dezembro 21, 2014

PENSAR FORA DA CURVA







Incomoda-me o pensamento raso de pessoas inteligentes e cultas, ao dizer, por exemplo, que "nunca se roubou tanto neste país", ou, ainda, "votava no PT, mas quando Lula abraçou o Maluf, eu me desiludi"... Há vários outras afirmativas de mesmo teor por aí, mas vamos ficar nessas duas.

Corrupção. Não é invenção do PT. Não é invenção do PSDB. Não é invenção de nenhum partido político atual ou do passado. Ela existe, sim, desde que o mundo é mundo. Mas, para ficarmos apenas no nosso País, a corrupção instala-se com grandes negociatas a partir do começo da modernização, lá na década de quarenta, cinquenta, quando o Estado começa a investir em grandes obras. Brasília não estaria pronta e inaugurada em três anos, se houvesse Ministério Público naquela época, e se Juscelino não tivesse fechado os olhos às falcatruas das empreiteiras. Era uma questão de sobrevivência do Governo e, por extensão, do próprio Estado. As grandes empreiteiras nasceram ali, na construção de Brasília e começou assim, de uma forma singela: chegava o caminhão com material para descarregar e era registrado na entrada; mas ele não descarregava: saía do canteiro de obras e voltava a entrar pelo mesmo portão, e isso várias vezes. O candango encarregado do controle devia receber o seu quinhão para fechar os olhos e fazer os registros. E assim... o monstro cresceu, Brasília foi inaugurada, Juscelino deu a volta nos militares que o queriam deposto. A bomba só veio a estourar nas mãos de Jango. Mas isso é outra história.

O golpe militar colocou no poder a "moralidade pública" de fachada. Os generais tinham contas a pagar, pelo financiamento do movimento, contas que industriais e fazendeiros (os dois pilares da economia, naquela época, e talvez ainda hoje) cobraram com juros e muita correção monetária e incorreção ética. E os apoiadores do golpe tornaram-se grupos poderosos, à custa de muita estrada mal acabada, de muita obra superfaturada, que os militares engrandeceram com o mote desenvolvimentista. Não eram os ditadores exatamente corruptos (eles mesmos não enriqueceram devidamente), mas permitiram que os amplos e gordos úberes governamentais fossem devidamente sugados com muito apetite por quantos os apoiassem e entrassem no jogo cujas regras eles decidiam, sem Ministério Público, sem imprensa, sem oposição, sem fiscalização.

Os governos democráticos subsequentes herdaram a estrutura corrupta montada - e muito bem montada - durante os governos militares. Era simplesmente impossível ir contra ela. Podia-se ser mais leniente ou mais rigoroso com as licitações, mas seria suicídio político ir contra a óbvia cartelização das grandes empreiteiras. Fizeram-se leis, leis até rigorosas contra isso. Mas - todos sabem - malandro que é malandro se adapta. Quanto mais rigor de um lado, mais criatividade do outro, para driblar a lei e continuar mamando. Sempre foi assim. E não é  porque foi sempre assim que devemos ser vacas de presépio e nos conformarmos. Ao contrário: a luta contra a corrupção deve ser um processo diário e contínuo de todos os cidadãos, a começar pela suas próprias vidas privadas. E sem moralismos. Porque é uma questão de sobrevivência e melhoria de condições da sociedade. Sabemos todos que cada centavo que vai para a corrupção significa menos serviços públicos de qualidade.

A punição à corrupção sempre ficou restrita aos entes públicos, isto é, quando - e isso ocorria, sim, mas de forma bem menos sistemática do que gostaríamos - se descobriam "mal feitos", o funcionário público era demitido, processado e raramente ia para a cadeia. Aí incluindo na categoria "funcionário público" os políticos e governantes de todos os escalões do poder. Só agora, de muito pouco tempo para cá, é que há uma intensa fiscalização por órgãos bem estruturados e independentes, como o Ministério Público e a Polícia Federal. Mesmo que esses órgãos cometam exageros, de vez em quando, e até mesmo errem, sua independência e competência só são possíveis se houver um governo que banque essa ideia e realmente permita que eles façam o seu trabalho. Por mais que queiramos, a influência política nesses órgãos é, sim, intensa. Basta uma palavra, um despacho do Palácio da Alvorada, para que muitas investigações acabem na gaveta da CGU (Controladoria Geral da União), como muito bem sabemos, ou fiquem anos e anos nos meandros da Justiça. Além do que, é o Palácio do Planalto que escolhe e nomeia -  direta ou indiretamente - os responsáveis pela investigação e julgamento dos corruptos.

Portanto, pensar um pouco fora da curva, neste momento, em relação à corrupção, é não entrar no jogo da mídia, que nos quer fazer crer que "nunca se roubou tanto neste País", quando, na verdade, a afirmação correta é: "nunca se puniram tantos corruptos neste País"! Porque há independência e competência dos órgãos investigativos, mesmo que algumas denúncias possam estar viciadas por jogos de interesse, e certos "vazamentos" se tornem, muitas vezes, seletivos. É o preço que se paga. E parece que há disposição da atual - e próxima - governante de continuar a pagar esse preço, mesmo que tenha de cortar em sua própria carne, o que vem acontecendo.

Jogo político. A redemocratização trouxe a necessidade de uma nova Constituição. E a "Constituição cidadã", nos dizeres de Ulysses Guimarães, sacramentou princípios éticos muito salutares para a sociedade que estamos construindo. Mas seu bojo - extenso e contemporizador - apresenta distorções que, pouco a pouco, comprometeram e estão comprometendo o desenvolvimento político do País. Se nos deu segurança jurídica e permitiu um novo modelo de sociedade menos injusta, o seu lado político - construído por políticos - deixa muito a desejar. Se a ditadura restringiu os partidos políticos a apenas dois, ARENA e MDB, faces ambos da mesma moeda, por mais que o segundo tentasse ser oposição (era uma oposição consentida, acuada, devidamente controlada por mecanismos de perseguição e cassação de direitos), a atual Constituição tomou o caminho oposto e permitiu a criação de uma quantidade tão grande de partidos políticos, que  nenhum ser humano consegue imaginar tantas ideologias a justificar cada um deles. São, portanto, partidos "fisiológicos", legendas de aluguel, que vivem e sobrevivem de uns poucos "puxadores de votos" que não têm nenhum tipo de escrúpulo, quanto mais algum tipo de pensamento ou de ideologia política, muito menos projeto político para a sociedade, apenas o projeto pessoal de chegar ao poder ou dele se aproveitar, não importando qual partido esteja governando.

No meio desse imbróglio, três grandes agremiações: PT e PSDB que, por injunções eleitorais e ideológicas, têm polarizado as atenções e têm-se revezado no poder, sem, no entanto, alcançar a maioria, e, entre eles, talvez o maior partido de todos, o PMDB que, também por injunções mais eleitorais e menos ideológicas, é grande e forte, mas não tem obtido sucesso na ascensão ao poder. Tornou-se, por isso, o fiel da balança. Em geral, apoia o vencedor, que não pode prescindir de seus votos em qualquer casa legisladora, desde o Senado até a menor câmara de vereadores de qualquer município. Tem, no entanto, o PMDB um defeito de origem: como era uma "frente ampla", um "movimento" contra a ditadura, abrigando descontentes de todos os naipes ideológicos, desde a direita insatisfeita com os militares até o mais radical comunista, continua abrigando em suas fileiras uma razoável quantidade de facções que não tiveram força para formar outro partido (como os petistas e peessedebistas, dos quais muitos vieram do PMDB) ou não lhes interessa sair do partido, pela força da sigla ou por outros interesses, muitas vezes regionais. Exemplifico com o PMDB do falecido Orestes Quércia, em São Paulo, que sempre divergiu da direção nacional, mas nunca partiu para a independência. Assim, há dentro do PMDB facções que são de direita e apoiam a direita, e há facções que são de esquerda e apoiam a esquerda, além dos "fisiologistas" de sempre.

Assim, nem PT nem PSDB, quando chegam ao governo - qualquer governo - conseguem governar sem o apoio do PMDB. Que tem sempre uma facção disposta a apoiar, e outra que se diz "independente" ou, às vezes, até fazendo o papel de oposição ao próprio governo que o partido apoia. Uma miscelânea, como podemos imaginar. Logo, quem está no poder precisa contar com alguma parte do PMDB, sem dúvida, mas quase sempre isso não é suficiente. E aí entram os "nanicos", as siglas "de aluguel", com seus parcos, poucos e importantes representantes legislativos. E negociar com eles é um jogo de paciência e de acomodação de interesses conflitantes.

Pergunta-se: por que negociar com eles? Porque existe a tal "governabilidade". Se o chefe do executivo - desde o prefeito até a presidência da República - não tiver votos no legislativo, para aprovar suas medidas, seu governo, suas contas, ele simplesmente não consegue governar.

