maio 28, 2026

SÓ EXISTE UMA ORGANIZAÇÃO TERRORISTA NO BRASIL, HOJE. VOCÊ SABE QUAL É?

 

Invasão do Palácio do Congresso Nacional durante o 8 de Janeiro



Veja o que diz a Wikipédia:

Terrorismo é o uso de violência, física ou psicológica, por meio de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, pânico e, assim, obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas, incluindo o restante da população do território. É utilizado por uma grande gama de instituições como forma de alcançar seus objetivos, como organizações políticas, grupos separatistas e até por governos no poder.

Numa pesquisa com a IA, ela complementa:

Diferença entre Crime Organizado e Terrorismo

Organizações Criminosas (ex: facções): O principal motor é a obtenção de lucro financeiro e poder territorial, através de tráfego, extorsão e corrupção.

Organizações Terroristas: O principal motor é a ideologia. Buscam impor uma agenda política, religiosa, social ou separatista gerando pânico público.

Observe-se ainda que não há consenso mundial sobre definição de terrorismo ou do que sejam exatamente “organizações terroristas”, porque há algumas nuances adotadas aqui e ali, que complicam um pouco a conceituação exata. Mas, as definições acima têm o respaldo da maioria dos estudiosos.

Entende-se, no entanto, que há uma diferença gritante entre organizações terroristas e facções criminosas. Só uma mente perturbada ou um raciocínio cheio de intensões não confessáveis, como os do presidente atual dos Estados Unidos, para misturar as coisas e considerar facções criminosas como os famigerados PCC (siga para “primeiro comando da capital”, no caso, São Paulo) e CV (sigla para “comando vermelho”, de origem carioca) como organizações terroristas.

Sim, ambas “tocam o terror” em várias comunidades onde atuam, mas isso é só uma forma de dizer o quanto são perigosas. Aliás, essas facções criminosas estão estendendo seus tentáculos para muitos outros ramos da sociedade. Diante dos ganhos que auferem com a exploração das comunidades e com o tráfico de drogas, armas etc., a necessidade de “lavar o dinheiro” fez que elas se apropriassem ou se aproximassem de várias instituições financeiras. A necessidade de proteção fez que essas facções corrompessem polícias e políticos. Mas o intuito é sempre o de ganhar mais e mais dinheiro, sempre o dinheiro, nunca o poder. A elas não interessa o poder direto, preferem agir na sombra, através da corrupção, sem que seus líderes precisem aparecer.

A forma de combate a essas facções tem sido a de identificar e prender seus líderes, apreender drogas e interromper o fluxo do tráfico e rastrear o dinheiro para impedir que entre no sistema financeiro e na cadeia de aquisição de bens como dinheiro limpo. Também é importante que os países façam convênios de cooperação para combate ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro, já que são organizações internacionais.

Quanto a organizações terroristas, podemos dizer com absoluta certeza que ocorreram somente durante a ditadura militar, que considerou os opositores ao regime como terroristas, o que obrigou a que muitos entrassem na clandestinidade, para escapar da perseguição militar. No entanto, suas ações consideradas “terroristas” ficaram no âmbito de sequestro de autoridades, para libertar presos políticos, e assaltos a bancos, para financiar sua existência. Outras ações, como explosões de bancas de jornais e tentativas de bombas em eventos públicos (caso do Riocentro) foram ações terroristas, sim, mas hoje sabemos que foram provocadas pelo próprio governo, com o intuito de atemorizar a população e justificar as prisões, torturas e mortes de opositores ao regime.

Na história recente, sim, tivemos uma ação terrorista de grande repercussão nacional e internacional, filmada e documentada por todos os meios de comunicação: o famoso 8 de janeiro de 2023, em Brasília, quando grupos articulados e comandados por um determinado partido político depredaram o Palácio do Governo, as sedes dos poderes Legislativo e Judiciário, numa tentativa de provocar comoção que levasse a um golpe de estado.

E qual foi o partido que comandou, articulou, incentivou e financiou essa ação terrorista? O PL, Partido Liberal, a que pertencem todos os membros da famigerada família dos “bolsonaros”. Os dirigentes do PL não foram condenados pelos atos criminosos, mas vários integrantes do governo anterior, do senhor Jair Bolsonaro, foram julgados e condenados por atos terroristas e tentativa de golpe de estado. Todos sabem quem são e o que fizeram, de acordo com o Supremo Tribunal Federal, cujos juízes têm por dever e obrigação proteger a Constituição e o Estado desse tipo de terrorismo.

Portanto, é totalmente absurdo que o senador Flávio Bolsonaro tenha ido aos Estados Unidos pedir ao presidente Donald Trump que considere as facções criminosas, como o PCC e o CV, como organizações terroristas.

