setembro 14, 2025

ANISTIA PARA BOLSONARO E OS GOLPISTAS: VOCÊ ACREDITA NISSO?

Charge de Gilmar Fraga


Os primeiros oito golpistas foram julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal, o órgão máximo da justiça no Brasil. Não há recurso que modifique uma sentença desse tribunal, porque não há outro tribunal acima dele. Os possíveis recursos que os advogados dos condenados podem apresentar não mudam uma vírgula da sentença. Zé fini, como diriam os franceses. Acabou. Só resta, agora, o choro, o jus sperniandi, o chororô...

E mais: a sentença dos condenados foi por crimes contra o Estado Democrático de Direito, ou seja, contra a Democracia, que é uma cláusula pétrea da Constituição. Nenhuma emenda, nenhuma vontade de quem quer que seja podem mudar os artigos pétreos de uma Constituição. Só outra Constituição, nesse caso aprovada por uma Constituinte eleita para esse fim, pela vontade livre e soberana do povo. Ou por um governo ditatorial, o que se constituiria numa monstruosidade jurídica de que já fomos – o povo brasileiro – vítimas em várias ocasiões, com resultados mais do que funestos: prisões arbitrárias, tortura e morte de centenas, de milhares de cidadãos. E foi justamente contra isso que o STF condenou os golpistas, Bolsonaro como líder do que ficou provado ser uma organização criminosa que pretendia estabelecer um novo governo de exceção no País, uma nova ditadura.

Os ministros do Supremo já mandaram o recado: os crimes pelos quais Bolsonaro e os demais golpistas foram condenados NÃO PODEM SER ANISTIADOS, NÃO PODEM OBTER QUALQUER TIPO DE PERDÃO. Ponto.

Então, por que insistem alguns deputados – de partidos aliados a Bolsonaro e aos golpistas – em tentarem aprovar um projeto de anistia a esses criminosos, no Congresso?

Primeiro, deixemos claro: se o projeto passar na Câmara, não passará no Senado. Se passar no Senado, não passará no STF. Será julgado inconstitucional e jogado na lata de lixo da história.

E eles, esses deputados aliados de Bolsonaro, por mais estúpidos que pareçam ser, sabem disso. Então, por insistem?

Bem, vejamos alguns motivos para essa estupidez.

Primeiro, o ambiente político. Esses partidos já descartaram há muito tempo a possibilidade de Bolsonaro ou qualquer membro de sua família ser o candidato da extrema direita. Eles sabem que essa gente já fez bobagem demais, já falou besteira demais, culminando com um dos filhos do ex-presidente assumir que as tarifas absurdas impostas contra o Brasil pelo “orange-man” estadunidense, Donald Trump, foi obra dele, foi por injunção dele (e tem declarado isso com o maior orgulho, o idiota). E isso é traição! E esse tipo de atitude nem o centrão, com toda a sua paquidérmica estupidez, tolera, ou pelo menos, finge que não tolera, já que se dizem todos “patriotas”. Eles, os “bolsonaros” e, principalmente, o chefe do clã, da organização criminosoa, são, portanto, carta fora do baralho.

Eles defendem a anistia para os golpistas (embora saibam ser absurda), mas não querem a elegibilidade de Bolsonaro e também descartam a candidatura de membros da família do ex-presidente. Querem um novo nome, que não esteja tão comprometido com as pautas golpistas. Talvez o governador de São Paulo, embora o “Zé Carioca” tenha embarcado na onda da anistia, o que pode ser um tiro no pé. Enfim, o centrão e os partidos pretensamente aliados de Bolsonaro querem distância do nome “Bolsonaro” na disputa presidencial do próximo ano.

Em segundo lugar, a visibilidade da pauta golpista. Enquanto fazem toda essa “marola” no Congresso, a mídia, que adora esse tipo de assunto, manterá os senhores deputados que defendem a anistia na chamada “crista da onda”, ou seja, eles serão motivo de entrevistas, de debates, de notícias, de comentários a favor e contra. E mesmo que alguns meios de comunicação os critiquem, prevalece aquela máxima: “falem mal, mas falem de mim”. Que essa exposição poderá render votos no futuro, já que o eleitor tem memória curta e acaba votando ou tendo a intenção de votar em nomes de que ele se lembra, em nomes conhecidos, ou seja, nos mesmos de sempre (ia dizer “os mesmos canalhas de sempre”, mas deixa pra lá).

Então, é isso: enquanto puderem levar essa bazófia de projeto de anistia aos golpistas o mais longe possível, eles o farão, porque essa turma não tem nenhum compromisso com votações no Congresso que sejam de interesso da população. Para eles, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. E que se lasque o povo. Discutir e votar com seriedade projetos importantes? Nem pensar. Anistia é que dá assunto na mídia, o que consagra essa legislatura como uma das piores, senão a pior, de toda a história republicana do Brasil.

Anistia para os golpistas? Se você acredita nisso, desculpe meu amigo, mas você é um dos trouxas que votou nessa gente que só está preocupada com seu próprio umbigo.


agosto 26, 2025

MOTOCICLETAS SÃO UM MAL NECESSÁRIO OU APENAS UM MAL? OU: COMO SE CRIARAM AS BESTAS-FERAS




Motocicleta: no futuro, esse veículo será um item de destaque no que eu chamo de “museu da estupidez humana”.

Sim, podem me xingar, podem dizer o que quiserem contra essa afirmação, mas não consigo considerar que seja lógico que um ser humano dotado de racionalidade se sente sobre um motor de não sei quantas cilindradas de potência, equilibrando-se em duas rodas, e saia por aí a 60 quilômetros por hora (velocidade em que nenhum motociclista anda, não é?), em estradas e ruas cheias de obstáculos, de buracos, sob chuva, no meio do trânsito etc. etc. etc.

O mínimo que se pode dizer é: todo motociclista é candidato a uma queda, que vai ocorrer mais cedo ou mais tarde. E uma queda de moto é risco de machucado muito feio. Imagine, então, uma batida contra qualquer outro veículo!

Acidentes de moto, por mais simples que sejam, quase sempre deixam sequelas. Quando não matam o condutor da moto!

