maio 19, 2017

MORO, LAVA JATO E O PÓS-TEMER







Só não vê quem não quer: Moro é juiz completamente alucinado por uma ideia fixa, a de condenar Lula. Suas sentenças não têm pé nem cabeça, ou existe alguma lógica (porque juridicamente nem é possível determinar) que um juiz condene alguém (o doleiro Youssef) a mais de CEM ANOS DE PRISÃO e, algum tempo depois, transforme essa pena em TRÊS ANOS DE DETENÇÃO DOMICILIAR? Ele faz do ato de julgar, portanto, atos completamente discricionários, de acordo com suas CONVICÇÕES e não de acordo a lei. Além disso, é chantagista: prende pretensos acusados e pretensos criminosos e só os solta depois de meses e meses em que, através dessa prisão, "convence-os" a fazer delação premiada. Ou seja, ou fala ou mofa na cadeia. Não é, portanto, uma pessoa confiável, nesse aspecto. Além disso, tem em sua biografia antecedentes de apoio e filiação paterna ao PSDB, com cujos líderes sempre conviveu. Não é, portanto, um juiz isento. Seu curso nos E. U. A. deu-lhe não só instrumentos jurídicos de rastreamento do dinheiro desviado (a que se deve, em parte, o sucesso da operação que ele comanda), como sedimentou seu lado "de direita" moralista e justiceiro, que esconde um imenso anseio por se tornar celebridade. Se aqui houvesse uma justiça séria, já teria sido afastado há muito tempo do comando de uma operação tão importante para o País, mas que está-se desviando de seus rumos, pela ideia fixa do Moro. Tanto há desconfiança com relação a esse juiz, que as últimas delações, que envolvem agora o governo do golpista Temer e o prócer máximo do PSDB, Aécio Neves, foram realizadas diretamente para a Procuradoria Geral da República, embora ainda no âmbito da Lava Jato.


Quanto à saída para o atual imbróglio, provocado pela suspeição de toda a cúpula de um governo que nunca teve legitimidade, talvez a mais sensata pudesse ser um acordo que levasse à Presidência da República a presidenta do Supremo Tribunal Federal, com o compromisso de levar o País a uma estabilidade política e jurídica até as eleições diretas de 2018.


Esse governo teria tempo suficiente para estabilizar a economia, fazer uma minirreforma política, acalmar os ânimos, para que o processo de radicalização atual não se aprofunde e para que os ódios se transformem em bom senso. Se os atuais jogadores do tabuleiro político sobreviverem, poderão ser eles os protagonistas das eleições de 2018, e estou falando aqui, especificamente, de pessoas como Lula – que tenha um julgamento justo, sem as artimanhas de um juizeco cheio de pinimbas e não confiável – e outros que possam surgir ou já estão por aí, tentando sobreviver.


Se esta não for a saída, a segunda possibilidade é realmente aprovar uma PEC que permita eleições diretas e gerais (para presidente, Câmara e Senado) em quatro ou seis meses, posse imediata de um novo governo escolhido pelo povo, com um mandato de quatro anos (com a possibilidade de reeleição) ou de seis anos (sem reeleição, nem para o legislativo). Na atual conjuntura, o risco é o surgimento de algum aproveitador – que os há muitos por aí, só aguardando uma oportunidade – auto intitulado salvador da pátria, que jogue o País num caminho de extremismos e radicalismos ainda piores do que os que vivemos atualmente.


O que não se pode admitir é deixar o País à deriva, nas mãos dessa camarilha golpista, incompetente e corrupta.


maio 15, 2017

ARACY DE ALMEIDA









Quase fui às lágrimas ao assistir, na televisão, a um documentário sobre Aracy de Almeida. A nossa grande dama do samba. Passaram-me tantas coisas na cabeça. Quase não tenho, aqui, nestas poucas linhas, a capacidade de dizer tudo o que penso a respeito de uma mulher e cantora que teve seus dias de glória – pouca, pelo talento que era – nos anos trinta e cinquenta do século passado, um século tão distante deste mundo cheio de novidades e tecnologias.


Por que lembrar Aracy de Almeida? Por que escrever sobre Aracy de Almeida?


Nem eu mesmo sei por quê. Apenas quero dizer que ela foi uma das vozes mais fantásticas do samba brasileiro. Samba? Será que ainda há gente que goste de samba? Ou aquele tempo em que se dizia que “quem não gosta de samba / bom sujeito não é / é ruim da cabeça / ou doente do pé” já morreu, já era, é coisa de “gente antiga”, de gente como Chico Buarque de Holanda?


Pobre país o meu, o seu, o nosso! Esquecido! Nem se lembra mais de quanto houve de beleza no batuque de um samba autêntico. De um samba bem sincopado na voz negra de negros que subiam e desciam morros de favela na cadência de uma batida de um surdo, na malemolência de uma mulata. Mulata? Cadê o Sargenteli? Cadê a Elza Soares? Cadê o Martinho da Vila? E, acima de tudo, cadê Noel Rosa?


E voltamos para a Aracy. Aracy e Noel. Um não existia sem a outra. Aracy, a que deu alma àquilo que Noel escreveu nos anos trinta. Ou antes. Aracy, a voz anasalada que canta como se cantar não fosse nada mais que uma coisa que sai assim da garganta, como o canto do sabiá e do pintassilgo. 


Os argentinos dizem que Gardel canta cada dia mejor. Os estadunidenses reconhecem em Lady Day a voz do jazz. Os franceses entronizam Piaf. O mundo reconhece Callas. As vozes do século XX passam por Sinatra, Schippa, Elvis, sei lá, tantos, nomes que ecoam, que fizeram do canto a razão de viver e morrer. 



E nós? Tivemos Orlando Silva, Francisco Alves e Sílvio Caldas. Para fazer frente a Gardel. Para fazer frente a Sinatra. E tivemos Maysa e Elizete. E tivemos Aracy. Aracy de Almeida, aquela que foi palhaça do idiota do Sílvio Santos, por um punhado de dinheiro que lhe permitisse viver os seus últimos anos com um pouco da dignidade financeira que deixava nos programas de que participava.


Sempre odiei Sílvio Santos. E odiei-o mais ainda, quando o vi transformar numa ridícula palhaça de auditório uma das mais importantes vozes do samba desse país de coxinhas que não tem memória, que não sabe reconhecer os talentos que teve e tem, que não admira quem vê no espelho que lhe mostra um país de vira-latas. 


Não, não sou “nacionalista”. Sou até um tanto, um tanto não, mas muito, muito internacionalista. Não gosto de fronteiras. Mas defendo a cultura de um povo. E sei que a cultura de uma etnia, de uma “nação”, não está nos limites geográficos traçados no mapa, mas na construção lenta e gradual de suas tradições.



Aracy de Almeida, a Araca para os amigos, meus caros e poucos leitores destas linhas, foi a Billie Holliday do samba, se soubéssemos reconhecer uma voz diferente, uma voz extraordinária; se soubéssemos reconhecer que Noel Rosa e o samba, que o Pixinguinha, que Lamartine... que tantos e tantos que escreveram versos e compuseram músicas para a batida do samba são os nossos maiores patrimônios culturais e que eles – os nossos sambistas – são um traço dos mais importantes de nossa cultura e de nossa identidade, como povo, como nação, como gente.



maio 11, 2017

LULA, FASCISMOS, XENOFOBIA E CRISE HUMANITÁRIA






Comecemos pelo ex-presidente Lula. Ouço e leio por aí que Lula fez um grande governo “apenas” no aspecto econômico e social. Criou um modelo de desenvolvimento que tirou da miséria mais de 30 milhões de brasileiros, mas não fez as reformas que o Estado precisava, nas áreas da política, da administração e até mesmo da economia. Foi, nesse aspecto, um conservador. Concordo em parte. Realmente o governo Lula e, depois, o primeiro governo Dilma, não conseguiram tirar o Brasil de certos atrasos institucionais, com reformas políticas e outras que destravassem os mecanismos do desenvolvimento de uma vez por todas. Isso, porém, não pode ser debitado à vontade dos ex-presidentes: Lula, em seus dois mandatos, teve sempre um Congresso conservador, golpista e manipulado por interesses muito diferentes de qualquer reforma que se pudesse propor. Nenhuma proposta reformista foi aprovada ou sequer apreciada pelos “ilustres” deputados e senadores. E não foram poucas as tentativas. Nem reforma política, nem reforma fiscal, nem qualquer lei que modificasse estatutos rígidos do conservadorismo que marcou o Congresso. E isso se repetiu com Dilma Rousseff e, no começo do seu segundo mandato, se agravou de tal forma a ojeriza do conservadorismo a qualquer possibilidade de reforma, que – sabemos bem – acabou por prevalecer o golpismo que de implícito se tornou explícito. Portanto, dizer que Lula e Dilma não reformaram o Estado e não o prepararam para o salto necessário para o desenvolvimento é só meia verdade. Não o fizeram porque não puderam.



