeiros operários da pizza, essa instituição paulistana, continuem a assá-las nos seus fornos, de forma honesta, que eles não têm nada a ver com essa encrenca.

E estamos conversados.

julho 13, 2009

SIR NEY, SIR NEY!



Indigna-se a oposição, principalmente senadores do DEM e do PSDB, contra o presidente do Senado, como se não tivessem o rabo preso há muitos anos com os mesmos vícios que eles condenam.

Indignam-se comentaristas da mídia e põem mais lenha na fogueira, ao buscar no passado do senador Sarney uma trajetória de escândalos e apropriação do dinheiro público.

Indigna-se a população, principalmente, do Sul maravilha, contra os desmandos da casa legislativa que deveria ser o exemplo de correção e comedimento.

Têm todos razão. E ninguém tem razão.

A sujeira é mesmo grande, mas motivo não há, agora, para toda essa gritaria, esse espanto. Basta olhar um pouco para a história política desse País, para compreender que é tudo muito normal, tudo muito natural.

Nossas instituições políticas sempre foram contaminadas pela inexistência de linhas claras entre público e privado. Nossa república já nasceu assim, herdados que foram todos os vícios da monarquia, regime que sabe muito bem misturar o que é da Nação com o que pertence à “família real”, numa mixórdia que não se distingue bem onde começa realmente o bem público e onde termina o poder financeiro do monarca de plantão.

Assim foram todas as repúblicas já constituídas nesse nosso País de coronéis de meia tigela, com títulos comprados à antiga Força Pública, para melhor assenhorear-se dos bens do Estado ou dos estados, fazendo-se, a si mesmos, não apenas gestores mas pequenos vice-reis em suas capitanias hereditárias, constituídas à custa do chicote e da escravização das populações. Esse modelo, que é escancarado no Nordeste, até hoje, repete-se com formatos mais ou menos sutis em todos os demais estados da Federação.

Famílias ou grupos de famílias e agregados ou clãs que se perpetuam no poder existem em todos os lugares. E não há, entre essa gente, nenhum escrúpulo de divisão de bens entre o que é do povo e o que é deles, ou melhor, o que é do povo é sempre deles, muito deles.

O clã de Sir Ney, que virou Sarney, é apenas uma ponta desse imenso iceberg de práticas condominiais que usam todos os demais clãs, para se apoderarem, sem nenhum escrúpulo, do que julgam lhes pertencer por direito quase monárquico. E compram consciências e votos como compramos nós bananas na feira.

Não há, portanto, por que se espantar. Sir Ney foi eleito e reeleito inúmeras vezes, assim como a maioria dos senhores deputados e senadores, com o voto de cabresto de sempre. Que só pode acabar, se conseguirmos, um dia, detonar para sempre esse maldito instituto da reeleição!

julho 10, 2009

A CPI DA PETROBRÁS



Já que é inevitável, por um cochilo dos governistas, a instalação da CPI da Petrobrás, que agora a base do Governo não bobeie mais e não deixe que se infle ainda mais o circo dos palhaços da oposição. Que seja uma CPI chapa branca, sim, com todo o cuidado para que não se atinja e se desmoralize uma empresa que tem a cara do Brasil, que está marcada pela história recente de luta de milhões de brasileiros.

Não gosto do Getúlio Vargas, porque odeio ditadores, odeio governantes que se acham acima do povo e querem se perpetuar no poder. Mas não posso deixar de dar a mão à palmatória, quando seu governo, pressionado por fortes movimentos populares, criou a Petrobrás.

Sem essa empresa, estaríamos até hoje reféns das famosas sete irmãs do petróleo e não teríamos alcançado um décimo do atual desenvolvimento. Seríamos uma nação empobrecida, vilipendiada e dependente. Mesmo que isso possa parecer exagero, para as gerações mais novas. Mesmo que o petróleo comece a dar sinais de esgotamento de sua força no mundo. Mesmo que energias alternativas comecem a quebrar o monopólio do chamado ouro negro.

