julho 08, 2024

BRASIL X ARGENTINA: AMIGOS QUE SE ODEIAM OU INIMIGOS QUE SE AMAM?

 




O reducionismo é uma praga de que se lança mão quando a preguiça ou a indigência mental nos assalta. Por exemplo: dizemos que os argentinos são arrogantes; que os argentinos se acham europeus e não sul-americanos... Ora, definir assim, em poucas palavras, um povo é justamente o tipo de reducionismo estúpido, como dizer que os brasileiros são um povo alegre e gentil. Bobagens que se repetem. Então, deixemos de lado os reducionismos, pelo menos os tradicionais, para tentar conversar um pouco, sem preconceitos, e com um pouco ou muito de ironia, sobre a relação entre os sambistas brasileiros e os milongueiros argentinos.

A maioria dos torcedores brasileiros não gosta do futebol argentino e acredito que os torcedores argentinos, em sua maioria, não gostam do futebol brasileiro, mas isso também é reducionismo, já que não sei se há pesquisas que confirmem ou desmintam tal afirmação. O que eu sei é o que observo: há uma rixa do tamanho de um bonde (como se dizia antigamente) entre os torcedores das duas seleções. Mas, as desavenças entre os dois povos terminam aí, ou devem terminar aí: entre as quatro linhas de campo de futebol. Por mais que não queiramos, se somos inimigos que nos amamos ou amigos que nos odiamos, a verdade é que somos latino-americanos e nos espelhamos em muitas situações. Aquela velha propaganda que se popularizou no dito “nós somos vocês amanhã” tem ida e volta, vale de cá para lá e de lá para cá, em muitas situações.

Na política, tiveram eles um Domingo Perón (e parece que ainda têm); tivemos nós um Getúlio Vargas (e às vezes acho que ainda temos). Tiveram eles uma ditadura militar, talvez um pouco mais raivosa do que a nossa, mas foram ambas um desastre para os dois países. Não tivemos uma guerra das Malvinas, mas não precisamos de algo assim, para... deixa pra lá. Sigamos com mais um reducionismo (porque é mais ou menos disso que se trata): inflação. Lá como cá, o monstro tem causado estragos há décadas. A diferença é que tivemos um plano real e conseguimos fechar o monstro num quarto escuro (ele ainda nos espia pelo buraco da fechadura, mas não conseguiu até agora arrombar a porta), enquanto por lá a coisa ainda anda feia.

Bem, para não me estender demasiado em assuntos genéricos e cair no exagero do reducionismo que condenamos (e aqui praticamos um pouco ou sei lá quanto), vamos ao que me interessa no momento, em relação às semelhanças, mais do que as diferenças, entre Brasil e Argentina ou entre Argentina e Brasil (para dar um tom de neutralidade, que realmente é difícil tanto para um brasileiro quanto para um argentino, quando se trata do que estamos tratando): Bolsonaro e Milei.

Agora, sim: o espelhamento entre nós, brasileiros e argentinos, é quase perfeito. Inventamos um Bolsonaro, um cara estúpido, neonazifascista pentecostal ou falsamente pentecostal, racista, misógino, machista, inescrupuloso, isolacionista e ignorante, e o entronizamos na presidência do país, para quase nos levar a um desastre político econômico e social sem precedentes. Só não se cumpriu totalmente tal desígnio, porque não obteve o surpreendente indivíduo um segundo mandato. Acho – e muita gente pensa como eu – que não haveria outro pior no mundo. Mas... e aí vieram os argentinos para nos surpreender, ou seja, para nos dizerem que eles podem fazer sempre melhor do que nós (o tal complexo de superioridade deles), e inventaram o tal do Milei. Tudo quanto disse do Bolsonaro pode ser dito do Milei, com mais um detalhe que o distingue e até ultrapassa a estupidez do nosso ex-presidente: ela fala com seu cachorro e lhe pede conselhos! Detalhe: o cachorro já morreu há muitos anos!

Realmente, entre nós e eles, no quesito “vamos para o fim do mundo abraçados”, os argentinos estão, ao que parece, ganhando de goleada, já que conseguimos, por enquanto, nos desvencilhar desse abraço suicida. Por enquanto...

junho 25, 2024

DELENDA EST CAPITALISMO: OUTRO CAMINHO NÃO HÁ

 

 

Pyramid of capitalist system, 1911

Não preciso historiar o quanto o capitalismo tem sido perverso para a humanidade, principalmente a partir da chamada revolução industrial: muitos filósofos e historiadores já o fizeram. E com muita competência. Vamos tentar, então, olhar para o futuro: como começar a desmontar esse tecido inconsútil que cobre a consciência humana, chamado capitalismo e seus efeitos mais do que comprovadamente adversos?

Não se trata, aqui, de defender essa ou aquela ideologia. Trata-se de algo bastante óbvio, tão óbvio que os seres humanos não o enxergam: ou acabam com o capitalismo e seu filho dileto, o consumismo, ou não haverá futuro. Seremos dinossauros sem cometa. Responsáveis por nossa destruição graças a nossa estupidez, já que temos a condição de racionalidade suficiente para percebermos o perigo que ronda a nossa espécie. E não estamos usando essa racionalidade para nos salvar. Diz-se que o desaparecimento dos dinossauros foi relativamente rápido, em termos geológicos. A destruição dos seres humanos – e de grande parte da vida sobre a Terra – poderá ser um processo de lenta agonia e sofrimento. Talvez essa longa agonia até nos salve da extinção total, mas trará muita dor e nos levará, possivelmente, para o terreno da mais absoluta barbárie, cujas consequências serão imprevisíveis, diante do esgotamento de recursos do planeta.

Assim, usemos dessa nossa decantada racionalidade para percebermos que, enquanto o planeta caminha para um aquecimento absurdo, graças à poluição e à depredação dos ecossistemas, para ganho de poucos, governos como os dos Estados Unidos e da Europa (mas muitos outros também) apostam no conflito armado, despejando bilhões de dólares em guerras estúpidas, quando esses recursos poderiam estar sendo usados para tentarmos minorar os efeitos das mudanças climáticas.

E eu pergunto: de quem é a culpa?

A resposta é mais complexa do que a que posso oferecer neste breve artigo, mas uma parte da culpa cabe a nós, que não estamos sabendo escolher nossos líderes. Em pleno século XXI, as democracias ocidentais estão caindo, pouco a pouco, sob o domínio de indivíduos estupidificados por ideologias deletérias e negacionistas. Uma espécie de neonazifascismo autodestrutivo tem corroído as mentes e nos levado para caminhos perigosos de negação da ciência, de falta de visão de futuro e de adesão ao consumismo exacerbado que está esgotando as reservas mundiais e fortalecendo a expansão das grandes corporações, que são, em última análise, a materialização do capitalismo predatório.

As atuais lideranças mundiais não estão tendo a capacidade de enxergar um palmo à frente de seus narizes: defendem posições de confronto entre as nações e de total adesão aos predadores capitalistas; são incapazes de tentar um diálogo racional entre si, para pôr fim a guerras e buscar soluções para o planeta.

As guerras e o capitalismo são irmãos siameses: a guerra alimenta o capitalismo e o capitalismo alimenta a guerra. Enquanto não se encontrar um caminho para a paz, o risco de que o capitalismo nos destrua continuará como uma ameaça permanente contra a própria condição de sobrevivência de seres vivos no planeta.

