dezembro 19, 2016

SÃO PAULO: NOVO PREFEITO, IDEIAS VELHAS CAIADAS DE NOVO





Muitos hão de se lembrar do Sujismundo, que deu vida à campanha do governo federal (ainda na época da ditadura) – “povo civilizado é povo limpo”, nos anos 70. Muitos interpretaram essa campanha invertendo a frase – “povo limpo é povo civilizado”, para dar a conotação mais precisa do que estava nas intenções dos ditadores, ou seja, só é civilizado quem é limpo. Ou algo assim.

Pois bem, ressuscitamos o Sujismundo para falar do prefeito eleito de São Paulo. Sua primeira grande ação – sem dúvida, de marketing – será “limpar” a cidade, que ele já declarou que está “imunda”. Começando pela Avenida Nove de Julho, com limpeza de calçadas, muros, canteiros centrais etc. E que essa operação deverá ser estendida a toda a cidade, através das subprefeituras.

Tirando o marketing, sem dúvida ninguém pode ser contra a que a cidade se torne um pouco mais “civilizada”, que é o que está por debaixo da ideia do prefeito eleito. Civilização significando limpeza. Ou, se formos um pouco mais ao fundo, higienização.

O termo é forte? Não, não é. Para a cabeça de pessoas como o prefeito eleito, “povo limpo é povo civilizado”. Ou seja: não importa que a cidade tenha carências profundas de habitação, saneamento básico, transporte, mobilidade urbana, tratamento do lixo, desfavelização e, principalmente, educação. Tudo isso pode ficar em segundo plano, se tivermos melhores calçadas, jardins e praças e parques bem cuidados, guias pintadas, muros sem pichações etc.

Eu disse, no título desse artigo, ideias velhas caiadas de novo. Sabe por quê? Porque tudo isso me lembra um outro prefeito, que fazia muito bem esse marketing: Jânio Quadros. E o que deixou o ilustre ex-presidente para a cidade? Que eu me lembre, a descoberta dos arcos do Bixiga, ali na Avenida 23 de Maio. Além, é claro, das encrencas que ele arrumava, multando pessoalmente pessoas e empresas que ele achasse que deviam ser multadas, enquanto se dirigia de sua casa para a prefeitura, fato que alimentava uma certa imprensa. E alimentava o folclore de que ele se nutria para manter a ideia de homem enérgico e realizador.

Será que o prefeito eleito de São Paulo, ao assumir a 1º de janeiro, começará também a percorrer a cidade para implicar com comerciantes, bater boca com feirantes e ambulantes, para mandar retirar os “noias” das sarjetas e expulsar os fiscais corruptos, que levam propina para aprovar qualquer coisa? Poderá, assim, ressuscitar não só Sujismundo, mas também a vassoura do Jânio.


Como dizia o Bruxo de Cosme Velho, “ao cabo, só existem ideias velhas caiadas de novo”.

dezembro 14, 2016

GOLPISMO, CORRUPÇÃO E INCOMPETÊNCIA








Os três pilares do atual (des)desgoverno liderado pelo Temer: golpismo, corrupção e incompetência.

Golpismo, porque é um governo ilegítimo, conforme já disse e repetiu mil vezes, com mil argumentos.

Corrupção, porque, para pagar o preço do golpe, que foi alto, precisa assaltar os cofres públicos. Também esse tópico está um tanto esgotado.

Incompetência.

Por que é um (des)governo incompetente?

Já dissemos e repetimos aqui: o golpe foi longamente tramado nos escritórios acarpetados dos patrões, liderados pela FIESP, que meteram o pé no freio e pararam com todos os investimentos. Paralisaram a economia, para derrubar a presidenta. Golpe concluído, com sucesso, esperava-se que a economia voltasse a crescer. Mas, passados seis meses, nada. Absolutamente nada. Quem está paralisado é esse governo golpista e corrupto.

Expliquemos três coisinhas básicas do sistema capitalista: 1. a base da pirâmide é formada por 2 ou 3 por cento dos poderosos, dos que mandam; depois, 30 ou 40 por cento de classe média, que usufrui do sistema e o mantém, sendo, ao mesmo tempo, o alimentador e amortecedor desse sistema; alimentador, porque influi no voto do povão e amortecedor porque, ganhando bons salários, sustenta uma boa parte desse povão, mantendo-o “em seu lugar”, isto é, nos subempregos ligados a classe média (copeiros, cozinheiros, cabeleireiros etc. etc. etc.) e nos empregos dos ricos, nas fábricas, ou seja, os 50 ou 60 por cento que constituem a base da pirâmide, aquela que não tem direito a nada; 2. para esse sistema funcionar, a economia precisa crescer, não necessariamente a grandes índices, mas um crescimento razoavelmente sustentável; 3. o sistema capitalista vive de crises periódicas, é normal e assimilável, todos já estão acostumados e, quando vem a crise, é só apertar bem o cinto dos mais pobres, com desemprego e outras medidas e um pouco da classe média, só um pouco, porque ela tem poder maior de reclamar.

Os governos anteriores, que tinham preocupação social, não mudaram o sistema, apenas o aperfeiçoaram, tirando da pobreza absoluta milhões de pessoas e dando poder de compra à classe trabalhadora. Isso se chama distribuição de renda. Coisa que o sistema capitalista odeia. O que, em parte, justificou o golpe.

Dito isso, voltemos à incompetência desse (des)governo: os golpistas escolheram um momento complicado para pisar no freio da economia, já que estávamos no meio de uma das crises do capitalismo, uma crise bastante forte, em termos internacionais. O Brasil até que, com uma boa reserva de capital, resistia bravamente à crise. Mas, quando os idiotas de nossos capitalistas resolveram retirar todos os investimentos e começaram a despedir funcionários, o País mergulhou profundamente na recessão, de forma bem mais acentuada do que esperavam os idiotas. E agora, o pior: tomado o poder, a incompetência desse (des)governo golpista e corrupto não consegue adotar medidas de curto prazo, para tirar o País do atoleiro em que eles nos meteram, não os governos anteriores, mas eles mesmos, os que estão por trás do golpe, os que financiaram o golpe.

Até agora, só souberam pensar em medidas de longo prazo, que poderão destruir o País no futuro e destruir o já depauperado sistema de proteção social duramente conquistado, como a tal PEC 55, que congela por 20 anos qualquer ação desenvolvimentista de futuros governos e a propalada reforma da previdência.

Administrar a economia no dia a dia, no momento, e incrementar medidas que reponham o País no caminho de saída do atoleiro, nada. Absolutamente nada. E se vierem, pode-se ter certeza de que serão medidas inúteis, mal alinhavadas, sem nenhum poder de fogo imediato contra a recessão, o desemprego e a depauperação das classes sociais mais baixas e até mesmo da famigerada classe média.

Portanto, só há uma saída: a imediata renúncia do atual invasor do Palácio do Planalto, com convocação de eleições diretas para presidente, deputados e senadores, com cláusula de exclusão de todos os atuais ocupantes de cargos públicos de concorrerem.


Porque o que é ruim, ou melhor, péssimo, tem todo o potencial para piorar. E muito.

dezembro 06, 2016

A HORA DO PESADELO 1: DEPOIS DO GOLPE CONSTITUCIONAL, UMA REPÚBLICA DE PROMOTORES





Arma-se no Brasil, sob as barbas de todos os democratas, com a tutela da mídia de direita e com o apoio de muitas camadas da população, mais um golpe contra o País. Nas salas acarpetadas do Ministério Público, um grupo de promotores articula - e com sucesso - a candidatura de Sergio Moro à presidência da República em 2018.

Será mais uma tentativa da direita de emplacar um presidente moralista e moralizador. Jânio Quadro quebrou a vassoura com que ia varrer a corrupção na cabeça deles e renunciou numa tentativa de “golpe popular”, acuado por forças “tremendas”, aquelas que o elegeram e que desejavam manipulá-lo. Collor correu tanto atrás de marajás, que teve sua eleição fraudulenta emborcada num escândalo de corrupção ainda mais cabeludo do que podia imaginar a parca imaginação da direita que o elegeu.

