dezembro 15, 2012

KAFKA, OU 52 ANOS DE HISTÓRIA DO BRASIL: UM TESTEMUNHO




(Salvador Dalí)


Esse vai ser um longo, longuíssimo artigo. Porque pretende cobrir 52 anos de história - surreal, se posso usar esse termo - de nosso País. E mais: é um longo artigo que expressa - e devia ser inútil dizer isso - a opinião estritamente pessoal do seu autor. Não há fontes, não há citações, não há outras opiniões, apenas a do autor.

Tudo começa nos anos 60. Presidente: Juscelino Kubistchek. Construção de Brasília. Mas, mais importante que a construção da nova capital - NOVACAP, na mídia da época - é o momento de liberdade que vive o País. Um presidente eleito que sofre um golpe antes de sua posse e anistia os golpistas em nome da democracia. Um presidente que não usa nenhum dos artifícios de poder de seus antecessores e que consegue levar o navio Brasil ao porto seguro de aparentes instituições democráticas, assimilando todos os golpes da oposição. E mais: consegue modernizar o País. E construir - algo absolutamente inédito - uma nova capital em quatro anos de governo.

Claro, deve ter feito inúmeros conchavos o esperto Juscelino, para obter sucesso em seus planos. Deve ter vendido a alma a muitos demônios - e sabemos, hoje, que esses demônios estiveram presentes em toda a história do País - para conseguir que o Brasil medieval desse lugar ao País industrializado que surgiu a partir de seu governo. Não vou, aqui, citar seus feitos: pertencem à História e deveriam ser de conhecimento geral. Brasília é apenas uma de suas realizações, embora - justiça seja feita - a que ofusca todas as demais.

Mas, a grande obra de Juscelino está além de suas obras de tijolo e cimento: está na sua enraizada vocação democrática. Que o levou a assimilar todos os golpismos e todas as oposições a seu estilo de governar. Por isso perdeu as eleições que indicariam seu sucessor. Os eleitores preteriram o Marechal Teixeira Lott, em favor do primeiro Presidente eleito pela mídia - o senhor Jânio Quadros.

E, aqui, tenho que fazer a primeira intervenção estritamente pessoal. Tenho três grandes ódios a três grandes políticos brasileiros. O primeiro é Jânio Quadros. Os dois seguintes aparecerão, claro, ao logo desse longo artigo.

Quando vi o senhor Jânio Quadros pela primeira - e, acho, única - vez, foi num comício em Lavras, na campanha que o elegeu. Tive arrepios, ao ver aquela figura excêntrica - para dizer o mínimo - a brandir a bandeira da moralidade, tendo a vassoura como símbolo, num discurso entrecortado de pausas dramáticas, para enfatizar seu viés conservador e, por incrível que possa parecer hoje, extremamente vazio.

Odiei-o à primeira vista e continuo odiando-o hoje, depois de muitos anos de sua morte. Não tinha, claro, na época, aos dezesseis anos, consciência do que ele representava, com seu discurso. Apenas tive-lhe ódio. Apenas pressentia que, de suas palavras, nada se podia aproveitar. Que seu discurso moralizante tinha o poder de anestesiar as  massas, mas era só discurso e nada mais.

No entanto, quando ele venceu, e tomou posse, em seu discurso - mais ainda moralizador - de posse, não pude - em minha inocência - deixar de admirar sua coragem de atacar um presidente que saía do governo com um rol de realizações impressionantes. Mas era só gogó, o que tinha o ilustre e sanguíneo Jânio Quadros. Alçado pela mídia da época como exterminador de pretensas quadrilhas que assaltavam os cofres públicos, enraizadas no Palácio do Planalto recém-inaugurado, quando sabemos, hoje, que essas quadrilhas estavam à margem do planalto, constituídas não exatamente de servidores públicos e políticos, mas de empresários que se locupletaram com o pedágio das obras de Juscelino, Jânio Quadros era bem a imagem do cão que ladra para a roda do automóvel que passa, mas não sabe o que fazer, se o automóvel para. Como presidente, só se notabilizou pelas noitadas insones no Palácio da Alvorada, regadas a inúmeras garrafas de uísque escocês e a filmes que varavam a madrugada, e a ser o Presidente que proibiu rinha de galos e o uso de biquínis nas praias do País tropical.

Nove meses de governo. E Jânio, o neurótico e irresponsável boneco da mídia - já naquela época influente - paulista e nacional, naufragou em um copo de uísque, encenando uma surreal e absurda renúncia, na esperança de que seria reconduzido como salvador da Pátria pelas multidões anestesiadas pela propagando de seu discurso moralizante e conservador.

Abriu o Jânio o caminho para a crise institucional. O vice-presidente a tomar posse não tinha o aval da mídia da época, embora fosse o escolhido pelo povo, na eleição anterior como o legítimo sucessor. Jango foi empossado numa comédia que não posso tachar como commedia del'arte, sem risco de menosprezar o nobre estilo teatral, sob um absurdo regime parlamentarista, inventado pela direita - já naquela época golpista e hidrófoba e apoiada por uma mídia da pior qualidade, mas ainda ingênua, se comparamos com a atual - e pelas forças mais conservadoras que se podiam imaginar da política brasileira. O regime parlamentarista, claro, não sobreviveu à vontade do povo e naufragou num plebiscito que eles, os direitistas de então, contavam como vitória certa. Jango, no entanto, não sobreviveu aos dentes e à sanha da direita mais conservadora e foi deposto pelo golpe de 1964, apoiado financeiramente pelos fazendeiros e latifundiários - que deram origem ao agronegócio atual - e, ideologicamente, pela Igreja Católica - que tinha, ainda, muita influência - e pela mídia de então, já fortalecida pela incipiente televisão.

Os anos de chumbo, com os governos militares à frente, foram amplamente apoiados pelos setores mais conservadores da sociedade brasileira: a Igreja Católica Apostólica Romana (apesar de algumas poucas vozes dissonantes, constituídas por alguns padres e bispos das Comunidades Eclesiais de Base), os políticos organizados em torno da ARENA (Aliança Renovadora Nacional, que deu origem ao PFL e,atualmente, o DEM), várias organizações da sociedade civil (que cada uma coloque o respectivo capuz), a mídia então definitivamente organizada em grandes conglomerados, como Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo etc., e amplos setores interessados na política nacionalista dos militares, como a indústria, o comércio, a agricultura.

Abramos um parêntese para uma observação importante em relação à mídia: houve empresas que apoiaram a ditadura e se tornaram porta-vozes de suas políticas, como a Rede Globo de Televisão, mas se manteve distante da prisão, tortura e morte de opositores, até onde sabemos, e até protegeu alguns de seus funcionários (artistas, escritores, roteiristas etc.) da sanha persecutória dos aparelhos de repressão; houve empresas que depois deixaram de apoiar de forma explícita os desmandos da ditadura, mas que se aproveitaram da onda de censura, para faturar um pouco mais, como o grupo Estado de São Paulo (ao faturar com a presença de sensores em suas redações, preenchendo os espaços censurados de seus jornais com versos de Camões ou receitas culinárias), mas que não sujou as mãos de seus dirigentes com o sangue dos mártires da ditadura, mantendo um certo distanciamento da opressão; houve outros, no entanto, que prestaram estrita colaboração com os órgãos repressores, emprestando até mesmo suas viaturas para condução de presos políticos, como foi o caso do grupo Folha de São Paulo. Enfim, na época do salve-se quem puder, muitos se salvaram como puderam, e cresceram e se tornaram grandes empresas de renome nacional e até internacional, com mais ou menos sangue nas mãos de seus primeiros dirigentes. O fato é que, praticamente todos, nessa época, tiveram sua parcela de responsabilidade nos desmandos da ditadura. Não há inocentes.