Sem a Petrobrás, não teríamos como ter capital para usinas hidrelétricas e outras fontes de energia que geram desenvolvimento, já que teríamos de gastar fortunas com a importação de petróleo e seus derivados.

Bem ou mal gerida, desde a década de cinquenta a Petrobrás formou técnicos competentes, buscou novas tecnologias, avançou na prospecção de óleo em águas cada vez mais profundas, até atingir o que é hoje: uma das maiores empresas do mundo.

Objeto de cobiça de toda uma cambada entreguista, historicamente tem sido vilipendiada por uma parte da sociedade brasileira, por aqueles entreguistas de sempre (o termo entreguista pode até ter saído de moda, mas estão sempre por aí aqueles que não se conformam com o desenvolvimento do País sem dependência externa, por interesses mais do que sabidos, nunca abertamente declarados). O desgoverno tucano do acadêmico Fernando Henrique Cardoso fez de tudo para quebrar o monopólio do petróleo, até mesmo quebrar o País por um segundo mandato, e só conseguiu parcialmente seus objetivos: a privatização (leia-se: venda a preço de bananas, como fez com a Vale) da Petrobrás ficou para um possível terceiro mandato tucano, com o José Serra. Para isso, precisa de qualquer bandeira, de qualquer circo, que torne possível sua vitória.

Não se iludam os brasileiros com as falsas juras de amor à Petrobrás cantadas pelos senadores do DEM e do PSDB. Não se iludam. Porque eles, os entreguistas, através desses mesmos senadores, estão de olhos bem abertos para, na primeira oportunidade, ao menor cochilo do povo, empurrar nossas conquistas econômicas goela abaixo das bocarras escancaradas do capital internacional.

E a CPI da Petrobrás pode ser um bom começo. Ou pretexto.

junho 30, 2009

ATOS INSANOS: MOTOS E MORTOS

Eu acho que montar um veículo motorizado, de não sei quantos cavalos de força, com duas rodas, chamado de motocicleta, é um ato insano. Por mais que digam que pode haver algumas medidas de segurança para o condutor, qualquer queda – e isso é mais do que provável de acontecer – coloca a pessoa em risco de ferimentos graves e de morrer.

Pilotar um desses instrumentos de morte pode ser acrescentado à lista desses atos insanos de opção individual, como tantos outros que os seres humanos adotam com certa tranquilidade, até mesmo com um ar blasé de desafio à morte. Afinal, cada um escolhe o jeito como quer viver ou morrer.

Mais insano ainda é quando, ao risco do condutor, se acrescenta o risco do carona, ou seja, o idiota (ou suicida) que se senta atrás de um desses veículos para ser conduzido, em ziguezague pelas ruas esburacadas, por entre carros, ônibus, caminhões e até pedestres, apenas para tentar chegar mais rápido a algum lugar. Tem, sim, a possibilidade de chegar mais rápido ao cemitério.



Milhares de prefeitos de cidades pelo Brasil afora permitem – já que não há lei regulamentando tal negócio – o chamado mototáxi, ou seja, fecham os olhos, criminosamente, a que uma frota, quase sempre sem fiscalização, de motocicletas funcione como táxi, conduzindo passageiros. Não se sabe se os condutores são devidamente treinados para isso. Não se sabe se os veículos, perigosos por si mesmos, que eles conduzem, estão em boas condições de conservação. Não se sabe quase nada e é muito difícil, quase impossível, fiscalizar tais veículos, por sua rápida proliferação.

Incautos, milhares e milhares de pessoas confiam suas vidas a esses veículos inseguros e a seus condutores mal preparados e, muitas vezes, irresponsáveis, por dirigirem de forma perigosa ou por não terem o preparo necessário ou por não terem em perfeitas condições de condutibilidade os seus veículos que, repito, já são perigosos por si mesmos.