Agora, vão tentar a sorte com um “puro”, um cara que não é político, saído das cortes e dos tribunais persecutórios da corrupção de uma operação que a população acha que pertence a uma pessoa só, mas é do Ministério Público. Caso típico de apropriação indébita. Mas ninguém está lingando para isso. Como “dono” da Lava Jato, tem sido a estrela a desafiar até mesmo princípios elementares de direito, para manter-se em evidência na mídia. E tem o apoio dessa mesma mídia, sempre em busca de um “salvador da pátria”, em nome da direita hidrófoba e alijada do poder, quando da eleição de Lula, e, portanto, cheia de rancor, além de parcelas significativas da população que se deixa enganar pelos arroubos do juiz de primeira instância que se juga acima da lei. Suas prisões de autoridades e poderosos donos de empreiteiras encantam o público menos avesso às filigranas da lei e desencadeiam no povo a sensação de que, finalmente, não só os pobres vão para a cadeia. O bom moço que enfrenta os poderosos traveste-se de “salvador da pátria”. É tudo o que quer a direita.

Por qual partido sairá Moro candidato à presidência?

Não se enganem. Será por um partido pequeno. E sua filiação ocorrerá discretamente nos últimos instantes permitidos pela legislação eleitoral. Na calada da noite. Deixará que todos pensarem que ele não será candidato, porque não tem filiação partidária, durante o maior tempo possível. Só assim a propaganda disfarçada – que contraria a legislação – continuará por uns bons meses. E propaganda gratuita. Na mídia diária. Com as revelações e prisões bombásticas da Lava Jato apoiadas pelo Ministério Público e Polícia Federal. Com a ajuda de juízes do Supremo.

Então, como conduzido pelos braços do povo, haverá o dia do “aceito”, e a revelação do partido. Um partido pequeno, como disse, escolhido a dedo, devidamente “higienizado”, não tendo elementos comprometidos com qualquer falcatrua (o que é difícil, mas não impossível) e de direita ou centro-direita. As alianças virão em seguida. Alianças e apoios. E o povo, em delírio, será mais uma vez iludido. Votará no novo “salvador”, depois de mostras de emoção e choro pelos rincões da pátria amada salve, salve.

Se vai ganhar, é difícil predizer. A política costuma ser cruel com quem não está afeito a seu jogo, a seus meandros. Mas tem toda a possibilidade de vencer, principalmente se conseguir afastar o seu principal concorrente, o ex-presidente Lula.


Bem, se isso não acontecer, ou, pelo menos, se Moro não sair candidato, prometo que jogarei fora minha bola de cristal.


novembro 18, 2016

MANIPULAÇÃO, ESSE FOI SEMPRE O NEGÓCIO DA MÍDIA





A grande mídia, como a conhecemos hoje, teve o seu ovo da serpente gestado no século XIX, quando surgiram os primeiros grandes jornais e os primeiros jornalistas influentes. Sua história nada tem de grandioso ou de nobre, como nos conta Balzac em seu formidável “Ilusões perdidas”: o achaque de jornalistas fazia e desfazia reputações em troca de favores ou por um bom cheque na conta bancária.

O século XX trouxe a tecnologia e o desenvolvimento das mídias alternativas, muito além dos jornalões: primeiro, as revistas; depois, o rádio; em seguida, a televisão e, finalmente, a internet. Trouxe também o fortalecimento das grandes empresas de mídia, concentradas, mundialmente, nas mãos de poucos, de muito poucos, gerando fortunas, as fortunas gerando poder e as fortunas mais o poder gerando a grande manipulação que hoje vivemos.

A mídia capitalista defende valores capitalistas. E não há ninguém inocente nesse métier. O objetivo é um só: seduzir as mentes, moldá-las, conduzi-las para um convencionalismo de rebanho, num pensamento único de conservadorismo, de conformismo ao mundo de injustiças que se ergue de forma absoluta em torno da humanidade, em todo o mundo ocidental. Não há saída.

Somos todos criados e educados e devidamente doutrinados desde o berço pela grande mídia. Desde os “inocentes” desenhos animados e as “inocentes” revistinhas de Walt Disney, até as grandes publicações voltadas até mesmo para a “intelectualidade”, se estão inseridas no grande cadinho da mídia, se provêm dos mesmos donos, são todas publicações destinadas a um só objetivo: moldar o nosso pensamento e conformá-lo aos padrões vigentes. Poucas são as publicações que escapam desse esquema. E, se são muitos os que escapam a essa dominação, ainda são, infelizmente, a minoria.

O grande reforço disso tudo veio com o rádio, que ainda tem sua força, e com a televisão, a grande pá de cal na possibilidade de qualquer gesto libertador por parte das massas, já que as grandes redes televisivas estão nas mãos de grupos poderosos, graças a um movimento esperto desses grupos, que viram e previram sua força. Além disso, a televisão ainda é uma mídia dispendiosa, com tecnologia que depende de grandes investimentos, o que praticamente inviabiliza seu alcance a grupos menos preparados financeiramente, como sindicatos e associações operárias, que não têm meios para manter, por exemplo, um canal de televisão, mesmo que restrito a uma pequena cidade ou região.

Com todo esse poderio nas mãos, o capitalismo selvagem sabe manipular seus meios para manter o populacho em suas garras, como um grande polvo abraça com seus tentáculos as suas vítimas e as devora. Nas redações, nada se publica ou vai ao ar que não seja de interesse direto ou indireto do dono: a sua voz, a sua vontade, o seu pensamento é refletido em cada linha escrita ou falada, de forma total e absoluta.

O processo é bastante simples e, ao mesmo tempo, sofisticado. Vejamos alguns de seus procedimentos.

Tudo começa com a escolha do que vai ser publicado. Imagine que chegam às redações milhares e milhares de notícias. Claro que há aquelas notícias de repercussão mundial ou regional, de que não se pode escapar, como grandes tragédias, crimes, eleições, declarações bombásticas, notícias de celebridades etc. Mesmo essas grandes notícias, se alguma ou algumas têm implicações políticas e ideológicas, é necessário todo o cuidado para veiculá-las e elas receberão o tratamento devido. Por exemplo: um terremoto no Japão terá um tratamento devidamente “neutro”, mas de solidariedade às vítimas, com sutil ênfase à capacidade governamental de enfrentar a tragédia. Tudo muito bem cuidado, para não virar propaganda, mas devidamente embalado para levar o cidadão a sentir que o país haverá de superar esse momento. Se, no entanto, o terremoto ocorre num país comunista, como China ou Coreia do Norte, a cobertura também será de solidariedade às vítimas etc., mas com um sutil viés de crítica ao governo, através, por exemplo, da ênfase às dificuldades das autoridades de chegarem aos lugares onde a tragédia ocorreu. Tudo com bastante profissionalismo, claro, mas de forma a evidenciar sempre que há diferenças entre um país “livre” e outro “comunista”. É evidente que há sempre a mídia radical, que chuta o balde e faz duras e claras críticas a qualquer momento, em quaisquer ocasiões, mas esses casos são a exceção e não constituem  a melhor forma, a forma ideal como a grande mídia manipula.

Dissemos que a manipulação começa na escolha do que vai ser publicado, dentre milhares de notícias. E aqui a sutileza e a esperteza andam juntas. Por exemplo: nesta semana o Jornal Nacional da poderosa Rede Globo, no meio de centenas de notícias, muitas delas de grande interesse, como os passos do novo governo estadunidense e as prisões da Lava Jato, dedicaram extensos cinco minutos à seca no rio Negro, especialmente na região da Usina Belo Monte. Ora, seca no Nordeste atinge milhões de pessoas, mata gente e gado, provoca fome e miséria. Seca no rio Negro implica diminuição – pode até ser um pouco drástica – da vazão do rio, e atinge milhares, não milhões, de pescadores e outras pessoas, mas não provoca a mesma tragédia de sua congênere nordestina. Por que esse interesse todo da Rede Globo? Deixarei que o leitor conclua por si mesmo: ao final da reportagem, de forma sutil, indireta, no depoimento de uma ecologista, a emissora deixa nas entrelinhas que a culpa da seca é a barragem da Usina Belo Monte. Que foi construída no governo Dilma, que tem suas empreiteiras sob suspeita.... Enfim, pode ser também um ataque como forma de defesa.

