abril 17, 2018

A ADEGA DO MALUF







Fico aqui matutando: coitado do Maluf, tão doentinho, tão alquebrado! Acho que saiu da cadeia em Brasília para um hospital em São Paulo. Numa cadeira de rodas. Um velhinho inofensivo. Depois de tantos anos de glória e roubalheira. De “rouba, mas faz”. De vários governos, menos o federal, coitado. Vai morrer frustrado, porque não chegou à presidência. Mas foi prefeito, foi governador, foi (ou é) deputado. Enfim, um homem de histórias, para a História. Mesmo que pelo lado torto. “Rouba, mas faz”. E fez. Fez muito. 

Tanto, que tem uma bela mansão num dos bairros mais nobres de São Paulo. Ele merece, merece muito. Trabalhou bastante, em prol de seu bolso. Construindo pontes, viadutos, espalhando asfalto, abrindo avenidas. Cobrando comissões, claro. E isso é trabalho duro: negociar com empreiteiros empedernidos, que amam seu rico dinheirinho e não gostam de soltá-lo assim, sem mais nem menos, sem um muito bom contrato de uma grande obra superfaturada. Então, a mansão do Maluf é presente por suas grandes atuações. 

Não é, porém, da mansão do Maluf que eu quero falar. Aliás, é da mansão, sim, mas apenas de um detalhe da mansão: a adega do Maluf. 

Dizem as más línguas, os invejosos de plantão, os que não gostam de ver ninguém vencer na vida por seus méritos, e ficar rico, apesar de que o Maluf já era rico antes da política, apenas multiplicou sua fortuna, mostrando a todos como é fácil ganhar dinheiro neste país, com o trabalho duro, de décadas... Tergiversamos. Voltemos à adega. 

Dizem, portanto, as más línguas que a adega do Maluf é excepcionalmente rica em vinhos preciosos. Fruto de suas muitas viagens à Europa; de sua participação em leilões de safras especiais e, claro, principalmente graças a seu extremo bom gosto na escolha das melhores cepas, das melhores vinícolas. 

Há, ali, dizem, vinhos que não têm preço. E outros, cujos preços alcançam milhares de dólares. Todos muito bem acondicionados, devidamente deitados em berço esplêndido, em temperaturas supercontroladas, trancados a sete chaves. Aliás, sete chaves é só força de expressão: deve haver uma chave única, com segredo etc. 

Bem, voltemos ao dono da adega: ele está velhinho. Cumpre ordem de prisão domiciliar. Aliás, uma história mal contada: se ele foi condenado em Brasília e tem como local de residência oficial, para a Justiça, o apartamento funcional em Brasília, devia estar cumprindo prisão domiciliar nesse apartamento, e não na mansão em São Paulo, com todas as mordomias que nós, simples mortais, nem tentamos imaginar quais sejam. Eu, por exemplo, só penso na adega. 

E o Maluf lá, doentinho, cheio de remédios para isso, remédios para aquilo, com os médicos enchendo seu pobre corpo alquebrado de drogas que prolonguem a vida do ilustre deputado. E o coitado, gente, com tanta droga no corpo, não pode – por ordens, médicas, claro – nem tomar uma taça de vinho. Não pode mandar o mordomo ir lá na adega e pegar aquele vinho especial, daquela safra, daquela marca e lhe servir uma simples taça desse mel dos deuses. 

Coitado do Maluf! 

E logo me arrependo da expressão: não, coitado de mim, que não tenho grana nem para comprar um vinho de supermercado. Que trabalhei a vida inteira, mas não tive a competência do deputado em amealhar a fortuna que ele obteve. Não fui amigo do Costa e Silva; não enfrentei a má vontade de donos de empreiteiras que queriam pagar só dez por cento; não me lancei candidato a presidência várias vezes; não fui o homem do “rouba, mas faz”, e então estou aqui apenas sonhando e imaginando uma coisa, uma só coisa que eu queria muito neste momento, uma coisa impossível, eu sei, mas que não custa nada pensar, imaginar, sonhar: 

Eu queria herdar a chave da adega do Maluf!




(Ilustração: Philipe Mercier - LE JEUNE DEGUSTATEUR - c.1725)



março 12, 2018

DEMOCRACIA? ONDE?







“Um governo do povo, para o povo e pelo povo”. Essa a frase que nos vem à cabeça quando falamos de democracia. Uma espécie de meme, totalmente falacioso, mas grudado na memória de todos, por força do tanto repetir. 

E por que esse conceito é falacioso? 

Bem, a conversa promete ser longa. E o assunto, inesgotável. Vamos tentar levantar alguns problemas dessa definição e da própria existência da democracia no mundo ocidental, principalmente no Brasil. 

A primeira falácia é a própria noção de “democracia grega”: o povo grego, as chamadas classes populares, os comerciantes, os artesãos e, naturalmente, os escravos (que eram muitos, na época, por questões relacionadas a guerras e a dívidas) nunca participaram da escolha dos governantes gregos, escolhidos sempre por uma aristocracia dominante, através de vários processos, muitos deles não exatamente democráticos. Mas deixemos que os gregos enterrem os gregos. Falemos do presente. 

Para começar, o que seria um governo “do povo”? 

Acredito que um “governo do povo” fosse um governo que tivesse realmente representantes oriundos do povo, escolhidos livremente por todos, através de processos realmente democráticos e complexos, que pudessem selecionar pessoas que irão exercer o poder com compromissos muito bem fincados em um longo processo de discussão das prioridades e dos anseios desse povo. Talvez, através de assembleias que começassem em quarteirões e bairros, atingissem toda a cidade e fossem gradativamente levando seus representantes até a uma assembleia nacional, em que se discutissem todos as sugestões programáticas, para escolher as mais importantes e factíveis, com as quais os então escolhidos representantes iriam se comprometer ao chegar ao governo. Mas isso é um processo caro e difícil, que não demanda nem mesmo a existência de partidos políticos ideologicamente estruturados. 

Então, encontramos o primeiro nó: política precisa de ideologia? E a ideologia deve ser preocupação da política? 

Sim, se vivemos num mundo dividido em forças econômicas e ideológicas que desejam apenas o poder para aumentar ainda mais a sua capacidade de ganhar dinheiro e, por conseguinte, de oprimir o povo e subjugá-lo, para ganhar ainda mais poder e mais dinheiro, num círculo vicioso de ganância e escravidão. Estamos, é claro, falando do predomínio do sistema capitalista, com suas políticas (que são várias) de exploração do povo e de dominação. 

Não, não precisaríamos de ideologia na política, se vivêssemos num mundo igualitário, em que não houvesse a exploração do homem pelo homem... E paremos por aí, porque a utopia está evidente nessas poucas palavras. Esse mundo ideal não existe e não podemos afirmar que vá existir algum dia, embora o desejemos todos. 