Também as empresas que se constituíram e cresceram na época não se furtaram a sujar as mãos de sangue, ao colaborar de forma contundente para operações do DOI-CODI, principalmente a famosa Operação Bandeirantes, em São Paulo, que teve o empresário encarregado da arrecadação assassinado por um grupo "terrorista". Assim, muitos empresários de fama e sucesso atuais têm em seu histórico um rol de crimes que nunca serão investigados e punidos, muitos posando de beneméritos da sociedade, talvez para aplacar suas consciências.

Os anos de redemocratização marcaram a tomada de território dos sobreviventes da ditadura. Quem acumulou créditos - capital - sobreviveu e teve cacife para investir na euforia democrática que tomou conta do País. Foi o que aconteceu com os grandes grupos mediáticos: souberam bajular os militares e lamber seus traseiros até o último minuto, para, no momento em que eles brocharam, pular fora do prostíbulo e se apresentarem como vestais da democracia. E, devidamente inflados pelo capital acumulado, souberam muito bem o que fazer: criar e impor um novo monstro, travestido de salvador da pátria, de caçador de marajás, diante de governos democráticos que fracassaram no combate à inflação e à corrupção (endêmica, mas devidamente realçada pelos órgãos de comunicação, conforme seus interesses do momento). Encarnaram num jovem governador boa pinta, extremamente vaidoso e ostensivamente egocêntrico, o espírito das vassouradas moralistas de Jânio Quadros, e o travestiram de salvador da Pátria. Estou falando do segundo indivíduo que odiei profundamente nesses cinquenta e dois anos de observação da política nacional: Fernando Collor de Mello. Sua figura - embora carismática para as massas - causou-me repulsa à primeira vista, por algo que o observador objetivo e racionalista abomina, a impressão difusa de falsidade, que não se sabe bem de onde vem, tal a sua subjetividade. Ao contrário de Jânio, que até conseguiu, ao tomar posse, iludir por alguns momentos o jovem ingênuo que eu era, Collor de Mello não logrou angariar uma sequer mínima dose de simpatia. E, quando, eleito Presidente da República pela mídia mais conservadora, numa manobra tipicamente golpista da Rede Globo de Televisão, seu mais ardente apoiador, apresentou à Nação aquele plano miraculoso de tentativa de debelar a inflação, tive certeza de que era apenas um golpe de prestidigitação, que não sobreviveria à borda da cartola de mágica de uma idiota alçada à posição de gestora da economia, como a Zélia Cardozo de Melo. O fracasso do governo de Collor de Mello estava escrito no mesmo manuscrito em que Kafka escreveu O Processo e outras narrativas absurdas. Embora tivesse o apoio e fosse a cria da mídia conservadora que o elegeu, contra o operário analfabeto Luis Inácio Lula da Silva, o metalúrgico que ousara, anos antes, desafiar o poder da ditadura com seus metalúrgicos e, agora, pleiteava - que ousadia! - o cargo máximo da Nação, com seu Partido dos Trabalhadores, um bando de operários sujos de graxa e meia dúzia de idiotas que se diziam intelectuais.

Collor de Mello afundou, como Jânio, num mar de corrupção e incompetência. Talvez mais incompetência que corrupção, embora o esquema de controle do aparelho estatal por uma verdadeira quadrilha fosse um dos desenhos possíveis para a pobre e incipiente democracia brasileira.

A Nação afundava na inflação, o dragão incontrolável, indomável, indestrutível. Planos miraculosos tentaram abater o animal indócil. Nada o abalava. Até que... um mineiro de jeito meio besta, topete à Elvis Presley, comedor de "inocentes" divas distraídas no uso de peças íntimas, alçado à Presidência da República, após o impeachment de Collor, nomeou como Ministro da Economia um sociólogo da USP, queridinho das esquerdas, com histórico condizente com os novos tempos, palrador, inteligente, carismático e, com ele, uma equipe de verdadeiros economistas saídos dos quadros universitários, com amplos currículos de trabalhos teóricos, que inventaram uma fórmula de combater o famigerado dragão da inflação através de um ousado plano de conversão monetária do desmoralizado dinheiro da época em novo padrão monetário e, a partir disso, de um plano rígido de controle dos gastos públicos. O ministro bonachão - claro, estamos falando de Fernando Henrique Cardoso - só teve o trabalho de ir à televisão e, com os teleprompters devidamente recheados de informações técnicas, explicar o novo plano, o Plano Real, da nova moeda que nascia.

E nascia, também, o novo Presidente da República, eleito e reeleito por obra e graça do plano gestado na administração Itamar Franco, que ficou na história como o Presidente que se deixou fotografar no Sambódromo do Carnaval do Rio de Janeiro ao lado de uma modelo sem calcinhas. Todo o mérito da vitória sobre o dragão da maldade da inflação ficou para o santo são jorge criado pela mídia, Fernando Henrique Cardoso.

Não, não o odiei à primeira vista, como a Jânio e Collor. O ódio veio aos poucos. Ao longo de oito longos anos de desgoverno. Primeiro, por comprar, literalmente, o Congresso para aprovar sua reeleição. Um PIB inteiro foi gasto nisso, no processo eleitoral que lhe deu o segundo mandato. Outro PIB inteiro foi gasto para pagar a conta, no segundo mandato, dos despautérios do primeiro. Seu único feito: segurou a inflação, com rédeas de aço, à custa do emprego de milhões de cidadãos brasileiros, que se viram, entre 1999 e 2002, no precipício da miséria, no mais alto grau de desespero, e à custa de uma política monetarista submissa às regras do FMI. O País entrou numa depressão de dar dó, num estado lastimável de falência que o abismo que se avizinhava parecia ser o paraíso, de tão desesperador era o estado das classes médias arrasadas pela política econômica do presidente reeleito Fernando Henrique Cardoso de Melo. Foi aí que nasceu o meu ódio contra ele, aos poucos, crescendo como a levedura do fermento, tanto quanto crescia o grau de depauperamento das classes médias brasileiras, já que as classes pobres já não tinham mais a quem recorrer e entravam num grau máximo de extinção, pela fome, pelo desespero, pela falta de esperança.

Já a mídia comprada com os milhões de reais empregados no processo da reeleição, consideravam-no - e ainda o consideram - o santo guerreiro que domou o dragão da inflação. E isso lhe bastava. Não lhe importavam - à mídia - os milhões de desesperados famintos, os milhões de desempregados. Fernando Henrique, o presidente que dava entrevistas em francês e inglês, que sabia se comportar nos banquetes dos banqueiros e presidentes da Europa, que tinha uma obra de teoria sociológica importante (que ele pediu para ser esquecida), que portava a faixa presidencial como os antigos reis das podres monarquias do século XIX portavam suas coroas de ouro, era seu orgulho e seu cartão de visitas, o troféu que mostrava ao mundo "civilizado" que tínhamos, sim, um presidente que não era botocudo, que sabia usar os talheres para comer e a língua para defender-nos de nossa pretensa barbárie, de nosso pretenso complexo de vira-latas. Enfim, um presidente de primeiro mundo, com um governo de décima categoria. Mas isso não importava. Importava a pose, a fala bem articulada, a argumentação acadêmica. O povo? Que se explodisse o povo, esse ingrato, que não sabe reconhecer a sutileza de um particípio passado, no idioma francês.

E então... e então, a despeito de toda a sua honorabilidade, a despeito de todo o apoio da moeda, em 2002, o povo, esse ingrato, elege nada mais nada menos do que aquele metalúrgico analfabeto, falto de um dedo, grosso, barbudo ainda por cima, como Presidente da República.

Lula. Lula lá. Lula no Palácio. Lula com a faixa de Presidente. Com o diploma de Presidente. O primeiro diploma do metalúrgico analfabeto. O antípoda do melífluo, elegante, acadêmico, palrador, mistificador e exterminador de empregos, Fernando Henrique Cardoso.

