setembro 03, 2017

POR QUE UM PIB RIDÍCULO É TÃO COMEMORADO?












Há algo de podre, de muito podre, na falsa euforia dos meios de comunicação ao anunciar o aumento de 0,2% do PIB, depois de meses e meses de recessão. 



Excluindo os fatos óbvios de que esse aumento não indica retomada do crescimento, mas apenas um respiro causado por fatores como diminuição das taxas de juros, injeção de bilhões do FGTS na economia (um golpe de mestre, que trouxe a milhares e milhares de pessoas a possibilidade de pagar pequenas dívidas e atender a uma demanda extremamente reprimida de consumo), além do próprio movimento natural do processo econômico, cuja corda, esticada quase ao limite, tende à exaustão e a uma reação normal ao mercado.



Considere-se ainda que esse PIB miserável de 0,2% não contempla os setores mais importantes e sustentáveis do atual modelo econômico, como indústria e serviços, mas foi alavancado pelo aumento do consumo das famílias (como o dinheiro das contas do FGTS, repetimos) e do crescimento do agronegócio, cuja importância para a economia geral do país é menor, em virtude de suas características de sazonalidade e de ser um setor voltado fortemente para o mercado externo, além de que os empregos gerados no campo e os lucros lá obtidos pouco atingem as cidades, onde se concentra a maioria absoluta da população brasileira.



Mas, voltemos à ideia de que há algo de podre nessa euforia, como se um evento milagroso estivesse prestes a acontecer e que, a partir de agora, todos começarão a encontrar empregos e serão felizes para sempre.



Para entendermos o que se passa realmente, é preciso voltar-se para a figura central da atual crise brasileira: Michel Temer. Sua preocupação não é com o Brasil nem com os brasileiros, mas com a sobrevivência de seu pífio governo, ou ainda, com a sua própria sobrevivência (e, por extensão, com a sobrevivência da quadrilha que ele comanda).



Acossado por denúncias gravíssimas, que podem levá-lo a passar seus últimos dias de vida na prisão, quando puder ser alcançado pela justiça, Temer só tem uma saída: continuar presidente. E mais: tentar reverter a extrema rejeição de sua figura e de seu governo incompetente junto à população, para, quem sabe, tentar uma reeleição e obter mais quatro anos de impunidade.



Para que isso tenha um mínimo de possibilidade de êxito, lança-se numa ofensiva que pode levar o País a uma situação pior do que aquela que produziu Fernando Henrique Cardoso, quando da compra dos congressistas para aprovarem a emenda da reeleição.



Naquela época, FHC ainda tinha algum prestígio e seu nome ainda despertava um mínimo de esperança, pelo seu passado e seu histórico de homem da “esquerda” (que, na verdade, ele nunca foi) e professor emérito, respeitado nos meios acadêmicos e até no exterior, principalmente depois da capitalização do êxito do Plano Real, devidamente apropriado por ele.



Desprovido de qualquer qualidade pessoal ou política, de qualquer histórico de respeitabilidade, por ter sido sempre um político medíocre, apesar de haver exercido vários postos na administração pública e de haver chegado à presidência do seu partido, Temer vai ter que jogar muito mais pesado do que FHC. E já provou que não tem (como nunca teve) escrúpulos nem medidas para se salvar (a si e à quadrilha que o acompanha): o episódio grotesco e humilhante para a democracia brasileira da compra de deputados, através da liberação das execráveis “emendas parlamentares”, para livrá-lo do primeiro pedido de licença para ser processado pelo STF dá bem a noção do que ele é e será capaz de fazer.



O seu plano de sobrevivência começa com a tentativa de impingir-nos a mentira da recuperação econômica. Como perdera prestígio junto aos órgãos de comunicação, diante das denúncias e da queda de popularidade (tem apenas 5% do apoio da população), só podemos desconfiar de que há algo de muito podre nessa euforia da mídia e de sua tentativa de levar o povo brasileiro a pensar que realmente o pior já passou e que estamos diante de um processo de retomada do desenvolvimento, com o ministro da fazenda a todo momento tendo espaço na televisão, a dar entrevistas que beiram o ridículo, de tal modo o discurso se mostra artificialmente otimista, prevendo um 2018 senão estupendo, mas de plena recuperação.



O segundo passo do plano articulado pelos estrategistas e marqueteiros do Temer consiste em tentar consolidar no exterior uma falsa imagem de estadista. A viagem à China, com resultados práticos risíveis (embora comemorados), diante do poderio econômico daquele país, é o exemplo acabado dessa tentativa de projetar no exterior sua imagem, para que essa imagem pouco a pouco se instale na mente dos brasileiros, recuperando parte do prestígio desgastado, e comece a ganhar corpo a ideia da reeleição. 



Sabe-se que, durante uma campanha eleitoral, muita coisa pode acontecer, como a manipulação da imagem de um político desconhecido ou desgastado se transformar naquilo que a imaginação de marqueteiros pagos a preço de ouro possa criar, para iludir o povo. Principalmente quando o partido do dito candidato tem um bom número de minutos na propaganda oficial pela televisão. Basta lembrar a campanha de João Dória à prefeitura de São Paulo (um exemplo entre muitos outros): um empresário pouco conhecido foi transformado no “João trabalhador”, como se ele fosse um novo Lula da Silva, a surgir das lutas periféricas da cidade, para o sucesso alcançado com o suor de seu trabalho. Aos marqueteiros de Dória só faltou dizer que ele saiu da periferia num pau-de-arara.



Tudo isso, é claro, tem um custo. FHC quebrou o país para se reeleger e deixou-o quebrado para seu sucessor, com altas taxas de desemprego e miserabilidade, que custaram a sobrevivência de milhares de pessoas.