Só dois números, para não me alongar: de janeiro a junho de 2025, morreram na capital paulista 219 motociclistas. No Estado de São Paulo, foram 1.329 mortes, no mesmo período.

Agora, imaginem quantos se feriram, quantos ocuparam leitos de hospital, quantos fizeram ou estão fazem fisioterapia para recuperação, quantos vão ficar com sequelas para sempre... E quantos dias de trabalho foram perdidos!

Tudo isso pago pelo contribuinte.

Por que há tantos acidentes de moto? A resposta – talvez não a resposta definitiva – está neta crônica publicada em 4 de julho de 2001, portanto há 24 anos!!!

Seu autor: Mauro Chaves, jornalista, advogado, escritor e produtor cultural. Mauro faleceu em 10 de fevereiro de 2011, vítima de complicações respiratórias e renais, aos 69 anos, no Hospital Bandeirantes, em São Paulo. Deixou inúmeras crônicas publicadas no jornal O Estado de São Paulo.

Publico-a aqui como o meu protesto contra a existência das bestas-feras que matam e morrem no trânsito, pelo país afora:



COMO SE CRIARAM AS BESTAS-FERAS



Dispunha o artigo 56 do texto original do Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9.503, de 23/9/97): "É proibida ao condutor de motocicletas, motonetas e ciclomotores a passagem entre veículos de filas adjacentes ou entre a calçada e veículos de fila adjacente a ela." Esse dispositivo repetia uma restrição comum ao trânsito de motocicletas nos países civilizados, expressa nos dizeres: "Riding between lanes prohibited."

Traduzia, acima de tudo, a tendência moderna e universal de fazer prevalecer sempre, nas disputas do espaço público urbano, a segurança de todos sobre a comodidade de alguns, e o interesse coletivo sobre o individual.

Ao vetar o artigo 56 do código, aceitando a justificativa, absolutamente falsa, de seu ministro da Justiça de então - Íris Rezende - no sentido de que esse tipo de "agilidade de deslocamento" das motos, entre os carros, era regra geral no mundo inteiro (quando, como veremos, na realidade é exatamente o oposto), o presidente Fernando Henrique Cardoso criou, num curto espaço de tempo (quatro anos), uma categoria de cidadãos que se julga dona absoluta, erga omnes, de caminhos "virtuais" indefiníveis, variáveis, balizados apenas por suas próprias destrezas e ousadias - coisa que não existe em nenhum país civilizado do mundo.

É claro que a essa categoria não pertencem apenas os jovens office-boys motorizados, chamados motoboys - na verdade, as maiores vítimas, pela imprudência juvenil e pela deseducação, desse perigoso "privilégio", que têm levado à multiplicação de acidentes no trânsito. Eles são até minoria, dentro de um contingente muito maior de motociclistas e/ou motoqueiros de várias profissões e todas as classes sociais, os quais se deseducaram em seu relacionamento com o próximo no espaço público - pois é isso o que faz a permissividade legal acoplada à impunidade endêmica. Atribuir esse desrespeito (que não se restringe a quebrar espelhinhos retrovisores) à "ganância" dos que encomendam serviços aos motoboys ou à "pressa" da vida contemporânea é bobagem clicheresca semelhante à de considerar a violência fruto exclusivo da pobreza. A "pressa" nos negócios não implica, necessariamente, o desrespeito dos (ou aos) cidadãos - em qualquer lugar do mundo.

A real causa disso - ou o berçário das bestas-feras - foi a irresponsabilidade lobística, disfarçada, contra o artigo 56, que se escondeu muito bem durante toda a tramitação do projeto de lei do código, no Congresso, de 1993 a 1997, para que, de mansinho, se chegasse ao surpreendente veto (certamente num dos momentos de apagão mental presidencial). Caso esse lobby "secreto" (como as motos que surgem de onde o pedestre menos espera...) se tivesse manifestado antes, nas comissões do Congresso ou no plenário, poderia ter sido contestado com o simples levantamento da legislação de outros países. E teria ficado claro, para o presidente da República, que, especialmente nas grandes cidades, como São Paulo, onde a disputa pelo espaço de locomoção - tornado exíguo pelo excesso de veículos, por deficiências do transporte coletivo e consequentes congestionamentos - pode chegar a acirramentos insuportáveis, o artigo 56 era parte indispensável e indissociável de um longo processo educativo e disciplinador de comportamento no trânsito, justamente o que o moderno Código de Trânsito Brasileiro, inspirado na melhor legislação internacional, pretendia conseguir.

Só para mencionar alguns exemplos: dispõe a lei espanhola (Real Decreto Legislativo 339/1990, artigo13) que esses veículos circularão, obrigatoriamente, "por la derecha y lo más cerca posible del borde de la calzada, manteniendo la separación lateral suficiente para realizar el cruze con seguridad". No mesmo sentido, a lei italiana (Codice Della Strada, artigo 143) determina que "deveno circolare sulla parte destra della carreggiata e in prossimità del margine destro della medesima, anche quando la strada è libera". A portuguesa (Decreto Lei 114/94) enfatiza que só poderão circular "pelo lado direito da faixa de rodagem e o mais próximo possível das bermas e passeios, conservando destes uma distância que permita evitar acidentes". A francesa (Code de la Route, artigo R. 4-1) estabelece com rigor, sem privilegiar veículos de que número de rodas for, que, "les conducteurs doivent rester dans leur file". No Canadá e em Estados norte-americanos, as regras variam em torno da citada norma para motos: "proibida a circulação entre as filas de carros" (riding beetwen lanes prohibited). E, na Inglaterra, o melhor depoimento a esse respeito vem de nosso colega de editoriais do Estadão, o motociclista Marco Antônio Rocha, que de tal forma se acostumou, em Londres, à proibição de andar entre os carros que, no Brasil, faz a mesma coisa: espera a vez nos semáforos, na fila, como se estivesse num carro - e não se sente nem um pouco prejudicado por essa corriqueira civilidade.

