abril 12, 2019

JEAN WYLLYS: DO BIG BROTHER AO AUTO-EXÍLIO





A entrevista do ex-deputado Jean Wyllys ao Pedro Bial, levada ao ar nesta madrugada de 10 de abril de 2019 foi, além de comovente, um momento para lembrar um fato que nos passa despercebido na história recente do Brasil: o processo de idiotização da população brasileira. 


Em 2005, o ex-deputado participava do reality da Globo e foi escolhido para o paredão na primeira votação entre seus pares, por um número expressivo de votos. Não teve dúvidas e escancarou o motivo: preconceito, homofobia, por ser gay. 


O Brasil começava, nesse ano, um ciclo virtuoso de crescimento, de bem-estar social, de mudanças de mentalidade, de perspectiva de melhorias em todos os setores. O povo começava a perceber que podia, sim, confiar no presidente que elegera e que dera início a uma série de medidas de proteção social. Havia confiança. As mazelas tradicionais – pobreza, preconceito racial, homofobia, sexismo etc. – começavam a ser discutidas de forma racional e incisiva. Não se resolviam ainda, mas andava a caminho uma política de tolerância que prometia frutos de médio e longo prazos. 


O povo que assistia ao BBB solidarizou-se com a luta da militância LGBT e não só salvou Jean Wyllys da eliminação, como levou-o a ganhar o prêmio máximo do programa. Começava aí a trajetória de sucesso de um garoto miserável que lutara a vida toda contra a pobreza e o preconceito: na política, eleito deputado, recebeu prêmios por sua atuação, por sua militância e, ao mesmo tempo, começou a incomodar as forças conservadoras que o levaram a renunciar ao terceiro mandato, por ameaças de morte vindas até de autoridades. 


O que mudou nesses 13 ou 14 anos, para o país se tornar um poço de ódio, preconceito, racismo e homofobia? 


Nessa década meia, observemos um fenômeno: o crescimento exponencial das igrejas evangélicas, comandadas por indivíduos inescrupulosos e fundamentalistas que, ao lado da exploração da fé do povo através dos dízimos cobrados, obtiveram fortunas e poder. 


Caíram como um bando de gafanhotos famintos sobre a população mais desassistida intelectualmente, aproveitando-se do enfraquecimento da Igreja Católica, enfraquecimento esse ocasionado não só por escândalos, mas também porque a ICAR deixou um pouco de lado a evangelização, que era o seu forte até os anos setenta, mais ou menos. Abriu um flanco pelo qual entraram os tais “pastores”, com a bíblia na mão, prometendo curas milagrosas, prometendo o paraíso e, mais importante, condenando de forma peremptória e feroz tudo aquilo que achavam que era pecado. Cura gay, exorcismos, acolhimento caloroso aos fiéis, orações coletivas, pregações insólitas, truques de curas, controle do corpo dos fiéis, através de proibições e ameaças de fogo eterno, enfim, tudo quanto em termos de discurso amedronta e toca o mais íntimo das pessoas foi usado para arrebanhar multidões, engordar os cofres das igrejas, enriquecer os tais pastores que, mais uma vez numa jogada de marketing certeira, puderam avançar sobre a mídia e comprar várias emissoras de televisão e construir templos faraônicos, num círculo - vicioso para o povo e virtuoso para eles - de dinheiro, controle da mídia e poder. 


Inculcaram na população, com a força da palavra de deus, da bíblia e de todos os artefatos fundamentalistas, conceitos ultrapassados e preconceitos que estavam quase adormecidos, os quais ressurgiram com a fúria dos que temem a contaminação do pecado ao simples contato com o pecador. E o pecado pode ser a homossexualidade tanto quanto a promiscuidade. A velha máxima de repetir mentiras até que se tornem verdades. A velha máxima de controlar os corpos para controlar as mentes. Sexo? Só com a bênção de deus e para procriação. Mulher? Só dona de casa e sob o tacão do marido. Política? É podre, é suja, a não ser que se elejam os homens de deus, ou seja, os próprios pastores. E a bancada evangélica de 2019 é, historicamente, a maior de todos os tempos. Inaugurou-se e impôs-se o atraso. Recuamos não aos tempos bíblicos, mas aos tempos cinza que permitem o controle de um povo que, de repente, descobre ou redescobre – de uma maneira torta – que só há esperança na palavra de deus, na salvação eterna etc. 


Não foi essa força avassaladora de extremismo e de obscurantismo a única responsável pela situação de total estupidificação do povo, mas foi sem dúvida uma força poderosa para que isso acontecesse, para que se elegesse uma besta fundamentalista desconhecida para a presidência do país. 


Com tudo isso, Jean Wyllys, um deputado que ia para um terceiro mandato de sucesso, que, se não tinha a unanimidade da opinião pública, tinha o seu respeito, viu-se de repente no meio de um turbilhão de ameaças físicas e ameaças de morte e, sentindo que não teria condições de exercer com dignidade a função para a qual foi eleito, acabou por renunciar e exilar-se na Europa. Porque, se ficasse, sem dúvida, teria o mesmo destino de sua amiga pessoal e colega de partido, a vereadora Marielle Franco, brutalmente assassinada a mando de uma “poderosa família de políticos do Rio de Janeiro”.



abril 05, 2019

ESTOU COM MUITO DÓ DOS HUMORISTAS BRASILEIROS


(James Guentner)


A profissão de humorista, no Brasil, passa por uma séria (sem trocadilho) crise. Estou com muito dó deles. Bate-lhes à porta o desemprego; bate-lhes à porta o desprestígio; bate-lhes à porta o não ter mais como fazer graça; bate-lhes à porta o fato de que há um fato irreversível: quem vai pagar para ouvir uma piada, nos dias de hoje? 

Os programas humorísticos da televisão vão perder os patrocinadores; os teatros vão-se esvaziar; os humoristas, coitados, passarão a ser vistos, todos eles, como amadores, incompetentes, por não mais conseguirem fazer rir ao povo. 

Lembro os antigos programas e seus grandes nomes: Chico Anysio, Jô Soares, Costinha, Agildo Ribeiro, Manuel de Nóbrega, Juca Chaves, Grande Otelo, Oscarito, etc. etc. etc.; aí estão tantos outros das novas gerações: Tatá Wernek, Marcelo Adnet, Eduardo Sterblish, Fabio Porchat, Rafinha Bastos, Gregório Duvivier, Bruno Mazzeo, etc. etc. etc. – todos eles agora e por algum tempo (é o que se espera) relegados à condição de expectadores inertes de uma realidade totalmente surrealista, a de que não têm mais graça! 

Puxa vida! Nem mais uma piada profissional! Nem mesmo aquelas politicamente incorretas? Nem piada de português, nem racista, nem misógina, nem homofóbica. Até piada de papagaio perdeu a graça. Nada, nada mais que eles digam tem o condão de fazer povo gargalhar, ou dar uma risada, ou um riso sem graça. Sem graça? Sim estão todos sem graça! De repente, ficaram mudos nossos humoristas, embasbacados pelo que anda por aí... 

E o que anda por aí, que embasbacou nossos humoristas? O que está acontecendo que humilhou os mais hábeis piadistas? Que fez o público olhar para eles com cara de ué, e dizer: que é isso, caras? Atualizem-se. Vocês são agora meros bobos da corte sem corte, e até ficaram mais bobos do que bobos da corte, porque suas diatribes piadísticas encontraram concorrentes de peso, embora amadores. 

