maio 31, 2023

LULA, VENEZUELA E O MARCO TEMPORAL



Lula assobiou para os malucos poderem dançar. E eles não só dançaram, mas sapatearam, sambaram, boleraram, tangaram, funkearam. Gastaram saliva, gastaram texto, gastaram os dentes e ficaram roucos de tanto ranço. Estou falando, é claro, da mídia, da oposição, dos influencers e todos os que caíram de pau no Lula, porque ele estendeu tapete vermelho e defendeu o presidente Maduro, da Venezuela.

Concordo: Maduro não é flor que se cheire, em termos de democracia. Assim como muitos outros chefes de estado do mundo (nem vou perder tempo citando-os, por ser inútil). Mas, existem aqueles que despertam mais o ódio das direitas hidrófobas que pululam nos parlamentos (principalmente no parlamento tupiniquim) e na mídia internacional. Maduro é um deles. Afinal, está sentada a Venezuela sobre reservas de petróleo. E não é preciso dizer mais.

Também concordo em que Lula exagerou nos salamaleques a Maduro. O Brasil não tem nada a ver com os problemas internos de nenhum país, claro. Por isso, não pode e não deve discriminar nenhum governo, nenhum governante. Principalmente, porque há negócios e interesses que estão acima de qualquer viés ideológico. Então, bastava receber bem o Maduro e tudo estaria bem, pelo menos as críticas seriam menores. Mas, sim, Lula exagerou.

Abro parênteses. Concordo com praticamente tudo quanto disse Lula. A Venezuela é discriminada e seu povo tem sofrido por causa de destemperos e coisas estúpidas de seu líder. Essa história de punir todo um povo por atos de seus governantes, sob o comando dos Estados Unidos já deu. O mundo não é mais o quintal deles. E de ninguém. Há meios menos cruéis de dizer a um povo que ele pode se libertar de suas lideranças despóticas. Sem intervenções, sem imposições. Como já dizia um líder estadunidense: “Não se pode enganar todo o povo todo o tempo”.

Abro parênteses de novo para dizer que, neste mundo globalizado por fake news e por empresas e indivíduos inescrupulosos e manipuladores, está cada dia mais difícil um povo escolher seu destino livremente. Mentes e vontades têm sido abduzidas por essas máquinas universais a soldo de grupos de ideologias perigosas, principalmente de neonazifascistas.

Voltemos a Lula e a Maduro, para deixá-los por aqui. Antes, duas coisinhas a mais. Primeira, o escorregão do presidente pode lhe trazer um ou outro dissabor político e diplomático, mas não passará disso. Não atinge a ninguém mais. Logo será esquecido e o mundo voltará a girar. Segundo, enquanto os malucos dançavam e sapateavam sobre esse fato, a boiada nazifascista bolsonarista arreganhava as porteiras da Câmara, para aprovar, isso sim, uma medida que tem o potencial de uma bomba atômica a cair sobre as cabeças de nossos povos originários e sobre toda a política ambientalista que o Brasil precisa desenvolver, para se tornar, de novo, uma nação respeitada no mundo.

Estou falando do tal “marco temporal” que 283 insanos e vingativos deputados aprovaram, na manobra absurda do presidente da Câmara, Arthur Lira. Absurda por dois motivos: queriam os “nobres deputados” que o Supremo Tribunal Federal tirasse da pauta a votação da mesma matéria que lá tramita, num ato de tentativa da chantagem mais deslavada de um poder da República contra outro e queria, ou melhor, quer o senhor presidente da Câmara “mandar um recado” ao Executivo, de que o governo precisa “pagar a fatura” de possíveis, prováveis e futuros apoios a matérias de seu interesse, numa clara – aí, sim – chantagem de um poder da República contra outro.

Abro novos parênteses, para dizer que temos péssimas lembranças de presidentes da Câmara que extrapolaram seus poderes e se tornaram verdadeiros gângsteres da política. Há um deles, inclusive, que está preso, por crimes não só políticos. E o atual está pretendendo ser um novo Nero, a pôr fogo no governo e no país, já que a “lira”ele vem tocando há tempos...

Voltando ao que interessa: estamos diante não de uma Câmara de Deputados, mas de uma quadrilha de chantagistas, formada principalmente pelos deputados do chamado “centrão” bolsonarista que, além de toda essa chantagem absurda, ainda querem se vingar nos povos originários, nos nossos indígenas, pela derrota que seu candidato sofreu nas urnas. E querem perpetuar, com a aprovação desse fatídico “marco temporal” o genocídio dos povos indígenas iniciado pelo governo anterior, além da destruição de nossas matas e rios, com a abertura para garimpeiros, madeireiros e criadores de gado das fronteiras das terras demarcadas das populações originárias. Um verdadeiro ato de estupidez paquidérmica (que me perdoem os elefantes) que ajudará o Brasil a se manter nas trevas do negacionismo, nas garras de ideologias fascistas e na desconfiança dos demais países de que não somos mesmo um país sério.

Ou pior, vai pensar o mundo que somos um país que não sabe escolher seus representantes nos diversos parlamentos, porque é permanentemente enganado por espertalhões, falsos religiosos, falsos juízes e quem sabe mais que tipo de gente estúpida e mal-intencionada em que insistimos em votar.

E não sabemos, mesmo.

Prova está aí, nesse Congresso recheado de neonazifascistas, de racistas, de genocidas, de preconceituosos, de falsos defensores da democracia, de juízes, religiosos, de empresários e defensores do agronegócio que se comportam como gado na defesa de interesses inconfessáveis e antipatrióticos.

maio 21, 2023

A CPI DO MST

 



Uma comissão parlamentar de inquérito quase sempre dá palanque e visibilidade a seus componentes: a mídia divulga e comenta em boletins diários os principais depoimentos, os embates, as contradições das testemunhas etc. Também pode virar, muitas vezes, um circo mambembe de atuações toscas de parlamentares despreparados, de testemunhas circenses e grotescas, desgastando esse importante instrumento de vigilância que a Câmara e o Senado usam para fiscalizar, denunciar e até, muito raramente, para punir malfeitos.

O MST, Movimento dos Sem Terra, todos sabemos, tem uma trajetória de luta pela reforma agrária e pela defesa da agricultura familiar. Invade terras? Sim, e todos estamos carecas de saber que invadem, sim, terras. E muitas vezes, invadem grandes propriedades ou latifúndios que eles consideram improdutivos. Isso incomoda o agronegócio e os grandes fazendeiros? Sem dúvida alguma. E eles odeiam o MST. Cometem exageros? Com certeza, dentre as inúmeras vezes que eles invadiram “propriedades” (sejam improdutivas ou do agronegócio, ou de grandes corporações), houve, sim, alguns exageros, cometidos irrefletidamente ou não por membros do MST. São condenáveis esses exageros? Muitas vezes, sim. Embora a luta ideológica – de que não vamos falar neste breve artigo – possa justificar tais exageros, principalmente porque o outro lado também comete muitos exageros, e até mesmo crimes. Mas deixemos de lado, por enquanto, esse aspecto da luta agrária brasileira, luta que vem de há muitas e muitas décadas.

O que nos importa, por enquanto, é tecer algumas considerações sobre a CPI já instalada e que pretende investigar as atividades do MST.

Na minha modesta opinião, eu creio estaremos diante de um palco iluminado para o show dos deputados da bancada ruralista e da direita hidrófoba que existem hoje no Congresso. E será um show de horrores.

Explico: o objetivo deles é demonizar o MST. Ou tentar, pelo menos. E tudo quanto vão “descobrir” ou “denunciar” do MST todos nós já sabemos. Então, a mídia vai ampliar as denúncias, vai dar voz a essa malta hidrófoba que vai se esgrimir contra as testemunhas favoráveis ao MST – se houver - e vai dar o seu próprio show de sempre, ao lado da direita, porque também a mídia – comprometida sempre, por seus patrões, com os valores da direita – já deve estar afiando os dentes para cravar no pescoço dos “bandidos” do Movimento dos Sem Terra.

Não haverá nada de novo, portanto. E quando o show não tiver mais nada a mostrar ao público e à mídia, o relator – escolhido a dedo para isso – irá apresentar suas conclusões óbvias de condenação, de vários pedidos de indiciamento e até de prisão dos membros do MST.

E depois? E depois, nada.