Então, quando Lula é abraçado por Maluf, muito mais do que o abraça, ele não estava acolhendo o político e corrupto Paulo Maluf, filhote e sobrevivente da ditadura, mas abraçando e acolhendo o seu partido, porque, naquele momento, sem o partido do Maluf, Lula não conseguiria maioria suficiente de votos para governar. Dizem que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. A frase é forte, mas não a interpretemos apenas como corrupção financeira e ética, mas também como a corrupção decorrente da própria necessidade do poder, que é governar. E o ato de governar, em quase todas as democracias constitucionais, não importa o tipo de regime, recai nas mãos do mandatário principal, presidente, primeiro ministro ou que outro nome tenha. Esse, sim, tem que ser ético o suficiente para saber que, ao chegar ao "inferno", ao poder, tem que abraçar o capeta, em nome de seus próprios princípios. Se esses princípios são legítimos, ou visam ao bem público, esse "pecado" é o que os católicos chamam de "venial", de pouca monta, sem importância. Se esses princípios não "rezam" (para continuar com as metáforas "cristãs") pela melhor ética, então, sim, o ato de "abraçar o capeta" pode se traduzir na transformação da vida do cidadão em um verdadeiro "inferno". No caso de Lula, pelo que vimos de seu governo - que teve erros e acertos, mas muito mais acertos do que erros - o "inferno" ficou longe, muito longe, da vida do cidadão comum. Porque foi o presidente que iniciou uma verdadeira revolução neste País, ao conseguir iniciar o movimento de inclusão de milhões de brasileiros no mercado de trabalho, tirando-os da pobreza absoluta. Note que disse "iniciar", porque o caminho é longo, como todos sabemos, depois de mais de quatrocentos e cinquenta anos de governos preocupados apenas com a elite e com os mais ricos.

Então, pensar fora da curva, no caso da política (que exemplificamos com o abraço entre Lula e Maluf - o ético e o corrupto), não é imaginar que Lula passou a apoiar o Maluf ou a ser igual a ele, como nos quis e nos quer fazer pensar a mídia de um olho só, mas dar a ele o crédito de sua história pessoal, política e do estadista que ele foi. E achar que, assim como há tantos políticos desonestos e safados, há outros tantos honestos e bem intencionados. Desistir da política por causa dos primeiros é fazer o jogo dos que querem continuar a apoiar aqueles mesmos de sempre, aqueles que fizeram desse País um dos campeões de desigualdade e de pobreza no mundo, apesar de sua riqueza territorial zelosamente explorada por poucos. Se esses que corrompem, que roubam, que querem a manutenção do status quo de pobreza de nosso povo continuam a ter votos - como o próprio Maluf e muitos outros - é graças ao pensamento dentro da curva que nos impõem os meios de comunicação que estão  nas mãos exatamente dos que pensam como os que sempre governaram esse País.


Sei que é difícil, muito difícil, pensar fora da curva. Mas não temos outra saída. E se você pensou que pensar fora da curva é apoiar o PT (como eu, até agora, apoio), você está saindo de uma curva para outra. Pensar fora da curva é ter a liberdade de apoiar qualquer partido ( e é essa a liberdade que eu exerço), mas não ficar no discursinho padrão da direita, e dizer coisas como as que colocamos nos dois exemplos acima. Apoie você o PT, o PSDB, o PMDB ou qualquer outro partido, mas não entre no jogo sujo e manipulador de pensar só o que eles querem que você pense: saia do quadrado, entre também no redondo, no triângulo, no tetraedro...



novembro 21, 2014

"EU TENHO MEDO DA DEMOCRACIA"






A frase acima eu a encontrei na timeline da escritora Márcia Denser, no Facebook, que afirma tê-la visto num muro da rua Vergueiro, em São Paulo.

À primeira vista, parece só uma dessas frases de impacto que encontramos por aí, sem maiores consequências. Frases que lemos, achamos divertidas e depois esquecemos.

Porém, essa me fez pensar: quem pode ter medo da democracia?

Pensei um pouco e cheguei a uma conclusão: há, sim, dois tipos de pessoas que temem a democracia. Primeiro, os que clamam por um governo ditatorial, tipo militar linha dura, do qual já nos livramos há duas décadas. Gente saudosa das regras claras e rígidas dos milicos, da ordem unida, do Brasil grande para os tubarões e o povo contrário na cadeia, mesmo que fosse assim tão contrário. Bastava não concordar com alguma coisa e já era isso motivo de preocupação. Tive um colega, professor de geografia, no estabelecimento em que ambos lecionávamos, que disse em sala de aula que o País não teria como patrulhar as duzentas milhas decretadas pelo ditador de plantão. Foi parar no DOPS, para esclarecimentos. Essa gente é a mesma que quer anular eleições livres, que quer impor a ditadura dos perdedores, a ditadura das minorias e dos que gritam mais alto, e podem fazê-lo, porque têm o poder das armas. Acho que essa gente não merece mais do que o já que escrevi até aqui.

Mas, há um segundo tipo de pessoas que teme a democracia: o verdadeiro democrata. Por motivos exatamente opostos ao anterior. Teme porque sabe que a democracia é, primeiro, quase uma utopia. Estou falando de um verdadeiro e absoluto estado democrático. Em que todos, absolutamente todos, são iguais perante a lei. Em que não há quase pobreza, em que a palavra de um lixeiro vale tanto quanto a do/a presidente/a do País. Em que as oportunidades são exatamente iguais para todos, e não há discriminação de cor, de sexo ou sexual, de classe ou de qualquer outra coisa. Enfim, um regime em que as diferenças sociais tendem a zero, porque o dono de uma indústria não precisa ter ganhos fantásticos para ter o mesmo tratamento na escola ou no hospital que o seu faxineiro, que tem um salário tão digno quanto o dele... Enfim, não disse que era uma quase utopia? Ou quase utopia é otimismo demais?

Voltemos à democracia. Agora, à democracia mais próxima de nossa realidade. O regime em que, apesar de todos os defeitos - e são muitos! - é aquele que promete, e às vezes cumpre, uma vida melhor para todos os cidadãos, dentro de um princípio de busca da igualdade. Um  regime em que há leis, regras, regulamentos que devem ser cumpridos por todos, não porque haja punições aos que não os cumprem, mas porque é a melhor forma de todos os cidadãos viverem em harmonia uns com os outros. Ordenações que, a partir de um certo grau de civilização e de civilidade dos cidadãos, podem tornar-se até mesmo obsoletas, porque interiorizadas numa só palavra: respeito. E respeito implica negociar com o próximo o meu direito, para não avançar sobre o direito dele. E isso é uma das coisas mais difíceis do mundo.

Democracia implica desde não fraudar o imposto de renda até recolher da calçada as fezes do cachorro que levo a passear. Democracia implica saber que as leis valem e valem para todos, que as regras - acordadas e aprovadas - devem ser sempre absolutamente respeitadas. Democracia implica jogar o jogo e saber ganhar tanto quanto saber perder.

Então, a democracia é um regime temível. Um regime que arrepia todos os nossos pelos, porque não posso estacionar meu carro na vaga de idosos; não posso cuspir no chão; não posso furar a fila na porta do cinema; não posso assediar a garota de saia curta no metrô; não posso impedir que dois rapazes se beijem; não posso quebrar o retrovisor do carro que fechou a minha passagem de moto; não posso olhar com cara feia o negro sentado a meu lado no banco da faculdade; não posso dar uns tapas na minha mulher, porque ela é a parte mais fraca da relação; não posso jogar o meu lixo no córrego ao lado de minha casa; não posso pedir a volta da ditadura; não posso... Chega! A lista é grande. Além do mais, numa democracia eu posso fazer tudo isso, porque afinal é uma democracia, porra!


Percebeu por que o democrata verdadeiro tem medo da democracia?

novembro 14, 2014

CHEGA DE PATRULHAS!







Viver numa ditadura é fácil: as regras são claras e desrespeitá-las implica punição, cadeia ou morte. Melhor seria dizer: morrer numa ditadura é fácil.

Já numa democracia, a vida é mais complicada. Porque significa pluralidade. E não só pluralidade, mas o direito de ser diferente e de expressar essa diferença. E "pior": aceitar que as pessoas pensem de modo diverso e sejam diferentes, que as pessoas possam dizer o que pensam, sem medo de serem presas, de serem torturadas, de morrerem. Ou seja: liberdade de opinião.

Liberdade total de opinião?

Talvez alguns pensem que sim. Mas não é exatamente isso. Há regras. E uma delas se chama RESPEITO. Pode-se opinar, sem dúvida. Mas não se pode deixar de respeitar o outro. Porque, numa democracia, a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro.

Complicado isso. Muito complicado. Onde está o limite, a linha divisória, a cal que delimita o meu campo do campo do adversário, onde um atacante pode ser considerado "impedido"?