Sim, meus amigos, surgiu uma nova trupe de humoristas amadores, mas com uma força tremenda de fazer rir, com um repertório absurdo de piadas, com uma capacidade de renovação diária de chistes e gozações, com, enfim, aplomb impossível de ser alcançado por quem passou a vida toda fazendo rir e agora perde o bonde da história, perde a graça, perde as plumas. 

E essa trupe fantástica se instalou no centro do País, com todos os holofotes, com toda a mídia a espalhar e multiplicar para todos, diariamente, seus chistes, suas piadas, seus ditos engraçados, para a gargalhada geral do povo, com um repertorio realmente impressionante, diretamente do Palácio do Planalto, desde o dia primeiro de janeiro do ano da graça (do riso e do escárnio) e da desgraça (dos humoristas e... ai!... de todos nós) de 2019. 

Chorem todos os humoristas, que perdem e perderão seus empregos. Chorem agora, que o povo... bem, o povo vai chorar, sim, mas vai demorar um pouco. Por enquanto, o povo gargalha e ri, como o palhaço triste de um velho soneto.




(P.S.: quem deve estar rolando de rir é o FHC, que passou a faixa de pior presidente da história para o coiso).



março 26, 2019

ADEUS ÀS ÁGUAS DE MARÇO



(Benedito Calixto - inundação da várzea do Carmo, 1892)


Já amainam as temíveis águas de março. E São Paulo sofreu e sobreviveu, mais uma vez, à suas fúrias. Fúrias conhecidas desde tempos imemoriais, desde que, no século XVI, da recém-fundada vila de Piratininga, o padre Anchieta descreve numa carta, uma grande tempestade que, durante duas horas, castigou a vila, arrasou choupanas, provocou inundações. Se pularmos no tempo, pensando que as fúrias continuaram a açoitar a cidade, vamos encontrar um quadro famoso de Benedito Calixto, de 1892, cujo título é “a grande inundação da várzea do Carmo”. E o século XX teve inúmeros casos de “a maior inundação”, basta buscar nos arquivos da imprensa ou mesmo no famoso google. 

Com as águas do verão, fechadas agora pelas fúrias de março, centenas, talvez milhares de árvores caíram, vítimas, algumas, de raios, e a maior parte, vítimas da própria chuva. Também um fenômeno que se tem repetido insistentemente. E reclama a população da falta de “manutenção”, ou seja, de poda, das pobres árvores. E é sobre essas árvores – vítimas tanto quanto nós, seres humanos, não só das fúrias das águas, mas principalmente vítimas do nosso descaso para com elas que eu quero escrever. E descaso, aqui, não tem, absolutamente, nada a ver com podas muitas vezes radicais e assassinas, realizadas em prol de uma pretensa segurança ou da rede pública de fios ou de carros e casas próximos a elas. 

Árvores são seres vivos. E, mais do que seres vivos, são seres garantidores de vida, de melhoria do ar que respiramos; garantidores da qualidade de vida que desejamos; garantidores de nosso bem-estar, ao amenizar os efeitos de temperaturas excessivas, decorrentes da poluição causada pelo ser humano. E como seres vivos devem ser tratadas, as árvores. Devem ser cuidadas para que tenham um desenvolvimento sadio e cresçam e envelheçam sem pragas e com segurança. No entanto, não é exatamente isso o que vemos. O departamento de parques e jardins da prefeitura de São Paulo permite que as árvores plantadas em nossas ruas e avenidas sejam extremamente maltratadas. Isso quando os próprios funcionários não as podam de forma radical e sem critério, expondo seus troncos às intempéries e ao sol escaldante. 

O mais grave: permitem que cimentem ao redor de seus troncos de tal forma que praticamente nenhuma água penetre no solo para alimentar suas raízes. Eu acredito firmemente que essa seja uma das principais razões para a grande quantidade de quedas de árvores na cidade de São Paulo. Uma árvore de grande porte, sufocada pelo cimento ao redor de seu tronco, verá suas raízes diminuírem e secarem no interior do solo, ou não se desenvolverem de forma profunda e adequada à sustentação do tronco, dos galhos e das folhas, na superfície, o que, certamente, irá provocar sua queda, quando a água da chuva encharca seus galhos e folhas e os ventos fortes que acompanham as tempestades encontram uma estrutura frágil, que facilmente desaba sobre casas e carros, provocando prejuízos e a ira de uma população que não percebe ser ela mesma a causa de suas tragédias. 



Podem observar: a maioria das árvores que caem nas ruas e avenidas estavam sufocadas pelo calçamento ao redor de seus troncos. É claro que há outras razões para quedas de árvores durante uma tempestade, mas acredito ser esse um dos motivos principais, algo que poderia ter solução de médio e longo prazo com medidas razoavelmente simples: basta que se alarguem, nas calçadas, o espaço descoberto, sem cimento, sem calçamento, em torno das árvores, para que elas possam receber água em suas raízes que, fortalecendo-se, consigam, na maioria dos casos, sustentar a copa exterior. 

E preciso dizer mais uma coisa importante aos concidadãos dessa megalópole: cuidem das árvores, como cuidam de suas vidas, de suas calçadas, de suas casas. Folhas de árvore no chão não é sujeira, é coisa que uma vassoura e um saquinho de supermercado resolve. Sujeira é cocô de cachorro nas calçadas, quando os donos nãos os recolhem; sujeira é os bares despejaram nas calçadas e nas ruas a água servida da lavagem diária de seus estabelecimentos (e isso é proibido por lei!); sujeira é a ainda absurda existência de estabelecimentos comerciais que não têm ligação de esgoto e soltarem seus dejetos imundos em plena rua, misturados à água da chuva, para disfarçar (e, acreditem, isso ainda existe, sim!); sujeira é jogarem ao chão o lixo de seu consumo diário e constante, desde palitos de picolé até sacos de supermercado e garrafas pet. 

Concluindo: árvores não sujam ruas, árvores bem cuidadas não caem à toa, árvores ajudam-nos a respirar melhor, árvores melhoram o clima. Cuidemos de nossas árvores, plantemo-las por toda a cidade, sem medo, deixemos um pouco de solo descoberto em nossos quintais e até mesmo em condomínios, não impermeabilizemos totalmente nossas ruas, deixemos espaço sem cimento ao redor das árvores nas calçadas, que a natureza devolverá o nosso cuidado com uma bem melhor qualidade de vida. E quando dermos adeus às águas de março dos próximos anos, possamos fazê-lo sem precisar contabilizar tantos prejuízos.

março 19, 2019

O NOVO COLONIALISMO






O colonialismo tradicional, praticado até meados do século XX, implicava domínio do território colonizado, com um governo títere estabelecido ou um governante devidamente empossado, com toda a estrutura burocrática, preocupação com defesa, diplomacia etc. Isso dava muito trabalho, embora tenha sido sempre uma empresa extremamente lucrativa, para o país dominador, claro. Mas, o tempo passa e tudo se sofistica. Tudo se torna mais simples. Ou menos trabalhoso. Então, inventa-se uma nova forma de colonialismo, inaugurada pelos Estados Unidos, já que os países europeus têm outras preocupações lá deles. 

