fevereiro 22, 2022

PETRÓPOLIS: CATÁSTROFE ANUNCIADA

 

(Petrópolis - antes e depois)


Os meios de comunicação chamam de “tragédia”. Maculam o significado nobre da palavra, termo grego que nos remete às origens do teatro, de cujo âmbito não devia ser retirado para as catástrofes provocadas por forças da natureza e não pela ação do homem contra o homem, nos palcos imemoriais da arte teatral.

Por isso, prefiro a palavra catástrofe ou outras similares, como calamidade, desastre, hecatombe etc. Mas não é o polêmico uso do léxico que eu quero tratar neste texto. Que cada um chame como quiser.

Falemos de Petrópolis, a cidade imperial; a cidade que é tão imperial, que até hoje paga aos descendentes do seu ramo da “família real”, este sim, um polêmico imposto de transação imobiliária, chamado “laudêmio”. E devem estar coçando os dedos os descendentes de Dom Pedro, ao imaginarem que, depois da tempestade que destruiu a cidade, haverá uma quantidade muito grande de petropolitanos decididos a vender seus imóveis, o que deverá aumentar muito os ganhos da “família imperial”.

Feita essa devida provocação, vamos à catástrofe anunciada.

Sabe-se, desde o século XIX, que a bela cidade construída nos altos Serra dos Órgãos está sujeita a chuvas intensas e que seu território acidentado tem centenas de áreas de risco de deslizamento e desabamento. Portanto, o crescimento inevitável do município teria de ser monitorado e controlado de forma rigorosa pelo poder público, em conformidade com as condições do terreno. No entanto, nesses cento e tantos anos, nada se fez para que a urbanização seguisse critérios minimamente lógicos e seguros. Como, aliás, na maioria das cidades brasileiras. Nossos governantes odeiam o futuro; por isso, odeiam planejamento.

Podemos imaginar a seguinte provável história (que deve ter-se repetido em milhares de outros municípios): alguém resolve demarcar uma área, desmatá-la, loteá-la e vendê-la para os desesperados e incautos necessitados de moradia. Naturalmente, um processo “simples” de grilagem, devidamente apoiado ou incentivado por alguma “autoridade” – um prefeito, um vereador, um “coronel’, um juiz de direito, um oficial graduado ou político poderoso. Como o desmatador e loteador vai ganhar seu dinheirinho para enganar os trouxas ao afirmar e jurar e “provar” que o local é seguro e devidamente “regularizado”, também as “autoridades’ competentes ganharão – e bem! – para fechar os olhos e “deixar rolar” as irregularidades, em conluio claro com os devidos órgãos de fiscalização.

Meus amigos e caros leitores, ninguém constrói seu barraco, sua casinha, seu “quarto e cozinha” em área de risco porque “encontrou” aquele lugar para isso: os pobres diabos são levados a comprar o terreno (“baratinho, baratinho”) pelos espertalhões de plantão. Os “doutores” sabichões lucram na venda não só do terreno devidamente demarcado e “limpo”, mas também com o material de construção, com mão de obra, tudo muito “baratinho”, em “suaves” prestações mensais, e tudo, tudo “regularizado” com promessas de escrituras ou com escrituras falsas. E isso é uma bola de neve: de meia dúzia de barracos, logo haverá vinte e trinta e centenas. Uma verdadeira cidade se ergue em poucos anos, com toda a “infraestrutura” possível. E ali há centenas de eleitores, para os quais é preciso acenar, com promessas verdadeiras ou falsas de melhorias, que vão chegando, sim, aos poucos, e a “comunidade” está constituída, é forte, elege e reelege os políticos. E quando há alguma calamidade, lá estão eles, os políticos, prontos a “ajudar, a “prestar solidariedade”, a dizer que a natureza é assim mesmo, que logo vão fazer obras de contenção e obras disso e daquilo. E às vezes fazem, mesmo, obras que dão prestígio, e dão poder e os enriquecem, com os superfaturamentos de sempre. E quase sempre obras poucas e muitas vezes inúteis.

Os anos passam, os eventos climáticos, que antes eram eventuais, se tornam não apenas constantes, mas principalmente mais violentos (os meteorologistas não se cansam de avisar para o tal “aquecimento global”, que a maioria das autoridades prefere ignorar ou desdenhar), até que, um dia, a coisa desanda: uma grande tempestade tropical ou subtropical (seja lá o nome que se lhe dê) provoca uma catástrofe com centenas de mortos. Exatamente como se havia previsto há anos, em documentos arquivados no fundo das secretarias de obras, ignorados e desdenhados por inúmeros gestores.

Então, todos choram e lamentam. Autoridades dão entrevistas. A mídia estende por horas e horas a cobertura do evento, conta os mortos, individualiza os sofrimentos, narra histórias, filma e mostra para o mundo todo a catástrofe, a destruição, as consequências; mobiliza a sociedade para a ajuda aos desabrigados; discute causas e obtém promessas de ajuda das autoridades de plantão. Mas... nem a mídia nem as “autoridades responsáveis” nunca vão atrás dos verdadeiros culpados: os famigerados “grileiros” e toda a corja de canalhas escondidos sob o manto da - muita! - grana que ganharam com a desgraça daqueles milhares de seres humanos, que choram a perda de seus bens, de seus familiares, de sua vida.

E mais: passado o choque do momento, a vida volta ao “normal”, as pessoas tentam reconstruir dos monturos e do fundo da lama e do sofrimento as suas vidas, a mídia esquece, todo mundo esquece. Não os que foram diretamente atingidos até mesmo em sua dignidade pela catástrofe anunciada. Mas, esses, ora, que se virem, que vão chorar na cama, que é lugar quente. Ninguém mais se preocupa com eles, mesmo que continuem brigando por anos a fio com o poder público, mesmo que continuem correndo atrás de seus direitos, de sua dignidade, de sua vida. Que aguardem, depois da reconstrução – se e quando houver –, uma nova catástrofe devidamente anunciada! E novamente chamada de “tragédia”. A tragédia humana que não está nos eventos meteorológicos e naturais, mas na cara de pau de nossos governantes.


janeiro 03, 2022

ENTENDA OS VÍRUS

 


Nestes tempos de pandemia, quando a humanidade sofre mais um ataque mortífero de vírus, dentre muitos em sua história, a desinformação parece ser o apanágio dos ignorantes, dos fundamentalistas religiosos, dos estúpidos por vocação, que negam a ciência e falam e reproduzem absurdos através das redes sociais. Sei que há muita gente despreparada não porque optaram por isso, mas porque não tiveram oportunidade de estudar, numa sociedade extremamente injusta como a nossa. No entanto, vejo e ouço e leio pessoas que têm curso superior, uma boa base de conhecimento, a divulgar informações erradas, ou por ignorância (ninguém pode saber tudo) ou por professar ideologias obscurantistas ou ainda por pura estupidez misturada com preconceitos arraigados, que não nenhum diploma universitário consegue mitigar.

Portanto, não só para os estúpidos negacionistas, mas também para todos os que não têm formação científica, mas que, bem intencionados, pretendem se informar melhor sobre ciência, publico hoje este texto (autoria e fonte ao final):



“Os vírus são um enigma que existe no limiar da vida. Eles não são apenas bactérias pequenas. Bactérias são seres unicelulares, completamente vivas. Cada uma tem um metabolismo, exige alimento, produz dejetos e se reproduz por divisão.

Os vírus não se alimentam nem queimam oxigênio para obter energia. Não participam de nenhum processo que poderia ser considerado metabólico. Não produzem dejetos. Não criam produtos colaterais por acidente ou de propósito. Não fazem sexo nem se reproduzem de forma independente. São menos do que um organismo vivo funcional, mas são mais do que apenas uma coleção inerte de substâncias químicas.

Existem diversas teorias a respeito da origem dos vírus e essas teorias não são mutuamente excludentes. Existem evidências para apoiar cada uma, e é possível que vírus diferentes tenham se desenvolvido de formas diferentes.