Pois, é: o limite, a linha divisória, a cal - essa coisa tão clara na ditatadura e  que na democracia é invisível. Invisível,  mas elementar e fundamental e não é uma linha, não: é algo chamado bom senso.

E bom senso não tem na farmácia, nem no supermercado, nem na feira. Não se compra, não se vende. Só se usa. E, se usado mal, vira outra coisa, vira desrespeito.

E aí, já não há democracia que aguente. Que se sustente.

Posso criticar o meu semelhante, o meu vizinho, o gato do meu vizinho, como posso criticar o governador e a presidenta da República. Sim, tenho esse direito. Temos todos esse direito, o de criticar, o de opor a uma opinião a nossa opinião. De dizer sim, ou de dizer não. De lutar por aquilo em que acredito.

Mas...

Ah! Essa adversativa, essa maldita adversativa, que os totalitários odeiam. Ou só a usam a seu favor, porque não conseguem entender os sutis mecanismos da democracia e a cospem de suas falas, de seus textos.

Para eles, não há possibilidade de oposição. Porque são os recalcados do pensamento único. E se alguém é diferente, se alguém pensa diferente, é "pau na moleira dele", que está marchando com pé trocado. Todos têm que marchar exatamente no mesmo passo. Aliás, eles adoram uma "marcha", um "ombro-armas"!

São os patrulheiros do pensamento alheio. Não largam nunca seus fuzis, suas metralhadoras giratórias, suas granadas: o "inimigo" somos todos nós, que temos opinião e são todos os que dizem ou fazem alguma coisa com a qual não concordam.

E, o pior: muitas vezes, não concordam e se lançam ao ataque, sem nem mesmo entenderem o que o outro falou, ou escreveu. Tudo é motivo de "patrulhamento": a piada mal contada, a ironia não entendida, a crítica não assimilada, o posicionamento filosófico, a opção sexual, o voto declarado, o apoio ou não a alguém...

Mas, não pensem que atacam com argumentos, com ideias, com oposição. Não. As patrulhas atacam com o mais rasteiro dos argumentos: o xingamento, a ofensa, a ameaça. O argumento dos que não têm argumentos. E quando podem, com "carteiradas" - "sabem com quem está falando?" "Não sou deus, mas sou juiz" (ou delegado, ou deputado, ou... qualquer outra "otoridade")!

É quase impossível acabar com as patrulhas. Mas, está na hora de se começar a dizer: chega!

Se quer discutir, discuta. Se quer criticar, critique. Se quer opinar, opine. Sem patrulha, no entanto. Com civilidade. Dentro das regras da democracia.


Chega! Chega de patrulhamento!



outubro 27, 2014

O RESULTADO DAS URNAS





Dilma Rousseff ganhou as eleições, porque conseguiu vencer três adversários poderosos:

Primeiro, certo grupo de empresários influentes, que têm uma visão estreita de política e que não suportam imaginar um País com direitos para trabalhadores, em que não possam contar, como em muitos outros lugares, com mão de obra semiescrava, ganhando mal e produzindo muito. Esse grupo de empresários - ligado a partidos de oposição - paralisou o Brasil, por mais de seis meses, com intenção deliberada de prejudicar a presidenta reeleita, numa das orquestrações mais criminosas da história do País, um crime difuso, cujos autores é impossível identificar. Paralisaram as máquinas, diminuíram a produção, despediram funcionários, contrataram somente o indispensável, assim mesmo com salários menores, tudo de forma sutil, como uma quadrilha que age no meio da noite, sorrateiramente, sob o olhar complacente da mídia sempre disposta a ver em cada índice econômico desfavorável o fundo do poço, o abismo. Isso não é teoria conspiratória: é a realidade que está em todos os jornais, em todas as revistas em todas as análises de âncoras de rádio e televisão, basta ter olhos para ver, perceber, analisar e chegar a uma conclusão.

Segundo, a mídia a serviço de um partido político. Nas mãos de meia dúzia de famílias (essa repetição já está ficando exaustiva), essa mídia manipula informações, distorce fatos, ergue e destrói reputações, sem nenhuma ética jornalística. Seus cães amestrados - jornalistas que só escrevem e falam o que mandam seus donos - cumprem a triste tarefa de se exporem ao ridículo de forjar notícias que sirvam aos interesses um único grupo político. Não desfrutam de nenhum liberdade de opinião em suas redações. Os que ousam desafiar orientações superiores são sumariamente demitidos. Os que restam ou cumprem as ordens por necessidade de sobrevivência ou se alinham ao pensamento dos superiores, de forma servil e indigna. Alguns órgãos de imprensa conseguem iludir seus leitores, publicando artigos de oposição, como a dizerem que são democráticos. Mas, se tal artigo (geralmente matéria encomendada a algum medalhão) obtém repercussão, seus cães amestrados logo se colocam na linha de tiro, para desconstruir inapelavelmente, e sem direito de resposta, qualquer argumento que contrarie a voz do dono. Enfim, um inimigo que não dá tréguas, martelando a consciência da população diuturnamente. Muitos são os que, enganados pela repetição exaustiva de mentiras, acabam por acreditar nesses avatares da desinformação e dos interesses escusos de seus patrões, de interferirem de forma criminosa nas decisões do povo.

Terceiro, a máquina partidária do PSDB. Um partido que nasceu para ser uma opção de centro-esquerda e que se bandeou para a extrema direita, levado, principalmente, pela mídia e pelas elites conservadoras do Estado de São Paulo. Abro um parêntese para uma velha anedota. Contava-se, na década de sessenta e setenta, que alguém chega a uma banca de jornal e pergunta se o jornaleiro tem "Estadão" atrasado e obtém como resposta que ali não se vende mapa do Estado de Minas Gerais. Essa mesma piada teria, hoje, por resposta exatamente o Estado que lhe deu origem: São Paulo. Os paulistas ainda não se deram conta de que não são mais a locomotiva do Brasil, de que o desenvolvimento de outros estados, de ponta a ponta do País, mas principalmente de Minas e dos estados nortistas e nordestinos, já há muito tem deslocado o polo econômico para essas regiões e tem oferecido oportunidades de crescimento a suas populações. Os paulistas ainda não se deram conta de que o desenvolvimento passado de seu Estado deveu-se, e muito, às ondas migratórias, principalmente do Nordeste. E hoje, politicamente, São Paulo é o estadão atrasado e preconceituoso, com uma elite de visão ultrapassada e conservadora, encastelada em visões do  passado, elegendo e reelegendo políticos do mesmo naipe, para governar o Estado, como se ele fosse uma capitania hereditária. O PSDB, cuja máquina partidária deveria ter o rumo de um partido político moderno, tornou-se uma máquina de rancor, de ódio e de ranço conservador de uma direita quase fascista, ao se deixar dominar pelos políticos paulistas.

Dilma Rousseff não ganhou as eleições porque o Norte e o Nordeste lhe deram expressiva votação. Ganhou porque obteve - apesar de não ser a maioria - expressiva votação também em todos os estados e, principalmente, porque ganhou em Minas Gerais. Foi esse último o fiel da balança e não, como pensam os preconceituosos, os nortistas e nordestinos.

E por que venceu Dilma em Minas, o Estado onde seu opositor foi governador?

Por três motivos. Primeiro, porque Aécio Neves exagerou ao apresentar seu governo como a maior vitrina de sua capacidade administrativa. Claro, não foi um mau governante e os índices de aprovação de sua administração são incontestáveis. Justifica-se: mineiro gosta do político conterrâneo que tenha por trás de si uma longa tradição de políticos e Aécio, afinal, é o herdeiro de um homem que, se não chegou a tomar posse como presidente, teve uma importância fundamental na história recente do País. Mas ele exagerou e mentiu, quando apresentou realizações muito acima daquilo que realmente fez, quando governador. Tanto, que acabou por entregar ao PT a próxima administração. Segundo, porque está enraizada no inconsciente coletivo dos mineiros uma história mal contada de traição, a de Tiradentes, seu herói maior. E mineiro odeia traição. Aécio, sem querer, talvez, por inadvertência, traiu os mineiros ao se aliar fortemente aos políticos paulistas. Seu candidato a vice confirma isso. Buscou ele no PSDB paulista os principais pontos de apoio e de programa de campanha e de governo, sem atentar que, inconscientemente, estava traindo os políticos e o povo mineiro. Que não lhe perdoou: votou na Dilma que, embora tivesse pouca relação com Estado, é também mineira, o que alivia bem a consciência do eleitor. Terceiro, porque fez uma campanha agressiva. Não há dúvida de que também "apanhou como gente grande", como se diz. Mas, por dever de oposição, como candidato, mais uma vez exagerou na dose, sem perceber que o brasileiro, inconscientemente, apesar de ser machista, não gosta de quem "bate em mulher". Mas não se saiu tão mal assim, já que, na primeira fase da campanha, não tinha nem a possibilidade de chegar ao segundo turno. Seu crescimento político e o número de votos conquistados o habilitam como um político hábil - que ele realmente é - que ainda pode sonhar com voos altos, se repensar sua posição e conseguir se livrar desse extremismo direitista paulista que agregou à sua persona política, nessa campanha.