Não podia dar certo. Seria o desastre total. Era só esperar alguns meses. Lula iria meter os pés pelas mãos. O mínimo que a mídia esperava de seu governo é que, mais dia, menos dia, ia dar - com o perdão da palavra - MERDA!

Não deu. Os empresários que iriam abandonar o País não só não o abandonaram como até começaram a investir e a prosperar. Não houve planos mirabolantes. Não houve confisco da renda de ninguém. O direito à propriedade continuou como sempre, direito à propriedade. Os contratos foram respeitados. A Lei foi respeitada. A Constituição foi respeitada. Ninguém se matou, ninguém se desesperou. E a Nação começou a crescer. Os investimentos foram retomados. Um plano de combate à pobreza foi engendrado, posto em execução e começou a dar certo. O povo sentiu que tinha alguém lá em cima que se preocupava com ele. A miséria começou a ser vencida. E Lula - o metalúrgico analfabeto, que mal falava português - conquistou a admiração do mundo, de presidentes e líderes de todas as nações. Porque era autêntico, porque falava a língua universal da defesa dos pobres e não apenas defendia os pobres com a retórica amplamente utilizada por seus antecessores, mas punha em prática princípios básicos e simples de economia que privilegiavam o combate à fome e à miséria, a criação de novos empregos, o crescimento da economia. E o País saía, pouco a pouco, do atoleiro em que o lançara a intelligentsia do príncipe da sociologia brasileira, Fernando Henrique Cardoso. E é, espero, a última vez que falo no nome do vampiro, que deve ser esquecido, atravessado por uma estaca de madeira e enterrado no último túmulo da última rua do cemitério da História.

Lula, o metalúrgico, exercia seu mandato com uma trajetória simples de cumprimento de promessas eleitorais, sem alarde, sem mirabolantes enrolações teóricas, provendo ao povo o que o povo queria: emprego, ascensão social, tranquilidade, salários, comida, acesso aos bens de consumo. A Nação retomava seu rumo. Crescia. Ganhava respeito internacional. Livrava-se das políticas de recessão do FMI, trilhava seu caminho, com liberdade de expressão, com todas as instituições funcionando, sem ameaças de golpe, sem protecionismos, sem sustos.

Eu disse sem ameaças de golpe? Ingenuidade minha, porque isso - o exitoso governo Lula - era um absurdo, um contrassenso, aos olhos da mídia a soldo dos poderosos que há mais de quinhentos anos mantinham seus privilégios nessa outrora república de bananas. Era preciso derrubar a qualquer custo o metalúrgico. Armou-se o inferno para derrubar Lula. Derrubaram-se ministros, destruíram-se reputações, inventaram-se mil artimanhas. Houve momentos em que pensei que eles venceriam, como, aliás, temia desde o início de seu governo, que Lula não iria conseguir chegar ao fim de seu mandato. As "forças ocultas" que derrubaram Jânio (na verdade, essas forças ocultas eram a cachaça e o golpismo do presidente), agora, tomavam forma numa campanha nunca antes vista contra um Presidente a partir da mídia: jornais, rádios, televisões, revistas, enfim um verdadeiro exército formado de interesses contrariados e muito bem pagos por gente que desejava voltar ao poder se uniu para derrubar o Presidente, na crise das denúncias daquilo que a imprensa denominou "mensalão". Ou seja, o Partido dos Trabalhadores, ou seja o Presidente da República, desviava recursos públicos e os usava para comprar o apoio do Congresso Nacional a seus projetos de governo, pagando-os regiamente a cada votação mensal.

Vamos abrir, agora, talvez um longo parêntese. Necessário. Filosoficamente, politicamente, logicamente.

Maquiavel não disse, em O Príncipe, em nenhum momento, que os fins justificam os meios. Mas a crítica, os filósofos posteriores e todo o pensamento político conservador canonizaram esse princípio como a essência da obra maquiavélica, ou seja, daquele pensamento político que preza a conservação do poder a qualquer custo. Se Maquiavel não o disse, isso não mais importa. Está consagrado. E maquiavélico passou a ser sinônimo de algo perverso em política, ou até nas relações pessoais. Coitado do Maquiavel. Deve arrepiar-se em seu túmulo cada vez que suas ideias e seus princípios políticos se associam ao mal, àquilo que é imoral ou amoral.

Os fins justificam os meios. Uma frase que recebe a condenação quase unânime do pensamento, desde o mais conservador até o mais liberal. Ninguém o admite, mas, no fundo, a maioria o pratica. Porque há, sim, momentos na vida em que temos que fazer algo não muito elogiável em nome de conquistas futuras. É inevitável. Se sabemos que, se não fizermos algo condenável agora, haverá prejuízos maiores no futuro, poucos de nós hesitaremos em realizá-lo. Como estamos no campo teórico, nem vou dar a complacência de exemplificar: que cada um consulte sua consciência. Afinal, justificam-se os meios, se os fins forem nobres.

Então, mesmo não entrando no aspecto maquiavélico do problema do tal "mensalão" - ou seja, paga-se o preço pedido por uma boa causa, a governabilidade, ou a aprovação de projetos de interesse da sociedade - se ele realmente existiu, se realmente houve pagamento de propinas a deputados para que votassem ou direcionassem sua bancada a votar a favor do governo, algumas questões éticas devem ser discutidas.

Uma dessas questões éticas é: quem é mais culpado, o que paga para aprovar seus projetos ou o que exige pagamento para esse fim? E mais: de quem, exatamente, parte a exigência: de quem paga ou de quem cobra?

Nesse último caso, de quem parte a exigência da propina, manda a lógica que acreditemos que ninguém, em seu juízo perfeito, vai pagar propina a quem não a pede. Então, havia - e esse verbo deve ser pensado em termos de passado - um esquema bem azeitado, há muito utilizado - já que nada nasce assim, de repente - de cobrança de propinas aos governos anteriores, pois se sabe que absolutamente nenhum presidente da época da redemocratização até hoje teve maioria para aprovar com tranquilidade seus projetos. E se havia uma prática institucionalizada, como parece óbvio, a investigação dos órgãos controladores - Ministério Público à frente - deviam ter investigado profundamente esse prática e apontado não apenas aqueles que pagaram, mas principalmente aqueles que exigiram pagamento. Pelo que eu sei, isso não foi feito. A investigação centrou seu fogo apenas nos que teriam feito os pagamentos. Poucos dos que receberam foram indiciados (e punidos). E eu fico pensando: como tão poucos que receberam puderam influenciar tanto os demais, sem que os demais também quisessem receber parte desses pagamentos? E mais: os pagamentos a esses poucos indivíduos nunca foram assim tão vultosos, diante da importância do apoio que se comprava. Ou seja: para mim, venderam-se por muito pouco, diante do tanto que representava o valor do que se comprava. E mais, ainda: se muita gente sabia, como se fez acreditar quem denunciou o esquema, por que tão poucos receberam? Será que eram tão ingênuos os demais deputados e senadores a ponto de se deixarem influenciar por alguns poucos cujos votos eles sabiam ser comprados e, mesmo assim votaram segundo sua orientação, sem nada pedir ou exigir em troca?