Uma visão minoritária sugere que eles se originaram de forma independente como as mais primitivas moléculas capazes de se reproduzir. Se isso fosse verdade, formas mais avançadas de vida poderiam ter evoluído a partir deles.

A maior parte dos virologistas pensa o contrário. Eles creem que os vírus começaram como células vivas mais complexas e evoluíram — ou talvez seja mais preciso dizer involuíram — para organismos mais simples, tais como a família “rickettsia” de patógenos. A rickettsia costumava ser considerada como vírus, mas atualmente já é observada como algo no meio do caminho entre as bactérias e os vírus. Os pesquisadores acreditam que esses organismos chegaram a ter, mas perderam as atividades necessárias para uma vida independente. O bacilo da lepra também parece ter se afastado da complexidade — a capacidade de fazer muitas coisas — rumo à simplicidade, hoje fazendo menos do que antes. Uma terceira teoria defende que os vírus eram antes parte de uma célula, uma organela, mas que se afastaram e começaram a evoluir de forma independente.

Seja qual for a origem, todo vírus tem apenas uma função: se replicar. Mas diferentemente de outras formas de vida (se considerarmos o vírus uma forma de vida), ele não faz isso sozinho. Ele invade células carregadas de energia e então, como um mestre de marionetes alienígena, as subverte, assume o controle e as obriga a produzir milhares, e em alguns casos centenas de milhares, de novos vírus. Esse poder reside em sua genética.

Na maior parte das formas de vida, os genes estão espalhados pelo comprimento de uma molécula de DNA (ácido desoxirribonucleico) em formato de um filamento. Mas muitos vírus — inclusive o influenza, o HIV e o coronavirus que provoca SARS (síndrome respiratória aguda severa) — codificam seus genes no RNA (ácido ribonucleico), uma molécula mais simples, mas menos estável.

Os genes lembram a estrutura de um software. Do mesmo modo que uma sequência de bits em um código diz ao computador o que fazer — processar um editor de texto, um jogo de computador ou fazer uma busca na internet — os genes dizem para as células o que fazer.

O código de computador é uma linguagem binária, de duas letras. Já o genético emprega uma linguagem com quatro letras, cada uma representando as substâncias químicas adenina, guanina, citosina e timidina (às vezes a uracila entra no lugar da timidina).

O DNA e o RNA são sequências dessas substâncias, bem longas. Às vezes, essas letras não formam palavras nem frases que façam algum sentido: 97% do DNA humano não contêm genes. É chamado de DNA “sem sentido” ou “lixo”, cujas funções ainda são desconhecidas.

Quando as letras compõem palavras e frases que fazem sentido, no entanto, por definição essa sequência é um gene.

Quando um gene em uma célula é ativado, ele ordena que a célula produza determinadas proteínas que, por sua vez, podem ser utilizadas como tijolos na construção de tecidos. (As proteínas que consumimos via alimentos de um modo geral têm essa função.) Mas as proteínas também desempenham um papel crucial na maior parte das reações químicas dentro do corpo, além de transportar mensagens para iniciar ou interromper diferentes processos. A adrenalina, por exemplo, é um hormônio, mas também é uma proteína. Ela acelera o ritmo cardíaco para criar o que chamamos de reação de luta ou fuga.

Quando um vírus consegue invadir uma célula, ele insere seus próprios genes na sequência humana e a carga genética viral passa a assumir o controle dos genes celulares. O mecanismo interno da célula começa a produzir aquilo que os genes virais exigem em vez daquilo que ela precisaria para si mesma.

Desse modo, a célula passa a produzir centenas de milhares de proteínas virais que, unindo-se a cópias do genoma viral, formam novos vírus. Uma vez prontos, eles são liberados. Nesse processo, quase sempre a célula hospedeira morre, em geral quando novas partículas virais irrompem a superfície celular para invadir outras células.

Embora os vírus executem apenas uma tarefa, eles não são simples. Nem primitivos. Altamente evoluídos, elegantes em seu foco, mais eficientes no que fazem do que qualquer ser inteiramente vivo, eles se tornaram organismos infecciosos quase perfeitos. E o vírus influenza está entre os mais perfeitos desses organismos perfeitos.”



JOHN M. BARRY, in A GRANDE GRIPE,
 
A HISTÓRIA DA GRIPE ESPANHOLA, 

A PANDEMIA MAIS MORTAL DE TODOS OS TEMPOS.

dezembro 01, 2021

QUANDO A BREGUICE É ESTRUTURAL (SEGUNDA PARTE)


 

Tomamos emprestado o termo “estrutural”, ou seja, aquilo que é imanente a uma estrutura, para falar da breguice do nosso excelentíssimo e breguíssimo presidente da república, se é que ele merece esse título. A caneta bic com que assina os documentos da presidência é um desses símbolos mais do que bregas desse ex-capitão, mitológico por suas asneiras.

Agora, falemos de outras breguices. Por exemplo, as camisas de times de futebol com que ele frequentemente se apresenta em suas lives. Um torcedor vestir a camisa de seu clube é normal. Indica seu amor ou sua preferência por um determinado grupo de jogadores. Torcer, nesse caso, e mostrar a todos por qual clube se torce não ocasiona nenhum problema, a não ser que o cidadão faça isso no meio da torcida adversária. No entanto, uma autoridade que se preza, principalmente um político que ocupa um alto cargo, não pode se apresentar para comunicados oficiais ou oficiosos para a Nação vestido com camisetas mal ajambradas de clube de futebol. Isso é de um mau gosto que vai muito além do respeito às convenções do cargo, principalmente quando esse cargo é o da presidência da república. E é brega, muito, muito brega.

Aliás, usar lives de redes sociais para comentar assuntos da presidência, como se isso fosse o suprassumo da modernidade, também é muito, muito brega, quando se trata do mais alto cargo da Nação. Um presidente da república tem a seu dispor inúmeros meios de comunicação, meios oficiais e até mesmo oficiosos, mas perder tempo para se sentar diante de uma mesa e, com um intérprete de libras meio perdido ao lado, para falar bobagens e comentar assuntos que não dizem respeito à presidência e que, em geral, não interessam não povo, a não ser a seu reduzido redil eleitoral, é brega, muito brega.

E por falar em redil, lembramos o famigerado “cercadinho” onde ficam as duas dúzias de aduladores do presidente, quando, toda manhã, a eles se dirige o tal indivíduo, vestido com seus ternos que parecem comprados em alguma feira livre de alguma cidade satélite de Brasília – o que é brega, muito brega. Pois é através desses aduladores que mugem por ali, no tal cercadinho, que a breguíssima excelência passa os recados que brotam de sua “inteligência privilegiada”, para dizer, por exemplo, que “tem que tomar cloroquina contra a covid”, ou que “não vai tomar vacina” e que “a vachina ninguém sabe se funciona”, ou ainda ofender estados com quem o Brasil mantém negócios de milhões de dólares, ou falar outras bobagens que nem dezenas de páginas seriam suficientes para registrar. Tudo isso é brega, muito brega, além de ser estúpido. Quando se tem à disposição uma mídia interessada em tudo quanto diz um presidente da república, falar essas asneiras para as duas dúzias de seguidores num “cercadinho” ao lado do palácio é uma das mais estúpidas breguices que ele comete. Aliás, brigar com repórteres e jornalistas e não responder a questionamentos desse ou daquele órgão da mídia, porque fazem algum tipo de crítica ou de oposição a sua excelência, é também algo muito, muito brega, além de ser antirrepublicano, além de ser antidemocrático.