Agora, o Congresso aprova lei que regulamenta – leia-se: permite – que todas as cidades adotem tal tipo de condução.

Em São Paulo, onde o trânsito de motocicletas atinge o clima de epidemia, morrem pelo menos quarenta – eu repito: quarenta – motoboys por mês, em acidentes de trânsito. Imaginem-se a quantidade de feridos, de inutilizados para o trabalho, e os gastos em hospitalização, remédios, horas e recursos médicos, os prejuízos dos engarrafamentos, da perda de tempo e de bens materiais. A conta é astronômica.

Aprovada a lei de permissão do mototáxi no Congresso, se alguma autoridade irresponsável – e as temos as borbotões, por aqui – da cidade de São Paulo adotar o tal sistema de economizar tempo e produzir defuntos, teremos um morticínio mais cruel que todos os ataques de vírus que a humanidade já sofreu.

Motocicleta não rima com nada além de, pura e simplesmente, morte. Devia-se chamar “mortocicleta”, como já chamamos, em São Paulo, os motoboys (entregadores de encomendas que utilizam motos e infernizam o trânsito) de “mortoboys”.

junho 26, 2009

DUNGA ESPANTA A ZEBRA




Copa das Confederações. Semifinal. Seleção Brasileira e Seleção Sul-Africana, os Bafana Banfana, incentivados pela torcida e pelas vuzuelas. Um barulho ensurdecedor. Jogo duro, até os trinta e cinco minutos do segundo tempo: nenhum gol e os brasileiros perdidos em campo.

A Zebra, no banco de reservas dos africanos, tira o agasalho e começa a aquecer-se.

Do alto de sua sabedoria, Dunga chama Daniel Alves, lateral direito, para entrar no jogo. A Zebra olha e rola de rir: Daniel Alves?

Dunga grita no ouvido de Daniel:

- Vai lá e bate a falta que o Ramires vai sofrer daqui a cinco minutos...

- O quê?

- Vai lá e bate a falta que o Ramires vai sofrer daqui a cinco minutos...

- Mas, professor, não é o Ramires quem vai sair?

Dunga parece perdido, com a pergunta. O quarto árbitro começa a montar a placa de substituição com o número do Ramires. Dunga grita a plenos pulmões para se fazer ouvir:

- Espere... espere!

Nesse momento, o André Santos, bem à sua frente, passa correndo, perdido, como todo o time.

- É esse que vai sair, não o Ramires...

- Mas, professor – protesta o Daniel – eu vou entrar na lateral esquerda?

- Não... não... você só vai entrar pra fazer o que eu disse... a falta... bater a falta, entendeu?

Daniel Alves balança a cabeça que sim, mas seu olhar de espanto indica que ele, na verdade, não entendeu nada.

O árbitro determina a substituição. Daniel Alves, perdido como todo o time, entra em campo. O jogo continua por mais alguns minutos, com os africanos cada vez mais animados a marcar um gol que os consagraria para sempre. De repente, num ataque fortuito, a falta, bem na linha da grande área, contra os africanos. Ramires fora derrubado.

A televisão mostra o rosto concentrado de Daniel Alves. Galvão Bueno tem mais um ataque e berra que aquela falta é meio gol, que Daniel Alves é especialista e outras coisas mais. Penso: cala a boca, Galvão, que você vai secar o menino... Desligo o som da televisão e...

Bem, o resto é história. A Zebra dá um sorrisinho amarelo, volta para o banco de reservas e promete aparecer com o uniforme dos Estados Unidos, no domingo, na grande final.

junho 24, 2009

INDIGNAÇÃO? PARA QUÊ?



Cidadãos indignados: um porre! Já se disseram cansados, já inventaram “impostômetros”, já tentaram panelaços, agora tentam o luto, uma tarja preta na janela. Tudo bobagem. Nada arranha a competência de nossos políticos em continuarem a cometer as falcatruas que sempre cometeram, porque os esquemas já estão armados desde há muito e não quem os desarme.

Por quê?