O eleitorado brasileiro elegeu Lula, mas não elegeu o Partido dos Trabalhadores. O PT sempre assustou a burguesia e teve contra si, desde a sua fundação, uma notável má vontade e, posteriormente, uma explícita campanha das forças conservadoras, através da mídia. Os principais órgãos da mídia brasileira estão nas mãos de poucos e esses poucos são os mais legítimos representantes da oligarquia e do conservadorismo de que se tem notícia por essas plagas. Não conseguiu essa mídia destruir a imagem de Lula, tentativa quase levada a cabo durante a campanha presidencial em que Collor de Mello só saiu vencedor, porque ocorreu uma das mais escandalosas manipulações da Rede Globo de televisão, ao editar o último debate entre os dois contendores. O azar da direita, nessas eleições, foi que o governo Collor naufragou em escândalos e em medidas que não agradaram nem ao povo que o elegeu enganado, nem a seus eleitores maiores, a oligarquia conservadora. Pôde, então, o ex-presidente Lula ressurgir mais tarde, com uma imagem agora trabalhada para ser devidamente deglutida pelo eleitorado mais conservador e, até certo ponto, aceita pela oligarquia. Ganhou a presidência, mas não ganhou maioria no Congresso, o que o levou a fazer alianças, muitas vezes criticadas, com o único partido que lhe podia garantir alguma governabilidade, o PMDB, que, na verdade, nunca foi um partido político strictu sensu, mas uma frente agregadora do que de pior há na nossa política, o adesismo, o governismo a qualquer custo e, além disso, a sua ala mais podre, a dos corruptos. Essa a razão, portanto, de não poder aprovar no Congresso nada que pudesse vir a tornar-se empecilho para a oligarquia retomar, mais tarde, o poder, o que ela soube fazer através de um golpe muito bem articulado contra a presidenta Dilma Rousseff.



No momento atual, temos um arremedo de democracia, com um governo de falsas expectativas liderado por um fantoche da burguesia e das classes oligárquicas, a FIESP e seus agregados de todos os estados à frente. Michel Temer faz aquilo que está sendo articulado nos luxuosos escritórios da Avenida Paulista, no prédio simbolicamente piramidal da FIESP. Suas propostas “salvacionistas” têm apenas o objetivo de pagar a conta do golpe, através de reformas que prejudiquem os trabalhadores brasileiros e, consequentemente, fortaleçam a posição das oligarquias, que querem retomar as rédeas do poder e tirar o atraso dos tempos dos governos petistas, quando a única opção para manter-se foi através da corrupção de altos funcionários públicos, algo obtido, no entanto, principalmente por um grupo de empreiteiras, o que não redundou exatamente em benefício das indústrias e do agronegócio, os que mandam hoje no País e efetivamente o governam.



Para se sustentar, esse arremedo de governo conta com uma campanha – que se iniciou na preparação do golpe – muito bem articulada de setores produtivos com a mídia – sempre ela! – que impõe padrões de pensamento e de convencimento que eu chamo de métodos fascistas. 



É preciso ficar bem claro o que eu chamo de fascismo nesse momento delicado em que vivemos. O fascismo não é um partido político, nem mesmo um movimento ou uma ideologia bem estruturada e estabelecida em compêndios e teses. Fascismo, como eu o percebo, é um estado de espírito de uma oligarquia que vê o povo como escravo de um pensamento único que o mantém sob o jugo dessa classe, devidamente doutrinado por igrejas, associações, mídia, partidos políticos, escolas, academias, livros e tudo o mais que se possa utilizar para levar essa doutrinação às pessoas, de tal modo que as levem a aceitar a escravidão como uma benesse e a obediência ao estado – não necessariamente totalitário, mas totalitarista – como única forma de obter uma vida melhor.



Neste momento, o que vemos é a exata afirmação dessas ideias fascistas: a reforma da previdência, por exemplo, é servida ao povo como uma benesse, como uma salvação das futuras aposentadorias, quando, na verdade, é só uma forma de obrigar o povo a trabalhar mais, por mais tempo, sem a devida contrapartida de contribuição dos empregadores e do Estado, que formam a base da previdência no Brasil. E assim são e serão com todas as demais reformas, projetos e programas que vierem a ser implantados por esses fascistas disfarçados em salvadores da pátria. Criam-se novas lideranças – com ideias mais velhas que a origem das oligarquias – como o atual prefeito de São Paulo, um dos mais evidentes defensores desse fascismo disfarçado: sua cultura não ultrapassa a leitura de meia dúzia de livros de autoajuda, mas a biografia elaborada por seus marqueteiros para sua campanha política só faltou dizer que ele, um empresário de sucesso, nasceu na Zona Leste de São Paulo e veio para o centro num pau de arara, para construir com suor de seu rosto a fortuna que hoje o sustenta, e depois migrar para a rica Zona Sul, símbolo de homem honesto e trabalhador, o “João trabalhador”, do refrão repetido nas propagandas eleitorais. Um embuste que custou milhões de reais e vai custar ao povo paulistano e, por decorrência, ao povo brasileiro, mais uma centena de direitos jogados no ralo pela classe que esse indivíduo representa.



Há fascismo quando um Estado de direito é atropelado por firulas jurídicas que tiram da presidência uma líder legitimamente eleita, para colocar em seu lugar um preposto do atraso e do conservadorismo, sob as barbas devidamente aparadas por sabe-se lá quantos milhões de dólares de um Congresso corrupto e de um Supremo Tribunal Federal conservador, nitidamente predisposto a representar a Justiça que fecha os olhos para as leis constitucionais que devia defender, não se sabe exatamente se motivado por interesses escusos ou por sua formação conservadora e elitista. Há fascismo quando tribunais de justiça julgam réus em processos políticos sob o argumento de que não há provas, mas há inequívocas convicções dos julgadores e dos manipuladores de processos. Há fascismo quando prisões de suspeitos se prolongam por meses e meses a fio, sem julgamento, apenas para que esses suspeitos delatem os crimes cometidos por seus pares, numa forma de tortura quase imperceptível, mas que não deixa de ser tortura. Há fascismo quando toda uma sociedade é impelida a ideias xenófobas contra retirantes e imigrantes. Há fascismo quando se atiça em redes sociais o ódio a parcelas desassistidas da população, apenas por serem pobres ou dependentes de drogas, em campanhas higienistas e elitistas. Há fascismo quando se estabelece uma situação de quase impunidade a quem divulga ideias sexistas, machistas, homofóbicas e racistas, levando ao aumento do assassinato de mulheres, gays, negros e pobres em todas as camadas da sociedade, numa espécie de limpeza étnica e social. Há fascismo quando a política se subordina a ideias fundamentalistas de líderes religiosos eleitos como novos próceres do conservadorismo e da intolerância. Enfim, há sim, um forte cheiro de fascismo no ar, com esse governo que está aí, que não foi legitimamente eleito e que engana o povo e divulga ideias que o leva a louvar a escravidão e a aceitar como benesse aquilo que o prejudica e o torna cada vez mais estúpido e escravizado.



Um fascismo xenófobo que não é privilégio do Brasil, mas que se estende pelo mundo, através de governos conservadores ou claramente fascistas, como de Donald Trump, nos Estados Unidos. Um tipo de pensamento que se espalha como praga pelos países periféricos, chegando até mesmo a assustar a velha e escolada Europa, mergulhada em contradições entre a xenofobia de alguns países e o pan-europeíssimo e o internacionalismo de outros, na dúvida entre aceitar – sob aplausos de alguns e o ódio de tantos – levas e levas de migrantes vindos de países onde o totalitarismo ou as lutas religiosas promovem lutas fratricidas e massacres genocidas ou a expulsá-los como renegados. No Sudão, no Norte do Brasil ou na fronteira do México com os Estados Unidos, na Ásia, na Europa, em toda parte milhões de seres humanos tornam-se apátridas e miseráveis, graças à falta de humanidade de governos que se dizem democráticos, que se dizem humanistas, mas que fecham suas fronteiras e seus recursos a pessoas que só desejam um lugar para viver em paz. 