Já que a destruição completa do capitalismo, que seria a solução mais adequada ao momento e à própria sobrevivência da humanidade, não tem sido nem mesmo cogitada, que comecemos, enquanto há tempo, a escolher lideranças que possam, pelo menos, agir racionalmente e tomar providências para a solução dos problemas climáticos. Medidas fortes de contenção da poluição provocada pelas grandes empresas devem começar com um pacto entre todos os governantes, ou, pelo menos, entre as grandes nações, para taxar fortemente os lucros absurdos dessas corporações e aplicar esse dinheiro na recomposição das florestas, na despoluição atmosférica, na proteção dos rios e dos mares e, principalmente, na diminuição das desigualdades, para que as nações subdesenvolvidas ou em desenvolvimento não sigam a mesma política de crescimento a qualquer custo que tem sido a tônica do chamado mundo desenvolvido na sua sanha de destruição do meio ambiente provocado pelo consumismo exagerado, que só favorece o fortalecimento do capitalismo selvagem, que deve ser destruído, para não retomar suas forças destrutivas e levar de novo a humanidade para os mesmos destinos até agora trilhados.

A única ideologia defensável é a que tenha por objetivo salvar os seres humanos, através da recomposição do equilíbrio do meio ambiente planetário. E essa ideologia vai desaguar, necessariamente, na compulsória destruição do capitalismo. Outro caminho não há.




junho 18, 2024

PORQUE GOSTO DE FUTEBOL...

 

(Artista: Alan Lopez)


Porque gosto de futebol, vou dar meu pitaco, sim. Não sou um expert, mas aprecio um bom jogo; já tive até mesmo um blog com comentários quase diários sobre futebol, num tempo em que via muitos jogos, lia colunas em jornais e ouvia os comentaristas de rádio e televisão e tinha tempo e disposição para analisar as partidas... Esse prazer se foi, como muitos outros, no ralo da pandemia e de outros perrengues. Mas, continuo gostando de futebol, mesmo com muitas coisas que acontecem de ruim atualmente em campo e fora dele.

Um assunto por vez: primeiro, as torcidas.

Sempre fui contra as chamadas “torcidas organizadas”: jovens e adultos bons cidadãos que, quando se reúnem, perdem todo o senso de civilidade, tornam-se violentos e até criminosos. Usam e abusam dos símbolos dos clubes, para cometerem atrocidades. E, atualmente, mesmo que não provenham sempre de “organizadas”, as manifestações racistas de torcedores pelo mundo afora, numa espécie de “febre de estupidez” contagiosa, me deixam absolutamente irritado e muito, muito triste, pelo espetáculo de barbárie e de lamentável auto exposição do mais profundo ridículo e da mais absoluta falta de humanidade e de excesso de estupidez.

Em segundo lugar, algumas considerações sobre o que acontece no jogo propriamente dito, protagonizado pelos atletas.

O conceito de “provocação”, invocado por muitos para brigas, agressões e espetáculos deprimentes. Está bem: concordo que deve haver fair play em todos os momentos de qualquer jogo, de qualquer evento esportivo. Porém, esse conceito tem sido levado a alguns extremos com os quais não concordo.

Por exemplo: na comemoração de um gol. Ora, o gol é a finalidade máxima de um jogo de futebol, comparável mesmo a um instante de gozo quase místico. Sua comemoração, por mais expansiva e alegre e cheia de gestos e firulas e dancinhas, só pode ser considerada “provocação” se for carregada de gestos ofensivos, de palavrões contra o adversário ou a torcida adversária. Mesmo que o jogador ou os jogadores façam essa comemoração próxima à torcida adversária, ou façam o famoso gesto de silêncio, isso não é provocação, principalmente quando no estádio, por ordens superiores, só estão presentes os torcedores do mandante do jogo, como vi recentemente uma briga e quase agressões porque aconteceu exatamente isto: o time “da casa” se sentiu ofendido porque o gol foi comemorado perto de “sua” torcida, sendo que não havia outra torcida no estádio e os jogadores que comemoram um gol, muitas vezes, saem de campo, para abraçar os companheiros que estão no banco de reservas ou porque isso é quase instintivo. Portanto, quem tomou o gol que se recolha e deixe o adversário comemorar à vontade, sem brigas, sem agressões, já que cada um terá sua vez, basta botar a bola no centro e jogar futebol. Isso, sim, é fair play. Só mais um detalhe: embora não ache muito correto o jogador tirar a camisa para comemorar um gol, devia haver uma punição menos severa que o cartão amarelo para esse fato. Às vezes, pinta até um vermelho, quando o jogador “esquece” que já estava “amarelado”. Torna-se uma punição despropositada por um gesto bobo.

Outro tipo de “provocação” que tem sido objeto de muitos empurrões e até de entradas violentas no adversário, são os dribles mais sofisticados ou algumas jogadas de efeito, como “embaixadinhas”. Felizmente, a famosa “caneta” (a bola malandra entre as pernas do adversário) não tem provocado muitas irritações, apenas o vexame, embora alguns que a levem fiquem irritados. Ora, o drible, a “finta”, mesmo repetida, mesmo com algum “abuso”, é a alegria não só do futebol, mas de todas as torcidas. É o que torna divertido um jogo, é o que “lava a alma” do torcedor. Ficar o adversário irritado porque tomou um drible vexatório e achar que isso é provocação tem tirado do futebol essa espécie de “catarse” que só é superada pelo gol: a “humilhação” do adversário, com um drible, uma jogada “fora da curva”, que o deixa sem ação, até mesmo sentado no campo. Eu escrevi “humilhação”? Não, o termo exato não é esse: não é humilhante levar um “baile” do adversário, deve fazer parte do repertório de todo atleta que tenha um mínimo de orgulho de sua profissão. Se levou um “olé” do jogador a quem está marcando, que isso sirva de aprendizado, que se aperfeiçoe ele também e, na próxima oportunidade, se possível, devolva o drible e ou o execute contra outro adversário. Pode até ficar “chateado”, mas irritado a ponto de querer agredir o colega de profissão, isso é inadmissível, e deveria ser cobrado em todas as escolinhas de futebol e ser repetido por todos os técnicos.

A nova “estratégia” dos treinadores é que as defesas saiam jogando, tocando a bola, para surpreender mais adiante o adversário. Daí, as cobranças curtas de tiro de meta. São jogadas repetidas em treino até à exaustão e, mesmo assim, às vezes não dão certo, porque o adversário pode fazer movimentos imprevisíveis. E a imprevisibilidade é, no futebol, uma de suas mais interessantes marcas e motivo de suspense e prazer para o espectador. Se deu errado, paciência, tenta-se outra vez, até dar certo. E que as torcidas não partam para a agressão de qualquer tipo contra os jogadores que erram: afinal, se todos jogarem de forma perfeita, o jogo vai ficar tedioso. O gol ocorre em muitas ocasiões por um erro do adversário. Também os goleiros, essa profissão maluca, não devem ser execrados por um erro idiota, como muitas vezes acontece, depois de haver feito várias defesas ditas “milagrosas”. Afinal, como disse, o erro faz parte do risco e, sem o risco, o futebol seria um tédio só.

Enfim, que se arrisquem, que driblem, que façam jogadas acrobáticas ou espetaculares ou diferentes, que isso é o que torna o jogo de futebol, essa “guerra” de contendores que não devem ter nunca o objetivo de ferir, de matar o adversário, mas apenas vencê-lo, com tática, com habilidade, com inteligência, com força mental e física, com a finalidade de despertar paixões que devem ficar no campo do jogo, apenas no campo de jogo. Quando o árbitro apita o final, os adversários devem voltar a ser cidadãos civilizados: tristes, se seu time perdeu; alegres, se seu time venceu. Mas, principalmente, tendo a consciência de que, se são adversários no campo ou na arquibancada, são colegas de trabalho, vizinhos de rua, amigos em vários outros momentos, e jamais, em nenhuma circunstância, inimigos.

junho 04, 2024

DELENDA EST CAPITALISMO: A QUESTÃO CLIMÁTICA

 




O capitalismo é o sistema perverso por natureza. Nada o fará ser melhor. Enquanto os meios de produção estiverem nas mãos de uns poucos, para a exploração dos muitos milhões de seres humanos que o sustentam, com a finalidade de produtividade e lucros crescentes, o capitalismo não pode deixar de ser taxado como o grande vilão dos problemas todos de pobreza e desigualdade que assola a humanidade. E, a partir da evolução dos meios de produção e da exploração dos recursos naturais, que cresceram exponencialmente a partir da revolução industrial, acrescentamos a todos os males que se atribuem ao capitalismo a destruição do meio ambiente, o esgotamento do planeta, a emissão absurda de gases poluentes, o aquecimento global, enfim.