O nó ideológico, portanto, ainda não tem condições de ser desfeito: mesmo nas assembleias mais democráticas, como as que possamos realizar a partir das bases mais profundas da organização popular, estarão eivadas de ideologia que irá contaminar seus resultados e seus projetos. E o povo, mais uma vez, seria enganado. Ou se enganaria nas suas escolhas. Voltaremos a isso mais adiante. 

Portanto, um governo “do povo” é uma falácia, porque os representantes, mesmo aqueles que provieram do povo, que iremos eleger foram e são escolhidos por uma elite partidária, para atender demandas e facções e exigências de quem já está no poder ou tem o poder para manipular eleições e resultados ou, se não podem manipular eleições, têm o poder de, através do investimento em propaganda e marketing, levar o povo a escolher os seus preferidos. 

Abro, aqui, um parêntese, para exemplificar com a história de nosso País. Desde a proclamação da República, em 1889, quantos presidentes oriundos das classes populares teve o Brasil até agora? E a resposta é óbvia: um, apenas um, que governou por oito anos, com grandes dificuldades, e agora, está sofrendo um terrível processo de perseguição política, para que não volte ao poder: Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, mesmo Lula não foi exatamente escolhido pelas classes populares. Eu disse que ele é oriundo do povo, e somente obteve a benevolência do voto popular, quando abriu mão de uma série de compromissos populares, para não “assustar” as chamadas elites. Foi, sem dúvida, o maior avanço democrático da história desse País, mas tem um pezinho na ajuda de forças eleitorais poderosas que, se não o apoiaram, não o atrapalharam, apostando no seu fracasso estrepitoso, para voltarem depois como “salvadoras da pátria”, como sempre o fizeram, para manter o povo sob o seu tacão. 

Repito, pois: um governo “do povo” é uma falácia, um fato que não ocorre nunca nem no Brasil nem em nenhum outro país do Ocidente. E a nação mais poderosa da Terra, os Estados Unidos, é um exemplo mais do que acabado de que a democracia ali está a anos luz do povo: o processo de escolha dos candidatos é baseado unicamente no seu poder de arrecadar dinheiro para a campanha; depois, o processo eleitoral é indireto e, nas últimas “eleições” (sim, com aspas), houve claramente um vitorioso pelo voto, mas elegeu-se aquele que foi escolhido pelo tal do “colégio eleitoral”, num processo que remonta a fundação da “democracia americana” (deveria poder colocar, pelo menos, umas dez aspas), quando outras eram as forças eleitorais e outro o país, um processo, portanto, arcaico e hoje totalmente sem sentido. Embora, isso não importe muito, já que o processo todo é viciado e o eleito nunca foi, não é e nunca será um legítimo representante do povo, mesmo que seja negro, como o ex-presidente Barak Obama. 

A segunda parte da tal definição de democracia, redundantemente “um governo pelo povo e para o povo”, pode ser desmontada facilmente. Se não se elegem legítimos representantes do povo, nenhum governante tem realmente compromisso com as demandas populares. Nenhum governante governa “pelo povo” que o elegeu ou aplica programas de governo que sejam realmente “para o povo”. Você vai dizer que eu estou exagerando, que houve governantes que fizeram isto ou aquilo pelo povo, que construíram obras ou deixaram um bom legado para o povo. Sim, em sei disso. E podemos listar praticamente todos os presidentes do Brasil: todos eles deixaram alguma “contribuição” para o povo. Mas não exatamente “pelo povo”. Se fizeram isto ou aquilo, se construíram pontes e estradas, se desenvolveram o ensino, se tiveram políticas sociais voltadas para o combate ao desemprego ou à miséria e etc. e etc. etc., tudo isso foi feito porque é preciso que o povo tenha algum quinhão da riqueza, como forma de controle, de manutenção do status quo, de que a pobreza não atinja pontos de extrema penúria que coloque em risco os seus empregos (digo, os empregos dos governantes e de quem os governa, os capitalistas, as elites mantenedoras do sistema). Fazem, sim, governos “populistas” (e aí emprego o termo no seu sentido mais nobre), não porque se comprometeram com o povo, mas porque, se não o fizerem, arriscam-se a colocar em desequilíbrio o sistema, levando ao colapso de bancos, indústrias, agronegócio etc. 

Abro novamente um parêntese, para falar de Lula. Seu governo foi um governo “para o povo”, apesar de tudo. Conseguiu, com todas as dificuldades políticas de um partido sem maioria no Congresso, impor políticas de erradicação da pobreza e de pleno emprego, que tiraram milhões de pessoas da linha da miséria. Mas seu governo parou aí: não conseguiu, porque não havia, como disse apoio político, aprofundar reformas que o Estado Brasileiro necessita, para definitivamente aplicar políticas de distribuição de renda permanentes de amplo espectro, para que se tornasse um governo “para o povo e pelo povo”. Embora tendo feito sua sucessora, esta também não teve condições de aprofundar quaisquer políticas que mudassem o País. Reeleita, sofreu um golpe sujo das forças conservadoras e não pôde concluir sua obra de preparar terreno para a volta de Lula. E as forças conservadoras lançaram mão do mais sórdido meio de perseguição a um líder: o Judiciário. Através de um juizinho de primeira instância, devidamente orientado e formado nos corredores da CIA e nos escritórios luxuosos de Wall Street, a perseguição a Lula tem como objetivo eliminá-lo da corrida presidencial, já que há a possibilidade de que, usando de seu carisma e sua força política, inclusive internacional, um terceiro mandato de Lula levasse à aprovação de reformas de interesse do povo. E isso dá urticária aos mandatários maiores da Nação, os banqueiros, os grandes capitalistas, os donos de indústrias e de empresas agrícolas, cujo sonho é alinhar definitivamente o Brasil aos Estados Unidos. Portanto, urge condenar e até prender o senhor Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo que hão haja provas para isso. 

Fechemos nosso parêntese e voltemos ao nosso tema: a farsa da nossa democracia. E vamos, agora, falar de um elo importante, ou melhor, o elo mais importante do processo democrático verdadeiro: o povo. 

Todo discurso, seja ele realmente democrático, seja ele falsamente democrático, como costumam ser os discursos dos conservadores e de todos os seus próceres e seguidores, coloca como centro de todas as suas preocupações o povo, o povo que ouve e se cala, ou o povo que ouve e aplaude, ou o povo que ouve e vaia. Mas é só isso o que resta ao povo fazer: ouvir. E votar. 

Então, você vai me dizer: está aí a democracia – o voto popular. Sim, o voto na urna é feito pela mão do povo. Mas... será que a mão do povo tem mesmo liberdade de escolher os melhores? Mesmo que os tais “melhores” não venham a ser exatamente os seus legítimos representantes? 

A resposta é não. Com todas as letras. Raríssima mente o povo escolhe realmente os melhores. E mesmo quando os escolhe, ou são minoria ou são anulados de uma forma ou outra pelas forças conservadoras, seja pela cooptação econômica e ideológica ou, até mesmo, pela força e pelo impeachment, como ocorreu recentemente. 