Em razão de meu artigo anterior sobre o assunto (Impuníveis bestas-feras, 16/6, A2), recebi grande quantidade de e-mails de pessoas que se sentiam literalmente aterrorizadas ante reações violentas, desproporcionais, de grupos de motoqueiros, subitamente formados, porque um motorista não conseguiu deixar de esbarrar numa moto que "costurava" - todos os veículos têm seus pontos cegos. Foram depoimentos impressionantes, que falavam de espancamentos e de quase-linchamentos. Mas também recebi outros e-mails, de alguns grupos que pareciam bem-organizados e interligados (nada que ver com motoboys), cujo traço comum era a linguagem intimidatória. Por exemplo, um engenheiro da Volkswagen (de nome Ralf G. Theil) usou o e-mail da prestigiosa montadora para avisar que meu "infeliz artigo" poderia acarretar-me "processo por calúnia, difamação e preconceito", e me fazer perder o "trabalho bem remunerado no digno veículo de comunicação". No mesmo sentido, outros me "exigiram" uma rápida "retratação". Como se vê, é a mesma mentalidade dos que, talvez antes, até fossem pacatos e respeitadores cidadãos, mas, depois de "contemplados" com um descabido privilégio, e vendo-o contestado, reagem da mesma forma com que "argumentam", no trânsito, os que dão chutes nas latarias dos carros e espancam - sempre enturmados - quem ouse atrapalhar suas "vias variáveis".

Não haverá ninguém - no governo ou no Congresso - disposto a enfrentar o "lobby secreto" e acabar de vez com essa exuberante demonstração de subdesenvolvimento - social, comportamental e mental?

maio 29, 2025

DELENDA EST CAPITALISMO: ANTES QUE ELE NOS DESTRUA!


O trabalho dignifica o homem. Sim. Dignifica o homem que tem o chicote e contrata o trabalhador por salários de fome. A esse capitalista, que se dignifica em salões acarpetados a tomar uísque importado, o trabalho do trabalhador mais do que dignifica: torna-o cada vez mais poderoso e mais apto a brandir o chicote. Porque é assim que roda a roda do capitalismo: esmaga o trabalhador e tira dele a dignidade que sobra nas barrigas protuberantes dos donos de bets, de fábricas, de viagens a Marte ou de simples fabricantes de sonhos que se tornam pesadelos a 60 prestações por mês para o trabalhador e uma obsolescência de 24 meses.

O capitalismo não gera riqueza, gera pobreza, desigualdade, fome e sofrimento. Os poucos que dele usufruem algum privilégio são aqueles que se venderam por trinta dinheiros e se tornaram escravos ignorantes de sua escravidão, robotizados e encantados pelos cantos das sereias do consumismo que devora suas tripas e destrói o planeta, ao mesmo tempo que o obriga a pensar que não há aquecimento global, que todo o poder do capitalismo está voltado para o seu bem estar, através das mentiras edulcoradas em milionários anúncios na televisão, no rádio, em outdoors espalhados em cada canto que o olhar abestado dos consumidos consumidores olham. É a escravidão que não permite que o escravo perceba que se tornou escravo, porque está envolvido por essa bolha de contrainformação que deforma sua consciência e o impede de pensar por si mesmo.

A roda esmagadora de consciências do capitalismo vive e sobrevive em situações de bem-estar e de progresso, mas também vive e sobrevive na inflação, nos momentos de crise, de desconforto, porque se alimenta de tudo quanto o ser humano produz, desde a simples bolinha de gude até o míssil ou o drone que vão trucidar milhares de vida em algum lugar do globo, não importa a mando de quem. O capitalismo é um super-urubu que se compraz na carniça tanto quanto se compraz na “ordem e progresso”. Na sua cartilha não há tempo ruim. Deixa o tempo ruim para a fome, o desespero e a morte dos que lhe servem, já que a obsolescência de um empregado é tal qual a obsolescência de seus produtos descartáveis. Morre um produto, joga-se no lixo e compra-se outro. Morre um trabalhador, joga-se no lixo e nascem muitos outros para substituir o morto, já que a máquina de propaganda do capitalismo é pródiga em incentivar a prole dos proletários do mundo, que nunca se unem, porque o chicote e a manipulação das consciências não permitem que eles ganhem vida realmente humana.

Esta a grande cartada do capitalismo: através de um sistema poderoso de comunicação, que vai desde trabalhos acadêmicos até o domínio das mídias sociais, da imprensa, do rádio, da televisão e da defesa de seus valores por próceres cooptados em todas as camadas sociais, como comunicadores, articulistas, religiosos, políticos etc., o capitalismo demonizou todas as demais possibilidades alternativas à sua existência, como o socialismo, o comunismo, o anarquismo e quaisquer outras teorias que acaso tenham sido defendidas ou possam vir a ser defendidas que tenham qualquer possibilidade de atrair governos ou as massas para uma revolução que o destrua.

O capitalismo não só demonizou todas as teorias contrárias, como contou com a propaganda negativa da malfadada experiência da Rússia de Stalin, infelizmente corroída por perseguições e extermínio de opositores e por um sistema de governo totalitário, que apagou as conquistas do comunismo ali implantado, através do qual o país superou sua crônica vocação feudal e pôde se modernizar e se tonar uma potência mundial. A propagação do ódio à Rússia e ao comunismo tem-se tornado um dos principais aliados do capitalismo para tornar os seres humanos que vivem sob seu regime escravagista escravos inconscientes de sua condição e satisfeitos com ela. Ou seja, o capitalismo perverso e selvagem – epítetos que se podem considerar pleonásticos – tornou-se dono dos corpos e das mentes dos povos a ele submissos. E todos eles se consideram felizes com esse jogo sujo, em cujo tabuleiro caminham as massas famintas, escravizadas... e satisfeitas!

