abril 21, 2026

UMA REFLEXÃO SOBRE O MUNDO E A VIDA (EM FORMA DE DESABAFO)




Ficar velho implica enxergar o mundo e a vida com outros olhos, ao par das pequenas disfunções corporais que a velhice nos traz. Se os olhos já não veem e leem com a mesma qualidade de quando éramos mais novos, eles, no entanto, nos abrem novas perspectivas de compreensão ou incompreensão do que ocorre ao nosso redor. Se nossos passos passam a ser mais lentos, por causa do medo de uma queda, que pode ser catastrófica, ou pela fraqueza dos músculos, por outro lado eles nos conduzem ao paradoxo da passagem rápida do tempo no passado em oposição à nossa situação do momento, enquanto percebemos a rapidez com que tudo se torna obsoleto nesse mundo de velocidades quase incompreensíveis. Olhamos para nossos semelhantes e não mais nos reconhecemos neles. Os velhos de hoje eram, no passado, absorvidos por coisas tão diferentes, como um bom livro, um filme de Godard, uma exposição de arte moderna que discutíamos se era ou não arte aquilo que víamos, uma viagem a 80 km por hora numa estrada de duas mãos, a visita de pessoas amigas ou a visita a pessoas amigas, o discurso de políticos que nos pareciam lógicos, mesmo que não concordássemos com sua ideologia, o aplauso a uma canção de protesto num festival de música, o jogo de futebol nas tardes de domingo, o papo descompromissado no bar da esquina acompanhado de uma cerveja quente, enfim, como dizia Drummond (que, aliás, líamos tanto quanto outros poetas), no poema “Cidadezinha qualquer” (in “Alguma poesia”): “Um homem vai devagar. / Um cachorro vai devagar. / Um burro vai devagar. / Devagar… as janelas olham. / Eta vida besta, meu Deus”. Mas posso discordar agora do poeta: a vida não era besta, não. Vivíamos, sem tanta pressa, mas vivíamos. Hoje, quando olhamos a rua, vemos: gente apressada, tropeçando uns nos outros, a olhar fixamente no celular, a falar ao celular. O tempo não mais voa “nas asas da Panair”, como cantava Milton Nascimento, mas nos bites e bytes das telas que seduzem e comem os cérebros, as mentes, as crenças, as ideologias, ao devolver para cada olho atento do pretenso ser humano siderado pelas imagens e pela luz da telinha o que ele deve pensar, como deve agir, o que vestir, o que comprar, em quem votar... E então, pensamos em liberdade. Bem, nunca o ser humano foi realmente livre: sempre estivemos presos à genética, ao meio, às ideologias que nos impingem, às pretensas escolhas que fazemos, aos grupos de amigos ou pessoas de mesma ideologia que frequentamos, à mentalidade de uma época etc.. Mas, hoje, a liberdade tem um preço muito maior: ou nos escravizamos ou somos engolidos pela violência, ou a violência física de milícias e máfias e organizações criminosas ou essa escravização provém da força de persuasão dos meios eletrônicos e dos meios de comunicação de massa que estão nas mãos de poucos, de muito poucos. E esses poucos, com seu poderio econômico e midiático, conduzem os povos para os caminhos que eles escolhem, a partir de seus gabinetes ultra equipados, de onde comandam máquinas poderosas que estendem seus tentáculos falsamente invisíveis a todos os rincões da terra. Ninguém está a salvo.

Quando terminou a segunda guerra mundial, o mundo respirou aliviado: a matança e a barbárie tinham sido tão exemplares, que a humanidade caminharia agora para a paz global, o entendimento entre os povos etc. Ledo engano: logo as “nações unidas” se desuniram numa “guerra fria” de interesses e ódios ideológicos sem sentido, armando-se até os dentes, agora com armas nucleares capazes de destruir várias vezes o planeta, como se não bastasse uma só. Mas o “frio” logo esquentou em inúmeros conflitos, que mataram milhões de pessoas ao longo dos últimos anos. Listemos os principais, para atiçar a memória dos mais esquecidos:

· Guerra Fria (1947–1991): Disputa ideológica, econômica e militar entre Estados Unidos (capitalismo) e União Soviética (socialismo), que moldou a geopolítica global.

· Guerra da Coreia (1950–1953): Primeiro grande conflito armado da Guerra Fria, dividindo a península em Norte (apoiado por China/URSS) e Sul (apoiado pelos EUA).

2. Guerra do Vietnã (1955–1975): Conflito longo onde o Norte comunista enfrentou o Sul apoiado pelos EUA, resultando em grande impacto social e derrota americana.

3. Crise dos Mísseis em Cuba (1962): O ponto mais tenso da Guerra Fria, quase resultando em um conflito nuclear entre EUA e URSS.

4. Conflitos Árabe-Israelenses: Iniciados com a criação do Estado de Israel em 1948, gerando diversas guerras (1948, 1956, 1967, 1973) e tensões contínuas, incluindo a Faixa de Gaza.

· Processos de Descolonização: Guerras de libertação na África e Ásia, como a Guerra da Argélia (contra a França) e lutas em Angola e Moçambique (contra Portugal), marcando o fim dos impérios coloniais.

· Rússia-Ucrânia (2022-Presente): Um dos maiores conflitos recentes, com impactos significativos na segurança europeia e global.

· Estados Unidos e Israel contra o Irã, por motivos ideológicos (2026 - momento presente): o Irã governado por aiatolás que consideram os Estados Unidos o “grande satã” e pregam a destruição de Israel. Consequências: elevação do preço do petróleo, com prejuízos para todas as nações.