E o povo não escolhe bem por diversas razões, dentre as quais vou citar as duas mais importantes e interligadas: ignorância e manipulação. 

Um ídolo do futebol brasileiro (e mundial) disse, uma vez, que “o povo não sabe votar”. Foi massacrado. E ainda o é, toda vez que se levanta essa questão. Mas a verdade é cristalina: o povo não sabe votar. 

E por que o povo não sabe votar? 

Primeiro, porque a maioria não tem educação formal suficiente, para perceber-se no mundo como realmente é: uma maioria explorada, sem outras perspectivas de vida que não sejam medíocres, um povo mantido na ignorância pela falta de escolas, pela falta de educação de qualidade, pela falta de condições de vida para até mesmo lutar por melhores condições de vida. Um povo, enfim, sem consciência de si, de sua situação e, portanto, um povo que não sabe o que pode querer e o que pode conquistar, pois não sabe e não lhe permitem saber e conhecer a força que tem. 

A manutenção desse povo nas trevas da falta de autoconhecimento tem um custo altíssimo no desenvolvimento do próprio País, mas esse custo tem sido bancado de forma sistemática e cruel pelas forças conservadoras e mantenedoras do sistema capitalista selvagem ou liberal (você pode escolher qual demonização você quer lhe dar) imposto ao País desde sempre. E sem perspectivas de que isso mude. 

O sistema de ensino no Brasil não precisa de reformas, precisa apenas de duas coisas: investimento na melhoria dos salários dos professores e investimento na melhoria da infraestrutura educacional. 

A primeira, melhoria dos salários dos professores, é o único caminho para a excelência do ensino, porque com melhores salários, os professores irão investir mais em sua própria carreira, melhorando o seu desempenho; e mais: com melhores salários, gradativamente, a profissão atrairá cada vez mais talentos, que começarão a fazer a diferença na qualidade do ensino, em vez de buscarem sustento e possibilidade de sucesso profissional em outros campos. Com isso, o nível de ensino melhora e teremos uma juventude realmente preparada para os desafios da Nação e não uma juventude treinada para ser mão de obra barata, segundo os interesses do capital. 

A segunda, investimento na infraestrutura educacional, é ainda bem mais fácil de realizar: prédios, carteiras, livros, bibliotecas, condução para os alunos, laboratórios, tudo isso não tem custo tão alto, se tivermos a decência e honestidade de buscar o melhor pelo menor preço ou o melhor sem sobre-preço. Nem é preciso construir CIEPs (um projeto fantástico de Darci Ribeiro, no Rio de Janeiro, infelizmente sucateado) ou CEUs (um projeto também muito bom, implantado pela Secretaria da Educação de São Paulo, na gestão de Marta Suplicy, a caminho de ser sucateado), embora até mesmo se objetive a chegar a tal ponto, mas basta, no começo, uma política de pé no chão, de utilização inteligente dos recursos disponíveis. 

Perceba-se que o ensino, o sistema educacional, tem um lugar fundamental em todo o processo democrático. Somente através da escola, da educação como um todo, um povo toma consciência de si mesmo, de sua força, e consegue se livrar do opressor ou dos opressores, estejam eles encastelados em posições de mando político ou desfrutando das benesses do capital que explora e mantém escravos. 

Somente a educação liberta um povo, insisto. Ou você acha que nosso sistema educacional é ruim por culpa dos professores ou por falta de dinheiro? Não, nosso sistema educacional é ruim porque querem que ele seja ruim. 

Tirando o povo da ignorância, damos o primeiro passo para que aprenda realmente a escolher seus representantes (mesmo, repito, que esses representantes não sejam exatamente aqueles que verdadeiramente o representem). Mas isso não basta: é preciso que o povo não seja manipulado. 

Mesmo um povo que tenha um excelente ou muito bom sistema educacional pode ser manipulado, para manter o status quo (vejam os Estados Unidos). A manipulação começa com o cerceamento dos professores e mestres em sala de aula, quando o Estado impõe ao sistema educacional a ideologia dominante, não permitindo que as ideias e as discussões fluam livremente. Ou você acha que o movimento “Escola sem partido” visa a quê? Não é preciso que os mestres e professores professem ou ensinem ideologias, mas é necessário que permitam a discussão, que provoquem a discussão, que levem seus alunos a suas próprias conclusões, ou seja, é preciso liberdade, coisa que o citado movimento quer, obviamente, cercear, em nome, mais óbvio ainda, da manutenção do status quo, ou seja, da ignorância do jovem. 

Outra forma de manipulação do povo, mesmo o mais culto, ocorre com o controle dos meios de comunicação. Na maioria dos países ditos “democráticos”, os meios de comunicação social estão nas mãos de poucas empresas ou “famiglias”, comprometidas todas elas com as forças conservadoras, ou por ideologia ou por serem sustentadas por elas. Isso acontece no Brasil, de forma escancarada, cruel e aberta. Redes de televisão, imprensa, emissoras de rádio, praticamente todo o nosso complexo de comunicação está nas mãos de poucos. Que sabem muito bem o que querem e o que não querem, por isso interferem, com seu poder, na composição de governos, na escolha de ministros, nos destinos da Nação. 

Se não houver um contraponto a esse mando exagerado dos meios de comunicação, com o impedimento de que grandes grupos mantenham controle de diversos meios, ou com a sua democratização, através do financiamento de meios ligados a sindicatos e a organizações sociais populares, o poder dessa mídia não pode ser desprezado na hora das eleições e na influência do eleitorado. Temos um novo “eleitorado de cabresto”, o “eleitorado da mídia”, que vota segundo as notícias – verdadeiras ou falsas ou, se verdadeiras, devidamente editadas – veiculadas pela mídia, segundo a opinião de donos da emissora de televisão ou a opinião de comunicadores de auditório ou “formadores de opinião” devidamente orientados pela “voz do dono”, segundo os interesses das forças conservadoras que os sustentam. 

Há muitas outras variáveis que levam o povo à ignorância, à ignorância de si mesmo, de seu poder, de sua força. Mas, por enquanto, fiquemos com essas, que já são suficientes para nosso propósito de reafirmar a falácia de nosso sistema dito democrático. 

Se é que isto seja consolo, o que nos resta dizer é que não estamos sozinhos. Se nosso sistema eleitoral ou político não tem quase nada de democracia, muito pelo contrário, é um sistema pensado, construído e mantido para que o povo não tenha voz e para que as forças dominantes continuem no comando, podemos afirmar que, no mundo ocidental, praticamente nenhum país obteve ou vive uma democracia plena. Há-os mais ou menos democráticos, mas totalmente democráticos só na nossa imaginação, no nosso desejo.



novembro 30, 2017

DOIS EXEMPLOS ABSURDOS DA REFORMA TRABALHISTA







Não sou advogado. Apenas penso com os dois neurônios que ainda tenho. E com um pouco de lógica.