Quanto vai custar, mais uma vez, ao povo os delírios de sobrevivência do Temer? Por enquanto, é impossível calcular, assim como é inútil tudo isso que dissemos ou viermos a dizer: diante da poderosa avalanche de mentiras que começarão a ser veiculadas a partir de agora, diante da poderosa máquina de compra de consciências já posta em movimento, só podemos afirmar que o preço dessa podridão toda será alto, muito mais alto do que pagamos pelos delírios de poder de FHC.



Só nos resta torcer para que tudo isso não dê certo, que o dito de Lincoln, de que não se pode enganar todo o povo todo o tempo, se cumpra, e deixar no ar a pergunta: quem vai nos livrar de Temer?






agosto 22, 2017

CHEGA DE CANALHICES! CHEGA DE CANALHAS! REFORMA POLÍTICA, E NÃO APENAS ELEITORAL






Discute-se em Brasília, no Congresso, uma reforma que estão chamando de “reforma política” (e a mídia está referendando o termo), mas que não passa de uma REFORMA ELEITORAL, ou seja, estão discutindo formas de eleição que facilitem a vida dos políticos, que permitam que eles sejam reeleitos e se perpetuem no poder. Assim, vêm à tona, termos tão absurdos quanto distantes de nossa realidade como “distritão”, distritão misto” e outras barbaridades. Tudo isso para enganar a nós, povo e eleitores. Não precisamos disso. Formas de eleição são o de menos. O que realmente precisamos é de uma REFORMA POLÍTICA, ou seja, de uma reforma que MUDE RADICALMENTE A MANEIRA DE SE FAZER POLÍTICA NESTE PAÍS.



Isso, infelizmente, não passa pela cabeça de nossos “ilustres” parlamentares, só preocupados com sua sobrevivência, com sua “boquinha” nos cargos que conquistaram e que pretendem continuar conquistando.



Por isso, republico aqui algumas ideias genéricas do que entendo por REFORMA POLÍTICA, escritas já há muitos anos e devidamente publicadas em meus blogs, entre milhares de outros textos. A essas ideias, acrescento apenas umas duas ou três: 1. Reafirmo a ideia de não reeleição para o mesmo cargo (que já consta abaixo); 2. A definitiva eliminação da figura do vice para cargos majoritários (se houver impedimento, por qualquer razão, do titular, que se convoquem, a qualquer tempo, novas eleições, para um mandato tampão); 3. Que se acabe definitivamente com qualquer tipo de suplência: os eleitos para cargos legislativos sejam proibidos de renunciar ou licenciar-se para ocupar quaisquer outros cargos e, se houver vacância definitiva, que assuma o cargo (definitivamente) o seguinte mais votado do mesmo partido, conforme determine a lei.



No mais, as ideias abaixo são teóricas, mas perfeitamente aplicáveis, se transformadas em processos e métodos operacionais definidos em lei. Leia, discuta, discorde à vontade, mas pense bem, antes de emitir qualquer opinião, por favor, mas eu acho que só com algo parecido é que poderemos acabar com as canalhices e com o canalhas, ou, pelo menos, diminuir bastante o seu campo de ação:



“A democracia é a única forma de governo capaz de dar algum tipo de dignidade ao ser humano. Volto ao tema, para falar, agora, de uma forma de democracia, de seus aspectos funcionais. Porque a democracia brasileira, nesse início de milênio, precisa com urgência de uma reforma política profunda, que jogue para escanteio definitivamente todos os aproveitadores do bem público. Uma reforma que privilegie a arte da política e não os trambiqueiros de plantão que se apresentam em pele de cordeiro a cada ciclo eleitoral, perpetuando-se no poder como abutres a comer o fígado da nação, que um dia não mais regenerará ante a fome insaciável desses urubus. Uma reforma política que acabe com os políticos. Essa a única solução. Não a reforma que está por aí, simples paliativo de um problema que se torna cada dia mais trágico. Uma reforma que, simplesmente, elimine o político profissional da sociedade brasileira ou, pelo menos, coloque-o num curral específico e controlável, onde todos possamos vê-lo. Somos todos nós, o povo, os nossos próprios políticos. Não precisamos de intermediários, mas de representantes. Assim, a minha ideia é a seguinte. Primeiro: partidos políticos. Devem ser células mínimas de produção ideológica. Explico: um partido político deverá ter um número limitado de cidadãos, talvez uns dois mil, no máximo, que trabalhem para definir o seu espectro ideológico, suas propostas de sociedade, seus planos de governo, enfim, para estabelecer claramente perante o povo o tipo de País que deseja, caso obtenha o poder nas urnas, seja no âmbito federal, estadual ou municipal. Essas ideias devem ser divulgadas periodicamente, através dos meios de comunicação, como é hoje o horário eleitoral gratuito. Com algumas diferenças fundamentais: a propaganda será do partido e não de seus membros; não pode haver divulgações de realizações, mas apenas de ideias e projetos; não será permitido o aparecimento de membros do partido, mas os programas serão apresentados por profissionais do mercado, neutros, portanto. E há mais um detalhe importante: esses membros permanentes do corpo partidário nunca poderão se candidatar a qualquer cargo. São apenas gestores partidários, homens e mulheres que tenham o ideal de construir uma proposta de Nação, mas não de se constituírem em representantes do povo. Também não poderão ocupar cargos oficiais nos governos de seus partidos, servindo apenas como uma espécie de conselho para os governantes, cuidando para que os planos traçados sejam postos em prática, de acordo com a carta do partido e suas propostas e planos. Terão prestígio, é claro, porque influenciarão decisivamente para o progresso do País e, por isso, deverão ser mantidos com bons salários por fundações arrecadadoras de fundos da sociedade, de forma clara e transparente, com suas contas sendo auditadas de acordo com a lei. Serão eles, na verdade, os únicos políticos profissionais em exercício permanente de sua atividade. 