O planeta Terra se constitui de um complexo (e muito além de nossa compreensão atual) equilíbrio entre forças de destruição e renovação, marcando sua história ao longo dos milhares de anos por aquecimentos e resfriamentos, com períodos de extinção parcial dos seres viventes e sua recuperação natural. Fazem parte da sua história os maus humores climáticos e os períodos – todos eles geologicamente muito longos – de equilíbrio e estabilidade.

Se imaginarmos a história do globo como uma régua de 100 centímetros, a humanidade ocupará apenas alguns poucos milímetros dessa régua. E, ao que sabemos dessa história, não passamos, os seres humanos, por eras extremas de desequilíbrio climático. Ou, talvez apenas períodos mais ou menos localizados de fenômenos como erupções vulcânicas, terremotos, enchentes etc. Nada que levasse à extinção do homo sapiens que, a partir de um determinado momento de sua evolução, começa a ter consciência da vida e da morte e, por conseguinte, consciência do ambiente que o rodeia para ou “prever” catástrofes, ou escapar delas, de alguma forma. E essa capacidade foi-se aperfeiçoando até nossos dias. Hoje, somos capazes de construir modelos que nos permitem captar as modificações planetárias com bastante precisão e nos prevenir de muitos dos eventos extremos que possam nos levar à extinção.

No entanto, a partir do momento – esse momento talvez seja a revolução industrial – quando o capitalismo se constituiu e evoluiu e se tornou o que é hoje, com toda a sua selvageria e toda a sua ganância, a capacidade humana de prever e prevenir danos ao meio ambiente foi cooptada por essa bocarra imensa e luciferina a nos impedir de aplicar esses modelos e mitigar os efeitos da poluição, da exploração predatória do recursos planetários, do desmatamento e principalmente da emissão de gases que provocam o efeito estufa e o aquecimento global.

Há anos já que os cientistas, os climatologistas, os estudiosos do ambiente e da evolução do crescimento a qualquer custo dos grandes países capitalistas e industrializados e a expansão para muitos rincões da Terra dos modelos de lucratividade desmedida têm alertado para as modificações climáticas que poderão ter efeitos catastróficos para a humanidade. No entanto, nada se fez. E agora que estão batendo à nossa porta os eventos extremos que provocam calor ou frio excessivos, chuvas muito além do normal seguidas de longos períodos de seca, trazendo sofrimentos e prejuízos, por enquanto pontuais, em diversas regiões do globo, os governos de todos os países precisam pensar seriamente em mitigar os efeitos do capitalismo perverso, através de medidas que diminuam de forma rápida e drástica o aquecimento global, que poderá tornar inviável em poucos séculos a vida do ser humano na Terra.

Não se trata de salvar o planeta, mas de salvar a humanidade e seu futuro. Porque, se desaparecemos da face da Terra, juntamente com outras milhares de espécies, o planeta continuará girando em torno do Sol e, dentro de milhares de anos ou séculos, estará de novo recuperado e pronto para novas formas de vida. Possivelmente, sem os seres humanos ou com uma outra humanidade completamente diferente.

Portanto, se temos que cobrar o custo de inundações, como as que destruíram o Rio Grande do Sul, devemos buscar os culpados bem acima de governos locais estúpidos e negacionistas, que não souberam se prevenir ou aprovaram leis e medidas que ajudaram a destruir o meio ambiente: devemos cobrar essa dívida ao capitalismo mundial predatório e tentar acabar com ele, definitivamente.

Como isso não é possível a curto ou até mesmo a médio prazo, então que se tomem medidas de mitigação de danos: que se limitem os ganhos das grandes empresas e decretem que se tornem o que sempre deveriam ter sido, ou seja, de finalidade social e não de lucros absurdos para seus acionistas; que se cobrem impostos pesados dessas empresas e das grandes fortunas, para o investimento em reflorestamento, em diminuição da poluição, da transição energética e da melhoria de condições de vida das populações mais sujeitas aos eventos extremos; que se obriguem as empresas poluidoras a diminuir drasticamente suas emissões sob pena de cessação imediata de suas atividades. E outras tantas medidas que possam sair da capacidade dos seres humanos – a única espécie responsável por seu próprio destino – de estabelecer modelos que nos tirem dessa enrascada, pagando o devido preço por isso, o que não será, absolutamente barato para a economia global.

Mas, que se dane a economia! A sobrevivência da espécie humana e de milhares de outras espécies vivas do planeta está acima de qualquer preocupação econômica. E o tempo ruge e urge!

maio 10, 2024

UMA BREVE CRÔNICA (VENENOSA) SOBRE OS GAÚCHOS

 




Que todos, absolutamente todos os brasileiros, foram, de alguma forma, atingidos pelas chuvas calamitosas que estão caindo sobre os gaúchos, não há dúvida, já que a mídia se condoeu e, com muita razão, tem dedicado tempo, muito tempo, na cobertura dos perrengues que por lá acontecem.

Que quase todos, sim, quase todos os brasileiros se condoeram e, de alguma forma, têm colaborado com donativos e todo tipo de ajuda para minorar esses perrengues de nossos compatriotas gaúchos, também não há dúvida nenhuma, já que caminhões, ônibus, aviões e muitos outros tipos de veículos para lá têm sido enviados.

Que quase todos os governos dos demais estados do Brasil se prontificaram a ajudar no resgate e salvação de pessoas e até de animais ilhados por todas as cidades do Rio Grande do Sul, isso também é insofismável, já que militares e bombeiros e outros insumos lá têm chegado, até de cidades as mais distantes.

Que o Governo Federal se prontificou a liberar recursos os mais diversos e de todas as fontes possíveis para tentar minorar a aflitiva situação de milhares e milhares de pessoas e cidades atingidas pelas enchentes, isso ninguém pode negar, já que até mesmo o Congresso Nacional se dedicou a aprovar a liberação extra de verbas e decretos para dar suporte jurídico e constitucional para a ajuda ao estado do Sul.

Tudo muito bem, eles precisam. Eles merecem. São nossos “irmãos” do Sul.

E por que coloquei a palavra “irmãos” entre parênteses?

Falemos, então, desses “irmãos”, os gaúchos, numa quase generalização, mas é claro que temos consciência de que toda generalização é falsa e leva a erros. Então, que o leitor dessas mal traçadas tenha todo o cuidado de perceber que, quando falamos dos gaúchos, estamos falando de uma parcela, embora seja uma parcela considerável, de todos os gaúchos. Dito isso, vamos lá.

Primeiro: ajudaram a eleger – e com uma quantidade de votos considerável – o pior presidente da história do Brasil. E mais: continuaram apoiando o imbecil, mesmo depois de seu trágico governo, depois de tudo o que ele não fez durante a pandemia e de tudo de ruim que ele fez durante a pandemia. Ou seja, nossos “irmãos” gaúchos são e continuam até hoje sendo bolsonaristas.