Dissemos que a escolha da notícia ou das notícias a serem divulgadas, dentre as milhares que chegam às redações, constitui um fator de manipulação de grande poder. Isso é fácil de constatar, mesmo diante de tragédias que atingem outros países. No verão europeu do ano passado, por exemplo, Portugal queimava: quase oitenta por cento de seu território estava sob incêndios ou ameaça de incêndios, numa das maiores secas de sua história. Disso não saiu uma só linha aqui, no Brasil. Estava toda a mídia devidamente ocupada com outros assuntos de interesse imediato, como a desconstrução do governo recém-eleito. E também aí, a escolha criteriosa do fato passa por crivos rigorosos nas redações: se o número de assassinatos aumenta no Estado de São Paulo, onde a mídia adora e protege o governador, a notícia vem devidamente “amortecida” com dados estatísticos profusos que informam que outras formas de criminalidade têm diminuído, graças, claro, à ação da polícia etc. etc. Graças à mídia que, de forma sutil e competente, soube contornar a seca por que passou o Estado e, principalmente, a cidade de São Paulo, com matérias que,  se não ocultavam uma realidade impossível de ser ocultada, por outro lado mostravam ações otimistas e declarações bombásticas das autoridades que, por incompetência, haviam deixado a situação chegar aonde chegou, o senhor governador e seu governo saíram ilesos, politicamente, do que se chamou “crise hídrica” (um eufemismo para a incompetência).

Incensar os poderosos. Também essa uma forma de manipulação da mídia, sempre esperta, sempre pronta a servir, como forma de manter também o seu próprio poder. E os cães amestrados das redações são obrigados, pelo simples fato de que foram amestrados, ou porque, embora conscientes de seu papel, aceitam o fato de se tornarem capachos dos patrões, por emprego, por prestígio, por uma pequena parcela de poder e grana, a abanar o rabo para o patrão, o grande empresário que tudo controla e não perdoa qualquer deslize nas orientações e no posicionamento de seu jornal, de sua revista, de sua rede de televisão, cumprindo, assim, o papel de quinta coluna, de guardiões do status quo, de defensores da “moral”,  dos “bons costumes” e  do grande capital que seduz, controla e escraviza as mentes.

Ou você acha que o Brasil é um país conservador por quê?


Finalizando, pode-se dizer, talvez, que a salvação esteja nas mídias sociais, na internet. Talvez. E a minha dúvida reside no fato de que há três grandes problemas com a socialização da comunicação: primeiro, o lixo que ainda se publica é muito extenso, quase impedindo que se consiga separar de forma clara e precisa o que presta do que devia continuar no lixo; segundo, as mídias sociais são um território livre para psicopatas, para fascistas e nazistas de toda espécie, para indivíduos que não têm nenhum escrúpulo, por falta de formação ou por deformação de seu meio, de sua educação e da sua mente manipulada, e eles têm tomado de assalto esse meio, sufocando, muitas vezes, qualquer possibilidade de racionalidade; terceiro, as pessoas realmente preparadas para enfrentar a irracionalidade e com consciência para debater de forma coerente, com bons textos e reflexões profundas os grandes problemas não são muitas e acabam, muitas vezes, sufocadas pelo volume de asneiras que se publicam. Enfim, como tudo na vida depende de maturação e depuração, espera-se que as redes sociais se tornem mais republicanas, menos agressivas, menos raivosas; que aos poucos a racionalidade predomine e que, enfim, as pessoas percebam que esse é um meio de libertação e não de replicação das mesmas ideias, das mesmas ideologias, dos mesmos processos de escravização da grande mídia. Isso, se a grande mídia não conseguir fazer chegar seus tentáculos de polvo e dominar também esse meio de comunicação.


novembro 13, 2016

DYLAN, PRÊMIO NOBEL







O prêmio Nobel outorgado ao cantor pop Bo Dylan despertou a discussão “sexo dos anjos” se letra de música é literatura. Tentemos algumas explicações básicas.

Literatura, latu sensu, é tudo o que se escreve, desde o bilhete se deixa na porta da geladeira até a Odisseia, de Homero.

Literatura, strictu sensu, traz algumas complexidades em sua conceituação e algumas discussões quanto aos seus limites e abrangências.

Considera-se, no entanto, Literatura tudo aquilo que se escreve com valor artístico e no terreno da ficção. Vê-se que, nesse conceito, ficariam de fora, por exemplo, peças memorialísticas, muitas delas de grande valor literário; discursos e missivas, também muitos de indiscutível valor literário, aos quais – tanto a memórias quanto a discursos e missivas – a maioria dos críticos lhes dão o devido incenso e inclusão como obra literária.

Assim, conceituar Literatura, a grande arte do gênio humano, não se constitui uma tarefa muito fácil. E muitos ideólogos e estudiosos têm-se debruçado nessa difícil tarefa. É consenso, no entanto, que se incluem entre os gêneros literários as cantigas medievais, divididas em subgêneros como, cantigas de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer. Todas eram letras de canções que os trovadores medievais divulgavam pelas feiras e castelos e festas da época, acompanhadas de instrumentos típicos.

Portanto, letra de música pertence, sim, à Literatura. É Literatura. Se são boas ou ruins, se contêm ou não poesia, é outra discussão, que adentra o terreno movediço da estética. Não são exatamente “poemas”, são cantigas, que só existem e só ganham dimensão, quando cantadas. Das cantigas medievais, infelizmente, não nos chegaram as partituras, as músicas que as complementariam e as lançariam na dimensão estética apropriada ao seu gênero ou subgênero.

Ao outorgar o prêmio ao cantor estadunidense, os velhinhos da Academia do Nobel arrostaram apenas o perigo, relativo, de se verem achincalhados pela escolha, não pelo fato de não ser ele um literato, um escritor e, portanto, elegível ao prêmio.

E quanto a isso, afirmo que, numa lista de cem escritores internacionais, acessíveis ou elegíveis ao Nobel, com certeza Bob Dylan não estaria entre eles.


Os velhinhos da Academia Sueca gostam de surpreender ou já estão mesmo um tanto provectos, para não dizer gagás.

novembro 07, 2016

EU TENHO INTOLERÂNCIA RELIGIOSA







O tema de redação do ENEM deste ano, de 2016, – Caminhos para o combate à intolerância religiosa – foi amplamente elogiada por setores... religiosos, claro. Cúpulas de igrejas – não importa o credo – adoram fazer proselitismo de suas crenças, em cima de algo que lhe dê motivo para pregarem algo que eles sabem muito bem pregar na teoria, mas que, na prática, segue sendo um buraco negro na história das religiões: a tolerância.

Não há casos registrados de ateus, por exemplo, terem desacatado ou perseguido ou, o cúmulo dos cúmulos, mandado para a fogueira ou para forca pessoas religiosas por causa de sua crença. Sempre que uma religião é perseguida, essa perseguição é realizada por outra religião, muitas vezes de forma oficial. A igreja católica apostólica romana, por ser a seita mais antiga ainda em atividade, tem um longo e tenebroso passado de perseguições, prisões, tortura e morte de seus adversários ou pretensos adversários, tachados todos como infiéis, estigmatizados por seu deus, desde as bruxas (que nada mais eram do que mulheres que seguiam outra tradição religiosa, ligada a seus ancestrais) até judeus, pelo simples fato de serem não apenas anticristãos, mas principalmente por serem ricos e poderem ter suas fortunas devidamente apropriadas pela ICAR, depois de queimados, claro.

Na atualidade, sabemos o quanto inúmeros cultos evangélicos demonizam os praticantes de candomblé, com seus pastores fazendo verdadeiras homilias contra o demônio que habita os terreiros, insuflando seus seguidores a atitudes de hostilidade contra negros principalmente, contra uma cultura milenar oriunda de países africanos, simplesmente por ódio ao diferente, por ódio àquilo que eles não entendem e não desejam compreender. O amor cristão passa longe de quem chuta imagens do catolicismo, por puro exibicionismo na televisão, como se a destruição de um ícone não tivesse consequências outras que não o insuflar do ódio de seus seguidores aos católicos e dos católicos ofendidos aos seus seguidores.