Como, então, se darão as eleições? Cerca de um ano antes de cada eleição, os cidadãos interessados em concorrer a qualquer cargo devem inscrever-se num dos partidos existentes, de acordo com suas convicções e preferências. Essas inscrições podem ser individuais ou virem respaldadas por associações populares, sindicatos, organizações não governamentais, universidades etc. Um pretendente não pode, teoricamente, inscrever-se por mais de um partido. Se o fizer, mesmo escolhido como candidato de um partido, pode ter seu nome impugnado pela Justiça Eleitoral, a pedido ou não de qualquer entidade ou cidadão. Terminado o prazo de inscrição partidária, cada partido terá seis meses para analisar os currículos de cada pretendente e escolher aqueles que devem concorrer por sua bandeira, em convenções a serem definidas por lei. Escolhidos os representantes, os partidos devem inscrevê-los imediatamente na Justiça Eleitoral, para, durante os próximos três meses, correrem os prazos para impugnações etc. Começa, então, a corrida eleitoral: por três meses, os partidos apresentarão ao povo os seus candidatos, devidamente financiados por dinheiro público de acordo com a lei que defina os critérios de propaganda, gastos etc. Os candidatos serão cidadãos comuns, devidamente legalizados pela Justiça Eleitoral, os quais, durante os três meses de campanha, são licenciados de seus empregos e sustentados pelo partido e pelo financiamento público definido em lei. Se eleito, seus empregos serão congelados até a sua volta. Se não, têm o direito de retomar sua vida normal, com, por exemplo, um ano de garantia de emprego. O mesmo valendo para aqueles que cumprirem o mandato. Não há direito à reeleição para o mesmo cargo e a lei pode definir ainda se haverá permissão para reeleição a cargos de volta, isto é, um deputado federal voltar a disputar mandato estadual ou municipal. De qualquer forma, devem ser definidas regras que evitem a criação de vínculos permanentes com os eleitores ou que permitam que se perpetuem na política os mesmos de sempre, para que se possa cumprir um processo de renovação constante dos quadros partidários. Os mandatos deverão ser, para todos os cargos, de seis anos. Mecanismos legais de controle podem, no entanto, ser ativados por cidadãos descontentes com a atuação de seus representantes, a partir do terceiro ano de mandato, com a finalidade de cassação ou substituição do político que não estiver trabalhando a contento da comunidade. A fidelidade partidária, durante o cumprimento do mandato, deverá ser um princípio fundamental: qualquer eleito que mudar de partido ou se desvincular do partido por que foi eleito ou, mesmo, não estiver cumprindo com as diretrizes partidárias, poderá ser cassado e ter seus direitos políticos suspensos, de acordo com a lei. Por outro lado, terminadas as eleições, os cidadãos não-eleitos se desvinculam automaticamente do partido pelo qual concorreram, podendo, nas eleições seguintes, se candidatar por qualquer outro. O número de partidos políticos em funcionamento será livre, porém o partido que não alcançar determinada densidade eleitoral, por duas eleições consecutivas, terá seu registro cassado, só podendo voltar a se reorganizar após um determinado período de quarentena, sendo tudo isso definido em lei. As eleições serão realizadas todas na mesma data. Somente depois da apuração dos resultados das eleições majoritárias (governos municipais, estaduais e da República) os candidatos aos cargos de senadores, deputados federais e municipais e vereadores serão definidos, dando-se ao partido vencedor a maioria de 50% mais um dos componentes do Senado e das Câmaras Legislativas. Assegura-se, assim, a governabilidade dos municípios, dos estados e do País, sem necessidade de negociação de apoios políticos e conchavos de qualquer espécie. Não serão, portanto, permitidas alianças partidárias. Eu creio que, com tal reforma política, possamos acabar de vez com o balcão de negócios em que se transformou o trato da coisa pública pelos políticos profissionais. Reduzidos a poucos e à direção partidária, sem direito ao voto popular, embora influentes, poderão ser mais bem controlados pela sociedade. Como não pode haver reeleição para o mesmo cargo, os cidadãos terão de apresentar bons serviços para tentar permanecer por mais tempo na vida pública. Mesmo assim, garantir-se-á a renovação constante dos quadros políticos e partidários. E isso transformará cada cidadão em potencial candidato, sem a necessidade de alianças espúrias e negócios sujos para obter legenda e se perpetuar nos cargos. Essa a reforma política de meus sonhos. Infelizmente, só meus."


agosto 01, 2017

ARMADILHAS DA DEMOCRACIA




(Delacroix)




Existem três categorias de pessoas a quem o povo, ou seja, nós, os vira-latas, os que lutamos para viver, os que somos assalariados, não importa se ganhando salário mínimo ou 80 mil reais por mês, nós que vendemos nossa força de trabalho, não pode e não deve jamais dar o seu voto:



1. EMPRESÁRIOS, ou seja, patrões, donos de indústrias, donos do capital; não estou falando de pequeno ou médio empresário, não: estou me referindo aos que frequentam os salões acarpetados de organizações patronais como FIESP, FIEMG, FIERJ etc.; os que voam de jatinho para realizar seus negócios escusos ou não; os que arrotam caviar porque comem caviar; os que gastam numa garrafa de vinho o que você leva meses para ganhar; os que compram políticos, compram juízes, compram a nossa consciência e ainda tripudiam sobre nós...



POR QUE NÃO VOTAR EM EMPRESÁRIOS? VOCÊ ME PERGUNTA.



Afinal, são preparados; muitos se formam em escolas de administração no exterior; falam várias línguas; viajam pelo mundo todo; aparentam ter conhecimentos e cultura; são finos e educados e blá, blá, blá, blá... Podemos enumera um vasto rol de qualidades dessa gente...