Dois artigos da reforma da CLT do governo golpista chamaram minha atenção: primeiro, que a ação trabalhista deve conter um valor específico e, segundo, se o reclamante (o empregado / operário) perder a causa, deve pagar as custas e o advogado do reclamado (da empresa / do capitalista).

Valor. Significa que, quando o empregado entrar com uma ação, ele deve explicitar que ela vale, por exemplo, 50 mil reais. 

Ora, uma ação trabalhista, na maioria dos casos, não reclama “valores”, mas DIREITOS, ou seja, ele se sentiu esbulhado por um patrão que não cumpriu a legislação (pelo menos, na sua percepção) e deixou de lhe pagar direitos legais. E esses pagamentos não feitos, se devidos e reconhecidos pela Justiça do Trabalho, refletirão sobre todas as demais verbas indenizatórias, como FGTS, férias, repouso semanal remunerado etc. etc. Como calcular tudo isso, se o trabalhador não tiver acesso à tabela de remuneração da empresa e a dados que só uma decisão judicial pode obter? É jogar para o trabalhador – a parte mais fraca – o ônus de buscar uma prova reconhecidamente difícil de obter, mesmo por experientes advogados trabalhistas, além do fato de que tudo isso tem que ser calculado em função de longos períodos até chegar ao período dos últimos dois anos (que é o reconhecido pela legislação para se reclamar direitos), com juros e correção monetária. Esse cálculo, em geral, é feito pelos peritos da Justiça do Trabalho, podendo ser contestado por ambas as partes, e devidamente julgado e homologado pelo juiz.

Pagamento de custas. A Justiça do Trabalho funciona, ou seja, sempre julga as causas que lhe são propostas. Mas é lenta. Uma ação trabalhista pode levar anos. E os patrões dispõem de advogados especializados – e caros – para protelar as ações, quando lhe convém. Os advogados trabalhistas, em geral, cobram seus honorários a partir de uma porcentagem da ação ganha. Se o trabalhador tiver que pagar, em caso de perda da ação, as custas de longas batalhas judiciais, de protelações provocadas pela empresa, e ainda mais os honorários dos dois advogados, sendo que os advogados patronais são, em geral, escritórios bem montados e muito bem remunerados, é óbvio que ele, depois de anos e anos, não terá certeza ou garantia de que poderá desembolsar as absurdas quantias necessárias. Ou seja, a lei provoca uma insegurança total para o empregado: a maioria preferirá aceitar as injustiças a ter de se submeter a uma possível situação de devedor da justiça, num futuro que ele não pode prever. 

Nos dois casos citados (e deve haver outros detalhes na nova legislação), o que pretendeu o legislador é inverter de forma cruel, ilógica, absurda, a relação de poder entre o leão (o capitalista) e a presa (o empregado), dando ao leão uma força desproporcional em relação àquela que ele já possui.

Se, com a legislação anteriormente em vigor, muitos patrões pouco se lixavam para o cumprimento de seus deveres legais para com seus funcionários, porque contavam com acordos na Justiça do Trabalho (em geral, favoráveis a eles) e com protelações que jogam os pagamentos devidos para datas tão distantes que, muitas vezes, o valor devido (mesmo com juros e correção monetária) é sempre inferior àquele que realmente tem direito o trabalhador, imagine-se agora como vão agir. Isso significa a diminuição atroz de ações trabalhistas, o enterro da Justiça do Trabalho, que se tornará, em alguns anos, totalmente ociosa e inútil. Além do fato de que vai simplesmente arrasar com a profissão de advogado trabalhista.

Eu acredito que as duas medidas sejam inconstitucionais. Mas, até que a nova legislação tenha casos julgados que possam ser contestados quanto à sua inconstitucionalidade junto ao STF, que costuma demorar até alguns anos para julgar, o prejuízo para os milhares de empregados e operários já terá sido imenso. Para alegria dos patrões, a quem serve a nova legislação.




setembro 22, 2017

EXÉRCITO NAS FAVELAS DO RIO DE JANEIRO









Quem viu a entrevista do Comandante do Exército, General Eduardo Villas Boas, ao Pedro Bial, nessa última terça-feira, dia 19 de setembro de 2017, deve ter percebido que, nas entrelinhas, o General foi muito claro: o Exército nas ruas, patrulhando favelas, como polícia, é só um jogo de cena do governo Temer, através do Jungmann, e do governador do Rio. 

O Exército não irá fazer o papel de polícia, porque, num confronto com traficantes – evento quase inevitável -, se um soldado matar o bandido, ele terá que ser julgado pelas leis civis, e não militares, como deseja a Justiça Militar, o que poderia levar o soldado a ser condenado.

Sem a proteção das leis militares, não há possibilidade de as Forças Armadas se constituírem em polícia ou virem a substituir a polícia, em ações nas favelas do Rio ou em quaisquer outras ações que impliquem ou possibilitem confronto com a bandidagem. 

Há ainda outros fatores, claro, como a própria destinação constitucional das Forças Armadas, além do fato de que seus soldados não estão preparados para policiamento, e sim para confronto em caso de guerra ou guerrilha.

Assim, essa história de que o governo autorizou forças militares do Exército para patrulhar as favelas do Rio tem apenas a finalidade de dar um pouco de “sensação de segurança” à população carioca, ou seja, é apenas uma tentativa de tapar o sol da desgraça do povo com a peneira da confissão de que a polícia carioca e as demais forças de segurança interna do País são incompetentes para resolver a situação de guerrilha urbana em que os traficantes transformaram o morro e a cidade do Rio de Janeiro.

E essas forças de segurança interna são incompetentes porque dependem de ordens, de armamentos, de treinamento, de serviço de inteligência e de muitas outras coisas mais de governos absolutamente incompetentes.




setembro 03, 2017

POR QUE UM PIB RIDÍCULO É TÃO COMEMORADO?












Há algo de podre, de muito podre, na falsa euforia dos meios de comunicação ao anunciar o aumento de 0,2% do PIB, depois de meses e meses de recessão. 



Excluindo os fatos óbvios de que esse aumento não indica retomada do crescimento, mas apenas um respiro causado por fatores como diminuição das taxas de juros, injeção de bilhões do FGTS na economia (um golpe de mestre, que trouxe a milhares e milhares de pessoas a possibilidade de pagar pequenas dívidas e atender a uma demanda extremamente reprimida de consumo), além do próprio movimento natural do processo econômico, cuja corda, esticada quase ao limite, tende à exaustão e a uma reação normal ao mercado.



Considere-se ainda que esse PIB miserável de 0,2% não contempla os setores mais importantes e sustentáveis do atual modelo econômico, como indústria e serviços, mas foi alavancado pelo aumento do consumo das famílias (como o dinheiro das contas do FGTS, repetimos) e do crescimento do agronegócio, cuja importância para a economia geral do país é menor, em virtude de suas características de sazonalidade e de ser um setor voltado fortemente para o mercado externo, além de que os empregos gerados no campo e os lucros lá obtidos pouco atingem as cidades, onde se concentra a maioria absoluta da população brasileira.