A única organização terrorista que existe no Brasil hoje é o seu partido, o Partido Liberal e os partidos que o apoiam. Foram eles que cometeram ATOS TERRORISTAS, isto é, apoiaram, incentivaram e financiaram a tentativa de GOLPE DE ESTADO por meio da força, com planos de assassinato de autoridades públicas, justificado – o golpe – por motivos ideológicos, o que caracteriza claramente que constituem, repito, esses partidos uma ORGANIZAÇÃO TERRORISTA.



maio 22, 2026

“QUARTO DE DESPEJO” E A EXTREMA DIREITA

 

Carolina Maria de Jesus em 1958 na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, 
onde viveu até lançar 'Quarto de Despejo'

Ao encerrar meu comentário sobre o livro de Carolina Maria de Jesus, “Quarto de despejo” (no blog Trapiche da Leitura), afirmo “que se deve ler [esse livro] com o mesmo espanto de há mais de 70 anos, por ter o Brasil progredido tanto e não ter ainda resolvido a questão da desigualdade social.” E mais: algumas linhas antes, quando a autora critica o governo Juscelino Kubitschek, dou-lhe razão, porque “Juscelino priorizou o desenvolvimentismo e esqueceu o lado social”. Gostaria de retomar essas duas frases e aprofundar um pouco o meu ponto de vista.

Considero Juscelino um dos maiores presidentes que já tivemos. Tirou o país do marasmo e da estagnação e preparou-o para os desafios do crescimento e de um desenvolvimento sustentável. Sim, essa foi sua prioridade. O lado social ficou em segundo plano (e acho que estou até sendo pouco crítico). No entanto, vivíamos uma democracia plena e saudável. Já no seu governo, havia um homem de grande talento e de grande visão social: Celso Furtado. Criou, a pedido de Juscelino, a SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Tenho para mim que esse órgão seria uma espécie de projeto-piloto para um possível segundo mandato de Juscelino, após Jânio, quando a prioridade do presidente seria o social, ou seja, cumpriria a segunda etapa de um projeto de Brasil que pudesse equilibrar a balança do desenvolvimento com etapas de combate à pobreza e à desigualdade. Infelizmente, todos sabemos o que aconteceu: Jânio foi aquele fiasco; Jango foi deposto e... a direita raivosa tomou o poder em 1964.

Isso sempre acontece no Brasil: quando o país começa a dar sinais de desenvolvimento econômico, político e social, com governos voltados para o social, a direita canalha vem e... como na música “Roda Viva”, de Chico Buarque, leva nossa esperança para o brejo da corrupção, da estagnação, do desmonte de todas as políticas sociais. Não vou, aqui, dar exemplos, porque qualquer um que acompanhe a história do Brasil, dos primórdios da República até nossos dias, pode contar e recontar todas as vezes em que isso aconteceu.

Então, quando digo que ainda não conseguimos superar a desigualdade até hoje, é porque exatamente esse desmonte acabou de acontecer: os governos Lula e Dilma haviam lançado as bases do desenvolvimento social e o país caminhava para um futuro de menos pobreza, com um olhar menos preconceituoso contra os mais pobres, buscando, não só com programas assistenciais (“a fome não espera” – como disse Lula), mas também com projetos de desenvolvimento que visassem a dar a todos um emprego decente, uma vida digna, com a devida justiça de diminuir o abismo entre as classes sociais, com a famigerada e nunca conseguida (por causa da direita) distribuição de renda, reformas de base (aquelas mesmas do Jango), como a reforma agrária etc. No entanto, o que aconteceu depois do golpe contra a presidenta Dilma: Temer e Bolsonaro, representantes da direita hidrófoba, acionaram a roda viva do desmonte, para, em seis anos de desgoverno, jogar o país de volta à pobreza e à desigualdade.

Lula, ao reassumir o governo, depois de derrotar a direita, tenta consertar os estragos e retomar seu projeto de desenvolvimento sustentável e de combate às desigualdades sociais, mas tem encontrado a roda vida da extrema direita muito bem azeitada no Congresso, a fazer de tudo para atrapalhar seu governo e impedir que o país retome a defesa dos mais necessitados. E, se essa roda vida da extrema direita se tornar vitoriosa nas próximas eleições (no final deste ano), podemos esperar mais quatro anos de trevas e de retrocesso.

E a mesma situação de “quarto de despejo” vivida por Carolina Maria de Jesus na década de 1950, na favela onde morava em São Paulo, vai continuar sendo a pedra no sapato de todos os brasileiros que ainda sofrem aquilo que hoje chamam, “elegantemente”, de “insegurança alimentar”, mas que é, na verdade a velha e surrada FOME, de que tanto se queixa nossa escritora que catava papel na rua, para sobreviver.

