Dilma Rousseff ganhou as
eleições, porque conseguiu vencer três adversários poderosos:
Primeiro, certo grupo de
empresários influentes, que têm uma visão estreita de política e que não
suportam imaginar um País com direitos para trabalhadores, em que não possam
contar, como em muitos outros lugares, com mão de obra semiescrava, ganhando
mal e produzindo muito. Esse grupo de empresários - ligado a partidos de
oposição - paralisou o Brasil, por mais de seis meses, com intenção deliberada
de prejudicar a presidenta reeleita, numa das orquestrações mais criminosas da história
do País, um crime difuso, cujos autores é impossível identificar. Paralisaram
as máquinas, diminuíram a produção, despediram funcionários, contrataram
somente o indispensável, assim mesmo com salários menores, tudo de forma sutil,
como uma quadrilha que age no meio da noite, sorrateiramente, sob o olhar
complacente da mídia sempre disposta a ver em cada índice econômico
desfavorável o fundo do poço, o abismo. Isso não é teoria conspiratória: é a
realidade que está em todos os jornais, em todas as revistas em todas as
análises de âncoras de rádio e televisão, basta ter olhos para ver, perceber,
analisar e chegar a uma conclusão.
Segundo, a mídia a serviço de um
partido político. Nas mãos de meia dúzia de famílias (essa repetição já está
ficando exaustiva), essa mídia manipula informações, distorce fatos, ergue e
destrói reputações, sem nenhuma ética jornalística. Seus cães amestrados -
jornalistas que só escrevem e falam o que mandam seus donos - cumprem a triste
tarefa de se exporem ao ridículo de forjar notícias que sirvam aos interesses um
único grupo político. Não desfrutam de nenhum liberdade de opinião em suas
redações. Os que ousam desafiar orientações superiores são sumariamente
demitidos. Os que restam ou cumprem as ordens por necessidade de sobrevivência
ou se alinham ao pensamento dos superiores, de forma servil e indigna. Alguns órgãos
de imprensa conseguem iludir seus leitores, publicando artigos de oposição,
como a dizerem que são democráticos. Mas, se tal artigo (geralmente matéria
encomendada a algum medalhão) obtém repercussão, seus cães amestrados logo se
colocam na linha de tiro, para desconstruir inapelavelmente, e sem direito de
resposta, qualquer argumento que contrarie a voz do dono. Enfim, um inimigo que
não dá tréguas, martelando a consciência da população diuturnamente. Muitos são
os que, enganados pela repetição exaustiva de mentiras, acabam por acreditar
nesses avatares da desinformação e dos interesses escusos de seus patrões, de
interferirem de forma criminosa nas decisões do povo.
Terceiro, a máquina partidária do
PSDB. Um partido que nasceu para ser uma opção de centro-esquerda e que se
bandeou para a extrema direita, levado, principalmente, pela mídia e pelas
elites conservadoras do Estado de São Paulo. Abro um parêntese para uma velha
anedota. Contava-se, na década de sessenta e setenta, que alguém chega a uma
banca de jornal e pergunta se o jornaleiro tem "Estadão" atrasado e
obtém como resposta que ali não se vende mapa do Estado de Minas Gerais. Essa
mesma piada teria, hoje, por resposta exatamente o Estado que lhe deu origem:
São Paulo. Os paulistas ainda não se deram conta de que não são mais a
locomotiva do Brasil, de que o desenvolvimento de outros estados, de ponta a
ponta do País, mas principalmente de Minas e dos estados nortistas e nordestinos,
já há muito tem deslocado o polo econômico para essas regiões e tem oferecido
oportunidades de crescimento a suas populações. Os paulistas ainda não se deram
conta de que o desenvolvimento passado de seu Estado deveu-se, e muito, às
ondas migratórias, principalmente do Nordeste. E hoje, politicamente, São Paulo
é o estadão atrasado e preconceituoso, com uma elite de visão ultrapassada e
conservadora, encastelada em visões do
passado, elegendo e reelegendo políticos do mesmo naipe, para governar o
Estado, como se ele fosse uma capitania hereditária. O PSDB, cuja máquina
partidária deveria ter o rumo de um partido político moderno, tornou-se uma
máquina de rancor, de ódio e de ranço conservador de uma direita quase fascista,
ao se deixar dominar pelos políticos paulistas.
Dilma Rousseff não ganhou as
eleições porque o Norte e o Nordeste lhe deram expressiva votação. Ganhou
porque obteve - apesar de não ser a maioria - expressiva votação também em
todos os estados e, principalmente, porque ganhou em Minas Gerais. Foi esse
último o fiel da balança e não, como pensam os preconceituosos, os nortistas e
nordestinos.
E por que venceu Dilma em Minas,
o Estado onde seu opositor foi governador?
Por três motivos. Primeiro,
porque Aécio Neves exagerou ao apresentar seu governo como a maior vitrina de
sua capacidade administrativa. Claro, não foi um mau governante e os índices de
aprovação de sua administração são incontestáveis. Justifica-se: mineiro gosta do
político conterrâneo que tenha por trás de si uma longa tradição de políticos e
Aécio, afinal, é o herdeiro de um homem que, se não chegou a tomar posse como
presidente, teve uma importância fundamental na história recente do País. Mas
ele exagerou e mentiu, quando apresentou realizações muito acima daquilo que
realmente fez, quando governador. Tanto, que acabou por entregar ao PT a
próxima administração. Segundo, porque está enraizada no inconsciente coletivo
dos mineiros uma história mal contada de traição, a de Tiradentes, seu herói
maior. E mineiro odeia traição. Aécio, sem querer, talvez, por inadvertência,
traiu os mineiros ao se aliar fortemente aos políticos paulistas. Seu candidato
a vice confirma isso. Buscou ele no PSDB paulista os principais pontos de apoio
e de programa de campanha e de governo, sem atentar que, inconscientemente,
estava traindo os políticos e o povo mineiro. Que não lhe perdoou: votou na
Dilma que, embora tivesse pouca relação com Estado, é também mineira, o que
alivia bem a consciência do eleitor. Terceiro, porque fez uma campanha
agressiva. Não há dúvida de que também "apanhou como gente grande",
como se diz. Mas, por dever de oposição, como candidato, mais uma vez exagerou
na dose, sem perceber que o brasileiro, inconscientemente, apesar de ser
machista, não gosta de quem "bate em mulher". Mas não se saiu tão mal
assim, já que, na primeira fase da campanha, não tinha nem a possibilidade de
chegar ao segundo turno. Seu crescimento político e o número de votos
conquistados o habilitam como um político hábil - que ele realmente é - que
ainda pode sonhar com voos altos, se repensar sua posição e conseguir se livrar
desse extremismo direitista paulista que agregou à sua persona política, nessa
campanha.
Concluindo: Dilma Rousseff venceu
as eleições com o voto de brasileiros de todos os pontos do País. Ao contrário
do que pensam os imbecis e preconceituosos que estão a pregar uma divisão do
povo, não existe voto qualificado: pela lei e pelos princípios de democracia
solidamente constituídos de forma legal e filosófica, todos são iguais perante
a lei e o meu voto vale exatamente igual ao seu, ao do meu vizinho ou ao do
pescador de Rondônia ou ao do vaqueiro do Rio Grande do Sul. E a vontade
soberana do povo, em eleições legítimas e legitimadas pelo poder de uma Justiça
Eleitoral livre e independente, não pode ser desrespeitada e violentada por
qualquer minoria derrotada, apenas por implicância ou preconceito, esse sim, um
crime de lesa-pátria e de lesa-humanidade.
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