outubro 06, 2026

O QUE SAIU DAS URNAS NESSE 4 DE OUTUBRO DE 2026

(Lasciate ogne speranza voi ch'intrate)

Vou falar do que vi e vivi. Do antes, deixo para historiadores competentes, que há muita sujeira e sacanagem a ser ainda contada, nessa nossa incipiente e insipiente República. (Quase ia dizer “república de merda”, mas vou respeitar a sensibilidade de meu eventual leitor).

Começarei em 1960, com a eleição de Jânio Quadros, uma tragédia que se anunciava desde a campanha desse obscuro e desequilibrado ex-governador de São Paulo. E não deu outra: sua renúncia, sete meses depois, abriu as portas do inferno de 1964, quando, saídos do esgoto mais profundo das latrinas dos quartéis, os militares deram o golpe que derrubou o governo progressista de João Goulart. Foram 21 anos de sangue, porrada e bomba. E de estagnação econômica, claro.

Depois de muita luta, os militares concordaram com eleições, em 1985. Eleições indiretas, ou seja, o presidente seria escolhido pelo Congresso, dominado pela direita. Mas, supreendentemente, e sob pressão popular, Tancredo Neves foi eleito em 15 de janeiro de 1985. Embora “biônico” (como se dizia então), Tancredo reunia as esperanças populares. Afinal, era o primeiro presidente civil desde o fatídico 1964. O destino frustrou essas esperanças: Tancredo morreu em 21 de abriu de 85, sem tomar posse. A presidência ficou com seu vice, José Sarney, que até começou bem, com planos econômicos ousados para enfrentar a doença maior do país naquele momento, a inflação. Mas foi tudo por água abaixo, por burrice, por incompetência, por falta de solidez administrativa.

A aventura do governo sem eira nem beira de Sarney preparou o país para a desventura de Collor de Mello, outro aventureiro incompetente, demagogo, sem plano de governo e, pior, corrupto, eleito graças a um vacilo do seu maior opositor, na época, o sindicalista Lula, e uma sacanagem conhecida por todos da Rede Globo de Televisão. Desastre administrativo que terminou com sua renúncia para não sofrer impeachment, deixando o governo para Itamar Franco, em 29 de dezembro de 1992. Uma nova tragédia? Por incrível que pareça, Itamar fez um governo razoavelmente decente, para os padrões até então vigentes, e conseguiu domar o “dragão da inflação”, graças a um plano urdido por um grupo de economistas competentes. O “Plano Real” livrou o Brasil da inflação, mas teve como efeito colateral a eleição de Fernando Henrique Cardoso.

Não parecia ser uma nova tragédia anunciada. Afinal, ainda que fosse um dos líderes da direita que sempre mandou no país, Fernando Henrique era um intelectual admirado e respeitado no mundo inteiro, um homem inteligente, bom orador e pessoalmente otimista e bem-humorado, muito diferente das carrancas militares do passado. No entanto... e a história nos prega mais uma peça: para obter a reeleição, fruto de um ego que, diríamos à época, do “tamanho de um bonde”, rifou o país, levando-o à beira da bancarrota, do abismo, do qual não conseguiu sair em seu segundo mandato, que se encerrou em 1º de janeiro de 2003, quando o sindicalista e quase analfabeto, totalmente oposto de FHC, Lula foi eleito presidente.

A esquerda, afinal, assumia a presidência. Mas, Lula não teve vida fácil. Um congresso de oposição rancorosa, rançosa e agressiva quase o impediu de governar, inventando escândalos e maracutais que só podiam ocorrer na mente doentia de certos deputados poderosos. Apesar de tudo, conseguiu superar as dificuldades políticas e iniciou um processo de alteração de rumo da administração federal, com o combate à pobreza, com programas sociais e até um certo equilíbrio fiscal, que o levaram ao segundo mandato. O Brasil respirava ares melhores, finalmente. Lula encerra seu segundo mandato com prestígio nacional e internacional, conseguindo até eleger sua sucessora, Dilma Rousseff, que prosseguiu com os bons índices econômicos e sociais de Lula, até 2014, o que a levou a um segundo mandato a partir de 2015.