Pregar a destruição do capitalismo não tem nenhum viés moral, religioso ou filosófico. É uma questão de sobrevivência da humanidade. Estamos neste momento vivendo uma crise climática – o famigerado aquecimento global – de consequências impensáveis e esse desastre anunciado está, sim, na conta do capitalismo, do consumismo por ele incentivado, da poluição e do esgotamento dos recursos que ele promove. No entanto, paradoxalmente, só o capitalismo pode salvar a humanidade de grandes sofrimentos ou de quase extinção, porque só a consciência de, pelo menos, a maioria dos capitalistas terá condições de reverter essa situação, adotando práticas sustentáveis, não apenas ou tão somente os governos das várias nações que se mobilizam com leis ou com medidas que abreviem o aquecimento global. No entanto, será um paliativo, já que, assim que tudo se estabilizar – se realmente houver estabilização do clima – com certeza absoluta as novas gerações do capitalismo irão retomar suas práticas abusivas contra o planeta, pensando sempre no lucro imediato e na conservação de seu poder sobre as massas humanas escravizadas.

Por isso, para que a humanidade consiga superar os danos causados pelo capitalismo, ou seja, a fome, a desigualdade, a destruição do planeta, o esgotamento dos recursos e a má distribuição dos bens que deviam ser comuns a todos, mas estão nas mãos de muito poucos, é preciso que esse sistema perverso seja destruído. Como? Não sei e ninguém sabe. Talvez somente através de um longo e doloroso processo de conscientização e depois de lutas que não se pode dizer que serão incruentas, é que os seres humanos talvez um dia se livrem do capitalismo.

O que colocar no lugar do capitalismo? Também não sei. Mas a humanidade viveu e sobreviveu a muitas catástrofes e, se sobreviver ao capitalismo e conseguir destruí-lo, a criatividade do ser humano irá, com certeza, buscar uma forma de convivência menos tóxica e mais consciente dos recursos do planeta e construirá novas sociedades, plurais, igualitárias, talvez mais pobres, porém mais felizes. Pelo menos, é o que se pode esperar.

Enquanto isso, queimemos nosso cérebro escrevendo e tentando ser a chama de uma vela no meio da escuridão total, gritando sempre que possível: DELENDA EST CAPITALISMO – É PRECISO DESTRUIR O CAPITALISMO. Antes que ele nos destrua.



(Ilustração: Medusa com a Cabeça de Perseu é uma escultura criada por Luciano Garbati em 2008. A estátua representa Medusa segurando uma espada e a cabeça de Perseu, uma inversão de papéis na lenda grega. Uma versão em bronze está temporariamente exposta no Collect Pond Park , em Lower Manhattan).

abril 16, 2025

CARTA ABERTA AOS SENHORES CONGRESSISTAS (*)

  



Tenho afirmado e confirmado que a atual legislatura é a pior de todos os tempos.

Sim, embora a palavra tenha caído em desuso, estou indignado com a representação escolhida pelos eleitores para nos representar nas duas Casas do Congresso Nacional. Indignado e decepcionado. Indignado e contrariado.

Vejamos os motivos.

Indignado, porque não percebo nas votações e nas propostas dos senhores congressistas preocupação com os destinos da Nação, mas apenas politicagem rasteira, principalmente por parte dos parlamentares que apoiaram o governo passado (e são maioria, infelizmente) e permanecem presos aos paradigmas e às ideologias dos derrotados.

Decepcionado, porque insistem em discutir pautas ideológicas calcadas, por exemplo, em preceitos religiosos, como o direito ao aborto (o que está na Constituição e é uma conquista de todas as mulheres) ou tentam, apenas por motivos ideológicos, boicotar qualquer inciativa governamental ou de quaisquer outros parlamentares que defendam direitos da população.

Contrariado, porque insistem em ir contra preceitos pétreos da Constituição, para defender, por exemplo, a anistia a golpistas, algo que não é de nenhum interesse da população, mas apenas de um grupo minoritário de pessoas e parlamentares; porque insistem em defender, por exemplo, mudanças em leis de proteção ambiental; porque insistem em negar as mudanças climáticas.

Enfim, sou um eleitor que não está satisfeito com os rumos da política desse Congresso, já que percebo nitidamente numa grande parte, talvez na maioria, dos senhores congressistas um viés de não buscar atender interesses maiores da população, mas sim de grupelhos ideológicos minoritários, esquecendo-se de que Deputados e Senadores SÃO REPRESENTANTES DE TODO O POVO, E NÃO APENAS DOS GRUPOS QUE OS ELEGERAM.

Pensem nisso, senhores Congressistas. Para que eu – e talvez milhares ou milhões como eu – não continue a achar que esta é a pior legislatura de todos os tempos.

Atenciosamente.

Isaias Edson Sidney – cidadão paulistano

(*) Carta enviada à Camara dos Deputados na data de hoje, via portal do Congresso.

fevereiro 21, 2025

EU, CRÍTICO LITERÁRIO, COMENTO, MAIS UMA VEZ, TORTO ARADO, DE ITAMAR VIEIRA JÚNIOR

 

(A capa do livro e a foto original, do italiano Giovanni Marrozzini)



Formado em Letras pela USP, é claro que tenho uma visão diferente do leitor comum ao comentar um livro que acabei de ler, como faço no meu blog TRAPICHE DA LEITURA. Lá, porém, sempre me coloco na posição de leitor, nunca de crítico ou de expert em Literatura. Ou seja, não faço crítica literária. Aliás, tenho uma certa ojeriza a críticos; não a todos, óbvio. Talvez venha do fato de que me incomodava, e muito, quando estudava teatro, lia que grandes dramaturgos e diretores e atores e atrizes estadunidenses da primeira metade do século passado, quando estreavam uma peça, passavam uma noite de cão, esperando a crítica de determinados jornais no dia seguinte. Essa crítica podia determinar o sucesso ou o fracasso do espetáculo, pois havia críticos crudelíssimos que, por qualquer motivo, demoliam uma peça, a direção ou uma atuação que não lhes agradasse, esquecendo-se de que por trás de um espetáculo teatral há dezenas de vidas que nela empregaram o seu talento, o seu trabalho, enfim. Por pior que seja, nenhum trabalho artístico merece a depreciação pura e simples de quem quer seja que se coloque na posição de um deus furibundo e onisciente: se não gostou, não fale nada, não destrua – às vezes, algo que parece ruim para um pode ser bom para outro; ou o ruim hoje poderá ser considerado bom no futuro. Caso contrário, se for mesmo ruim, que o público decida. Sem a influência da maldade de um crítico que se considera dono da verdade.