Não há saída para essa estupenda crise humanitária que se vive hoje, que não passe por uma completa e absoluta mudança de pensamento, de paradigma, que leve os países a adotarem, de forma total, o internacionalismo, abrindo sem restrições suas fronteiras para todos os seres humanos que quiserem se reestabelecer em lugares distantes de sua origem, sejam por quaisquer motivos, de perseguição, de fome, de falta de perspectiva. A readequação e aceitação de levas de migrantes possivelmente concentradas, no início, em poucos países, mas depois, ao longo do tempo, por movimentos voluntários a reassentar-se em muitos outros, será um processo doloroso, complexo, que poderá desestruturar a economia do mundo, provocando talvez uma grande confusão, uma nova babel, para usar um manjado símbolo bíblico, mas será a única saída para uma nova ordem econômica, social e humana. Os governos totalitários e perseguidores dos direitos fundamentais do ser humano se extinguirão progressivamente, por falta do oxigênio que os alimenta, os seres humanos escravizados.



Uma utopia? 



Talvez. Mas sem utopias, sem sonhos, sem esperança não há saída para o mundo, não há saída para a crise de estupidez, xenofobia, racismo, sexismo, homofobia e tantas outras “doenças” de que sofre hoje a raça humana. Talvez, com a incrível aproximação de tantas etnias, de tantos costumes diferentes, de tantos rostos e feições diferentes, depois do estranhamento, depois de se acostumarem uns com os outros, não sobrevenha um período de respeito mútuo? Quem sabe não ganhe supremacia um pensamento de que somos todos da mesma raça, e só podemos sobreviver se respeitarmos a vida como bem supremo, se nos respeitarmos uns aos outros e se respeitarmos a casa, o mundo, em que vivemos?

fevereiro 23, 2017

COMO A MÍDIA MENTE E MANIPULA






Quando digo que a mídia mente até quando fala a verdade, isso não é uma frase retórica. É a verdade. É o que acontece. 

Vou ilustrar o que eu afirmo com um exemplo de notícia na área científica, para não estar contaminada com os meandros melífluos da política e da economia, campo em que são hábeis manipuladores.

Ontem, 22/2/2017, o Jornal Nacional da Rede Globo noticiou a descoberta de sete exoplanetas (planetas fora do sistema solar) com possibilidade de existência de vida. 

Não vou detalhar o conceito de vida que os cientistas utilizam nesse contexto, mas resumidamente é seguinte: quando dizem que há “possibilidade” de vida num lugar remoto, como esses planetas, estão-se referindo à possibilidade, em virtude de uma série de outras possibilidades, da existência de água e, por isso, da “possibilidade” de existência de micro-organismos. Nada de civilizações avançadas, nada de ETs, como a menção da palavra “vida” em outros planetas geralmente, carrega, associada a outras bobagens pseudocientíficas.

E o JN termina, “ingenuamente”, essa notícia, afirmando que essa descoberta abre perspectivas de sobrevivência futura para a raça humana. Ou seja, que no futuro, poderíamos todos viver felizes para sempre num planeta longínquo, quando nossas reservas aqui se esgotarem etc. etc. etc.

Tais bobagens são ditas assim, como se fossem verdades absolutas, quando a realidade científica consiste em fatos extremamente diferentes. Vejamos: esses exoplanetas estão a 40 mil anos luz da Terra. Você pode pensar: o que isso significa? Nada, não é? Pois pense: a luz viaja a 300.000 quilômetros por segundo. Para atingir esses planetas, um raio de luz precisaria viajar durante 40 mil anos. Quarenta mil anos! Não há qualquer perspectiva de que, pelo menos nos próximos mil anos, ou seja, no ano 3017, tenhamos a mínima possibilidade de haver desenvolvido qualquer veículo que viaje a tal velocidade. Mesmo que isso venha a acontecer, seria de tal monta o seu custo, que o tornaria inviável para praticamente todos os homens, exceto uma mínima e selecionadíssima tripulação. Mas, repito: isso é, por enquanto – eu ouso afirmar, – algo fora de cogitação, uma quase impossibilidade científica, mesmo que passem dez mil anos.

Por que esses redatores do JN escrevem tais bobagens, repetidas depois, dezenas e centenas de vezes por outros canais, para incendiar a imaginação das pessoas, com essa mensagem extremamente falsificada para incutir um certo grau de otimismo?

Ora, nada mais passiva do que uma comunidade otimista, que confia no futuro, que vê como possível uma saída para a humanidade. Assim, devidamente anestesiadas, as pessoas estão preparadas para ouvir que o Banco Central baixou os juros tantos por cento e que isso se constitui na menor taxa dos últimos dois anos. Ou seja, uma verdade – a diminuição da taxa de juros – travestida ou incluída numa grande mentira devidamente preparadora de otimismo, para, de forma sub-reptícia, levar o telespectador, os milhões de telespectadores, a pensar que a crise, enfim, começa a ser domada e que o País vai melhorar.

Esse é um simples exemplo de uma prática corriqueira: dizer mentiras para esconder a verdade ou dizer verdades de tal forma manipuladas que, no contexto devidamente preparado para fazer as pessoas acreditarem em qualquer coisa, impor “suas verdades”, ou seja, as mentiras e os vieses ideológicos que desejam implantar na cabeça das pessoas.

Teoria da conspiração? Antes fosse. Mas isso acontece desde o século XIX, desde o nascimento da grande imprensa. Leia Balzac, As Ilusões Perdidas. Acompanhe o desenvolvimento das grandes corporações de mídia, seu poder de manipular, de destruir reputações, de construir falsas expectativas, de influir no destino de todas as nações que possuem sistemas avançados de transmissão de notícias, sejam Estados Unidos, sejam a França, Alemanha ou Inglaterra.

O sistema mundial de mídia está corrompido. Corrompido pela manipulação, pela mentira, pelo compromisso com os ideais corporativistas, econômicos, ideológicos e políticos de seus donos. Não há imprensa livre. Há liberdade de imprensa. Que são coisas diferentes. Os governos que ousam contrariar a grande mídia de seu país são imediatamente taxados de antidemocráticos e caem em desgraça. Não importa se o governo é de direita ou de esquerda, embora, em geral, sejam os governos de esquerda aqueles que mais se incomodam com as mentiras da mídia. 

Estamos vivendo um momento interessante desse embate, justamente nos Estados Unidos, onde um governo de extrema direita entra em choque com a mídia, com toda a mídia, do país. Vamos aguardar os acontecimentos e ver no que isso vai dar, pois é, talvez, a primeira vez em que um governo de direita de uma grande nação capitalista – que se gaba de ter total liberdade de imprensa - se revolta contra as tais manipulações da mídia. 

Então, quando ler, ouvir, acompanhar uma notícia, qualquer notícia, principalmente notícias que tenham a ver com a sua vida, que podem mudar alguma coisa no país, no estado ou na cidade em que você vive, preste muita atenção, leia e ouça com cuidado, não acredite de cara, busque outras informações, procure verificar a lógica dos fatos, desconfie. Desconfie sempre. É o melhor meio de não se tornar manipulado pela corja de mentirosos que comanda as agências distribuidoras de notícias, as emissoras de rádio e de televisão, as redações de jornais e revistas e até mesmo a internet.




dezembro 19, 2016

SÃO PAULO: NOVO PREFEITO, IDEIAS VELHAS CAIADAS DE NOVO





Muitos hão de se lembrar do Sujismundo, que deu vida à campanha do governo federal (ainda na época da ditadura) – “povo civilizado é povo limpo”, nos anos 70. Muitos interpretaram essa campanha invertendo a frase – “povo limpo é povo civilizado”, para dar a conotação mais precisa do que estava nas intenções dos ditadores, ou seja, só é civilizado quem é limpo. Ou algo assim.

Pois bem, ressuscitamos o Sujismundo para falar do prefeito eleito de São Paulo. Sua primeira grande ação – sem dúvida, de marketing – será “limpar” a cidade, que ele já declarou que está “imunda”. Começando pela Avenida Nove de Julho, com limpeza de calçadas, muros, canteiros centrais etc. E que essa operação deverá ser estendida a toda a cidade, através das subprefeituras.