Termino esse breve comentário sobre assunto tão complexo, com um apelo: temos que deter a roda viva do retrocesso! A cunha para que essa roda deixe de girar é o voto. Enquanto o chamado “pobre de direita” continuar sendo iludido por falsas pregações (sim, estou me referindo às igrejas pentecostais, esse câncer que tomou de assalto a sociedade brasileira) e falsas promessas de políticos mal intencionados, não teremos como derrotar, ainda que parcialmente, esse capitalismo selvagem do neoliberalismo de extrema direita e deter a roda viva que mói a capacidade de o Brasil superar as desigualdades sociais que ainda o assolam.

abril 21, 2026

UMA REFLEXÃO SOBRE O MUNDO E A VIDA (EM FORMA DE DESABAFO)




Ficar velho implica enxergar o mundo e a vida com outros olhos, ao par das pequenas disfunções corporais que a velhice nos traz. Se os olhos já não veem e leem com a mesma qualidade de quando éramos mais novos, eles, no entanto, nos abrem novas perspectivas de compreensão ou incompreensão do que ocorre ao nosso redor. Se nossos passos passam a ser mais lentos, por causa do medo de uma queda, que pode ser catastrófica, ou pela fraqueza dos músculos, por outro lado eles nos conduzem ao paradoxo da passagem rápida do tempo no passado em oposição à nossa situação do momento, enquanto percebemos a rapidez com que tudo se torna obsoleto nesse mundo de velocidades quase incompreensíveis. Olhamos para nossos semelhantes e não mais nos reconhecemos neles. Os velhos de hoje eram, no passado, absorvidos por coisas tão diferentes, como um bom livro, um filme de Godard, uma exposição de arte moderna que discutíamos se era ou não arte aquilo que víamos, uma viagem a 80 km por hora numa estrada de duas mãos, a visita de pessoas amigas ou a visita a pessoas amigas, o discurso de políticos que nos pareciam lógicos, mesmo que não concordássemos com sua ideologia, o aplauso a uma canção de protesto num festival de música, o jogo de futebol nas tardes de domingo, o papo descompromissado no bar da esquina acompanhado de uma cerveja quente, enfim, como dizia Drummond (que, aliás, líamos tanto quanto outros poetas), no poema “Cidadezinha qualquer” (in “Alguma poesia”): “Um homem vai devagar. / Um cachorro vai devagar. / Um burro vai devagar. / Devagar… as janelas olham. / Eta vida besta, meu Deus”. Mas posso discordar agora do poeta: a vida não era besta, não. Vivíamos, sem tanta pressa, mas vivíamos. Hoje, quando olhamos a rua, vemos: gente apressada, tropeçando uns nos outros, a olhar fixamente no celular, a falar ao celular. O tempo não mais voa “nas asas da Panair”, como cantava Milton Nascimento, mas nos bites e bytes das telas que seduzem e comem os cérebros, as mentes, as crenças, as ideologias, ao devolver para cada olho atento do pretenso ser humano siderado pelas imagens e pela luz da telinha o que ele deve pensar, como deve agir, o que vestir, o que comprar, em quem votar... E então, pensamos em liberdade. Bem, nunca o ser humano foi realmente livre: sempre estivemos presos à genética, ao meio, às ideologias que nos impingem, às pretensas escolhas que fazemos, aos grupos de amigos ou pessoas de mesma ideologia que frequentamos, à mentalidade de uma época etc.. Mas, hoje, a liberdade tem um preço muito maior: ou nos escravizamos ou somos engolidos pela violência, ou a violência física de milícias e máfias e organizações criminosas ou essa escravização provém da força de persuasão dos meios eletrônicos e dos meios de comunicação de massa que estão nas mãos de poucos, de muito poucos. E esses poucos, com seu poderio econômico e midiático, conduzem os povos para os caminhos que eles escolhem, a partir de seus gabinetes ultra equipados, de onde comandam máquinas poderosas que estendem seus tentáculos falsamente invisíveis a todos os rincões da terra. Ninguém está a salvo.

Quando terminou a segunda guerra mundial, o mundo respirou aliviado: a matança e a barbárie tinham sido tão exemplares, que a humanidade caminharia agora para a paz global, o entendimento entre os povos etc. Ledo engano: logo as “nações unidas” se desuniram numa “guerra fria” de interesses e ódios ideológicos sem sentido, armando-se até os dentes, agora com armas nucleares capazes de destruir várias vezes o planeta, como se não bastasse uma só. Mas o “frio” logo esquentou em inúmeros conflitos, que mataram milhões de pessoas ao longo dos últimos anos. Listemos os principais, para atiçar a memória dos mais esquecidos:

· Guerra Fria (1947–1991): Disputa ideológica, econômica e militar entre Estados Unidos (capitalismo) e União Soviética (socialismo), que moldou a geopolítica global.

· Guerra da Coreia (1950–1953): Primeiro grande conflito armado da Guerra Fria, dividindo a península em Norte (apoiado por China/URSS) e Sul (apoiado pelos EUA).

2. Guerra do Vietnã (1955–1975): Conflito longo onde o Norte comunista enfrentou o Sul apoiado pelos EUA, resultando em grande impacto social e derrota americana.

3. Crise dos Mísseis em Cuba (1962): O ponto mais tenso da Guerra Fria, quase resultando em um conflito nuclear entre EUA e URSS.

4. Conflitos Árabe-Israelenses: Iniciados com a criação do Estado de Israel em 1948, gerando diversas guerras (1948, 1956, 1967, 1973) e tensões contínuas, incluindo a Faixa de Gaza.

· Processos de Descolonização: Guerras de libertação na África e Ásia, como a Guerra da Argélia (contra a França) e lutas em Angola e Moçambique (contra Portugal), marcando o fim dos impérios coloniais.