Nada de ocupação territorial etc. etc. etc. Basta colocar um governo títere, que ama os Estados Unidos, depois, é claro, de dar um jeito de convencer o povo a votar no imbecil que eles querem. O que não é muito difícil, com as fake news, com uma série de “preparações” devidamente combinadas com juízes corruptos e complacentes ou coniventes e que também “amam os Estados Unidos”, porque foram formados lá, e têm todas as ferramentas do direito deles, contrariando princípios jurídicos milenares, provindos do Direito Romano. 

Empossado o imbecil escolhido, coloca-se no seu pescoço a coleira, com alguns agrados típicos para domesticar cães que adoram receber biscoitinhos do dono, em troca da fidelidade total. O imbecil viaja aos Estados Unidos com toda a pompa e circunstância, é recebido na Casa Branca, visita a CIA, abana o rabo para o presidente deles, que também é um imbecil, mas é um imbecil esperto e tinhoso. Então, o imbecil que diz que “ama os Estados Unidos” abre as portas do país para o capital, para o povo, para tudo que é estadunidense, em falsos acordos em que só um país tem deveres e o outro tem todos os direitos. 

O cachorrinho amestrado daqui e seus filhotes fofinhos acham que abrir as fronteiras para os “americanos”, que não mais precisarão de visto para entrar no país, vai atrair turistas, vai atrair dólares. E que seremos felizes e enriqueceremos enfiando a mão no bolso dos gringos idiotas, que vão pagar para levar bala perdida no Rio de Janeiro, subir morro de favela, comprar fitinha do Senhor do Bonfim, na Bahia, comer baião de dois no Recife etc. etc. etc. 

Então, que venham os “americanos”! 

E eles virão, sim. Não as famílias endinheiradas do Texas, ou o branquelos de Wall Street, com suas valises cheias de projetos ou de negócios ou mesmo com a intenção de se bronzear em nossas praias, como sonha a família de cãezinhos amestrados do palácio da Alvorada, mas virá gente do mais alto gabarito das múltiplas máfias de traficantes de drogas, de armas, de carne humana. E virão todos os bandidos endinheirados para fazer – como já fizeram nos tempos de antanho em Cuba – “grandes negócios” e negociatas, transformando o nosso país num grande quintal de suas sacanagens, devidamente protegidos pela extensão de nosso território, de nossas praias desertas e paradisíacas, de nosso interior de grandes extensões vazias ou quase vazias de população. E mais: sem serem incomodados pelas nossas polícias, que mal conseguem correr atrás de nossos próprios bandidos. 

É claro que os branquelos de Wall Street não virão em carne, osso e valises cheias de dinheiro, mas mandarão seus prebostes ou os contratarão por aqui mesmo (que os haverá, às dúzias – entreguistas e canalhas são como formiga), para comprarem nossas terras, nossas florestas, nossas indústrias e ganharem muito, muito dinheiro, à custa da mão de obra de um país empobrecido pelas políticas econômicas de um idiota que se diz economista, mas é só mais um especulador canalha e entreguista do mercado de capitais; pelas políticas sociais de um cretino que cumpre bem o papel de tirar direitos trabalhistas do povo, de reformar a previdência para obrigar o povo a trabalhar até morrer; pela pregação evangélica de pastores estrategicamente colocados em postos chaves do governo para impor ao povo a ideologia do cristianismo mais torpe, aquela que prega a humildade, a pobreza e a ignorância como a única forma de entrar no tal reino de deus. 

É este, pois, o novo colonialismo. Ao qual o Brasil dá as boas-vindas, com o povo amordaçado, espezinhado, empobrecido, sem perspectiva, a não ser esperar as migalhas do dono lá de cima.




março 15, 2019

UM NOVO DESATINO: O DESATINO IDEOLÓGICO




(Thomas Bühler: narrenschiff - a nau dos insensatos)


Ler “A História da Loucura na Era Clássica”, de Foucault, neste momento, talvez seja uma das chaves para entendermos certas insanidades da nossa “era moderna”, desse nosso louco século XXI. Mas, como o livro é um mar imenso de elucubrações e investigações filosóficas, creio que poucos se aventuram a singrá-lo. Então, vou apenas me basear em algumas de suas informações e investigações, para tentar desvendar um pouco do ser humano atual, que se diz tão “avançado”, mas cujas ideias e filosofia de vida mais se aproxima da idade média do que até mesmo dos séculos XVII e XVIII abordados por Foucault. 

Somos a era da tecnologia, mas não uma era iluminada em termos de visão de mundo, pelo menos não em termos globais. Com sete bilhões – e aumentando – a população desse nosso planeta perdido está mais envolta em trevas de demônios e superstições do que sonha nossa mais improvável filosofia. Há poucos luminares, filósofos, artistas, poetas, escritores, políticos (esses, então, pouquíssimos!) que tenham uma visão de mundo em consonância com toda a tecnologia e todas as descobertas e teorias científicas de que dispomos. A maioria absoluta da população está mergulhada num deísmo fundamentalista ou, se não chega a ser fundamentalista, é um deísmo supersticioso de crenças absurdas, que envolvem desde práticas primitivas de liturgias e cultos até a crença popularizada pela mídia de grande circulação em horóscopos e magos que preveem o tempo ou curandeiros que prometem a cura de unha encrava ao câncer, ou então, a promessas absurdas de líderes religiosos que pretendem expulsar o demônio dos corpos doentes e promover milagres devidamente encenados para arrancar dinheiro dos mais pobres, não só de espírito, mas também de grana, para enriquecer à custa do empobrecimento dos que neles acreditam; aiatolás embrutecidos pela guerra santa, a cometer crimes terríveis, assombrando o mundo com atentados e exércitos medievais de recuperação de crenças fundamentalistas de ódio a tudo quanto não esteja de acordo com seu pensamento retrógrado e assassino. A lista de insanidades – chamemo-las assim – alonga-se e não é de nosso interesse ir até ao seu final. Todos os que tiverem chegado até aqui, neste texto, sabem muito bem do que estou falando. 

O ser humano esqueceu muito rapidamente o mal das ideologias políticas extremadas, sejam as da esquerda (principalmente o stalinismo) sejam as da direita (colonialismo, capitalismo, nazismo, fascismo). Ou melhor dizendo, esqueceu muito mais rapidamente o mal das ideologias da direita e vem sistematicamente ressuscitando todas elas, reciclando-as e tornando-as o novo avatar para o futuro da humanidade. O colonialismo deixou de ser o de conquista territorial, para transformar-se no colonialismo cultural ou político, através do domínio dos meios de comunicação ou através de imposição da superioridade armamentista do “leão do norte”, os Estados Unidos da América, com sua sede insaciável por commodities que lhe satisfaçam o apetite consumista, à custa da destruição literal de países nos quais intervêm com o uso de bombas e armas poderosas ou através da intrusão em suas políticas, derrubando sistematicamente os governos que não lhe sejam favoráveis, na América Latina ou em qualquer parte do mundo que lhes interesse. O capitalismo, por sua vez, evoluiu para o chamado neoliberalismo e para os impérios corporativos mundiais, em que grandes, imensas empresas dominam o mercado de vários países ao mesmo tempo, com ganhos trilionários, à custa de mão de obra barata, às vezes até mesmo da mais deslavada situação de escravidão de populações inteiras, da exploração de insumos de forma predadora, sem qualquer respeito ao meio-ambiente, contribuindo, assim, em grande parte, para a deterioração da vida terrestre, através da poluição e do aquecimento do planeta. Já o nazifascismo ganhou inúmeras fauces, todas elas terríveis, e é sobre elas que nos deteremos um pouco mais, para tentar entender certas atitudes quase incompreensíveis, principalmente de jovens assassinos seriais. 