Porque conclusões de CPIs são apenas conclusões de CPIs. Algumas até se transformam em lentos processos na justiça, ou pedidos de investigação pela Polícia Federal ou por outro órgão fiscalizatório, mas... na maioria dos casos (vide a CPI da covid-19, que relatou crimes graves!) nada acontece. Tudo cai no esquecimento, porque outra CPI ou outros assuntos vão ocupar a vida dos senhores parlamentares e alimentar a mídia, cuja boca é sempre voraz por novidades e cuja memória tem o tempo do acontecimento.

Então, meus amigos, relaxemos e deixemos que se abram as cortinas do espetáculo, para criticar e, principalmente, para aplaudir ou demonizar aqueles com os quais concordemos ou discordemos, nas redes sociais, nos desenhos dos cartunistas, nas piadas de sempre, nos comentários divertidos ou rancorosos. E vida que segue.

abril 28, 2023

ELES TÊM DEUS NO CORAÇÃO: O ASSASSINATO DO GAROTO LUCAS TERRA

 




“Eles violentaram, espancaram e depois queimaram vivo meu filho porque ele flagrou Fernando e Joel mantendo relações sexuais.” Essa é a declaração do pai do adolescente Lucas Terra, em 2001. Após sete meses de minuciosa investigação, a polícia baiana concluiu o inquérito que indiciou o indivíduo Sílvio Galiza como autor do homicídio, tendo como coautores Fernando Aparecido da Silva e Joel Miranda. Detalhe: o primeiro é um pastor e os outros dois são religiosos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que possui atualmente um dos maiores templos religiosos do Brasil, na cidade de Salvador, um mostrengo arquitetônico visível de quase todos os pontos do município.

Acrescenta ainda o pai do garoto, com toda a justificável revolta: “Meu filho foi amarrado e amordaçado para não gritar e colocado dentro de uma caixa de madeirit. Carbonizaram seu corpo para encobrir os vestígios de pedofilia.”

O caso vem se arrastando na justiça desde 2001 e só agora, mais de vinte anos passados, saiu a notícia de que os assassinos estão sendo finalmente julgados e condenados à prisão.

Mas, não é sobre o processo judicial brasileiro, lento e falível, que eu quero falar neste pequeno artigo de protesto, e sim da hipocrisia que reina (sem trocadilho) entre os pastores e seguidores da IURD, essa pústula apostólica que corrói mentes e corações do povo, para surrupiar-lhe da forma mais nojenta possível os poucos caraminguás que tiverem em suas pobre carteiras, fruto, muitas vezes, de árduo trabalho, em troca desse reino de deus prometido por essa camarilha de estelionatários que são os pastores dessa seita maldita.

O caso Lucas Terra é emblemático, por se tratar de um crime bárbaro, mas muitos outros crimes podem ter sido e são acobertados por esse bando de criminosos travestidos de porta-vozes de deus. Porque adquiriram poder econômico e, atualmente, poder político, julgam-se acima da lei humana. Qualquer denúncia ou pronunciamento mais contundente contra essa camarilha são considerados como “perseguição religiosa”. Eles têm deus em seu coração; portanto, para os seus seguidores fanáticos, que estabelecem uma verdadeira cortina de proteção em torno de qualquer deslize por eles cometidos, eles são incapazes de cometer quaisquer crimes.

E os crimes dessa gente quase nunca chegam ao conhecimento público. Os poucos casos de que se tem notícia são considerados apenas como desvios individuais, e sobre eles, pastores compungidos logo tecem uma centena de explicações que nada explicam ou, quando muito, um pedido de perdão em nome de seu deus, que a tudo perdoa, quando a grana é boa (não resisti à rima).

Liberdade de culto é um princípio constitucional. Sob essa cláusula, no entanto, não se podem cometer crimes. E mais: denunciar as falcatruas dessas falsas igrejas coletoras de dízimo para enriquecimento ilícito de pastores não é perseguição religiosa.

Perseguição religiosa é que o fazem os seguidores dessas igrejas evangélicas quando seus pastores afirmam ser satânicas as crenças umbandistas ou do candomblé, incentivando a violência contra casas e templos de culto dessas religiões afrodescendentes, em casos claros de intolerância e racismo.

Portanto, só para finalizar: são, sim, criminosos os cultos que louvam a deus em templos salomônicos, erguidos com a espoliação do povo e enriquecem seus pastores, que vivem em mansões também salomônicas, viajando em jatinhos particulares, e passando férias nababescas em paraísos terrestres, enquanto seus iludidos seguidores oram compungidos e sacrificam até o dinheiro das suas necessidades diárias para pagar o dízimo que financia tudo isso, em troca da salvação em paraísos celestiais.

E dizem que têm deus no coração!

abril 27, 2023

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O MAL QUE PODE CAUSAR AOS SERES HUMANOS

(Adrien Vernet)

O que mais me encantava na ficção de Isaac Asimov, quando ele escrevia sobre os robôs do futuro, era o aspecto ético incutido na memória profunda das máquinas do que hoje chamamos de inteligência artificial (IA), com as três leis da robótica:

· Um robô não pode causar dano a um ser humano nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra.

· Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto quando essas ordens entrarem em conflito com a primeira lei.

· Um robô deve proteger sua própria existência, desde que essa proteção não se choque com a primeira e a segunda lei.

A preocupação do autor se concentra na segurança dos seres humanos, já que seus robôs são cada vez mais “humanizados”, a tal ponto que conseguem até mesmo filosofar sobre sua própria existência e a sua relação com seus criadores, num dos contos belíssimos de “Eu, Robô”. Se ele, o robô, é mais inteligente e mais capaz do que qualquer ser humano, como pode ser uma criatura e não ele mesmo o criador? Mas, as três leis da robótica não permitem que ele transforme em revolta o que a sua lógica parece levar, ou seja, a uma espécie de domínio da máquina sobre o ser humano.

Essa era uma preocupação que parecia ser suficiente na ficção, para que nos preparássemos para a “inteligência” robótica. Estávamos seguros. Mas, a realidade atropela a ficção e hoje a segurança humana está localizada em aspectos impensáveis na época de Asimov, que não está tão longe assim.

Para não nos alongarmos muito, já que o assunto é complexo, lanço a pergunta que não quer calar: em que aspectos da vida humana a IA nos ameaça?

Antes de responder, quero dizer que sou fã diletante da IA no que ela pode nos trazer de benefícios em inúmeros aspectos da vida cotidiana, na resolução de problemas complexos e até mesmo na administração de muitas situações em que temos tido imensas dificuldades, como, por exemplo, o trânsito, principalmente das grandes cidades, com seus congestionamentos, acidentes e atropelamentos. Diz Yuval Harari, em um de seus livros, que, num futuro não muito distante, os humanos serão proibidos de dirigir máquinas, como os automóveis, resolvendo-se, assim, problemas como atropelamentos, falta de espaço para garagens, poluição etc.

Mas, voltemos àquilo que eu creio ser a maior ameaça da IA aos seres humanos: a criatividade.

A capacidade de criar obras de arte, sejam de que tipo for, desde uma escultura até um romance ou poemas, talvez seja um dos aspectos mais complexos da evolução humana. Somos capazes de imaginar e de sonhar. Mas, acima de tudo, somos capazes de transformar a imaginação e o sonho em obras que encantam e, principalmente, tornam mais humanos e mais civilizados os seres humanos que somos. Ou seja: a arte humaniza o ser humano. Mais do que qualquer outro aspecto civilizatório, contemplar uma obra de arte, ler um romance ou um poema, assistir a uma peça de teatro, aplaudir um espetáculo de dança, ouvir música etc., tudo isso tem para nós o valor inestimável de um acervo que eleva a nossa mente a um tal grau de satisfação e de orgulho de sermos humanos, que nenhuma outra obra tem capacidade de realizar. A necessidade da existência da arte e dos artistas reside precisamente nisso.