Também são breguices incomensuráveis:

  •        fazer turismo na Europa, a pretexto de participar de alguma reunião de líderes mundiais, já que não é recebido por nenhum chefe de estado;
  •        receber homenagem de uma cidade do interior da Itália, só porque seus antepassados de lá saíram há dezenas e dezenas de anos;
  •        hospedar-se em hotéis de Dubai que cobram diárias astronômicas, para conversar com sheiks do petróleo que estão cagando e andando para ele;
  •        promover “motociatas” com seguidores, pelas capitais e cidades do país e, pior, todos eles sem nenhuma proteção de máscaras contra a covid;
  •        permitir que a primeira-dama compareça a uma festa no palácio vestida de branca de neve (?);
  •        não se vacinar contra o vírus da covid e, pior, mostrar ao mundo e a todos os líderes que não o fez, contrariando todas as recomendações médicas do mundo inteiro;
  •        fazer propaganda, até diante das emas do jardim do palácio, de remédios não recomendados contra a covid, e pior: que produzem efeitos colaterais perigosos, sendo que alguns só servem mesmo para matar carrapato de gado;
  •        tentar interferir nas investigações da Polícia Federal, para proteger seus filhos das falcatruas que eles cometeram;
  •        divulgar ou permitir que seus seguidores divulguem notícias falsas nas redes sociais;
  •        ter como guru um astrólogo decadente, que se passa por filósofo, e que acredita até mesmo que a terra é plana;
  •        falar um monte de palavrões impublicáveis durante reuniões ministeriais;

  •        etc. etc. etc.

Como se pode ver, a breguice desse governo não tem paralelo na história. Nenhum outro presidente se mostrou tão estúpido, tão despreparado para governar. Por isso, o país está mergulhado num poço profundo, do qual só conseguiremos sair a médio prazo, depois de um ou dois anos de um novo governo que não seja tão estúpido e irresponsável quanto este. O que eu temo é que ele, para tentar se reeleger – o que não conseguirá! – quebre ainda mais o país, tornando-o ingovernável por décadas.

novembro 28, 2021

QUANDO A BREGUICE É ESTRUTURAL

  


Dizemos que algo é estrutural, quando está arraigada numa estrutura, numa sociedade, por exemplo. Mas, posso tomar esprestado esse termo para dizer que há coisas que estão estruturalmente arraigadas num indivíduo. A breguice, por exemplo. Que é irmã gêmea da estupidez, da falta de cultura, de conhecimentos mínimos de ciências e de humanidades; da falta de respeito para com a sociedade em que vive.

Vamos dar nome ao boi, ou melhor, à besta: estou falando do atual presidente da república desse pobre (em todos os sentidos) país cujo povo, ainda mais pobre (agora no sentido de miserabilidade), o elegeu: Jair Messias Bolsonaro.

Sua breguice estrutural começa com o fato de que, como militar expulso do exército, por insubordinação, continuou militar por mais de trinta anos. O exército chutou sua bunda suja, mas ele não o tirou de dentro de si, numa espécie de fervor e amor que têm os prisioneiros que enlouquecem por seus carcereiros ou por seus torturadores (aliás, ele parece adorar torturadores e déspotas). Depois, como político, elegeu-se deputado e, por quase trinta anos, frequentou o fundão mais profundo do centrão do Congresso, onde nunca se notabilizou por sequer uma lei aprovada, um discurso elogiado. Ali, enriqueceu através da mais nobre e brega atividade congressual, juntamente com seus filhos: a famosa “rachadinha”, ou seja, surrupiando parte dos salários de seus funcionários de gabinete. Um crime que deixa poucos rastros, já que os contratados raramente denunciam, porque temem perder a esmola que lhes sobra ou temem o poder do parlamentar, já que a corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco. Suas mais destacadas atuações parlamentares consistiram em afirmar para uma colega que não a estupraria porque era muito feia e por levar uma cusparada na cara, de outro deputado a quem ofendera, por ser homossexual. Suas posições ideológicas, aliás, não passam dessa breguice estúpida de preconceitos, homofobia, misoginia e defesa do uso de armas por todos os cidadãos, além de uma religiosidade ainda mais brega e absurda, já que “ama” o estado de Israel, mas se diz cristão, num fundamentalismo que nem ele mesmo sabe que tem, ou sequer saiba o que seja.

Inaugurou seu governo, assinando medidas, leis, decretos etc. com uma caneta bic. E pior: fazendo questão de mostrar que usava tal tipo de instrumento de escrita, como se isso fosse o suprassumo de um “populismo” carunchado que ele também não sabe bem o que é. Nada mais brega! Por mais que os atos cerimoniais do poder sejam muitas vezes de uma grande breguice, há no entanto algo de simbólico nesses atos. Pode-se, por exemplo, tecer mil críticas à chamada lei áurea, que libertou os escravizados sem lhes dar qualquer tipo de proteção ou de perspectiva de vida, mas imaginem a princesa Isabel assinando essa lei com uma caneta que não fosse de ouro. Não seria a lei áurea! Portanto, quando o idiota que está no exercício da presidência assina atos de governo com uma caneta vagabunda, ele está indicando claramente que seu governo é um governo vagabundo e brega, que não tem respeito pelo próprio cargo, assim como não tem respeito pelo povo que ele governa. E foi isso que ele sinalizou desde o início: que seria um governo brega, que seria um governo vagabundo.

Depois de mais de 600 mil mortos pela pandemia, sem que esse governo vagabundo tivesse feito o seu dever de agir com competência, para comprar vacinas, de incentivar o povo a se vacinar, de assumir a liderança no combate à covid-19, não resta mais nenhuma dúvida sobre o quanto de estupidez asinina cabe na cabeça de tal indivíduo. Aquilo que começou como um ato de breguice estrutural se transformou em atos não só de incompetência, mas também de genocídio, já que se pode imputar a esse canalha a morte de centenas de milhares de brasileiros, vidas que poderiam ter sido poupadas, se medidas preventivas tivessem sido tomadas a seu tempo e de maneira vigorosa.

E estamos falando apenas de um dos muitos aspectos absurdos de seu desgoverno, a saúde pública. Ainda há que se falar em: desmonte da educação, leniência para com o desmatamento e para com as atividades de garimpo, desprezo à pesquisa científica, descontrole da venda de armas, aumento das tachas de homicídio, feminicídio e de chacinas pelas polícias militares, falta de medidas para melhoria do saneamento básico das cidades, polícia externa subserviente a interesses escusos etc. etc. etc. Enfim, a lista de problemas causados por ser escroto e estúpido é longa. O fundo do poço tem um alçapão e por ele estamos despencando num abismo, do qual será complicado e demorado sair.

novembro 22, 2021

COLABORACIONISTAS

O TEXTO ABAIXO REFLETE O QUE EU PENSO, POR ISSO AÍ ESTÁ PARA A DEGUSTAÇÃO DOS LEITORES DESTE BLOG, ASSIM COMO UMA FORMA DE MANTÊ-LO VIVO NA INTERNET, MUITO ALÉM DAS REDES SOCIAIS, NO CASO, DO FACEBOOK, DE ONDE O RETIREI.



Ao final da Segunda Guerra, com o avanço das tropas aliadas, Paris foi libertada. Explosão de alegria, comemoração e, como seria mais do que previsível, com muitos «acertos de contas» com os franceses que colaboraram com o exército de ocupação. E não foram poucos. Sob argumentos diversos muitos franceses seguiram suas vidas quase que normalmente apesar de toda a destruição civilizacional que os nazistas impunham. Não foram poucas as fracesas que, alegremente, namoraram soldados alemães e se deitaram com oficiais nazistas. Muitos comerciantes enriqueceram como fornecedores dos inimigos, muitos funcionários públicos, principalmente no judiciário, progrediram em suas carreiras por fazer o que deles esperavam os fascistas.

Libertos do fascismo alemão milhares de «colabôs» foram expostos à execração pública, e vários deles foram forçados a humilhantes desfiles pelas ruas em centenas de cidades francesas, cabeças raspadas, mulambentos.

Viveremos algo semelhante no Brasil quanto terminar a ocupação bolsonarista dos espaços públicos e institucionais?

Pensando sobre isso hoje topei com o texto do Márcio Sotelo Felippe sobre as similitudes entre a França ocupada pelos nazistas e o Brasil ocupado pela burrice, pela crueldade e pelo mau-caratismo bolsonarista.