Concluindo: Dilma Rousseff venceu as eleições com o voto de brasileiros de todos os pontos do País. Ao contrário do que pensam os imbecis e preconceituosos que estão a pregar uma divisão do povo, não existe voto qualificado: pela lei e pelos princípios de democracia solidamente constituídos de forma legal e filosófica, todos são iguais perante a lei e o meu voto vale exatamente igual ao seu, ao do meu vizinho ou ao do pescador de Rondônia ou ao do vaqueiro do Rio Grande do Sul. E a vontade soberana do povo, em eleições legítimas e legitimadas pelo poder de uma Justiça Eleitoral livre e independente, não pode ser desrespeitada e violentada por qualquer minoria derrotada, apenas por implicância ou preconceito, esse sim, um crime de lesa-pátria e de lesa-humanidade.

outubro 21, 2014

LIBERDADE DE IMPRENSA X IMPRENSA LIVRE







A Rede Globo de Televisão e também as assim chamadas co-irmãs, ou seja, todas as demais redes de rádio e televisão do País, acompanhadas da mídia impressa, enchem a boca de seus apresentadores de telejornais, de seus jornalistas, de seus comentaristas, para qualquer evento em que se discuta ou que alguém de peso defenda a liberdade de imprensa.

Sim, liberdade de imprensa (liberdade de opinião, liberdade de mídia) é um bem fundamental de qualquer democracia. Direito e dever. Inalienável. Como vários outros princípios democráticos.


Temos, no Brasil, assegurada pela Constituição Federal, amparada por leis, defendida por todos, total liberdade de imprensa. Total liberdade de mídia. Nenhum jornal, nenhuma emisssora de televisão ou de rádio, nenhuma revista ou qualquer outro tipo de mídia têm sido perseguidos ou seus integrantes, presos, por opinião ou pelo exercício de seu ofício. Os três poderes da República funcionam em harmonia e se respeitam, apesar de divergências, mas respeitam, acima de tudo, a liberdade de opinião de todo e qualquer cidadão.

Mas... E aí vem uma adversativa que a nossa imprensa adora: há sempre um "mas" em qualquer notícia que nossa mídia publique sobre a situação do País - "a economia cresce, mas...", "não há desemprego, mas..."

Então, em relação à liberdade de imprensa/liberdade de mídia, também queremos ter o direito de colocar um "mas..."

E a nossa adversativa vem carregada de perplexidade, porque há um paradoxo nessa tão decantada liberdade que enche a boca de nossos ilustres apresentadores e comentadores só existe como quimera. Porque não há liberdade alguma dentro de nossa mídia, concentrada nas mãos férreas de cinco famílias. O que a nossa imprensa/mídia confunde é a liberdade de imprensa (liberdade de mídia) com imprensa livre (mídia livre).


Desafio qualquer jornalista de nossa grande mídia - Globo, Veja, Estadão, Folhão etc. - a dizer, sem muito óleo de peroba na cara, que tem liberdade de dizer e escrever o que pensa, dentro das redações e, principalmente, publicar em seus jornais, revistas e dizer em suas rádios e televisões opiniões que contrariem as opiniões de seus patrões.

Claro: muitos jurarão de pé junto que publicam o que pensam, porque há o outro lado cruel dessa moeda - não fica empregado nessas redações um só jornalista ou comentarista que destoe seu pensamento do pensamento do patrão. São todos escolhidos a dedo. Os que não se conformam às orientações que vêm de cima, se chegam a trabalhar, não permanecem.

E as famílias são oligopólios do pensamento único: suas ideias, sua ideologia, sua postura têm o cheiro pútrido do conservadorismo que nenhuma naftalina consegue disfarçar. São todos "quatrocentões" de todos os costados, aqui aportados nas naves vagabundas de Cabral. Nenhum pensamento modernizador ou de viés social, ou que implique a ascensão das massas populares ao poder, ou mesmo, às benesses do capitalismo selvagem que defendem, pode chegar a seus leitores, ouvintes ou telespectadores, que isso é visto como veneno ou ameaça a seu poder e ao poder que representam, fincado nos chãos de fábricas onde o operário é massa de manobra, ou fincado nos latifúndios lucrativos do agronegócio onde o lavrador é apenas o adubo que fertiliza a terra. Ambos - a indústria e o campo - nas mãos hábeis dos capitalistas internacionais, aqueles que lhes compram a consciência com o ouro negociado nas bolsas de Nova Iorque, Londres ou Tóquio e transformado em mais poder - econômico e político.

Portanto, a liberdade de imprensa/mídia - um bem inalienável em qualquer democracia - torna-se uma quimera, um jargão de noticiário do horário nobre, se não tem a contrapartida de uma imprensa/mídia livre. Não há realmente, liberdade de imprensa/mídia, enquanto a imprensa/mídia estiver sob o domínio oligopolizado de uns poucos.

E pior: de uns poucos que manipulam e mentem, que usam pesquisas e meios escusos de toda espécie, para influenciar a mente do povo, para fazer com que se elejam os seus cupinchas, os seus paus-mandados, como já fizeram no passado com um determinado presidente que foi, depois, devidamente defenestrado do poder, quando o povo percebeu o engodo.


A História que se repete, só se repete como farsa. E o povo sabe disso. Por isso, se muitos se deixam envolver pela mentira, pela falta de caráter de nossa mídia - que tenta mais uma vez manipulá-lo -, a maioria saberá dar o troco nessa gente e dar mais um passo à frente, no sentido de emancipação de um povo que se vê empobrecido e escravizado há quinhentos anos e está começando a gostar da liberdade que não têm os nossos jornalistas nas redações de suas empresas de mídia. Pobres coitados!

agosto 29, 2014

POLÍTICA BRASILEIRA É UM IMBROGLIO







É quase impossível pensar racionalmente, quando se tenta entender a política brasileira. Principalmente quando entra em campo a decantada, amaldiçoada e mal entendida "governabilidade".

A Constituição de 1988 abriu a porteira das ideologias - verdadeiras ou falsas - represadas desde o golpe militar e permitiu que inúmeros partidos políticos fossem criados. Com isso, pulverizou-se a ideia de partido majoritário. Cada partido que "ganha" as eleições, com alianças antes e, principalmente, depois das eleições, precisa garantir a tal governabilidade com longas e desgastantes negociações, senão não consegue aprovar nada. O exemplo crucial dessa política foi o governo FHC, que atingiu o ápice da troca de favores com o Congresso para a aprovação de matérias de interesse do Executivo, ao comprar, à custa da quebra do Estado, a sua reeleição. O políticos descobriram a mina de ouro: dificultar para obter favores. Contados os votos, lambem-se as feridas e é o momento em que os vitoriosos buscam e os derrotados negociam apoios. Formam-se novas e improváveis alianças. Quem fica de fora do butim, torna-se oposição e os "situacionistas" cobram o preço, às vezes de forma brutal, quase sempre com cargos e ministérios.

Essa é a realidade. 

E esta é a constatação mais infeliz: não há mais ideologias nos partidos políticos. Resta alguma em nanicos, como o PC do B, ou o PSOL. Mesmo o PT, que tem um berço nobre, acolhe em suas fileiras muitos aproveitadores, políticos e líderes que só querem a legenda para melhorar de vida. Para obter contratos. E não é possível impedir a entrada dos aventureiros, porque não existe atestado de ideologia. É como o jogador de futebol contratado por milhões que, ao vestir a camisa do time, beija seu escudo e jura fidelidade... e o torcedor acredita! Porque não é possível não acreditar. E porque, na maioria dos casos, deseja-se muito acreditar.

Dito e compreendido isso, vamos às eleições de 2014. Desde já deixemos claro que Marina Silva só é a cotada da vez para vencer essas eleições catapultada que foi pela espetacularização da mídia em torno da morte prematura de Eduardo Campos, um político neófito tratado como chefe de estado e grande estadista. Uma nova viúva Porcina: foi sem nunca ter sido. E entendamos as razões de a mídia ter feito isso: como seu queridinho, Aécio Neves, estava mal nas pesquisas, resolveram incrementar a candidatura de Marina, com a esperança de que, dividida a esquerda, ela tirasse votos da Dilma Rousseff, cuja reeleição parecia quase impossível de ser evitada, para desespero da mídia, alinhada com a direita mais retrógrada desse País, como sempre. Só que a canalha deu um tiro no pé: Marina tirou votos, sim, de Dilma, mas tirou muito muitos mais do minerim das baladas cariocas, jogando-o para o desesperador buraco dos perdedores de primeiro turno. E agora?