As ideologias nazifascistas divulgadas pelas redes sociais, pela internet profunda, pelos sites de doutrinação, enfim, divulgas através da rede mundial de computadores, apresentam filosofias afirmativas de grande apelo popular, seja por pregarem de forma clara ou sutil o ódio, seja por elevar a autoestima de pessoas que estejam em situação de fragilidade psicológica ou mental, por estarem passando por alguma situação difícil ou por serem muito jovens e ainda não terem desenvolvido uma visão de mundo menos tóxica, para usar um termo de fácil compreensão atual. 

Essas ideologias atraem tais mentes porque abrem perspectivas de fortalecimento do ego, da ideia de que “eu posso”, de que “eu sou um super-homem”, de que “os que me desprezam podem ser destruídos”: num jogo de ficção, destruímos nossos inimigos em nossas mentes, o que nos leva a uma catarse aliviadora de nossas frustrações e de nossos ódios, mas na “vida real” dos sítios de ódio, a destruição do inimigo transforma-se em algo físico, ou com possibilidades de sua destruição física, daí o culto às armas. E as armas que, na ficção, são simbólicas, aparecem aqui como êmbolos concretos de atração, pela sua beleza destrutiva, seu design de objeto de luxo, seu poder de alcance e, principalmente, pela possibilidade de aquisição, seja através de sites clandestinos ou de informações privilegiadas que levem ao traficante mais próximo. 

Então, chegamos ou tentamos chegar à mente do adolescente e do jovem de hoje: se ele não tiver tido uma formação sólida em termos de valores saudáveis, não importa, aí, a ideologia ou a religião; se não tiver uma família que o ampare e proteja, e não apenas o critique e puna por suas idiossincrasias e por suas dúvidas e erros próprios da idade; se ele não tiver o respeito de sua tribo, ou seja, de colegas de escola e amigos, de pessoas que também tenham valores saudáveis; se ele não tiver uma perspectiva de futuro, através de uma visão de esperança e de vida; enfim, se sua mente estiver conturbada por imensas dúvidas e descrenças, por sonhos absurdos de megalomania, ou seja, por aquilo que Foucault chama de desatino, que era uma espécie de loucura da era clássica, mas que parece permanecer na mente humana até nossos dias, os sites nazifascistas que apregoam a força do indivíduo sobre o coletivo, o ódio a todos aqueles que lhe fazem mal ou sejam obstáculos – reais ou imaginários – à realização do seu ego, do seu individualismo exacerbado pelas crenças fundamentalistas, seja de origem deísta ou meramente de culto à violência, ao poder individual, exercem sobre esse jovem um poder de atração incoercível e impossível de podermos medir até onde pode levar o fanatismo que se impregna na sua mente e na sua weltanshauung, e até mesmo desencadear mecanismos de ódio que o levem a agir e sua ação à destruição de inimigos reais ou inventados, ao massacre indiscriminado de outros seres humanos, simplesmente num ato de vingança não exatamente contra aqueles que estão sendo atingidos, mas contra toda a humanidade. Tudo isso apimentado, se assim podemos dizer, por uma certeza de que serão, se morrerem, considerados heróis por seus pares, exaltados os seus feitos pela mídia, mesmo aquela que os condenam, além de esperarem, muitas vezes, recompensas absurdas numa outra vida. 

Temos, portanto, em pleno século XXI, um novo tipo de desatino, de quase loucura, que não está catalogada em nossos manuais de psicologia e psiquiatria, que é o desatino ideológico, a loucura ideológica, provocada numa mente fragilizada por um discurso altamente atrativo de ódio e de superação, apesar de as duas palavras parecerem paradoxais. Porque, na verdade, são esses tempos em que vivemos tempos paradoxais. Convivemos com a mais alta tecnologia, que nos permite curar doenças que há dois séculos matavam em poucos dias ou eram incuráveis, que nos permite perscrutar os mais remotos recônditos do universo, que nos permite viajar através da Terra com velocidades impensáveis, que nos permite que nos comuniquemos uns com os outros instantaneamente, mesmo que estejamos a centenas de milhares de quilômetros distantes, que nos permite unir vozes e compartilhar nossas emoções, nossas ideias e nossa vida com milhares ou milhões de outras pessoas, e, ao mesmo tempo, estamos cada vez mais isolados em nosso próprio ser, em nosso próprio mundo individual, curtindo e remoendo nossa própria bile, para despejar para os outros não o nosso lado melhor de seres humanos, mas as nossas idiossincrasias, nossos preconceitos, nosso racismo, nossos ódios a tudo quanto é diferente e, o que é pior, tudo isso se espalha por todos cantos, aumentando e retroalimentando, num círculo vicioso, nossa visão de mundo deturpada e tóxica (abuso do termo), ao parecermos conectados com milhares de outros seres que pensam exatamente como nós, numa espécie de fermento onde borbulham as larvas do ressentimento e do desatino. E só parecemos conectados, porque, na verdade, nas redes sociais de que participamos, nas quais compartilhamos tudo o que nos vem à cabeça, há um imenso abismo de solidão, de profunda e amarga solidão a nos soterrar e embrutecer.

março 13, 2019

UMA RAJADA DE BALAS E UMA FACADA ELEGERAM PRESIDENTE UM ASSASSINO




A execução de Marielle foi um crime quase perfeito. Nessa época de milhares de câmeras espalhadas por aí, só mesmo um dedo-duro para indicar à polícia os autores do crime. E essa delação, como disse o delegado que prendeu os assassinos, entregou o nome deles o que permitiu o levantamento de provas, através de um trabalho minucioso de investigação. Que o tal delegado não pôde deixar de cumprir, porque estava pressionado pela opinião pública nacional e internacional e pela polícia federal. Já tentara, esse mesmo delegado, dar uma pista falsa à imprensa, pressionando presos que tinham ligações com grilagem e milícias, mas que nada tinham contra a vereadora, cuja atuação não os atingia. Foi só uma ópera bufa, para distrair as atenções, não deu certo. Agora, porém, ele sabe: sabe que os assassinos têm fortes ligações com uma “família poderosa de políticos do Rio de Janeiro”, mas tem que se calar sobre que família é essa. 

Mas, por que morreu Marielle? 

Os fatos são lógicos: ela seria candidata ao senado, concorrendo com o filhinho da tal “família poderosa”. E poderia incomodar muito o tal filhinho, cuja intenção também era o senado (e ele foi eleito!). Marielle não era um nome conhecido nacionalmente, mas tinha o respeito de muita gente no Rio, pelo seu trabalho, pela sua seriedade, pela sua inteligência. Era uma liderança que se firmava. Basta ver que seus votos eram difusos, por toda a cidade, em todas as classes sociais, o que indicava um processo de construção de uma possível candidata muito forte ao senado. Então, era preciso livrar-se dela. Teve a “família poderosa de políticos” o motivo e os meios: eliminar a concorrência e um vizinho assassino profissional, quase um familiar, com histórico de ocorrências exitosas e com um igual ideário político de direita. Que agiu com o máximo de profissionalismo. E como profissional, deve ter sido muito bem pago, apesar da ideologia. Que só foi preso porque houve uma delação e, a partir do nome dos suspeitos, a polícia pôde rastrear tudo o que fizeram para planejar e executar o crime. 

O senado estava garantido. Era necessário garantir a presidência. 