Portanto, a intolerância religiosa passa longe, muito longe do espírito cristão dessas seitas. Isso para ficarmos apenas no terreno do cristianismo. Não vamos tocar nem de leve nas diferenças e nos ódios que separam cristãos e judeus, judeus e muçulmanos, muçulmanos e cristãos, numa ciranda de violência e dor que vem tingindo de sangue o caminho da humanidade.

Por que tudo isso?

Porque fiquei com dó, com muita pena, dos garotos e das garotas que tiveram que discorrer sobre esse tema absurdo, sem cair em armadilhas do preconceito latente em sua formação, seja ela de católico, de crente, de espírita, de umbandista ou de praticante de qualquer outra seita. Uma verdadeira casca de banana no caminho desses jovens, esse tema que só deve interessar, na realidade, aos chamados homens de boa vontade – que são poucos, infelizmente muito poucos – que estejam à frente de suas seitas. Eles é quem deve buscar caminhos para evitar essa intolerância recíproca, através de uma formação mais humanista e tolerante de seus pregadores, principalmente, eivados de preconceitos, e não apenas religiosos, mas culturais, étnicos, e até de preconceitos machistas contra as mulheres, sexistas contra quaisquer pessoas que tenham práticas alternativas, como gays, lésbicas etc. Tudo isso é um cadinho fervente a borbulhar intolerância, que é servido diariamente por pregadores cristãos de todas as seitas. São, portanto, - e isso é preciso repetir – os líderes dessa gente toda que devem buscar caminhos contra a intolerância. Jogar numa redação, numa simples redação de uma prova que vale pontos para classificação a uma faculdade a discussão de tal tema é jogar nas costas do jovem a solução de um problema do qual a maioria é simplesmente vítima, pela criação, pela educação equivocada de religiões preconceituosas e intolerantes, o que vai provocar, quase com certeza, uma enxurrada de lugares comuns e de mal alinhavadas linhas que não conseguirão esconder o que eles trazem dessa verdadeira lavagem cerebral que é a educação religiosa.

Eu, por mim, como ateu praticante, declaro que sou absolutamente intolerante a qualquer religião. Combato todas elas e suas ideias absurdas na crença de deus ou deuses criados pelo ser humano para subordiná-lo à dominação de castas de líderes religiosos inescrupulosos, imorais, aéticos e criminosos. Nem por isso, jamais perseguiria quem quer que fosse por suas crenças, por seus ritos, por sua filiação a qualquer seita. Combato o bom combate das ideias. As ideias precisam ser mortas, assassinadas, jogadas no lixo da história, não os homens ou seus seguidores, como o fazem aqueles que se dizem religiosos e pregam nos seus púlpitos, de forma contumaz e sub-reptícia, a intolerância contra todos os outros seres humanos que não seguem o seu deus, o seu livro sagrado, os seus ritos e celebrações.

Sem dúvida nenhuma, a despeito de tudo o que se diz por aí, esse tema – caminhos para o combate à intolerância religiosa – é um presente de grego para os estudantes, um verdadeiro absurdo.


outubro 28, 2016

PORQUE PESSOAS COMO DILMA E MADURO NÃO NECESSÁRIAS









Já não se discute se houve ou não golpe no País. Está mais do que claro e provado que a balela do “respeito à Constituição” serviu de escudo para uma das mais bem tramadas conspirações da direita hidrófoba do Brasil, para nos transformar, em pleno século XXI, na vergonha do mundo, numa nova “república de bananas”, onde por qualquer motivo se dá um golpe de estado.

Também não é necessário voltar às causas do golpe: o governo Dilma Rousseff irritou profundamente uma certa classe financeira, que se rebelou, e é claro, financiou o golpe, através de uma sórdida campanha na mídia que sempre foi golpista, nas mãos das famílias de extrema direita que a dominam e zombam de palavras, como as da atual presidenta, sim, presidenta, do STF, a bradar por respeito à “liberdade de imprensa”, como se isso existisse por essas plagas. Sim, há liberdade de imprensa para a grande mídia, mas não para os jornalistas que nela trabalham. Há “liberdade de imprensa”, não de opinião. E não existe liberdade de imprensa, quando qualquer mídia alternativa, que não viva à sombra ou das sobras das grandes famílias dominadoras, não consiga sobreviver, para veicular opiniões diversas daquelas que é consagrada e oficializada por essas famílias.

O pretexto para o “golpe constitucional” (Ulysses Guimarães que, com todos os seus defeitos, não era golpista, nunca sonharia que sua Constituição Cidadã serviria um dia de escudo para tal canalhice, deve estar se remoendo, onde quer que esteja) é pífio e não resiste à lógica mais elementar. No entanto, o golpe foi aprovado por um Congresso vendido e comprado a peso de milhões, pagos, em primeira instância pela FIESP e demais congêneres, e, em segunda instância, pelo títere que se senta hoje na cadeira presidencial, através de medidas econômicas de interesse dos golpistas e distribuição de benesses a estados e municípios, através dos deputados e senadores que apoiaram o golpe. Uma das mais tristes páginas de nossa história, com absoluta certeza.

Mas isso são águas passadas. O que eu quero mesmo falar é sobre um certo raciocínio que vigora entre muitas pessoas de esquerda ou ditas de esquerda. E abro um parêntese para uma crítica severa a movimentos, partidos, associações e quejandas que se dizem de esquerda, mas que criticaram ou criticam posturas do partido que esteve no poder nos últimos dez anos, no Brasil, o Partido dos Trabalhadores. Primeiro, lembrar que o PT obteve vitórias históricas e significativas em todos os terrenos políticos, econômicos e sociais, algo absolutamente notável, num País dominado pelo conservadorismo, doutrinado por entidades conservadoras, enganado por mídias conservadoras, o que o habilita a ter todo o respeito possível de quaisquer grupos, grupelhos, partidos e organizações de esquerda não só do Brasil como de todo o mundo. Segundo, lembrar que seu líder máximo, Lula, tem o respeito e admiração de praticamente todos os países, por sua obra de resgate da pobreza, por suas posições moderadas e conciliadoras e por sua capacidade não só de realizar, mas de aglutinar através do diálogo forças e ideias diferentes e até contraditórias, conseguindo, com isso, a tal governabilidade que a Constituição Cidadã deixou como uma bomba de efeito retardado para todos os presidentes. Portanto, quaisquer que sejam as ideologias que estejam no espectro oposto ao direitismo arraigado de PSDB, DEM e demais asseclas, a formar uma quadrilha aguerrida de defensores do liberalismo econômico e até do capitalismo mais selvagem, advirto que críticas públicas ao PT, a Lula ou a Dilma, tendo ou não razão, mesmo que consistentes ou baseadas apenas em teorias, só servem para divertir a direita e aprofundar divergências que não levam a nada. São estúpidas manifestações de inveja ou de incapacidade de perceber e ler corretamente o contexto e as consequências do que isso pode trazer. O PT, com todos os seus erros e acertos, não está acima de críticas, entendam bem. O que eu quero dizer é que não pode haver divisões em momentos de crise. O que eu quero dizer é que é burrice tentar buscar no PT e no governo Dilma as razões para o golpe. E entro, agora, finalmente, no cerne da questão deste texto: a estupidez de culpar a vítima pelo ato criminoso do outro.

Sim, exatamente isso. Busca-se, em alguns textos e comentários que se leem e se ouvem por aí, dizer que a presidenta Dilma é, por exemplo, muito radical em suas posições, tanto no aspecto político quanto no econômico. Que ela cutucou a onça com a vara curta. Que provocou o mercado com medidas que irritaram os financistas e os ditos rentistas que vivem do poder dos juros altíssimos. Que ela provocou a fera do Norte, ao se aliar aos BRICS e a países como a Venezuela e a Argentina de Cristina Kirchner (outra que sofreu um “golpe eleitoral”, por suas posições). Que irritou ainda mais o governo estadunidense ao criar com os demais países dos BRICS um novo banco de financiamento internacional e pregar a futura substituição do dólar por uma nova moeda, o que significa pregar uma nova ordem mundial de comércio. Enfim, que a presidenta Dilma é que foi culpada do golpe que sofreu. Isso é o mesmo que criminalizar a vítima de estupro, porque provocou o estuprador. Constitui um dos maiores absurdos de qualquer tipo de pensamento, seja de direita ou de esquerda, mas torna-se ainda mais assustador quando vem de pessoas que se dizem de esquerda.