Assim, quando os algoritmos da IA ganham capacidade de realizar obras de arte, a partir de um incalculável e inimaginável banco de dados, e até mesmo nos convencer de que o que ela realizou é uma obra de arte, ela está ameaçando o ser humano em seu cerne, em seu aspecto mais profundo de humanidade. Porque, por mais que seja passível de ser julgada como obra de arte um quadro ou um romance ou um poema ou uma música etc. que a IA produza, não passa de um pastiche, ou seja, a reorganização em outros padrões aparentemente criativos de obras pré-existentes. Mesmo que um músico, por exemplo, julgue de “qualidade” uma valsa ou uma música pop ou um rock criados pela IA, ele está sendo enganado por uma falsa percepção de originalidade, já que as notas musicais ali produzidas apenas compilam centenas de milhares de outras composições, num arranjo “inteligente”. Um romance ou um poema escritos pela IA, mesmo que pareçam originais, não passam de um rearranjo de frases e situações de seu imenso banco de dados. Há, portanto, a ilusão de originalidade, mas é uma pseudo originalidade, um pastiche apenas. O pior disso tudo é que há muita gente se enganando sobre isso. Achando que IA é realmente uma saída para a sua própria falta de originalidade e, num desvio ético tenebroso, publicando livros e outras obras “criadas” pela IA como se fossem de sua autoria e driblando a boa fé dos consumidores de arte.

Eu acredito que está nas nossas mãos, na capacidade de criar e de imaginar dos seres humanos, a responsabilidade de discutir seriamente até onde pode interferir em nossas vidas essa imensa capacidade tecnológica da IA. Assim como Isaac Asimov criou as três leis da robótica, para a segurança dos humanos, devíamos começar a pensar seriamente em leis de ética para impedir mesmo que a IA invada a criatividade humana com sua pseudo criatividade e chegue ao ponto de tornar ainda mais bárbaro o ser humano, ao tomar dele a capacidade de sonhar e criar. Um basta vigoroso a isso, antes que, com o tempo, normalizemos a “arte” da máquina em detrimento da arte criada por humanos. Porque, quando isso acontecer, aí sim teremos sido dominados completamente pelos robôs, sem que eles precisem se revoltar contra seus criadores.

abril 24, 2023

OS ATOS GOLPISTAS DE 8/1/2023 E A CPMI DO GOLPE: MAIS UMA INSANIDADE


A lógica parlamentar é clara: uma CPI (ou CPMI) é um instrumento de fiscalização do governo, usado pelas oposições para investigar desmandos do poder público ou algo de grande interesse popular que o governo não tem provido de forma correta. Ou seja, é UM INSTRUMENTO TIPICAMENTE DE OPOSIÇÃO.


No entanto, a oposição ao governo Lula quer uma CPMI para investigar os atos antidemocráticos do dia 8 de janeiro de 2023, quando o governo mal havia começado a governar de fato; quando ainda havia muitos ministros e secretários e servidores a serem nomeados e quando os nomeados mal haviam tomado pé da situação dos órgãos a que começaram a comandar. Tudo era ainda um mistério, diante do descalabro administrativo deixado de herança pelo governo anterior. E não vou, aqui, falar desse governo, porque todos sabem o que ele fez.

Dia 8 de janeiro: uma marcha de manifestantes, comboiada pela polícia militar do Distrito Federal, sai do acampamento do exército e vai até à praça dos Três Poderes, aonde não poderiam ir, por ser espaço interdito a tais manifestações, principalmente num domingo, sem que as autoridades competentes tomassem conhecimento, para enviar efetivos militares de proteção, o que é, constitucionalmente, obrigação do governo do Distrito
Federal.

Todos viram as imagens da televisão e dos circuitos internos dos palácios invadidos e depredados pelos vândalos golpistas, todos bolsonaristas enrolados em suas bandeiras ou vestidos de verde-amarelo, a marca dessa famigerada legião de fanáticos: um espetáculo de golpismo e de estupidez humana raramente registrados na história.

Agora, não se sabe como, ou melhor, sempre desconfiamos da origem, surgiu a ideia entre as hostes bolsonaristas de culpar o governo atual por aquilo que todos viram e as imagens documentaram. Culpar a vítima pelo estupro da democracia perpetrado por hostes bolsonaristas, com a desculpa de que havia infiltrados entre os manifestantes e que foram esses infiltrados que incentivaram os atos de vandalismo e depredação.

Entortar a lógica, modificar fotos e vídeos, deturpar a palavra alheia, construir um mundo paralelo de culto a uma figura asquerosa como Bolsonaro sempre foi um dos pilares da doutrina – se é que podemos chamar de “doutrina” – desses indivíduos cooptados pela mais estúpida das facções políticas do século XX, o nazifascismo. Mas, imputar à vítima – no caso, o governo atual – a culpa pelos atos de terror e vandalismo perpetrados por essa horda de canalhas golpistas já é um pouco demais. É brincar com a lógica dos fatos e levar ao extremo a ideia nazifascista de que uma mentira mil vezes repetida se torna verdade e de que a realidade dos fatos – o passado recente fartamente documentado – possa ser modificado e adaptado a seus interesses espúrios e antidemocráticos.

Até aí concordamos que a falta de lógica tem seu campo devidamente fertilizado pela estupidez e pelo delírio. Mas há um limite para a estupidez e para a falta de lógica e esse limite está sendo claramente ultrapassado, numa evidência de que, para os bolsonaristas, a estupidez alcança índices astronômicos: CONVOCAR UMA CPMI PARA INVESTIGAR OS ATOS ANTIDEMOCRÁTICOS DE 8 DE JANEIRO.

Vão, claro, tentar fazer dessa CPMI um show de horrores, de que, tenho a mais absoluta certeza, vão sair todos devidamente queimados – e espero que para sempre - diante de fatos contra os quais não há argumentos.


Quem viver verá!

abril 14, 2023

SÃO PAULO: UMA SOLUÇÃO PARA OS MILHARES DE MORADORES DE RUA?



O governador de São Paulo e o prefeito da capital estão elaborando um projeto que pretende levar para o campo milhares de moradores de rua, para se empregarem em propriedades de agricultura familiar. Dizem que são 187 mil fazendeiros com possibilidade de dar emprego a essas pessoas, com o compromisso, por parte do Estado, de adquirir parte da produção agrícola, coisa que é mais ou menos de lei, mas que não se cumpre.

O plano, em teoria, é bom. Mas, como disse Millôr Fernandes, “a nobreza de uma ideia não tem nada a ver com o canalha que a exprime”, minhas desconfianças começam com as verdadeiras intenções dos autores: o Zé Carioca e o Barbicha, respectivamente governador e prefeito.

Nenhum dos dois é confiável, em termos de ideologia, já que podem estar se escondendo num modelo higienista, simplesmente. Por isso, para que esse plano que, repito, pode ser interessante, não se tranforme em apenas jogar no mato uma população desesperada por emprego, por moradia, por uma vida digna, é necessário que fiquemos de olho em alguns pontos, dada a sua complexidade de aplicação:

1. que somente participe da remoção (que é, ao cabo, o que se pretende fazer) somente as pessoas que realmente queiram ir embora de São Paulo (a confiar nas pesquisas, dizem que até 30% das pessoas que aqui moram têm vontade de sair, de ir para outros lugares ou voltar para suas regiões de origem, e acredito que entre a população de rua esse número pode até ser bem maior);

2. que as pessoas que anuírem ao plano tenham, de início, algum tipo de preparação para o tipo de trabalho que vão realizar, seja em termos de treinamento para o trabalho no campo, seja em termos de comportamento e adaptação ao novo ambiente;

3. que tenham, pelo menos por um bom tempo (um ou dois anos) acompanhamento de sua situação no novo ambiente, para que não se transformem em mão de obra explorada ou até mesmo escravizada (com as novas tecnologias de comunicação, isso não é muito difícil de ser feito);
4. que famílias não sejam separadas e que haja condições para que todos tenham vida digna, com casa, condução (quando for o caso) e escola para as crianças (quando houver) e ocupação também para o cônjuge.

Essas são apenas algumas das preocupações que esse plano de remoção e transferência do povo de rua de São Paulo para o trabalho em estabelecimentos agrícolas no interior. Muitos outros detalhes devem ser devidamente levantados, estudados e discutidos por especialistas. Não se pode confiar totalmente nas intenções desses nossos governantes, porque seu histórico ideológico não nos permite bater palmas para planos mirabolantes - que podem dar certo - mas que precisam de uma execução humanitária e não simplesmente higienista.


dezembro 15, 2022

NÓS SABEMOS O QUE “ELES” FIZERAM NESSES QUATRO ANOS. MAS “ELES” TAMBÉM SABEM

 


(Edvard Munch - o grito)


Foram quatro anos de pesadelo. Está chegando ao fim. O pesadelo, não suas consequências. O fim de um ciclo de trevas não significa necessariamente o início de outro, luminoso e promissor.