Mesmo assim, não se pode votar nessa gente, por um motivo muito simples: ELES JÁ DETÊM O PODER ECONÔMICO E DAR-LHE O PODER POLÍTICO É SUCÍDIO DE UM POVO, DE UMA NAÇÃO!



2. JUÍZES, DESEMBARGADORES ETC., o povo do judiciário, ou seja, essa gente que ganha de salário mensal o que você leva meses e meses de trabalho; essa gente que, sim, parece trabalhar muito, tem mil processos para julgar, mas que tem mil mordomias, como casa, automóveis, funcionários à disposição, estudo para os filhos etc. etc. etc.; essa gente que tem o poder de decidir se o ladrão de galinha vai para a cadeia mais sórdida e o empresário rico será ou não condenado e, se condenado, vai cumprir pena e, se cumprir pena, será em regime fechado ou em prisão domiciliar, em sua casa com piscina aquecida, quadra de esportes, churrasqueira e mil outras mordomias; essa gente que tem o viés de julgar, de mandar cumprir e sua palavra é a lei, às vezes até ao revés da lei.



POR QUE NÃO VOTAR EM JUÍZES, DESEMBARGADORES ETC. ? VOCÊ ME PERGUNTA.



Afinal, são conhecedores da lei e, portanto, deveriam fazê-la cumprir, já que somos todos iguais perante ela; são também cultos, estudiosos, viajados, conhecedores dos meandros da burocracia e da alma humana...



Mesmo assim, não se pode votar nessa gente, por um motivo muito simples: ELES JÁ DETÊM O PODER DO MANDO, DO CONHECIMENTO DO MANDO, E DAR-LHES PODER POLÍTICO É COLOCAR O PESCOÇO DO POVO NA FORCA, JÁ QUE, PERANTE A LEI, TODOS SÃO IGUAIS, MAS PERANTE UM JULGADOR, ALGUNS SÃO MAIS IGUAIS.



3. RELIGIOSOS, seja de qualquer religião ou seita; essa gente que tem o poder de seduzir, em nome de um deus; que tem o poder de orientar as pessoas – sempre em nome de um deus, de um profeta, de um livro sagrado – sobre o que fazer de suas vidas, se pode ir ao cinema, se pode ver televisão, se pode se vestir assim ou assado; essa gente que ganha milhões vendendo a palavra de seu deus; essa gente que diz que é pobre, mas em geral mora em mansões, possui haras, bens inumeráveis, sempre à custa do pecado dos fiéis; essa gente que não titubeia em condenar os pecados alheios, em mandar para o inferno todos aqueles que não rezam pela sua cartilha, ou melhor, pela sua doutrina; essa gente que parece tão bondosa, que faz tanta caridade – com o dinheiro alheio...



POR QUE NÃO VOTAR EM RELIGIOSOS? VOCÊ ME PERGUNTA.



Afinal, são pessoas bondosas, crentes em deus, seguidores de princípios etc. etc. etc., além de, em geral, serem bons oradores, o que demonstra que conhecem a vida, as pessoas; são, em geral, guias espirituais bastante sensatos etc. etc. etc.



Mesmo assim, não se pode votar nessa gente por um motivo muito simples: ELES JÁ SE ARVORAM O PODER DIVINO E JÁ MANDAM NA VIDA DAS PESSOAS DE MIL FORMAS; SE LHES DERMOS O PODER POLÍTICO, TRANFORMARÃO A VIDA DE QUEM NÃO SEGUIR A SUA DOUTRINA NUM INFERNO, JÁ QUE SE ACHAM EMISSÁRIOS DE SEU DEUS. UM REGIME TEOCRÁTICO É MIL VEZES PIOR DO QUE UMA DITADURA LEIGA, POR PIOR QUE SEJA QUALQUER DITADURA.




A democracia é um sistema de governo imperfeito, cheio de contradições, complexo e nem sempre totalmente confiável, mas é o único sistema, até agora, que nos permite respirar um pouco de liberdade, de igualdade, de sonhar com melhores perspectivas de vida. Jogar a democracia nas mãos dessa gente é destruí-la e voltar ao estado de barbárie de governos autoritários e contrários ao povo. Não vote nessa gente. Mesmo que se arrependa de seu voto, por dá-lo a pessoas desqualificadas, que não seja esse arrependimento por haver votado em pessoas que, aparentemente qualificadas, só querem a destruição do estado democrático.

maio 19, 2017

MORO, LAVA JATO E O PÓS-TEMER







Só não vê quem não quer: Moro é juiz completamente alucinado por uma ideia fixa, a de condenar Lula. Suas sentenças não têm pé nem cabeça, ou existe alguma lógica (porque juridicamente nem é possível determinar) que um juiz condene alguém (o doleiro Youssef) a mais de CEM ANOS DE PRISÃO e, algum tempo depois, transforme essa pena em TRÊS ANOS DE DETENÇÃO DOMICILIAR? Ele faz do ato de julgar, portanto, atos completamente discricionários, de acordo com suas CONVICÇÕES e não de acordo a lei. Além disso, é chantagista: prende pretensos acusados e pretensos criminosos e só os solta depois de meses e meses em que, através dessa prisão, "convence-os" a fazer delação premiada. Ou seja, ou fala ou mofa na cadeia. Não é, portanto, uma pessoa confiável, nesse aspecto. Além disso, tem em sua biografia antecedentes de apoio e filiação paterna ao PSDB, com cujos líderes sempre conviveu. Não é, portanto, um juiz isento. Seu curso nos E. U. A. deu-lhe não só instrumentos jurídicos de rastreamento do dinheiro desviado (a que se deve, em parte, o sucesso da operação que ele comanda), como sedimentou seu lado "de direita" moralista e justiceiro, que esconde um imenso anseio por se tornar celebridade. Se aqui houvesse uma justiça séria, já teria sido afastado há muito tempo do comando de uma operação tão importante para o País, mas que está-se desviando de seus rumos, pela ideia fixa do Moro. Tanto há desconfiança com relação a esse juiz, que as últimas delações, que envolvem agora o governo do golpista Temer e o prócer máximo do PSDB, Aécio Neves, foram realizadas diretamente para a Procuradoria Geral da República, embora ainda no âmbito da Lava Jato.