O mundo, meus senhores e senhoras, tem sido dominado há séculos por um capitalismo que alterna a selvageria econômica com a selvageria das armas, para saquear e destruir nações, matar milhões e milhões de pessoas e jogar outras tantas na vala mais cruel da miséria, da fome, da humilhação. Palavras corteses, gestos de boa vontade, pregações e lutas pontuais têm-se travado em todos os cantos do planeta, mas são plumas ao vento, que pouco têm arranhado a couraça paquidérmica dos capitalistas que dominam o mundo. O único temor desses capitalistas é a pregação radical através do empoderamento de pessoas como Chaves e seu sucessor, Maduro, como Kirchner, Dilma, Castro, Morales, Mujica e tantos outros pelo mundo afora, não importando o tamanho de seus países. Essas pessoas, os radicais de esquerda de todo o mundo, mesmo aqueles que nenhum poder possuem que não seja a força de suas palavras, são necessárias para dar um pouco de equilíbrio à estupidez capitalista. Eles, realmente, quase nunca são bem-sucedidos em suas empresas, mas incomodam os capitalistas pela grandeza moral de suas ações ou de suas palavras. E isso são sementes que podem gerar movimentos populares, quando o desespero bate à porta dos cidadãos oprimidos, que se lembram dessas pessoas e repetem as palavras dessas pessoas e tomam os exemplos dessas pessoas como bússola para suas tentativas, frustradas ou vencedoras, de sair da miséria e conquistar uma vida mais digna, menos humilhante.

outubro 25, 2016

NOSSAS ILUSÕES PERDIDAS NA GRANDE MÍDIA







Quando Balzac escreveu "As ilusões perdidas", deixou-nos explicitamente como legado o nascimento da grande imprensa como algo que servia aos interesses dos poderosos, manipulada por gente que se tornava capacho desses poderosos, a troco de posição, dinheiro e, principalmente, das migalhas de poder que displicentemente eram lançadas para baixo das mesas do grande banquete. Não havia escrúpulos em criar ou destruir reputações de figuras públicas. Ética parecia ser uma palavra totalmente desconhecida. Descobria-se que a mentira muitas vezes repetida torna-se verdade.

Mais de cem anos se passaram. O mundo parece que mudou. Novas tecnologias foram incorporadas ao dia a dia. E mais: a explosão demográfica do final do século XX aliada à rapidez da informação transformou o mundo - que era restrito - numa grande aldeia. Se, no século de Balzac, a mentira tinha o tamanho da cidade, no caso, Paris, hoje a mentira tem o tamanho do mundo. A cara de pau e o mau caratismo não se restringem ao entorno das redações de jornais, mas correm com a velocidade da luz pela internet, algo inimaginável até há poucas décadas.

Há pessoas de retidão de caráter entre jornalistas e comentaristas das grandes empresas de comunicação dos nossos dias, mas nem a mais potente das lupas será capaz de identificá-los, pois não podem ou não querem ser identificados, presos que estão às ideologias de seus patrões. A maioria desses profissionais, no entanto, não têm mesmo nenhum escrúpulo, professam à larga a ideologia de seus donos, com o prazer sarcástico de que, com suas diatribes, ganham notoriedade e tentam, com isso, interferir nas mentes e corações de seus leitores, para conduzir o País aos desígnios das forças conservadoras que lhes pagam o salário.

Muitos são mais realistas que os reis a quem obedecem cegamente. Obscurecidos pela notoriedade, criam monstros, fabricam factoides, inventam teorias e as oferecem como verdades absolutas a leitores desprevenidos ou desprovidos de senso crítico.

Lembro as manchetes de certo jornal popular - que poucos liam, mas que todos comentavam, o "Notícias Populares". Ficou famosa a primeira página em que noticiou em letras garrafais: "Cachorro faz mal a moça". Tudo dúbio e, espertamente, a palavra "cachorro" entre mínimas aspas, já que se tratava de um mal fadado "cachorro quente" estragado. De outra vez, a criatividade foi longe, ao noticiarem que um jovem cantor (Geraldo Vandré) havia quebrado e jogado seu violão na plateia, ao ser vaiado pelo auditório: "Violada em pleno auditório"!

Lembro essas manchetes, porque, nas grandes cidades, o povo não lê jornais, mas lê todos os dias as manchetes dos jornais, a primeira página, nas bancas, onde são expostos para chamar a atenção. Assim, a primeira página, a manchete, os títulos explosivos ajudam a formar opinião, a estabelecer polêmicas que nem sempre se resolvem, porque a maioria fica mesmo com a informação primária e primeira da primeira página. E a irresponsabilidade jornalística ilimitada se exerce aí, nessa primeira página.

No jornalismo radiofônico e televisivo, a influência está toda na inflexão de voz, na postura, na superficialidade da notícia. Um comentarista econômico, por exemplo, não precisa entender de economia (aliás, quem entende de economia?): basta ganhar as simpatias do público, manipular gráficos modernosos que nunca funcionam e informam precariamente e, por isso, podem conter não exatamente mentiras, mas pequenas distorções na apresentação de tamanho e cores, apresentar dados inconsistentes e, sempre, ser extremamente crítico ao governo, adotando, muitas vezes, o tom professoral e apocalíptico dos burros que nada sabem, mas zurram mais alto.

Há monstros que se criam e que eles, os jornalistas, não sabem, depois, como se livrar deles e, por isso, alimentam-nos permanentemente. Busco o exemplo no futebol.

Criou-se o mito da torcida do Corinthians, a partir de alguns dados reais: quando o time ficou infinitos anos sem ganhar um campeonato e quando "invadiu" o Maracanã, num jogo contra uma equipe carioca. Esses dois fatos alimentaram a noção de que a torcida corintiana era "fiel", aumentava na diversidade e até ganhava jogos com sua força. Hoje, essa torcida, organizada e feroz, transformou-se (e serviu de exemplo para outras) num monstro violento e assassino, que convoca e provoca conflitos com outras torcidas em estádios e nas proximidades de estádios ou onde quer que vá jogar o seu time. Usam os torcedores a camisa do clube, o distintivo do clube, o nome do clube e até mesmo as dependências do clube para dar vazão a seus instintos inferiores. Matam e morrem. Podem até ser constituídos de pacatos filhos, irmãos e pais fora da malta a que pertencem, mas, quando se juntam, transformam-se em loucos sedentos de sangue, com seus sinalizadores (que já até mataram um menino num jogo na Bolívia), seus gritos de guerra, suas bordunas e até armas de fogo. Foram criados e alimentados pela mídia, que sempre viu no Corinthians grande potencial de venda de jornais e de notícias. Agora, alguns poucos jornalistas mais conscientes reclamam da violência por eles mesmos criada e alimentada. Não deixam, no entanto, de dar voz aos violentos, quando esses mesmos rapazes têm a audácia de cobrar da diretoria do clube ou dos jogadores, em conversas públicas ou reservadas, aquilo que eles consideram sua "religião": ganhar jogos e dar a vida pelo clube.

Esses são até exemplos menores da tentativa - muitas vezes bem sucedida - de influenciar a opinião pública através de factoides e invencionices. Há casos piores. Quando o jogo é na política, as regras são claras: aos amigos, todos os elogios e, principalmente, o conveniente silêncio; aos inimigos, o achincalhe devidamente mascarado em notícias, em fatos distorcidos ou mal contados, em manchetes de duplo sentido, em insinuações e em até mesmo mentiras deslavadas em grandes títulos ou reportagens que, quando desmentidos, são jogados para rodapés de páginas secundárias. Vale a caixa-alta, o colorido de fotos manipuladas ou devidamente escolhidas por seus ângulos mais inusitados. Com isso, já até elegeram um presidente da República, Collor de Mello, devidamente defenestrado depois, por sua roubalheira e pela voz do povo nas ruas. Não se emendam, no entanto, pois continuam em suas campanhas para eleger os queridinhos dos patrões, aqueles que seguem a cartilha ideológica da direita, porque, por mais óbvio que possa parecer, é preciso que se esclareça que não há um só grande conglomerado de mídia de esquerda no mundo, que possa fazer contraponto àquilo que Washington ou Wall Street consideram ser a verdade.