Enfim, não sou crítico. E, em geral, não gosto de críticos. Porém (e há sempre um “porém”), quando uma crítica é construtiva, ou seja, aponta problemas que podem ser corrigidos, sem rancor, sem sarcasmos e sem cutucar de forma cruel a ferida, até gosto de ler, pois me leva – e ao leitor – a um refinamento do gosto, mesmo que não concordemos – eu ou o leitor.

Tudo isso para pedir licença aos eventuais leitores deste texto para demonstrar, com um exemplo, tudo o que acabei de dizer, refazendo a crítica a um livro que li não faz muito tempo e de gostei, mas cuja estrutura me incomodou um pouco. Refiro-me a TORTO ARADO, de Itamar Vieira Júnior [1], cuja resenha pode ser lida no referido blog TRAPICHE DA LEITURA [2].

Itamar Vieira Júnior conta uma história muito interessante. E escreve bem. Mas comete, na minha opinião, dois erros básicos, que escritores experientes não cometem.

Explico: quando um autor opta por um narrador onisciente, ele pode esquadrinhar a mente das personagens, dizer-nos o que elas pensam e sentem; pode dar-lhes a palavra em várias formas de discurso: direto (quando reproduz a fala da personagem), indireto (quando nos traduz a fala da personagem) e indireto-livre (quando a fala da personagem se mistura à do narrador), mas sempre respeitando a forma de falar de cada um, já que a fala, a maneira de se expressar, também reflete a visão de mundo da personagem e cada uma tem uma visão diferente, logo tem também um modo de falar diferente, e isso é tratado com muito cuidado por um bom escritor. Quando ele opta por um narrador-personagem, esse cuidado de linguagem atinge altos graus de cuidados, porque a maneira de narrar e de contar e de se expressar vai ser conformada à visão de mundo, ao pensamento e às idiossincrasias linguísticas do narrador-personagem. Vamos ver o mundo e acompanhar a narrativa pelos seus olhos, com seus defeitos e qualidades, com seus erros e acertos de julgamento.

Outro ponto importante: se um escritor nos leva para um universo regional, não bastam as referências culturais, os usos e costumes dessa região: é necessário (e bons escritores cuidam muito bem disso) usar também termos, expressões e o linguajar típico da região na fala das personagens e, às vezes, até mesmo na narrativa de um narrador onisciente, mas principalmente na fala do narrador-personagem. Nem preciso citar Guimarães Rosa, que é um mestre na arte de nos levar para o mundo que ele descreve através da linguagem, criada e recriada pelo escritor. Dou outro exemplo: FOGO MORTO, de José Lins do Rego {3]. Já o título nos remete a um regionalismo, que é explicado ao longo do livro, mas que contém uma metáfora de toda uma situação complexa: quando um engenho entra em fogo morto, ou seja, para de produzir a cana, os reflexos sociais são imensos, já que os explorados trabalhadores deixam de ganhar a miséria de um salário de fome e se tornam ainda mais miseráveis. Às vezes, por injunções econômicas regionais, nacionais e até internacionais (um país despeja no comércio mundial toneladas de açúcar mais barato, talvez produzido por mão de obra escrava, e faz baixar os preços na bolsa de valores de Nova Iorque e o efeito cascata chega aos miseráveis trabalhadores dos engenhos nordestinos). Então, vemos a força de uma expressão, dentro de uma obra literária. E a força do regionalismo. E mais: deve o escritor regionalista atentar para as expressões típicas do grupo social a que se refere, mesmo dentro de um padrão regionalista. Por exemplo: num quilombo de Alagoas, seus membros não só usam a linguagem típica do seu estado, mas também palavras e expressões típicas de sua cultura, do seu microuniverso, diferentes das palavras e expressões de quilombolas do estado de São Paulo, que também teriam o reflexo do linguajar estadual em sua fala, mas teriam termos específicos de seu povoado.

Voltemos a Itamar Vieira Júnior. Repito que li o romance com prazer e gostei dele. Mas, literariamente, tem dois problemas sérios (nem vou dizer que são defeitos).

Primeiro, os narradores. Ao optar por narradores-personagens, principalmente nas duas primeiras partes do livro, as duas irmãs deveriam, cada uma em seu momento, ter estilos diferentes de narrativa, já que, embora irmãs, têm visão de mundo diferente, histórico de vida diferente, ou seja, não podia o escritor ter-se descuidado ao ponto de que não diferenciarmos o discurso de uma do discurso da outra: ambos mantêm o mesmo jeito de narrar, o do escritor, e não exatamente o das personagens. Um escritor experiente teria o cuidado de tecer em termos linguísticos dois discursos diferentes, cada um com seu jeito de falar, com aquilo que em linguística se chama de idioleto (o idioma no estilo individualizado).

Segundo, o romance de Itamar Vieria Júnior é uma narrativa regional e, mais do que regional, de um microuniverso específico do interior da Bahia. No entanto, pouco, muito pouco do linguajar desse mundo aflora na narrativa ou na fala das personagens. Os usos e costumes dessa gente não se refletem no léxico que, diante da visão que nos oferece o autor, são bastante ricos, mas o vocabulário que ele, o autor, usa é praticamente o de um leitor culto de qualquer cidade do país.

São esses “descuidos” literários de um autor principiante, embora de grande potência narrativa. Minha crítica tem o sentido de observar, para futuros ficcionistas que por acaso me leiam, que não basta boa vontade e habilidade de escrever, para produzir uma obra de arte. Dizia Chico de Assis, em suas aulas sobre dramaturgia, que é preciso sempre buscar a melhor forma. E que há uma melhor forma para tudo. E eu acrescento que forma e conteúdo são indissoluvelmente intricados e que não se pode desprezar a forma em detrimento do conteúdo ou vice-versa. As grades obras artísticas são aquelas que obtiveram o equilíbrio entre forma e conteúdo, ou seja, seus autores buscaram sua melhor forma e, através dessa melhor forma, conseguiram transmitir mensagens importantes para nós.