Então, a facada. Que tirou o candidato das ruas e jogou-o na mídia, sem precisar fazer mais nada, sem precisar fazer campanha, sem precisar comparecer a qualquer debate. Um golpe de mestre perpetrado por um idiota contratado que trocaria uns dois anos de prisão por um resto de vida confortável e sem problemas. Uma facada ocorrida no meio de 30 a 40 seguranças, no meio de uma multidão, quando o candidato, que sempre usava colete a prova de balas, não o estava usando naquele momento. Uma facada sem sangue. Dada por um individuo que, se quisesse realmente matar o candidato, usaria sem dúvida uma arma de fogo, fácil de ser adquirida e com chances muito mais claras de êxito. Bem, já escrevi muito sobre os furos do tal atentado e suas incoerências, para repeti-las aqui. 

Dois atentados. O primeiro, realizado por assassinos frios, com meses de preparação, com resultado exitoso. A morte de uma mulher que poderia incomodar um futuro candidato. Uma mulher cuja morte, naquele momento, com certeza na cabeça dos mandantes, não iria provocar mais do que uma investigação sem resultado. O que não esperavam: a repercussão de sua morte. Menosprezaram o fato de que ela havia, embora de forma incipiente, reunido em torno de si muitas simpatias. E isso fez toda a diferença para a repercussão como crime político de alcance internacional. O segundo, falseado e falsificado, para dar ao candidato a possibilidade de fuga ao debate, em que sua incapacidade intelectual ficaria clara, sua “tosquice” militar saltaria aos olhos de todos e o “mito” gritado por seus fanáticos seguidores se esvairia em deboche e, quase com certeza, numa grande derrota eleitoral. 

Tudo isso dentro de um cenário político de grandes incertezas e de grande polarização, preparado com muito cuidado pela direita desde a instalação da operação lava jato, pela tal “república de Curitiba”, tendo à frente um juiz venial e disposto a levar adiante um projeto que devolvesse à direita o poder, na visão deles, “usurpado” pelo Partido dos Trabalhadores. É claro que o juizeco, àquela altura, não tivesse qualquer ligação com a “família poderosa de políticos do Rio de Janeiro”, e sim com a alta cúpula de partidos de direita (PSDB et caterva) e de grandes capitalistas (bancos, indústria, agronegócio etc.). Sua formação ou deformação ocorrida nas universidades dos Estados Unidos, voltada para novos princípios jurídicos que contrariam toda a nossa tradição de jurisprudência, permitiu que ele condenasse sem provas o líder maior da esquerda, aquele que seria a pedra no sapato do golpe. E o golpe veio. E vieram as manifestações. E vieram os apoios da mídia. E vieram as fake news. E, no embrulho, a “família poderosa de políticos do Rio de Janeiro”, a quem o juizeco passou a servir como um cão atrelado pela coleira a comer na mão do dono, agora como ministro de um governo eleito através de mentiras, de golpes, de assassinatos. 

A conclusão parece óbvia: o governo brasileiro está nas mãos não só de um incompetente e tresloucado presidente, que não sabe se o que disse de manhã é verdade à tarde, mas nas mãos de um possível e provável assassino.

fevereiro 13, 2019

AS FORÇAS DEMOCRÁTICAS TÊM UMA MISSÃO: TIRAR DO PODER ESSA QUADRILHA








Gostaria de que uma fada madrinha me desse neste momento o condão da síntese, para conseguir dizer tudo aquilo que eu penso no momento de maneira direta, simples, em poucas palavras. Como isso é impossível, aí vai mais um textão, com todas as diatribes que me atribulam. Paciência. 

Não é mais possível ter qualquer tipo de condescendência para com a quadrilha que hoje governa o País. Fruto de um golpe gestado e nascido em gabinetes de Washington e Londres, para colocar no poder um títere de direita, através de fake news, mentiras afirmadas e reafirmadas pelos candidatos e repercutidas na mídia e até mesmo através de um falso atentado em Juiz de Fora, essa quadrilha ultrapassa todos os limites do razoável, com sua estupidez paquidermicamente impermeável. 

Todos os dias, uma notícia ruim, todos os dias uma medida que só tem por interesse a possibilidade de a quadrilha melhor assaltar os cofres públicos e manter-se no poder; todos os dias, uma fala estúpida de um dos tais ministros que constituem o pior ministério já reunido em toda a história do Brasil; todo dia, alguém diz o que não devia, ou melhor, diz o que realmente é esse governo: uma alcateia de lobos ignorantes a uivar para a lua estadunidense e a fazer tudo o que seu dono manda. Ninguém se salva, nesse governo que tem por líder um sujeito estúpido, grosseiro, sem princípios, totalmente alheio aos problemas do país, que ele mal conhece, emparedado num discurso torpe de moralismo e messianismo (sem nenhum trocadilho com o nome da besta-fera), que não sabe o que diz e não sabe o que fazer, sem consultar seus auxiliares tão corruptos e ignorantes quanto ele. 

Nunca, na história deste país, tivemos um desgoverno tão degradante e tão degradado em tão pouco tempo. Não há a mínima possibilidade de que qualquer medida que esse governicho tome dê resultado, porque ele não governa pensando no povo, nem no povo que o elegeu. Está literalmente se lixando para os pobres e os menos favorecidos pela sorte. Tem ódio da minorias, principalmente de negros e índios, por preconceito racial e por achar que não é responsabilidade sua proteger a quem esse governo não fez mal, ou seja, não entende a dívida histórica que a nação tem para com essas populações, porque não conhece História, nada entende de Sociologia e tem horror à Filosofia e a qualquer conhecimento, principalmente de Humanidades. Tem ódio às minorias LGBT etc., porque está eivado de princípios deístas obscurantistas de uma bíblia mal lida e mal digerida por seus próceres evangélicos, eleitores e hoje até mesmo ministros de seu governo. 

Para esses cretinos que se instauraram no poder, inaugura-se a era do “apagadismo”. Ao contrário do iluminismo e do cientificismo, ambos movimentos históricos que tiveram momentos de fulgor e de trevas, por não conseguirem evitar o fator humano de usar conceitos sejam eles corretos ou equivocados tanto para o bem quanto para o mal, de acordo com ideologias estúpidas e não comprovadas, o apagadismo tem como objetivo apagar tudo o que foi feito, não importa se programas sociais bem sucedidos, não importa se medidas de proteção às minorias, não importa se estejam dando certo ou errado, é preciso apagar tudo o que foi feito pelos outros, principalmente pelo Partido dos Trabalhadores, a cujos dirigentes e princípios os idiotas do momento dedicam um especial ódio, sem nem saber direito que princípios e que políticas adotadas tiveram repercussão positiva não só para a sociedade brasileira, mas o apoio e o aplauso internacionais. A esquerda, para esses próceres do apagadismo, só engendrou monstros e ditadores, que impõem sua ideologia ao povo, escravizando-o. Não percebem que esse processo de desconstrução das ideologias, contra as quais eles vivem pregando, coloca-os frente ao paradoxo de condenar as ideologias para impor sua própria ideologia neofascista e neopentecostal, com a pregação de princípios anticientíficos e obscurantistas, baseados em crendices ou em crenças há séculos abandonadas pela ciência, estimulando teorias estúpidas, como a da terra plana ou de uma conspiração comunista internacional. 