Agora, é a vinda dos médicos estrangeiro para trabalhar no Brasil e ocupar os postos avançados que nossos profissionais não quiseram, por não fazer parte de seu objetivo de vida atender populações carentes em rincões distantes (preferem trabalhar em grandes hospitais, onde a infraestrutura lhes permite diagnosticar sem tocar o paciente, apenas com pedidos de exames complexos e caros ou, ainda, abrir consultórios em bairros elegantes, para atender a demanda de cirurgias plásticas de madames e seus cachorrinhos): primeiro, a grande mídia demonizou-os, principalmente aos cubanos, chamando-os de incompetentes; depois, lançaram dúvidas sob o sistema de remuneração, para tachá-los de escravos. Por fim, abriram guerra contra o programa do governo como um todo, com a desculpa de que é necessário infraestrutura de atendimento, sem perceber, os imbecis, que se tenta justamente quebrar um círculo vicioso - não há médico, porque não há infraestrutura e não há infraestrutura porque não há médico. Com isso, atiçaram o preconceito e, depois, o rancor e o ranço corporativista de médicos e suas associações ricas e distantes da população. Motivo do ódio? Político, meramente jogo político, pois a grande mídia atual tem um único objetivo: desmoralizar os governos de esquerda democraticamente eleitos, para tentarem, mais uma vez, jogar o País nos braços e na roubalheira dos que sempre mandaram e alimentaram, com verbas públicas diretas ou indiretas, as redações de jornais, revistas, rádios e televisões.

Não sei se Balzac, se vivesse hoje, com sua ojeriza ao mau jornalismo que, se era praticado em seu tempo, hoje, está elevado a potências inimagináveis no século XIX, em termos de mau caratismo, de falta de ética e, sobretudo, de capacidade de espalhar o vírus da mentira pelo mundo todo, estaria vomitando todos os dias. Eu estou!


outubro 24, 2016

CADÊ O CANALHA DO SKAF?








Consumado o golpe, o canalha sumiu da mídia.

Não se ouve um pio contra os impostos.

Nenhuma campanha baseada naquela estupidez chamada “impostômetro”?

Nenhuma reclamação contra os impostos.

Por que o canalha sumiu da mídia? Por que se cala, agora? Por quê?

Porque aquela campanha – contra os impostos – era, é e continuará sendo uma impostura, como o “impostômetro”.

Tinha por objetivo atingir o governo. Colocar na cabeça das pessoas que o governo federal – leia-se, o governo do PT, o governo da presidenta Dilma – arrecada bilhões e nada faz com dinheiro. Aliás, faz (ou fazia): rouba (ou roubava)!

A mensagem implícita era essa. E, com isso, mais a ajuda do “partido da imprensa golpista” (que cumpriu o seu papel), desestabilizar o governo perante a opinião pública e, assim, justificar o golpe que se tramava nas entranhas da FIESP, nos escritórios acarpetados e nos gabinetes do Congresso, onde a conspiração rolava solta, com muita grana sendo paga e prometida. Mais precisamente: 150 bilhões de reais. Fatura a ser paga pelo golpe, com o nosso dinheiro, pelo atual ditadorzinho de plantão, a soldo as forças reacionárias desse País. Tudo muito bem articulado, como só essas forças – ocultas? – sabem fazer.

Por que não se fala mais contra os impostos? Por que, senhor Skaf? Por quê?

Primeiro, porque a campanha, como já disse, era uma impostura. Jogava-se nas contas do Governo Federal todo e qualquer tipo de imposto. Como se só o Governo Federal – ou melhor, só o Governo do PT – cobrasse impostos. Um exemplo explicativo simples: pegue a sua conta de luz.

A conta de luz da cidade de São Paulo está a cargo da AES Eletropaulo e será uma delas que usarei como exemplo. Estão lá indicados todos os impostos que você paga, que nós pagamos. Suponhamos que a conta total tivesse dado R$322,30. Você teria os seguintes tributos:

- PIS/PASEP (1,02%) = 3,18
- COFINS (4,73%) = 14,80
- ICMS = 78,24
- Outros produtos e serviços (COSIP LEI 13.479/02) = 9,32

Note que o imposto mais volumoso, mais caro, que você paga, que nós pagamos,  é o ICMS. E quem estipula o valor desse imposto e o arrecada? O Estado, meu caro leitor, o Estado! Não a União, não o Governo Federal.
Então, por que o senhor Skaf e sua corja de canalhas engravatados da FIESP nunca protestou contra o Estado de São Paulo? Já que não é só na conta de luz que se paga ICMS, mas em tudo quanto se compra e se consome. E as alíquotas variam de produto para produto, desde o arroz com feijão até o perfume francês que os senhores dos escritórios atapetados usam para esconder o fedor de suas sacanagens contra o povo. Desde a cervejinha barata que se consome nos bares pés-sujos até o uísque doze anos dessa elite que reclama. Agora, preste atenção para este exemplo: o senhor governador Geraldo Alckimin, do PSDB, do partido golpista, aumentou o ICMS de bebidas alcoólicas para 20%, desde 2015. Tanto você, que toma cerveja ou pinga baratas, quando o negocista da FIESP, que toma uísque importado, pagam os mesmos 20%. Só há uma diferença: você ganha salário mínimo, ou, sei lá, um salário de mil reais ou dois mil reais... O bonitinho da FIESP ganha cem vezes mais, mil vezes mais. Pagam, pagamos, no entanto, você e ele, nós, a mesma alíquota de imposto, 20%. Isso vale para tudo. Então, proporcionalmente, você paga muito, mas muito mais impostos do que o seu patrão.

No entanto, o presidente da FIESP, a poderosa entidade dos patrões, diz para você que o Governo Federal arrecada todo o imposto que se paga neste País. E mais: que não faz nada com o dinheiro. Não diz que a injustiça do imposto não está em que ele, como patrão, paga muito menos do que você. Não diz que a maioria dos impostos financia a escola, a saúde, os programas sociais. Que a justiça nos impostos se faria com os ricos pagando o imposto de renda realmente devido e os produtos de grande consumo tendo isenção. Isso seria o começo de uma reforma fiscal. Que nunca se fará, porque os mesmos que berram contra os impostos não permitem! Nenhum Estado, nenhuma Prefeitura querem arrecadar menos.

O segundo motivo pelo qual o senhor Skaf está caladinho é que a campanha já surtiu o efeito necessário: anestesiou a população e preparou-a para assimilar o golpe. Sim, o golpe. E por que o golpe? Porque eles não podem admitir governos que governem para o povo. Eles não podem admitir que o rico dinheirinho deles, dos impostos (poucos) que eles pagam, vá para programas de combate à miséria, para a saúde, para a educação, e não para a construção de caros e atraentes aeroportos ou para o “financiamento da produção”, como eles dizem, que é uma forma de tomar emprestado do Governo dinheiro a juros subsidiados, para aumentar os seus lucros. Eles não podem admitir que negros e pobres frequentem a mesma faculdade que seus filhos perfumados. Enfim, tudo aquilo que você está cansado de saber, mas ainda não tomou consciência.

E quando você tomar consciência, o canalha do Skaf e o bando de sacanas da FIESP já estarão há tanto tempo com o chicote de novo nas mãos, que seu lombo, prezado leitor, que começara a se acostumar a não levar mais chibatadas ou a levar menos chibatadas, vai estar de novo curtido e você continuará ganhando o seu salário suado todo fim de mês, para viver a vida miserável de sempre. E ele, o canalha, está lá na Avenida Paulista, no seu escritório acarpetado, gozando o ar condicionado, tomando o seu uísque 12, 20 anos, sei lá, dando boas gargalhadas... de você!



maio 23, 2016

COMO NASCEU O “GOLPE CONSTITUCIONAL”








Não sou economista, não sou jornalista. Apenas observo e acompanho os fatos. E busco tirar conclusões, dentro de uma lógica possível. Não é preciso muito esforço para isso, todas as indicações do que descrevo abaixo estão aí, para qualquer pessoa que tenha um mínimo de julgamento racional tirar suas conclusões. Não há fatos: estes deveriam ser levantados por quem possa e saiba investigar, os repórteres especializados. Não há dados econômicos: estes podem e devem ser trazidos à baila pelos especialistas do mercado, geralmente tão pródigos em análises e previsões. Há apenas a logicidade por trás do que aconteceu a partir de seis meses antes das eleições presidenciais de 2014. Então, prenda a respiração e vamos em frente.