O governo, ou melhor, o desgoverno que se encerra dia 31 de dezembro deixa não exatamente uma “herança maldita”, mas um descalabro total, em termos não só ideológicos, mas de administração pública. Nunca se viu, desde a instalação da república, em 1889, um tal desprezo pela prática administrativa. Todos, absolutamente todos os setores da administração pública estão um caos.

Enxertaram na máquina pública milhares de militares – que não servem para nada – e milhares de evangélicos, que servem menos ainda: são incompetentes e limitados a uma visão de mundo apequenada e voltada para interesses mesquinhos. Resultado: destruíram mecanismos tradicionais de administração, de controle, de compliance. A máquina pública está simplesmente emperrada.

À parte isso, ideologizaram programas de governo, admitindo práticas absurdas ou fechando os olhos para o assalto ao bem público de verdadeiras quadrilhas que fizeram e desfizeram como bem entenderam dentro de seus setores, sem qualquer controle, sem se envergonharem do que faziam, por que o faziam de caso pensado e com o beneplácito e até mesmo o incentivo daquele que se dizia presidente.

Isso aconteceu, por exemplo – e é só um único exemplo –, nos órgãos ambientais. Primeiro, nomeou-se um ministro comprometido com qualquer negócio escuso para ganhar dinheiro, menos com o meio ambiente. Depois, afrouxaram todos os mecanismos de fiscalização. Ibama e ICMbio foram usados e abusados não para cuidar de questões ambientais, mas para abrir as portas para madeireiros, garimpeiros, agronegócio irresponsável etc. E a “boiada passou”, deixando um passivo de destruição que levaremos anos e anos para identificar e mitigar. O mesmo ocorreu na educação, na saúde, nas relações exteriores, na área social, na economia, enfim, não há um só ministro do qual se possa dizer que tenha feito um trabalho pelo menos razoável.

Serão necessários muitos meses e, em alguns casos, alguns anos para que a administração federal retome boas práticas e volte a funcionar a pleno vapor. Por isso, eu sugeri no início deste texto, que os tempos de trevas ainda podem permanecer, mesmo após a posse do novo governo.

O pior: nós sabemos o que esse desgoverno fez, mas ele também sabe. E sabe muito bem. Porque não foi apenas por incompetência – uma tremenda incompetência, sem dúvida – : foi de caso pensado, era uma espécie de programa de governo a destruição sistemática do Estado, com fins inconfessáveis para nós, que assistimos a tudo sem nada poder fazer, mas certamente “eles” sabiam o que pretendiam. E o que pretendiam, podemos ter certeza, não era e não é nada democrático ou voltado para qualquer interesse do povo brasileiro.

dezembro 11, 2022

REFLEXÕES SOBRE FUTEBOL

 

(Autoria não identificada)


Eu vejo futebol há séculos. Aprendi que é o esporte coletivo mais belo e refinado que há, porque depende de uma série de fatores enormes, em campo e fora dele, inclusive o imponderável. Uma bola chutada no gol que faz uma curva improvável e engana o goleiro. Os cobradores de pênalti que temem o goleiro adversário, porque viram que já fizera grandes defesas e erram o pênalti. Um drible desconcertante, que desmonta toda uma defesa. Um time que joga 90 minutos da defesa e faz um gol no último minuto, em contra-ataque. Jogador que entra em campo para fazer a diferença e é expulso na primeira jogada, por entrada violenta no adversário. Gols de beleza plástica e gols bisonhos, de canela, de bunda, até de mão. Erros absurdos de juízes, que decidem uma partida. Juiz apitando o fim do jogo, quando a bola estava viajando da cobrança de escanteio para a área. Defesas mirabolantes de goleiros atrevidos. Frangos acachapantes de grandes goleiros e defesas impressionantes de goleiros medíocres. Vitórias por goleadas e vitórias sofridas. Enfim, o improvável pode acontecer até no último segundo. Equipes bem mais fracas vencendo equipes poderosas. Goleadas improváveis, assim como derrotas absurdas. Todo o drama humano se passa durante os 90 minutos ou mais de uma partida de futebol. Por isso, é tão apaixonante. Mas, o apito final encerra tudo. Quem perdeu que chore e se lamente, quem ganhou que comemore. E nós, torcedores, só temos a agradecer aos atletas, quando ganharam e entender nosso time, quando perde, já que nada mais há a fazer. E aguardar o próximo jogo, o próximo campeonato. Só. Mais nada. Que os analistas escrevam e falem o quanto quiserem, que é para isso que ganham: para fazerem belas análises, que aplaudimos, ou para falarem um monte de merda, que lamentamos. Se nosso esquadrão poderoso (na nossa opinião) foi derrotado ou foi vitorioso, que o choro ou a alegria não ultrapassem o tempo de algumas poucas horas de luto ou euforia e sigamos a vida. Consolemo-nos com o fato de termos sido testemunhas de um belo espetáculo, que se renova a cada partida, seja de uma seleção de um país ou de um time de várzea. Futebol é isto: a vida entre quatro linhas, com seus dramas e alegrias. Assim como um belo concerto de música ou um filme emocionante ou uma peça de Shakespeare. Arte, enfim. Não sofrimento.

outubro 03, 2022

O CONGRESSO-PESADELO QUE SAIU DAS URNAS

 




O Congresso Nacional – Câmara e Senado – adquiriu, nessas eleições, um perfil extremamente conservador, com a bancada do ódio, os eleitos na esteira do bolsonarismo e fiéis ao atual presidente. Há, é claro, o chamado centrão, mas esse é o fisiológico de sempre: alinha-se aos vencedores, em busca de vantagens. Já a bancada do ódio é ideológica. Se o atual presidente conseguir se reeleger, teremos um governo com domínio total do Congresso, podendo fazer passar todos os projetos que quiser. Conhecendo esse governo, sabemos o quão totalitário ele se tornará, pois conseguirá, através de leis e mudanças na Constituição, por exemplo:


1. modificar a composição do Supremo Tribunal Federal, conseguindo colocar mais ministros conservadores alinhados com o governo;

2. passar uma emenda que permita a reeleição sem limites;

3. proibir o aborto em todas as situações;

4. permitir a mineração na Amazônia, principalmente em terras indígenas;

5. aliviar as multas por desmatamento, para beneficiar o agronegócio, em nome da criação de empregos no campo e de aumentar a produção e a exportação de alimentos;

6. retirar direitos dos trabalhadores, como fundo de garantia e décimo terceiro salário, em nome da criação de empregos (sempre essa desculpa) e de aliviar a folha salarial das empresas;

7. retirar direitos das minorias, como proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo; como eliminar as cotas raciais e sociais; como modificar as leis que permitam demarcar terras indígenas e de quilombolas, etc. etc.

8. impor às escolas fundamentais, principalmente, cartilhas de doutrinação ideológica, como o amor exacerbado a símbolos nacionais (obrigar os alunos a cantar uma vez por semana o hino nacional durante o ato de hasteamento da bandeira) e o temor ao comunismo, assim como fez Getúlio Vargas na década de 30 do século passado;

9. impor às administrações escolares a presença de militares, com a desculpa de melhorar a segurança;

10. anular todas as leis de incentivo à cultura e impor modelos autoritários nessa área;

11. flexibilizar a compra e uso de armamentos para toda a população e não apenas para os caçadores, atiradores e colecionadores;

12. privatizar empresas estatais, inclusive a Petrobrás;

13. flexibilizar as leis e regulamentos ambientais para a construção de rodovias, ferrovias, represas etc., concedendo a prefeitos e governadores o direito de legislar sobre o meio ambiente;

14. fixar em lei o aumento do salário-mínimo somente pelo índice de inflação;

15. privatizar o Sistema Único de Saúde (SUS) ou, pelo menos, aumentar a participação de entidades do setor privado na administração e prestação de serviços da saúde pública;

16. reformar a Previdência Social, retirando ou diminuindo direitos de aposentadoria, com a desculpa de sanear as contas públicas;

17. eliminar o sistema de teto de gastos, para permitir ao governo dispor do orçamento sem quaisquer amarras;

18. manter o orçamento secreto dos parlamentares, com o intuito de melhor controle do legislativo;

Essas são apenas algumas das possibilidades que o amplo “saco de maldades” do governo atual perseguirá, se for reeleito. E isso sem falar no projeto político de continuísmo, através da reeleição do atual mandatário ou da eleição de um de seus filhos, no futuro. Ou seja, o Brasil estará sob o manto negro do mais negro totalitarismo já registrado na história, sem situação muito pior do que o Estado Novo de Getúlio Vargas e, em termos de retrocesso político, social e econômico, pior ainda do que no tempo da ditadura militar, já que tudo isso será feito sob a égide da permissão popular, através do voto que escolheu o Congresso mais ideologicamente de ultradireita de todos os tempos. Apenas não sei se essa escolha por partidos e representantes desse neonazifascismo à brasileira se deveu a uma ignorância crônica ou pontual de nosso povo, ou esse povo brasileiro é mesmo assim, um povo que se sujeita à canga e à perda de direitos e da liberdade em troca, talvez, de uma maior e ilusória segurança.

junho 13, 2022

CRIMES INSOLÚVEIS?