· Rússia-Ucrânia (2022-Presente): Um dos maiores conflitos recentes, com impactos significativos na segurança europeia e global.

· Estados Unidos e Israel contra o Irã, por motivos ideológicos (2026 - momento presente): o Irã governado por aiatolás que consideram os Estados Unidos o “grande satã” e pregam a destruição de Israel. Consequências: elevação do preço do petróleo, com prejuízos para todas as nações.

Então, eu penso nas religiões, principalmente as de origem judaica: pregam que deus criou o homem (o ser humano) à sua imagem e semelhança. Olho para a história recente de guerras, de ideologias neofascistas que ressurgem, de ódios contra o diferente, o que implica odiar o estrangeiro, o negro, o índio, o homossexual, o pobre, o que não pensa ou age como nós, enfim, um mundo mergulhado no extremismo de líderes estúpidos ou estupidificados, como Trump, Netanyahu, Putin, Zelenski etc., líderes que tomam medidas bizarras e egoicas, mensageiros da guerra, da destruição, da desigualdade. E concluo: que dedo podre aquele do deus bíblico! E não vejo nenhuma luz em nenhuma religião que grassa hoje pelo mundo: todas elas falharam em suas mensagens de exclusão. As religiões pregam “amor”, “tolerância”, mas sempre, cada uma delas só vê o outro como aquele que vai para o inferno ou não é digno de conviver com os “puros”, com os “eleitos”, com o “o povo de deus”, ou seja, o seu deus, enfim.

Quando defendo a destruição do capitalismo (“delenda est capitalismo” é o título sob o qual solto minhas diatribes), nos meus artigos mais radicais, sei que a humanidade não se livrará dessa praga em muitos e muitos séculos e, quando o fizer, não sabemos o que colocará no lugar, talvez até mesmo algo pior. A sanha capitalista está arraigada na mentalidade dos donos de nossas vidas e, enquanto houver seres humanos que se arvorem em donos, em patrões, em superiores, o capitalismo continuará como um verme a corroer as carnes e a escravizar as mentes. Então, nos meus textos mais realistas, como este, apesar de parecer pessimista, defendo medidas que possam mitigar os efeitos desastrosos do capitalismo, medidas que governos corajosos poderiam tomar para limitar o poderio das grandes corporações, das imensas corporações tentaculares. Uma empresa que tenha cem mil ou mais de funcionários torna-se um monstro incontrolável de poder, de ganho, de capacidade de escravização: limite-se o número de funcionários por empresa. Limite-se o ganho de cada empresa. Não se permita que se expandam infinitamente. Distribuam-se os lucros, não somente entre os proprietários e os sócios, mas também entre os funcionários e a sociedade, através de tributações sobre os ganhos reais. Controlem-se os insumos: que não sejam explorados de forma aleatória e até à exaustão. Impeçam-nas de poluir o ambiente, de destruir florestas, de sujar as águas. O “mercado” vai estrilar? Ótimo! Que se exploda o mercado, para não dizer um palavrão. Que se coloque a vida das pessoas acima dos lucros, acima do tal mercado, acima da sanha de destruição e morte das grandes corporações, que não deverão nem ser mais tão grandes nem tão poderosas. Isso é factível? Sim, se começarmos a escolher governantes corajosos, que tenham realmente interesse em defender suas populações, que não sejam meros títeres da direita capitalista e escravagista. Um concerto entre nações, para que leis como as sugeridas acima sejam adotadas, pode, sim, mitigar, e muito, as consequências desastrosas desse capitalismo predador.

E mais: que eles, os capitalistas, paguem com impostos os danos que eles causaram ao meio ambiente, nesses anos todos (desde a revolução industrial) de exploração predatória dos recursos do planeta, provocando poluição e destruição ambiental. A conta é alta, mas se eles – esses malditos capitalistas – obtiveram e obtêm ganhos absurdos à custa da destruição do planeta, que não sejam só os governos – que também têm sua quota de participação, principalmente por omissão – a pagar a conta da reconstrução ambiental. E não estamos falando da salvação do planeta: estamos falando da salvação da humanidade. O planeta, se a humanidade desaparecer, vai se reconstruir por si mesmo, ainda que depois de alguns séculos ou milênios, o que, em termos planetários, é muito pouco tempo. Mas a humanidade, uma vez extinta, não terá outra oportunidade. E lembrem-se todos: não há fuga possível deste planeta, se a vida aqui se tornaar inviável. Esqueçam naves interplanetárias. Esqueçam colonizações extraterrestres. Isso tudo é balela, é conversa mole para enganar trouxas: se houver oportunidade de alguém fugir deste planeta, isso se resumirá a muito poucos indivíduos, já que jamais teremos a possibilidade de construir naves que possam levar milhões ou mesmo milhares de pessoas. E levar para onde? Para planetas inóspitos, sem atmosfera, sem água, sem possibilidade de sobrevivência? Então, não está em jogo o destino do planeta e sim o destino do ser humano neste planeta único num espaço onde as distâncias entre sóis e sistemas planetários se contam em anos-luz, ou seja, em distâncias inviáveis de serem percorridas com a tecnologia atual e mesmo com a tecnologia de um milênio à frente, quando, possivelmente, já será tarde demais.