E então, surge um aspecto que me intriga: se era o dinheiro distribuído para realmente comprar apoio parlamentar, seria impossível que isso não tivesse a aprovação  de lideranças superiores, ou seja, poderia até mesmo ter sido aprovado pelo próprio Presidente da República, ou seja, Lula. Mas não é o que o denunciante diz e afirma: que Lula só soube quando ele, o denunciante do tal esquema, contou ao Presidente. E, se o Presidente sabia disso e concordou com isso, por que tudo foi feito de forma tão amadora e irresponsável, utilizando-se de expedientes primários e de pessoal de baixo escalão para realizá-lo? Por que não se tomaram cuidados básicos de encobrimento e disfarce que todos os antecessores, com certeza, tomaram já que se presume, com bastante lógica, ser o esquema bem mais antigo que o Governo Lula? Além do mais, há um aspecto ainda mais intrigante: a Presidência da República dispõe de meios muito mais sutis e convincentes de compra de votos de parlamentares do que o pagamento de trinta ou cinquenta mil reais  entregues por obscuros funcionários em encontros furtivos, o dinheiro em toscas pastas ou em sacos de papel. Há, primeiro, o convencimento próprio do poder do cargo (obras na comunidade do político, liberação de verbas, afagos políticos etc.), e, segundo, a caneta, ou seja, o  poder de nomear  ou de apadrinhar a quem que que seja, o que é muito mais efetivo do que dinheiro vivo. Não creio que um deputado ou senador se deixem seduzir por míseros reais em detrimento da nomeação de apaniguados para cargos de segundo ou terceiro escalão, com rendimentos bastante atrativos, além da repercussão entre seus eleitores do poder de nomear correligionários com possibilidade de realizar suas demandas políticas junto às comunidades que o elegeram e poderão continuar a elegê-los.

Enfim, o tal "mensalão" não resiste a uma análise lógica de sua existência.

No entanto, suponhamos que ele realmente aconteceu com todos os elementos que o denunciante e, depois, o Procurador Geral da República apontaram. Ou seja, que tudo foi feito pelo segundo escalão do Partido dos Trabalhadores, especificamente pelo seu tesoureiro. Com a ajuda de um publicitário, que teria se responsabilizado pela articulação e realização do esquema, já anteriormente provado (o "mensalão mineiro") e, portanto, com alguma consistência operacional. Pelo que está nos autos, depreende-se  - porque não há provas - que a Casa Civil (José Dirceu) sabia e aprovava os empréstimos bancários e os pagamentos. E, novamente, é muito estranho isto: pegar empréstimo bancário para pagar propina? Ah, sim: dizem que os empréstimos eram falsos. De qualquer maneira, usar um banco para camuflar dinheiro desviado é de uma estupidez asinina, já que toda atividade bancária é rigorosamente controlada. Há, aí, um caso a se pensar: ladrão que deixa tantas pistas quer ser pego. Ou merece ser pego. O articulador do esquema e o tesoureiro eram tão ingênuos assim?

Entremos, agora, no aspecto legal do julgamento.

Não consigo encontrar nenhum argumento que diga - de forma lógica e racional - por que esse processo foi parar no Supremo Tribunal Federal em sua totalidade. Se, pela Constituição Federal, só têm direito a julgamento no STF determinadas e específicas autoridades federais - e apenas três réus, deputados com mandatos, estão entre elas - por que todos acabaram tendo a preocupação de Suas Excelências Máximas, a quem nossos impostos pagam para cumprir, em primeiro lugar, preceitos constitucionais; em segundo, defender a própria Constituição, diante de leis que queiram desrespeitá-la; e, em terceiro, julgar autoridades com mandato, como o Presidente da República, Deputados e Senadores?

Foi esta a primeira pisada de bola do Supremo: o não desmembramento do processo, deixando que Tribunais de instâncias inferiores julgassem a maioria dos réus que, então, de acordo com o princípio constitucional vigente, teriam direito a recursos, como qualquer assassino, estuprador, pedófilo, esquartejador etc. têm, o que não acontece no Supremo que, por ser Supremo, não tem corte superior a que recorrer.
Ou seja: é um julgamento em última instância, sem ter passado por outras instâncias. O que é totalmente absurdo, kafkiano.

A segunda pisada de bola do Supremo foi a atuação do Ministro Barbosa. Na minha opinião, não é ele nem herói (como a direita quer fazer crer) nem vilão (como a esquerda o apresenta): é uma vítima. Vítima de sua origem, vítima de sua trajetória, vítima das circunstâncias de sua indicação e ascensão ao Supremo Tribunal.

Origem. Joaquim Barbosa é negro, de origem humilde, o tipo do brasileiro comum que lutou muito para superar as agruras de sua existência e conquistar um lugar ao sol. Sob esse aspecto, é um homem admirável: culto, inteligente, desbravador. No julgamento do "mensalão", essa sua trajetória explica sua sanha acusatória a homens que tiveram uma trajetória bastante oposta à sua, já que praticamente todos eles pertencem a uma classe média ou alta, abastada, detentoras de oportunidades que ele não teve. Então, em termos psicológicos, isso o predispõe para se colocar como justiceiro.

Trajetória. Não deve ter sido fácil ao jovem negro alcançar todas essas vitórias. Tornar-se orgulho de sua etnia, de sua família. Ultrapassar as barreiras que a profissão de jurista - coisa de homem branco, na tradição brasileira - não deve ter sido fácil. Agora, na posição de relator de um processo complexo, com toda a repercussão e, mais do que repercussão, com toda a pressão da mídia, Joaquim Barbosa não podia decepcionar aqueles que o exaltavam: ele devia vestir o manto do justiceiro.

Sua ascensão ao STF. Indicado por Lula, é claro que estaria sob suspeição da mídia que o exaltava, se não cumprisse o papel de neutralidade e isenção que ela, a mídia, travestida de opinião pública, às vezes de forma sutil, às vezes de forma explicita dele exigia. E aí está a armadilha de que ele não soube se livrar: a isenção que a mídia exigia era a de condenação, ou seja, se ele não condenasse os réus, seria taxado de compadrio com quem o indicara. E Joaquim Barbosa vestiu, então, definitivamente, o manto de justiceiro que a sociedade representada pela mídia esperava dele.

Triste papel, o de Joaquim Barbosa, o Othelo de uma tragicomédia kafkiana: açulado pela mídia de que fora traído em seus princípios por aqueles que o indicaram para o Supremo, não teve outra saída senão cumprir seu destino e destruir aqueles a quem devia o favor de sua nomeação. Favor que não era favor, era mérito. Só que ele não soube bem distinguir isso, cego não de ciúmes de uma pretensa Ofélia, mas de um espírito justiceiro que não lhe cabia como Juiz. E um Juiz não pode ser justiceiro, senão deixa de ser Juiz. Ele deixou de ser isento, para provar que era isento. Deixou de ser honesto, para tentar mostrar sua honestidade. Um paradoxo. Mas um paradoxo que o fará entrar para a História, talvez não exatamente como ele deseja.


Então, cometeram-se erros de avaliação do próprio processo - que não devia ser julgado pelo Supremo - e cometeram-se erros primários no próprio julgamento, quando, por exemplo, se pressupõe que houve crime a partir de indícios e não de evidências; como, por exemplo, pressupor que, se um subordinado comete um crime, seu superior teria a obrigação de saber e impedir ou coisa que o valha; como, por exemplo, dar mais valor a quem acusa do que a quem defende, ou seja, se um acusa e vários defendem, pendeu-se para a acusação; como, por exemplo, aplicar penas pesadas a réus com base apenas em pressupostos, taxando pessoas com longo histórico público de "quadrilheiros" apenas porque tinham cargos de relevância. Enfim, um julgamento para ficar para a História não como uma contribuição relevante, mas como uma mancha de opróbrio do Supremo Tribunal Federal. Como a História não guarda os nomes dos que fizeram injustiça (quem se lembra de quem condenou Tiradentes?), mas exalta os injustiçados, eu fico com ideia prática - mas não maquiavélica - de que preferia não ser condenado a entrar, assim, para a História.