Tirando o marketing, sem dúvida ninguém pode ser contra a que a cidade se torne um pouco mais “civilizada”, que é o que está por debaixo da ideia do prefeito eleito. Civilização significando limpeza. Ou, se formos um pouco mais ao fundo, higienização.

O termo é forte? Não, não é. Para a cabeça de pessoas como o prefeito eleito, “povo limpo é povo civilizado”. Ou seja: não importa que a cidade tenha carências profundas de habitação, saneamento básico, transporte, mobilidade urbana, tratamento do lixo, desfavelização e, principalmente, educação. Tudo isso pode ficar em segundo plano, se tivermos melhores calçadas, jardins e praças e parques bem cuidados, guias pintadas, muros sem pichações etc.

Eu disse, no título desse artigo, ideias velhas caiadas de novo. Sabe por quê? Porque tudo isso me lembra um outro prefeito, que fazia muito bem esse marketing: Jânio Quadros. E o que deixou o ilustre ex-presidente para a cidade? Que eu me lembre, a descoberta dos arcos do Bixiga, ali na Avenida 23 de Maio. Além, é claro, das encrencas que ele arrumava, multando pessoalmente pessoas e empresas que ele achasse que deviam ser multadas, enquanto se dirigia de sua casa para a prefeitura, fato que alimentava uma certa imprensa. E alimentava o folclore de que ele se nutria para manter a ideia de homem enérgico e realizador.

Será que o prefeito eleito de São Paulo, ao assumir a 1º de janeiro, começará também a percorrer a cidade para implicar com comerciantes, bater boca com feirantes e ambulantes, para mandar retirar os “noias” das sarjetas e expulsar os fiscais corruptos, que levam propina para aprovar qualquer coisa? Poderá, assim, ressuscitar não só Sujismundo, mas também a vassoura do Jânio.


Como dizia o Bruxo de Cosme Velho, “ao cabo, só existem ideias velhas caiadas de novo”.

dezembro 14, 2016

GOLPISMO, CORRUPÇÃO E INCOMPETÊNCIA








Os três pilares do atual (des)desgoverno liderado pelo Temer: golpismo, corrupção e incompetência.

Golpismo, porque é um governo ilegítimo, conforme já disse e repetiu mil vezes, com mil argumentos.

Corrupção, porque, para pagar o preço do golpe, que foi alto, precisa assaltar os cofres públicos. Também esse tópico está um tanto esgotado.

Incompetência.

Por que é um (des)governo incompetente?

Já dissemos e repetimos aqui: o golpe foi longamente tramado nos escritórios acarpetados dos patrões, liderados pela FIESP, que meteram o pé no freio e pararam com todos os investimentos. Paralisaram a economia, para derrubar a presidenta. Golpe concluído, com sucesso, esperava-se que a economia voltasse a crescer. Mas, passados seis meses, nada. Absolutamente nada. Quem está paralisado é esse governo golpista e corrupto.

Expliquemos três coisinhas básicas do sistema capitalista: 1. a base da pirâmide é formada por 2 ou 3 por cento dos poderosos, dos que mandam; depois, 30 ou 40 por cento de classe média, que usufrui do sistema e o mantém, sendo, ao mesmo tempo, o alimentador e amortecedor desse sistema; alimentador, porque influi no voto do povão e amortecedor porque, ganhando bons salários, sustenta uma boa parte desse povão, mantendo-o “em seu lugar”, isto é, nos subempregos ligados a classe média (copeiros, cozinheiros, cabeleireiros etc. etc. etc.) e nos empregos dos ricos, nas fábricas, ou seja, os 50 ou 60 por cento que constituem a base da pirâmide, aquela que não tem direito a nada; 2. para esse sistema funcionar, a economia precisa crescer, não necessariamente a grandes índices, mas um crescimento razoavelmente sustentável; 3. o sistema capitalista vive de crises periódicas, é normal e assimilável, todos já estão acostumados e, quando vem a crise, é só apertar bem o cinto dos mais pobres, com desemprego e outras medidas e um pouco da classe média, só um pouco, porque ela tem poder maior de reclamar.

Os governos anteriores, que tinham preocupação social, não mudaram o sistema, apenas o aperfeiçoaram, tirando da pobreza absoluta milhões de pessoas e dando poder de compra à classe trabalhadora. Isso se chama distribuição de renda. Coisa que o sistema capitalista odeia. O que, em parte, justificou o golpe.

Dito isso, voltemos à incompetência desse (des)governo: os golpistas escolheram um momento complicado para pisar no freio da economia, já que estávamos no meio de uma das crises do capitalismo, uma crise bastante forte, em termos internacionais. O Brasil até que, com uma boa reserva de capital, resistia bravamente à crise. Mas, quando os idiotas de nossos capitalistas resolveram retirar todos os investimentos e começaram a despedir funcionários, o País mergulhou profundamente na recessão, de forma bem mais acentuada do que esperavam os idiotas. E agora, o pior: tomado o poder, a incompetência desse (des)governo golpista e corrupto não consegue adotar medidas de curto prazo, para tirar o País do atoleiro em que eles nos meteram, não os governos anteriores, mas eles mesmos, os que estão por trás do golpe, os que financiaram o golpe.

Até agora, só souberam pensar em medidas de longo prazo, que poderão destruir o País no futuro e destruir o já depauperado sistema de proteção social duramente conquistado, como a tal PEC 55, que congela por 20 anos qualquer ação desenvolvimentista de futuros governos e a propalada reforma da previdência.

Administrar a economia no dia a dia, no momento, e incrementar medidas que reponham o País no caminho de saída do atoleiro, nada. Absolutamente nada. E se vierem, pode-se ter certeza de que serão medidas inúteis, mal alinhavadas, sem nenhum poder de fogo imediato contra a recessão, o desemprego e a depauperação das classes sociais mais baixas e até mesmo da famigerada classe média.

Portanto, só há uma saída: a imediata renúncia do atual invasor do Palácio do Planalto, com convocação de eleições diretas para presidente, deputados e senadores, com cláusula de exclusão de todos os atuais ocupantes de cargos públicos de concorrerem.


Porque o que é ruim, ou melhor, péssimo, tem todo o potencial para piorar. E muito.

dezembro 06, 2016

A HORA DO PESADELO 1: DEPOIS DO GOLPE CONSTITUCIONAL, UMA REPÚBLICA DE PROMOTORES





Arma-se no Brasil, sob as barbas de todos os democratas, com a tutela da mídia de direita e com o apoio de muitas camadas da população, mais um golpe contra o País. Nas salas acarpetadas do Ministério Público, um grupo de promotores articula - e com sucesso - a candidatura de Sergio Moro à presidência da República em 2018.

Será mais uma tentativa da direita de emplacar um presidente moralista e moralizador. Jânio Quadro quebrou a vassoura com que ia varrer a corrupção na cabeça deles e renunciou numa tentativa de “golpe popular”, acuado por forças “tremendas”, aquelas que o elegeram e que desejavam manipulá-lo. Collor correu tanto atrás de marajás, que teve sua eleição fraudulenta emborcada num escândalo de corrupção ainda mais cabeludo do que podia imaginar a parca imaginação da direita que o elegeu.

Agora, vão tentar a sorte com um “puro”, um cara que não é político, saído das cortes e dos tribunais persecutórios da corrupção de uma operação que a população acha que pertence a uma pessoa só, mas é do Ministério Público. Caso típico de apropriação indébita. Mas ninguém está lingando para isso. Como “dono” da Lava Jato, tem sido a estrela a desafiar até mesmo princípios elementares de direito, para manter-se em evidência na mídia. E tem o apoio dessa mesma mídia, sempre em busca de um “salvador da pátria”, em nome da direita hidrófoba e alijada do poder, quando da eleição de Lula, e, portanto, cheia de rancor, além de parcelas significativas da população que se deixa enganar pelos arroubos do juiz de primeira instância que se juga acima da lei. Suas prisões de autoridades e poderosos donos de empreiteiras encantam o público menos avesso às filigranas da lei e desencadeiam no povo a sensação de que, finalmente, não só os pobres vão para a cadeia. O bom moço que enfrenta os poderosos traveste-se de “salvador da pátria”. É tudo o que quer a direita.

Por qual partido sairá Moro candidato à presidência?