Porque constituem uma casta encastelada nos poderes da República, em todas as suas instâncias, pelo maldito instituto da reeleição. Perpetuam-se e a seus protegidos, nas Câmeras de vereadores de quase seis mil municípios, nas Câmaras estaduais e na federal, no Senado. São donos de currais eleitorais constituídos à custa de anos e anos de troca de favores, de embustes, de falsas promessas.

O que acontece com o Senado, hoje, essa vergonhosa lista de atos secretos a distribuir benesses com o dinheiro público, o nosso dinheiro, apenas comprova o que temos há muito denunciado como um dos males de nossa democracia, a possibilidade de reeleição sem limites.

É claro que a extinção do estatuto da reeleição não vai impedir a roubalheira ou sua continuação. No entanto, se se renovassem as lideranças políticas, muitos esquemas poderiam ser abortados, e a vigilância dos cidadãos e dos órgãos controladores e repressores ficaria facilitada, já que a renovação exigiria dos recém-eleitos maior malabarismo para burlar a lei.

Vejam os mortos-vivos que frequentam as listas de implicados no escândalo do Senado e poderão verificar que é gente que está lá há tanto tempo, que já nem prestávamos atenção às suas maracutaias, já que arrotam a todo instante falsas juras de probidade. Há, é claro, gente honesta, inteligente, preocupada com o povo, entre a camarilha e, é claro, também, que, com a proibição de serem reeleitos, nós os perderíamos. Mas acredito que o prejuízo é bem menor do que continuarmos a eleger sempre os mesmos, sempre os mesmos, por anos e anos, e até por décadas e décadas.

Assim, não adiantam a indignação e o protesto irado, se não tivermos o sangue frio de adotar uma campanha sistemática contra a reeleição, a ser vencida pelo convencimento de parcelas significativas da população, até que se tenha um número suficiente de pessoas para uma ação mais efetiva, como, por exemplo, uma emenda constitucional nascida da vontade do povo que acabe de uma vez por todas, senão com a reeleição, pelo menos com a reeleição reiterada. Quem sabe, apenas duas vezes, como já acontece com os membros do executivo, embora, sendo radical, eu pessoalmente preferiria que se acabasse com a reeleição para o mesmo cargo em todos os níveis.

Em vez de ficarmos chorando as pitangas ou o leite derramado, acredito que só um debate que envolva todos os cidadãos, através dos órgãos de comunicação social, poderia levar a uma democracia mais saudável, acabando com esse maldito sistema que institui uma classe política encastelada para sempre nos desvãos do poder, a se reeleger seguidamente, para armar as maracutaias que lhes permitem meter a mão no dinheiro público, no nosso rico dinheirinho.

Mas, isso, a nossa mídia, representada por empresas que também mamam nas tetas dos mesmos esquemas, através do subsídio indireto da propaganda comprada pelos governos, ou através da manutenção no poder de políticos que defendem os seus interesses, isso nossa mídia e nossos impolutos articulistas, repórteres, comentaristas e quejandos não se dispõem a fazer, atados que estão todos na mesma total e geral geléia de jogos de poder e corrupção.

Portanto, em vez de protestos e indignações inúteis, que tal começarmos a pensar seriamente numa reforma política à revelia dos políticos?

junho 16, 2009

O CASO DO MENINO S. E SUA VOLTA AOS ESTADOS UNIDOS




Tenho-me segurado para não dar meu pitaco nesse assunto. Mas, hoje, não resisti.

Primeiro, a Convenção de Genebra, do qual o Brasil é signatário. Diz, de forma clara, objetiva e transparente, que os casos de crianças levadas a outro país, sem o consentimento de um dos pais, devem ser julgados nos país de origem da criança.

Portanto, no caso do menino S., vindo para o Brasil em companhia da mãe, que morreu no parto, sua guarda não devia ser discutida pela justiça brasileira, mas sim, pela estadunidense.