Até seis meses antes das eleições presidenciais, o País passava por aquilo que os economistas chamam de círculo virtuoso, ou quase isso. A inflação estava controlada, a economia crescia de forma constante e sustentada, embora com índices que até poderíamos dizer medíocres, para as necessidades futuras do País. Mas crescia. A crise econômica lá de fora – um tsunami – não dava mostras de fazer grandes estragos por aqui, já que havia provisões suficientes do Tesouro, para os dias de tempestade. Ou seja, o grande navio conseguiria navegar com solavancos, mas sem sobressaltos que impedissem um novo governo da presidenta Dilma.

Dilma não foi, não era e nunca será a preferida do mercado, ou dos empresários, ou de quem realmente manda no dinheiro e na economia do Brasil, os capitalistas. Mas também não era e nunca foi a ameaça. Não fez um governo brilhante, não incomodou muito e não seria incomodada, no segundo mandato, se... Esse o nó da questão: o se... E após o se... vêm as eleições de 2018, com – esse, sim, o inimigo a ser vencido – uma quase certa vitória de... Lula!

Mais oito anos de PT, com Lula à frente do governo. Isso era o pior dos pesadelos do tal mercado, controlado pelos capitalistas, pelos capitães de indústria, pelos empresários de todos os naipes e setores. Lula, o que poderia continuar com a política de distribuição de rendas e, até mesmo, aprofundá-la, para instituir de forma permanente uma nova – e perigosa – democracia econômica.

Estúpidos, esses empresários. Muito estúpidos. Não percebem que Lula estaria evitando uma possível jaquerie(*), não uma jaquerie de camponeses, mas de operários urbanos, a cercar suas fábricas e palácios para exigir direitos cada vez mais certos e inalienáveis, direitos que compõem uma verdadeira cesta básica de cidadania, como educação, saúde, terra, qualidade de vida. A nova classe operária já havia ido ao portão do paraíso e espera nele entrar. Um retrocesso poderia e pode desencadear uma revolta de proporções inauditas, que começaria com o cerco cada vez mais constante das propriedades gradeadas e vigiadas vinte e quatro horas dos ricos, dos milionários, dos donos do dinheiro. Teriam que passar a se deslocar de helicópteros e ficariam acuados em bunkers, para fugirem à ameaça do populacho. Enfim, isso não lhes passa pela cabeça. O que eles querem é ter de volta o velho e bom poder político.

Então... é preciso derrotar a Dilma, a qualquer custo. A campanha presidencial está às portas e urge desmontar os sucessos – relativos -  do governo federal. Para isso, articulados e regidos pela associação mais atuante de empresários do País, pela poderosa FIESP, engendram, com os meios de comunicação facilmente manipuláveis, nas mãos das seis “famiglie”, uma grande operação de desmonte do País e, por conseguinte, do governo Dilma. Põem o pé no freio dos investimentos, começam a dispensar funcionários (desemprego sempre pega mal a governos de esquerda), acionam uma operação de caça à corrupção, com um certo juiz de direito do Paraná (a operação Lava Jato, que já estava em curso e que pensavam poder controlar, mas que saiu um pouco do controle, ao atingir grandes empresários; paciência, depois tudo se ajeitaria, num futuro governo do PSDB), e com a mídia devidamente azeitada para começar uma campanha nunca vista antes de desprestígio ao governo, com notícias diárias da crise e da operação Lava Jato.

O candidato da oposição não era o que se poderia esperar, em termos de carisma, popularidade e competência. Mas isso também não era importante. Ele poderia vencer, com uma grande campanha de marketing, se chegasse ao segundo turno. Aécio Neves era até certo ponto um Collor de Mello melhorado em alguns aspectos, apagado em outros. Nada que não se pudesse dar um jeito.

Porém, ai, porém.... Surgiu um entreve: a candidatura de Eduardo Campos ameaçava impedir que Aécio chegasse ao segundo turno. Pânico. A solução -   todos sabem: um acidente inexplicável, a morte, a unção do defunto a herói nacional, como forma de aplacar os ânimos e esconder as verdadeiras intenções e... vida que segue. Se Marina Silva incomodava, não teria – como não teve – cacife para impedir que, a essa altura, depois de milhões e milhões de investimento na sua imagem, o queridinho das elites chegasse pelo menos ao segundo turno. E ele chegou.

E foi quase presidente. Aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, quando tudo parecia correr às mil maravilhas para o candidato já “eleito” pela mídia, pela elite, pelos empresários... o Nordeste vira o jogo e dá a vitória a Dilma.

A consternação durou pouco. Era preciso rearticular a oposição e buscar uma forma de mudar o jogo. O “tapetão” seria o último recurso. Utilizado no futebol, o expediente de puxar o tapete do adversário teria que ser muito bem pensado e articulado. E novamente a mídia foi convocada. E novamente as reuniões frenéticas foram marcadas. E novamente saiu a campo o incansável presidente da FIESP. Convoquem-se especialistas. Convoquem-se os universitários. No caso, os juristas. Quem tivesse qualquer ideia.

E como sempre, numa situação dessas, quando está em jogo o poder e quando o jogo do poder envolve muito dinheiro, logo aparece alguém com uma boa ideia. Ou uma ideia que, a princípio, parece loucura, mas pode ser promissora. E surgiu a ideia do “impeachment”, previsto na Constituição. Bastava um motivo. Se não houvesse um motivo, que se inventasse um. Ou que se criasse um. E apareceram, então, as tais “pedaladas fiscais”. A mídia não se fez de rogada e, muito bem paga, logo começou a falar sobre isso, a desinformar a população, a incentivar o ódio ao Partido dos Trabalhadores, aproveitando-se de uma série de circunstâncias e da famigerada tática de repetir mentiras até que se tornem verdades incontestáveis, fez despencar os índices de aprovação da presidenta eleita, enquanto o empresariado, mais do nunca empenhado na demonização e destruição do governo, comprava a peso de ouro os votos parlamentares suficientes para o processo de impeachment da presidenta, contando com a conivência e o total apoio de um dos políticos mais corruptos e canalhas desse País, o presidente da Câmara dos Deputados.

Armou-se o circo. A peso de ouro. Com apoio, com certeza, de governos estrangeiros (leia-se: apoio dos Estados Unidos da América, não nos iludamos). E a classe empresarial é que vai ao paraíso. Ou pensa que vai, ao entregar o governo a um ser absolutamente despreparado e sem estatura para governar, além de assumir acompanhado de um staff rigorosamente incompetente e preso pelo rabo a todo tipo de falcatrua.

Onde acaba essa história?

Se alguns Senadores que votaram pela admissibilidade do julgamento da presidenta criarem vergonha na cara e votarem contra o impeachment, Dilma volta e a crise tomará rumos um tanto controláveis. Ou não. As articulações serão complexas, mas teremos, pelo menos, uma presidenta eleita constitucionalmente, com possibilidade de retomar as rédeas da governabilidade e reverter sua imagem desgastada pela mídia. Bastará ter pulso firme. E um bom articulador político...

Mas, se o “golpe constitucional” prevalecer, haverá choro e ranger de dentes... e a crise se aprofundará, com um possível afastamento, também “constitucional”, do governo provisório e uma série de “golpes”, para cuja solução será a convocação de eleições presidenciais ainda este ano. O grande coringa será a possibilidade ou não de Lula poder sair candidato. E isso será o grande nó de uma possível convocação de eleições, porque “pode-se enganar todo o povo por algum tempo, pode-se enganar uma parte do povo todo o tempo, mas não se pode enganar todo o povo todo o tempo”.