Se é sustentável a situação de Marina Silva, só o tempo - pouco, a essa altura - poderá dizer. Mas tudo indica que, passada a comoção da morte do moço de olhos azuis, avaliado o estrago que sua candidatura ocasionou ao queridinho da mídia e da direita, não há dúvida de que a ex-seringueira odiada pelo agro business começará a perder forças e essa perda (e não, "perca") será terrivelmente impulsionada por uma tentativa de desconstrução de sua figura, a começar pelo caso do jatinho acidentado, que parece ter conteúdo suficiente para fazer a poderosa rede Globo tentar achar em seus destroços sinais de corrupção e troca de favores que respinguem fortes em Marina Silva e seus acólitos. E uma campanha difamatória sutil e impiedosa começará a tomar conta de todos os meios de comunicação, como tentativa desesperada de inflar de novo o balão murcho de Aécio Neves. Claro que petistas desesperados tentarão aliar-se a essa guerra suja, o que será uma lástima, tanto para Dilma quanto para o próprio histórico do partido.

Especulemos, no entanto: e se Marina Silva ganhar as eleições?

Há, na mídia, como uma espécie de esperança consoladora, a ideia de que Marina Silva poderia aliar-se aos depenados tucanos de FHC, a essa altura curtindo uma profunda síndrome de abstinência de poder. Ora, se essa senhora tiver a cara dura de passar-se, a essa altura de sua trajetória, para a direita, teremos de reconhecer que, em matéria de política, tudo é mesmo possível. Nada, no seu ideário político até agora expresso, indica que isso possa acontecer, mesmo que ela venha, durante a campanha, por motivos eleitorais e eleitoreiros, a acenar com algumas concessões à direita, como tentativa de acalmar certos ânimos e obter financiamento para a campanha. Então, não será, quase com certeza, com o PSDB que ela irá governar. Talvez também não, no início, com o PT. Restará, então, qual partido com que aliar-se no Congresso para tentar aprovar suas propostas? Sem dúvida nenhuma, o PMDB, o partido que não é partido, ou melhor, é tão partido, que alinha em suas fileiras gente de todas as cores, de todas as ideologias. Tem, sim, PMDB para a esquerda e para a direita, para o centro e para qualquer outra nuance ideológica que se apresente no poder. É só saber estalar os dedos. Porque, hoje, no Brasil, nenhum presidente da República logra sucesso, sem o PMDB, porque ele é o maior, o mais bem estruturado, com bancadas sólidas no Congresso e em quase todas as casas legislativas. Só lhe falta - e isso é fruto de suas múltiplas faces e de sua origem como frente ampla - um líder de apelo nacional, que o conduza à Presidência.

Além disso, não tenham dúvidas de que, não importa com qual PMDB ela se alie, Marina Silva tenderá sempre para a esquerda e poderá levar o País para um caminho que o PIG - o Partido da Imprensa Golpista - e a direita mais hidrófoba não irão, absolutamente, gostar: o caminho de um nacionalismo à Cristina Kirchner, talvez sem os desvarios da politicagem peronista que mantém os argentinos à beira de um ataque de nervos, mas com uma política econômica muito mais próxima da heterodoxia do que hoje se vem praticando com Lula e Dilma. E isso poderá trazer consequências desastrosas para o País. Não exatamente sua política, mas a oposição de cachorro louco que ela enfrentará depois de alguns meses de governo.


O que se quer dizer, ao fim e ao cabo, é: Marina Silva é mais esquerda que o PT, mais esquerda que Dilma e Lula juntos, se acreditarmos nas ideias que ela expôs até agora. E se acreditarmos na força que suas origem tem nas ideias que ela expressa. Isso, independentemente de seu evangelismo que, sendo outra vertente, de sua personalidade, se vier à tona, poderá trazer sérios atritos com a sociedade civil que luta por direitos importantes como o das mulheres (no caso, a regulamentação do aborto, e não sua penalização), como o dos grupos GLBT (no caso, a união civil entre pessoas do mesmo sexo), e muitas outras lutas e conquistas que a sociedade espera e deseja. Creio muito mais num certo vocacionismo místico meio sebastianista, resultante de sua concepções religiosas, do que a interferência dessas ideias nas políticas de seu pretenso futuro governo. Marina pode ser muita coisa do que dizem dela seus detratores, mas não é estúpida, nem amadora. Sabe o quer, e tem personalidade forte para impor sua vontade. Desde que faça as alianças certas, no Congresso. Se isso não acontecer, aí, sim, a tal "governabilidade" entrará em campo, para melar seu governo. E o desastre será inevitável.



julho 19, 2014

O EFEITO MANADA






Um pouco de saudosismo: quando o metrô começou a fazer os primeiros testes, e depois iniciou sua operação, com a linha (hoje chamada Azul) Jabaquara - Praça da Sé, o povo que utilizava seus serviços foi orientado a estabelecer alguns protocolos de civilidade: manter os vagões limpos (de pichações e de lixo), dar prioridade a quem sai, estabelecendo um fluxo que deixava livre o lado esquerdo etc. etc. etc. Naquele tempo, o número de passageiros era pequeno e foi, claro, aumentando pouco a pouco e esteve num nível razoável até uns dez anos atrás. A partir daí, estourou: hoje, a quantidade de gente que viaja pela Linha 1 - Azul é assustadora. Com isso, o protocolo de civilidade que estabelecia preferência a quem sai tem passado longe da manada que assalta cada porta que se abre, em cada estação, sem se preocupar com quem está saindo, ocasionando, claro, transtornos, empurrões e cotoveladas que só não se transformam em brigas porque o tempo urge e todos têm pressa e as portas logo se fecham. Permanecer à direita é um procedimento simples, que não exige sacrifício de ninguém, como no trânsito de veículos. No entanto, no meio da manada, o indivíduo age como se fosse bicho, e a atitude de um serve de exemplo para todos e todos se tornam bichos e todos se empurram, se trombam, e ficam mal humorados e vão para seu trabalho ou para sua casa com cara amarrada porque levaram cotovelada, levaram empurrão, levaram trombada no metrô.

Podia dar mil outros exemplos, como o das torcidas organizadas de futebol, compostas, em geral, por gente normal, que trabalha, que é bom filho, bom vizinho, mas quando se junta na manada vira bicho e sai espancando adversários como se fossem inimigos. Gente que, em situação normal,  não mataria uma mosca, assassina impiedosamente o outro porque ele está usando uma camisa diferente da sua, ou melhor, diferente da camisa de sua manada. Como os dos black blocs, fenômeno mais recente, que se misturam à manada pacífica para cometer suas atrocidades e depredações, porque ali são anônimos e estão protegidos pelo grupo, mesmo que o grupo pacífico não concorde com seus atos. Assim é o efeito manada, em qualquer circunstância: o ato de um torna-se coletivo e o coletivo é a força que leva o indivíduo a agir em nome de todos. E a manada tende a proteger o indivíduo, para proteger a si mesma.

Pois, é: assim é o ser humano. Viver em sociedade exige regras de civilidade. Regras claras, objetivas, que têm o contraponto da punição, quando necessário. Já a manada não tem claras as regras de ação e, mesmo quando as têm, são facilmente descumpridas, no calor da pugna ou da ação. Porque, enquanto, na sociedade, as pessoas se comportam porque têm inúmeros compromissos e relacionamentos profundos e duradouros, dentro da manada, esses compromissos e relacionamentos são frouxos e efêmeros, o comportamento de cada um está sujeito às explosões  momentâneas e às conquistas de território ou à confirmação de uma identidade surgidas ao sabor da necessidade imediata da manada ou de seus líderes.

E mais: os atos individuais cometidos dentro da manada ou em seu nome ou pela sua causa - não importa se justa ou injusta - dificilmente são punidos, porque se torna quase impossível individualizá-los perante a lei, e porque a manada, mesmo que, em princípio, não concorde com certos atos, tende a proteger os indivíduos que dela participam, porque desconfia tremendamente da noção de justiça que não venha de sua própria organização, ou seja, desconfia de que, se deixar que um de seus membros seja criminalizado, toda a manada o será. Haja vista a grita geral da manada em favor de alguns de seus membros que foram detidos ou presos pela polícia em manifestações recentes em que houve confronto e vandalismo. Não se conforma a manada com o fato de que esses indivíduos - mesmo que tenham seus crimes reconhecidos e provados, de forma individual - possam ser culpados de qualquer ato cometido com e pela manada.