Colaboracionistas


"Em um artigo publicado em 1944, A república do silêncio, Sartre escreveu que os franceses nunca foram tão livres quanto no tempo da ocupação alemã. Um chocante e brilhante paradoxo que só a grande Filosofia, como exercício de pensar fora do senso comum, é capaz de produzir. Por que os franceses eram livres se todos os direitos haviam sido aniquilados pelos alemães e não havia qualquer liberdade de expressão? Como se podia ser livre sob a cerrada opressão do invasor que fiscalizava os gestos mais triviais do cotidiano? Porque, dizia Sartre, cada gesto era um compromisso. A resistência significava uma escolha e, pois, um exercício de liberdade. Significava não renunciar à construção de sua própria existência quando os invasores queriam moldá-la, reduzindo-a a objeto passivo e sem forma.

Em linguagem retórica e poética Rosa de Luxemburgo disse algo semelhante: quem não se movimenta não percebe as correntes que o aprisionam.

Sartre era existencialista: a existência precede a essência. Isto significa que não há algo anterior à existência que impeça um ser humano de tomar livremente as decisões que construirão o seu futuro. Isto dá ao humano a plena imputabilidade pelos seus atos. O que ele faz da sua existência é culpa ou mérito exclusivamente seu. O que ela é hoje resulta de decisões que tomou no passado, e o que será resultará das decisões que toma no presente.

A experiência francesa durante a ocupação alemã guarda certa similitude com o Brasil de hoje. Na França parte da sociedade (muito maior do que os franceses gostam de admitir) foi complacente ou colaborou com o invasor que massacrava seu povo e aniquilava os mais elementares direitos dos franceses. Hoje, parte da sociedade brasileira assiste inerte, é complacente, apoia ou apoiou usurpadores que vão reduzindo a pó o pouco de direitos e garantias de um povo já miserável.

Na França colaborava-se por ser fascista ou filofascista. Por egoísmo social. Por ressentimento. Por ódio de classe. Para pequenas vinganças privadas, para atingir um inimigo pessoal. Colaborava-se por ausência de qualquer sentimento de solidariedade social. A colaboração com o invasor desvelava a mais baixa extração moral. Quanto a nós, tomo como paradigma uma cena do cotidiano que presenciei dia desses. Duas mulheres ao meu lado conversavam. Uma disse que seu filho de 13 anos era fã do Bolsonaro. A outra, algo espantada, faz uma crítica sutil, perguntando se ela não conversava com o filho sobre política. A resposta: “acho bonito que meu filho seja politizado nessa idade”. Com isto, quis dizer que não importava de que modo seu filho estava precocemente se politizando.

Pode-se razoavelmente supor que ela, mulher, ignore que Bolsonaro disse que há mulheres que merecem ser estupradas? Que saudou, diante de todo país, em rede nacional de televisão, o mais célebre torturador da ditadura militar? Que declarou que prefere o filho morto se ele for homossexual? Como ignorar isso tudo é altamente improvável, porque seria supor que tal mulher vive em uma bolha impenetrável em plena era das redes sociais, podemos concluir, com Sartre, que escolheu o sórdido para si e para seu filho. O que resultará dessa escolha não poderá ser imputado a Deus, ao destino, aos fatos da natureza ou a qualquer fórmula vaga e estúpida do tipo “a vida é assim”, mas a ela mesma e a seus pares brancos de classe média que tem atitudes semelhantes.

Do mesmo modo como a parcela colaboracionista da sociedade francesa escolheu a opressão do invasor estrangeiro, parcela da sociedade brasileira escolheu o retrocesso, o obscurantismo e a selvageria.

Foi em massa às ruas em nome do combate à corrupção apoiando um processo político liderado por notórios corruptos.

Regozija-se com o câncer e com o AVC do adversário politico, demonstrando completa ausência de qualquer traço de fraternidade e respeito ao próximo.

Suas agruras e dificuldades econômicas e sociais transformam-se em ódio justamente contra os excluídos e em apoio às ricas oligarquias que controlam a vida política do país (das quais julgam-se espelhos), a fórmula clássica do fascismo.

Permanece indiferente, omissa ou dá franco apoio ao aniquilamento de direitos, ao fim, na prática, da aposentadoria para milhões de brasileiros, à eliminação dos direitos trabalhistas, à entrega do patrimônio nacional a grandes empresas estrangeiras.

Seu ódio transforma em esgoto as redes sociais.

Não há como prever o que acontecerá a esta sociedade. Uma convulsão social poderá desalojar os usurpadores do poder, ou poderemos seguir para o cadafalso como povo. A História sempre é prenhe de surpresas. O que é certo, no entanto, tomando a frase de Sartre, é que somente poderão dizer no futuro que foram livres, no Brasil pós-golpe de 2016, os que agora estão se comprometendo e resistindo. É uma trágica liberdade de tempos sombrios, mas se nos foi dado viver neste tempo, que vivamos com a dignidade que somente os seres livres podem ostentar.

Hoje são livres os que resistem.""

Por Marcio Sotelo Felippe (pós-graduado em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Procurador do Estado, exerceu o cargo de Procurador-Geral do Estado de 1995 a 2000. Membro da Comissão da Verdade da OAB Federal.)

https://www.facebook.com/search/top?q=carlos%20emilio%20faraco

outubro 14, 2021

VOCÊ RECONHECE ESSE NEGRO?




Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que visa a dar mais segurança jurídica ao reconhecimento de suspeitos de algum crime por foto ou, mesmo, por comparação do suspeito com outras pessoas.

Não posso julgar se o projeto é bom ou ruim, porque, muitas vezes, as boas intenções de uma lei esbarram na péssima redação dessa lei, deixando verdadeiras armadilhas jurídicas de que se aproveitam os advogados, para condenar ou absolver seus clientes.

No entanto, é importante que se dê menos peso ao reconhecimento facial por meio de fotos ou de apresentação de suspeitos para comparação, principalmente quando se está diante de indivíduos pretos ou pardos.

Isso, não só por causa da dificuldade inerente a esse reconhecimento, mas principalmente porque muitas pessoas “brancas” não têm olhos para ver corretamente as feições negras. O racismo histórico de nossa sociedade invisibilizou a população negra. O branco não olha realmente para o negro, apenas percebe sua cor, por isso não sabe reconhecer seus traços. Os olhos “brancos” não distinguem sutilezas nem mesmo de coloração da pele: há pretos mais pretos e pretos mais claros, uma vasta paleta de cores.

Também os traços de rostos negros revelam milhares e milhares de detalhes diferentes, assim como todos os humanos, mas os humanos brancos apenas veem “o negro”, não o indivíduo de cor negra, um ser humano como outro qualquer, reconhecível por suas características idiossincráticas. Para o humano “branco”, o humano negro é só uma massa uniforme e indistinguível de caracteres, como se todos fossem quase uma única pessoa, como se todo negro fosse igual ao outro.

É claro que essa minha opinião de que o “branco” não sabe reconhecer sutilezas das feições negras é uma generalização, para efeito de desenvolver um raciocínio de que há ainda muito a se fazer em termos de combate ao racismo em nossa sociedade e, portanto, não quero dizer com isso que todo branco seja racista ou que todos os brancos não tenham “olhos de ver” e reconhecer os pretos e pardos.

Feito esse esclarecimento, concluo dizendo ser de grande importância um projeto que realmente dê mais segurança ao processo de arrolar provas de um crime. E, principalmente, que as autoridades policiais e jurídicas passem a ver com muita desconfiança e com extremo cuidado os testemunhos baseados em reconhecimento facial, principalmente de suspeitos de cor negra. Nossas prisões estão abarrotadas de pessoas pretas inocentes reconhecidas mal e porcamente por testemunhas brancas, cujos olhos, obscurecidos pelo maldito racismo, não conseguem perceber diferenças e características absurdamente diferentes de uma pessoa para outra, quando se trata de pretensos suspeitos pretos ou, até mesmo, pardos.

outubro 03, 2021

NÃO LHES BASTA SER ANTICOMUNISTAS: SÃO TAMBÉM FASCISTAS

 



Os comunistas da década de 30 do século passado protagonizaram a oposição mais feroz ao estado novo de Getúlio Vargas, conforme escrevi no texto anterior - A CONSTRUÇÃO DE UMA MENTIRA: O COMUNISMO NO BRASIL – replicando aqui as escaramuças entre eles e o fascismo que ocorriam na Europa.