Não se enganem. Será por um partido pequeno. E sua filiação ocorrerá discretamente nos últimos instantes permitidos pela legislação eleitoral. Na calada da noite. Deixará que todos pensarem que ele não será candidato, porque não tem filiação partidária, durante o maior tempo possível. Só assim a propaganda disfarçada – que contraria a legislação – continuará por uns bons meses. E propaganda gratuita. Na mídia diária. Com as revelações e prisões bombásticas da Lava Jato apoiadas pelo Ministério Público e Polícia Federal. Com a ajuda de juízes do Supremo.

Então, como conduzido pelos braços do povo, haverá o dia do “aceito”, e a revelação do partido. Um partido pequeno, como disse, escolhido a dedo, devidamente “higienizado”, não tendo elementos comprometidos com qualquer falcatrua (o que é difícil, mas não impossível) e de direita ou centro-direita. As alianças virão em seguida. Alianças e apoios. E o povo, em delírio, será mais uma vez iludido. Votará no novo “salvador”, depois de mostras de emoção e choro pelos rincões da pátria amada salve, salve.

Se vai ganhar, é difícil predizer. A política costuma ser cruel com quem não está afeito a seu jogo, a seus meandros. Mas tem toda a possibilidade de vencer, principalmente se conseguir afastar o seu principal concorrente, o ex-presidente Lula.


Bem, se isso não acontecer, ou, pelo menos, se Moro não sair candidato, prometo que jogarei fora minha bola de cristal.


novembro 18, 2016

MANIPULAÇÃO, ESSE FOI SEMPRE O NEGÓCIO DA MÍDIA





A grande mídia, como a conhecemos hoje, teve o seu ovo da serpente gestado no século XIX, quando surgiram os primeiros grandes jornais e os primeiros jornalistas influentes. Sua história nada tem de grandioso ou de nobre, como nos conta Balzac em seu formidável “Ilusões perdidas”: o achaque de jornalistas fazia e desfazia reputações em troca de favores ou por um bom cheque na conta bancária.

O século XX trouxe a tecnologia e o desenvolvimento das mídias alternativas, muito além dos jornalões: primeiro, as revistas; depois, o rádio; em seguida, a televisão e, finalmente, a internet. Trouxe também o fortalecimento das grandes empresas de mídia, concentradas, mundialmente, nas mãos de poucos, de muito poucos, gerando fortunas, as fortunas gerando poder e as fortunas mais o poder gerando a grande manipulação que hoje vivemos.

A mídia capitalista defende valores capitalistas. E não há ninguém inocente nesse métier. O objetivo é um só: seduzir as mentes, moldá-las, conduzi-las para um convencionalismo de rebanho, num pensamento único de conservadorismo, de conformismo ao mundo de injustiças que se ergue de forma absoluta em torno da humanidade, em todo o mundo ocidental. Não há saída.

Somos todos criados e educados e devidamente doutrinados desde o berço pela grande mídia. Desde os “inocentes” desenhos animados e as “inocentes” revistinhas de Walt Disney, até as grandes publicações voltadas até mesmo para a “intelectualidade”, se estão inseridas no grande cadinho da mídia, se provêm dos mesmos donos, são todas publicações destinadas a um só objetivo: moldar o nosso pensamento e conformá-lo aos padrões vigentes. Poucas são as publicações que escapam desse esquema. E, se são muitos os que escapam a essa dominação, ainda são, infelizmente, a minoria.

O grande reforço disso tudo veio com o rádio, que ainda tem sua força, e com a televisão, a grande pá de cal na possibilidade de qualquer gesto libertador por parte das massas, já que as grandes redes televisivas estão nas mãos de grupos poderosos, graças a um movimento esperto desses grupos, que viram e previram sua força. Além disso, a televisão ainda é uma mídia dispendiosa, com tecnologia que depende de grandes investimentos, o que praticamente inviabiliza seu alcance a grupos menos preparados financeiramente, como sindicatos e associações operárias, que não têm meios para manter, por exemplo, um canal de televisão, mesmo que restrito a uma pequena cidade ou região.

Com todo esse poderio nas mãos, o capitalismo selvagem sabe manipular seus meios para manter o populacho em suas garras, como um grande polvo abraça com seus tentáculos as suas vítimas e as devora. Nas redações, nada se publica ou vai ao ar que não seja de interesse direto ou indireto do dono: a sua voz, a sua vontade, o seu pensamento é refletido em cada linha escrita ou falada, de forma total e absoluta.

O processo é bastante simples e, ao mesmo tempo, sofisticado. Vejamos alguns de seus procedimentos.

Tudo começa com a escolha do que vai ser publicado. Imagine que chegam às redações milhares e milhares de notícias. Claro que há aquelas notícias de repercussão mundial ou regional, de que não se pode escapar, como grandes tragédias, crimes, eleições, declarações bombásticas, notícias de celebridades etc. Mesmo essas grandes notícias, se alguma ou algumas têm implicações políticas e ideológicas, é necessário todo o cuidado para veiculá-las e elas receberão o tratamento devido. Por exemplo: um terremoto no Japão terá um tratamento devidamente “neutro”, mas de solidariedade às vítimas, com sutil ênfase à capacidade governamental de enfrentar a tragédia. Tudo muito bem cuidado, para não virar propaganda, mas devidamente embalado para levar o cidadão a sentir que o país haverá de superar esse momento. Se, no entanto, o terremoto ocorre num país comunista, como China ou Coreia do Norte, a cobertura também será de solidariedade às vítimas etc., mas com um sutil viés de crítica ao governo, através, por exemplo, da ênfase às dificuldades das autoridades de chegarem aos lugares onde a tragédia ocorreu. Tudo com bastante profissionalismo, claro, mas de forma a evidenciar sempre que há diferenças entre um país “livre” e outro “comunista”. É evidente que há sempre a mídia radical, que chuta o balde e faz duras e claras críticas a qualquer momento, em quaisquer ocasiões, mas esses casos são a exceção e não constituem  a melhor forma, a forma ideal como a grande mídia manipula.

Dissemos que a manipulação começa na escolha do que vai ser publicado, dentre milhares de notícias. E aqui a sutileza e a esperteza andam juntas. Por exemplo: nesta semana o Jornal Nacional da poderosa Rede Globo, no meio de centenas de notícias, muitas delas de grande interesse, como os passos do novo governo estadunidense e as prisões da Lava Jato, dedicaram extensos cinco minutos à seca no rio Negro, especialmente na região da Usina Belo Monte. Ora, seca no Nordeste atinge milhões de pessoas, mata gente e gado, provoca fome e miséria. Seca no rio Negro implica diminuição – pode até ser um pouco drástica – da vazão do rio, e atinge milhares, não milhões, de pescadores e outras pessoas, mas não provoca a mesma tragédia de sua congênere nordestina. Por que esse interesse todo da Rede Globo? Deixarei que o leitor conclua por si mesmo: ao final da reportagem, de forma sutil, indireta, no depoimento de uma ecologista, a emissora deixa nas entrelinhas que a culpa da seca é a barragem da Usina Belo Monte. Que foi construída no governo Dilma, que tem suas empreiteiras sob suspeita.... Enfim, pode ser também um ataque como forma de defesa.

Dissemos que a escolha da notícia ou das notícias a serem divulgadas, dentre as milhares que chegam às redações, constitui um fator de manipulação de grande poder. Isso é fácil de constatar, mesmo diante de tragédias que atingem outros países. No verão europeu do ano passado, por exemplo, Portugal queimava: quase oitenta por cento de seu território estava sob incêndios ou ameaça de incêndios, numa das maiores secas de sua história. Disso não saiu uma só linha aqui, no Brasil. Estava toda a mídia devidamente ocupada com outros assuntos de interesse imediato, como a desconstrução do governo recém-eleito. E também aí, a escolha criteriosa do fato passa por crivos rigorosos nas redações: se o número de assassinatos aumenta no Estado de São Paulo, onde a mídia adora e protege o governador, a notícia vem devidamente “amortecida” com dados estatísticos profusos que informam que outras formas de criminalidade têm diminuído, graças, claro, à ação da polícia etc. etc. Graças à mídia que, de forma sutil e competente, soube contornar a seca por que passou o Estado e, principalmente, a cidade de São Paulo, com matérias que,  se não ocultavam uma realidade impossível de ser ocultada, por outro lado mostravam ações otimistas e declarações bombásticas das autoridades que, por incompetência, haviam deixado a situação chegar aonde chegou, o senhor governador e seu governo saíram ilesos, politicamente, do que se chamou “crise hídrica” (um eufemismo para a incompetência).