Sim, o planeta corre risco. Risco de se livrar de nós, os humanos. E só nós, se formos realmente o que pensamos que somos, ou seja, homines sapientes, só nós podemos nos salvar. Há muito a ser feito, a ser construído e reconstruído, mas é preciso que deixemos de ser os idiotas que somos para que possamos salvar o planeta em que moramos, para nos salvarmos.

Não há pessimismo em tudo isso que escrevi, e sim um grito de alerta para todos os humanos:

THERE IS STILL TIME, BROTHERS! - AINDA HÁ TEMPO, IRMÃOS! - AÚN HAY TIEMPO, HERMANOS! - IL EST ENCORE TEMPS, FRÈRES! - ES IST NOCH ZEIT, BRÜDER! - ! ا يزال هناك وقت يا إخوة ! עדיין יש זמן, אחים - C'È ANCORA TEMPO, FRATELLI ! - まだ時間はあるぞ、兄弟たちよ- 兄弟们,时间还来得及。- ЕЩЁ ЕСТЬ ВРЕМЯ, БРАТЬЯ.

março 14, 2026

POR QUE NÃO VOU LAMENTAR A MORTE (AINDA NÃO OCORRIDA) DO JAIR

 


Havia prometido a mim mesmo não voltar a escrever sobre o ex-presidente e presidiário Jair Bolsonaro. Era melhor esquecê-lo e deixá-lo ir definitivamente para o lixo da história. Mas, diante da possibilidade de sua morte, já que está internado com broncopneumonia e suas funções renais pioraram, ocorreu-me fazer seu necrológio antecipado.

Fica, porém, uma ressalva: não desejo que ele morra logo, gostaria de vê-lo entubado e sofrendo, sofrendo muito, por falta de ar, como uma vez ele imitou, de forma caricata, quem estava sofrendo por causa das complicações da covid. E não me venham dizer que sou mau, que não devia desejar o sofrimento alheio. Respondo: pessoas como o seu Jair não merecem nenhum sentimento de comiseração, pois não há desculpa para os males que ele ocasionou ao País, em seus quatro anos de mandato. Ele não vai “morrer na cadeia”, como apregoaram os filhos que não saíram de uma de suas “fraquejadas”, mas sim num hospital, cercado de médicos e tendo a melhor medicina possível, coisa que ele negou aos brasileiros, ao sucatear o Ministério da Saúde, escolhendo os piores indivíduos possíveis para o cargo, inclusive um militar que, se cair de quatro, passará o resto da vida pastando. Vamos, pois, aos “melhores momentos”, para refrescar a memória dos esquecidos:


1. Isolou o País no concerto das nações, ao desenvolver uma política externa que levava a que nenhum chefe de estado o recebesse ou sequer falasse com ele (só o Trump o recebeu com pompa e circunstância, porque é da mesma laia que ele);

2. Jogou o país de novo no “mapa da fome”, com suas políticas anti-sociais;

3. Sucateou a saúde, principalmente o SUS:

4. Sucateou o ensino público federal: as universidades e as escolas técnicas;

5. Sucateou a ciência, diminuindo as verbas da pesquisa científica;

6. Sucateou a cultura, eliminando, inclusive, o ministério da cultura, por considerá-lo inútil, paralisando a indústria cinematográfica e demais setores culturais que dependiam de políticas públicas;

7. Não comprou vacinas no momento necessário, durante a pandemia de covid, sendo responsável por uma grande parte das 700.000 mortes ocorridas o país;

8. Defendeu o uso da cloroquina, droga comprovadamente inócua para pacientes afetados pelo vírus da covid;

9. Foi responsável pela divulgação de que as vacinas não funcionam, levando a inúmeros seguidores a não vacinar os seus filhos, o que é crime contra a população;

10. Não comprou nem distribuiu galões de oxigênio para inúmeros hospitais no momento de crise da pandemia;

11. Transformou a Polícia Federal de polícia de Estado em polícia de governo, tornando-a instrumento de suas políticas discricionárias;

12. Durante as eleições presidenciais, que ele perdeu, orientou a Polícia Federal a interceptar os ônibus que conduziam eleitores, nas regiões onde ele era claramente minoritário;

13. Foi responsável, em parte, pelo crescimento das igrejolas evangélicas caça-níqueis, divulgadoras de suas ideias estúpidas, através de falsos pastores que viram no seu governo a oportunidade de crescerem e adquirirem ganhos políticos, o que levou à eleição do atual pior Congresso da história, com uma grande parte de deputados e senadores estupidificados pela ideologia da extrema direita, com todos os malefícios que essa ideologia já trouxe ao desenvolvimento do Brasil;

14. Incentivou seus correligionários a acamparem na frente de quartéis, o que acabou levando a que esses indivíduos, iludidos por uma promessa de golpe de estado, atacassem os prédios do Congresso, do STF e o Palácio do Governo, no famigerado 8 de janeiro;

15. Tentou golpe de estado, tramando o assassinato do presidente eleito e seu vice e de um dos ministros do STF.

Creio que essa lista é suficiente, pois claramente são crimes contra o País, crimes contra a população e crimes contra a Constituição. Sua “obra” de demolição do Estado e a consequente instauração de um novo tipo de autoritarismo neonazifascita tem muitos outros exemplos, em atos e palavras com que ele contaminou a mente de muitos brasileiros, iludidos pelo canto de sereia de um falso moralismo pentecostal e “cristão”, que escondia interesses vis e mesquinhos da extrema direita golpista e atrasada que, no governo, joga o país no atraso, na desigualdade social, impondo uma mentalidade de subserviência a interesses mais do que escusos dos Estados Unidos da América.