Portanto, os fascistas tinham todo o motivo do mundo para odiar os comunistas e vice-versa.

Passados todos esses anos, sabemos que nunca houve regime comunista no Brasil; que a famosa revolta vermelha de 1935 não passou de um traque, devidamente sufocado pelas tropas fascistas de Vargas; que nunca houve e não há qualquer possibilidade de o Brasil se tornar comunista; que essa desculpa esfarrapada – usada também pelos generais carniceiros do golpe de 1964 – já devia estar devidamente sepultada como uma das grandes mentiras das tantas que se contam sobre nossa história.

No entanto, ressuscitam o “perigo vermelho”, com bobagens como “o Brasil nunca será comunista”, “vá para Cuba”, “aqui não é a Venezuela” etc., num verdadeiro atentado aos fatos, à realidade, à História (com H maiúsculo), que esses idiotas não conhecem e tripudiam sobre ela, já que são todos ignorantes que usam sua insipiência como os homens das cavernas deviam usar seus porretes para abater a caça.

Quem são eles?

São os seguidores do atual presidente da república, os trogloditas de hoje a ressuscitar slogans de ontem, para extravasar seu ódio ao povo, como se fossem todos eles “nobres” brancos e pertencentes às altas elites econômicas, e não pobres idiotizados por um “mito” analfabeto, grosseiro, assassino e genocida.

Na sua “santa” ignorância, não contentes de ressuscitar o anticomunismo, flertam abertamente com o fascismo, defendendo bandeiras (não as chamo nem de ideias) muito semelhantes às defendidas por Mussolini e Hitler:

· um estado miliciano, com o povo armado até os dentes: os seguidos decretos do inominável que, até mesmo contrariando leis existentes, tentam facilitar a venda de armas, ironizando os que preferem comprar feijão/comida a comprar armas; a repetição de gestos com as mãos imitando armas, para se identificarem;

· a destruição da cultura e das tradições: o ódio do atual governo a tudo que se refira à cultura e à educação, colocando no comando dessas duas áreas indivíduos totalmente despreparados para os cargos, mas que se alinham com os preceitos de manter o povo na ignorância;

· o racismo estrutural, para manter invisível a população negra, de preferência em guetos, nas periferias e nas favelas, longe das escolas e faculdades e o índio, visto como ameaça a seus interesses econômicos, o que os leva a defender grileiros, madeireiros e garimpeiros que destroem a floresta e o meio ambiente, sem respeitar as terras indígenas;

· a defesa da família tradicional, com toda a carga de ódio a homossexuais e a qualquer desvio do que eles definem como moral, uma moral que tem origem na estupidez de religiões fundamentalistas que se dizem fiscais do corpo alheio, enquanto enchem seus cofres com a exploração da fé do povo;

· a misoginia, que coloca a mulher como dependente e até escrava do homem, seu senhor e dono, o que incentiva o aumento dos crimes de feminicídio;

· o nacionalismo fanático, com o culto a símbolos como a bandeira e as cores nacionais, para ocultar seu entreguismo tosco e sua obediência cega a um falso líder que nada tem para lhes oferecer, senão palavras vazias de ódio, de incompetência e de destruição das políticas voltadas para recuperação do Estado e para a melhoria das condições sociais da população;

· o negacionismo, que é a excrescência maior de sua estupidez, a fazer campanhas contra a ciência; a defender a “terra plana” (muitos nazistas acreditavam na teoria da “terra oca”); a fazer campanhas contra a vacinação, o que pode levar nosso país a ressuscitar doenças endêmicas que pareciam erradicadas; a não acreditar nos alertas dos cientistas sobre o aquecimento global;

· o totalitarismo, com a defesa de ideias antidemocráticas, principalmente dos ditadores assassinos do regime militar: além de algum manual do exército, o atual presidente parece que leu (se é que leu!) apenas mais um livro em toda a sua vida: a biografia de um dos mais tenebrosos torturadores da época da ditadura de 64; e seus seguidores vivem defendendo o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal e a prisão de seus membros;

· divulgação de mentiras através das mídias sociais, utilizando a velha e desgastada máxima nazista de que uma “mentira mil vezes repetida torna-se verdade”, contribuindo ainda mais para o estado de ignorância do povo etc. etc.

Enfim, não lhes basta ser anticomunistas: precisam tentar impor e divulgar sua estupidez asinina através da defesa de bandeiras e ideais fascistas, como se todo o povo fosse ignorante como eles. Para isso, pregam o ódio, a dissenção e até a morte dos opositores, tal como fazia o estado novo getulista, que perseguiu, prendeu e matou muitos cidadãos, modelo copiado e levado ao extremo pelos ditadores militares de 1964.

Confundem direito de opinião, assegurada constitucionalmente, com o direito de propagar ideias que podem levar milhares de pessoas a evitar a vacinação contra a covid-19, a não se tratar e a confiar em drogas condenadas pela comunidade científica internacional, contribuindo para o aumento exponencial das mortes, durante a pandemia que assola o mundo e, especialmente, o Brasil, por incompetência desse governo negacionista que eles defendem.

Que a História não se repita numa trágica farsa de consequências inimagináveis e que os verdadeiros cidadãos deste País possam dar a esses facínoras, o mais rápido possível, uma resposta à altura, na defesa do Estado de Direito e de todas as Liberdades duramente conquistadas a partir da Constituição de 1998.


setembro 30, 2021

A CONSTRUÇÃO DE UMA MENTIRA: O COMUNISMO NO BRASIL

 


Sempre me incomodou essa estúpida ideia que o imbecil do atual presidente e seus seguidores divulgam com a boca cheia: de que ele livrou o Brasil do comunismo. E parece que o comunismo é o inimigo a ser combatido, como se estivessem os seguidores dessa ideologia política de armas em punho a aguardar atrás de cada árvore, de cada porta, de cada morro, para tomar de assalto o poder e matar todo mundo.

Fui em busca dos motivos por que se incutiu na mente das pessoas esse medo pânico de algo que não existe e nunca existiu. Uma pesquisa quase inglória, já que nem sabia bem por onde começar a procurar. Então, quase por acaso, encontrei o trabalho de dissertação de Felipe Menezes Pinto - O VERMELHO E O NEGRO: Intolerância, Construção da Identidade Nacional e Práticas Educativas durante o Estado Novo (1937 – 1945), de 2011, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, tendo como orientadora a Professora Dra. Regina Helena Alves da Silva.

Nesse trabalho, o autor disseca a ideologia implantada por Getúlio Vargas nas escolas do País, tendo como principais eixos a educação moral e cívica, como o culto a valores e símbolos nacionais, principalmente o culto à bandeira nacional; a invisibilização da população negra, considerada como indesejável, num racismo sutil e deliberadamente construído para levar ao “embranquecimento” da nação e, por último, a intolerância aos vermelhos, considerados como inimigos do povo e do Brasil.

Percebe-se claramente um propósito nesses três eixos que eram desenvolvidos através dos livros e das instruções pedagógicas do Ministério da Educação: formar uma geração extremadamente nacionalista, anticomunista e racista. Não é necessário dizer que os objetivos foram obtidos com bastante sucesso: e somos nós os filhos, netos e bisnetos dessa geração. Fomos todos nós que aqui vivemos hoje criados de forma direta ou indireta por avós e pais nacionalistas (de um nacionalismo utópico e exacerbado, que acredita que o “gigante adormecido” precisa ser acordado, para a felicidade de todos – mote que aparece até hoje em manifestações fascistas – o que foi bastante explorado pela ditadura militar, a partir de 1964), racistas (de um racismo estrutural, cujos males ainda sentem na pele os negros e pardos, relegados quase sempre às favelas – as modernas senzalas - e à marginalização social, escolar e econômica) e anticomunistas.