Segundo: são terrivelmente bairristas. Seus centros de tradição gaúcha (escrevo assim mesmo, com minúsculas) são um antro de manutenção das diferenças entre “eles” e nós. E mais, o que é profundamente grave: estimulam um separatismo absurdo, como se o Rio Grande do Sul fosse um outro país, com uma outra língua, completamente diferente do “resto” do Brasil.

Terceiro: nesse mesmo diapasão, há uma grande quantidade de células nazifascistas encalacradas no território gaúcho, com repercussão em toda a sociedade, pregando não só ideias de superioridade branca, mas também incentivando todo tipo de racismo e preconceito. Portanto, nossos “irmãos” gaúchos não são nada confiáveis, neste quesito.

Bem, paremos por aqui, enfatizando que estamos falando de uma parcela da população gaúcha, embora seja uma parcela significativa, com maior ou menor adesão a alguma das minhas preocupações apontadas acima. Mas, de qualquer modo, são mais ou menos assim os nossos irmãos gaúchos, e tiro, agora, as aspas, para me solidarizar com o seu sofrimento e desejar que superem todos os perrengues.

E desejo principalmente: que a água dessa enchente absurda, destruidora e lamentável lave, bem lavada e para sempre, da mente de todos os gaúchos o bolsonarismo, o bairrismo, o separatismo, o preconceito, o racismo, o nazifascismo, para que reconheçam que, embora tenhamos diferenças regionais enormes, o Brasil é um só País, um só povo.

E viva a diferença! Que é ela que faz a grandeza de uma nação.

maio 07, 2024

VOLTO AO TEMA: O GOLPE CONTRA DILMA

 


Volto ao tema e reitero: não houve impeachment, mas um golpe urdido de forma “constitucional”, com argumentos “legais”, ou melhor, falsamente legais, já que o motivo alegado – as tais “pedaladas fiscais” foram uma peça de ficção, devidamente arroladas em termos jurídicos por advogados espertalhões, contratados pelos golpistas da direita. Leia-se: na época, PSDB, com Aécio Neves à frente.

Mas, vamos lá. Muita gente argumenta que Lula não deveria ter escolhido a Dilma para sucedê-lo. Ora, por que não? Se ele indicou e o partido acolheu, não houve nenhum ato de arrogância ou de ilegalidade, ou mesmo, de desrespeito aos princípios partidários. Dilma havia se revelado uma excelente administradora durante todo o governo Lula, era uma pessoa de sua extrema confiança e de um currículo de vida pessoal e acadêmico acima de qualquer suspeita ou de qualquer reparo.

Concordo que Dilma não era uma política, não tinha “jogo de cintura” para enfrentar os lobos, mas seu primeiro mandato foi de extrema competência, superando todas as expectativas, inclusive do próprio Lula. Lula. Basta ver os índices econômicos do seu último ano (do primeiro mandato). Dilma era para ser uma espécie de “mandato-tampão”, ou seja, ela prepararia a volta do Lula. Porém, devido ao sucesso de seu governo, Lula teve a humildade de aceitar que ela disputasse um segundo mandato. Justo, muito justo, justíssimo.

Devido ao seu sucesso, a reeleição de Dilma se configurava como óbvia. Isso, é lógico, acendeu a sanha golpista da direita, porque perceberam que Dilma teria mais 4 anos e Lula teria, a seguir, mais 8 anos. Ou seja, o PT governaria o Brasil por 24 anos quase certamente. Isso era inconcebível para a direita golpista. Lembre-se de que a direita foi sempre golpista, desde os tempos de Getúlio. Estavam apenas arredios, nos últimos anos, devido ao descalabro dos governos militares, em todos os sentidos.

Então, as elites (recomendo a leitura do livro do Jessé – A tolice das elites brasileiras, no qual deixa claro que elas - as elites – sempre usaram de todos os meios possíveis para manter seus privilégios), repito, as elites precisavam achar algum meio de detonar o governo da Dilma. Começaram, já um ano antes das eleições, com os empresários da direita dispensando em massa os trabalhadores, pisando firmes no freio na economia. Isso, porém, não foi suficiente: a Dilma ganhou. Por pouco, mas ganhou. Então Aécio aventou a hipótese das urnas fraudadas. Era o mote de que precisavam. Que se alastrou como rastilho depois, através das igrejas pentecostais e do bolsonarismo. (Mas isso foi depois e é outra história, trágica história).

Voltemos à Dilma: ela realmente não tinha jogo de cintura, nunca foi política. Era uma administradora, uma governante. O Congresso eleito era hostil. Ela devia negociar com esse Congresso. Mas não era um Congresso apenas hostil, era um Congresso (e ainda é) que queria privilégios; o presidente da Câmara - você sabe quem era e nem vou dizer o nome do canalha - queria ser o primeiro-ministro, queria governar (como fez o Lira com o Bolsonaro mais tarde). Dilma, porém, tem uma ética pessoal profundamente arraigada, por todo o seu histórico de vida: não negociar com canalhas. Principalmente não negociar com canalhas golpistas da direita. As consequências você sabe: o impeachment que, na verdade, foi um golpe. O resto da história é o que nós sofremos depois: Itamar e Bolsonaro. Esse último catalizou, com sua estupidez paquidermicamente impermeável, o discurso da extrema direita e foi eleito, porque contou com a canalhice dos pastores pentecostais e com o velho e funcional discurso da corrupção do estado e da "santidade" do mercado (novamente recomendo que se leia Jessé Souza, acima citado).

A direita tentou o golpe (o PSDB e Aécio) e entregou a rapadura para a extrema-direita e, pior, eles não se arrependeram, pelo que consta, do que fizeram. Estão ainda por aí, com o rabo entre as pernas, mas ainda tentando suas canalhices. Até mesmo se aliando às ideias bolsonaristas, já que continuam demonizando o estado e exaltando o mercado, defendendo privatizações de bens essenciais, como a água (veja-se o projeto do Tarcísio de Freitas, o zé carioca governador de São Paulo, de privatizar a SABESP); ou deixando de investir em prevenção contra enchentes, como fez o governador do Rio Grande do Sul, que, no ano passado, não gastou um só tostão com essa medida, associando-se ao negacionismo bolsonarista de que não há aquecimento global. E o resultado está aí: o estado quase todo debaixo d’água e o senhor Eduardo Leite, de rabinho entre as pernas e pires, ou melhor, um prato fundo nas mãos, pedindo verba para a salvação das vítimas e reconstrução das cidades destruídas. (Tudo bem: mesmo se ele gastasse verba com prevenção, isso não evitaria o desastre, mas esse fato diz bem o tipo de políticos que estamos elegendo).

abril 18, 2024

DELENDA EST CAPITALISMO

 



Não há outra saída para a humanidade, a não ser destruir o capitalismo e jogá-lo para sempre na lixeira das maiores insanidades já criadas pelo ser humano. O capitalismo é indefensável. E somente uma imensa e terrível máquina de coerção e convencimento posta em movimento pelos capitalistas do mundo pode ainda manter obnubilada a mente das pessoas que o defendem, mesmo sendo suas principais vítimas.

Por que é preciso destruir o capitalismo?

Não é necessário consultar filósofos, sociólogos, historiadores, cientistas ou os maiores pensadores e luminares para se chegar a essa conclusão óbvia: delenda est capitalismo, é preciso destruir o capitalismo. Basta abrir os olhos e olhar ao redor. O que se pode ver?