O desplante do golpe chegou ao absurdo de condenar sem provas, através de juízes comprados e devidamente alocados em postos chaves, um ex-presidente, porque temem sua palavra, temem sua capacidade de liderança e, principalmente, temem seu poder de galvanizar os eleitores e retomar o poder. Então, é preciso mantê-lo preso, até morrer, de preferência. Então, para que Lula seja libertado, só há um caminho: destituir do poder a canalha golpista, corrupta, obscurantista e recolocar o país nos trilhos da democracia plena, sem influência de organismos internacionais de direita a distribuir fake news em redes sociais e a disseminar mentiras pelos meios de comunicação de massa. Esse será um trabalho hercúleo, da união das forças democráticas do país, para não só destituir do poder a quadrilha, como refazer todo um percurso de educação popular para a verdade, para a aceitação de que a democracia e a liberdade são bens inalienáveis, que não podem ser trocados por leis que dão licença à polícia de executar suspeitos, por reformas que só irão beneficiar os mais ricos, por medidas que entregam as riquezas da nação à sanha do mercado internacional, com a desculpa de que é preciso salvar a economia do país. Salva-se a economia, enterra-se o povo. 

Combater não apenas a era do apagadismo, inaugurada pelos imbecis de plantão em Brasília, mas também lutar com todas as forças legais e disponíveis para tirar do governo, o mais rápido possível, essa quadrilha, antes que seja tarde demais. É uma missão difícil para as forças democráticas, mas não impossível. E, acima de tudo, urgentemente necessária.





janeiro 31, 2019

A TOTAL IRRELEVÂNCIA DO ENSINO DOMICILIAR







Ao contrário do ensino a distância (EAD) que, implantado e regulamentado, beneficia ou pode beneficiar milhões de pessoas que não têm acesso à escola física, por vários motivos, num país continental (um lugar comum inevitável) como o Brasil, o ensino domiciliar é absolutamente irrelevante. 

Primeiro, vamos observar que ele existe há bastante tempo nos Estados Unidos, em todos os estados, devidamente regulamentado. Provavelmente tenha sido criado para beneficiar pequenas comunidades religiosas e isoladas, que não concordam com o tipo de ensino ministrado nas escolas tradicionais. Hoje, está bem mais difundido, tendo alguma relevância, embora ainda muito pequena, dentro do sistema educacional estadunidense, adotado por famílias de classe média alta que teme o bullying e a violência nas escolas tradicionais, principalmente diante das várias chacinas que têm atormentado a sociedade, ou ainda para filhos considerados especiais, cuja adaptação à escola seja difícil... Enfim, é um direito. Mas, lá, é ainda algo que está dentro do terreno da exceção e, com regras que variam de estado para estado, não está ao alcance de qualquer família, já que requer tempo e, muitas vezes, situação privilegiada em termos financeiros, dos pais que o adotam. 

Pode ser implantado no Brasil? Pode. Sem dúvida. Mas... 

A situação do ensino brasileiro passa por uma crise. Não uma crise de métodos ou de metodologias. Uma crise de preparação e valorização do principal elemento de um sistema de ensino: o professor. Com salários de fome, sem valorização profissional e social, o professor brasileiro carrega nas costas uma responsabilidade que está muito além de suas forças. E aí temos nós, além do problema salarial, uma espécie de círculo vicioso: os professores são formados por outros professores, estes também mal pagos e, consequentemente, também desmotivados quase sempre, formados em escolas que não os preparam adequadamente, com exceções, felizmente, mas na maioria escolas mal geridas de cujas salas saem profissionais que não terão condições de preparar adequadamente seus alunos e o círculo se fecha, de forma viciosa e sem que as gestões públicas consigam resolver o problema. 

Falta dinheiro para a educação? Provavelmente, não. O que falta é gestão pública adequada, formação de bons gestores em todos os níveis, valorização dos educadores, retomada de valores metodológicos adequados às diferentes realidades, com um mínimo de bom senso e de universalização de conteúdos e, finalmente, a melhoria das próprias condições das escolas, com investimento nos espaços escolares, em bibliotecas, material escolar etc. 

Portanto, há um trabalho imenso a ser feito, no terreno da educação, para recuperar um tempo perdido, para recuperar o desleixo de muitos e muitos anos de má gestão, de descalabro e falta de políticas realmente efetivas. 

O projeto de educação familiar, ora proposto pelo atual governo, pode até ser bom, se não tiver sido elaborado de afogadilho e mal feito, como sói acontecer com projetos nascidos de promessas absurdas de campanha e quase sempre jogados à aprovação do Congresso, sem que a sociedade se manifeste, sem um debate mais aprofundado, muitas vezes eivado de erros grosseiros tanto de redação quanto de compreensão da própria realidade. 

Se devidamente regulamentada, a educação domiciliar pode propiciar o conforto de algumas famílias abastadas, de pais evidentemente preparados para a tarefa, que deverá ser de alguma forma ser acompanhada por algum ente público e fiscalizada, para evitar distorções. O que, naturalmente, deixará de fora de tal “direito” (vamos tratar como tal) a imensa maioria do povo brasileiro. 

Então, pergunta-se: que importância terá, para o sistema de ensino brasileiro, a adoção da educação familiar? A resposta parece óbvia: nenhuma. Nenhuma relevância. Não afetará o sistema, pois não vai contribuir para melhorar o ensino, nem trará qualquer benefício ao povo, apenas para uma ínfima parcela da população. E, assim mesmo, nem se pode falar exatamente em benefício, mas apenas um direito que as famílias – repito: algumas famílias abastadas e devidamente preparadas para tal – poderão lançar mão, para, por algum motivo só lá delas, não enviar para a uma escola tradicional os seus pimpolhos. 

Conclusão: mera demagogia. O mero desejo de fazer algo, desde que esse algo seja o que se faz lá, no país que se tornou modelo de tudo, para esse infeliz (des)governo que, não tendo nada a apresentar ao povo, inventa esse tipo de coisa, para dizer que está governando. 

Repito: um projeto absolutamente irrelevante.





janeiro 04, 2019

UM CAPITÃO DE BREVE CURSO







Vasco Moscoso de Aragão, personagem de Os Velhos Marinheiros, de Jorge Amado é um capitão de longo curso de araque, com diploma de comandante arranjado por seus amigos, diante de seu sonho – nunca realizado – de singrar os sete mares e mais, diante das histórias mirabolantes que ele sempre contou aos amigos, sobre suas aventuras pelos oceanos do mundo. Um dia, em Salvador, o comandante de um grande navio de cabotagem morre de repente e Vasco é convocado para substituí-lo, num comando de fachada, apenas para cumprir a lei. Era a realização do sonho do capitão. A viagem transcorre tranquila até Belém, onde o navio deverá atracar. O imediato, para cumprir uma tradição e também por troça, pergunta ao capitão com quantas amarras deverá o navio ser atracado ao porto. Com todas, responde o orgulhoso e totalmente ignorante capitão de longo curso. E assim foi feito, para gáudio e chacotas de toda a zona portuária. Desgostoso e humilhado, refugia-se em algum obscuro hotel. Mas o destino lhe prega uma peça: uma tempestade devasta o porto e somente o navio atracado com todas as amarras pelo capitão se salva sem avarias. Torna-se herói. 