Tudo acaba bem, se começa bem. Tudo acaba mal, se começa mal. E a ópera bufa desse tragicomédia kafkiana chamada História Recente do Brasil termina, aqui, com a esperança de que, graças a esforços de gente como Lula, Dilma e tantos outros que estão construindo um novo País, possamos ter os próximos cinquenta anos com o arrefecimento do golpismo típicos daqueles que nos governaram antes e que deram mostra de não gostar de lagar assim tão fácil a doce rapadura do poder. Porque, se a Democracia talvez não seja o melhor regime, é ainda - e o será por muito tempo, creio - o melhor regime possível.

novembro 16, 2012

A LIÇÃO DO CABO BRUNO







Há pouco mais de trinta anos, o famigerado Cabo Bruno aterrorizou a Zona Sul de São Paulo, ao assassinar com, às vezes, requintes de crueldade mais de cinquenta jovens, nem todos com passagem pela polícia, muitos apenas pequenos delinquentes.

Deveria o tal Cabo Bruno ter ficado para sempre na cadeia. Mas nossas leis não o permitem e os trinta anos cumpridos em regime fechado não foram suficientes para que seus crimes se apagassem da memória de amigos e familiares de suas vítimas. Pouco mais de um mês depois de sair da cadeia, fazendo-se de pastor arrependido, foi sumariamente assassinado ao voltar, à noite, de um culto, na cidade onde morava.

Vingança. Essa a palavra que está na origem da morte do ex-policial justiceiro.

A Polícia Militar de São Paulo tem um histórico de matanças, nascido provavelmente durante os anos da ditadura militar, quando proliferaram os chamados "esquadrões da morte". Mesmo de forma "oficial", a ROTA - Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar - sempre pautou suas ações pela ferocidade com que enfrentava e matava os bandidos. Poucos sobreviviam (e poucos ainda sobrevivem) em confrontos com esses "bravos" militares, às vezes exaltados pela população como justiceiros (num arremedo de substituição de uma Justiça lenta), às vezes temidos por essa mesma população, diante dos exageros de suas ações.

Enfim, são muitos os exemplos de matanças, assassinatos e atrocidades (favela Naval, Carandiru... - a lista é extensa e está na memória de todos) cometidos pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. É uma polícia que mais mata do que prende. Ou, pelo menos, é uma das polícias mais violentas do mundo. 

Assim, não é de assustar a ninguém que acompanha essa trajetória de bala e sangue que uma organização criminosa como o PCC - Primeiro Comando da Capital -, surgida há poucos anos como um arremedo de máfia, ponha-se agora a vingar a morte de seus comandados, mandando assassinar a esmo policiais militares (e também civis), como forma de intimidação. Olho por olho, dente por dente. Ou, como os criminosos preferem, para cada "irmão" morto, dois  ou mais policiais também devem morrer.

Enquanto o Governo Estadual, a Secretaria de Segurança Pública e demais órgãos envolvidos no combate à criminalidade não tomarem consciência de que é preciso romper o círculo vicioso da violência a partir da Polícia Militar - que deve ter como prioridade caçar e prender os bandidos, e não executá-los como o fazem atualmente - a violência não terá fim, apenas breves períodos de trégua, por exaustão de uma das partes, principalmente da bandidagem, ao sentir o peso ainda mais pesado dos órgãos repressores.

E, quanto mais pesa - em termos de mortes - a mão contra os bandidos, mais vinganças provocará a Polícia Militar de São Paulo.

É essa a lição que fica do assassinato do Cabo Bruno: assim como não se esqueceram seus crimes e eles foram vingados da forma mais direta e simples possível, também a bandidagem e muitas famílias que perderam jovens inocentes ou apenas pequenos delinquentes em confrontos com a polícia  (e que recorrem aos bandidos para se vingarem) não esquecem os excessos cometidos pela Polícia Militar de São Paulo. Olho por olho, dente por dente, na sede de vingança de ambos os lados (porque também a polícia se vinga), com a população no meio. Aturdida.

outubro 30, 2012

AINDA AS ELEIÇÕES (ou, PESCADOR, SÓ SEI PESCAR)







Há poucas semanas, numa troca óbvia de favores, "aquela revista semanal" publicou matéria de capa perguntando se não estaríamos sendo injustos com o Kassab, o ainda prefeito de São Paulo.

Pois bem, vamos tentar fazer-lhe justiça.

Gilberto Kassab ganhou a prefeitura de São Paulo como vice de José Serra e herdou, claro, o prestígio do padrinho, nos dois anos que se seguiram, com os mesmos secretários de governo tocando a cidade. Isso garantiu-lhe um segundo mandato. Claro, parecia que ia tudo bem.

Mas, a verdade, é que, como administrador, Kassab é um desastre. Sua popularidade começou a despencar já no início de seu voo solo, quando tentou e não conseguiu dar uma rumo próprio à administração da cidade. Não vou comentar seus insucessos, porque isso é público, notório e muito claro na cabeça dos paulistanos, que o elegeram como um dos piores prefeitos, só perdendo para o Pitta, também ele uma criatura saída da esperteza de outro político. Parece que brincar de Frankenstein não dá muito certo em política: os mostrengos quase sempre fracassam.

Como político, no entanto, não podemos deixar de admirar sua esperteza e tirocínio.

Ligado visceralmente ao Serra, não teve dúvidas em apoiá-lo, quando este saiu candidato a prefeito. Até mesmo arquitetou com o padrinho uma jogada de mestre para ajudá-lo: deixar os cofres cheios e os projetos (todos envolvendo grandes empreiteiras e obras enormes) já adiantados, para que o padrinho pudesse, em dois anos, firmar-se como grande realizador e fazer caixa para... a campanha presidencial, claro. Não deu certo. Serra perdeu as eleições.

Não pense, no entanto, que esse tenha sido um fracasso de Kassab. De jeito nenhum. Retrocedamos um pouco. Oriundo do DEM, o melífluo prefeito de São Paulo logo detectou o grau de deterioração desse partido e, com seu faro apurado, tratou logo de cair fora, não para outra sigla, mas fundando o seu próprio partido, com os descontentes não apenas do DEM, mas de todos os demais partidos. Está insatisfeito? Sem espaço? Não tem problema, as portas do PSD estão abertas para todos, numa alegre festa colorida, um verdadeiro arco-íris, já que o próprio Kassab definiu seu partido como não sendo nem direita, nem de esquerda, nem de centro!

Assim, antes da candidatura Serra, Kassab já flertava abertamente com o PT e buscou sempre aproximação com a presidenta Dilma. Só recuou quando Serra entrou na disputa. Mas já havia, espertamente, acendido sua outra vela. E, passadas as eleições - em que seu partido fez quase quinhentos prefeitos, pouco menos de 10% das cidades do País - Kassab tem cacife político para negociar com o governo de Haddad, dando-lhe apoio na Câmara (essencial, para os planos do novo prefeito) e fincar pé na política nacional. Ou seja, lançar-se nos braços do Governo e, quem sabe, cavar um ministério.

Se isso se concretizar, eu ousaria sugerir à Presidenta que lhe desse o Ministério da Pesca. Se, como administrador, Kassab foi deixa muito a desejar (e isso é o mínimo que se pode dizer dele), como político, façamos-lhe justiça: tem inegáveis qualidades de pescador, já que soube lançar as redes de seu partido e apanhar bagres, lambaris, tubarões e não sei quantas outras espécies de peixes de todos os demais partidos. 

A PREFEITURA DE SÃO PAULO E O PT


(Foto de Aurelio Becherini)



Não sei se Fernando Haddad será o prefeito de meus sonhos ou dos sonhos dos paulistanos. Só o tempo o dirá. 

Mas, algumas coisas eu espero da administração do PT: melhoria do ensino municipal (como nos tempos da Erundina); uma visão mais humanista da cidade (obras podem ser importantes, mas não devem ser a principal meta de um prefeito), o que implica investir na melhoria de qualidade

 de vida, com tudo o que todos esperam: saúde, transporte, iluminação pública, calçadas mais acessíveis, centro recuperado etc. etc. etc.