Assim, eu repito: TORTO ARADO é uma obra rara na literatura brasileira atual. Deve ser lido, discutido e apreciado em todas as rodas e por todos que tiverem o privilégio de tê-lo em mãos, seja o livro físico ou digital. Mas, tem esses dois pecadilhos: o de não utilizar a melhor forma no trato da linguagem dos narradores e de não incorporar, linguisticamente, os regionalismos das personagens que ele delineia tão bem. É um bom livro, bom de ler, mas não é uma obra prima. Uma pena.


Notas:

[1] Editora Todavia, 2019; 264 páginas.

[2] 

[3] J. Olympio, 1943; 386 páginas.

fevereiro 08, 2025

UM MUNDO QUE SE DESENHA NAZIFASCISTA

Honoré Daumier, 1864


Há uma mentalidade que tenta se impor há muitos e muitos anos: a rejeição ao comunismo. Até a segunda década do século passado, essa rejeição ao comunismo, ao marxismo, era fruto de uma campanha movida principalmente pela Igreja Católica Romana, baseada na ideia de que a Rússia, depois da revolução de 1918, tornara-se um país ateu. E mais: renegara e perseguira a religião, principalmente o cristianismo representado pela ICAR. Perder o império russo, para o Vaticano correspondia a perder um imenso mercado da fé, ainda que tivesse a concorrência da Igreja Ortodoxa, já que essa seita não renegava o cristianismo e, portanto, ainda havia a esperança de ser cooptada para se resguardar sob o manto papal.

Com a ascensão do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália, o anticomunismo recrudesceu e se elevou a níveis de uma campanha mundial, transformado no principal inimigo da ideologia nazifascista, a despeito de todas as tentativas de aproximação entre o terceiro reich e o governo russo. Partidos que professavam ideologias nazistas proliferaram pelo mundo, inclusive no Brasil, onde não só tivemos um partido claramente de ideologia fascista, a Aliança Integralista Brasileira, comandada por Plínio Salgado, como o governo de Getúlio Vargas (nessa época, já transformado em ditador do chamado “estado novo”) flertava abertamente com Mussolini.

Ressaltemos que a ditadura getulista implantou, através do Ministério da Educação, uma verdadeira lavagem cerebral das crianças e jovens, com o culto à imagem do ditador e a símbolos nacionais (principalmente a bandeira), e com uma pregação pelo embranquecimento da nação (de cunho claramente racista) e de horror ao comunismo. Quando em novembro de 1935, um grupo meia dúzia de oficiais do exército se rebelou, no Recife e no Rio de Janeiro, contra o regime de Vargas, algo que ficou restrito aos quartéis, sem qualquer consequência prática, esse movimento foi taxado como uma “intentona comunista”, isto é, uma tentativa de implantar no Brasil um regime comunista. Até hoje, os livros de história repetem esse absurdo e muita gente acreditou e ainda acredita que o Brasil esteve à beira do comunismo.

Nos Estados Unidos, o final da guerra, logo após 1945, a figura de Stálin era praticamente adorada com um grande herói. Mas, logo veio a chamada “guerra fria”, quando as relações com a então União Soviética azedaram. Os Estados Unidos trataram de propagandear, de forma sutil mas intensa, por todos os meios a seu alcance (cinema, revistas, jornais, televisão, rádio etc.) o ódio ao comunismo, como inimigo número 1 da humanidade.

O que não se percebeu, e até hoje não se percebe, é que a pauta anticomunista foi pouco a pouco sendo sequestrada pelos nazifascistas de plantão que, derrotados militarmente, perseguidos e isolados, continuavam, no entanto, a cultivar a sua ideologia, ocultando suas garras, mas fincando-as em muitos estamentos da sociedade ocidental, desde a Europa até as Américas, através de grupelhos incialmente isolados e, pouco a pouco, articulados e ativos. Tomaram entusiasticamente a bandeira do anticomunismo e infiltraram-se na mídia, nos partidos políticos, nas sociedades civis etc. Sem dúvida, após os anos 50, tivemos muitos representantes da ideologia nazifascista em postos relativamente importantes, construindo pouco a pouco as teias invisíveis visando a uma futura tomada do poder em países incialmente periféricos, e depois em países mais importantes.

Mantiveram-se nos porões de pequenas e ocultas organizações, cooptando pouco a pouco expoentes poderosos do capitalismo, os quais perceberam que não bastava o poder do dinheiro, tinham que conquistar também o poder político. Precisavam influenciar mentes e conquistar eleitores para suas bandeiras e souberam fazê-lo de uma forma que o mundo não esperava: através das redes sociais.

O grande teste foi na Inglaterra, em um plebiscito realizado em 23 de junho de 2016, quando os eleitores britânicos decidiram, por 52% a 48%, que o Reino Unido deveria deixar o bloco europeu. A ressaltar que, quando começou a campanha, a população que apoiava a permanência era maioria, mas uma série de fake News e de uma campanha promovida pela Cambridge Analytica os eleitores mudaram de opinião. Essa empresa de análise de dados, que também trabalhou com o time responsável pela campanha do republicano Donald Trump nas eleições de 2016, nos Estados Unidos, usando os mesmos métodos de enviar milhões de mensagens dirigidas a determinado público eleitor, contribui decisivamente para a eleição de Trump. Propriedade do bilionário do mercado financeiro Robert Mercer, era presidida, à época, por Steve Bannon, então principal assessor de Trump.

Trump não foi reeleito em 2020, mas protagonizou um dos espetáculos mais bizarros da história dos Estados Unidos, ao incentivar a invasão do Congresso por seus seguidores e se negar a reconhecer o resultado das eleições. Tentou um golpe de estado, mas ainda não tinha o empoderamento necessário para consumá-lo. Então, com o apoio maciço dos milionários nazifascistas, conseguiu voltar à Casa Branca em 2024, consagrando-se como o maior líder da extrema direita fascistoide do planeta, para gáudio de seus seguidores, como Milei, da Argentina; Netanyahu, de Israel; Giorgia Meloni, da Itália; Viktor Orban, da Hungria etc. etc. etc. Além, claro de muitos líderes que não estão no poder, mas tentam se eleger ou influenciar os eleitores, como Marine Le Pen, na França; Nikolaos Michaloliákos, na Grécia; Santiago Abascal, na Espanha; André Ventura, em Portugal; além, é claro, de Jair Bolsonaro e seus asseclas, aqui no Brasil. E muitos outros estão na ativa, pelo mundo afora.