Lembrei-me dessa história, para fazer um breve paralelo com o capitão que ascendeu à presidência da república do Brasil, graças à mentira de uma facada e às mentiras de notícias espalhadas pelas redes sociais, as famigeradas fake news. Assim como o de Vasco Moscoso de Aragão, seu diploma de capitão de longo curso é falso como devem ser falsos os seios de sua mulher. Sua viagem como comandante seguirá até um determinado porto, onde, em algum momento, a fragilidade de seu comando será exposta, diante dos graves problemas do país e não apenas, como no caso do personagem de Jorge Amado, uma questão de amarras de atracação. Quando isso acontecer, o navio Brasil poderá estar adernando e a tripulação, perdida pela estupidez das ordens de seu comandante, estará correndo sério risco de ir a pique, no meio de uma tempestade sem precedentes. É claro que países não são navios e, portanto, geralmente não naufragam como um Titanic, mas o desastre é absolutamente semelhante, quando o comandante de longo curso, com suas mentiras e galhofas, mostrar-se como realmente é: um capitão de breve, brevíssimo curso, sem nada para oferecer senão suas mentiras e suas ameaças, devidamente cumpridas ao longo da viagem que, diante da iminência de desastre, esperamos seja breve. 

E o nosso real capitão de breve curso não terá, como Vasco Moscoso de Aragão, o beneplácito e a simpatia do romancista, para preparar-lhe um final apoteótico, em que sua mentira afinal serviu para alguma coisa. O navio Brasil não estará atracado com todas as suas amarras, já que a incompetência de nosso capitão não permitirá que a realidade imite a ficção.

novembro 10, 2018

UMA FACADA MUITO SUSPEITA







Por que eu desconfio de que a facada que o deputado eleito presidente da república foi uma armação? 

Bem, não existem provas, mas num país em que se condenam pessoas porque o juiz tem convicção, embora não haja provas, por que não posso ter desconfiança de que a tal faca ocorrida em Juiz de Fora não foi uma armação? E estou falando de desconfiança, não de convicção. 



Então, vamos aos fatos e argumentos: 



1. O candidato andava sempre com colete à prova de balas e, no dia e hora do atentado, no meio de uma multidão e, portanto, em situação vulnerável, usava apenas uma camiseta. Por quê? 

2. No momento do atentado, há dezenas e dezenas de celulares erguidos, filmando, além, é claro, de filmagens profissionais e de amadores, possivelmente com aparelhagem bem mais sofisticada do que simples celulares. No entanto, quando procuradas, aparecem sempre as mesmas imagens, como se feitas por uma única pessoa, como se fossem as “imagens oficiais”. Onde estão as outras imagens? Por que ninguém as publica? 

3. Dizem os especialistas que nem sempre há sangue, após uma facada. Mas nenhum? Nem uma gota? Nenhum vestígio, nas fotos publicadas do candidato sendo conduzido ao hospital, nenhuma gota. 

4. O candidato estava cercado de seguranças – oficiais, da Polícia Federal, e seguranças pessoais, contratados por seu staff. E mais: estava cercado de “apoiadores” (adotemos o termo da mídia) fanáticos, uma multidão. Pessoas – tanto os seguranças do staff quanto os tais “apoiadores” – que não são exatamente “frias” diante de uma provocação, quanto mais de um atentado. No entanto, o autor da facada não leva sequer um sopapo, não é agredido. Está bem: a PF pode ter impedido isso, mas não eram tantos agentes que conseguissem conter uma multidão enfurecida, que tentaria agredir o autor da facada. Isso, absolutamente, não aconteceu. O autor do atentado saiu incólume – e protegido – do local do crime. 

5. Logo após o atentado, um dos filhos do candidato afirmou, numa entrevista, que seu pai “tinha acabado de ganhar a presidência”, com aquele fato. Ora, numa situação de estresse e, principalmente, de incerteza de que o pai, depois de uma facada, estava vivo ou não, como alguém fala uma bobagem como essa? Estranho, muito estranho. 

6. Logo após o atentado, um dos filhos do candidato afirmou que a faca entrara doze centímetros no corpo do pai. Como ele sabia disso? Outro declarou quase ao mesmo tempo que o ferimento tinha sido superficial, que o pai estava bem. Contradições nessa hora são normais, ou não? 

7. Também a foto na maca, com o candidato sendo conduzido já no hospital, não apresenta nenhum vestígio de sangue. 

8. Por que a pressa em transferir o candidato para São Paulo, se o primeiro boletim médico não indicava nenhuma urgência e dizia mesmo que o paciente estava bem? 

9. Já em São Paulo, depois de uma (assim referida) segunda operação, por que a insistência em divulgar fotos do candidato no hospital, até mesmo fazendo pose com as mãos como se fossem armas (um gesto característico dele), quando, em situações similares, procura-se preservar o doente e publicam-se apenas fotos em ocasiões muito especiais (lembram do Tancredo Neves e a “foto oficial” com os médicos e parentes?) 

10. Por que, em nenhum momento após o fato, o candidato, conhecido por seus arroubos e raivas repentinas e ódios, não condenou de forma peremptória o autor do atentado? Ele não falou praticamente quase nada sobre o autor, sobre o fato. Nada. Estranho, muito estranho. 

11. O autor do atentado: um completo desconhecido, que alegou ter agido porque não queria que o candidato vencesse as eleições. Uma alegação frágil, para alguém tentar matar outrem, principalmente diante de um fato que podia ou não acontecer, já que, naquele momento, não se podia afirmar que ele venceria. E mais: o cara estava desempregado e, apurou-se, com poucos recursos. No entanto, hospedou-se em hotel em Juiz de Fora, tinha vários celulares em seu poder e teve conhecimento prévio da agenda do candidato, para segui-lo por alguns dias e aguardar o momento exato do atentado. 

12. Ainda o autor: de onde apareceram os seus advogados? Quem os contratou? Quem está pagando sua defesa? 

13. E mais: por que, depois de várias audiências, a justiça acabou por acatar a tese de que “desequilíbrio” do autor e suspendeu o processo? Não é estranho? 

14. O fato de ficar imobilizado e não poder continuar a campanha foi muito conveniente para o candidato: foi a desculpa perfeita para não comparecer a nenhum debate e não se expor diante de outros candidatos muito mais preparados e experientes do que ele. 

15. Durante sua permanência no hospital e, depois, em casa, fazendo campanha apenas pelas redes sociais, as fake news dispararam e alavancaram sua candidatura, sem que houvesse o menor receio de que, descoberta a falcatrua, ele tivesse de dar alguma declaração a respeito, o que foi muito conveniente. 

Concluindo: acho que a operação por que o candidato passou, aqui em São Paulo, foi verdadeira, mas era algo que já estava programado, diante de alguma doença preestabelecida, devidamente oculta pelo seu staff e, depois, pela farsa da facada. Com isso, ele se preservou de especulações sobre seu real estado de saúde e se preservou de fazer uma campanha desgastante e, principalmente, de enfrentar em debates os seus experientes opositores. 

Tudo muito conveniente. E uma jogada de mestre. Ou não?





outubro 29, 2018

CHOREMOS NOSSAS PITANGAS E PREPAREMOS A RESISTÊNCIA


 


Chorar as pitangas, de acordo com o folclorista (e não por acaso um camisa-verde dos anos trinta) Luís da Câmara Cascudo, tem a ver com expressão portuguesa “chorar lágrimas de sangue”, já que são vermelhas as nossas pitangas. Choremos, pois, nossas pitangas; façamos nosso dever de olhar o que podia ter sido e não foi; analisemos a situação e, sobretudo, preparemos nossas fileiras para o que virá, que o vento que sopra para um lado, de repente, muda. 