Mas, voltemos à ideia de que há algo de podre nessa euforia, como se um evento milagroso estivesse prestes a acontecer e que, a partir de agora, todos começarão a encontrar empregos e serão felizes para sempre.



Para entendermos o que se passa realmente, é preciso voltar-se para a figura central da atual crise brasileira: Michel Temer. Sua preocupação não é com o Brasil nem com os brasileiros, mas com a sobrevivência de seu pífio governo, ou ainda, com a sua própria sobrevivência (e, por extensão, com a sobrevivência da quadrilha que ele comanda).



Acossado por denúncias gravíssimas, que podem levá-lo a passar seus últimos dias de vida na prisão, quando puder ser alcançado pela justiça, Temer só tem uma saída: continuar presidente. E mais: tentar reverter a extrema rejeição de sua figura e de seu governo incompetente junto à população, para, quem sabe, tentar uma reeleição e obter mais quatro anos de impunidade.



Para que isso tenha um mínimo de possibilidade de êxito, lança-se numa ofensiva que pode levar o País a uma situação pior do que aquela que produziu Fernando Henrique Cardoso, quando da compra dos congressistas para aprovarem a emenda da reeleição.



Naquela época, FHC ainda tinha algum prestígio e seu nome ainda despertava um mínimo de esperança, pelo seu passado e seu histórico de homem da “esquerda” (que, na verdade, ele nunca foi) e professor emérito, respeitado nos meios acadêmicos e até no exterior, principalmente depois da capitalização do êxito do Plano Real, devidamente apropriado por ele.



Desprovido de qualquer qualidade pessoal ou política, de qualquer histórico de respeitabilidade, por ter sido sempre um político medíocre, apesar de haver exercido vários postos na administração pública e de haver chegado à presidência do seu partido, Temer vai ter que jogar muito mais pesado do que FHC. E já provou que não tem (como nunca teve) escrúpulos nem medidas para se salvar (a si e à quadrilha que o acompanha): o episódio grotesco e humilhante para a democracia brasileira da compra de deputados, através da liberação das execráveis “emendas parlamentares”, para livrá-lo do primeiro pedido de licença para ser processado pelo STF dá bem a noção do que ele é e será capaz de fazer.



O seu plano de sobrevivência começa com a tentativa de impingir-nos a mentira da recuperação econômica. Como perdera prestígio junto aos órgãos de comunicação, diante das denúncias e da queda de popularidade (tem apenas 5% do apoio da população), só podemos desconfiar de que há algo de muito podre nessa euforia da mídia e de sua tentativa de levar o povo brasileiro a pensar que realmente o pior já passou e que estamos diante de um processo de retomada do desenvolvimento, com o ministro da fazenda a todo momento tendo espaço na televisão, a dar entrevistas que beiram o ridículo, de tal modo o discurso se mostra artificialmente otimista, prevendo um 2018 senão estupendo, mas de plena recuperação.



O segundo passo do plano articulado pelos estrategistas e marqueteiros do Temer consiste em tentar consolidar no exterior uma falsa imagem de estadista. A viagem à China, com resultados práticos risíveis (embora comemorados), diante do poderio econômico daquele país, é o exemplo acabado dessa tentativa de projetar no exterior sua imagem, para que essa imagem pouco a pouco se instale na mente dos brasileiros, recuperando parte do prestígio desgastado, e comece a ganhar corpo a ideia da reeleição. 



Sabe-se que, durante uma campanha eleitoral, muita coisa pode acontecer, como a manipulação da imagem de um político desconhecido ou desgastado se transformar naquilo que a imaginação de marqueteiros pagos a preço de ouro possa criar, para iludir o povo. Principalmente quando o partido do dito candidato tem um bom número de minutos na propaganda oficial pela televisão. Basta lembrar a campanha de João Dória à prefeitura de São Paulo (um exemplo entre muitos outros): um empresário pouco conhecido foi transformado no “João trabalhador”, como se ele fosse um novo Lula da Silva, a surgir das lutas periféricas da cidade, para o sucesso alcançado com o suor de seu trabalho. Aos marqueteiros de Dória só faltou dizer que ele saiu da periferia num pau-de-arara.



Tudo isso, é claro, tem um custo. FHC quebrou o país para se reeleger e deixou-o quebrado para seu sucessor, com altas taxas de desemprego e miserabilidade, que custaram a sobrevivência de milhares de pessoas.



Quanto vai custar, mais uma vez, ao povo os delírios de sobrevivência do Temer? Por enquanto, é impossível calcular, assim como é inútil tudo isso que dissemos ou viermos a dizer: diante da poderosa avalanche de mentiras que começarão a ser veiculadas a partir de agora, diante da poderosa máquina de compra de consciências já posta em movimento, só podemos afirmar que o preço dessa podridão toda será alto, muito mais alto do que pagamos pelos delírios de poder de FHC.



Só nos resta torcer para que tudo isso não dê certo, que o dito de Lincoln, de que não se pode enganar todo o povo todo o tempo, se cumpra, e deixar no ar a pergunta: quem vai nos livrar de Temer?






agosto 22, 2017

CHEGA DE CANALHICES! CHEGA DE CANALHAS! REFORMA POLÍTICA, E NÃO APENAS ELEITORAL






Discute-se em Brasília, no Congresso, uma reforma que estão chamando de “reforma política” (e a mídia está referendando o termo), mas que não passa de uma REFORMA ELEITORAL, ou seja, estão discutindo formas de eleição que facilitem a vida dos políticos, que permitam que eles sejam reeleitos e se perpetuem no poder. Assim, vêm à tona, termos tão absurdos quanto distantes de nossa realidade como “distritão”, distritão misto” e outras barbaridades. Tudo isso para enganar a nós, povo e eleitores. Não precisamos disso. Formas de eleição são o de menos. O que realmente precisamos é de uma REFORMA POLÍTICA, ou seja, de uma reforma que MUDE RADICALMENTE A MANEIRA DE SE FAZER POLÍTICA NESTE PAÍS.



Isso, infelizmente, não passa pela cabeça de nossos “ilustres” parlamentares, só preocupados com sua sobrevivência, com sua “boquinha” nos cargos que conquistaram e que pretendem continuar conquistando.



Por isso, republico aqui algumas ideias genéricas do que entendo por REFORMA POLÍTICA, escritas já há muitos anos e devidamente publicadas em meus blogs, entre milhares de outros textos. A essas ideias, acrescento apenas umas duas ou três: 1. Reafirmo a ideia de não reeleição para o mesmo cargo (que já consta abaixo); 2. A definitiva eliminação da figura do vice para cargos majoritários (se houver impedimento, por qualquer razão, do titular, que se convoquem, a qualquer tempo, novas eleições, para um mandato tampão); 3. Que se acabe definitivamente com qualquer tipo de suplência: os eleitos para cargos legislativos sejam proibidos de renunciar ou licenciar-se para ocupar quaisquer outros cargos e, se houver vacância definitiva, que assuma o cargo (definitivamente) o seguinte mais votado do mesmo partido, conforme determine a lei.