Segundo, o aspecto mais importante: a sacanagem do padrasto brasileiro, de sobrenome ilustre na área do Direito (e, por isso mesmo, obteve a complacência de nossa justiça, que julga, sim, não só pelo mérito, mas por outras razões...). Quando a mãe faleceu, não podia o tal padastro, por uma questão de direito e de humanidade, ignorar o pai biológico do menino. Por mais que ele gostasse do garoto (e nem vou discutir esse mérito), era sua obrigação humanitária (e enfatizo esse termo) entrar em contato com o pai americano, para discutir a guarda do filho. Passar por cima do direito de um pai de decidir o destino de um filho menor, no caso de morte da mãe, não é apenas falta de humanidade, é sacanagem pura e simples, independente de quaisquer outras razões.

Se o pai biológico não tivesse condições, morais, intelectuais, financeiras ou seja lá o que se pudesse alegar, mesmo assim, sua primazia seria inconteste, e o caso teria que ser decidido em cortes estadunidenses, sempre tão ciosas no direito de filhos menores, muito mais do que os nossos juízes. Não raro, tiram dos pais legítimos o direito sobre os filhos, porque esses não têm condições de criá-los ou porque os pais biológicos estão prejudicando essa criança.

Então, não havia por que transformar essa encrenca em incidente internacional, pela teimosia, burrice e (independente de qualquer amor que o padrasto tenha para com o menino S.) falta de humanidade e de reconhecimento do direito do pai biológico.

Pura estupidez.

Para ficar com o garoto, o padrasto (de mais que acostumada com as lides judiciais e, portanto, sabedora de que a causa seria praticamente perdida, se o pai apelasse para a Convenção de Genebra) contou com a lerdeza de nossos juízes, sem se importar nem com a vontade da criança àquela altura nem com o prejuízo emocional que ela terá, quando a lei e o direito internacionais prevalecerem, e ela tiver que ir embora.

Quem pagará pelo seu sofrimento em deixar uma família, amigos e um ambiente a que foi obrigada, pelas circunstâncias, a acostumar-se e a aprender a amar? Mesmo que a transição seja cuidadosa (e terá de ser!), sempre haverá recalques e sequelas que ficarão em sua cabecinha ainda em formação.

junho 09, 2009

QUE DROGA!





Jamais usei drogas. Acho babaca o cara que precisa de drogas para qualquer coisa. A vida já um barato, sem precisar de maconha, cocaína, ecstay ou qualquer outra porcaria, para viver um barato. Aliás, em matéria de drogas, já botamos para dentro de nosso organismo muitas outras drogas, as legalizadas, as que estão no ar que respiramos, na comida envenenada por agrotóxicos que comemos, nos comprimidos contra dor de cabeça que consumimos. E ainda vamos querer drogas que, além dos efeitos colaterais que todos conhecemos, também nos alteram o estado de consciência! Acho estupidez. Mas, enfim, cada um sabe de si.

Quando o assunto é droga (aqui consideradas apenas as de efeito alucinógeno, portanto, as proibidas), a falta de conhecimento do assunto, o preconceito e as posições radicais predominam.

Falta de conhecimento do assunto. Não preciso, por exemplo, saber a história da maconha e de seu uso através dos tempos, ou, ainda, que a maconha pode ter tais e tais usos terapêuticos ou não, para defender o famoso tapa na pantera. O que a ciência sabe hoje sobre a cannabis é suficiente (assim como conhece todo o malefício do cigarro, esse uma droga permitida!), para nos provar que, embora menos terrível que outras, a marijuana tem efeitos nocivos, sim, no organismo que a usa. Assim como conhecemos, cientificamente, o desastre físico e psíquico provocado por todas as demais drogas alucinógenas.