Mas eu queria, mesmo, um PREFEITO QUE TIVESSE PEITO PARA FAZER DUAS COISAS:

1. juntamente com o GOVERNO DO ESTADO e com o GOVERNO FEDERAL, elaborar um PLANO DE ESVAZIAMENTO DA CIDADE, para que ela, primeiro, parece de crescer e, segundo, diminua (a nível de 8 milhões de pessoas, em 20 anos, seria uma boa meta). Como? Estimulando polos de atração a até 200 km de distância, onde as pessoas poderiam morar e trabalhar em São Paulo, com a construção de vias rápidas de acesso (trem bala, por exemplo); mudando a Capital do Estado para o interior (região de Sao Carlos me parece uma boa escolha: é centro geográfico do Estado), porque isso levaria daqui uma boa parte da infraestrutura burocrática do Estado;

2. peitar a máfia dos transportes, recriando a CMTC e promovendo a GRATUIDADE DO TRANSPORTE COLETIVO. Essa "gratuidade" seria relativa: seu financiamento poderia vir, primeiro, do subsídio dado às empresas privadas de transporte (parece que é da ordem de 1 bilhão por ano); segundo, da taxa de licenciamento de carros (uma parcela a ser definida iria direto para os cofres da prefeitura), ou seja, o proprietário de veículos ajudaria a pagar o transporte "gratuito" ou toda a população contribuiria com uma taxa anual (que provavelmente não seria muito alta) a ser descontada mensalmente na conta de água ou na conta de energia elétrica. Com um sistema "gratuito" (na verdade financiado por todo o povo), poder-se-ia estabelecer uma malha mais inteligente de circulação dos ônibus e até linha especiais para atendimento a polos de afluxo de trabalho, sem precisar "despejar" toda a população nos trens de metrô e CPTM, o que aliviaria esses sistemas.

Sei que isso é meio louco, mas, pensando bem, até que podeira dar certo. Afinal, a partir de ideias malucas é que o mundo, muitas vezes funciona e vai pra frente.

Enfim, São Paulo precisa de gente que não faça só viadutos e túneis, creches e escolas, mas também pense no seu futuro. 

O "MENSALÃO" E O PT





Agora que as eleições já passaram e os vitoriosos comemoram e os derrotados choram, vou deixar, aqui, registrada a minha opinião pessoal (desculpem a redundância, mas às vezes isso se torna necessário) sobre o tal do "mensalão".

Não conheço pessoalmente nenhum dos envolvidos no tal escândalo, nem lhes devo qualquer favor ou queira deles alguma coisa além daquilo que eles já v
iveram, em termos de história, nesse País. Também não tenho nenhuma procuração para defendê-los. Nem esse é, exatamente, o meu propósito.

O que eu quero dizer é que nem sempre aquilo que parece realmente é. A História está prenhe de pequenas e grandes injustiças cometidas por tribunais muito mais solenes e muito mais vetustos do que nosso Supremo Tribunal Federal.

Não me entusiasmo com o nome pomposo de "supremo", porque dele fazem parte homens e mulheres que, apesar de toda a sapiência acumulada em anos de estudo, apesar da solenidade na envergadura da toga, apesar da linguagem erudita e empolada, são apenas seres humanos, falíveis como todos nós.

Homens e mulheres investidos da tarefa de julgar têm - repito - cometido mais injustiças do que possamos imaginar. Basta consultar os livros, basta pesquisar por aí, basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. E a História tem, sistematicamente, ignorado os nomes dos juízes cujas penas foram absurdas na condenação de inocentes, e exaltado o nome dos que foram injustiçados. Porque assim se faz a História.

Não acredito na inocência absoluta dos réus do processo denominado "mensalão", porque não há inocentes absolutos sobre a Terra. Mas acredito que os crimes a eles imputados são muito mais fruto de uma bem urdida trama de inimigos, do que realmente uma conspiração quadrilheira para assaltar os cofres públicos. Sinto muito em dizer que um tribunal que se arvora o direito não apenas de julgar conforme as provas que existam nos autos, mas também o dever de vingar, seja em nome da sociedade que representa, seja em nome de princípios, seja em nome de uma pretensa e total independência, não faz jus ao nome pomposo que ostenta.

Por isso, por esse "espirito vingativo" de que está imbuído o nosso "supremo", acuado pela mídia totalitária e também vingativa a açular a opinião pública, sinto no ar o cheiro azedo de uma injustiça a caminho, mesmo que me acusem de defender o indefensável, de acreditar em duendes e papai noel.

Um julgamento, para ser honesto, de acordo com aquilo que manda a lei e a lógica da lei, tem que dar aos réus a prevalência da dúvida e não o contrário.

Um julgamento, para ser honesto, de acordo com aquilo que manda a lei e a lógica da lei, não pode ser decidido de forma terminal por uma úncia corte, tem de haver o legítimo direito ao recurso.

Um julgamento, para ser honesto, de acordo com aquilo que manda a lei e a lógica da lei, não pode ocorrer como espetáculo midiático, para agradar a quem que seja, nem com o intuito de servir como "exemplo para a sociedade". A sociedade tem seus exemplos em outras manifestações que não numa corte. A corte existe para julgar, não para exemplificar.

Enfim, que me apedrejem os idiotas do imediatismo, os sectários do moralismo e do ódio partidário, os ignorantes do verdadeiro senso de justiça ou todos aqueles que, por uma razão ou outra, advogam a máxima cínica "para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei", que, para todos esses eu direi: que se espere o juízo da História, antes que se acendam de novo as fogueiras.


setembro 30, 2012

O CORVO











E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".


(O Corvo, de Edgar Alan Poe, trad. de Fernando Pessoa)



A ave agourenta de Poe pousou no Supremo Tribunal Federal. Do alto de sua cadeira, com o dedo acusador de quem se reveste, não de Juiz, mas de vingador,  com sua toga negra a sugerir um Batman às avessas (embora a mídia de direita o tenha escolhido para paladino da Justina), Joaquim Barbosa é a própria imagem da desolação do sentido de Justiça por que anseiam todos os homens.

Não há sentido nesse julgamento de um fato que teve nos testemunhos de prejudicados e de desafetos a prova maior de sua existência. Diz-se que "o que não está nos autos não está no mundo", mas o que está no mundo não está nos autos do julgamento do chamado "mensalão": a versão dos acusados.

Tudo conspira para uma condenação puramente política, já a estão inextrincavelmente embaralhados os acusadores com acusados. Então, como "exemplo", no mais absurdo sentido de moral há muito proscrito nas leis de quase todas as nações, que se condenem os acusados a todos, indistintamente, para que nós, o público desse teatro grego de quinta categoria, purguemos o supremo pecado de uma ação que tem suas origens em fatos muito mais nebulosos do que sonham nossa imaginação.

Julgamento "exemplar" não é digno de uma corte que ostenta no nome o termo "Supremo", porque não é essa a sua função. Por tortuosidades políticas - criadas por políticos do passado, que desejavam a impunidade para si e para seus crimes - o Supremo Tribunal Federal aceitou julgar uma causa que devia ter seus trâmites regulares em cortes inferiores e que só deveria chegar ao Supremo, quando, esgotados todos os recursos, houvesse dúvidas jurídicas constitucionais, ou seja, relacionadas ao cumprimento da lei suprema da nação, a Constituição.

No entanto, como qualquer tribunal de primeira instância, lá estão os togados supremos a falar de detalhes incongruentes de um processo complexo, que lhes esgota a energia que devia ser gasta na defesa de ideais constitucionais. E o Corvo, juntamente com seus pares, encorpa-se à luz dos refletores da mídia, para apontar seu dedo justiceiro, que ameaça não apenas os réus, mas também aos pares que não concordam com sua metodologia ou com seus longos e complexos arrazoados.