Incensar os poderosos. Também essa uma forma de manipulação da mídia, sempre esperta, sempre pronta a servir, como forma de manter também o seu próprio poder. E os cães amestrados das redações são obrigados, pelo simples fato de que foram amestrados, ou porque, embora conscientes de seu papel, aceitam o fato de se tornarem capachos dos patrões, por emprego, por prestígio, por uma pequena parcela de poder e grana, a abanar o rabo para o patrão, o grande empresário que tudo controla e não perdoa qualquer deslize nas orientações e no posicionamento de seu jornal, de sua revista, de sua rede de televisão, cumprindo, assim, o papel de quinta coluna, de guardiões do status quo, de defensores da “moral”,  dos “bons costumes” e  do grande capital que seduz, controla e escraviza as mentes.

Ou você acha que o Brasil é um país conservador por quê?


Finalizando, pode-se dizer, talvez, que a salvação esteja nas mídias sociais, na internet. Talvez. E a minha dúvida reside no fato de que há três grandes problemas com a socialização da comunicação: primeiro, o lixo que ainda se publica é muito extenso, quase impedindo que se consiga separar de forma clara e precisa o que presta do que devia continuar no lixo; segundo, as mídias sociais são um território livre para psicopatas, para fascistas e nazistas de toda espécie, para indivíduos que não têm nenhum escrúpulo, por falta de formação ou por deformação de seu meio, de sua educação e da sua mente manipulada, e eles têm tomado de assalto esse meio, sufocando, muitas vezes, qualquer possibilidade de racionalidade; terceiro, as pessoas realmente preparadas para enfrentar a irracionalidade e com consciência para debater de forma coerente, com bons textos e reflexões profundas os grandes problemas não são muitas e acabam, muitas vezes, sufocadas pelo volume de asneiras que se publicam. Enfim, como tudo na vida depende de maturação e depuração, espera-se que as redes sociais se tornem mais republicanas, menos agressivas, menos raivosas; que aos poucos a racionalidade predomine e que, enfim, as pessoas percebam que esse é um meio de libertação e não de replicação das mesmas ideias, das mesmas ideologias, dos mesmos processos de escravização da grande mídia. Isso, se a grande mídia não conseguir fazer chegar seus tentáculos de polvo e dominar também esse meio de comunicação.


novembro 13, 2016

DYLAN, PRÊMIO NOBEL







O prêmio Nobel outorgado ao cantor pop Bo Dylan despertou a discussão “sexo dos anjos” se letra de música é literatura. Tentemos algumas explicações básicas.

Literatura, latu sensu, é tudo o que se escreve, desde o bilhete se deixa na porta da geladeira até a Odisseia, de Homero.

Literatura, strictu sensu, traz algumas complexidades em sua conceituação e algumas discussões quanto aos seus limites e abrangências.

Considera-se, no entanto, Literatura tudo aquilo que se escreve com valor artístico e no terreno da ficção. Vê-se que, nesse conceito, ficariam de fora, por exemplo, peças memorialísticas, muitas delas de grande valor literário; discursos e missivas, também muitos de indiscutível valor literário, aos quais – tanto a memórias quanto a discursos e missivas – a maioria dos críticos lhes dão o devido incenso e inclusão como obra literária.

Assim, conceituar Literatura, a grande arte do gênio humano, não se constitui uma tarefa muito fácil. E muitos ideólogos e estudiosos têm-se debruçado nessa difícil tarefa. É consenso, no entanto, que se incluem entre os gêneros literários as cantigas medievais, divididas em subgêneros como, cantigas de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer. Todas eram letras de canções que os trovadores medievais divulgavam pelas feiras e castelos e festas da época, acompanhadas de instrumentos típicos.

Portanto, letra de música pertence, sim, à Literatura. É Literatura. Se são boas ou ruins, se contêm ou não poesia, é outra discussão, que adentra o terreno movediço da estética. Não são exatamente “poemas”, são cantigas, que só existem e só ganham dimensão, quando cantadas. Das cantigas medievais, infelizmente, não nos chegaram as partituras, as músicas que as complementariam e as lançariam na dimensão estética apropriada ao seu gênero ou subgênero.

Ao outorgar o prêmio ao cantor estadunidense, os velhinhos da Academia do Nobel arrostaram apenas o perigo, relativo, de se verem achincalhados pela escolha, não pelo fato de não ser ele um literato, um escritor e, portanto, elegível ao prêmio.

E quanto a isso, afirmo que, numa lista de cem escritores internacionais, acessíveis ou elegíveis ao Nobel, com certeza Bob Dylan não estaria entre eles.


Os velhinhos da Academia Sueca gostam de surpreender ou já estão mesmo um tanto provectos, para não dizer gagás.

novembro 07, 2016

EU TENHO INTOLERÂNCIA RELIGIOSA







O tema de redação do ENEM deste ano, de 2016, – Caminhos para o combate à intolerância religiosa – foi amplamente elogiada por setores... religiosos, claro. Cúpulas de igrejas – não importa o credo – adoram fazer proselitismo de suas crenças, em cima de algo que lhe dê motivo para pregarem algo que eles sabem muito bem pregar na teoria, mas que, na prática, segue sendo um buraco negro na história das religiões: a tolerância.

Não há casos registrados de ateus, por exemplo, terem desacatado ou perseguido ou, o cúmulo dos cúmulos, mandado para a fogueira ou para forca pessoas religiosas por causa de sua crença. Sempre que uma religião é perseguida, essa perseguição é realizada por outra religião, muitas vezes de forma oficial. A igreja católica apostólica romana, por ser a seita mais antiga ainda em atividade, tem um longo e tenebroso passado de perseguições, prisões, tortura e morte de seus adversários ou pretensos adversários, tachados todos como infiéis, estigmatizados por seu deus, desde as bruxas (que nada mais eram do que mulheres que seguiam outra tradição religiosa, ligada a seus ancestrais) até judeus, pelo simples fato de serem não apenas anticristãos, mas principalmente por serem ricos e poderem ter suas fortunas devidamente apropriadas pela ICAR, depois de queimados, claro.

Na atualidade, sabemos o quanto inúmeros cultos evangélicos demonizam os praticantes de candomblé, com seus pastores fazendo verdadeiras homilias contra o demônio que habita os terreiros, insuflando seus seguidores a atitudes de hostilidade contra negros principalmente, contra uma cultura milenar oriunda de países africanos, simplesmente por ódio ao diferente, por ódio àquilo que eles não entendem e não desejam compreender. O amor cristão passa longe de quem chuta imagens do catolicismo, por puro exibicionismo na televisão, como se a destruição de um ícone não tivesse consequências outras que não o insuflar do ódio de seus seguidores aos católicos e dos católicos ofendidos aos seus seguidores.

Portanto, a intolerância religiosa passa longe, muito longe do espírito cristão dessas seitas. Isso para ficarmos apenas no terreno do cristianismo. Não vamos tocar nem de leve nas diferenças e nos ódios que separam cristãos e judeus, judeus e muçulmanos, muçulmanos e cristãos, numa ciranda de violência e dor que vem tingindo de sangue o caminho da humanidade.

Por que tudo isso?

Porque fiquei com dó, com muita pena, dos garotos e das garotas que tiveram que discorrer sobre esse tema absurdo, sem cair em armadilhas do preconceito latente em sua formação, seja ela de católico, de crente, de espírita, de umbandista ou de praticante de qualquer outra seita. Uma verdadeira casca de banana no caminho desses jovens, esse tema que só deve interessar, na realidade, aos chamados homens de boa vontade – que são poucos, infelizmente muito poucos – que estejam à frente de suas seitas. Eles é quem deve buscar caminhos para evitar essa intolerância recíproca, através de uma formação mais humanista e tolerante de seus pregadores, principalmente, eivados de preconceitos, e não apenas religiosos, mas culturais, étnicos, e até de preconceitos machistas contra as mulheres, sexistas contra quaisquer pessoas que tenham práticas alternativas, como gays, lésbicas etc. Tudo isso é um cadinho fervente a borbulhar intolerância, que é servido diariamente por pregadores cristãos de todas as seitas. São, portanto, - e isso é preciso repetir – os líderes dessa gente toda que devem buscar caminhos contra a intolerância. Jogar numa redação, numa simples redação de uma prova que vale pontos para classificação a uma faculdade a discussão de tal tema é jogar nas costas do jovem a solução de um problema do qual a maioria é simplesmente vítima, pela criação, pela educação equivocada de religiões preconceituosas e intolerantes, o que vai provocar, quase com certeza, uma enxurrada de lugares comuns e de mal alinhavadas linhas que não conseguirão esconder o que eles trazem dessa verdadeira lavagem cerebral que é a educação religiosa.

