Jair
Messias Bolsonaro está preso, é um presidiário, e todo mundo, inclusive sua
família e seus seguidores, tem de aceitar essa realidade. Foi condenado pela
Suprema Corte do país por tentativa de golpe, por planejar matar o presidente
eleito e membros dessa mesma Corte. Teve todo o direito de defesa, como deve
ser num país onde as leis são respeitadas (embora ele, o senhor Jair, como
presidente da república, nunca tenha sido exatamente um primor nesse quesito). Está
agora em prisão domiciliar por mera circunstância de saúde física, privilégio
que 99,999% dos presos do país não têm. Nesse caso, sua casa é sua cela, sua
prisão. E, como tal, não pode receber visitas a seu bel prazer, não pode ter armas,
não pode ter contato com o mundo exterior via redes sociais, por exemplo, ou
por telefone, não pode interferir seja de que modo for em assuntos da Nação. (Imaginem
o Fernandinho Beira-Mar ou o Marcola podendo receber a “nata” do tráfico em sua
cela, para coordenar ações...) O senhor Jair é um preso comum, embora
privilegiado por estar em domicílio. Por isso, não podia, como prisioneiro,
indicar quem quer que seja para disputar cargos políticos e não pode, mesmo através
de um avatar construído por inteligência artificial, participar de uma convenção
partidária. Repito: o senhor Jair Messias Bolsonaro é um preso comum! E é
melhor que seus próceres e familiares aceitem isso. Que dói menos.
Dito isso, vamos à campanha de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro. Primeiro, como político, é um zero à esquerda. Navegou sempre na corrente de popularidade de seu pai para se eleger. Como vereador da cidade do Rio de Janeiro, envolveu-se em “rachadinhas”, isto é, em preencher os cargos de seu mandato com gente que se dispunha a repassar para ele a maior parte de seus polpudos salários, num verdadeiro assalto aos cofres públicos. Ele e toda a sua família estiveram sempre ligados às milícias que atormentam a população carioca, sendo tais práticas criminosas a origem da fortuna familiar, multiplicada inúmeras vezes em poucos anos. Como senador, alguém se lembra de algum projeto de lei de sua autoria? De algum pronunciamento que tenha tido repercussão na imprensa ou, pelo menos, sensibilizado seus pares? Seus recursos intelectuais beiram a mediocridade. E é esse senhor, indicado pelo preso político que é seu pai, que pretende dirigir 220 milhões de pessoas e ter acesso aos recursos públicos de uma nação como o Brasil. Bem, eu espero que as urnas, quando abertas, não permitam que o país caminhe para trás mais uma vez, sob o comando desse indivíduo.
Agora vem o lado irônico da história. Michelle, agora Michelle Bolsonaro, como primeira-dama ganhou um certo protagonismo no governo (coisa difícil para primeiras-damas – tradição estúpida de nosso país), principalmente entre as mulheres evangélicas, e acabou por se tornar uma espécie de player no tabuleiro político, após a prisão do marido. E uma jogadora de certa importância dentro do PL, o partido dos “bolsonaros”. No entanto, foi marcada e destratada no interior da família pelos preconceitos e pelo machismo dos filhos do Jair. Uma mágoa que se extravasou num vídeo cheio de intenções e simbologias que ela gravou e levou ao público no início da campanha do filho ungido, o que ocasionou sua renúncia à presidência do PL-Mulher e da sua retirada da campanha.
Um verdadeiro tsunâmi para o senador que, aconselhado por seus assessores, fez de tudo para uma reaproximação que levasse a um mínimo de reconciliação às vésperas da convenção partidária que iria selar sua candidatura. Gravou um vídeo pedindo desculpas. Mil perdões etc. Foram aceitas, as desculpas. Por ingerência de Jair? Possivelmente. “Noblesse oblige”, ou melhor, a situação exigia que, para efeito político e público, a paz voltasse ao clã. Mas será que voltou mesmo?
Concluo esta já minha longa exposição, com algumas considerações pessoais. Quando brigamos com um amigo, por mais ofensas que dirijamos um ao outro, geralmente o tempo acaba por dissipar as mágoas e a amizade pode retornar, mesmo que fique um ou outro mal-estar. No entanto, brigas em família, entre irmãos, primos, madrasta e enteados etc. provocam mágoas indeléveis, suas cicatrizes são muito mais difíceis de serem esquecidas. Os insultos, em geral, ferem mais profundamente. Reatar o carinho ou o amor que deve pontilhar tais reações, numa família razoavelmente saudável, torna-se quase impossível, mesmo que a convivência retorne, quanto mais numa família formada no preconceito, no machismo, na visão de um moralismo distorcido por um fundo religioso mal digerido, como a família Bolsonaro.
Por isso, eu acho que a aproximação entre Michelle e Flávio tem a duração da campanha política... se tiver! Pois atende apenas a uma necessidade de enganar o eleitor, mostrando união... Uma reconciliação, como disse alguém, para Milei ver...
Você quer essa “famiglia” de volta ao poder e esse cara – Flávio Bolsonaro – como seu presidente?

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