Preconceito. Trata-se de pura e simplesmente estupidez ter preconceito contra o assunto drogas. Mas, pior é o preconceito contra o usuário. Está certo: acho que quem usa droga é estúpido, mas estúpido para si mesmo, por se destruir. Não adianta a sociedade encarar com preconceito o desajuste do drogado. A sociedade cria indivíduos desajustados e precisa acostumar-se a conviver com eles, e não persegui-los. Os seres humanos não são anjos nem demônios e imaginá-los divididos entre o bem o mal seja por qual motivo for não ajuda em nada a nos tornar melhores e mais civilizados.

Posições radicais. Há os que defendem com unhas e dentes a liberdade de se drogarem, como se a sociedade não tivesse nada com isso. E há os que desejam ver para sempre erradicados da sociedade tanto as drogas quanto os drogados. Tanto o individualismo exacerbado de um lado, quanto o fascismo disfarçado do outro poluem e impedem qualquer discussão mais séria sobre as drogas. E ficamos nos digladiando, sem achar algum tipo de solução do problema ou de convivência com ele.

No entanto, uma discussão séria, com conhecimento do assunto, sem preconceitos e sem posições radicais urge que ocorra em todo o mundo, para que possamos equacionar o problema do uso e abuso de drogas alucinógenas em nossa sociedade. Tanto a permissividade total quanto a proibição absoluta têm-se mostrado catastróficas. A busca de um meio termo, de um princípio mais humano e uma visão menos tacanha, que possa encontrar na prática uma forma de racionalismo tem sido dificultada por esses três elementos que citamos.

A sociedade tem de decidir: aceitação e formas de aceitação ou proibição total e formas de erradicação.

Se optarmos pela proibição total, como mais ou menos tem sido o modelo atual, temos de buscar formas científicas de erradicação total das plantações e das sementes de todas as drogas que se cultivam; temos de encontrar sistemas de controle das substâncias que permitem sintetização dessas mesmas drogas e a criação de outras ainda mais potentes; temos de desenvolver formas mais humanas de tratamento dos usuários; e, acima de tudo, realizar uma ampla e profunda conscientização das pessoas, através de campanhas publicitárias, de educação permanente de jovens e adultos, de forma a que todos tenham absoluto conhecimento e desprezo pelas drogas. E, acima de tudo, coibir o tráfico e manter um sistema de vigilância contínua e total em todos os pontos de cultivo, processamento e venda de drogas, sem um minuto sequer de distração, sem um átimo sequer de tolerância. Custo desse programa? Incalculável. Mas é um custo que todos, absolutamente, todos terão de pagar.

Se optarmos pela aceitação do consumo de drogas, em nome da liberdade individual, temos de solucionar o problema da produção e comercialização dos produtos; temos de estabelecer critérios de qualidade para essa produção e comercialização, bem como a adequação de lugares para consumo, sem que prejudiquem os que não usam; temos de estabelecer regulamentos claros para esse consumo; temos de discutir se o usuário terá ou não direito aos caríssimos sistemas de saúde, quando estiver debilitado pelas drogas, e quem pagará por isso; temos de discutir os limites entre o dever e o direito dos usuários, de tal modo que não interfiram nos direitos e deveres dos não usuários; e, principalmente, discutir se vale a pena a sociedade curvar-se definitivamente às demandas individuais e se vale a pena pagar esse preço, já que abrirá as portas para muitas outras exigências do indivíduo em relação ao grupo, de tal forma que assumamos claramente a ditadura do ego sobre o coletivo. Custo desse programa? Incalculável, em suas consequências muito menos econômicas do que de mudança total de paradigmas. Mas será um custo que todos, absolutamente todos, terão de pagar.

Enfim, abrir a discussão e buscar soluções para os inúmeros problemas que, apenas de relance e de forma rasa, abrimos nos parágrafos precedentes, numa visão maniqueísta, que é totalmente condenável, quando se trata de drogas e seu uso. O que não podemos tolerar é a absoluta indiferença e hipocrisia da sociedade, e seu envolvimento com aspectos preconceituosos, ligados a religiões e outras superstições, quando vem à tona o assunto drogas. Também não podemos tolerar a cara de pau dos que dizem ser inocente o uso de um cigarrinho de maconha, como se não houvesse por trás dessa fumacinha um tremendo esquema de tráfico que assalta, que assassina, que mantém a todos reféns de uma violência contra a qual os mesmos fumantes inocentes se revoltam, porque são também eles atingidos através de seus filhos, irmãos, pais e amigos por balas perdidas e outras atrocidades, por bandidos financiados por eles mesmos.