Eu, por mim, como ateu praticante, declaro que sou absolutamente intolerante a qualquer religião. Combato todas elas e suas ideias absurdas na crença de deus ou deuses criados pelo ser humano para subordiná-lo à dominação de castas de líderes religiosos inescrupulosos, imorais, aéticos e criminosos. Nem por isso, jamais perseguiria quem quer que fosse por suas crenças, por seus ritos, por sua filiação a qualquer seita. Combato o bom combate das ideias. As ideias precisam ser mortas, assassinadas, jogadas no lixo da história, não os homens ou seus seguidores, como o fazem aqueles que se dizem religiosos e pregam nos seus púlpitos, de forma contumaz e sub-reptícia, a intolerância contra todos os outros seres humanos que não seguem o seu deus, o seu livro sagrado, os seus ritos e celebrações.

Sem dúvida nenhuma, a despeito de tudo o que se diz por aí, esse tema – caminhos para o combate à intolerância religiosa – é um presente de grego para os estudantes, um verdadeiro absurdo.


outubro 28, 2016

PORQUE PESSOAS COMO DILMA E MADURO NÃO NECESSÁRIAS









Já não se discute se houve ou não golpe no País. Está mais do que claro e provado que a balela do “respeito à Constituição” serviu de escudo para uma das mais bem tramadas conspirações da direita hidrófoba do Brasil, para nos transformar, em pleno século XXI, na vergonha do mundo, numa nova “república de bananas”, onde por qualquer motivo se dá um golpe de estado.

Também não é necessário voltar às causas do golpe: o governo Dilma Rousseff irritou profundamente uma certa classe financeira, que se rebelou, e é claro, financiou o golpe, através de uma sórdida campanha na mídia que sempre foi golpista, nas mãos das famílias de extrema direita que a dominam e zombam de palavras, como as da atual presidenta, sim, presidenta, do STF, a bradar por respeito à “liberdade de imprensa”, como se isso existisse por essas plagas. Sim, há liberdade de imprensa para a grande mídia, mas não para os jornalistas que nela trabalham. Há “liberdade de imprensa”, não de opinião. E não existe liberdade de imprensa, quando qualquer mídia alternativa, que não viva à sombra ou das sobras das grandes famílias dominadoras, não consiga sobreviver, para veicular opiniões diversas daquelas que é consagrada e oficializada por essas famílias.

O pretexto para o “golpe constitucional” (Ulysses Guimarães que, com todos os seus defeitos, não era golpista, nunca sonharia que sua Constituição Cidadã serviria um dia de escudo para tal canalhice, deve estar se remoendo, onde quer que esteja) é pífio e não resiste à lógica mais elementar. No entanto, o golpe foi aprovado por um Congresso vendido e comprado a peso de milhões, pagos, em primeira instância pela FIESP e demais congêneres, e, em segunda instância, pelo títere que se senta hoje na cadeira presidencial, através de medidas econômicas de interesse dos golpistas e distribuição de benesses a estados e municípios, através dos deputados e senadores que apoiaram o golpe. Uma das mais tristes páginas de nossa história, com absoluta certeza.

Mas isso são águas passadas. O que eu quero mesmo falar é sobre um certo raciocínio que vigora entre muitas pessoas de esquerda ou ditas de esquerda. E abro um parêntese para uma crítica severa a movimentos, partidos, associações e quejandas que se dizem de esquerda, mas que criticaram ou criticam posturas do partido que esteve no poder nos últimos dez anos, no Brasil, o Partido dos Trabalhadores. Primeiro, lembrar que o PT obteve vitórias históricas e significativas em todos os terrenos políticos, econômicos e sociais, algo absolutamente notável, num País dominado pelo conservadorismo, doutrinado por entidades conservadoras, enganado por mídias conservadoras, o que o habilita a ter todo o respeito possível de quaisquer grupos, grupelhos, partidos e organizações de esquerda não só do Brasil como de todo o mundo. Segundo, lembrar que seu líder máximo, Lula, tem o respeito e admiração de praticamente todos os países, por sua obra de resgate da pobreza, por suas posições moderadas e conciliadoras e por sua capacidade não só de realizar, mas de aglutinar através do diálogo forças e ideias diferentes e até contraditórias, conseguindo, com isso, a tal governabilidade que a Constituição Cidadã deixou como uma bomba de efeito retardado para todos os presidentes. Portanto, quaisquer que sejam as ideologias que estejam no espectro oposto ao direitismo arraigado de PSDB, DEM e demais asseclas, a formar uma quadrilha aguerrida de defensores do liberalismo econômico e até do capitalismo mais selvagem, advirto que críticas públicas ao PT, a Lula ou a Dilma, tendo ou não razão, mesmo que consistentes ou baseadas apenas em teorias, só servem para divertir a direita e aprofundar divergências que não levam a nada. São estúpidas manifestações de inveja ou de incapacidade de perceber e ler corretamente o contexto e as consequências do que isso pode trazer. O PT, com todos os seus erros e acertos, não está acima de críticas, entendam bem. O que eu quero dizer é que não pode haver divisões em momentos de crise. O que eu quero dizer é que é burrice tentar buscar no PT e no governo Dilma as razões para o golpe. E entro, agora, finalmente, no cerne da questão deste texto: a estupidez de culpar a vítima pelo ato criminoso do outro.

Sim, exatamente isso. Busca-se, em alguns textos e comentários que se leem e se ouvem por aí, dizer que a presidenta Dilma é, por exemplo, muito radical em suas posições, tanto no aspecto político quanto no econômico. Que ela cutucou a onça com a vara curta. Que provocou o mercado com medidas que irritaram os financistas e os ditos rentistas que vivem do poder dos juros altíssimos. Que ela provocou a fera do Norte, ao se aliar aos BRICS e a países como a Venezuela e a Argentina de Cristina Kirchner (outra que sofreu um “golpe eleitoral”, por suas posições). Que irritou ainda mais o governo estadunidense ao criar com os demais países dos BRICS um novo banco de financiamento internacional e pregar a futura substituição do dólar por uma nova moeda, o que significa pregar uma nova ordem mundial de comércio. Enfim, que a presidenta Dilma é que foi culpada do golpe que sofreu. Isso é o mesmo que criminalizar a vítima de estupro, porque provocou o estuprador. Constitui um dos maiores absurdos de qualquer tipo de pensamento, seja de direita ou de esquerda, mas torna-se ainda mais assustador quando vem de pessoas que se dizem de esquerda.


O mundo, meus senhores e senhoras, tem sido dominado há séculos por um capitalismo que alterna a selvageria econômica com a selvageria das armas, para saquear e destruir nações, matar milhões e milhões de pessoas e jogar outras tantas na vala mais cruel da miséria, da fome, da humilhação. Palavras corteses, gestos de boa vontade, pregações e lutas pontuais têm-se travado em todos os cantos do planeta, mas são plumas ao vento, que pouco têm arranhado a couraça paquidérmica dos capitalistas que dominam o mundo. O único temor desses capitalistas é a pregação radical através do empoderamento de pessoas como Chaves e seu sucessor, Maduro, como Kirchner, Dilma, Castro, Morales, Mujica e tantos outros pelo mundo afora, não importando o tamanho de seus países. Essas pessoas, os radicais de esquerda de todo o mundo, mesmo aqueles que nenhum poder possuem que não seja a força de suas palavras, são necessárias para dar um pouco de equilíbrio à estupidez capitalista. Eles, realmente, quase nunca são bem-sucedidos em suas empresas, mas incomodam os capitalistas pela grandeza moral de suas ações ou de suas palavras. E isso são sementes que podem gerar movimentos populares, quando o desespero bate à porta dos cidadãos oprimidos, que se lembram dessas pessoas e repetem as palavras dessas pessoas e tomam os exemplos dessas pessoas como bússola para suas tentativas, frustradas ou vencedoras, de sair da miséria e conquistar uma vida mais digna, menos humilhante.

outubro 25, 2016

NOSSAS ILUSÕES PERDIDAS NA GRANDE MÍDIA







Quando Balzac escreveu "As ilusões perdidas", deixou-nos explicitamente como legado o nascimento da grande imprensa como algo que servia aos interesses dos poderosos, manipulada por gente que se tornava capacho desses poderosos, a troco de posição, dinheiro e, principalmente, das migalhas de poder que displicentemente eram lançadas para baixo das mesas do grande banquete. Não havia escrúpulos em criar ou destruir reputações de figuras públicas. Ética parecia ser uma palavra totalmente desconhecida. Descobria-se que a mentira muitas vezes repetida torna-se verdade.