O anticomunismo tem seu nascedouro nos anos 20 do século passado, após a revolução russa, cujo sentido e objetivos nunca foram bem compreendidos pelo Ocidente, principalmente quando a Rússia se transformou, sob o domínio de Stálin, de um país medieval em uma nação poderosa, embora à custa de muitas vidas e, infelizmente, também da atroz perseguição desse líder a seus opositores. A sombra de Stalin e, por extensão, do comunismo, assombrou a Europa e os Estados Unidos, por razões que não nos cabe discutir aqui, principalmente razões políticas e econômicas. A chamada “guerra fria”, estabelecida entre as duas potências que emergiram da segunda grande guerra – Estados Unidos e União Soviética – só fez agravar o medo ocidental do comunismo, visto como ameaça a todos, embora só ameace mesmo o capitalismo e os capitalistas, ciosos de seus negócios e temerosos de perder suas vastas propriedades.

No Brasil, criou-se o mito da “intentona” comunista, um golpe que parece sair das sombras de um poderio que os comunistas nunca tiveram. O interessante é que a Aliança Nacional Libertadora, fundada em 1935 por Luís Carlos Prestes, tinha por principal intenção refletir no Brasil o que acontecia na Europa, os embates violentos entre comunistas e fascistas, ou seja, tentar derrubar – sim, derrubar! – o governo fascista de Getúlio Vargas. Pretendiam, nessa empreitada, contar com o apoio dos operários, mas isolados em Natal e Recife, foram derrotados e isso serviu de pretexto para a decretação do Estado Novo, principalmente com a divulgação de um falso Plano Cohen e sua ambição de tornar o Brasil um país comunista.

Portanto, o anticomunismo brasileiro nasce de um imenso engano – a força dos comunistas –, de uma falsidade histórica (uma fake News) – o plano Cohen – e de uma verdade – a luta contra o fascismo. Se o fascismo getulista se revelou uma nuvem negra que passou e se foi, embalado por interesses políticos e econômicos e pela estratégia de atração dos Estados Unidos, ao afundar navios brasileiros na nossa costa e atribuir essa ação à Alemanha (um fato que não se comprovou totalmente, mas que faz parte do mística da adesão de Vargas às forças aliadas), o anticomunismo permaneceu, implantado desde os primeiros anos do governo de Getúlio, através de um processo educacional bastante eficiente.

Para se ter ideia do que foi esse processo de implantação da mentalidade anticomunista em nossos jovens, veja esse texto de uma obra publicada em 1938: “No Brasil, em qualquer recanto desta grande e hospitaleira terra, terá de predominar o nosso sangue; terá de imperar a nossa língua portuguesa-brasileira, ainda que, para isso, tenhamos que amordaçar algumas bocas; terá de prevalecer a nossa história, nem que tenhamos de fuzilar todos os bolchevistas do mundo [...]” (TABORDA, Radagasio. Crestomatia cívica: uma só pátria, uma só bandeira!. 1. ed. Porto Alegre: Globo, 1938. Acervo Memória Infantil da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa), conforme a tese do professor Felipe Menezes Pinto, citada acima.

E assim, todo material didático destinado às nossas escolas estava eivado de citações diretas ou indiretas que incentivavam o medo e o ódio ao comunismo. Isso durante todo o chamado “estado novo” e, com certeza, de forma mais sutil após esse período, mas sempre a pregação do anticomunismo permaneceu mesmo durante os breves períodos democráticos e foi incrementado às mentes das crianças e dos jovens a partir do golpe de 1964. Aliás, a desculpa, mais uma vez esfarrapada para a ditadura militar, foi o velho refrão do “perigo vermelho”, já que essa ideia estava implantada na cabeça de todos e devidamente cultivada pelas nossas instituições, como a igreja, as associações comerciais e agrícolas, a escola, a imprensa etc.

A palavra “intentona” tem o sentido de “tentativa tresloucada, projeto insensato”, além da própria sonoridade soturna, o que a tornou uma espécie de “bicho papão” para o populacho, que mal conhece o seu significado. Dado à insurreição comunista de 35, um movimento que teve repercussão a repercussão que interessava aos donos do poder, essa palavra serviu de mote para amedrontar a população e até hoje a maioria da população acha que o Brasil ou foi comunista em algum momento ou esteve à beira de sê-lo. Tornou-se, portanto, um meme, uma mentira repetida como se verdade fosse; um fantasma a assombrar as mentes dos idiotas bolsonaristas de hoje, a servir de pretexto para bobagens e falsidades históricas de quem não conhece os fatos e não se interessa por conhecê-los.

Portanto, repito: nunca houve ameaça comunista no Brasil nem qualquer possibilidade de que isso acontecesse. E mais: comunismo não é exatamente aquilo que as pessoas mal-informadas pensam que é: só quem tem medo de uma doutrina que prega o fim da desigualdade social, que deseja emprego e uma vida melhor para o povo são as oligarquias que não querem largar o osso da sua condição de senhores de escravos (todos nós que não fazemos parte das elites econômicas) e donos das riquezas do Brasil.

Somos, a nossa geração, filhos, netos e bisnetos de um engodo construído pelo chamado “estado novo” fascista de Getúlio Vargas, cujo governo tem contradições históricas de defesa do fascismo, num nacionalismo doentio e absurdo, e de aliado das forças estadunidenses na segunda grande guerra até ao alinhamento à política econômica dessa nação após a guerra. E esse alinhamento automático ao grande “irmão” do norte tem sido a tônica de nossos governos, com honrosas exceções, desde a década de 30 do século passado, transformado muitas vezes em total subserviência.

Esse nosso anticomunismo é, portanto, absurdo, estúpido, sem qualquer base histórica e, pior, profundamente injusto para com nós mesmos, um antolho em olhos de burros, já que nos impede de perceber a importância política de apoiarmos partidos de esquerda que possam levar nosso país a suplantar a desigualdade e a miséria, através de políticas sociais e educacionais libertadoras, partidos que tenham ideais patrióticos sadios e não uma política entreguista, como vêm pregando e estabelecendo com muita competência os falsos nacionalistas de hoje.

março 11, 2021

BOLSONARO É O COCÔ DOS CAVALOS DOS BANDIDOS

 



O excremento mal cheiroso da famigerada operação lava jato, que destruiu o país e nos deixou de herança o fétido governo desse nojento, acaba de ser jogado na sentina da história.

Agora temos a certeza do que sempre afirmamos: os degenerados de curitiba tinham uma só ideia na cabeça: destruir o PT, impedir Lula de concorrer à presidência.

Para isso, fizeram alianças espúrias com o "grande irmão do norte", inventaram provas, corromperam testemunhas, trouxeram ideologias jurídicas alheias ao nosso sistema de direito, manipularam sentenças e destruíram a Petrobrás.

Se todos os juízes fossem honestos e isentos, não havia necessidade de instâncias várias, para tantos recursos. No entanto, a operação lava jato reuniu numa só quadrilha juízes, promotores, advogados não só da primeira instância, mas também da segunda. Todos ideologizados no único objetivo de destruir o PT, prender o Lula e deixar um rastro de merda que culminou com a eleição desse indivíduo que é a condensação de todas as ideologias de poder baseado na eliminação de todo e qualquer pensamento crítico, de qualquer outra ideologia que não comungue com seus objetivos torpes de tornar o Brasil uma nação "cristã" no pior sentido do conservadorismo e do moralismo, para se perpetuarem no poder e, assim, rapinarem melhor os cofres públicos, jogando o país nas trevas do negacionismo e da estupidez.

Bolsonaro e seus asseclas estão destruindo a educação, a saúde, o meio ambiente, a cultura, a ciência, a indústria e qualquer possibilidade de desenvolvimento do país. Não há uma só medida tomada por esse desgoverno que tenha por objetivo sanar as diferenças sociais, tirar o Brasil do atoleiro do subdesenvolvimento e retomar o crescimento.