Essa hipocrisia, sim, tem de acabar. E já. Para que possamos discutir com paixão, talvez, mas não sem conhecimento, mas não com preconceitos, mas não com radicalismo, o problema das drogas.

E também sem poesia e sem ingenuidade, por favor. Porque não é pelo fato de eu nunca ter usado drogas e abominar o seu uso, que não poderei entender o buraco em que estamos metidos por causa delas.

(Escrito em 29.3.2007)


junho 08, 2009

AINDA O TRÁFICO, AINDA AS DROGAS, AINDA A HIPOCRISIA...




Consumo de drogas e tráfico. Problema cascudo. Que a sociedade não enfrenta do modo como devia: sem moralismos. Porque, ou discutimos isso como pessoas civilizadas ou estamos pondo em risco o próprio conceito de civilização.

Como jogar lenha nessa fogueira? Bem, o primeiro passo é deixarmos de ser hipócritas e reconhecermos que há, sim, quase total culpa pelo tráfico de uma certa classe média e média alta que consome toda e qualquer droga que se lhe apresentam como salvadora de suas neuroses. Não adianta combater o tráfico, se a sociedade não se conscientizar de que uma coisa não funciona sem a outra: o consumo é causa e o tráfico, efeito. Mas isso é apenas um lado do complexo prisma que envolve a discussão sobre drogas.

Primeiro, vou deixar clara minha opinião sobre o tema drogas: nunca consumi, não consumo e não consumirei jamais qualquer droga alucinógena, porque acredito que o ser humano não precisa disso. Não há provas de que cocaína ou maconha ou seja lá o que for aumentem em um átimo sequer a capacidade de entender a realidade ou de tornar alguém mais capaz do que é naquilo que faz. Nenhum artista (ou cientista ou quem quer que seja), e isto é mais do que provado, realizou qualquer obra-prima quando estava drogado, se não tivesse capacidade de criá-la sem o seu uso. Ou seja: a droga não aumenta a capacidade nem criativa nem intelectual de ninguém. Mas estão provadas cientificamente a dependência química e a deterioração física e mental dos usurários de drogas. Além dos problemas familiares, sociais, financeiros.

Dito isto, vamos a um argumento a favor da droga: a liberdade que tem o indivíduo de dispor de si como lhe aprouver. É um direito inalienável esse ou pode ser discutido? Pode, ou deve, o direito individual prevalecer sobre o social a despeito de quaisquer outras implicações? Acho que é esse um dos cernes da questão. Porque, na verdade, estaremos discutindo isto: que tipo de sociedade nós queremos?

Vamos, em tese, concordar com o argumento do direito individual. Que vantagens e desvantagens haveria na descriminalização das drogas? Com certeza, há muitas vantagens: eliminaríamos, em primeiro lugar, o tráfico, já que a droga seria comercializada de forma controlada, embora livre, com o pagamento de impostos e demais regulações legais. Só o fim do tráfico já seria um argumento poderoso a favor da legalização. Mas ainda há outros: o controle (pelo estado e, consequentemente, pela sociedade) impediria que menores usassem drogas e isso também pode ser um ponto altamente positivo. E mais: os drogados teriam assistência no uso, evitando-se as mortes por overdose; teriam locais certos de consumo, assistência médica e psicológica; tratamentos para desintoxicação quando resolvessem deixar o vício etc. etc. Há experiências dessa legalização em países europeus que comprovam que não há aumento significativo no uso de drogas, no início da liberalização, ocorrendo, inclusive, uma certa diminuição do número de usuários após algum tempo. Não sei se é verdade, mas parece lógico que isso ocorra. Portanto, teríamos uma sociedade mais justa, mais respeitosa dos direitos individuais, convivendo de forma pacífica com as diferenças. E isso parece bom. Há outras implicações? É lógico que sim, e esse pequeno artigo não pretende nem ir a fundo na questão nem levantar todos os problemas relacionados a tal decisão. Apenas dizer que, se pretendemos examinar sem moralismos o uso de drogas pela sociedade, devemos fazê-lo de forma desapaixonada e criteriosa, tendo sempre em mente a pergunta fundamental: que tipo de sociedade queremos?