O homem é um ser social. Isso é consenso. Mas, parece que a sociabilização tem limites. Há um ponto de equilíbrio. E o efeito manada confirma que a civilidade desaparece na mesma proporção que nos tornamos de novo o elemento anônimo dentro de uma massa informe. E mais: não é exatamente o tamanho da massa que determina o efeito manada, mas sim, a ausência de liderança firme e de objetivos reais. Um milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, há alguns anos, sob a liderança de políticos, artistas e comunicadores, não trouxe nenhum dissabor nem mesmo à polícia da ditadura, de olho nos participantes que, de forma civilizada e firme, protestaram contra o regime militar. No entanto, numa estação de metrô, com quinhentas pessoas, ou numa passeata de duas mil, em que não há objetivos claros de ação cidadã nem lideranças capazes de aglutinar, o efeito manada faz que cidadãos civilizados ou, pelo menos, razoavelmente civilizados, se empurrem, se xinguem, se atropelem, destruam bem público, arremessem pedras em lojas e queimem carros e ônibus que encontrem pela frente.

Não temos antídoto contra o efeito manada, senão a punição rigorosa de elementos que exageram na dose, quando conseguem ser identificados. Mas essa não é a melhor forma para resolver o problema, porque a manada acaba adquirindo a percepção errônea de que a criminalização de atos individuais atinge a própria liberdade de expressão da manada, o que tornaria a punição aparentemente antidemocrática. Fica-se, então, num dilema: punir como exemplo, ou esquecer e deixar tudo continuar como está? Não há resposta, sem que haja uma revisão nos conceitos de cidadania, sem que as pessoas percebam que a convivência pacífica entre as pessoas é possível, desde que se cumpram regras simples e elementares de respeito e de dignificação de si mesmo e do outro, e de que a vida é um bem único e inalienável e, não podendo ser reposta, não deve ser jamais desprezada e colocada em risco.








março 28, 2014

NÃO VAI TER COPA?








As pessoas apreensivas quanto ao movimento "não vai ter copa" deviam atentar para alguns aspectos do evento, antes de pensarem que poderão ocorrer fatos constrangedores durante a realização do mundial de futebol no Brasil:

1. em quase todos os países onde houve a Copa, ocorreram manifestações contrárias ao evento, sempre de grupos minoritários, sem qualquer repercussão;
2. não se pode menosprezar o poder da FIFA, em todos os sentidos, não só econômico, mas também de mobilizar o mundo (tem mais associados do que a própria ONU): conta com parceiros (grupos econômicos e empresas) que têm interesses imensos na realização da Copa, em termos de negócios e marketing;

3. FIFA + EMPRESAS + GOVERNO (e acho, até, que se poderia colocar a palavra "governo" no plural, abarcando outros Países, e não só as três esferas de governo brasileiras, municipais, estaduais e federal) vão atuar de forma maciça em termos de propaganda e marketing nos poucos meses que faltam para a Copa, e isso vai ser quase como uma "lavagem cerebral";

4. à medida que se aproxima a data do primeiro jogo, os meios de comunicação começam a dar, a cada dia que passa, mais destaque ao evento. Agora, imaginem quando as seleções começarem a ser convocadas, principalmente a brasileira; quando as seleções começarem a treinar e, portanto, a desenhar seus sistemas de jogos e definir seus times; quando as seleções realizarem seus jogos amistosos e jogos-treino; quando as seleções começarem a chegar ao Brasil; quando, enfim, os times estiverem todos aqui... - a cobertura de todos esses eventos fará com que a mídia tenha quase que um único assunto, futebol; política, economia etc. etc. etc., tudo ficará em segundo plano, tanto em cobertura, quanto na preocupação do povo;

5. pensem ainda: com a propaganda maciça da Copa, com a cobertura total da mídia, com todos os olhos voltados para o evento, a mobilização popular dará o ar de sua graça, claro, com as ruas sendo enfeitadas, com as pessoas usando as cores do País, a camiseta da seleção, consumido os milhares de produtos que já começam a tomar conta do comércio, o espaço para protesto começará a diminuir;

6. e pensem mais, no que é fundamental: a quantidade de dinheiro que começará a circular (aliás, já começou há muito, em termos macro, com a obras relacionadas à Copa) desde hotéis, restaurantes, comércio em geral até os pequenos vendedores de cachorro-quente e as pessoas que vão alugar casas, apartamentos e quartos para visitantes, afetando direta ou indiretamente a vida de dezenas de milhares, talvez milhões, de pessoas;

Juntem tudo isso e mais: o interesse que a Copa desperta em termos financeiros e, através do marketing, em termos emocionais, mobilizando "corações e mentes", levando a que se respire Copa do Mundo vinte e quatro horas por dia, diariamente - e agora respondam: acham que os pobres-diabos do movimento "não vai ter copa" terão alguma chance?

Se os gatos-pingados desse movimento resistirem até os jogos e resolverem colocar suas manguinhas de fora, protestando em frente aos estádios, será que alguém, em sã consciência, imaginará que terão oportunidade de sequer se aproximarem dos locais dos eventos, com todo o policiamento na rua, e mais, com toda a população mobilizada e ávida por ver os jogos, as torcidas dos times (que não estarão presentes nos estádios, já que a venda de ingressos pulveriza os torcedores), orgulhosas com os seus estádios (patrimônio de seu clube do coração e, por um processo óbvio de assimilação, patrimônio do próprio torcedor) estarão atentas para que não se depredem e destruam os seus estádios longamente sonhados, como o do Corinthians, em Itaquera, bairro essencialmente popular, que receberá a abertura e terá, portanto, a atenção do mundo todo?


Ora, ora, senhores e senhoras, tenham um pouco de calma, que esse movimento - que já dá claros sinais de esgotamento, com as ridículas manifestações de ontem, 27 de março - vai-se recolher ao seu tamanho original de meia dúzia de loucos ou idiotas a enfrentar o mundo, por uma causa que nem é, assim, tão apaixonante, por falta de consistência ideológica e por se revelar absolutamente inútil, diante de tudo o que dissemos acima. 



março 19, 2014

DURA LEX, SED LEX








Em política, só as ditaduras são absolutas; tudo o mais é relativo, absolutamente relativo. Nossa democracia, por exemplo: há liberdade de expressão, de manifestação, mas há também leis que regulam e, até certo ponto, relativizam tal liberdade, além do fato de que há temas sobre os quais a manifestação de posição favorável pode dar até cadeia, como racismo. Também somos livres para criticar nossa democracia, mas não pode haver liberdade absoluta de expressão para quem queira suprimi-la. Numa democracia, não se pode ser anti-democrático. Logo, em alguns aspectos, o regime democrático torna-se ditatorial, por mais que essa palavra nos cause asco. A diferença dos aspectos ditatoriais (e notem que nem usei aspas) de um regime democrático para os mesmos aspectos num regime ditatorial é que, no regime absolutista, a oposição a ele é tratada de forma absoluta, com prisão, condenação, prisão e, muitas vezes, morte, quase sempre sem julgamento, ou com julgamentos de cartas previamente marcadas. Já o regime democrático trata os opositores de forma relativa, levando-os às barras dos tribunais, sob leis o mais justas possível, com o mais amplo direito de defesa. E não se pode, e isso já é uma opinião estritamente pessoal, tergiversar com a aplicação da lei, pois, como sempre se disse, dura lex, sed lex.

Todo esse arrazoado vem a propósito do temor - justificado - de alguns setores democráticos com relação à convocação por um grupo de extremistas da direita de uma nova "marcha da família, com deus, pela democracia", de cunho claramente golpista e favorável à volta dos militares e sua ditadura. Que haja saudosistas dos tempos ditatoriais, não nos causa estranheza: muitos foram os apoiadores efetivos, com recursos e prestígio, aos militares da ditadura. Que sonhem com sua volta, para continuarem tendo os privilégios que tiveram, também é um direito deles, e um direito democrático. Já o fato de pregarem abertamente tal proposta ponho em sérias dúvidas se um regime realmente democrático deva permitir uma campanha contra os seus princípios. E conspirar, então - e conspiração parece existir nessa campanha -, merece com certeza que seus inspiradores e líderes respondam por seus atos e palavras nas barras dos tribunais, democraticamente, com direito claro à defesa, mas com um julgamento que não deixe dúvidas de que não se pode - pelo bem da democracia - ser conivente ou calar diante de ameaças ao sistema democrático que adotamos.


Querem se manifestar? Que se manifestem. Querem marchar com deus ou com o diabo? Que o façam. Porém, respondam, depois, pelos seus atos e palavras. Porque a tolerância democrática tem o limite de sua relatividade: não pode permitir-se a omissão diante de quem, de forma absoluta e absolutista, queira impor, de novo, um regime contrário aos princípios básicos e axiomáticos de um sistema democrático. Que se manifestem, portanto, os representantes da lei, com a justa dureza e isenção que exige o caso.

janeiro 26, 2014

A CRISE DAS CIDADES, DAS MEGA CIDADES





(Foto de Aurélio Becherini - São Paulo antiga)


São Paulo  completou ontem, dia 25/1/2014, quatrocentos e sessenta anos. Sem muito a comemorar. Embora seja um dos polos de desenvolvimento e de cultura do País, a mega cidade tem problemas crônicos que todo morador sabe de cor. Todos clamam por solução e protestam contra as condições de vida a que são submetidos, mas poucos oferecem sugestões de como serão resolvidas suas imensas carências.

