Carolina Maria de Jesus em 1958 na favela do Canindé, às margens do rio Tietê,
onde viveu até lançar 'Quarto de Despejo'
Ao encerrar meu comentário sobre o livro de Carolina Maria de Jesus, “Quarto de despejo” (no blog Trapiche da Leitura), afirmo “que se deve ler [esse livro] com o mesmo espanto de há mais de 70 anos, por ter o Brasil progredido tanto e não ter ainda resolvido a questão da desigualdade social.” E mais: algumas linhas antes, quando a autora critica o governo Juscelino Kubitschek, dou-lhe razão, porque “Juscelino priorizou o desenvolvimentismo e esqueceu o lado social”. Gostaria de retomar essas duas frases e aprofundar um pouco o meu ponto de vista.
Considero Juscelino um dos maiores presidentes que já tivemos. Tirou o país do marasmo e da estagnação e preparou-o para os desafios do crescimento e de um desenvolvimento sustentável. Sim, essa foi sua prioridade. O lado social ficou em segundo plano (e acho que estou até sendo pouco crítico). No entanto, vivíamos uma democracia plena e saudável. Já no seu governo, havia um homem de grande talento e de grande visão social: Celso Furtado. Criou, a pedido de Juscelino, a SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Tenho para mim que esse órgão seria uma espécie de projeto-piloto para um possível segundo mandato de Juscelino, após Jânio, quando a prioridade do presidente seria o social, ou seja, cumpriria a segunda etapa de um projeto de Brasil que pudesse equilibrar a balança do desenvolvimento com etapas de combate à pobreza e à desigualdade. Infelizmente, todos sabemos o que aconteceu: Jânio foi aquele fiasco; Jango foi deposto e... a direita raivosa tomou o poder em 1964.
Isso sempre acontece no Brasil: quando o país começa a dar sinais de desenvolvimento econômico, político e social, com governos voltados para o social, a direita canalha vem e... como na música “Roda Viva”, de Chico Buarque, leva nossa esperança para o brejo da corrupção, da estagnação, do desmonte de todas as políticas sociais. Não vou, aqui, dar exemplos, porque qualquer um que acompanhe a história do Brasil, dos primórdios da República até nossos dias, pode contar e recontar todas as vezes em que isso aconteceu.
Então, quando digo que ainda não conseguimos superar a desigualdade até hoje, é porque exatamente esse desmonte acabou de acontecer: os governos Lula e Dilma haviam lançado as bases do desenvolvimento social e o país caminhava para um futuro de menos pobreza, com um olhar menos preconceituoso contra os mais pobres, buscando, não só com programas assistenciais (“a fome não espera” – como disse Lula), mas também com projetos de desenvolvimento que visassem a dar a todos um emprego decente, uma vida digna, com a devida justiça de diminuir o abismo entre as classes sociais, com a famigerada e nunca conseguida (por causa da direita) distribuição de renda, reformas de base (aquelas mesmas do Jango), como a reforma agrária etc. No entanto, o que aconteceu depois do golpe contra a presidenta Dilma: Temer e Bolsonaro, representantes da direita hidrófoba, acionaram a roda viva do desmonte, para, em seis anos de desgoverno, jogar o país de volta à pobreza e à desigualdade.
Lula, ao reassumir o governo, depois de derrotar a direita, tenta consertar os estragos e retomar seu projeto de desenvolvimento sustentável e de combate às desigualdades sociais, mas tem encontrado a roda vida da extrema direita muito bem azeitada no Congresso, a fazer de tudo para atrapalhar seu governo e impedir que o país retome a defesa dos mais necessitados. E, se essa roda vida da extrema direita se tornar vitoriosa nas próximas eleições (no final deste ano), podemos esperar mais quatro anos de trevas e de retrocesso.
E a mesma situação de “quarto de despejo” vivida por Carolina Maria de Jesus na década de 1950, na favela onde morava em São Paulo, vai continuar sendo a pedra no sapato de todos os brasileiros que ainda sofrem aquilo que hoje chamam, “elegantemente”, de “insegurança alimentar”, mas que é, na verdade a velha e surrada FOME, de que tanto se queixa nossa escritora que catava papel na rua, para sobreviver.
Termino esse breve comentário sobre assunto tão complexo, com um apelo: temos que deter a roda viva do retrocesso! A cunha para que essa roda deixe de girar é o voto. Enquanto o chamado “pobre de direita” continuar sendo iludido por falsas pregações (sim, estou me referindo às igrejas pentecostais, esse câncer que tomou de assalto a sociedade brasileira) e falsas promessas de políticos mal intencionados, não teremos como derrotar, ainda que parcialmente, esse capitalismo selvagem do neoliberalismo de extrema direita e deter a roda viva que mói a capacidade de o Brasil superar as desigualdades sociais que ainda o assolam.