Essa “nova extrema-direita”, embora não se diga nazifascista, flerta abertamente com ideias de Hitler. Um ponto importante a ressaltar (e por isso, inclui-se o premier israelense), que o ódio ao judeu (uma das bases ideológicas da Alemanha hitlerista) foi substituída pelo ódio ao árabe, aos palestinos (com a firme oposição à criação de um estado palestino) e às minorias étnicas, como negros e latinos (especialmente, nos Estados Unidos); pelo ódio aos imigrantes (na Europa, em relação aos imigrantes árabes e africanos; nos Estados Unidos, o exacerbamento desse ódio cristaliza-se com a política de deportações em massa, recém promovida por Trump); pelo ódio aos pobres todos do mundo (também aqui o exemplo de Trump de retirar a ajuda do país aos miseráveis, com a tentativa de extinção da agência USAID, pode estar e está atiçando o dedinho podre de outros governos para fazerem o mesmo); pelo ódio a minorias sexuais, como gays, lésbicas, transexuais, travestis etc.; pelo ódio à medicina, às ciências ditas humanas, ao aborto legal (em geral, nos países que o adotam, as regras são bem rígidas) e, por incrível que parece, ódio às vacinas e às campanhas de vacinação.

Prega essa extrema direita a defesa inconteste da família tradicional, constituída de homem, mulher e filhos, o que ocasiona, principalmente nesse caso, a cooptação de igrejas evangélicas neopentecostais, cujos seguidores também cultivam ódio às minorias sexuais, seduzidas pelo discurso de defesa de um ideal pretensamente cristão. Difícil dizer ou separar o que é apropriação pelos nazifascistas de uma pretensa inocência de líderes dessas religiões, ou se esses líderes se associam à extrema-direita porque também eles flertam com o nazifascismo, de olho na exclusividade de um futuro mercado da fé.

Outra bandeira cara a esses neonazifascistas é o tal do patriotismo. Porém, um patriotismo torto, absurdo, contraditório em sua essência. Aplaude-se o lema da campanha de Trump – make America great again – sem perceber que tal “amor à pátria” contém a armadilha do exacerbamento de um nacionalismo xenófobo que contraria toda a construção capitalista de um mundo globalizado. Ao se fechar e impor tarifas a importações de países tradicionalmente parceiros, os Estados Unidos de Trump dão o exemplo para que, ao fazerem a mesma coisa, os demais países provoquem uma guerra fiscal e comercial de consequências impensáveis. Muitos idiotas pelo mundo – inclusive no Brasil – estão batendo palmas para suas próprias futuras dificuldades. Quem viver verá.

Provavelmente não haja nenhum inocente nas hostes nazifascistas que começam a colocar suas manguinhas de fora em quase todos os países do mundo. Suas células, cada vez mais, estão com menos receio de se mostrar, com menos receio de divulgar suas ideologias, através de símbolos, gestos, folhetos, mensagens nas redes sociais e, principalmente, através de políticos e líderes populares que se apresentam cada vez mais afoitos na pregação de suas ideologias de ódio, contaminando vários estamentos de sociedades despreparadas para a compreensão e discussão de ideologias que se disfarçam com a defesa de seus interesses do dia a dia, sem perceber que estão sendo cooptadas e doutrinadas muito além de sua religiosidade.

Se temos imensas preocupações e estamos já sofrendo com o aquecimento global provocado pelo capitalismo predatório, precisamos acordar, caros leitores e leitoras, para este outro perigo, tão demolidor e destruidor quanto o primeiro: o mundo está se tornando paulatinamente e cada vez mais nazifascista, principalmente depois da eleição de Donald Trump – empoderado por votos e por dinheiro, muito dinheiro, provindo dos maiores bilionários do planeta, que o apoiam. Porque, além das ideologias acima listadas – que caracterizam o neonazifascismo – Trump está aquecendo suas turbinas para uma tentativa de expansionismo não só ideológico, mas também territorial, com ameaças a países vizinhos e até mesmo com a proposta absurda de os Estados Unidos se tornarem donos da Faixa de Gaza, com a expulsão dos palestinos ou sua cooptação através da promessa de transformar aquele território numa espécie de nova Riviera sob o domínio estadunidense (uma Cuba antes da revolução castrista, é bom lembrar).

Enfim, ou nos empoderamos também – nós, os democratas; nós, os que amamos de fato a liberdade – ou iremos sofrer derrota após derrota para ideologias extremamente perigosas, que podem transformar um mundo atormentado por fenômenos meteorológicos extremos num mundo de perseguições, prisões, deportações e sofrimento social também extremo.

janeiro 25, 2025

SÃO PAULO 471 ANOS: QUE TAL PENSAR NUMA UTÓPICA CIDADE MAIS HUMANA?

 


São Paulo talvez seja um dos maiores equívocos urbanísticos do planeta. Sei que há outras cidades mal planejadas, mal administradas, com problemas estruturais urbanísticos complexos, cidades cujos cidadãos têm péssima qualidade de vida. Mas, a maioria desses aglomerados urbanos quase inabitáveis são cidades bem mais antigas do que São Paulo e trazem suas mazelas de tempos bastante remotos. Não é o caso de São Paulo, uma megalópole típica do século XX, apesar de seus 471 anos de fundação. Lembremos que, em 1913, pouco mais de 100 anos atrás, a cidade era quase uma vila de “apenas” 400 mil habitantes, que mal ocupava o que hoje se chama de “centro expandido”. Hoje, com mais de 11 milhões de cidadãos só no município e quase 20 milhões na chamada Grande São Paulo, pode-se dizer que perdeu o bonde da história, nesses poucos mais de 100 anos, de se tornar uma cidade menos cruel e de melhor qualidade de vida.