Quanto à saída para o atual imbróglio, provocado pela suspeição de toda a cúpula de um governo que nunca teve legitimidade, talvez a mais sensata pudesse ser um acordo que levasse à Presidência da República a presidenta do Supremo Tribunal Federal, com o compromisso de levar o País a uma estabilidade política e jurídica até as eleições diretas de 2018.


Esse governo teria tempo suficiente para estabilizar a economia, fazer uma minirreforma política, acalmar os ânimos, para que o processo de radicalização atual não se aprofunde e para que os ódios se transformem em bom senso. Se os atuais jogadores do tabuleiro político sobreviverem, poderão ser eles os protagonistas das eleições de 2018, e estou falando aqui, especificamente, de pessoas como Lula – que tenha um julgamento justo, sem as artimanhas de um juizeco cheio de pinimbas e não confiável – e outros que possam surgir ou já estão por aí, tentando sobreviver.


Se esta não for a saída, a segunda possibilidade é realmente aprovar uma PEC que permita eleições diretas e gerais (para presidente, Câmara e Senado) em quatro ou seis meses, posse imediata de um novo governo escolhido pelo povo, com um mandato de quatro anos (com a possibilidade de reeleição) ou de seis anos (sem reeleição, nem para o legislativo). Na atual conjuntura, o risco é o surgimento de algum aproveitador – que os há muitos por aí, só aguardando uma oportunidade – auto intitulado salvador da pátria, que jogue o País num caminho de extremismos e radicalismos ainda piores do que os que vivemos atualmente.


O que não se pode admitir é deixar o País à deriva, nas mãos dessa camarilha golpista, incompetente e corrupta.


maio 15, 2017

ARACY DE ALMEIDA









Quase fui às lágrimas ao assistir, na televisão, a um documentário sobre Aracy de Almeida. A nossa grande dama do samba. Passaram-me tantas coisas na cabeça. Quase não tenho, aqui, nestas poucas linhas, a capacidade de dizer tudo o que penso a respeito de uma mulher e cantora que teve seus dias de glória – pouca, pelo talento que era – nos anos trinta e cinquenta do século passado, um século tão distante deste mundo cheio de novidades e tecnologias.


Por que lembrar Aracy de Almeida? Por que escrever sobre Aracy de Almeida?


Nem eu mesmo sei por quê. Apenas quero dizer que ela foi uma das vozes mais fantásticas do samba brasileiro. Samba? Será que ainda há gente que goste de samba? Ou aquele tempo em que se dizia que “quem não gosta de samba / bom sujeito não é / é ruim da cabeça / ou doente do pé” já morreu, já era, é coisa de “gente antiga”, de gente como Chico Buarque de Holanda?


Pobre país o meu, o seu, o nosso! Esquecido! Nem se lembra mais de quanto houve de beleza no batuque de um samba autêntico. De um samba bem sincopado na voz negra de negros que subiam e desciam morros de favela na cadência de uma batida de um surdo, na malemolência de uma mulata. Mulata? Cadê o Sargenteli? Cadê a Elza Soares? Cadê o Martinho da Vila? E, acima de tudo, cadê Noel Rosa?


E voltamos para a Aracy. Aracy e Noel. Um não existia sem a outra. Aracy, a que deu alma àquilo que Noel escreveu nos anos trinta. Ou antes. Aracy, a voz anasalada que canta como se cantar não fosse nada mais que uma coisa que sai assim da garganta, como o canto do sabiá e do pintassilgo. 


Os argentinos dizem que Gardel canta cada dia mejor. Os estadunidenses reconhecem em Lady Day a voz do jazz. Os franceses entronizam Piaf. O mundo reconhece Callas. As vozes do século XX passam por Sinatra, Schippa, Elvis, sei lá, tantos, nomes que ecoam, que fizeram do canto a razão de viver e morrer. 



E nós? Tivemos Orlando Silva, Francisco Alves e Sílvio Caldas. Para fazer frente a Gardel. Para fazer frente a Sinatra. E tivemos Maysa e Elizete. E tivemos Aracy. Aracy de Almeida, aquela que foi palhaça do idiota do Sílvio Santos, por um punhado de dinheiro que lhe permitisse viver os seus últimos anos com um pouco da dignidade financeira que deixava nos programas de que participava.


Sempre odiei Sílvio Santos. E odiei-o mais ainda, quando o vi transformar numa ridícula palhaça de auditório uma das mais importantes vozes do samba desse país de coxinhas que não tem memória, que não sabe reconhecer os talentos que teve e tem, que não admira quem vê no espelho que lhe mostra um país de vira-latas. 


Não, não sou “nacionalista”. Sou até um tanto, um tanto não, mas muito, muito internacionalista. Não gosto de fronteiras. Mas defendo a cultura de um povo. E sei que a cultura de uma etnia, de uma “nação”, não está nos limites geográficos traçados no mapa, mas na construção lenta e gradual de suas tradições.