Nunca mais, nunca mais - parece nos dizer a ave agourenta, do alto dos umbrais do Supremo - nunca mais essa corte será a mesma: contrariando sua vocação de guardiã da Legalidade e da Constitucionalidade, rasga sua história num julgamento infame e despropositado, para gáudio dos golpistas de plantão  que, enfileirados na mídia da direita conservadora e retrógrada, cerram e afiam os dentes para a retomada do poder, na senda aberta pela atual fornada de ministros do Supremo Tribunal Federal, apequenados diante da figura execrável do Corvo.

setembro 24, 2012

QUANTOS PECADOS DEUS PERDOA?






 (Artemísia Gentileschi)


Existem limites razoáveis para tudo. Até para a fé e a religiosidade.

Não posso levar a sério nenhuma religião. São todas, absolutamente todas, sanguinárias, excludentes e perversas.

Nem precisamos citar os crimes em nome da fé registrados no passado do cristianismo. As guerras santas. As cruzadas que tinham por objetivo matar e saquear populações árabes e muçulmanas, apenas porque eram árabes e muçulmanas.

Nem precisamos citar os horrores da fatwa islâmica, que condena à morte qualquer pessoa que contrarie seus princípios, emitindo opiniões que possam ofender um homem que viveu e morreu há centenas de anos e que, até hoje, comanda as mentes criminosas de seus seguidores.

Não, não precisamos citar todas as carnificinas promovidas pelos seguidores de deuses ou apenas de um dos deuses que o homem criou à sua imagem e, por isso, pregam a destruição do outro ou sua maldição para o quinto dos infernos de todos aqueles que não professam a mesma fé, através de seus chamados profetas ou padres ou aiatolás ou que nome se dê àqueles que são donos das mentes apodrecidas dos fanáticos de todas as crenças.

Deus é carnificina. Deus é morte. Deus é anti-humano, anti-humanidade.

Mas, também é perdão. Deus a tudo perdoa. Desde que o indivíduo se arrependa de seus crimes, por mais hediondos que sejam. Com certeza, deve estar perdoando, nesse momento mesmo, a Hitler e a todos os carniceiros da história da humanidade, a exemplo do perdão dado a um indivíduo chamado Florisvaldo de Oliveira.

Você talvez não o conheça por esse nome, mas se eu disser Cabo Bruno muita gente há de se lembrar.

E quem é o Cabo Bruno?

Cabo Bruno foi preso em 1983, acusado de ser um dos maiores matadores de jovens da periferia da zona sul de São Paulo. Em entrevista a jornais da época, dizia, orgulhoso, ter matado mais de 50 pessoas.

Não é portanto, um criminoso comum. Quem se orgulha de matar friamente mais de 50 pessoas, em qualquer lugar do mundo, seria considerado um indivíduo a ser afastado do convívio social para sempre. Não no Brasil: com suas leis criminais absurdas, um supercriminoso como esse pode ser posto em liberdade depois de menos de 30 anos de prisão.

Absurda é a lei, mas é a lei.

Chega, no entanto, às raias da insanidade, o que acontece em seguida com esse famigerado assassino, pois não existe ex-assassino, a não ser que revoguemos qualquer possibilidade de lógica.

"Convertido" à fé, ou seja, "arrependido" de seus crimes, o tal Florisvaldo ou Cabo Bruno, ao ser posto em liberdade, não apenas é acolhido pela comunidade de crentes da Igreja Refúgio em Cristo, de Taubaté, interior de São Paulo, como empossado como pastor dessa mesma igreja, em cerimônia pública e de "grande emoção" para todos os seus seguidores que, a partir de agora, passarão a ser ungidos pela mesma mão que ceifou a vida de mais de cinquenta jovens da periferia de São Paulo, numa das mais impressionantes sequências de barbárie já vistas até hoje nessa cidade.

O Cabo Bruno, o criminoso que julgava e matava suas vítimas, sem processo, sem possibilidade de defesa, fossem ou não culpadas, hoje é um homem "santo", porque o deus sanguinário dos cristãos de todos os tempos sempre perdoa àqueles que se arrependem, não importa o grau dos seus crimes, porque, está escrito que mais vale o filho que retorna ao seio do pai do que todos os outros que nunca pecaram. Ou mais ou menos isso.

E é longa a tradição cristã do perdão dos assassinos, dos criminosos, numa longa lista de "santos" e "santas". Não vale a pena citá-los. O que importa é que, por mais que berrem os seguidores desse deus "bondoso" e benevolente, isso é absolutamente contra todos os princípios humanos de justiça.

Mas, quem disse que os crentes - e uso a palavra para designar todos os deístas do mundo - estão preocupados com o humano? Quem disse que eles estão preocupados com a justiça dos homens? A eles só importa a justiça divina, aquela que nivela a todos os que se arrependem; somente importa o que vai acontecer com eles depois da morte, ou seja, serão todos acolhidos no céu ou paraíso ou seja o lugar para onde vão depois do tal julgamento final, para conviverem todos em harmonia eterna com esse deus tantas vezes vingador e tantas vezes misericordioso.

Ah, sim: a misericórdia desse deus só vale para os que aceitam sua vontade, claro! Para os demais, a porta do inferno é a serventia da fé.






(Nota: dois dias depois de publicado esse artigo, dia 26.9.2012, o Cabo Bruno foi sumariamente executado em frente à sua casa, em Pindamonhangaba, ao retornar à noite, de um culto na cidade de Aparecida do Norte).



agosto 28, 2012

SERRA E KASSAB PREPARAM MAIS GOLPE NO ELEITOR PAULISTANO










Que a obsessão do Serra em ser presidente não arrefeceu, isso todos sabem. O que não sabe o eleitor paulistano é o golpe que se está articulando contra ele. Mais uma vez. A Prefeitura será o meio e o trampolim para as ambições do eterno presidenciável tucano. Mais uma vez.

Sigam em detalhes como esse golpe vem sendo articulado e pode se transformar no maior estelionato eleitoral da história recente do País. Pode parecer página de ficção, mas essa ficção se tornará um pesadelo - mais uma vez - para o eleitor paulistano, se ele eleger Serra como prefeito.

A última campanha eleitoral parecia ter queimado definitivamente a candidatura do Serra à presidência. Muitas coisas pesavam contra: a ascensão do Aécio Neves, o desgaste interno do candidato dentro do partido, falta de dinheiro...

No entanto, pouco a pouco, o vampiro ressurge das trevas, através de uma série de coincidências favoráveis e de um plano muito bem articulado com o prefeito de São Paulo, credor de Serra por sua carreira política.

O primeiro sinal detectado de que as coisas poderiam ser revertidos veio com o lento mas consistente declínio de popularidade do ex-governador mineiro. Aécio deixou de ser o queridinho de uma determinada mídia, que o abandonou por sua inconsistência política e intelectual e por seu pouco apego à própria imagem. Tem feito coisas que podem comprometê-lo numa campanha, ou seja, deixou de ser um político sério.

O segundo sinal foi o estrago que a criatura do Serra, o prefeito de São Paulo, fez nas hostes democratas (o DEM não parecia muito disposto a apoiar de novo o Serra), ao fundar o seu próprio partido. Embora mal avaliado como administrador, Kassab revelou-se um hábil político, capaz de fazer alianças com deus e o capeta, se necessário. Seu partido não é nem direita, nem de esquerda, nem de centro, como disse uma vez o próprio prefeito. Ou seja, é um partido - que até nasceu forte - para apoiar quem ele quiser, sem compromissos ideológicos.


Quando percebeu tudo isso, Serra - que não era candidato a prefeito de São Paulo - chutou a ética interna do PSDB e os culhões dos pré-candidatos que se esfalfavam para vencer as prévias e se apresentou como o candidato da união do partido e toda aquela baboseira que todos sabemos. Claro, o Kassab começava a pavimentar seu caminho para a presidência com a possibilidade de dinheiro, muito dinheiro, e de prestígio.

Como?

Essa é a parte mais engenhosa do plano.