"Tudo aqui é insuficiente. Quanto mais metrô se faz, mais insuficiente o metrô fica. Quanto mais hospitais se constroem e se instalam, mais hospitais são necessários. Quanto mais escolas se tem, mais escolas se precisa e menos ensino se consegue. Estamos no reinado de Alice do outro lado do espelho: quanto mais andava, mas distante ficava. Chegamos, finalmente, à lógica dos avessos. Nem o povo é inocente nessa história. Uma cidade que reclama da falta de transportes e queima ônibus todos os dias é uma cidade louca. É melhor chamar o Alienista, de Machado de Assis." Assim escreveu o sociólogo José de Souza Martins, num artigo publicado hoje no Estado de São Paulo.

Neste parágrafo está, para mim, a chave da compreensão da cidade de São Paulo: o crescimento desordenado da vila do século XIX para a mega cidade do século XXI, sem planejamento, sem respeito ao meio ambiente, sem pensar no futuro, ou seja, só tivemos governos municipais (e estaduais, que também se metem no planejamento da cidade) voltados para obras, para o imediato, para o aqui e agora.

Sim, colhemos o fruto - amargo - de décadas de mau planejamento. Isso todo mundo sabe. Isso todo mundo diz. Mas... e daí? Como sair dessa? Tem solução a cidade de São Paulo?

A doença é crônica e corrói não só São Paulo mas todas as mega cidades do mundo: chama-se explosão demográfica. Gente demais querendo viver num espaço exíguo. E gente quer casa, quer escola, quer água e esgoto, quer transporte, quer qualidade de vida. No entanto, é impossível prover tudo isso para uma população que explodiu de pouco mais de 4 milhões para 12 milhões em apenas quarenta anos. Mesmo que haja recursos - e, em parte, eles existem - tudo o que é necessário para tornar a vida melhor demora para ser feito. Não se fazem milhares de casas de um dia para o outro. Um quilômetro de linha de metrô demora meses para ficar pronto. Obras rápidas só no jogo de faz de conta de promessas políticas, ou na construção de pontes e viadutos que não resolvem absolutamente nada.

Digo e repito, por mais estranha que algumas pessoas possam achar a ideia: São Paulo precisa, primeiro, parar de crescer; segundo, começar a diminuir. Sim, diminuir. Somente um plano racional de esvaziamento da cidade pode garantir seu futuro. É estupidez nos orgulharmos de sermos tão grandes. Se, num barco furado, entram duzentos litros de água por hora e só temos capacidade de tirar cinquenta, quanto tempo levará para que esse barco afunde?

São Paulo está afundando em seus problemas porque há gente demais exigindo recursos demais, recursos que não são possíveis de serem colocados à disposição das pessoas em curto prazo. Recursos que se tornam obsoletos no momento mesmo em que são disponibilizados. É como enxugar gelo.

Então, o que fazer para diminuir a população de São Paulo?

Não, não pense que eu estou propondo expulsar a quem quer seja da cidade. Isso é higienismo e fascismo. A cidade precisa de sua população e de sua diversidade. O que não pode é abrigar um número exagerado de pessoas a demandar recursos de que não dispõe.


Há duas formas básicas de fazer com que a população diminua ao longo de duas ou três décadas.

A primeira é transferir a capital do Estado para o interior, para o centro do Estado, com toda a sua infraestrutura burocrática. Liberar a cidade do peso de ser a capital e abrigar centenas de órgãos públicos e toda a burocracia que os envolve, tornando-a, ao mesmo tempo, livre de atração de dezenas de pessoas que buscam a capital para a solução de seus problemas ou de realização pessoal. Creio que não é necessário fundar e construir uma nova Brasília para isso: há, por exemplo, São Carlos, bem no centro geográfico de São Paulo, que pode muito bem receber a honra de tornar-se capital (e esse é só um exemplo!).

A segunda forma é alocar recursos municipais, estaduais e federais para realizar um plano que permita a muitos cidadãos paulistanos morar fora de São Paulo e, ao mesmo tempo, aqui manter seu emprego, seu lazer, sua vida. Polos de atração a até 200 quilômetros da cidade - outras pequenas cidades, vilas, condomínios etc. - integrados à cidade por trens de alta velocidade (trem bala). Provavelmente o tempo de deslocamento entre esses polos e o centro será bem menor do que hoje se leva para ir de um bairro a outro vizinho, em horário de pico.

Prevejo, com essas medidas, uma redução de até um terço da população atual. E, com cerca de 8 milhões de habitantes fixos, até mesmo a atual infraestrutura já seria suficiente. Mas, o governo municipal teria ainda como melhorar a qualidade de vida de seus habitantes com medidas mais efetivas de despoluição de rios e do ar; de saneamento básico; de arejamento da cidade com o aumento de áreas verdes, parques, praças etc.; de mobilidade urbana; de permeabilização do solo, que diminuam os tormentos das enchentes; de recuperação das margens de rios e riachos, após o desenterramento de muitos deles; de ensino de qualidade; de mais lazer etc. etc. etc.

Enfim, teríamos uma cidade mais civilizada e menos violenta. Porque creio que a violência não é fruto de pobreza ou de imigrantes ou de outra coisa que não seja a excessiva aglomeração de pessoas. E São Paulo, repito, tem gente demais. E gente demais é sinônimo de conflito, de crise, por causa de demandas não atendidas e impossíveis de atender, porque, como disse o articulista citado, "quanto mais se anda, mas distante se fica" e, então, nem o Alienista pode dar jeito.


janeiro 21, 2014

"ELES" NÃO APRENDEM...








Durante alguns anos, militei na área de atendimento ao público, estudando e dando cursos e palestras. Li e aprendi muita coisa. Conceitos que, há vinte anos, pareciam utópicos, como "encantar o cliente", foram-se popularizando, principalmente nas empresas mais sérias, mas preocupadas com seu relacionamento com o consumidor, o seu cliente, aquele que paga seu investimento e salário de seus "colaboradores".

No entanto, há bolsões enormes de resistência ao bom atendimento. Em todos os setores. São pessoas empedernidas em velhos paradigmas, de que "cliente bom é o que compra o serviço e não reclama". E um dos piores, nesse quesito, sem dúvida nenhuma está na chamada área da construção civil, mais especificamente as pequenas e micro empresas voltadas para o atendimento a uma vasta, enorme clientela de pessoas que precisam de pequenos e médios reparos em suas casas e apartamentos. Falamos de pedreiros, carpinteiros, encanadores (no Rio, são "bombeiros"), pintores etc.

Dez entre dez pessoas atendidas por esses "formiguinhas" têm histórias para contar. E histórias nada lisonjeiras, como a minha vizinha que contratou um desses profissionais para pintar o se apartamento e teve a surpresa de, ao alinhar um dos quadros na parede, perceber que o indivíduo era tão bom pintor, que conseguiu pintar a sala sem tirar um só quadro da parede, contornando-os todos, com grande perícia. Enfim, são muitas e muitas as histórias. Mas, vamos falar principalmente de atendimento. De relação sadia com o cliente. Para isso vou contar uma história particular, como exemplo.

Em julho de 2012, contratei a micro empresa CHIBRAS MANUTENÇÃO DE CONDOMÍNIOS, CNPJ 09.500.785/0001-36, localizada na Rua Jurupari, 39, Jabaquara, São Paulo, de propriedade do senhor Dean Freddy Delgado Ovalle, autodenominado "técnico responsável pela mão de obra", com a finalidade de cobrir o telhado da minha casa, especialmente o da cozinha, com manta asfáltica, para evitar vazamentos contínuos, no período da chuva. Assinamos o contrato, com garantia de cinco anos, "à luz do código civil/2002 , art. nº 618 e do código de defesa do consumidor lei 8.078/90", e o serviço foi feito e devidamente pago.

Seis meses depois, com as chuvas fortes do verão, constatou-se que houve um erro de execução do projeto, não constatado pelo senhor "técnico responsável pela mão de obra", o senhor Freddy, e houve um grande vazamento na minha cozinha. Chamei o senhor Freddy à minha casa, mostrei-lhe o vídeo que fizemos da quase "cachoeira", ele subiu ao telhado, detectou o problema, prometeu resolvê-lo (já que não era complicado) e... sumiu!