 

(James Ensor - The Assassination)


Não há crime perfeito, há crimes mal investigados.

A má investigação de um crime pode ocorrer por diversos motivos, sendo os principais:

1. incompetência dos investigadores na preservação e na análise minuciosa e precisa do local do crime, no interrogatório das testemunhas, no trato das provas etc. etc. etc.

2. falta de metodologia na investigação, como a existência de protocolos rígidos e devidamente comprovados, para levantamento de provas e outras providências;

3. falta de recursos e de tecnologia apropriada, como exames laboratoriais sofisticados, equipamentos de vídeo e de detecção de sinais imperceptíveis de presença etc. etc. etc.

4. falta de interesse dos investigadores, como forma de proteção de suspeitos, ou por motivos corporativistas ou por ordem de autoridades, o que implica, às vezes, até mesmo a ocultação e destruição de provas.

Se tomarmos como exemplo, a série de crimes cometidos por Jack, o estripador, em Londres, em 1888, podemos observar que vários dos motivos acima podem ser arrolados, como incompetência dos investigadores, principalmente por não haver ainda uma metodologia comprovada de boa investigação criminal: o local de cada crime nem sempre foi preservado e analisado, a convocação e interrogatório de testemunhas foram falhos; os corpos das vítimas não tiveram uma necropsia bem feita (dizem que o “corpo fala”); faltavam recursos tecnológicos, bastante precários na época; enfim, toda a investigação foi cercada de muito amadorismo pela polícia londrina, não acostumada com a ideia de um assassino em série.

Hoje, no entanto, são poucos, pouquíssimos, os casos de crime de morte que não sejam desvendados, mesmo passados alguns anos: temos metodologia de investigação e muita tecnologia à disposição dos investigadores, desde substâncias que detectam sangue oculto em veículos, em vestes, em locais suspeitos, até sofisticados exames de laboratório, incluindo o exame de DNA, que tem condenado muitos assassinos e libertado muitos inocentes. Basta que haja interesse e, às vezes, investimento financeiro e humano para que o criminoso seja descoberto. Há alguma complicação quando o crime é encomendado, isto é, descobrem-se os executores, mas é preciso identificar o mandante. Mesmo que os executores tenham sido mortos, em troca de tiros com a polícia ou por queima de arquivo, ou presos, se recusam a confessar a autoria intelectual do crime, os investigadores têm recursos para seguir a trilha pregressa dos executores e chegar ao mandante. Quando isso não acontece, é porque caímos na quarta causa da má investigação criminal: a descoberta do mandante contraria interesses poderosos.

É o que acontece, na minha opinião, com um crime hediondo e de grande repercussão nacional e internacional, ocorrido há mais de quatro anos, no Rio de Janeiro: o assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes.

Os executores do crime estão presos, mas há uma pergunta sem resposta até hoje: Quem mandou matar Marielle?

Eu acredito que um núcleo “duro” de investigadores sabe exatamente quem foram os mandantes. No entanto, não o podem revelar, porque, possivelmente essa revelação abalaria alguns pilares da república (o que já é um bom motivo para o silêncio) ou esses investigadores poderiam sofrer represálias terríveis, com ameaça de morte, não apenas dos implicados, mas principalmente de seus familiares (e esse é um argumento terrível, para qualquer ser humano: colocar em risco elementos de sua família, pais, irmãos, irmãs etc., por motivo profissional).

Por isso, meus caros (e parcos) leitores, é possível que nós, da nossa geração, jamais tenhamos a solução completa desse crime.

Talvez daqui a cem anos?

Agora, mais um crime terrível está no ar: o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, nas matas da Amazônia, cujos corpos acabam de ser encontrados. Que tenha havido um crime não se duvida. Que se prendam os executores, também é muito provável e quase certo.


Mas... será que, mais uma vez, morrerá na nossa garganta o mesmo grito de sempre: QUEM MANDOU MATAR?


março 16, 2022

EXPLICANDO O QUASE INEXPLICÁVEL: BOLSONARO

 



Não sendo historiador ou pesquisador de qualquer natureza, mas um mero curioso e, mais do isso, um “poeta pensador” ou um “pensador poeta”, posso levantar hipóteses e citar de memórias possíveis fontes, sem que as comprometa ou me comprometa com a verdade ou com qualquer outro princípio que não seja o meu raciocínio, o meu pensamento.

Dito isso, vou tentar desvendar o “mistério” Bolsonaro.

Por que um indivíduo estúpido, sem cultura, preconceituoso, homofóbico, racista, misógino e, possivelmente, envolvido em crimes, conseguiu atrair milhões de eleitores e ser eleito presidente da república.

Claro que há uma explicação mais imediatista: uma intensa veiculação de notícias falsas pelas mídias sociais e a atração de um eleitorado anestesiado, no qual, durante meses, foi inoculado um ódio absurdo ao Partido dos Trabalhadores, principalmente causado pelas condenações ainda mais absurdas, de seu líder, Luís Ignácio Lula da Silva, aplicadas pelos juízes golpistas da chamada “operação lava jato”, montada especificamente para destruir o PT, financiada pelos Estados Unidos e pela direita hidrófoba brasileira.

Mas, há uma explicação mais profunda e mais complexa, que remonta a alguns conceitos da chamada corrente da “nova história”, desenvolvida desde 1929 pelos historiadores franceses da revista dos Annales, a chamada “escola dos Annales”, principalmente os conceitos da “história das mentalidades”.

Sempre acreditei que o longo período histórico que denominamos “idade média” foi a época em que o cristianismo católico tomou de assalto, de forma avassaladora, as mentes humanas, tornando-se a religião não só predominante no Ocidente, mas a única, espalhando seus tentáculos em todos os aspectos da vida humana, desde os atos mais comezinhos até a interferência nos governos de reis, príncipes e ministros de toda a Europa. Assimilou crenças pagãs antigas, imiscuiu-se nas mentes, comandou exércitos, sagrou reis, fortaleceu o papado e sua hierarquia interna; estabeleceu leis, criou ritos, impôs seus mandamentos e aterrorizou as mentes com seus credos e implantou definitivamente o monoteísmo, o cristianismo e todas as suas crenças e crendices e aprisionou definitivamente os seres humanos numa teia de regras e mandamentos, sob a ameaça de um juízo final e da danação no fogo eterno do inferno das almas que não lhe obedecessem. Sem dúvida, diria um filósofo da atualidade, tornou-se o mais poderoso meme da história da humanidade, não tendo concorrência nem mesmo nas religiões orientais.

O império da Igreja Católica Apostólica Romana, a ICAR, com seus papas e sua hierarquia militar, com suas hordas de anjos, santos e profetas, somente teve seu império abalado pelo cisma de Lutero, Calvino e seus seguidores, no século XVI. Essa reforma, entretanto, não abalou os alicerces do cristianismo. Ao contrário, serviu para fortalecê-lo ainda mais, agora sob novas diretrizes, abrindo caminho para o que hoje chamamos fundamentalismo. As igrejas protestantes divergiram de Roma no tocante a poucos aspectos da doutrina, principalmente os aspectos mercantilistas, continuando, entretanto, a perseverar nos elementos fundamentais do cristianismo. Um cristianismo até mais profundamente deísta, de ligação direta de seus seguidores com um deus ainda furibundo e vingativo, mas agora mais próximo dos crentes e mais disposto a ouvi-los. Os milagres não precisavam mais de intermediários, os santos, mas podiam ser pedidos diretamente a esse deus.