Qualquer um que seja pró-desenvolvimento, que pense em melhorar as condições do povo, que sonhe com um país melhor é taxado de "comunista", de "progressista", como se isso fosse um crime. E o gado aplaude.

Das mais de 250 mil mortes por covid-19 ocorridas aqui, metade poderia ter sido evitada se esse degenerado não tivesse sido tão estupidamente negacionista, se tivesse tomado medidas imediatas de enfrentamento da pandemia, se tivesse feito acordos com as farmacêuticas que desenvolviam vacinas (como muitos países o fizeram), se tivesse apoiado governadores e prefeitos nas medidas de distanciamento social, se não tivesse destruído o programa mais médicos (os cubanos teriam tido um papel importante na orientação das populações carentes nas medidas de prevenção), se não tivesse se aferrado a divulgar notícias falsas e a defender medicamentos que não funcionam, se, enfim, tivesse liderado com responsabilidade a luta contra o corona vírus.

Por tudo isso, Bolsonaro, esse imbecil, canalha, prepotente, ignorante e estúpido presidente saído da cloaca do lavajatismo, é, sim, o ASSASSINO DE MILHARES DE BRASILEIROS, por sua incúria, estupidez e incompetência.

BOLSONARO É O COCÔ DOS CAVALOS DOS BANDIDOS DA LAVA JATO.


novembro 24, 2020

NÓS, OS VIRA-LATAS...

 



Nós, os vira-latas, os excluídos, os oprimidos, os assalariados; nós, os brancos, os pardos, os negros, os indígenas, os amarelos e todas as demais cores do espectro que nos querem dividir em raças; nós, seres humanos de todas as etnias que habitam este país; nós, as mulheres e as lésbicas e as transexuais e as bissexuais; nós, os homens heterossexuais, os homossexuais, os transexuais, os bissexuais, e tantas outras denominações que se nos deem; enfim, nós – o povo que nesses quinhentos anos de governos elitistas, queremos lançar nosso uivo de vira-latas exaustos de todas essas injustiças perpetradas contra nós. 

Queremos dizer que não basta construir hospitais, e o povo continuar vivendo amontoado em favelas, em ocupações, em quilombos, em aldeias e vilas sem saneamento básico, com as pessoas, principalmente as crianças, pisando na merda, vivendo na merda, adoecendo e morrendo como moscas. Queremos dizer que não basta construir escolas e uma grande parcela da população continuar passando a fome endêmica que leva à subnutrição e à apatia, que leva à evasão escolar, que leva à gravidez precoce e à prostituição de nossas jovens. Queremos dizer que não basta construir obras faraônicas como hidrelétricas e abrir estradas e construir aeroportos e avenidas, se o povo continua com empregos mal pagos, com mulheres e pessoas negras ganhando menos do que os brancos, com milhões de desempregados ou subempregados a viver de subterfúgios e das migalhas que caem da mesa dos ricos. 

Queremos dizer que não mais aceitamos que essa elite empresarial burra que destrói florestas e polui nossos rios em nome de um capitalismo selvagem e assassino continue sua obra demoníaca. Queremos dizer que não mais aceitamos que o capital financeiro tenha a palavra final sobre nossas vidas, nossos destinos e nos escravize e não nos dê nenhuma réstia de esperança. Queremos dizer que nosso uivo, nosso grito de protesto, não vai mais deixar que eles – os poderosos desse país – comam em paz o seu caviar, se nós, o povo que lhes propiciamos os recursos para suas orgias com nosso braço, nossa força de trabalho, continuamos a comer o pão que o diabo amassou, isso quando ainda temos algum pão para comer, porque uma grande maioria mal consegue uma só refeição digna por dia. 

Queremos dizer que nós, os vira-latas, vamos tomar nosso destino em nossas mãos e, através de nosso uivo, vamos incomodar todos os dias do ano, todas as horas do dia, com nosso protesto e com a exibição de nossas mazelas em todos os meios de comunicação, a placidez dessa elite que nos olha apenas como mão de obra descartável e como seres dotados de apatia e covardia para lutar por seus direitos. 

Sim, nós, os vira-latas, temos direitos e vamos exigir que o poder seja devolvido a nós, que somos maioria, que constituímos o verdadeiro pilar dessa nação. Queremos hospitais, queremos escolas, queremos obras, mas também queremos saneamento básico e moradias decentes; e rios limpos, e florestas em pé, e ares despoluídos e respiráveis. Queremos emprego decente e remuneração digna para todos. Queremos igualdade social, por mais utópica e absurda que os senhores julguem tal coisa. Acreditamos que ninguém precisa ter dez carros na garagem, cinco aviões, três helicópteros, várias mansões. Acreditamos que o acúmulo de riqueza nas mãos de uns poucos constitui um crime contra a humanidade. Acreditamos que grandes fortunas são uma injúria à própria existência do ser humano. Não somos contra o conforto, a vida digna, mas o conforto e a vida digna devem ser direito de todos e não apenas de uns poucos. Os privilégios dessa casta que tem suas mãos a indecente maioria de mais de noventa por cento da riqueza do país representam a morte de milhares e milhões de homens, mulheres, crianças, por doenças endêmicas, pela fome, pelo desespero de não ter outra perspectiva a não ser baixar a cabeça. E isso é um atentado à dignidade e à existência do ser humano sobre a terra. 

E se essas ideias os amedrontam, se acham que não podem dividir com todos as suas riquezas e que não podem viver sem suas mansões, seus incontáveis bens que só servem para que desfilem sua arrogância e seu poder de dominar e escravizar, ouçam bem o que digo: a revolução dos miseráveis e escravizados, dos famintos e dos desassistidos chegará um dia e a revolta desse povo levará a luta para dentro de seus castelos e e de suas bastilhas aparentemente inexpugnáveis. 

A fome, o desespero, o não ter nada mais a perder levarão um dia as massas incontroladas a tomar com a força de suas mãos – a única arma que possuem – os direitos e a dignidade que almejamos e os poderosos não querem conceder por bem. E nesse dia, quando os escravizados levantarem a cabeça e perceberem que são maioria, não deixarão pedra sobre pedra nos domínios dos poderosos, porque esse uivo, esse grito que agora lançamos, terá se transformado em ódio, em brutalidade, em destruição. 

Portanto, que ouçam nossos lamentos, que atendam nossas reivindicações - a partir de agora - e que nos próximos anos não deixem que nosso uivo caia no descaso de sua indiferença, pois o preço dessa indiferença será a revolução radical dos desesperados, quando, não tendo mais nada a perder, estarão dispostos a jogar tudo, a morrer lutando, mas, antes de morrer, destruirão os seus castelos, os seus domínios e deixarão arrasada uma terra que tem tudo para uma convivência harmônica e menos cruel. 

Nós, os vira-latas, estamos avisando e quem avisa sabe do que é capaz uma horda de famintos e desesperados. Ouçam, portanto – agora! - o nosso grito, o nosso uivo!

agosto 23, 2020

E A DIREITA CRIOU O MONSTRO

 



A direita hidrófoba jamais imaginou que o governo de Dilma Rousseff daria certo. Seu perfil mais “duro”, em termos políticos, que beirava à inabilidade para tratar com os entes federativos, principalmente com um Congresso conservador, para dizer o mínimo, fazia prever um governo abaixo do que foram os anos de Lula. No entanto, Dilma superou as expectativas, chegando ao final de seu mandato com taxas de aprovação recordes, o que levava à possibilidade de sua reeleição. E o Partido dos Trabalhadores não teve outra opção, diante de sua disposição de disputar mais um mandato, senão o de sagrar o seu nome, quando tudo caminhava para uma nova candidatura, mais lógica, de Lula. E o próprio Lula, democraticamente, cedeu a vez à companheira. Não se atentou para o desastre que já se previa no horizonte, com as articulações da direita para impedir que Dilma alcançasse a vitória. O PT foi tomado, por um momento, da síndrome de Casssandra: não viu, ou não quis ver, que o futuro já se desenhava no presente, com a campanha da mídia de direita a desconstruir todos os dias o governo de Dilma, com as articulações no Congresso, para jogar no colo da presidenta um conjunto de medidas econômicas que a impediriam de governar, as chamadas “pautas bomba”. 