Primeiro, a desigualdade, mãe da miséria, da fome, do desalento, responsável pelo sofrimento e morte de milhares ou milhões de seres humanos. Enquanto alguns poucos – porcentagem mínima da humanidade – gozam de todo o conforto e de todo o desperdício de recursos de que possam ser capazes, esses milhares e milhões não têm nem mesmo o que comer no seu dia a dia. Ou vivem no limite entre a miserabilidade e a escravidão a empregos e subempregos que não lhes fornecem o mínimo necessário para sobreviverem. Desempregados, outros tantos, morrem pelos guetos a que são condenados, silenciosamente, vítimas dessa absurda desigualdade. Poderia ficar aqui a relacionar centenas de ocasiões em que essa desigualdade leva ao desespero, à fome, à morte, mas não creio ser necessário: basta abrir os olhos, basta ouvir um noticiário de rádio ou televisão, basta ler um jornal ou uma revista, basta andar pelas ruas de qualquer cidade, basta caminhar um pouco por aí...

Segundo, a ganância, mãe da desigualdade e até mesmo da própria destruição ambiental. As grandes corporações multinacionais consomem não só as demais empresas e às vezes até a si mesmas, num processo autofágico, como consomem as reservas da Terra, esgotam os recursos naturais, poluem e propagam doença e morte, em nome de lucros cada dia mais exorbitantes, num ciclo vicioso e venenoso de destruição da vida e da própria Terra, cegos que são, porque acabarão por destruir a si mesmos, quando inviabilizarem a vida humana neste planeta de recursos finitos e de ambição capitalista infinita.

Terceiro, a guerra, a mãe de seios fartos e férteis que alimenta a fúria capitalista por destruição, através da indústria armamentista, através da conquista de melhores condições comerciais com o uso da força e da destruição de regiões e países inteiros que não se vergam a seus interesses. A guerra serve ao capitalismo como os escravos servem a seus donos: engordam-no e fortalecem-no, enquanto os escravos – os povos que guerreiam sob seus interesses – mínguam e morrem. Não há guerra que não sirva a qualquer interesse de alguma ou algumas corporações capitalistas.

Quarto, a ideologia. Por um sistema que envolve não apenas o domínio dos meios de comunicação, o domínio do sistema de ensino, o domínio de quase todos os governos, o capitalismo criou ao longo dos séculos de sua formação e imposição um sistema ideológico perverso, que inclui, além dos sistemas todos citados, o maior de todos os embustes criados por um ser humano para dominar a mente de outro ser humano: a religião. A crença deísta serve-se do capitalismo porque serve ao capitalismo como o colchão que ameniza todo o sofrimento, com a falsa promessa de dias melhores sob a graça de deus ou de deuses, mantendo as multidões sob controle, porque esse deus ou esses deuses prometem que, no seu reino, só entrarão os pobres e desvalidos, jamais os ricos e poderosos. E são os ricos e poderosos os donos de todos os reinos aqui mesmo na Terra, nem um pouco preocupados com a salvação de suas almas.

Tudo isso faz que a humanidade seja escrava do capitalismo, não consiga enxergar que sua defesa ou a simples aceitação de seu poder já são uma forma de escravização. Poucos são os indivíduos – uma porcentagem mínima da humanidade – que conseguem perceber que a desigualdade, a miséria, a pobreza, a fome, a morte, a guerra, o desalento de viver são o fruto amargo do capitalismo com que convivem no dia a dia, massacrados que são pela ideologia vigente, que alimenta as grandes corporações, que se alimentam de seu trabalho ou de sua miséria, de sua fome ou de salário magro, num círculo vicioso e venenoso que está provocando o aquecimento global, que está destruindo a humanidade, que está tirando dos seres humanos a possibilidade de sobrevivência neste planeta.

Quando vejo, leio, ouço alguns desses indivíduos, mais ou menos “bem de vida”, pertencentes a uma subelite metida a besta, a babar de inveja da elite dona de nossos destinos e até memo a defende-la como a que lhe dá condições de sobrevivência, eu tenho certeza de que não posso e não devo defender qualquer tipo de capitalismo, mesmo o capitalismo travestido de boas intenções chamado “socialismo cristão” ou coisa que o valha. E afirmo que a humanidade só sairá do buraco da fome, da desigualdade, da guerra, da escravidão quando o último milionário for enforcado nas tripas do último ignorante defensor do capitalismo. (A frase é plágio, eu sei. Mas é o que eu penso).

abril 01, 2024

REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DO BELO E O RACISMO

  

(Escultura de Leocares - séc. IV a.c.: Apolo Belvedere - foto de Pio Clementino)

(Escultura de Hans Bellmer: the doll, c.1936)


O belo é um conceito criado pela metafísica platônica, em que há entes absolutos para além da matéria. Portanto, se rejeitamos a metafísica, como causa de todas as estupidezes produzidas pela mente humana, como a ideia de eternidade da alma, devemos também rejeitar a busca de um conceito do que seja o belo, porque cairíamos na ideia absurda de que há um princípio original de todas as coisas, uma espécie de matriz transcendente que molda tudo quanto existe, num limbo imaterial e inacessível, a não ser através da palavra, da ideia, do pensamento, da imaginação, enfim.

Mas, a ideia do que seja belo, ou seja, a materialização do belo, ou do que se considera belo, tem origem, como quase todo o pensamento ocidental, nas concepções gregas baseadas na moral, na retidão, no que é bom (outro conceito metafísico), no retilíneo e harmônico, em termos matemáticos. Os templos gregos são o exemplo da ideia de perfeição (esta, mais um conceito metafísico), porque obedeciam a princípios arquitetônicos matemáticos, passíveis de serem medidos e suas medidas, relacionadas à geometria. Portanto, eram belos.

As estátuas gregas, representando deuses e heróis, seguem o mesmo padrão: linhas harmônicas, geometrizadas, passíveis de serem medidas e relacionadas à matemática, ou a fórmulas matemáticas. Portanto, eram belas.

Assim, o mundo grego que nos chegou através da arte, da literatura, do teatro etc. é todo ele moldado pela ideia da beleza absoluta, base do pensamento de seus filósofos, que buscavam a perfeição, ou tentavam traduzir em palavras e conceitos o ideal, o absoluto, o transcendente, enquanto seus artistas buscavam representar tudo isso em suas obras.

E foi esse modelo o que formatou a mentalidade ocidental e fixou na mente dos seres humanos deste lado do mundo a ideia de que o belo é passível de ser parametrizado, medido, entendido como oposto ao feio – um conceito metafísico oposto ao belo – determinado por nossos olhares e nossos paradigmas.

Assim, dizemos que é belo um dia de sol e é feio um dia de chuva; que é bela a rosa e é feio o espinho, misturando moral com beleza, estabelecendo novas categorias metafísicas absurdas, como o bem e o mal. Assim, dizemos que é belo o colear de um tigre e achamos feia a cara de um orangotango, sem nenhum critério que não seja a ideia de harmonização estabelecida e fixada em nossa mente pelos conceitos gregos de geometrização.

O barroquismo de uma floresta de cipós retorcidos, num dia de chuva, causa-nos arrepios de horror, porque ali não vemos a harmonia pré-concebida e também associamos essa liberdade de formas confusas como algo que pode conter o mal e, portanto, não é belo, mais uma vez misturando conceitos metafísicos em que o belo é bom (e o que é bom deve ser belo) e o que feio é mau (e o que é mau deve ser feio).

Esse olhar contaminado e formatado por uma metafísica da estética que nos diz o que é belo e o que é feio, baseada em padrões idealizados, permaneceu por meio milênio na mente do europeu cristão, que teve pouquíssimas oportunidades de contato civilizacional com outros povos, mesmo assim, quase que somente com povos orientais. O estranhamento entre os europeus e os orientais, por exemplo, tem raízes profundas não só na visão de corpos diferentes, mas também nas visões de mundo de origem cultural e, principalmente, religiosa. Não preciso, aqui, lembrar as guerras provocadas pelas cruzadas nem pela ocupação árabe da península ibérica. E esse estranhamento ocidente-oriente permanece até hoje.