Se o governo Juscelino Kubitschek se arvorou em fazer o Brasil progredir 50 anos em 5, mais um mandato de seu Jair e o povo brasileiro iria conhecer um momento histórico que nós não tivemos, a Idade Média.

Se a “obra” do seu governo tem as cores de um possível inferno, não podemos nos esquecer de suas “qualidades” pessoais: como deputado por 28 anos, não teve um só projeto de lei aprovado; e mais: era ou é (ainda não morreu) fascistoide (embora não saiba exatamente o que seja o fascismo), iletrado (mas se arvorava em ter como livro de cabeceira a biografia do pior torturador da ditadura militar de 64, embora eu tenha dúvidas de que o lera); misógino (afirmou que sua única filha fora fruto de uma “fraquejada”); homofóbico e racista (uma vez chegou a dizer que os negros de um quilombo pesavam algumas arrobas, como se fossem gado ou porcos); insensível (quando cobrado pelas inúmeras mortes de covid, soltou a famosa frase “e daí, não sou coveiro”, demostrando total falta de empatia para com outro ser humano)... enfim, um cardápio completo que faz parte de um ser humano que tem tudo para ser considerado desprezível.

Finalizando esse já longo e desperdiçado necrológio antecipado, confirmo minha intenção de não voltar a escrever sobre esse indivíduo, nunca mais em minha vida, nem comemorar eu irei o seu passamento, já que, se não for agora, vai ocorrer em algum momento. Eu espero que não demore muito, mas, se acaso ainda viver um tempo razoável, que o viva com dores, com sofrimento, com muita falta de ar, assim como ele um dia escarneceu dos milhares de brasileiros que sofriam com as consequências da covid, em leitos hospitalares sem oxigênio, porque seu ministro da saúde de plantão não comprara com antecedência os galões necessários, assim como seu governo retardou a compra das vacinas contra o vírus, levando à morte milhares de brasileiros, muitos dos quais provavelmente votaram nele e muitos dos que sobreviveram tornaram a votar. Ainda bem que esse indivíduo não venceu as eleições de 2020, senão estaríamos hoje vivendo um inferno ou... nas trevas de uma Idade Média com oitocentos anos de atraso.

Quando morrer, que os vermes o comam bem rápido... e não deixem nenhum vestígio de sua existência.


(Ilustração: imitação de falta de ar por doentes da covid)

janeiro 16, 2026

POR QUE SOMOS (AINDA) DEÍSTAS E CRISTÃOS?




Edward Gibbon, historiador inglês do século XVIII, em seu ensaio “Os cristãos e a queda de Roma” [*], relaciona cinco motivos, além da vontade da Providência, pelos quais o cristianismo prevaleceu durante o Império Romano e se tornou a religião poderosa que é hoje:

1. O inflexível zelo e, se nos é permitido usar tal expressão, a intolerância dos cristãos — derivada, em verdade, da religião judaica, mas purificada pelo espírito acanhado e antissocial que, em vez de atrair, dissuadiu os gentios de abraçar a lei de Moisés.

2. A doutrina de uma vida futura, valorizada por toda e qualquer circunstância ocasional que pudesse dar peso e eficácia a essa importante verdade.

3. Os poderes miraculosos atribuídos à Igreja primitiva.

4. A pura e austera moralidade dos cristãos.

5. A união e a disciplina da república cristã, que formou aos poucos um Estado independente que se desenvolveu no coração do Império Romano.

As causas 1 e 5 podem ser classificadas como “históricas”, isto é, fruto de circunstâncias que não têm relação direta com a doutrina cristã, mas sim com a assimilação de um conceito de exclusão, herdado do judaísmo, a primeira; e pela capacidade de organização burocrática e de hierarquização de funções, praticamente herdada da estrutura do exército romano, que teve a Igreja Católica nos primeiros séculos de sua existência. Assim, vamos nos ater, em nossa análise, às demais causas.

Inicialmente, devo dizer que, na minha opinião, há uma causa histórica não referida pelo autor inglês, que é a circunstância de que o politeísmo, com seus deuses múltiplos e confusos, com sua exigência de sacrifícios e rituais que não levavam a nada e vários outros fatores que não valem a pena ser relacionados aqui, porque não é o escopo desse artigo, começava a entrar em esgotamento e decadência, quando os primeiros cristãos iniciaram sua jornada de conversão dos ímpios e gentios, como eram denominados os pagãos. A curva ascendente da seita ou das seitas cristãs corresponde a uma curva descendente do politeísmo greco-romano. Vamos às demais causas.