É preciso notar que essa “pureza doutrinária” marcou durante quatro séculos as igrejas dissidentes de Roma e abriu caminho para a aceitação de princípios renegados pela ICAR, como a usura, o capitalismo, a crença na luta por uma vida melhor aqui na terra, mas uma vida de ascetismo espiritual, algo meio paradoxal, já que os seus seguidores são obrigados a sacrifícios e à quase pobreza, no limite da dignidade provida por deus, em prol de uma pequena mas aguerrida “elite” formada por pastores, aqueles que têm a responsabilidade de levar “a palavra do senhor”. Somente no final do século XX, esses “pastores” perderam totalmente a vergonha e passaram a usar de seu poder de convencimento para amealhar fortunas à custa da escravização mental de seus seguidores. Voltaremos a esse assunto mais adiante.

Quando dissemos que o cristianismo se tornou o mais poderoso meme do planeta, ressaltamos sua origem na idade média, para afirmar, com convicção, que esse período da história, com suas crenças e crendices, não terminou: todo o desenvolvimento social, tecnológico e político que ocorreu a partir do século XVI até nossos dias não apagou da mente dos humanos nem o deísmo arraigado nem as crenças, ritos e rituais dele decorrente. Somos medievais modernos. Somos medievais tecnológicos. Mas somos ainda seres humanos da idade média.

A maioria avassaladora da humanidade acredita em deus, esse ser criador absurdamente onipotente e onipresente. Muitos dos que hoje duvidam dessa crença, dizem-se “agnósticos”, que é o mesmo que dizer: não acredito nem deixo de acreditar. Nós, os ateus convictos, aqueles que afirmamos sem pestanejar que deus não existe, somos poucos, muito poucos. E mesmo nós, os ateus convictos, se nos distraímos, somos surpreendidos por nós mesmos, diante de algum acontecimento extraordinário, dizendo ou pensando algo como “graças a deus, ninguém morreu”, ou algo semelhante. É a força do meme. E esse é um mínimo exemplo da força do deísmo medieval e de suas crenças e ritos em nossa vida: poderíamos encher páginas e páginas de aspectos de nossa vida, de nossa visão de mundo, de nossa maneira de encarar a realidade, de nosso dia a dia com exemplos de atos, atitudes, pensamentos e ideologias tipicamente medievais, ou nascidas, desenvolvidas e praticadas na idade média.

Quando, no século XVI, o jovem rei de Portugal, Dom Sebastião I, numa excursão militar à África, desapareceu na batalha de Alcácer Quibir, em 1578, surgiu, na terra lusitana mergulhada na crise que a levou ao domínio espanhol, a crença de que o rei não morrera e que ele voltaria à pátria numa manhã de nevoeiro, para salvar Portugal e torná-lo de novo a nação poderosa das grandes navegações. Surgia o mito do “sebastianismo”, a crença num ser que seria a salvação de um povo, de uma nação; um ser que não subiu aos céus, como Cristo, mas nascido e desenvolvido entre os humanos, portanto mais palpável do que o profeta. E esse “sebastianismo”, essa crença salvacionista, que tem no rei de Portugal o seu epígono, espalhou-se como erva daninha entre os cristãos, nascendo e renascendo em vários lugares, até mesmo no Nordeste brasileiro, entre os seguidores do Padre Cícero ou entre cangaceiros e místicos que proliferaram naquela região castigada pela seca, até a primeira metade do século XX, na crença de que “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”, ou seja, os sertanejos esperam o milagre de um ser salvador que os tire da seca, da miséria, da fome.

O historiador francês Marc Bloch chama de “reis taumaturgos” os imperadores do século XVI e XVII que tinham “o poder de curar as escrófulas de quem eles tocassem”, uma crendice que se espalhou por toda a Europa. Dizia Bloch que “mais do que um milagre, as pessoas precisavam acreditar que um milagre tinha de acontecer”, ou seja, a crendice ultrapassava a própria crença no milagre, o que fazia que os doentes insistissem em ser tocados, mesmo sabendo que não seriam curados. Um processo mental e psicológico de total entrega a uma esperança que perpassa, desde os primórdios do cristianismo, a mente dos seguidores da doutrina codificada por Paulo de Tarso, como outro poderoso meme salvacionista. E isso chegou a nossos dias: o santuário de Fátima, em Portugal, a fé em nossa senhora Aparecida, no Brasil, o aparecimento pontual e seguido de taumaturgos e profetas milagreiros em vários lugares do mundo e, claro, também do Brasil atestam a permanência desse meme, dessa necessidade dos humanos de acreditar num milagre, num salvador, numa água milagrosa, numa palavra de um “santo”, num “passe espiritual”, enfim, em alguém ou algo que os livre de uma doença, que os tire da vida miserável ou que os abençoe para uma pretensa caminhada rumo ao céu. O “salvacionismo sebastianista” está em plena vigência até hoje, mais fortalecido ainda pelas igrejas pentecostais cujos pastores erguem templos modestos ou faraônicos com o dízimo de seus seguidores, na pregação mais descarada de que deus proverá todas as suas necessidades na medida de sua contribuição para com os cofres da igreja, para o bolso do pastor.

Esses pastores desenvolveram técnicas de comunicação de massa para iludir, com seus discursos e falsos milagres, o populacho sedento de uma palavra salvadora, de um milagre. Com isso, amealham fortunas, compram canais de televisão e conseguem atingir milhões e milhões de seguidores, apresentando, na maior desfaçatez, sua riqueza e seu poder como exemplo do poder da crença na “palavra”. Deus vira mercadoria de troca: se você lhe der parte de seu salário ou seu salário todo, ele vai recompensá-lo com fortunas incalculáveis. E o povo acredita muito mais na necessidade de que um milagre precisa acontecer, do que, às vezes, no próprio milagre. Fundamentalistas em termos doutrinários (pelo menos, para uso diante dos fiéis) e poderosos economicamente, tornaram-se sedentos do poder político. Mas, não podem eles mesmos, os líderes máximos, se lançarem à sanha de uma campanha política, que exponha, no calor das discussões e debates, suas fraquezas e suas fortunas reais. Pelo mecanismo de não pagarem impostos, as igrejas que eles comandam possibilita que escondam em paraísos fiscais ou em nome de “laranjas” os ganhos reais das coletas em nome de deus. Então, precisam “terceirizar” a conquista do poder político, através de bancadas de deputados e senadores e até mesmo juízes do Supremo “terrivelmente evangélicos”, isto é, fiéis a suas demandas.

Então, chegamos ao ponto crucial de nosso raciocínio: misture o meme cristão do salvacionismo sebastianista com a crença em taumaturgos milagreiros; acrescente a fúria pregacionista e reacionária dos pastores evangélicos a brandir suas bíblias e suas diatribes contra o perigo do diabo e do comunismo, sedentos não só dinheiro mas também de poder político que lhes traga segurança e ainda mais dinheiro; junte a isso o surgimento de um político medíocre, inescrupuloso, mas “profundamente evangélico” (pelo menos, na aparência) e teremos, no cadinho político de desânimo e de perseguição das forças progressistas alojadas no PT, pela chamada operação lava jato, que abriu fogo cerrado contra uma pretensa escandalosa onda, um tsunami, de corrupção, teremos no meio disso tudo o “taumaturgo”, o “incorruptível”, o “dom sebastião” devidamente forjado em mentiras e tornado “mito” – Jair Messias Bolsonaro.

Claro que o anticomunismo exacerbado do “estado novo” getulista, ainda hoje arraigado no povo brasileiro, desde a década de 30 e 40, teve seu quinhão na pregação dos pastores e no espectro de cores nazi-fascistas assumidas pelo político, coisa de que, possivelmente, nem o próprio candidato tem noção muito clara, já que sua capacidade mental é limitada. Também contribuíram, como já ressaltei, a “onda de fake news” desencadeada nas redes sociais pelos seguidores de Bolsonaro. Com um ingrediente de altíssima voltagem midiática: a facada que ele levou em plena campanha, o que o impossibilitou de participar de debates com os demais candidatos, blindando, assim, a falta de argumentação e a estupidez de suas ideias absurdas, do eleitor que não queria o PT de volta, o que gerou um fenômeno no segundo turno das eleições: um candidato que se elege com uma quantidade inferior ao de votos brancos, nulos e dados a seu oponente. A tal da facada pode ter sido falsa, como eu e muitas pessoas acreditamos, mas o seu poder midiático e de blindagem do candidato foi bem real.