Agora, imaginemos o estranhamento em relação aos povos das Américas recém-descobertas, no século XVI, e começamos a entender por que uma civilização – a europeia – destruiu ou tentou destruir outra civilização – a dos povos originários. E vamos ao exemplo máximo: o estranhamento do europeu em relação às etnias negras da África!

Vamos estacionar nosso pensamento por aqui, para fazermos um exercício de imaginação e de inversão de papéis. Imaginemos que a Grécia antiga, com todo o seu arcabouço filosófico, metafísico, artístico-literário etc. tivesse ocorrido não na Europa branca, mas no centro, bem no centro da África negra. Que Platão, Aristóteles e todos os demais filósofos, poetas, escultores, pintores, heróis e, principalmente, deuses (sim, deuses!) fossem pretos! Que a Vênus de Milo, por exemplo, tivesse nariz achatado, lábios grossos, cabelos encaracolados, bunda e peitos avantajados etc. Imaginou? Bem, não vou sugerir como seriam os trajos, os templos e tudo o mais. Deixo à imaginação de quem teve o beneplácito de chegar até aqui, na leitura dessas mal traçadas linhas.

Qual seria, hoje, o nosso ideal de beleza? O que seria belo, para nós, agora pensando não só genericamente, em elementos da natureza ou da capacidade humana de criação e de arte, mas em termos humanos?

Bem, não vou fazer comparações, nem levar o leitor a pensar em fulano ou fulana, em homens e mulheres que julgamos belos, porque cairíamos no tal racismo estrutural, se é que você me entende.

Quero terminar essa já longa reflexão, com esta ideia básica: nossos olhos acham feio tudo o que é diferente do que normalmente vemos, o que é uma grande, enorme, estupidez. Porque é essa a base de todo o nosso absurdo, pavoroso, ilógico e cruel – para todos – racismo estrutural. Infelizmente, isso é humano, demasiadamente humano e, como tal, fruto de uma mentalidade que, embora construída ao longo de muitos séculos, pode – e deve, sim – ser modificada, mesmo que isso leve tempo, muito tempo.

Mas, enquanto o tempo não se encarrega de mudar essa mentalidade, tenhamos, pelo menos e por enquanto, um pouquinho de lógica e de racionalidade: abramos nossos olhos e nossas mentes para todos os seres humanos e não procuremos neles o belo com o olhar preconceituoso, porque, na verdade são todos, sim, belos, belos sob outros padrões, outras perspectivas, outras visões de mundo e culturas. Procuremos no outro apenas o ser humano. Sempre. Que, temos certeza, o mundo será um pouco melhor.





março 22, 2024

CAPITALISMO E CONSUMISMO: OS IRMÃOS XIFÓPAGOS EXTERMINADORES DO FUTURO

 


O planeta Terra já passou por muitos perrengues, em sua longa trajetória de destruição, extermínio e renascimento, até chegar aos dias de hoje. Todos esses perrengues – aquecimento global, era do gelo, queda de um grande cometa, acomodações dos continentes, grandes cataclismos etc. – tiveram causas naturais. Todos foram superados. E o planeta azul continuou sua trajetória em torno do Sol, o único capaz de “matar” a Terra, quando – segundo os astrônomos – explodir daqui a alguns bilhões de anos.

Portanto, a Terra, esse nosso planeta, o lugar onde vivemos, e do qual não temos condições de escapar nem daqui a alguns milhares de anos, não está em perigo. As mudanças climáticas e os grandes cataclismos que, hoje, são causados por nós, seres humanos, não terão capacidade de destruir a Terra. Mas... terão capacidade, sim, de destruir seus causadores, ou seja, a humanidade.

Se somos os responsáveis por esses fenômenos capazes de nos destruir, somos também responsáveis por, pelo menos, tentar evitá-los e, assim, conseguirmos preservar nossa espécie que, se for extinta, não causará nenhum dano ao planeta. A Terra continuará girando em torno do Sol e, daqui a alguns milhares ou milhões de anos, será um “bebê” recém-nascido a gestar e formatar, quem sabe, outros seres que não a destruam.

Portanto, na qualidade de que mais nos orgulhamos, como seres vivos, está a capacidade de nos salvar: a racionalidade. Ou seja, se somos mesmo “animais racionais”, é o momento de provar para nós mesmos essa tão decantada diferença entre nós, os humanos, e os demais seres que aqui vivem. Será que passaremos por essa prova?

Bem, para que isso aconteça, precisamos, dentre os muitos problemas que temos de resolver, atacar os irmãos xifópagos exterminadores do nosso futuro: o capitalismo e o consumismo.

Como são xifópagos, estão tão irmãmente ligados, que é quase impossível falar deles isoladamente. Só o faremos, aqui, por uma questão de conveniência.

Primeiro, o capitalismo. Não sei e não quero saber sua origem. Apenas sei que, a partir da chamada revolução industrial, o mundo se tornou progressivamente mais capitalista. Os meios de produção foram sendo paulatinamente concentrados nas garras de uns poucos, para desespero de todos, sob os olhares complacentes dos governos de todos os países e dos povos que os elegeram. Criaram um monstro que, hoje, tem seus tentáculos, através das grandes corporações, estendidos a praticamente todos os cantos do planeta. Quase todos os setores produtivos estão sob a responsabilidade dessas corporações multinacionais que, tendo suas garras fincadas em muitos países, conseguem burlar todas as leis e conseguem crescer cada vez mais, sem nenhum controle. São elas as responsáveis pelo empobrecimento e pela fome em muitos países, à custa dos quais sobrevivem, concentrando a riqueza nas mãos de uns poucos, ou de umas poucas nações, signatárias e cúmplices dessa situação.

A ONU, Organização das Nações Unidas, que era uma esperança de governabilidade global quando criada, nos anos 40 do século passado, tornou-se um organismo tão inútil quanto um grêmio de bairro de uma grande cidade, dominada pelos países que se dizem os xerifes do mundo, os países capitalistas que defendem os interesses capitalistas, ou seja, das grandes corporações.

Se a ONU tivesse algum poder, através dela poder-se-ia estabelecer um primeiro grande pacto entre as nações, para o controle dos lucros absurdos das grandes corporações, como uma forma de se começar a diminuir seu poder destrutivo. Esse seria o primeiro passo para reestabelecermos condições econômicas e financeiras para despoluir a atmosfera, os rios e os mares; para deter o desmatamento e reflorestar as áreas devastadas; para impedir a deterioração do meio ambiente; para acabar com a fome no mundo; para começarmos a construir um futuro sem desigualdades sociais e, principalmente, sem o outro grande irmão xifópago do capitalismo, o consumismo.

O segundo grande pacto entre as nações seria para refrear o consumismo. A começar pelas nações mais ricas, que deveriam conscientizar suas populações, principalmente suas “classes médias”, de que se pode viver, primeiramente, sem desperdício e, em seguida, com menos consumo de bens inúteis ou extremamente poluidores, como o petróleo e seus derivados, principalmente o plástico. Há muito badulaque inútil ou desnecessário em nossas casas: que cada um olhe ao redor e comprove. O luxo é um acinte, quando milhões passam fome. Para que, por exemplo, um indivíduo precisa ter dois telefones celulares? E assim com centenas e centenas de “objetos de desejo” que compramos e, às vezes, nem utilizamos, mas o fazemos apenas por um consumismo embalado pela propaganda, pela mídia, por inveja do vizinho, por ostentação, para gáudio e sobrevivência do capitalismo predatório. O consumismo irá nos consumir, ou seja, será um dos fatores que levará ao esgotamento dos recursos finitos do planeta e, consequentemente, é a causa de tudo isso que vivemos hoje, nesse apenas começo de aquecimento global, com todas as suas catástrofes, provocado por nós, seres humanos ditos racionais.