Aracy de Almeida, a Araca para os amigos, meus caros e poucos leitores destas linhas, foi a Billie Holliday do samba, se soubéssemos reconhecer uma voz diferente, uma voz extraordinária; se soubéssemos reconhecer que Noel Rosa e o samba, que o Pixinguinha, que Lamartine... que tantos e tantos que escreveram versos e compuseram músicas para a batida do samba são os nossos maiores patrimônios culturais e que eles – os nossos sambistas – são um traço dos mais importantes de nossa cultura e de nossa identidade, como povo, como nação, como gente.



maio 11, 2017

LULA, FASCISMOS, XENOFOBIA E CRISE HUMANITÁRIA






Comecemos pelo ex-presidente Lula. Ouço e leio por aí que Lula fez um grande governo “apenas” no aspecto econômico e social. Criou um modelo de desenvolvimento que tirou da miséria mais de 30 milhões de brasileiros, mas não fez as reformas que o Estado precisava, nas áreas da política, da administração e até mesmo da economia. Foi, nesse aspecto, um conservador. Concordo em parte. Realmente o governo Lula e, depois, o primeiro governo Dilma, não conseguiram tirar o Brasil de certos atrasos institucionais, com reformas políticas e outras que destravassem os mecanismos do desenvolvimento de uma vez por todas. Isso, porém, não pode ser debitado à vontade dos ex-presidentes: Lula, em seus dois mandatos, teve sempre um Congresso conservador, golpista e manipulado por interesses muito diferentes de qualquer reforma que se pudesse propor. Nenhuma proposta reformista foi aprovada ou sequer apreciada pelos “ilustres” deputados e senadores. E não foram poucas as tentativas. Nem reforma política, nem reforma fiscal, nem qualquer lei que modificasse estatutos rígidos do conservadorismo que marcou o Congresso. E isso se repetiu com Dilma Rousseff e, no começo do seu segundo mandato, se agravou de tal forma a ojeriza do conservadorismo a qualquer possibilidade de reforma, que – sabemos bem – acabou por prevalecer o golpismo que de implícito se tornou explícito. Portanto, dizer que Lula e Dilma não reformaram o Estado e não o prepararam para o salto necessário para o desenvolvimento é só meia verdade. Não o fizeram porque não puderam.



O eleitorado brasileiro elegeu Lula, mas não elegeu o Partido dos Trabalhadores. O PT sempre assustou a burguesia e teve contra si, desde a sua fundação, uma notável má vontade e, posteriormente, uma explícita campanha das forças conservadoras, através da mídia. Os principais órgãos da mídia brasileira estão nas mãos de poucos e esses poucos são os mais legítimos representantes da oligarquia e do conservadorismo de que se tem notícia por essas plagas. Não conseguiu essa mídia destruir a imagem de Lula, tentativa quase levada a cabo durante a campanha presidencial em que Collor de Mello só saiu vencedor, porque ocorreu uma das mais escandalosas manipulações da Rede Globo de televisão, ao editar o último debate entre os dois contendores. O azar da direita, nessas eleições, foi que o governo Collor naufragou em escândalos e em medidas que não agradaram nem ao povo que o elegeu enganado, nem a seus eleitores maiores, a oligarquia conservadora. Pôde, então, o ex-presidente Lula ressurgir mais tarde, com uma imagem agora trabalhada para ser devidamente deglutida pelo eleitorado mais conservador e, até certo ponto, aceita pela oligarquia. Ganhou a presidência, mas não ganhou maioria no Congresso, o que o levou a fazer alianças, muitas vezes criticadas, com o único partido que lhe podia garantir alguma governabilidade, o PMDB, que, na verdade, nunca foi um partido político strictu sensu, mas uma frente agregadora do que de pior há na nossa política, o adesismo, o governismo a qualquer custo e, além disso, a sua ala mais podre, a dos corruptos. Essa a razão, portanto, de não poder aprovar no Congresso nada que pudesse vir a tornar-se empecilho para a oligarquia retomar, mais tarde, o poder, o que ela soube fazer através de um golpe muito bem articulado contra a presidenta Dilma Rousseff.



No momento atual, temos um arremedo de democracia, com um governo de falsas expectativas liderado por um fantoche da burguesia e das classes oligárquicas, a FIESP e seus agregados de todos os estados à frente. Michel Temer faz aquilo que está sendo articulado nos luxuosos escritórios da Avenida Paulista, no prédio simbolicamente piramidal da FIESP. Suas propostas “salvacionistas” têm apenas o objetivo de pagar a conta do golpe, através de reformas que prejudiquem os trabalhadores brasileiros e, consequentemente, fortaleçam a posição das oligarquias, que querem retomar as rédeas do poder e tirar o atraso dos tempos dos governos petistas, quando a única opção para manter-se foi através da corrupção de altos funcionários públicos, algo obtido, no entanto, principalmente por um grupo de empreiteiras, o que não redundou exatamente em benefício das indústrias e do agronegócio, os que mandam hoje no País e efetivamente o governam.



Para se sustentar, esse arremedo de governo conta com uma campanha – que se iniciou na preparação do golpe – muito bem articulada de setores produtivos com a mídia – sempre ela! – que impõe padrões de pensamento e de convencimento que eu chamo de métodos fascistas. 



É preciso ficar bem claro o que eu chamo de fascismo nesse momento delicado em que vivemos. O fascismo não é um partido político, nem mesmo um movimento ou uma ideologia bem estruturada e estabelecida em compêndios e teses. Fascismo, como eu o percebo, é um estado de espírito de uma oligarquia que vê o povo como escravo de um pensamento único que o mantém sob o jugo dessa classe, devidamente doutrinado por igrejas, associações, mídia, partidos políticos, escolas, academias, livros e tudo o mais que se possa utilizar para levar essa doutrinação às pessoas, de tal modo que as levem a aceitar a escravidão como uma benesse e a obediência ao estado – não necessariamente totalitário, mas totalitarista – como única forma de obter uma vida melhor.