No mais, as ideias abaixo são teóricas, mas perfeitamente aplicáveis, se transformadas em processos e métodos operacionais definidos em lei. Leia, discuta, discorde à vontade, mas pense bem, antes de emitir qualquer opinião, por favor, mas eu acho que só com algo parecido é que poderemos acabar com as canalhices e com o canalhas, ou, pelo menos, diminuir bastante o seu campo de ação:



“A democracia é a única forma de governo capaz de dar algum tipo de dignidade ao ser humano. Volto ao tema, para falar, agora, de uma forma de democracia, de seus aspectos funcionais. Porque a democracia brasileira, nesse início de milênio, precisa com urgência de uma reforma política profunda, que jogue para escanteio definitivamente todos os aproveitadores do bem público. Uma reforma que privilegie a arte da política e não os trambiqueiros de plantão que se apresentam em pele de cordeiro a cada ciclo eleitoral, perpetuando-se no poder como abutres a comer o fígado da nação, que um dia não mais regenerará ante a fome insaciável desses urubus. Uma reforma política que acabe com os políticos. Essa a única solução. Não a reforma que está por aí, simples paliativo de um problema que se torna cada dia mais trágico. Uma reforma que, simplesmente, elimine o político profissional da sociedade brasileira ou, pelo menos, coloque-o num curral específico e controlável, onde todos possamos vê-lo. Somos todos nós, o povo, os nossos próprios políticos. Não precisamos de intermediários, mas de representantes. Assim, a minha ideia é a seguinte. Primeiro: partidos políticos. Devem ser células mínimas de produção ideológica. Explico: um partido político deverá ter um número limitado de cidadãos, talvez uns dois mil, no máximo, que trabalhem para definir o seu espectro ideológico, suas propostas de sociedade, seus planos de governo, enfim, para estabelecer claramente perante o povo o tipo de País que deseja, caso obtenha o poder nas urnas, seja no âmbito federal, estadual ou municipal. Essas ideias devem ser divulgadas periodicamente, através dos meios de comunicação, como é hoje o horário eleitoral gratuito. Com algumas diferenças fundamentais: a propaganda será do partido e não de seus membros; não pode haver divulgações de realizações, mas apenas de ideias e projetos; não será permitido o aparecimento de membros do partido, mas os programas serão apresentados por profissionais do mercado, neutros, portanto. E há mais um detalhe importante: esses membros permanentes do corpo partidário nunca poderão se candidatar a qualquer cargo. São apenas gestores partidários, homens e mulheres que tenham o ideal de construir uma proposta de Nação, mas não de se constituírem em representantes do povo. Também não poderão ocupar cargos oficiais nos governos de seus partidos, servindo apenas como uma espécie de conselho para os governantes, cuidando para que os planos traçados sejam postos em prática, de acordo com a carta do partido e suas propostas e planos. Terão prestígio, é claro, porque influenciarão decisivamente para o progresso do País e, por isso, deverão ser mantidos com bons salários por fundações arrecadadoras de fundos da sociedade, de forma clara e transparente, com suas contas sendo auditadas de acordo com a lei. Serão eles, na verdade, os únicos políticos profissionais em exercício permanente de sua atividade. 





Como, então, se darão as eleições? Cerca de um ano antes de cada eleição, os cidadãos interessados em concorrer a qualquer cargo devem inscrever-se num dos partidos existentes, de acordo com suas convicções e preferências. Essas inscrições podem ser individuais ou virem respaldadas por associações populares, sindicatos, organizações não governamentais, universidades etc. Um pretendente não pode, teoricamente, inscrever-se por mais de um partido. Se o fizer, mesmo escolhido como candidato de um partido, pode ter seu nome impugnado pela Justiça Eleitoral, a pedido ou não de qualquer entidade ou cidadão. Terminado o prazo de inscrição partidária, cada partido terá seis meses para analisar os currículos de cada pretendente e escolher aqueles que devem concorrer por sua bandeira, em convenções a serem definidas por lei. Escolhidos os representantes, os partidos devem inscrevê-los imediatamente na Justiça Eleitoral, para, durante os próximos três meses, correrem os prazos para impugnações etc. Começa, então, a corrida eleitoral: por três meses, os partidos apresentarão ao povo os seus candidatos, devidamente financiados por dinheiro público de acordo com a lei que defina os critérios de propaganda, gastos etc. Os candidatos serão cidadãos comuns, devidamente legalizados pela Justiça Eleitoral, os quais, durante os três meses de campanha, são licenciados de seus empregos e sustentados pelo partido e pelo financiamento público definido em lei. Se eleito, seus empregos serão congelados até a sua volta. Se não, têm o direito de retomar sua vida normal, com, por exemplo, um ano de garantia de emprego. O mesmo valendo para aqueles que cumprirem o mandato. Não há direito à reeleição para o mesmo cargo e a lei pode definir ainda se haverá permissão para reeleição a cargos de volta, isto é, um deputado federal voltar a disputar mandato estadual ou municipal. De qualquer forma, devem ser definidas regras que evitem a criação de vínculos permanentes com os eleitores ou que permitam que se perpetuem na política os mesmos de sempre, para que se possa cumprir um processo de renovação constante dos quadros partidários. Os mandatos deverão ser, para todos os cargos, de seis anos. Mecanismos legais de controle podem, no entanto, ser ativados por cidadãos descontentes com a atuação de seus representantes, a partir do terceiro ano de mandato, com a finalidade de cassação ou substituição do político que não estiver trabalhando a contento da comunidade. A fidelidade partidária, durante o cumprimento do mandato, deverá ser um princípio fundamental: qualquer eleito que mudar de partido ou se desvincular do partido por que foi eleito ou, mesmo, não estiver cumprindo com as diretrizes partidárias, poderá ser cassado e ter seus direitos políticos suspensos, de acordo com a lei. Por outro lado, terminadas as eleições, os cidadãos não-eleitos se desvinculam automaticamente do partido pelo qual concorreram, podendo, nas eleições seguintes, se candidatar por qualquer outro. O número de partidos políticos em funcionamento será livre, porém o partido que não alcançar determinada densidade eleitoral, por duas eleições consecutivas, terá seu registro cassado, só podendo voltar a se reorganizar após um determinado período de quarentena, sendo tudo isso definido em lei. As eleições serão realizadas todas na mesma data. Somente depois da apuração dos resultados das eleições majoritárias (governos municipais, estaduais e da República) os candidatos aos cargos de senadores, deputados federais e municipais e vereadores serão definidos, dando-se ao partido vencedor a maioria de 50% mais um dos componentes do Senado e das Câmaras Legislativas. Assegura-se, assim, a governabilidade dos municípios, dos estados e do País, sem necessidade de negociação de apoios políticos e conchavos de qualquer espécie. Não serão, portanto, permitidas alianças partidárias. Eu creio que, com tal reforma política, possamos acabar de vez com o balcão de negócios em que se transformou o trato da coisa pública pelos políticos profissionais. Reduzidos a poucos e à direção partidária, sem direito ao voto popular, embora influentes, poderão ser mais bem controlados pela sociedade. Como não pode haver reeleição para o mesmo cargo, os cidadãos terão de apresentar bons serviços para tentar permanecer por mais tempo na vida pública. Mesmo assim, garantir-se-á a renovação constante dos quadros políticos e partidários. E isso transformará cada cidadão em potencial candidato, sem a necessidade de alianças espúrias e negócios sujos para obter legenda e se perpetuar nos cargos. Essa a reforma política de meus sonhos. Infelizmente, só meus."