A doutrina de uma vida futura. Embora os filósofos gregos já tivessem esboçado a ideia de permanência de algo como espírito após a morte, essa doutrina nunca foi totalmente levada a sério ou difundida popularmente, por falta de embasamento ou por terem os povos interesses mais imediatistas, ou seja, não havia preocupação a salvação por um deus ou deuses. A crença em alma ou espírito, que sobrevive ao corpo após a morte, creio não precisar enfatizar, vem de antigas doutrinas do oriente, como o zoroastrismo, que pode ter tido origem na antiga Pérsia (hoje Irã) nos séculos VI antes de Cristo. O que os cristãos agregam como novidade é a ideia de salvação das almas que se arrependem de seus pecados, incorporando aí os conceitos de céu, inferno e perdão divino. O poder dessa concepção na mente das pessoas é imenso, e os cristãos se utilizam de todos os argumentos possíveis para incrementar a ideia de que só a fé em Cristo (e a fé é outro poderoso meme que se incute na mente das pessoas) pode levar à salvação.

Os poderes miraculosos da igreja. “A fé remove montanhas”, esse é um mantra poderoso que, repetido e incutido na mente do crente, convence as multidões de que os santos cristãos/católicos prodigalizam “milagres”, como a cura dos leprosos e até a ressurreição dos mortos. O discurso é convincente, ainda que não haja nenhuma prova desses milagres, só mesmo a fé e a esperança de que algo milagroso possa acontecer com aqueles que se convertem (e todos sabemos que fatos comuns podem se tornar extraordinários mediante uma boa narrativa) e que o deus cristão levará para o céu a alma daquele que se arrepende dos pecados e pratica o bem. E então, vem o coroamento desse ideário, a causa seguinte do sucesso do cristianismo.

A pureza e moralidade dos cristãos. Difunde-se a ideia de que os seguidores de Cristo são puros (e, por isso, suas almas serão salvas) e têm uma moralidade, uma ética, uma bondade, que vêm das doutrinas de humildade, de compreensão, do “amai-vos uns aos outros”, provindas da pregação do próprio Cristo. Um povo, portanto, incapaz de maldade, mas cujos membros praticam o amor ao próximo e... a caridade. Entende-se por que a Igreja Católica institui, mais tarde, as três verdades teologais: fé, esperança e caridade. Que devem ser praticadas por todo “bom” cristão.

O que vou dizer a seguir ofenderá cruelmente a todos os cristãos, mas a verdade é que:

1. Não existe alma nem outra encarnação (parodiando um velho samba): isso são criações absurdas da mente humana.

2. Nunca houve historicamente qualquer “milagre”: a ciência nunca comprovou qualquer cura miraculosa (aquilo que não entendemos é porque ainda não encontramos explicação) e ressurreição de mortos só existe na ficção científica e nos filmes de Hollywood.

3. A propalada “bondade” dos cristãos se desmancha como neve ao sol diante de intolerância das várias seitas cristãs entre si e de todas elas em relação aos não cristãos (esses vão todos para o inferno); diante das cruzadas da idade média, cuja finalidade era “libertar” a terra santa, com a dizimação dos gentios (os judeus); diante dos crimes de perseguição, prisão, tortura e morte promovida contra principalmente as mulheres (acusas de bruxaria) pela “santa inquisição”, desde a idade média até o século XVIII; a morte e dizimação das populações das Américas, sob o pretexto de convertê-los ao cristianismo, etc. etc. etc. E esses são só uns poucos exemplos históricos.

Ou seja, o cristianismo, via Igreja Católica Apostólica Romana (sua única representante até o século XVI), nasceu, cresceu e se tornou a potência religiosa do Ocidente através da imposição de uma doutrina baseada em mentiras, somente em mentiras. O cristianismo (como a própria criação da ideia de deus, como vou comentar mais adiante) é só discurso, nada mais que discurso. Um discurso tão convincente, que se tornou uma das mais poderosas mentiras inventadas pelo ser humano.

Não podemos nos esquecer que essa mentira se revestiu, nesses dois milênios de existência, de muita maldade, de crueldades extremas, para se impor. De perseguidos pelos romanos, no início, assim que se tornou a crença oficial do Império Romano, os cristãos passaram a perseguidores implacáveis. E construíram um arcabouço imenso e complexo de falsas teologias, de ritos e rituais hipnóticos (procissões, missas, exorcismos etc.). E mais: visaram sempre à aproximação com os poderosos de todas as épocas, buscando sua cooptação, para a consolidação do poder não só espiritual, mas também material, através do acúmulo absurdo de riquezas que se consubstanciam na construção de templos imensos e na imposição de sua doutrina a ferro e fogo ao maior número possível de povos. O “salvacionismo” impregna hoje toda e qualquer seita cristã, da ex-todo-poderosa Igreja Romana a qualquer igrejola caça-níquel comandada por pastores inescrupulosos, como uma forma de manter sob seu domínio os rebanhos amortecidos por suas mentiras históricas, mas de imenso apelo.

