outubro 19, 2009

EIA, SUS, HINO NACIONAL!


Está bombando na Internet o vídeo de uma senhorinha santista sobre o Hino Nacional. Muito simpática a Ana Arcanjo, do alto de seus mais de noventa anos (infelizmente soube que faleceu no início do ano). Também muito inteligente, ao revelar, num português escorreito, detalhes da introdução de nosso hino.

Sempre cismei com o Hino Nacional. Aliás, sempre impliquei com o Hino Nacional. Por sua letra incompreensível, parnasiana e fora de moda. Difícil de apreender até a mais simples frase que o introduz. Quantos já se interrogaram sobre o significado de “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”? Uma frase simples que se torna complexa, porque o autor preferiu a ordem inversa, numa metáfora que já não é de fácil compreensão para os leitos: “as margens plácidas (calmas) ouviram...”, ou seja, presenciaram. Só nessas palavras, um professor de português queimaria pelo menos uma aula sobre linguagem figurada.

E não fica por aí, o nosso Hino: se os versos são sonoros, bem rimados e bem ritmados, há palavras completamente desconhecidas dos cidadãos comuns, colocado, como no exemplo acima, sintaxe rebuscada, típica da época em que foi escrito. Valorizou-se a forma e, hoje, perdeu-se o conteúdo.

Além disso, achava (olha o tempo verbal!) que a música é pomposa demais, marcial, numa batida imposta pelo decreto militar da época da ditadura, que impunha sua execução num formato solene, solene além da conta e do alcance do cidadão comum, leia-se: eu e você e todos os brasileiros, com raríssimas exceções (e acho que entre as exceções nem devem estar os presidentes militares).

No entanto, ao pesquisar um pouco mais e, principalmente, ao ouvir muitos hinos de outros países, principalmente os do Ocidente, deparei com algo que me incomodou muito mais: a maioria dos hinos nacionais são cantos de guerra, ou de exaltação extremada da valentia e do militarismo. Muitos caem no deísmo absurdo, invocando divindades como se o Estado não devesse ser laico e não entrar em discussões de fé. Não vou citar exemplos, porque isso é assunto delicado e pode ferir susceptibilidades. Claro, há hinos belíssimos, mas mesmo os mais belos, não deixam de exaltar, muitas vezes, a guerra, a força bruta.

Diante disso, o nosso hino é um primor de “politicamente correto”: enaltece a Pátria, sem praticamente falar de guerra, de conquistas, de belicosidade para com outros povos. Também não recorre a divindades, nem a entes abstratos e metafísicos. Só é complicado de entender.

E o complicado de entender era toda a minha implicância. E sua batida solene também me incomodava. Cantado, no entanto, em andamentos mais suaves, sua melodia é agradável, diria até, muito bonita, apesar de não ser totalmente inédita, mas baseada numa peça musical anterior.

Gostaria que sua letra fosse mais simples. Que uma comissão de ilustres escritores, linguistas e filólogos pudesse apresentar ao Congresso Nacional uma proposta de letra mais ao alcance de todos os brasileiros, eliminando as inversões e o linguajar erudito dos parnasianos do século XIX.

Sempre alentei tal idéia. Mas...

Depois que ouvi o discurso da senhorinha Ana Arcanjo, dizendo que o Hino tinha uma introdução cantada que era assim:


Espera o Brasil que todos cumprais o vosso dever

Eia, avante, brasileiros, sempre avante
Gravai o buril nos pátrios anais do vosso poder
Eia, avante, brasileiros, sempre avante
Servir o Brasil sem esmorecer
Com ânimo audaz
Cumprir o dever
Na guerra e na paz
À sombra da Lei, à brisa gentil
o lábaro erguei,
do nosso Brasil
Eia, sus, ó sus.

... fiquei pensando: era bem pior. Desculpe, Ana Arcanjo, eu sei que você teve boa intenção, que você pode até achar bonita essa introdução-exaltação de valores e de ânimo audaz e que há muita gente achando o máximo esse tipo de coisa, dizendo até que a ausência desses versos é sinônimo do famoso descaso que dizem e afirmam que o brasileiro tem por suas tradições, por sua história, por seus valores. Mas é muito ruim isso.

E podia ficar pior, se pensarmos que uma comissão de notáveis se arrogasse o direito de mexer na letra do Hino e deixasse que Deputados e Senadores aprovassem, com emendas, o seu trabalho: poderia sair pior, muito pior, a emenda do que o soneto (estou pensando na bancada evangélica tentando enfiar os seus conceitos deístas, a bancada ruralista tentando colocar o problema da propriedade, as bancadas de cada Estado tentando alguma referência ao seu torrão natal... íamos acabar com um verdadeiro mostrengo).

Então, fiquemos assim: nada de “eia, sus, ó sus” e também nada de mexer no Hino Nacional. Que tentemos aprendê-lo e cantá-lo assim mesmo como está. Que os professores de comunicação tentem fazer a interpretação da letra para seus alunos. Que os bons cantores (não a Vanusa, claro) o interpretem de acordo com sua sensibilidade, sem as amarras dos compassos marciais dos militares. Que nos emocionemos ao ouvi-lo em cerimônias de vitórias ou de derrotas, sem revanchismos militaristas, sem pensar em guerras com vizinhos ou com quem quer que seja. Que não entendamos ou critiquemos o gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”, mas deixemo-lo (ao gigante) em paz, sempre em paz.

Pois nosso hino não fala de guerra nem se deixa levar por outros equívocos, mas canta, principalmente, a beleza de um País e sua vocação para a Liberdade. Mesmo que não entendamos muito bem suas palavras.

2 comentários:

JASDeSouza disse...

Isaías,

Ainda bem que, depois de toda aquela peroração "contra" o Hino, na segunda parte você concluiu que deixá-lo como a gente aprendeu desde o Grupo Escolar (nossa geração o aprendeu antes da imposição da Ditadura!) é o que é melhor. Mesmo porque, e você, como Professor de Português, há de convi comigo, a discussão sobre a sua Poesia, ainda que äntiga", "parnasiana"etc. é um grande mote para falarmos da nossa Língua e valorizarmos sua evolução.
Do ponto de vista "hinário", o nosso hino tem uma musicalidade marcial sem ser guerreira nem deísta (cistã nem pagã) e isso nos faz quase dançá-lo ritualmente.

JASDeSouza disse...

Isaías,

Ainda bem que, depois de toda aquela peroração "contra" o Hino, na segunda parte você concluiu que deixá-lo como a gente aprendeu desde o Grupo Escolar (nossa geração o aprendeu antes da imposição da Ditadura!) é o que é melhor. Mesmo porque, e você, como Professor de Português, há de convi comigo, a discussão sobre a sua Poesia, ainda que "antiga", "parnasiana"etc. é um grande mote para falarmos da nossa Língua e valorizarmos sua evolução.
Do ponto de vista "hinário", o nosso hino tem uma musicalidade marcial sem ser guerreira nem deísta (cristã nem pagã) e isso nos faz quase dançá-lo ritualmente, como uma dança indígena.