Então, eu penso nas religiões, principalmente as de origem judaica: pregam que deus criou o homem (o ser humano) à sua imagem e semelhança. Olho para a história recente de guerras, de ideologias neofascistas que ressurgem, de ódios contra o diferente, o que implica odiar o estrangeiro, o negro, o índio, o homossexual, o pobre, o que não pensa ou age como nós, enfim, um mundo mergulhado no extremismo de líderes estúpidos ou estupidificados, como Trump, Netanyahu, Putin, Zelenski etc., líderes que tomam medidas bizarras e egoicas, mensageiros da guerra, da destruição, da desigualdade. E concluo: que dedo podre aquele do deus bíblico! E não vejo nenhuma luz em nenhuma religião que grassa hoje pelo mundo: todas elas falharam em suas mensagens de exclusão. As religiões pregam “amor”, “tolerância”, mas sempre, cada uma delas só vê o outro como aquele que vai para o inferno ou não é digno de conviver com os “puros”, com os “eleitos”, com o “o povo de deus”, ou seja, o seu deus, enfim.

Quando defendo a destruição do capitalismo (“delenda est capitalismo” é o título sob o qual solto minhas diatribes), nos meus artigos mais radicais, sei que a humanidade não se livrará dessa praga em muitos e muitos séculos e, quando o fizer, não sabemos o que colocará no lugar, talvez até mesmo algo pior. A sanha capitalista está arraigada na mentalidade dos donos de nossas vidas e, enquanto houver seres humanos que se arvorem em donos, em patrões, em superiores, o capitalismo continuará como um verme a corroer as carnes e a escravizar as mentes. Então, nos meus textos mais realistas, como este, apesar de parecer pessimista, defendo medidas que possam mitigar os efeitos desastrosos do capitalismo, medidas que governos corajosos poderiam tomar para limitar o poderio das grandes corporações, das imensas corporações tentaculares. Uma empresa que tenha cem mil ou mais de funcionários torna-se um monstro incontrolável de poder, de ganho, de capacidade de escravização: limite-se o número de funcionários por empresa. Limite-se o ganho de cada empresa. Não se permita que se expandam infinitamente. Distribuam-se os lucros, não somente entre os proprietários e os sócios, mas também entre os funcionários e a sociedade, através de tributações sobre os ganhos reais. Controlem-se os insumos: que não sejam explorados de forma aleatória e até à exaustão. Impeçam-nas de poluir o ambiente, de destruir florestas, de sujar as águas. O “mercado” vai estrilar? Ótimo! Que se exploda o mercado, para não dizer um palavrão. Que se coloque a vida das pessoas acima dos lucros, acima do tal mercado, acima da sanha de destruição e morte das grandes corporações, que não deverão nem ser mais tão grandes nem tão poderosas. Isso é factível? Sim, se começarmos a escolher governantes corajosos, que tenham realmente interesse em defender suas populações, que não sejam meros títeres da direita capitalista e escravagista. Um concerto entre nações, para que leis como as sugeridas acima sejam adotadas, pode, sim, mitigar, e muito, as consequências desastrosas desse capitalismo predador.

E mais: que eles, os capitalistas, paguem com impostos os danos que eles causaram ao meio ambiente, nesses anos todos (desde a revolução industrial) de exploração predatória dos recursos do planeta, provocando poluição e destruição ambiental. A conta é alta, mas se eles – esses malditos capitalistas – obtiveram e obtêm ganhos absurdos à custa da destruição do planeta, que não sejam só os governos – que também têm sua quota de participação, principalmente por omissão – a pagar a conta da reconstrução ambiental. E não estamos falando da salvação do planeta: estamos falando da salvação da humanidade. O planeta, se a humanidade desaparecer, vai se reconstruir por si mesmo, ainda que depois de alguns séculos ou milênios, o que, em termos planetários, é muito pouco tempo. Mas a humanidade, uma vez extinta, não terá outra oportunidade. E lembrem-se todos: não há fuga possível deste planeta, se a vida aqui se tornaar inviável. Esqueçam naves interplanetárias. Esqueçam colonizações extraterrestres. Isso tudo é balela, é conversa mole para enganar trouxas: se houver oportunidade de alguém fugir deste planeta, isso se resumirá a muito poucos indivíduos, já que jamais teremos a possibilidade de construir naves que possam levar milhões ou mesmo milhares de pessoas. E levar para onde? Para planetas inóspitos, sem atmosfera, sem água, sem possibilidade de sobrevivência? Então, não está em jogo o destino do planeta e sim o destino do ser humano neste planeta único num espaço onde as distâncias entre sóis e sistemas planetários se contam em anos-luz, ou seja, em distâncias inviáveis de serem percorridas com a tecnologia atual e mesmo com a tecnologia de um milênio à frente, quando, possivelmente, já será tarde demais.

Sim, o planeta corre risco. Risco de se livrar de nós, os humanos. E só nós, se formos realmente o que pensamos que somos, ou seja, homines sapientes, só nós podemos nos salvar. Há muito a ser feito, a ser construído e reconstruído, mas é preciso que deixemos de ser os idiotas que somos para que possamos salvar o planeta em que moramos, para nos salvarmos.

Não há pessimismo em tudo isso que escrevi, e sim um grito de alerta para todos os humanos:

THERE IS STILL TIME, BROTHERS! - AINDA HÁ TEMPO, IRMÃOS! - AÚN HAY TIEMPO, HERMANOS! - IL EST ENCORE TEMPS, FRÈRES! - ES IST NOCH ZEIT, BRÜDER! - ! ا يزال هناك وقت يا إخوة ! עדיין יש זמן, אחים - C'È ANCORA TEMPO, FRATELLI ! - まだ時間はあるぞ、兄弟たちよ- 兄弟们,时间还来得及。- ЕЩЁ ЕСТЬ ВРЕМЯ, БРАТЬЯ.