Mais de cem anos se passaram. O mundo parece que mudou. Novas tecnologias foram incorporadas ao dia a dia. E mais: a explosão demográfica do final do século XX aliada à rapidez da informação transformou o mundo - que era restrito - numa grande aldeia. Se, no século de Balzac, a mentira tinha o tamanho da cidade, no caso, Paris, hoje a mentira tem o tamanho do mundo. A cara de pau e o mau caratismo não se restringem ao entorno das redações de jornais, mas correm com a velocidade da luz pela internet, algo inimaginável até há poucas décadas.

Há pessoas de retidão de caráter entre jornalistas e comentaristas das grandes empresas de comunicação dos nossos dias, mas nem a mais potente das lupas será capaz de identificá-los, pois não podem ou não querem ser identificados, presos que estão às ideologias de seus patrões. A maioria desses profissionais, no entanto, não têm mesmo nenhum escrúpulo, professam à larga a ideologia de seus donos, com o prazer sarcástico de que, com suas diatribes, ganham notoriedade e tentam, com isso, interferir nas mentes e corações de seus leitores, para conduzir o País aos desígnios das forças conservadoras que lhes pagam o salário.

Muitos são mais realistas que os reis a quem obedecem cegamente. Obscurecidos pela notoriedade, criam monstros, fabricam factoides, inventam teorias e as oferecem como verdades absolutas a leitores desprevenidos ou desprovidos de senso crítico.

Lembro as manchetes de certo jornal popular - que poucos liam, mas que todos comentavam, o "Notícias Populares". Ficou famosa a primeira página em que noticiou em letras garrafais: "Cachorro faz mal a moça". Tudo dúbio e, espertamente, a palavra "cachorro" entre mínimas aspas, já que se tratava de um mal fadado "cachorro quente" estragado. De outra vez, a criatividade foi longe, ao noticiarem que um jovem cantor (Geraldo Vandré) havia quebrado e jogado seu violão na plateia, ao ser vaiado pelo auditório: "Violada em pleno auditório"!

Lembro essas manchetes, porque, nas grandes cidades, o povo não lê jornais, mas lê todos os dias as manchetes dos jornais, a primeira página, nas bancas, onde são expostos para chamar a atenção. Assim, a primeira página, a manchete, os títulos explosivos ajudam a formar opinião, a estabelecer polêmicas que nem sempre se resolvem, porque a maioria fica mesmo com a informação primária e primeira da primeira página. E a irresponsabilidade jornalística ilimitada se exerce aí, nessa primeira página.

No jornalismo radiofônico e televisivo, a influência está toda na inflexão de voz, na postura, na superficialidade da notícia. Um comentarista econômico, por exemplo, não precisa entender de economia (aliás, quem entende de economia?): basta ganhar as simpatias do público, manipular gráficos modernosos que nunca funcionam e informam precariamente e, por isso, podem conter não exatamente mentiras, mas pequenas distorções na apresentação de tamanho e cores, apresentar dados inconsistentes e, sempre, ser extremamente crítico ao governo, adotando, muitas vezes, o tom professoral e apocalíptico dos burros que nada sabem, mas zurram mais alto.

Há monstros que se criam e que eles, os jornalistas, não sabem, depois, como se livrar deles e, por isso, alimentam-nos permanentemente. Busco o exemplo no futebol.

Criou-se o mito da torcida do Corinthians, a partir de alguns dados reais: quando o time ficou infinitos anos sem ganhar um campeonato e quando "invadiu" o Maracanã, num jogo contra uma equipe carioca. Esses dois fatos alimentaram a noção de que a torcida corintiana era "fiel", aumentava na diversidade e até ganhava jogos com sua força. Hoje, essa torcida, organizada e feroz, transformou-se (e serviu de exemplo para outras) num monstro violento e assassino, que convoca e provoca conflitos com outras torcidas em estádios e nas proximidades de estádios ou onde quer que vá jogar o seu time. Usam os torcedores a camisa do clube, o distintivo do clube, o nome do clube e até mesmo as dependências do clube para dar vazão a seus instintos inferiores. Matam e morrem. Podem até ser constituídos de pacatos filhos, irmãos e pais fora da malta a que pertencem, mas, quando se juntam, transformam-se em loucos sedentos de sangue, com seus sinalizadores (que já até mataram um menino num jogo na Bolívia), seus gritos de guerra, suas bordunas e até armas de fogo. Foram criados e alimentados pela mídia, que sempre viu no Corinthians grande potencial de venda de jornais e de notícias. Agora, alguns poucos jornalistas mais conscientes reclamam da violência por eles mesmos criada e alimentada. Não deixam, no entanto, de dar voz aos violentos, quando esses mesmos rapazes têm a audácia de cobrar da diretoria do clube ou dos jogadores, em conversas públicas ou reservadas, aquilo que eles consideram sua "religião": ganhar jogos e dar a vida pelo clube.

Esses são até exemplos menores da tentativa - muitas vezes bem sucedida - de influenciar a opinião pública através de factoides e invencionices. Há casos piores. Quando o jogo é na política, as regras são claras: aos amigos, todos os elogios e, principalmente, o conveniente silêncio; aos inimigos, o achincalhe devidamente mascarado em notícias, em fatos distorcidos ou mal contados, em manchetes de duplo sentido, em insinuações e em até mesmo mentiras deslavadas em grandes títulos ou reportagens que, quando desmentidos, são jogados para rodapés de páginas secundárias. Vale a caixa-alta, o colorido de fotos manipuladas ou devidamente escolhidas por seus ângulos mais inusitados. Com isso, já até elegeram um presidente da República, Collor de Mello, devidamente defenestrado depois, por sua roubalheira e pela voz do povo nas ruas. Não se emendam, no entanto, pois continuam em suas campanhas para eleger os queridinhos dos patrões, aqueles que seguem a cartilha ideológica da direita, porque, por mais óbvio que possa parecer, é preciso que se esclareça que não há um só grande conglomerado de mídia de esquerda no mundo, que possa fazer contraponto àquilo que Washington ou Wall Street consideram ser a verdade.

Agora, é a vinda dos médicos estrangeiro para trabalhar no Brasil e ocupar os postos avançados que nossos profissionais não quiseram, por não fazer parte de seu objetivo de vida atender populações carentes em rincões distantes (preferem trabalhar em grandes hospitais, onde a infraestrutura lhes permite diagnosticar sem tocar o paciente, apenas com pedidos de exames complexos e caros ou, ainda, abrir consultórios em bairros elegantes, para atender a demanda de cirurgias plásticas de madames e seus cachorrinhos): primeiro, a grande mídia demonizou-os, principalmente aos cubanos, chamando-os de incompetentes; depois, lançaram dúvidas sob o sistema de remuneração, para tachá-los de escravos. Por fim, abriram guerra contra o programa do governo como um todo, com a desculpa de que é necessário infraestrutura de atendimento, sem perceber, os imbecis, que se tenta justamente quebrar um círculo vicioso - não há médico, porque não há infraestrutura e não há infraestrutura porque não há médico. Com isso, atiçaram o preconceito e, depois, o rancor e o ranço corporativista de médicos e suas associações ricas e distantes da população. Motivo do ódio? Político, meramente jogo político, pois a grande mídia atual tem um único objetivo: desmoralizar os governos de esquerda democraticamente eleitos, para tentarem, mais uma vez, jogar o País nos braços e na roubalheira dos que sempre mandaram e alimentaram, com verbas públicas diretas ou indiretas, as redações de jornais, revistas, rádios e televisões.

Não sei se Balzac, se vivesse hoje, com sua ojeriza ao mau jornalismo que, se era praticado em seu tempo, hoje, está elevado a potências inimagináveis no século XIX, em termos de mau caratismo, de falta de ética e, sobretudo, de capacidade de espalhar o vírus da mentira pelo mundo todo, estaria vomitando todos os dias. Eu estou!