Enfim, as sugestões apresentadas, eu sei, são radicais. Mas, se não tomarmos essas medidas ou outras tão radicais quanto – gestadas por pessoas mais capacitadas que eu e adotadas por todos os países – e com urgência, podemos ter certeza de que a humanidade corre sério risco de, com toda a sua racionalidade, passar à condição de dinossauros em futuro relativamente próximo.


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Como bônus a esse artigo, um poema que escrevi em 2017:

 

obsolescência

 

 gosto de coisas duráveis

a obsolescência dá sobrevivência

a esse capitalismo que nos sufoca

 

gosto das coisas utilizáveis

à margem do tempo e do gasto

 

a obsolescência é a ferrugem do capitalismo

ferrugem que nos corrói por dentro

enquanto faz girar a roda dentada

que nos esmaga e transforma em rio vermelho

nossas possíveis esperanças de dias melhores

 

gosto das coisas duráveis

dos objetos que mantêm o brilho e a funcionalidade

além muito além das necessidades dos engravatados

 

odeio a ferrugem fabricada e inserida

em tudo quanto compramos e utilizamos

para a feliz opressão dos senhores das máquinas

 

gosto sim das coisas duráveis

 

das coisas feitas como os ossos que nos sustentam

brancos e puros após anos e anos na terra escura

coisas duráveis como as palavras dos poetas

válidas palavras que nos consolam pela vida

não o lixo fabricado por robôs

com data marcada para voltar ao lixo

 

gosto das coisas que duram como a vida

gosto das coisas que duram como os versos

gosto das coisas que duram como as palavras


Este poema pode ser ouvido, na voz do autor, neste endereço de podcast:

https://open.spotify.com/episode/6daxftyaGg9N1m5HESue5L?si=oFuxUjdRQGmo6iTs1VuHrA


fevereiro 24, 2024

FASCISMOS E GENOCÍDIOS

 


 

(Foto de Mahmud Hams/AFP)



“O termo ‘genocídio’ não existia antes de 1944; ele foi criado como um conceito específico para designar crimes que têm como objetivo a eliminação da existência física de GRUPOS nacionais, étnicos, raciais, e/ou religiosos.[*]

“Se o que acontece na faixa de Gaza não é genocídio, eu não sei que é genocídio” (Presidente Lula, 23/2/2024: discurso)



Quando o grupo terrorista Hamas invadiu território de Israel e matou e sequestrou centenas de pessoas, o mundo todo condenou o ato como algo realmente inadmissível, de crueldade extrema. Mas foi um ato terrorista de um grupo terrorista, não foi a agressão de um povo contra outro povo, uma declaração de guerra. Ou seja, os palestinos não invadiram o território do Estado de Israel, principalmente pelo fato de que os palestinos não constituem um Estado e, portanto, não podem declarar guerra a Israel, assim como fez a Rússia ao invadir a Ucrânia. Um choque – terrível, condenável, absolutamente condenável – entre dois exércitos: uma situação clássica de guerra, em que um ataca e outro se defende.

O Estado de Israel tem um exército poderoso e um sistema de defesa extremamente competente. Além disso, conta com um serviço de informação ou de inteligência, com uma rede de agentes que se constitui numa das maiores do mundo.

Para lutar contra o terrorismo do Hamas, de uma forma definitiva, bastava pôr em campo esse serviço de inteligência, para identificar, prender e julgar não só os líderes terroristas, mas também inúmeros participantes, partidários e financiadores. E contariam, para isso, com a sempre e até mesmo subserviente ajuda dos Estados Unidos e de muitos outros países. O desbaratamento do Hamas ocorreria, mais cedo ou mais tarde, com dano mínimo de vidas. Seus esconderijos seriam descobertos e destruídos, suas fontes de financiamento seriam devidamente esgotadas.

No entanto, o governo de Israel, comandado pelo senhor Benjamin "Bibi" Netanyahu, um político de extrema direita e extrema violência, de tendência fascistoide, preferiu atacar a faixa de Gaza, onde vivem, ou viviam, dois milhões de palestinos, com o pretexto de que está se defendendo. Bem, se esse é o conceito de defesa – ou seja, atacar uma população civil, para matar terroristas – eu não sei mais o que é o direito de defesa. Estamos diante, não de uma guerra entre exércitos, mas de um ataque de extermínio de um grupo, os terroristas do Hamas, extermínio que se estende a milhares de civis, principalmente mulheres, crianças e idosos. E se essa matança sem limite, sem ética, sem fim não é extermínio, realmente o conceito de extermínio precisa ser urgentemente revisto.

E extermínio foi e sempre será uma prática fascista. Ocorra onde ocorrer.

Portanto, quando se diz que há um extermínio em Gaza, não se acusa o povo judeu, não se acusa nem mesmo o Estado de Israel, mas se acusa um governo, que tem cara e não tem coração, comandado, repito, por um homem que não está defendendo Israel, mas se vingando, e a vingança contra um povo indefeso é uma ato de extermínio, é genocídio. E o senhor Benjamin "Bibi" Netanyahu é, sim, um genocida que tem o beneplácito de boa parte da mídia mundial e o apoio subserviente e absurdo de muitos países, como os Estados Unidos e os países europeus.

Quero encerrar esse artigo com o registro de um pequeno, mas não menos criminoso, genocídio doméstico. Aquele promovido pela Polícia Militar do Estado de São Paulo contra os cidadãos da Baixada Santista, por ordem explícita do Secretário de Segurança e do governador de São Paulo, senhor Tarcísio de Freitas, do Partido Republicanos. Matar cidadãos, não importa se inocentes ou criminosos, como vingança pela morte de um policial militar é, sim, ato fascista de genocídio.





[*] Enciclopédia do holocausto: 

janeiro 23, 2024

SER ATEU

 


 


Ser ateu é afirmar, principalmente para si mesmo: deus não existe.


Nada mais. Nada menos.


O ateísmo não é uma filosofia. Não é uma crença. É apenas esta afirmação de liberdade: deus não existe.


Se, por acaso, você afirma: eu não creio na existência de deus, você não é ateu, você é agnóstico, porque você está fazendo um ato de fé, de crença, ou seja, você acredita que deus não existe, mas está aberto a que provem ou a que o convençam de que ele existe. Ou ainda: para você, pouco importa se deus existe ou não.


O ateu não tem que provar a inexistência de deus, porque não há lógica em provar que algo não existe. O ateu não tem que argumentar, com quem quer que seja, a sua afirmação de que deus não existe, nem tentar que outras pessoas compartilhem dessa sua liberdade, porque não há nada, absolutamente, nada além dessa afirmação. Ou você concorda... ou discorda.


O ateu não faz dessa sua afirmação – deus não existe – uma visão de mundo, uma weltanschauung, como dizem os alemães. Porque a inexistência de um deus não interfere na sua vida, na sua forma de encarar a vida. Ou seja, o fato de afirmar essa inexistência não o faz nem melhor nem pior do que os outros seres humanos.


O ateu não sente necessidade de fazer proselitismo de seu ateísmo, porque tem consciência de que o deísmo (ou teísmo), isto é, a crença em um deus ou em deuses é só isto: uma crença. E contra uma crença não há argumentos. O ato de crer é, em si, mesmo, algo tão profundamente ilógico e absurdo que não admite qualquer argumentação lógica: o crente crê, e ponto. Não há nada que o faça descrer. O crente só chega ao ateísmo por ele mesmo, por um esforço tremendo de ressignificação de paradigmas arraigados em sua mente, quando percebe, por ele mesmo, que não há nenhuma lógica na sua crença. E então ele se liberta.