O país surfava numa onda de crescimento econômico razoável para a época, baixíssimo nível de desemprego, diminuição dos índices de desigualdade social, ou seja, vivíamos um ciclo virtuoso, longamente perseguido, nunca alcançado.

Mas, então, hidra acordou, ou vinha acordando aos poucos e não percebêramos: a direita de sempre, rançosa e rancorosa, colocou suas garras de fora e o sujo “golpe constitucional” de 31 de agosto de 2016 levou ao impeachment da presidenta, detalhes que todos sabem muito bem como foram articulados e devidamente vendidos ao povo, como uma das maiores facadas no âmago da Constituição e da República, desde o golpe de Deodoro em 1889.

Assumiu o vice, o traidor, o canalha Michel Temer, do qual só vou dizer que foi mais um energúmeno a preparar terreno para um dos piores indivíduos da mais baixa política já surgido do fundo da latrina do Congresso e do militarismo: o ex-capitão, expulso do exército (saiu do exército, mas o exército permaneceu dentro dele), deputado inútil e obscuro por 29 anos, pelo Rio de Janeiro, machista, sexista, racista, preconceituoso, negacionista e falso evangélico. O retrato, todos já perceberam, só cabe em Jair Messias Bolsonaro, eleito graças a uma falsa facada (a segunda facada que aparece neste texto, se o leitor percebeu). Sua administração, em todos os sentidos, foi um desastre total e absoluto, principalmente durante a epidemia de covid-19, quando relutou em comprar as vacinas, o que levou à morte mais de 700 mil pessoas no Brasil, o que lhe garante mais um epíteto: genocida. Condenado a 27 anos e meio de cadeia por tentativa de golpe de estado e por planejar o assassinato de autoridades, ainda assim conseguiu o que ninguém esperava: lançar a candidatura de seu filho, nas eleições de 2026, contra Lula, o senador que tem todas as “qualidades” do pai e mais algumas, como miliciano e useiro em vezeiro em “rachadinhas” e provavelmente implicado no assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro em 2018. Perceberam todos que estou falando de Flávio Bolsonaro, o vencedor do primeiro turno das eleições presidenciais de 4 de outubro de 2026.

Com o filhote do Bolsonaro, saiu das urnas nesta data o que de pior se poderia esperar do povo brasileiro, diante de todas as circunstâncias em que vivemos: um congresso extremamente conservador, com um discurso de demolição de todos os valores e conquistas até agora conseguidas pelos governos de esquerda, ou seja, um congresso que vem do fundo, mais uma vez, da mentalidade medieval e obscurantisa de um povo que, diante de tudo o que escrevi antes, até hoje não se deu conta de que tem sido manipulado por uma direita canalha que nunca se preocupou com seus direitos e nunca fez nada em seu benefício. Mas não posso, em sã consciência, inocentar esse povo, não: tem ele culpa de ser enganado, porque já teve várias e várias oportunidades de provar a consequência de seus erros políticos, e foram muitos desde a eleição do famigerado Jânio Quadro, lá nos idos de 1960, há mais de 60 anos, portanto. Foram poucos os momentos de alívio da pobreza, foram poucos os momentos em que houve governos realmente preocupados com o povo, durante esse tempo, e todos eles, absolutamente todos eles, ocorreram nos governos da esquerda, principalmente com Lula e Dilma à frente.Portanto, a escolha do povo foi feita não por ter sido enganado, mas porque esse povo – custa-me muito dizer isto – é um povo ignorante de sua força, ignorante do que acontece com suas vidas e que gosta de ser enganado pela cambada da direita.

Se o Lula ganhar o segundo turno dessas eleições, esse congresso eleito pelo povo - que sabe muito bem o que fez - vai tornar o governo Lula um inferno; se o tal filhote de Bolsonaro ganhar, ele e esse congresso vão fazer da vida de todos os brasileiros um inferno.




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