O ser humano continua acreditando, como nos princípios do cristianismo, lá no Império Romano, exatamente nas mesmas ideias e doutrinas: quer se salvar das penas do inferno e, para isso, crê piamente na capacidade da fé de resolver seus problemas e na palavra de seus guias religiosos, que são criaturas “escolhidas por deus”, para guiá-lo para o bem e para a salvação.

Então, a pergunta de um milhão de dólares: por que acreditamos?

A resposta é complexa e está em nosso cérebro, ou melhor, na evolução do nosso cérebro. Essa máquina poderosa que temos dentro de nosso crânio, fruto de milhares de anos de evolução, tem características e propriedades que ainda desafiam até hoje a ciência. Muito pouco compreendemos sobre seu funcionamento, apesar do muito que desenvolvemos quanto ao seu conhecimento nas últimas três décadas.

Sabemos, hoje, por exemplo, que o ser humano e todos os organismos dotados de algum tipo de cérebro ou sistema nervoso necessitam dormir, para recuperar a capacidade cerebral ou para religar as sinapses cerebrais, de tal modo que essa máquina incrível possa continuar seu trabalho complexo de comandar o que somos ou, mesmo, de constituir, na verdade, o que somos. Mas, por que, exatamente, precisamos dormir, não sabemos. Descobrimos, desde tempos imemoriais, que sonhamos enquanto dormimos, mas a matéria dos sonhos é algo absolutamente incompreensível.

Por que sonhamos? O que são os sonhos? Mistério.

Agora, imagine os primeiros homines sapiens: sua compreensão da vida de caçador e coletor era praticamente limitada à sobrevivência. A vida tribal, um passo enorme no processo evolutivo, levava-os a caçar em grupo. E então, o amigo do lado virava caça. Morria. Se não compreendia a vida, muito menos entendia a morte. Só percebia a matéria inerte a ser devorada ou largada para os abutres. À noite, no entanto, enquanto dormia, o sonho trazia de volta o amigo morto. A confusão mental que isso trazia ao homem primitivo evolui aos poucos para uma ideia de alma, de espírito, de sobrevivência após a morte, isso num processo de milhares de anos, até as primeiras civilizações. Essa mentira piedosa do cérebro primitivo, como uma forma de aliviar a perda dos mortos, torna-se, possivelmente, o cerne das primeiras religiões, promovendo a crença em espíritos protetores e, posteriormente, em deuses etc. Desafiemos nossa imaginação: não é preciso buscar muitos elementos para que construamos um edifício absurdo de interpretações que pouco a pouco preparam o cérebro humano para acreditar em tudo quanto a criação e a nossa capacidade de invenção permitiram que chegássemos a um grau de sofisticação ficcional que, no fundo, constitui a base de nossa civilização que acredita no impossível, que acredita em qualquer mentira que, desde o Império Romano, os cristãos nos impingiram, porque nosso cérebro estava e está condicionado a isso, a crer, a ter fé, a não aceitar que a vida é finita, que algo de nós sobrevive à morte.

O deísmo ou teísmo (tenho preferido a raiz latina à grega), a crença em deus ou em deuses, nascido provavelmente lá nos primórdios da evolução humana, forneceu a base constitutiva das crenças que permitiram a criação do edifício teórico que alimenta as seitas e religiões que todas as civilizações acabaram por transformar em ritos e rituais, ao longo da história. Um meme quase impossível de ser extirpado do cérebro humano. Somente a adoção de um racionalismo extremo permite que se deixe de acreditar em deus ou em deuses, pois o lobby deísta massacra-nos ideologicamente desde o berço e está presente em quase tudo que nos rodeia. Confessar alguém ser ateu, em quase todas as sociedades, provoca espanto, rejeição ou de até mesmo de ódio.

No entanto, eu acredito que somente o ateísmo poderá livrar a humanidade da praga da crença em deuses ou em deus, uma crença que não evitou que o ser humano se dividisse em nações, em sociedades, em tribos que se odeiam e guerreiam entre si, muito ao contrário, o deísmo está na raiz de todos os ódios humanos e de inúmeros outros imensos problemas, como o capitalismo, por induzir o ser humano à submissão e à escravidão, já que a fé e a esperança de ganhar o reino dos céus é alimentada para exatamente isto, o amortecimento dos ânimos para uma revolução libertadora, já que, como diz a bíblia, “é mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no reino de deus”, o que faz a alegria e a perdição dos cristãos, aqui, neste reino de injustiças, desigualdades e de exploração de quase todos por uma minoria capitalista e poderosa, que não está nem pouco preocupada com recompensas abstratas de uma mais que improvável vida além da morte.




Nota:

[*] Gibbon, Edward; Os cristãos e a queda de Roma (capítulos 15 e 16 do original Decline and fall of the Roman Empire); tradução e notas de José Paulo Paes e Donaldson M Garschagen; Penguin & Cia. das Letras.



(Ilustração: Nicolas Poussin - The Blind of Jericho or Christ Healing the Blind - 1650)