Durante todo o ano de 2013, liguei para ele. Sempre uma desculpa. Sempre uma promessa. E nada. Como o verão de chuvas forte só ocorre no começo do ano, acabei relaxando a cobrança e o tempo passou. Chegamos a um novo período de chuvas forte e novamente procurei, sem sucesso, o senhor Freddy, já que, na primeira tempestade, uma nova "cachoeira" inundou minha cozinha. Dessa vez ameacei com "medidas drásticas", isto é, iria procurar o PROCON, iria procurar a Justiça e processá-lo, se ele não resolvesse o problema em três dias.

Realmente reapareceu o senhor Freddy, com o material necessário para o reparo e um funcionário a tiracolo, devidamente uniformizado com a camiseta o logo de sua empresa. Deve ter muito orgulho de sua empresa o senhor Freddy. Muito. Mas, orgulho não basta. Precisa o senhor Freddy entender que tratar bem o consumidor é, hoje, requisito fundamental para o sucesso. Que não basta vender e esquecer: há todo um processo de pós-venda, para fidelizar o consumidor. E mais: se há um contrato em vigor, ele tem que ser respeitado. Com a urgência necessária e de acordo com as normas em vigor e, principalmente, visando à satisfação do cliente.

Mas o senhor Freddy não sabe disso, ou é burro, muito burro, para perceber que um cliente irritado espalha para muita gente a sua irritação, como estou a fazer agora. E perdem-se oportunidades que esse cliente lhe daria, com outros serviços (que é o meu caso: estou precisando de vários consertos em minha casa, e titubeio e adio a contratação e outros profissionais, pelos traumas anteriores, principalmente este último) e com outro clientes, vizinhos, amigos etc.

O senhor Freddy é também muito burro, ao não perceber que, apesar da demora - um ano! -, ele ainda podia tentar reconquistar o cliente ou minorar o seu erro, com um bom pedido de desculpas e não com explicações implausíveis, como dizendo que "estava viajando". E mais, ainda: é muito burro o senhor Freddy por aparecer na minha casa com a cara amarrada de quem só veio mesmo para não ser obrigado pela polícia ou pela justiça, ou seja, além de tudo o senhor Freddy mostrou uma educação, na relação com o consumidor, no caso eu, que deixa muito, muito a desejar, para dizer o mínimo.

Acabou? Não: há ainda um detalhe. Feito o serviço de reparo no telhado, o senhor Freddy veio buscar o material utilizado com a mesma cara amarrada e, detalhe: nem perguntou se o serviço fora bem executado ou - o que seria sua obrigação, como "técnico responsável pela mão de obra" e dono da empresa - fazer a devida vistoria do trabalho. Catou suas coisas e foi embora, emburrado, como se cara feia fosse tudo o que merece quem contrata seus serviços e pede respeito ao não ter o trabalho executado de acordo com o que o foi combinado.


É isso. Essa gente não aprende, mesmo. Que sirva de exemplo para os demais prestadores de serviço, porque não quero ver esse senhor na minha porta nunca mais, nem pintado de ouro. E se perguntarem quem executou o serviço em minha casa, darei a "ficha completa" desse mau prestador de serviços, desse indivíduo que eu considero burro, muito burro, por não perceber que as relações entre prestadores e consumidores têm mudado, e muito. Que o consumidor quer algo fundamental: respeito!

janeiro 19, 2014

O MIMIMI DOS REDUCIONISTAS









Os chuveirinhos de praia da Zona Sul do Rio podem (eu disse "podem") estar contaminados. Um notícia desagradável, principalmente para os banhistas das praias cariocas. Sai a notícia e algum comenta: não basta tudo isso que aí está e o brasileiro ainda toma banho de merda. Reducionismo. Puro reducionismo: o Brasil se reduziu à Zona Sul do Rio de Janeiro, mais precisamente, aos chuveirinhos das praias cariocas.

Moleques - de 14 a 18 anos - de bairros periféricos de São Paulo combinam se encontrar num determinado shopping, para jogar conversa fora, paquerar, tomar sorvete e se divertir. A rede social - que tudo amplia - leva a que milhares compareçam ao "encontro", que assusta pessoas, que chamam a polícia, que provoca tumulto (a presença da polícia em um shopping é sempre motivo de susto, preocupação e até pânico). Não aconteceu nada. Mas a moda "pega" entre a molecada, de São Paulo e outras grandes e poucas cidades que têm shopping centers, esses templos elitistas da moda. A imprensa amplia o alcance e a importância disso que eles mesmos, os moleques de férias e sem lugar para se encontrar, denominaram de "rolezinho", festinha, "encontrinho". Detalhe: apesar de muitos morarem em bairros de periferia, e até em favelas, não são exatamente os "excluídos", pois usam tênis e roupas de marca e têm celulares de última geração, através dos quais marcam seus encontros via internet. Aliás, até admiram os shoppings, porque lá estão as mercadorias que são o seu sonho de consumo. Mas, como a "coisa" se ampliou, haja análise sociológica e haja repressão, dos donos dos shoppings e da polícia. Os primeiros, em geral por "segurança" e "burrice": segurança, porque não percebem que não são esses moleques que vão pôr em risco o seu empreendimento; burrice, porque poderiam achar formas de capitalizar esses encontros e torná-los até mesmo lucrativos para seu estabelecimento, com uma boa e inteligente campanha de marketing. A polícia, porque adora reprimir e descer o cacete. E a discussão se alastra nas redes sociais, como se o Brasil se resumisse a isso, "rolezinho" de moleques em férias. Reducionismo. Puro reducionismo. Já que um fenômeno circunscrito - que até pode se alastrar para algumas outras cidades - torna-se parâmetro e paradigma de todos os fatores de exclusão social do País.

O repórter histérico da televisão repete dezenas, sim, dezenas de vezes, o assalto ocorrido no interior do Paraná (ou de qualquer outro estado), no qual morreu alguém ou alguém foi seriamente baleado. Ficamos com a impressão de que o fato ocorreu à porta de nossa casa e basta colocarmos o pé na rua, para sermos assaltados, roubados e mortos. E o repórter esbraveja contra a falta de segurança do País, ampliando ainda mais a sensação de insegurança, de medo, de pavor. Reducionismo. Puro reducionismo: o Brasil inteiro é medido e avaliado por uma única ou por algumas poucas ocorrências policiais devidamente filmadas e repetidas à exaustão.

E assim ocorre com todos os fatos que vemos diariamente na televisão, ouvimos no rádio, lemos nos jornais e revistas: enchentes, rebeliões em presídios, desabamentos, acidentes em estradas, mortes de motociclistas etc. etc. etc. São, muitas vezes, fatos graves, sem dúvida nenhuma, mas que têm a marca única de serem localizados, ou seja, não são fatos que estão acontecendo a todo momento em todos os lugares. Sua repetição e ampliação - e mais: a tentativa, muitas vezes com sucesso, de transformá-los em referência para tudo - fazem desses fatos a medida de tudo, como se o País, tão grande, tão múltiplo, se reduzisse a eles, apequenando-se diante da expressão que ouvimos a todo momento: "isto é Brasil', ou "o brasileiro é assim ou assado". E também isso se transfere para o reducionismo estúpido de julgarmos o comportamento de grupos como se fosse o comportamento de todos: "o homem brasileiro é machista" ou "o carioca é preguiçoso", "o paulistano é estressado" etc. Até mesmo características físicas - que podem, sim, às vezes, parecer ser de todos, mas é de apenas uma parcela da população - tornam-se "a" marca: "a mulher brasileira tem bunda grande". E tantas e tantas besteiras ouvimos todos os dias, repetidas e repetidas como mantras de ideologias ou de quem tem preguiça de pensar ou de unir os dois neurônios para olhar a realidade, que achamos que são verdades absolutas, truísmos que aceitamos sem qualquer senso crítico.

Quer saber? Isso tudo é um saco!

Por isso, não leio, não ouço, não compartilho opiniões de "especialistas", sejam eles de economia, de sociologia, de meteorologia, de culinária, de qualquer coisa, quando convidados a dar opiniões no calor dos acontecimentos, diante de câmeras de televisão ou de repórteres de jornais e revistas. Porque, mesmo que sejam pessoas estudiosas e sérias, aparecem na mídia a falar o que a mídia quer que eles falem, ou sejam, são especialistas em reducionismos idiotas com aparência de seriedade. Servem apenas para enganar, num engodo que se repete e torna "a" verdade tudo o que afirma com cara de "doutores", como se a verdade fosse única, indivisível e absoluta.


E esse mal - o reducionismo corrosivo que nos torna reféns de ideias rasas e  pré-concebidas estabelecidas como verdade - está na raiz de preconceitos de todos os tipos; na raiz de insatisfações e rebeldias sem causa; na raiz de julgamentos sem prova escorados em interesses escusos; na raiz de nossos terrores mais infundados; na raiz, enfim, de nossa ignorância da realidade. Porque o reducionismo funciona como antolhos, que nos obrigam a ver uma só realidade e, assim mesmo, distorcida.