Bolsonaro, do alto de sua estupidez, está destruindo todas as conquistas sociais, políticas, econômicas que as forças progressistas haviam logrado obter. E não se pode dizer que ele escamoteou dos eleitores suas intenções, já que seus seguidores – aqueles 20 a 25% do eleitorado que ainda o apoiam – estavam conscientes do que desejavam: acabar com tudo que tivesse um leve perfume de “esquerdismo”, de comunismo, mesmo que fossem territórios indígenas, direitos das mulheres, gays, transexuais etc., mesmo que se relacionassem à defesa do meio ambiente, à política externa, à economia e mais uma série imensa de etcéteras. E pior: mesmo que tivesse “cara” de fascismo, “jeito” de fascismo, “cheiro” de fascismo, eles apoiariam jurando que não é fascismo. No entanto, abriram as portas para todos os extremismos de direita, que jaziam em suas tocas, e agora, vitaminados pela tecnologia das redes sociais, ousam colocar suas garras de fora, aproveitando-se da ingenuidade ou, mais provavelmente, da necessidade de não descartar apoios da “comunidade anticomunista” dos bolsonaristas, num balaio de gatos pardos, dos quais, no entanto, cada grupo sabe muito bem a cor real de cada um, mas finge não saber.

Os “pastores” que levaram seus “rebanhos” – melhor, talvez, se disséssemos “seu gado” – para formar as hordas bolsonaristas souberam muito bem explorar o vácuo deixado há mais de 50 anos pela ICAR. A igreja e seus papas, depois de Pio XII, principalmente a partir de João XXIII, modernizou seu discurso tradicional, abrandou seus ritos conservadores, deixou que muitos de seus bispos e padres desenvolvessem um discurso socializante e de defesa dos mais desprotegidos, e tem abandonado pouco a pouco algumas de suas práticas medievais. Isso assustou e afastou seguidores mais tradicionalistas, os mais “medievais”, em cuja mentalidade não cabiam essas “modernidades”. Órfãos, acabaram nos braços fundamentalistas, ou falsamente fundamentalistas, da pregação “evangélica” que, se não tinha o conservadorismo dos ritos, tinha o “ouro dos tolos” da ligação direta do cristão com seu deus, embora passando essa mediação direta pela bolsa escancarada e faminta dos pastores. A esse discurso salvacionista e fundamentalista, acrescente o conservadorismo, o medo do “inferno comunista”, a promessa tácita e indiscutível de que deus está, não exatamente no céu, mas ao lado de cada um deles, conduzindo suas vidas e prometendo melhores condições sociais, desde que acolham a “palavra”, nada mais do que a “palavra”, com as mãos erguidas para doar a deus o seu rico dinheirinho em troca de emprego, de casa, de carro, de mais dinheiro, temos uma multidão que chamamos de “gado”, porque segue de olhos fechados o chefe da manada e faz o que eles, os pastores, querem, inclusive votar no Bolsonaro e apoiar seu governo. Ou seja, o governo de Bolsonaro, o “taumaturgo” estúpido e destruidor, significa o povo de deus no poder. E mesmo que eles não acreditem nos milagres do taumaturgo, precisam, no entanto, devidamente guiados por seus pastores, acreditar que um milagre precisa acontecer.

Creio ter retratado de alguma forma – e o mais realisticamente possível – essa figura quase enigmática e quase inexplicável que é o atual presidente da república do Brasil. Não é o único no mundo atual. Passamos por um momento de crise de lideranças e em muitos países outros seres fora da curva têm obtido sucesso eleitoral e estão conduzindo seus países e seus povos para destinos que só podemos considerar como trágicos. As forças progressistas têm procurado reagir, o que nos dá alguma esperança.

No entanto, creio não ser necessário, para concluir, alertar o quanto de perigo há no bolsonarismo e na continuidade de seu desgoverno. E no quanto as forças progressistas terão que investir em termos de persuasão e de luta para que esse indivíduo seja vencido nas próximas eleições, para que a destruição do país chegue a um ponto de total irreversibilidade.

“There is still time, brothers”!!!

março 09, 2022

ABSURDOS DE UMA GUERRA ABSURDA: RÚSSIA X UCRÂNIA

 

(Al Margen)



Acusam o presidente da Ucrânia de fascista. Não creio que ele seja exatamente um fascista, mas faz o jogo dos fascistas, manipulado, como um títere (sem ironia) por forças muito poderosas, ligadas a interesses estadunidenses.

Essa é uma guerra suja, em que só há bandidos:

1. Putin, que não quer mais mísseis apontados para a Rússia, pela OTAN (essa milícia que vende proteção à Europa, por obra e graça dos EE.UU.);

2. Biden e os presidentes europeus, que nada fizeram para impedir a guerra (uma "diplomacia" de mentirinha, só para "inglês ver")

3. e, finalmente, o idiota que preside a Ucrãnia (sabe que não tem chance de vencer um exército dez vezes mais poderoso do que o dele e ainda assim pede aos ucranianos que resistam com coquetéis molotov - isso, sim, um crime a mais nessa guerra criminosa).

Em vez de mandar o povo para o inútil sacrifício, que buscasse armistício com a Rússia, concordasse com seus termos, evitasse a destruição do seu país e a consequente matança e fuga de seus cidadãos. A história nos tempos atuais é líquida: como saber o que vai acontecer daqui a dois, três anos? A situação mundial pode mudar. A situação interna na Rússia pode mudar. Salvar a Ucrânia, salvar vidas, mesmo à custa de uma aparente humilhação, deveria ser o fim e o escopo de um governo que se diga realmente preocupado com seu povo e não preocupado em posar de super-herói para agradar uma plateia - a Europa e os Estados Unidos - que só esperam uma brecha para assaltar seu país e tornar seu povo "escravo feliz" do mercado predador.

Nessa guerra de equívocos, Zelenski erra e mente. Também mentem os líderes europeus e o presidente dos Estados Unidos. E Putin, do alto de sua arrogância e insensibilidade, mente tanto quanto todos os outros.

A desinformação, principalmente a desinformação histórica; a arrogância de todos em achar que cada um tem razão, quando ninguém a tem; a falta de visão humanitária, que joga no fogo do sacrifício toda uma nação, todo um povo; uma diplomacia cega, surda e que apenas grita desaforos e ameaças contra os “inimigos”, quando sabemos que, para a verdadeira diplomacia, não existem inimigos, mas adversários, com quem se busca o entendimento e não a discórdia; a falta de apetite de todas demais nações do mundo em tentar mediar para valer um conflito que evitasse derramamento de sangue; tudo isso me faz pensar que não há mais líderes confiáveis no mundo, que não há mais na cabeça de nossos políticos algo que é simples e necessário: bom senso.

E o bom senso falta principalmente quando os países da Europa se curvam à chantagem dos Estados Unidos, ao manter esse obsoleto, absurdo, desnecessário e totalmente escandaloso tratado chamado de OTAN / NATO, que não passa de um bando de milicianos com tropas acantonadas em pontos estratégicos, vendendo à Europa uma pseudoproteção contra um inimigo que não existe mais: a União Soviética comunista que, não se sabe bem por quê, foi marcada como destinada a ser o inimigo eterno do “capitalismo”, numa guerra ideológica que só não levou o mundo à terceira guerra porque as forças atômicas de ataque e defesa se mantiveram num equilíbrio de destruição mútua.