agosto 01, 2017

ARMADILHAS DA DEMOCRACIA




(Delacroix)




Existem três categorias de pessoas a quem o povo, ou seja, nós, os vira-latas, os que lutamos para viver, os que somos assalariados, não importa se ganhando salário mínimo ou 80 mil reais por mês, nós que vendemos nossa força de trabalho, não pode e não deve jamais dar o seu voto:



1. EMPRESÁRIOS, ou seja, patrões, donos de indústrias, donos do capital; não estou falando de pequeno ou médio empresário, não: estou me referindo aos que frequentam os salões acarpetados de organizações patronais como FIESP, FIEMG, FIERJ etc.; os que voam de jatinho para realizar seus negócios escusos ou não; os que arrotam caviar porque comem caviar; os que gastam numa garrafa de vinho o que você leva meses para ganhar; os que compram políticos, compram juízes, compram a nossa consciência e ainda tripudiam sobre nós...



POR QUE NÃO VOTAR EM EMPRESÁRIOS? VOCÊ ME PERGUNTA.



Afinal, são preparados; muitos se formam em escolas de administração no exterior; falam várias línguas; viajam pelo mundo todo; aparentam ter conhecimentos e cultura; são finos e educados e blá, blá, blá, blá... Podemos enumera um vasto rol de qualidades dessa gente...



Mesmo assim, não se pode votar nessa gente, por um motivo muito simples: ELES JÁ DETÊM O PODER ECONÔMICO E DAR-LHE O PODER POLÍTICO É SUCÍDIO DE UM POVO, DE UMA NAÇÃO!



2. JUÍZES, DESEMBARGADORES ETC., o povo do judiciário, ou seja, essa gente que ganha de salário mensal o que você leva meses e meses de trabalho; essa gente que, sim, parece trabalhar muito, tem mil processos para julgar, mas que tem mil mordomias, como casa, automóveis, funcionários à disposição, estudo para os filhos etc. etc. etc.; essa gente que tem o poder de decidir se o ladrão de galinha vai para a cadeia mais sórdida e o empresário rico será ou não condenado e, se condenado, vai cumprir pena e, se cumprir pena, será em regime fechado ou em prisão domiciliar, em sua casa com piscina aquecida, quadra de esportes, churrasqueira e mil outras mordomias; essa gente que tem o viés de julgar, de mandar cumprir e sua palavra é a lei, às vezes até ao revés da lei.



POR QUE NÃO VOTAR EM JUÍZES, DESEMBARGADORES ETC. ? VOCÊ ME PERGUNTA.



Afinal, são conhecedores da lei e, portanto, deveriam fazê-la cumprir, já que somos todos iguais perante ela; são também cultos, estudiosos, viajados, conhecedores dos meandros da burocracia e da alma humana...



Mesmo assim, não se pode votar nessa gente, por um motivo muito simples: ELES JÁ DETÊM O PODER DO MANDO, DO CONHECIMENTO DO MANDO, E DAR-LHES PODER POLÍTICO É COLOCAR O PESCOÇO DO POVO NA FORCA, JÁ QUE, PERANTE A LEI, TODOS SÃO IGUAIS, MAS PERANTE UM JULGADOR, ALGUNS SÃO MAIS IGUAIS.



3. RELIGIOSOS, seja de qualquer religião ou seita; essa gente que tem o poder de seduzir, em nome de um deus; que tem o poder de orientar as pessoas – sempre em nome de um deus, de um profeta, de um livro sagrado – sobre o que fazer de suas vidas, se pode ir ao cinema, se pode ver televisão, se pode se vestir assim ou assado; essa gente que ganha milhões vendendo a palavra de seu deus; essa gente que diz que é pobre, mas em geral mora em mansões, possui haras, bens inumeráveis, sempre à custa do pecado dos fiéis; essa gente que não titubeia em condenar os pecados alheios, em mandar para o inferno todos aqueles que não rezam pela sua cartilha, ou melhor, pela sua doutrina; essa gente que parece tão bondosa, que faz tanta caridade – com o dinheiro alheio...



POR QUE NÃO VOTAR EM RELIGIOSOS? VOCÊ ME PERGUNTA.



Afinal, são pessoas bondosas, crentes em deus, seguidores de princípios etc. etc. etc., além de, em geral, serem bons oradores, o que demonstra que conhecem a vida, as pessoas; são, em geral, guias espirituais bastante sensatos etc. etc. etc.



Mesmo assim, não se pode votar nessa gente por um motivo muito simples: ELES JÁ SE ARVORAM O PODER DIVINO E JÁ MANDAM NA VIDA DAS PESSOAS DE MIL FORMAS; SE LHES DERMOS O PODER POLÍTICO, TRANFORMARÃO A VIDA DE QUEM NÃO SEGUIR A SUA DOUTRINA NUM INFERNO, JÁ QUE SE ACHAM EMISSÁRIOS DE SEU DEUS. UM REGIME TEOCRÁTICO É MIL VEZES PIOR DO QUE UMA DITADURA LEIGA, POR PIOR QUE SEJA QUALQUER DITADURA.