E a descriminalização pode ser um caminho, porque o atual modelo repressivo tem-se revelado impotente para resolver o problema. Mas ela não é e não pode ser encarada como um modelo definitivo, tampouco como solução de todos os problemas, porque, a despeito da carga democrática e de aparente respeito humano que traz, ainda há questões mais profundas a serem discutidas, talvez mais adiante, talvez agora. Por exemplo: por que o homem precisa de drogas? Será que a necessidade de alienação está, de alguma forma, embutida na nossa herança genética ou terá sido criada em função das pressões do meio? Terá a ciência, algum dia, capacidade de anular os efeitos das drogas e libertar, para sempre, o homem desse tipo de dependência? Podemos entregar às drogas alguns indivíduos em nome da teórica salvação dos demais? Será que não estamos usando os drogados como bois de piranha de nossa própria incompetência como seres humanos? Vale a pena desperdiçar alguns cérebros para salvar outros? Não criaríamos uma nova casta de humanos, o que levaria à segregação e ao preconceito, futuramente? Não é perigoso demarcar, como gado, alguns indivíduos porque são diferentes e necessitam, para viver, de drogas e alucinógenos? Enfim, não será o melhor dos mundos um mundo em que se liberem as drogas, mas pode ser o início de uma discussão que leve à solução do problema. Ou vamos continuar sendo hipócritas na defesa do combate violento aos traficantes, esquecendo-nos de que eles são alimentados pelas mesmas pessoas, ou seus familiares, ou seus amigos, ou seus conhecidos, que vociferam nos meios de comunicação contra a violência do tráfico? Há aspectos emblemáticos nessa luta contra o tráfico: que outro empreendimento humano não se abalaria com prejuízos de milhões de dólares, ao serem apreendidas toneladas de drogas em todo o mundo, e continuaria suas atividades, como se nada tivesse acontecido? Não parece uma luta sem fim, sem qualquer perspectiva de vitória?

Acredito, e faço disso minha crença inabalável, que as drogas são perniciosas, sim, incluindo entre elas o álcool e o fumo, e que seu uso e abuso têm trazido mais, muito mais problemas que benefícios; e mais: acredito que o homem não precisa delas para se tornar melhor, ou pior, pois são apenas instrumentos de fuga da realidade, sinal, muitas vezes, de covardia diante do ato de viver, que é, sim, complexo e difícil, mas deve ser encarado como a experiência única e vital do ser humano. Também não estou me debandando assim facilmente para as fileiras dos que defendem de forma demagógica e irresponsável o uso indiscriminado de drogas e sua descriminalização. Não me iludo e nem devem se iludir as pessoas menos desavisadas com slogans e mecanismos de pressão de minorias. Mas, a discussão séria do problema e, até mesmo, a possibilidade de concordar com a liberalização do uso das drogas devem fazer parte da pauta de qualquer sociedade democrática e preocupada realmente com a relação entre seus membros e seus mecanismos de defesa, com seu funcionamento mais lógico e mais republicano, com seu futuro, enfim. Sem hipocrisias.



(Escrevi esse artigo em 11.4.2005 e republico-o, por continuar pensando o que pensava e porque leio no jornal a campanha da PUC/SP para impedir que seus alunos fumem maconha no campus da Universidade).