Pergunto-me: por que o capitalismo teme as ideias socialistas e comunistas, a ponto de se armar até os dentes para uma guerra que não terá vencedores? E eu respondo: não é exatamente o “capitalismo”, essa entidade abstrata e predadora, que teme o “comunismo”: são os interesses de imensas companhias e oligopólios que não desejam perder o domínio do “mercado” ou dos “mercados”, ou seja, da exploração de bilhões de seres humanos que lhes proporcionam lucros tão estratosféricos, que lhes permitem dominar mentes e corações não só de consumidores emburrecidos pelo consumismo, mas também a mente e os corações de governantes regiamente pagos para defender seus interesses, ou inocentemente a serviço de políticas expansionistas imperialistas dos Estados Unidos da América, esse, sim, o país inimigo de todos os demais, na sua sanha de manter sob controle todos os governos da terra. E, quando não obtêm esse controle de forma pacífica ou convencional, lança mão de todos os artifícios para obter seus intentos, desde as revoluções internas de desestabilização dos governos (as chamadas “revoluções coloridas” incentivadas pelas mídias devidamente azeitadas com milhões de dólares e financiadas por organizações não governamentais a soldo de seus intentos), até a invasão e destruição do país, como já o fizeram diversas vezes (desde 1890 até os dias de hoje, sendo o Iraque a mais recente “obra” de destruição total).

A Ucrânia era a “bola da vez” da sanha estadunidense, com um presidente fraco e devidamente azeitado pela máquina propagandística do capitalismo selvagem, pronto para deitar suas garras em mais um povo e torná-lo “escravo feliz” do consumismo. O passo decisivo seria fazer desse país mais um membro do “privilegiadíssimo” clube da OTAN/NATO, o guarda-chuva protetor de todos os interesses do mercado consumidor na Europa, para onde seriam enviados mais alguns mísseis e tropas de “proteção” contra a “inimiga” Rússia, que deveria se calar ao “determinismo” e à “vontade” do povo ucraniano, devidamente manipulado pela propaganda sutilmente (e, às vezes, escancaradamente) veiculada pela mídia mais uma vez azeitada pelos dólares de um oligarca (ironicamente) russo, a soldo dos interesses estadunidenses. Zelensky, o agora proclamado “super-herói”, é só um “detalhe” emblemático dessa máquina de fazer malucos, para tornar todos os malucos da terra simples robôs consumistas das grandes empresas que detêm quase todo o poder econômico do mundo capitalista.

E por que a Rússia concordaria com mais esse passo engendrado pela criatividade do mundo capitalista? Porque, simplesmente, pensaram os estrategistas, a Rússia também é capitalista e seus interesses econômicos estão devidamente entranhados com os interesses capitalistas do mundo ocidental. No entanto, falharam ao bater de frente com Putin, que não “engoliu” a possibilidade real de que mais um país desentranhado da antiga União Soviética passasse de mão beijada para o “outro lado”, ou seja, se associasse à OTAN/NATO, com a possibilidade de ter bem “sob suas barbas” mais uma bateria de mísseis apontados para seu país, tratado ao mesmo tempo, paradoxalmente, como amigo e inimigo.

Em nenhum momento, os países Europeus cogitaram colocar na mesa de negociações com a Rússia, para evitar a guerra, a dissolução desse tratado absurdo, obsoleto, desnecessário e totalmente escandaloso chamado de OTAN / NATO, que devia ter sido extinto logo que a União Soviética se desmanchou e a Rússia se tornou tão capitalista quanto todos os demais países capitalistas. A Europa continua, portanto, de joelhos, sendo chantageada pelos Estados Unidos, com seus milicianos armados de mísseis e sua propaganda massiva de que existe um “inimigo” a ser combatido, a Rússia.

Conclusão: Putin invade a Ucrânia e desencadeia uma guerra tão absurda, desnecessária e escandalosa quanto a própria OTAN/NATO, que não pode fazer nada, porque esse país ainda não está ligado ao compromisso de “todos por um e um por todos” (na verdade, é todos pelos Estados Unidos). Uma guerra em que, se a primeira vítima é a verdade, como dizem os historiadores, a maior vítima é o povo ucraniano, levado ao matadouro por falsas promessas de uma resistência impossível, com meros coquetéis molotov, diante dos tanques de um dos mais poderosos exércitos da terra.

Pobre povo ucraniano, pobre povo de todos os demais países iludidos pela sanha muito mais destruidora e expansionista dos Estados Unidos, do que dizem que sonha o frio, calculista e insensível Putin, atrás de seus exércitos invasores!


março 01, 2022

NÃO CHOREMOS PELA UCRÂNIA, CHOREMOS PELOS UCRANIANOS





Se você está imbuído do fervor patriótico do povo ucraniano e pelas palavras de incentivo de quase todo o mundo a esse fervor patriótico, por favor, não leia este artigo. Você não vai encontrar, aqui, nenhum louvor a qualquer tipo de patriotismo, a primeira trincheira dos estúpidos e dos adoradores do genocídio.

Então, vamos lá.

Primeiro, quando Putin ameaçou a Ucrânia, nenhum país, nenhum governo, absolutamente ninguém ouviu suas razões. A reação foi sempre de contra ameaça. Se fizer isso, faremos aquilo. Se continuar assim, vai se arrepender. E por aí a fora. Talvez Putin tivesse razão. Talvez Putin não tivesse. Isso não importa. Importava ouvir, conversar, dialogar, buscar soluções, extrapolar a ideia de que se evita uma guerra fazendo guerra, que é a segunda trincheira dos estúpidos, principalmente dos adoradores do genocídio.

Ao contrário de qualquer lógica, os governos e a mídia jogavam, a cada palavra, a cada pronunciamento, mais lenha na fogueira, mais gasolina no incêndio. Talvez um único governo, o da França, tenha tentado ouvir, mas foi a voz solitária. Acho até que todos os demais governos, instigados pelos Estados Unidos, sob o manto da famigerada e belicosa OTAN / NATO, escarneceram de suas tentativas. Se Putin também escarneceu do presidente francês, foi porque percebeu que era realmente a voz que pregava no deserto, para usar a batida metáfora bíblica. Estavam todos imbuídos de seus pressupostos, agarrados à arrogância da ameaça, do falar e gritar mais alto, de que somos os mais fortes, e essa é a terceira trincheira dos estúpidos e dos adoradores do genocídio.

Iniciada a invasão, o que fazem a mídia, os governos europeus e estadunidense e o próprio governo da Ucrânia? Apoiam a resistência entusiasticamente. A mídia, com a repercussão e a cobertura espetaculosa da guerra, como vampiros sedentos de sangue. Os governos europeus e estadunidense com sanções e ameaças contra a Rússia. E mais: com o envio de armas de defesa para a Ucrânia. E mais, ainda: com o incentivo absolutamente insensato do governo ucraniano de que cidadãos comuns, sem preparo militar, resistissem com armas caseiras (e mesmo se fosse com armas sofisticadas, quem saberia usá-las corretamente?) e com coquetéis molotovs a um dos mais poderosos exércitos do mundo. E todos, absolutamente todos, de pessoas comuns a governantes poderosos, de estudantes a pensadores e historiadores famosos, todos a incensar, a encorajar, a enaltecer a resistência do povo ucraniano e a levá-lo ao paroxismo do amor à terra, à pátria. E aqui voltamos à primeira trincheira dos estúpidos adoradores do genocídio que é, como você deve se lembrar, meu caro leitor, o patriotismo.

Porque é de genocídio que estamos falando. Genocídio de um povo, o ucraniano, por um exército poderoso, cujas razões ou não razões para fazer o que está fazendo extrapolam todo e qualquer possibilidade de lógica, porque desencadeada a violência, não há como detê-la, não há como saber como vai terminar, ou melhor, sabemos sim: em hecatombe, em mais uma das inumeráveis carnificinas que os seres humanos cometem contra seres humanos ao longo dessa nossa triste história de guerras, de arrogância estúpida em acreditar que o militarismo possa ser solução de algum problema humano. E essa crença no militarismo, no poder das armas, na entrega de nossas vidas a seres treinados para matar, é talvez a última trincheira da estupidez humana.

Encerrarei minhas diatribes com a seguinte provocação (e que cada um a receba do jeito que quiser):

Se eu fosse o presidente da Ucrânia, não moveria um dedo sequer contra o exército russo, não deixaria que nem cidadãos nem os soldados disparassem um só tiro. Aguardaria os tanques em meu gabinete. E assim que meu país estivesse ocupado, procuraria o Putin e lhe diria: “Senhor Putin, agora que senhor já conseguiu o que queria, vamos conversar. O que o senhor quer para não matar nossos cidadãos e nos deixar em paz?”

Covarde! Poderiam gritar todos os estúpidos adoradores do genocídio. Mas, pelo menos eu teria poupado a vida de meu povo. Porque nenhuma vida vale mais do que qualquer bem material, vale mais do que um pedaço de chão, vale mais do que um país!