A democracia é um sistema de governo imperfeito, cheio de contradições, complexo e nem sempre totalmente confiável, mas é o único sistema, até agora, que nos permite respirar um pouco de liberdade, de igualdade, de sonhar com melhores perspectivas de vida. Jogar a democracia nas mãos dessa gente é destruí-la e voltar ao estado de barbárie de governos autoritários e contrários ao povo. Não vote nessa gente. Mesmo que se arrependa de seu voto, por dá-lo a pessoas desqualificadas, que não seja esse arrependimento por haver votado em pessoas que, aparentemente qualificadas, só querem a destruição do estado democrático.

maio 19, 2017

MORO, LAVA JATO E O PÓS-TEMER







Só não vê quem não quer: Moro é juiz completamente alucinado por uma ideia fixa, a de condenar Lula. Suas sentenças não têm pé nem cabeça, ou existe alguma lógica (porque juridicamente nem é possível determinar) que um juiz condene alguém (o doleiro Youssef) a mais de CEM ANOS DE PRISÃO e, algum tempo depois, transforme essa pena em TRÊS ANOS DE DETENÇÃO DOMICILIAR? Ele faz do ato de julgar, portanto, atos completamente discricionários, de acordo com suas CONVICÇÕES e não de acordo a lei. Além disso, é chantagista: prende pretensos acusados e pretensos criminosos e só os solta depois de meses e meses em que, através dessa prisão, "convence-os" a fazer delação premiada. Ou seja, ou fala ou mofa na cadeia. Não é, portanto, uma pessoa confiável, nesse aspecto. Além disso, tem em sua biografia antecedentes de apoio e filiação paterna ao PSDB, com cujos líderes sempre conviveu. Não é, portanto, um juiz isento. Seu curso nos E. U. A. deu-lhe não só instrumentos jurídicos de rastreamento do dinheiro desviado (a que se deve, em parte, o sucesso da operação que ele comanda), como sedimentou seu lado "de direita" moralista e justiceiro, que esconde um imenso anseio por se tornar celebridade. Se aqui houvesse uma justiça séria, já teria sido afastado há muito tempo do comando de uma operação tão importante para o País, mas que está-se desviando de seus rumos, pela ideia fixa do Moro. Tanto há desconfiança com relação a esse juiz, que as últimas delações, que envolvem agora o governo do golpista Temer e o prócer máximo do PSDB, Aécio Neves, foram realizadas diretamente para a Procuradoria Geral da República, embora ainda no âmbito da Lava Jato.


Quanto à saída para o atual imbróglio, provocado pela suspeição de toda a cúpula de um governo que nunca teve legitimidade, talvez a mais sensata pudesse ser um acordo que levasse à Presidência da República a presidenta do Supremo Tribunal Federal, com o compromisso de levar o País a uma estabilidade política e jurídica até as eleições diretas de 2018.


Esse governo teria tempo suficiente para estabilizar a economia, fazer uma minirreforma política, acalmar os ânimos, para que o processo de radicalização atual não se aprofunde e para que os ódios se transformem em bom senso. Se os atuais jogadores do tabuleiro político sobreviverem, poderão ser eles os protagonistas das eleições de 2018, e estou falando aqui, especificamente, de pessoas como Lula – que tenha um julgamento justo, sem as artimanhas de um juizeco cheio de pinimbas e não confiável – e outros que possam surgir ou já estão por aí, tentando sobreviver.


Se esta não for a saída, a segunda possibilidade é realmente aprovar uma PEC que permita eleições diretas e gerais (para presidente, Câmara e Senado) em quatro ou seis meses, posse imediata de um novo governo escolhido pelo povo, com um mandato de quatro anos (com a possibilidade de reeleição) ou de seis anos (sem reeleição, nem para o legislativo). Na atual conjuntura, o risco é o surgimento de algum aproveitador – que os há muitos por aí, só aguardando uma oportunidade – auto intitulado salvador da pátria, que jogue o País num caminho de extremismos e radicalismos ainda piores do que os que vivemos atualmente.


O que não se pode admitir é deixar o País à deriva, nas mãos dessa camarilha golpista, incompetente e corrupta.


maio 15, 2017

ARACY DE ALMEIDA









Quase fui às lágrimas ao assistir, na televisão, a um documentário sobre Aracy de Almeida. A nossa grande dama do samba. Passaram-me tantas coisas na cabeça. Quase não tenho, aqui, nestas poucas linhas, a capacidade de dizer tudo o que penso a respeito de uma mulher e cantora que teve seus dias de glória – pouca, pelo talento que era – nos anos trinta e cinquenta do século passado, um século tão distante deste mundo cheio de novidades e tecnologias.


Por que lembrar Aracy de Almeida? Por que escrever sobre Aracy de Almeida?


Nem eu mesmo sei por quê. Apenas quero dizer que ela foi uma das vozes mais fantásticas do samba brasileiro. Samba? Será que ainda há gente que goste de samba? Ou aquele tempo em que se dizia que “quem não gosta de samba / bom sujeito não é / é ruim da cabeça / ou doente do pé” já morreu, já era, é coisa de “gente antiga”, de gente como Chico Buarque de Holanda?


Pobre país o meu, o seu, o nosso! Esquecido! Nem se lembra mais de quanto houve de beleza no batuque de um samba autêntico. De um samba bem sincopado na voz negra de negros que subiam e desciam morros de favela na cadência de uma batida de um surdo, na malemolência de uma mulata. Mulata? Cadê o Sargenteli? Cadê a Elza Soares? Cadê o Martinho da Vila? E, acima de tudo, cadê Noel Rosa?


E voltamos para a Aracy. Aracy e Noel. Um não existia sem a outra. Aracy, a que deu alma àquilo que Noel escreveu nos anos trinta. Ou antes. Aracy, a voz anasalada que canta como se cantar não fosse nada mais que uma coisa que sai assim da garganta, como o canto do sabiá e do pintassilgo. 


Os argentinos dizem que Gardel canta cada dia mejor. Os estadunidenses reconhecem em Lady Day a voz do jazz. Os franceses entronizam Piaf. O mundo reconhece Callas. As vozes do século XX passam por Sinatra, Schippa, Elvis, sei lá, tantos, nomes que ecoam, que fizeram do canto a razão de viver e morrer. 



E nós? Tivemos Orlando Silva, Francisco Alves e Sílvio Caldas. Para fazer frente a Gardel. Para fazer frente a Sinatra. E tivemos Maysa e Elizete. E tivemos Aracy. Aracy de Almeida, aquela que foi palhaça do idiota do Sílvio Santos, por um punhado de dinheiro que lhe permitisse viver os seus últimos anos com um pouco da dignidade financeira que deixava nos programas de que participava.


Sempre odiei Sílvio Santos. E odiei-o mais ainda, quando o vi transformar numa ridícula palhaça de auditório uma das mais importantes vozes do samba desse país de coxinhas que não tem memória, que não sabe reconhecer os talentos que teve e tem, que não admira quem vê no espelho que lhe mostra um país de vira-latas. 


Não, não sou “nacionalista”. Sou até um tanto, um tanto não, mas muito, muito internacionalista. Não gosto de fronteiras. Mas defendo a cultura de um povo. E sei que a cultura de uma etnia, de uma “nação”, não está nos limites geográficos traçados no mapa, mas na construção lenta e gradual de suas tradições.



Aracy de Almeida, a Araca para os amigos, meus caros e poucos leitores destas linhas, foi a Billie Holliday do samba, se soubéssemos reconhecer uma voz diferente, uma voz extraordinária; se soubéssemos reconhecer que Noel Rosa e o samba, que o Pixinguinha, que Lamartine... que tantos e tantos que escreveram versos e compuseram músicas para a batida do samba são os nossos maiores patrimônios culturais e que eles – os nossos sambistas – são um traço dos mais importantes de nossa cultura e de nossa identidade, como povo, como nação, como gente.