Todo o cenário estava armado e devidamente arrumado para a vitória de Aécio Neves, no segundo turno. A apuração seguia apertada e, até os últimos votos computados, parecia que o plano da direita estava dando certo. Chegaram até a comemorar a vitória. No entanto, Dilma venceu. Por uma margem não muito grande de votos, mas venceu. E a direita esperneou. Esperneou e começou a agir, quase que imediatamente. Dilma já tomou posse com o bafo quente dos golpistas no seu encalço. Os índices econômicos que, até seis meses antes das eleições, colocavam o País no caminho de um círculo virtuoso de crescimento, de baixas taxas de inflação e pleno emprego, começaram a desabar, por obra e graça do empresariado cooptado pela campanha sórdida da mídia: meteram o pé no freio dos investimentos e começaram, literalmente, a chutar a bunda dos trabalhadores, fazendo aumentar os índices de desemprego. É provável que tenham se arrependido mais tarde, já que, vindo o golpe, derrubado o governo de Dilma, o País não conseguiu retomar o mesmo grau de investimento e desenvolvimento anteriormente alcançados: o governo do traidor Temer, além de todas as suas mazelas políticas e de corrupção desenfreada, mostrou-se também incompetente para tirar o Brasil do buraco em que se metera. 

Mas, de arrependimentos não vive a direita hidrófoba nesses pobres trópicos. Era tocar o bonde, que o poder era deles, e devia continuar em suas mãos. O PT fora colocado para escanteio, com a ajuda dos canalhas da operação lava jato, com a prisão de Lula e com toda a campanha de ódio contra os petistas, desencadeada pela mídia comprada e vendida, como sempre. 

Era um céu de quase brigadeiro para a direita. No entanto, enquanto isso, o famigerado centrão do Congresso urdia uma trama maléfica do fundo da podridão política em que se move, para engendrar um monstro. Esse “centrão”, formado por uma massa amorfa de deputados sem nenhum pudor ou sem nenhum sentido de patriotismo, de ética parlamentar, que não seja a defesa de seus interesses difusos, todos eles relacionados, claro, aos aspectos mais degradantes da vida pública, agrupa um bando de corruptos e espertalhões provindos dos rincões mais conservadores da política brasileira, onde ainda se praticam o voto de cabresto, o toma-lá-dá-cá, a troca de favores e favorecimentos, a corrupção mais deslavada. Esse centrão já dera demonstração de sua força, quando elegeu, em 2005, Severino Cavalcanti como presidente da Câmara. Ganhara experiência e, agora, chegara a sua vez de interferir de uma vez por todas nos destinos da Nação. Engendrou, então, o monstro que, já há alguns anos começara uma carreira política absolutamente anódina, medíocre, mas que conquistava pouco a pouco mentes e corações desprevenidos – ou não – com sua pregação de extremismos e arroubos pseudo-patrióticos. Essa figura ganhou notoriedade durante os embates do impeachment de Dilma, principalmente quando, ao declarar seu voto, homenageou um notório torturador da época da ditadura militar. Esse ser, que não tinha nenhum perfil político para chegar aonde chegou, que não estava nos planos de nenhum dos vários espectros da direita, eu chamo de “mulo”, uma “coisa” que não é natural e, portanto, não podia ser prevista, como num dos livros futuristas de Isaac Asimov, Fundação, quando a galáxia, mergulhada em lutas políticas entre várias facções, não percebe a ascensão do Mulo (aí, personagem, portanto com letra maiúscula). E o “mulo” da política brasileira tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. 

Se o PT errou, quando aceitou a indicação de Dilma para concorrer ao segundo mandato, atraído pelo canto das sereias de uma continuidade que lhe permitiria governar o País por, pelo menos, 24 anos, a direita também errou, quando não encontrou um novo Aécio Neves que lhe desse potência de voz, se dividiu em vários candidatos à sucessão de Temer e, principalmente, quando imaginou que o “inimigo” estava definitivamente fora de combate. Não estava. E o segundo turno trouxe uma surpresa para a direita: o embate entre Bolsonaro, o “mulo”, e Haddad, o candidato do... PT! 

A direita, atônita, quase nas cordas, não se deu por vencida. Já que não podia se aliar ao “inimigo”, que se buscasse uma saída para engolir a pílula amarga e o risco que seria eleger esse “mulo”. Apoiou 
Bolsonaro, com o pacto sinistro de manter pelo menos um aspecto crucial para seus interesses: a economia. Aceitaria, sim, um governo que tinha tudo para ser um desastre anunciado em praticamente todas as áreas, se pudesse ter um de seus próceres como ministro da economia. Vão-se os dedos, fiquem os anéis. E pariu o guru econômico do mulo, o famigerado Paulo Guedes, um obscuro financista e especulador financeiro, formado pela escola de Chicago, que tinha/tem o perfil para não deixar que o “mulo”, um perfeito ignorante de tudo quanto se refere à economia, não se aventurasse e não se aventure por caminhos não desejados. 

O que aconteceu todos sabemos: emulado (sem trocadilho!) por um falso atentado que, até hoje, ninguém investigou a fundo e pelo velho truque de não comparecer a nenhum debate, para não se expor, já que ficaria flagrante seu despreparo, diante de raposas da política e até mesmo de candidatos muito mais inteligentes e espertos do que ele, o “mulo” virou definitivamente o mulo: para surpresa de todos, venceu! 

Não tem o mulo que preside esta pobre Nação nenhum programa de governo, nenhum princípio ético, nenhum outro objetivo que não seja a imposição de suas ideias toscas e absurdas, de seu falso patriotismo, eivado de preconceitos étnicos, sexuais, religiosos e, principalmente, seu intuito de destruir tudo o que foi construído pelo “inimigo”, ou seja, pelo Partido dos Trabalhadores, durante os anos que o precederam. Não tem políticas para a educação, nem para a saúde. Não tem programas sociais. Não tem, enfim, nada que se possa prever que algum dia tenhamos alguma possibilidade de trilhar por algum caminho que não seja o desastre. Salva-se a economia? Talvez, por enquanto. A corda é bamba e Paulo Guedes é o equilibrista dos empresários, entre tantos desmandos. Se o governo do mulo tem sido demolidor do presente, ao destruir tudo o que foi construído, tem tido ainda mais sucesso na destruição do futuro: ao colocar o playboy e alpinista social, Ricardo Salles, à frente do Ministério do Meio Ambiente, escancara sua face mais cruel, já que toda a política ambiental desse ser desprezível se concentra em entregar a Amazônia e toda a fauna e flora brasileiras nas mãos dos interesses de madeireiros, de garimpeiros e da facção imediatista e estúpida do agronegócio que não olha para o futuro e quer apenas o lucro, sem preocupação com o futuro, com a mudança climática, com a possibilidade até mesmo de o Brasil se tornar, em pouco tempo, um amplo deserto inútil para a agricultura e a pecuária. E tem mais um ponto de crueldade em tudo isso: o descaso para com os indígenas, o que supõe uma política genocida de nossos primeiros brasileiros. 

Enfim, isto é o que plantou o ódio que se disseminou pelo País, a partir do ódio ao PT e a tudo que seja de esquerda: um governo genocida, criminoso, incompetente, surreal. 

A saída? Nem pelos aeroportos, fechados quase todos pela pandemia. Nenhum outro país nos quer. Então, só nos resta a saída da Justiça, com o Tribunal Superior Eleitoral cassando a chapa Bolsonaro-Mourão, pelos seus vários crimes eleitorais, ou a saída do impeachment, o que pode ser um tiro no escuro – para usar uma metáfora de violência, de que tanto gostam os neo-fascistas que nos governam -, se assumir a outra besta que está na vice-presidência.