Pode-se dizer, também, que o dedo podre dos cidadãos paulistanos, em quase todas as ocasiões que tiveram a oportunidade de escolher seus governantes, escolheram mal, muito mal, na ilusão de promessas de um desenvolvimento a qualquer custo, que não trouxe melhoria de vida para quase ninguém. Sim, São Paulo tem melhorado bastante em vários aspectos de alguns anos para cá, mas as perdas trazidas por administrações equivocadas não têm sido revertidas e tampouco mitigadas. E a qualidade de vida está, hoje, muito ruim, em termos modernos e em comparação com outras metrópoles do mundo.

Em vez de os administradores das últimas oito décadas (que eu considero as décadas do grande salto para a consolidação da atual metrópole) aplicarem o dinheiro público e sua capacidade criativa na qualidade de vida dos habitantes, só o que fizeram (quase todos eles) foi construir grandes avenidas em vales onde corriam rios; expandir a cidade para pontos longínquos e sem infraestrutura; retificar os rios e ocupar suas margens alagáveis; canalizar as centenas de rios, riachos e ribeirões que formavam uma complexa bacia hídrica e enterrá-los todos sob ruas e avenidas asfaltadas; permitir a ocupação de áreas verdes e sua destruição por grileiros irresponsáveis, que lotearam as periferias, lucraram bilhões e deixaram um rastro de bairros e comunidades mal planejadas e sujeitas a deslizamentos e alagamentos; entregaram a cidade à sanha das empreiteiras, abrandando leis e permitindo construções coletivas muitas vezes de má qualidade em praticamente todos os bairros residenciais, transformando a cidade num agulheiro de edifícios sem qualquer planejamento ou qualquer cuidado urbanístico; não planejar áreas de “respiro”, ou seja, grandes áreas verdes e, principalmente, áreas de várzea que pudessem propiciar melhor qualidade do ar e evitar as enchentes recorrentes em inúmeros bairros e locais até mesmo do centro da cidade; estimular o crescimento desordenado da população sem o provimento da necessária infraestrutura de saneamento básico, luz, pavimentação adequada (não o asfalto impermeabilizante) e transporte (o metropolitano só começou a ser construído em 1968 e sua expansão tem sido muito aquém das necessidades da população; privatizar o transporte público (isso ocorrei em 1995) e, a partir daí, entrega-lo sob concessão a empresários inescrupulosos, que só visam ao lucro e não se preocupam com o bem estar da população).

Enfim, poucos foram os administradores dessa imensa e infeliz metrópole a se preocupar com a qualidade de vida de seus habitantes.

Assim, só vejo, hoje, uma solução para os imensos desafios que São Paulo exige para se tornar uma cidade minimamente habitável e com a necessária qualidade de vida: parar de crescer e começar a diminuir.

Sim, diminuir.

Onze milhões de pessoas não são compatíveis com a infraestrutura que a cidade oferece. E não adianta abrir túneis, construir mais avenidas, melhorar o saneamento básico, construir mais habitações, gastar milhões em obras contra enchentes (como os famigerados “piscinões”, mais uma ideia absurda!), melhorar o transporte coletivo, abrir mais postos de saúde ou erguer hospitais, nem mesmo mais creches e escolas, que tudo isso é absolutamente necessário, mas, com mais de 11 milhões de habitantes, tudo isso é enxugar gelo, já que o déficit de todos esses serviços e de toda a zeladoria de que a cidade precisa não vai ser coberto nunca, ou só daqui a muitos e muitos anos, pois são déficits acumulados também de muitos e muitos anos de más administrações: com essa população imensa de mais de 11 milhões de habitantes, repito, não haverá nenhuma política urbana consistente que possa resolver.

Acredito que com quatro milhões a menos de habitantes, a cidade poderia se tornar habitável. E como conseguir isso?

Pode-se equacionar o problema resumidamente da seguinte forma: primeiro, observar que pesquisas apontam que cerca de um terço dos atuais habitantes de São Paulo manifestam desejo de sair da cidade, de voltar para suas cidades de origem ou simplesmente gostariam de se mudar para um outro lugar, desde que tivessem condições.

Então, que se ofereçam condições para que essas pessoas saiam voluntariamente da cidade.

Como? Com um plano de incentivo para pessoas e famílias se mudarem de São Paulo, com pagamento de passagens, ou até mesmo da mudança, para outras cidades distantes pelo menos 300 km de São Paulo, com garantia de emprego, moradia (que poderia ser financiada por um tempo) e condições de vida, como escola, hospitais etc. Plano esse que deve ser elaborado pelos governos municipal, estadual e federal, sob a coordenação de algum órgão com representantes desses três poderes criado especialmente para providenciar todo o planejamento e elaborar toda a estratégia necessária para sua consecução, fazer o contato com os mais de 6.000 municípios de todo o Brasil e também com comunidades, para localizar as condições necessárias aos indivíduos e às famílias que se cadastrarem no plano.

Meta: em dez anos, incentivar 4 milhões de pessoas a saírem de São Paulo.

Com uma população reduzida a cerca de 7 milhões, a cidade pode ter uma boa folga de planejamento de melhoria de condições de vida de sua população e os administradores podem começar a resolver os crônicos problemas de moradia, de transporte, de saúde, de educação, de redução de enchentes etc.

Então, São Paulo não mais seria essa enganosa ilusão de prosperidade para todos e, embora continuasse a atrair pessoas de todos os pontos do país, os migrantes que aqui aportassem viriam em busca do que a cidade tem de melhor, ou seja, a possibilidade de formar cidadãos e cidadãs que não necessariamente vieram para aqui viver para sempre, não seria mais essa espécie de 171, essa armadilha onde se vive sem qualidade de vida e sem possibilidade escape.

Utopia? Sonho? É a partir de utopias e de sonhos que a realidade, às vezes, acontece. Acho que todos os moradores de São Paulo tem o direito de sonhar com uma cidade mais civilizada, mais humana, com menos violência, que propicie uma vida mais digna para todos. Uma cidade mais igualitária.