Porque é isto, em conclusão, o ateísmo: uma forma de liberdade. Nada mais. E o ateu pode ser qualquer coisa ou ter qualquer outra filosofia de vida, ser bom ou ser mau, ser de direita ou de esquerda etc. etc. etc.


dezembro 27, 2023

SÃO PAULO, A METRÓPOLE DESGOVERNADA

 

(foto da internet, sem indicação de autoria)


Final de ano: 2024 bate às portas da cidade desgovernada.

Desgovernado, adjetivo, tem, segundo o dicionário, os seguintes significados: 1. que não tem governo ou está mal administrado; 2. descontrolado (diz-se de veículo, animal de montaria).

Para qualificar São Paulo, uso o significado número 1 literalmente, ou seja, uma cidade que, na minha opinião, sempre foi mal administrada (com raríssimas exceções que, aliás, para repetir um clichê, confirmam a regra). Porém, ressalto que o significado número 2 cabe perfeitamente, de forma metafórica, a essa cidade que parece sem rumo, descontrolada, o que significa “sem futuro”, ou sem um futuro que seja lógico e possível.

Tenho batido nesta tecla, sempre que posso: São Paulo não pode continuar crescendo. São Paulo precisa frear seu crescimento e começar a andar para trás, ou seja, precisa diminuir.

Numa metrópole com 12 milhões de habitantes, é humanamente impossível haver qualidade de vida.

Se levarmos em conta as condições geográficas, topográficas, climáticas, hidrográficas e outras mais, uma população de 7 a 8 milhões de pessoas seria o limite para se ter algum grau de civilização ou civilidade, de condições de vida razoavelmente confortável, de possibilidade de dar à população o mínimo necessário para viver e conviver, sem muito sufoco.

Pensemos nas condições geográficas da capital paulista. Vivemos num planalto, com vales e montanhas, com centenas de rios, sem mais locais com condições de expansão sem que as distâncias se tornem quase impossíveis de serem transpostas. (Entre os extemos da cidade – da Zona Sul para a Zona Leste – já são mais de 80 quilômetros!) A cidade está literalmente cercada de outros municípios, que se tornaram, muitas vezes, cidades-dormitório, e que fazem parte do que chamamos “a grande São Paulo”, cujo número de habitantes extrapola em muito os 12 milhões a que nos referimos.

Para onde, então, cresce a cidade?

A cidade cresce para cima! Verticaliza-se. Permitem-se prédios cada vez mais altos. Com mais gente dependurada em apartamentos cada vez menores, em todos os bairros. Eu disse: todos! Porque a sanha dos empresários da construção civil não tem limites e essa sanha é devidamente alimentada por leis cada ano mais permissivas, aprovadas pela Câmara de Vereadores, cuja maioria ou é estúpida ou está a soldo dessa canalha que destrói a cidade em nome de seus interesses imediatos.

Expliquemos: cada prédio construído modifica o microclima, impedindo a circulação do ar, exigindo mais ruas asfaltadas, eliminando a cobertura florestal, impermeabilizando o solo, mais garagens para automóveis, mais transporte público (que anda a passo de tartaruga), mais água, mais esgoto, mais energia elétrica. Multiplique isso por milhares e milhares de prédios que se erguem ano a ano, década a década, por toda a cidade, em todos os bairros e chega-se a uma conta que não fecha.

O planalto onde se situa a cidade de São Paulo é uma bacia hidrográfica com centenas de rios, riachos e ribeirões. Onde eles estavam, em sua maioria? Nos fundos de vales. O que existe hoje nos fundos de vales da cidade, como o Vale do Anhangabaú, a Avenida 23 de Maio etc. etc. et.? Avenidas asfaltadas, por onde literalmente se arrastam milhares e milhares de veículos (São Paulo tem mais 8 milhões de veículos registrados!).

Quando chove – e as chuvas torrenciais têm-se tornado comuns na cidade, por vários motivos, como veremos adiante – para onde vai a água, se os rios, riachos e ribeirões estão encanados, canalizados, espremidos debaixo das ruas e avenidas? A resposta é óbvia: cada vez mais aparecem pontos de alagamentos e inundações. Nem é preciso falar o prejuízo que isso traz para os moradores...

Dissemos que cada prédio construído muda o microclima da região e a somatória dessas mudanças traz para a cidade a mudança de seu clima, com maior aquecimento, maiores bolsões de calor, agravados, atualmente, pelas mudanças globais do clima, com as quais todos se preocupam. Então, a cidade se torna mais quente, com mais evaporação, e consequentemente chuvas mais intensas... O efeito disso todos sabem e já a ele me referi acima.

São Paulo é um desastre urbanístico.

Um desastre urbanístico que começou nos inícios do século passado e que tem se agravado paulatinamente, ano a ano, com a estupidez de administradores que não tiveram nenhuma preocupação que não fosse a abertura de novas avenidas, de mais ruas, de enterramento dos rios, riachos e ribeirões como solução para as enchentes (uma solução, repito, estúpida), que privilegiou, principalmente a partir da metade do século passado, o automóvel, com a construção de novas avenidas (de fundo de vale!) , viadutos e túneis.

Um desastre urbanístico configurado, principalmente, com a entrega literal da urbanização da cidade às construtoras, permitindo cada vez mais que elas destruam parques, jardins, áreas verdes enfim, para o famigerado adensamento populacional, sem que os cuidados com transporte, saneamento básico etc. acompanhem esse crescimento exponencial.

Qual a solução para esse desastre urbanístico, que se chama São Paulo, e que parece aumentar a cada dia, para desespero dos paulistanos?

Uma breve observação: uma pesquisa, que pouco se divulgou e de que pouco se fala, realizada há alguns anos, traz um dado fundamental para o que consideramos como possível solução para os problemas cruciais da cidade de São Paulo. Perguntadas a respeito, cerca de 30% das pessoas que moram aqui declararam que gostariam de deixar a cidade, de morar em outro lugar ou de voltar para suas cidades de origem. E mesmo muitos paulistanos, se tivessem oportunidade, sairiam da cidade onde nasceram.

Está aí, na minha modesta opinião, a solução para os males da grande metrópole.

Os governos municipal, estadual e federal deveriam unir-se num plano coordenado que facilitasse a saída dessas pessoas da cidade, voluntariamente, com o incentivo de emprego, moradia, melhores condições de vida etc. em cidades ou mesmo em regiões agrícolas tanto do interior paulista quanto de outras cidades do país que pudessem, quisessem e se comprometessem com esse plano e recebessem o necessário incentivo para acolhimento das famílias que aderissem.

É claro que não é um plano de fácil execução, mas não impossível nem utópico, desde que haja vontade política de todos os envolvidos. Há regiões e cidades do Brasil que receberiam de boa vontade uma mão de obra razoavelmente promissora e especializada, já que se poderia até mesmo incluir no planejamento, como atração aos aderentes, cursos de formação ou de reciclagem, até mesmo para os filhos adolescentes desses futuros emigrantes.

Não seria um êxodo repentino, mas executado ao longo de vários anos, de uma década ou mais, que daria melhores condições de vida a centenas de milhares de cidadãos descontentes com a cidade grande, além de tonar a metrópole pouco a pouco mais viável, mais confortável e mais aprazível para os que aqui permanecerem.

Para isso, basta que São Paulo volte a ser governada por um prefeito de visão humanística, de vontade política, de trânsito entre todos os demais poderes, que não veja como loucura um plano como esse e que compre, portanto, a ideia e busque formas para viabilizá-la, para que ela – a cidade – encontre, enfim, uma saída que não seja essa corrida desgovernada para o caos que, aliás, já está batendo à porta de todos.