Neste momento, o que vemos é a exata afirmação dessas ideias fascistas: a reforma da previdência, por exemplo, é servida ao povo como uma benesse, como uma salvação das futuras aposentadorias, quando, na verdade, é só uma forma de obrigar o povo a trabalhar mais, por mais tempo, sem a devida contrapartida de contribuição dos empregadores e do Estado, que formam a base da previdência no Brasil. E assim são e serão com todas as demais reformas, projetos e programas que vierem a ser implantados por esses fascistas disfarçados em salvadores da pátria. Criam-se novas lideranças – com ideias mais velhas que a origem das oligarquias – como o atual prefeito de São Paulo, um dos mais evidentes defensores desse fascismo disfarçado: sua cultura não ultrapassa a leitura de meia dúzia de livros de autoajuda, mas a biografia elaborada por seus marqueteiros para sua campanha política só faltou dizer que ele, um empresário de sucesso, nasceu na Zona Leste de São Paulo e veio para o centro num pau de arara, para construir com suor de seu rosto a fortuna que hoje o sustenta, e depois migrar para a rica Zona Sul, símbolo de homem honesto e trabalhador, o “João trabalhador”, do refrão repetido nas propagandas eleitorais. Um embuste que custou milhões de reais e vai custar ao povo paulistano e, por decorrência, ao povo brasileiro, mais uma centena de direitos jogados no ralo pela classe que esse indivíduo representa.



Há fascismo quando um Estado de direito é atropelado por firulas jurídicas que tiram da presidência uma líder legitimamente eleita, para colocar em seu lugar um preposto do atraso e do conservadorismo, sob as barbas devidamente aparadas por sabe-se lá quantos milhões de dólares de um Congresso corrupto e de um Supremo Tribunal Federal conservador, nitidamente predisposto a representar a Justiça que fecha os olhos para as leis constitucionais que devia defender, não se sabe exatamente se motivado por interesses escusos ou por sua formação conservadora e elitista. Há fascismo quando tribunais de justiça julgam réus em processos políticos sob o argumento de que não há provas, mas há inequívocas convicções dos julgadores e dos manipuladores de processos. Há fascismo quando prisões de suspeitos se prolongam por meses e meses a fio, sem julgamento, apenas para que esses suspeitos delatem os crimes cometidos por seus pares, numa forma de tortura quase imperceptível, mas que não deixa de ser tortura. Há fascismo quando toda uma sociedade é impelida a ideias xenófobas contra retirantes e imigrantes. Há fascismo quando se atiça em redes sociais o ódio a parcelas desassistidas da população, apenas por serem pobres ou dependentes de drogas, em campanhas higienistas e elitistas. Há fascismo quando se estabelece uma situação de quase impunidade a quem divulga ideias sexistas, machistas, homofóbicas e racistas, levando ao aumento do assassinato de mulheres, gays, negros e pobres em todas as camadas da sociedade, numa espécie de limpeza étnica e social. Há fascismo quando a política se subordina a ideias fundamentalistas de líderes religiosos eleitos como novos próceres do conservadorismo e da intolerância. Enfim, há sim, um forte cheiro de fascismo no ar, com esse governo que está aí, que não foi legitimamente eleito e que engana o povo e divulga ideias que o leva a louvar a escravidão e a aceitar como benesse aquilo que o prejudica e o torna cada vez mais estúpido e escravizado.



Um fascismo xenófobo que não é privilégio do Brasil, mas que se estende pelo mundo, através de governos conservadores ou claramente fascistas, como de Donald Trump, nos Estados Unidos. Um tipo de pensamento que se espalha como praga pelos países periféricos, chegando até mesmo a assustar a velha e escolada Europa, mergulhada em contradições entre a xenofobia de alguns países e o pan-europeíssimo e o internacionalismo de outros, na dúvida entre aceitar – sob aplausos de alguns e o ódio de tantos – levas e levas de migrantes vindos de países onde o totalitarismo ou as lutas religiosas promovem lutas fratricidas e massacres genocidas ou a expulsá-los como renegados. No Sudão, no Norte do Brasil ou na fronteira do México com os Estados Unidos, na Ásia, na Europa, em toda parte milhões de seres humanos tornam-se apátridas e miseráveis, graças à falta de humanidade de governos que se dizem democráticos, que se dizem humanistas, mas que fecham suas fronteiras e seus recursos a pessoas que só desejam um lugar para viver em paz. 



Não há saída para essa estupenda crise humanitária que se vive hoje, que não passe por uma completa e absoluta mudança de pensamento, de paradigma, que leve os países a adotarem, de forma total, o internacionalismo, abrindo sem restrições suas fronteiras para todos os seres humanos que quiserem se reestabelecer em lugares distantes de sua origem, sejam por quaisquer motivos, de perseguição, de fome, de falta de perspectiva. A readequação e aceitação de levas de migrantes possivelmente concentradas, no início, em poucos países, mas depois, ao longo do tempo, por movimentos voluntários a reassentar-se em muitos outros, será um processo doloroso, complexo, que poderá desestruturar a economia do mundo, provocando talvez uma grande confusão, uma nova babel, para usar um manjado símbolo bíblico, mas será a única saída para uma nova ordem econômica, social e humana. Os governos totalitários e perseguidores dos direitos fundamentais do ser humano se extinguirão progressivamente, por falta do oxigênio que os alimenta, os seres humanos escravizados.



Uma utopia? 



Talvez. Mas sem utopias, sem sonhos, sem esperança não há saída para o mundo, não há saída para a crise de estupidez, xenofobia, racismo, sexismo, homofobia e tantas outras “doenças” de que sofre hoje a raça humana. Talvez, com a incrível aproximação de tantas etnias, de tantos costumes diferentes, de tantos rostos e feições diferentes, depois do estranhamento, depois de se acostumarem uns com os outros, não sobrevenha um período de respeito mútuo? Quem sabe não ganhe supremacia um pensamento de que somos todos da mesma raça, e só podemos sobreviver se respeitarmos a vida como bem supremo, se nos respeitarmos uns aos outros e se respeitarmos a casa, o mundo, em que vivemos?

fevereiro 23, 2017

COMO A MÍDIA MENTE E MANIPULA






Quando digo que a mídia mente até quando fala a verdade, isso não é uma frase retórica. É a verdade. É o que acontece. 