Atentem bem para o seguinte: faltando 4 meses para o final de seu mandato, o prefeito Gilberto Kassab tem em caixa o total de 8 BILHÕES E 700 MILHÕES!

Descontados os gastos normais da Prefeitura, ele poderá deixará para seu sucessor a quantia de R$5.542.978.133,96. Isso mesmo: mais de 5 BILHÕES E QUINHENTOS MILHÕES DE REAIS!!!!

Aí, você poderá pensar: que legal, o próximo prefeito vai encontra dinheiro em caixa, para começar a governar!

Ingênuo pensamento!

Vejam o que realmente acontece:

Kassab prometeu, prometeu, prometeu... e só cumpriu 90 das 223 metas de seu governo (ou desgoverno. Preocupado com as questões políticas abandonou a administração da cidade).

Deixa, no entanto, dezenas de projetos prontos (só projetos!), como o túnel da Av. Jornalista Roberto Marinho/Imigrantes; túneis na Vila Mariana; Projeto da Nova Luz (um alentado, difícil e ambicioso projeto de recuperação de áreas deterioradas do centro, junto com a iniciativa privada); duplicação da Radial Leste até Guaianazes... etc...etc...etc... São todos projetos que demandam grandes obras, o que implica muito dinheiro. Para as empreiteiras, claro, e para quem executar os bilionários editais que já devem estar devidamente prontos e engavetados.

Qual é a mutreta, então?

Kassab tem uma grande dívida política para com seu padrinho, o Serra, e está na hora de pagar essa fatura e ainda faturar algum. Apoia fervorosamente o tucano e torce desesperadamente para que ele seja o seu sucessor.

Com todos os projetos prontos, com toda essa dinheirama em caixa, o SERRA não terá problemas em, já no primeiro ano de mandato, iniciar todas essas obras, lançando editais milionários, que vão transformar a cidade num canteiro de obras (pra infernizar ainda mais o trânsito) e chamar a atenção para sua administração.

Aí, você pensa: legal! Um prefeito dinâmico, empreendedor!

Mas, veja bem a armadilha: com tantas obras em execução nos dois primeiros anos de mandato, o (provável) prefeito Serra terá oportunidade de fazer CAIXA PARA SUA CAMPANHA À PRESIDÊNCIA: afinal, obras grandes significam propinas proporcionais (10% está bom para você? Ah, não: quero 20%, quero 30%... tudo se negocia!)

Então, COM DINHEIRO EM CAIXA, COM PRESTÍGIO EM ALTA, COM O APOIO DO KASSAB, o (provável) prefeito JOSÉ SERRA renuncia ao mandato - alegando pressão popular e aquela xaropada toda que já vimos antes - e se LANÇA CANDIDATO À PRESIDÊNCIA, mais uma vez, TENDO COMO VICE O SENHOR GILBERTO KASSAB!

Uma nota cômica: será que o Kassab joga - sendo vice-presidente - com a possibilidade de Serra renunciar ao mandato no meio para ser candidato a Papa?

Bem, brincadeiras à parte, aí está devidamente armado contra o eleitor paulistano - sempre enganado por uma mídia que morre de amores pele Serra e pelo PSDB - um bem articulado estelionato eleitoral.

Configurado para ser o crime perfeito. 

O vampiro arreganha, mais uma vez, os seus dentes.

julho 21, 2012

NÃO EXISTEM HERÓIS


(Tánatos, deus da morte)


A história da humanidade é pontilhada de conquistas sangrentas. O ser humano - mais besta que humano - não tem conseguido superar a barbárie de suas origens de lobo. Nossa boca tem gosto de sangue. E sangue que se estende desde os primeiros hominídeos até os dias de hoje.

As nações - praticamente todas elas - se formaram através de guerras de conquistas. Conquistas de territórios e eliminação dos nativos. Com garras e armas - desde a mais primitiva mordida e soco na cara até as de extermínio em massa - o ser humano tem marcado sua trajetória no planeta Terra com a destruição e o genocídio. E sistematicamente temos tratado esses assassinos conquistadores como heróis. Todos, absolutamente todos, foram apenas isto: assassinos e genocidas. Não há heróis, absolutamente, quando se trata de guerra e de conquistas.

Os Estados Unidos da América não fugiram a essa tradição. Seu território foi conquistado, alargado, dominado por gente feroz, vinda dos cantões do mundo velho, para erguer um "mundo novo" exatamente nos mesmos moldes de seus antepassados, fossem eles hunos ou outros bárbaros quaisquer. Com uma novidade: agora, depois de mais de mil e quinhentos anos de catequese, os novos conquistadores vinham imbuídos da fé cristã que os fortalecia na sua cruzada de ódio e destruição.

A história dos Estados Unidos da América é uma história de sangue. Uma história de "bravuras indômitas" construídas na porrada, no massacre, na destruição pura e simples do outro, para impor seus valores. Os fundadores da nação estadunidense era gente de muito má catadura, gente que não titubeava em assassinar para impor seus valores cristãos, brancos e europeus. Gente que tinha sangue nos olhos e uma vontade fortalecida pela fé de que estavam agindo em nome de um deus sangrento e vingador, que exige a submissão de todos os povos a seus desígnios.

Há uma novidade, porém, nesta nova trilha de sangue e dor: a partir do século XIX, quando os meios de comunicação começam a ganhar universalidade e rapidez na divulgação dos fatos e das ideias e ideologias, há a venda sistemática do processo de conquista sangrenta como valor maior da humanidade. A conquista do oeste é divulgada, primeiro pela imprensa (e coloque-se sob essa rubrica tudo o que é impresso: jornais, gibis, revistas, panfletos etc.) e, depois, pelas artes visuais, o cinema em primeiro lugar, como uma série de atos heroicos de cowboys valentes e matadores de índios. Uma maciça propaganda - um verdadeiro tsunami - dos valores bélicos dos estadunidenses toma o mundo, principalmente o mundo ocidental. Os Estados Unidos potência não se fizeram só com armas, progresso e guerras: foram construídos no imaginário popular universal e, principalmente interno, com um sólido, ferrenho e bem ordenado sistema publicitário, sem dúvida inédito na história da humanidade.

Convenceram. Convenceram principalmente a si mesmos, os estadunidenses, de que seus valores primitivos constituem aquilo que seu deus deseja para a humanidade: que eles são os xerifes desse deus no mundo. Esquecendo-se de que haviam construído uma sociedade doente, doente pelas armas e doente com as armas. Uma população que não pode viver sem um colt na cintura e um rifle debaixo do travesseiro,  porque precisam estar atentos e fortes todo o tempo, para defender-se do inimigo. E o inimigo, agora, parece estar dentro deles mesmos.

Dessa sociedade doente e doentia - que ama a violência, que adora as armas, que se arma cada dia mais (e defende isso com unhas e dentes) - brotam, de vez em quando, os assassinos seriais, os loucos que saem atirando a esmo, dentro de escolas, de supermercados, de shoppings, de cinemas, nas ruas ou em qualquer lugar onde se reúnam multidões que se transformem em alvo fácil de sua sanha vingadora.

E de que se vingam os assassinos estadunidenses?

 Individualmente, cada louco tem sua desculpa. Mas não são necessárias profundas análises sociológicas, históricas e de qualquer outra natureza para se concluir que, sim, são vingadores de uma sociedade doente, profundamente doente, que colhe internamente o fruto de seu rastro de sangue na conquista interna e do rastro de sangue de suas guerras pelo mundo afora.

O verniz civilizatório estadunidense rompe-se de vez em quando, para revelar o país profundo, o país que tem sangue em seu DNA. E a morte de dezenas de pessoas por um idiota qualquer, em qualquer momento de uma pacata cidadezinha do interior, é só a ponta desse imenso iceberg de violência e de tradições de chacinas, chamado Estados Unidos da América. 

Que nenhum deus salvará!