(*) A Jacquerie, ou revolta dos Jacques, foi uma insurreição camponesa que teve lugar no Norte de França, entre 28 de maio e 9 de julho de 1358, durante a Guerra dos Cem Anos. A palavra "Jacquerie" passou a ser sinônimo de rebelião camponesa e, por séculos, a nobreza viveu sob o temor de uma repetição do episódio. Na memória popular, a "Jacquerie" é vista como uma série de massacres feitos pelos camponeses contra a nobreza. Na realidade, porém, os servos rebeldes estavam mais preocupados com a pilhagem, a comida e a bebida dos castelos do que com o assassinato de seus ocupantes. Frequentemente, se esquece que padres, artesãos e pequenos mercadores ocasionalmente se juntaram aos camponeses durante estas rebeliões.

janeiro 05, 2016

CARTA ABERTA A UM AMIGO GAY







Caro amigo.

Sei que você levou muito tempo para “sair do armário”, assumir publicamente sua condição de homossexual, principalmente por causa da família, sempre um problema para pessoas como você. Passados os notórios disse me disse, os sustos e as cobranças, contornados todos os obstáculos, refeitas as amizades, reconstituída a vida, agora num novo patamar, você é um ser pleno, realizado e, dentro das condições normais de um ser humano, pode-se dizer que seja até feliz, embora eu não acredite na felicidade. Mas isso não vem ao caso, agora.

No entanto, não se pode apenas ser homossexual, numa sociedade conservadora como a nossa. Assumir a homossexualidade é um ato profundamente político. Mesmo que digamos que o que se passa entre quatro paredes não diga respeito a ninguém, não é possível viver e conviver sem o filtro da moral social e, principalmente, sem o respeito a certas convenções. E com relação a respeito, a nossa sociedade é assim: exige que respeitemos suas convenções, mas não respeita nossas crenças íntimas, não respeita nossas convicções, não respeita nosso modo de viver, se esse modo de viver foge, um milímetro que seja, às suas convenções.

Assim, um homossexual assumido tende a se tornar também um cidadão atuante pela causa, ou seja, defensor dos direitos mais do que justos de todos os que são diferentes, na visão dessa sociedade. Logo, você se tornou um ativista. O que é perfeitamente normal.

Mas, aí vem o motivo pelo qual ouso escrever essa carta: na sua luta, vejo o amargor das pequenas derrotas diante de pequenos e grandes crimes e injustiças contra os homossexuais. Queixam-se todos de perseguição, de não poderem sair às ruas em segurança, de serem agredidos por uma simples troca de carícias ou por andarem de mãos dadas. Queixam-se de que as leis não punem a chamada homofobia, mesmo diante de toda a celeuma da aprovação do “casamento gay”, isto é, da aprovação legal de união de indivíduos de mesmo sexo. Queixam-se, enfim, de perseguição.

Ora, meu amigo, desculpe, mas vocês, gays, estão tendo o tratamento que a sociedade sempre deu aos diferentes, àqueles que não nasceram com a “marca da normalidade” da chamada maioria branca, endinheirada ou pretensamente endinheirada, dona ou pretensamente dona do pensamento dominante, seguidora ou pretensamente seguidora das leis de um deus que premia os justos e castiga os “pecadores”, um deus que não só não tolera desvios da fé, mas também olha com olhos de condescendência e de falso perdão aqueles que são diferentes.

Por isso, caro amigo, quando nascia um bebê com síndrome de Down, a que se dava o nome de mongoloide, as famílias o escondiam em seus porões ou em quartos trancados. Por isso, quando algum membro da família manifestava uma sexualidade diferente, era enviado para seminários e conventos, ou era obrigado a sufocar ou disfarçar esse “desvio”, de forma que não o ficassem sabendo parentes e amigos. Havia sempre um tio excêntrico, um sobrinho “desviado”...

Por isso, caro amigo, as famílias tratavam com “bondade” seus empregados negros, numa espécie de limbo, em que os direitos eram apenas os estipulados pela falsa condição de “quase membros da família”, no seio da qual “tinham tudo”, casa, comida, roupa, só não tinham liberdade. Porque eles eram tão invisíveis à sociedade quanto as crianças problemáticas ou os membros “disfuncionais”.

E mais, meu caro amigo, essa sociedade “branca”, conservadora, profundamente religiosa, burguesa mantinha o predomínio dos meios de produção à custa de uma imensa população invisível por quem ela manifesta um profundo desprezo, como operários, negros, índios, homossexuais, ateus e toda uma gama de seres que não rezam pela sua cartilha ou não são “bem-nascidos”. E a invisibilidade garantia a toda essa gente a “suprema felicidade” de não sofrerem uma perseguição contumaz e constante por parte dessa nossa sociedade tão ciente de sua supremacia e tão “bondosa” na distribuição das benesses de que disfrutam, mas “apenas” as injustiças sociais “normais” de séculos e séculos de cerviz baixa e de servilismo.

Portanto, caro amigo, se não quer ser perseguido ou que seus companheiros não sofram, só há uma saída: voltem todos vocês para o gueto, para a invisibilidade, para os becos escuros. Não reivindiquem nada, não peçam nada. E principalmente, não queiram justiça. Não queiram igualdade. Não bradem por respeito. Sim, isso mesmo, tranquem-se em porões, escondam-se atrás dos muros, sintam vergonha de serem o que são. Virem fantasmas. Nadas.

Se, com isso, não vão mais ser perseguidos ou mortos a pauladas, como tem acontecido? Ah, isso já é pedir demais. No entanto, os casos serão em número bem menor, quase não haverá notícias na mídia, ninguém comentará nada quando um branco, bom moço, elegante, filho de uma boa família os agredir na rua, ou em qualquer lugar. E o fato de ninguém comentar e de a mídia não publicar será muito bom: não servirá de exemplo para que outros façam o mesmo.

Enfim, invisíveis, quem vai se importar com vocês? E isso – a invisibilidade e tudo aquilo que ela traz – é só um sofimentozinho tão pequeno, frente a tantas outras vantagens! Não é, não?

Um grande abraço.


janeiro 02, 2016

NÃO HÁ RACISMO NO BRASIL





Não, não há racismo no Brasil.

Enquanto os negros estão na senzala, escravizados e massacrados pelo açoite, não há racismo no Brasil.

Enquanto os negros, mesmo libertos, constituem a população invisível dos guetos, das favelas, dos quilombos, das comunidades perdidas e anônimas do interior, não há racismo no Brasil.

Enquanto os negros, ainda que à custa de muita luta e muito trabalho, ocupam os cargos invisíveis da sociedade branca, como porteiros, seguranças, garis, domésticos etc., não há racismo no Brasil.

Enquanto os negros, depois de anos e anos de semiescravidão à elite branca, começam a obter, por meritocracia, alguns cargos de destaque na sociedade, como negros de alma branca, não há racismo no Brasil.

Mas...

Agora os negros não querem apenas as migalhas que caem das mesas da elite. Reivindicam cotas, para seus filhos e netos. Querem participação. Querem igualdade. E mais, o absurdo dos absurdos, querem ser reconhecidos como construtores da sociedade para a qual vieram sem ser convidados, mas à qual querem ser integrados não como população invisível, ou como negros de alma branca, mas como seres humanos que têm uma história, uma cultura, um conhecimento que desejam compartilhar.

Não mais os restos, não mais a obscuridade, não mais a subserviência: igualdade. E mais do que igualdade: respeito.

E então eles, os negros, aparecem nas escolas, nas faculdades, nos restaurantes, nas praças. Competem em igualdade de condições nos melhores empregos. Não porque foram beneficiados por cotas, mas porque tiveram a oportunidade que, desde 1888, não se lhes deram: a oportunidade de mostrar que são gente, que podem e devem ser cidadãos como todos os outros, e não cidadãos de segunda ou terceira classe.

As cotas apenas abrem portas, não fazem milagres. O milagre é a ascensão econômica de uma imensa quantidade de cidadãos desprezados porque a cor de sua pele é diferente, como se cor de pele fosse o estigma da pobreza e do desprezo.

E então, como os negros se tornam, pouco a pouco visíveis, o racismo de dezenas e dezenas de anos aflora à mente dos escravocratas de plantão, dos imbecis que acham que a cor da sua pele os torna superiores, dos fascistas que desejam um mundo de castas que se mantenham escravizadas para seu benefício, dos falsos democratas e defensores de doutrinas absurdas, baseadas apenas no seu próprio interesse. No seu interesse econômico, disfarçado de posição ideológica, ou a ideologia racista justificando seus mais baixos instintos.


Não, não há racismo no Brasil...