Vou ilustrar o que eu afirmo com um exemplo de notícia na área científica, para não estar contaminada com os meandros melífluos da política e da economia, campo em que são hábeis manipuladores.

Ontem, 22/2/2017, o Jornal Nacional da Rede Globo noticiou a descoberta de sete exoplanetas (planetas fora do sistema solar) com possibilidade de existência de vida. 

Não vou detalhar o conceito de vida que os cientistas utilizam nesse contexto, mas resumidamente é seguinte: quando dizem que há “possibilidade” de vida num lugar remoto, como esses planetas, estão-se referindo à possibilidade, em virtude de uma série de outras possibilidades, da existência de água e, por isso, da “possibilidade” de existência de micro-organismos. Nada de civilizações avançadas, nada de ETs, como a menção da palavra “vida” em outros planetas geralmente, carrega, associada a outras bobagens pseudocientíficas.

E o JN termina, “ingenuamente”, essa notícia, afirmando que essa descoberta abre perspectivas de sobrevivência futura para a raça humana. Ou seja, que no futuro, poderíamos todos viver felizes para sempre num planeta longínquo, quando nossas reservas aqui se esgotarem etc. etc. etc.

Tais bobagens são ditas assim, como se fossem verdades absolutas, quando a realidade científica consiste em fatos extremamente diferentes. Vejamos: esses exoplanetas estão a 40 mil anos luz da Terra. Você pode pensar: o que isso significa? Nada, não é? Pois pense: a luz viaja a 300.000 quilômetros por segundo. Para atingir esses planetas, um raio de luz precisaria viajar durante 40 mil anos. Quarenta mil anos! Não há qualquer perspectiva de que, pelo menos nos próximos mil anos, ou seja, no ano 3017, tenhamos a mínima possibilidade de haver desenvolvido qualquer veículo que viaje a tal velocidade. Mesmo que isso venha a acontecer, seria de tal monta o seu custo, que o tornaria inviável para praticamente todos os homens, exceto uma mínima e selecionadíssima tripulação. Mas, repito: isso é, por enquanto – eu ouso afirmar, – algo fora de cogitação, uma quase impossibilidade científica, mesmo que passem dez mil anos.

Por que esses redatores do JN escrevem tais bobagens, repetidas depois, dezenas e centenas de vezes por outros canais, para incendiar a imaginação das pessoas, com essa mensagem extremamente falsificada para incutir um certo grau de otimismo?

Ora, nada mais passiva do que uma comunidade otimista, que confia no futuro, que vê como possível uma saída para a humanidade. Assim, devidamente anestesiadas, as pessoas estão preparadas para ouvir que o Banco Central baixou os juros tantos por cento e que isso se constitui na menor taxa dos últimos dois anos. Ou seja, uma verdade – a diminuição da taxa de juros – travestida ou incluída numa grande mentira devidamente preparadora de otimismo, para, de forma sub-reptícia, levar o telespectador, os milhões de telespectadores, a pensar que a crise, enfim, começa a ser domada e que o País vai melhorar.

Esse é um simples exemplo de uma prática corriqueira: dizer mentiras para esconder a verdade ou dizer verdades de tal forma manipuladas que, no contexto devidamente preparado para fazer as pessoas acreditarem em qualquer coisa, impor “suas verdades”, ou seja, as mentiras e os vieses ideológicos que desejam implantar na cabeça das pessoas.

Teoria da conspiração? Antes fosse. Mas isso acontece desde o século XIX, desde o nascimento da grande imprensa. Leia Balzac, As Ilusões Perdidas. Acompanhe o desenvolvimento das grandes corporações de mídia, seu poder de manipular, de destruir reputações, de construir falsas expectativas, de influir no destino de todas as nações que possuem sistemas avançados de transmissão de notícias, sejam Estados Unidos, sejam a França, Alemanha ou Inglaterra.

O sistema mundial de mídia está corrompido. Corrompido pela manipulação, pela mentira, pelo compromisso com os ideais corporativistas, econômicos, ideológicos e políticos de seus donos. Não há imprensa livre. Há liberdade de imprensa. Que são coisas diferentes. Os governos que ousam contrariar a grande mídia de seu país são imediatamente taxados de antidemocráticos e caem em desgraça. Não importa se o governo é de direita ou de esquerda, embora, em geral, sejam os governos de esquerda aqueles que mais se incomodam com as mentiras da mídia. 

Estamos vivendo um momento interessante desse embate, justamente nos Estados Unidos, onde um governo de extrema direita entra em choque com a mídia, com toda a mídia, do país. Vamos aguardar os acontecimentos e ver no que isso vai dar, pois é, talvez, a primeira vez em que um governo de direita de uma grande nação capitalista – que se gaba de ter total liberdade de imprensa - se revolta contra as tais manipulações da mídia. 

Então, quando ler, ouvir, acompanhar uma notícia, qualquer notícia, principalmente notícias que tenham a ver com a sua vida, que podem mudar alguma coisa no país, no estado ou na cidade em que você vive, preste muita atenção, leia e ouça com cuidado, não acredite de cara, busque outras informações, procure verificar a lógica dos fatos, desconfie. Desconfie sempre. É o melhor meio de não se tornar manipulado pela corja de mentirosos que comanda as agências distribuidoras de notícias, as emissoras de rádio e de televisão, as redações de jornais e revistas e até mesmo a internet.