Estamos, claro, falando das eleições de ontem. Eles venceram. O ódio, muito bem plantado, primeiro pelos órgãos da nossa mais do que conservadora imprensa, por ocasião do golpe aliada aos movimentos bem articulados da direita hidrófoba, liderada pela FIESP do Paulo Skaf e pelo PSDB, o perdedor não conformado das eleições anteriores; mais adiante, pela fúria moralizante de juízes que julgam não pelo valor das provas nos autos, mas de acordo com suas convicções, formadas em cursos nos Estados Unidos, para orientá-los e conformá-los nos princípios de um direito que fere nossas mais caras tradições de que “in dubio pro reo”; e, mais recentemente, já em plena campanha política, pela apropriação do ódio pelo partido do candidato nazista que, em conluio com Steve Bannon e sua Cambridge Analytica, disseminou através das redes sociais algo não quantificável de fake news pregando o ódio e a destruição do inimigo, como se adversário político fosse realmente inimigo. A quem dirigiu-se todo esse ódio? Ao Partido dos Trabalhadores, o inimigo a ser vencido. 

Então, eles venceram. Venceram a batalha, mas a luta continua, para usar o jargão militar que lhes é caro. 

O que fez o PT de errado? Na minha opinião, apenas um erro cometeu o candidato do partido, durante a campanha. Quando questionado sobre se o PT devia fazer mea culpa de seus erros do passado, agiu ele como uma “madre Teresa de Calcutá”, com a lisura e a educação que lhe é própria, confessando com uma certa humildade que o partido teria cometido alguns erros, mas... etc., etc. etc. Ora, numa campanha política, não se confessam erros cometidos. O que passou passou. Vejam o exemplo, no passado, de Getúlio Vargas: depois de quinze anos de ditadura, em que perseguiu, prendeu, torturou, matou e exilou adversários e inimigos, voltou em 1950 como o grande “pai dos pobres”. “Bota o retrato do velho /bota no mesmo lugar / que o sorriso do velhinho / faz a gente trabalhar” – foi o bordão ufanista de sua campanha, uma campanha que lembra não o ditador, mas o homem com autoridade para tocar para frente o País. Devia, pois, o candidato do PT dizer que o partido não teria cometido erro algum, e sim elementos do partido, já devidamente punidos, e alguns até mesmo injustamente, teriam cometido deslizes. Quanto ao partido, sempre agiu com lisura e quando esteve à frente do governo obteve grandes realizações em prol do povo e é o que ele, candidato, pretendia resgatar: o emprego, a distribuição de renda, a saída da pobreza e independência do FMI. (A lógica é simples: partidos e entidades, sejam elas públicas ou privadas, não cometem erros ou “fazem” coisas, mas seus membros é que são os responsáveis por tudo o que de certo ou errado se faz em seu nome, tanto é que não se coloca uma empresa no banco dos réus, mas sim o seu presidente, por exemplo). 

Dizer que o PT não devia ter lançado candidato é não entender nada de política. Um partido que se preze não pode desperdiçar uma eleição, tem que tentar se reerguer, principalmente um partido que fora destroçado pelas forças do atraso e que agora precisava lutar mais do que nunca contra as forças do nazi-fascismo. E o partido conseguiu uma proeza que poucos julgavam possível: apresentar um candidato que chegou ao segundo turno e obteve um cabedal de votos que o torna praticamente invencível numa futura campanha para a presidência, daqui a quatro anos. Digo quase invencível, porque não creio no sucesso do candidato nazista. E aqui passo a dizer por quê. 

Não preciso mais traçar o perfil do candidato vitorioso: todos sabem que ele é tudo aquilo que disse durante anos e anos de boquirrotice e de disseminação do ódio a minorias, a mulheres, a tudo que não esteja na sua cartilha de militar de uniforme sujo e mal lavado. Vamos falar mais especificamente de suas promessas de campanha e de suas estratégias de governo. 

Primeiro, as estratégias de governo. Prometeu o candidato não negociar cargos. Ou seja, escolher um ministério e, consequentemente, os cargos de primeiro e segundo escalão da administração, de forma independente, sem intromissão de políticos. Ora, isso é uma armadilha que ele armou para si mesmo, por pura estupidez ou por artimanhas de campanha: se não negociar com políticos, ou seja, com o Congresso, onde não tem maioria ou, se a tiver, será uma maioria fluida, ocasional, não governa. O famigerado “centrão” e os partidos a ele ligados constituem a massa fisiológica mais ardorosa quanto a cargos e posições, quanto a benesses e barganhas com o poder, porque é dessas permutas que eles tiram os seus votos e mantêm os seus eleitores no cabresto do toma-lá-dá-cá mais abjeto. Sem essa massa amorfa e interesseira, nada se aprova no Congresso. Não se governa. Se ele, no entanto, ignorar as próprias palavras e negociar com a malta faminta, será cobrado em altos brados não só pela oposição como pela imprensa e por seus eleitores. Será a primeira decepção. Veremos qual vai ser o jogo do capitão nazista. 

Uma outra armadilha suspensa sobre sua garganta, dentre muitas: o discurso da honestidade. Ora, a malta que o rodeia está faminta. E faminta das benesses do poder e de tudo o que ele pode proporcionar em termos econômicos. Poder atrai dinheiro e dinheiro dá poder, o círculo vicioso não será quebrado, principalmente porque o capitão nazista tem filhos, e esses filhos – que também estão na política – não irão deixar passar a oportunidade para terem o seu quinhão entre os mais poderosos – e mais ricos. A ocasião, neste caso, não faz o ladrão, porque ele já vem feito. Vejam o exemplo do ex-governador do Rio de Janeiro: filho de um homem probo, um intelectual, não teve nenhum pejo em assaltar com vontade os cofres públicos, para ostentar riqueza e poder ao lado de ricos e poderosos em Paris e onde mais houvesse riqueza e poder. Alguém acha que os “filhotes” do capitão vão resistir aos apelos da ganância e da ostentação? Só se você acredita no chupa-cabras. 

Muitas outras armadilhas – promessas de campanha – estão suspensas sobre a cabeça e poderão estraçalhar as pretensões do capitão, diante das dificuldades que ele terá, em termos políticos, de implantar medidas que, no ardor de uma campanha, podem parecer a solução para inúmeros problemas, mas no dia a dia da dura realidade irão encontrar paredões intransponíveis não só na oposição, mas também em interesses contrariados de grupos até mesmo ligados ao próprio governo. Exemplo? Reforma tributária. Outro exemplo: reforma da previdência. E mais: enxugamento da máquina administrativa, com a redução de ministérios. Logo verá que menos ministros, menos poder de barganha. Menos poder de barganha, mais concessões. Mais concessões, menos governo. E por aí vai. 

A aposta é: quanto meses durará o governo do capitão nazista, se ele se impuser da forma e do jeito que ele pensa e quer se impor: sem negociação, aprovando medidas e mais medidas de mudanças mal programadas e mal preparadas, governando por medidas provisórias que só serão aprovadas com concessões. Será que ele cairá na tentação do populismo barato do Jânio Quadros ou no populismo extremista e totalitário do Collor? Qualquer que seja o caminho, o desastre será inevitável. 

Aliás, o desastre desse governo que ainda não começou é inevitável. Se ele cumprir todas as promessas com sucesso, convulsionará o País, atiçará movimentos populares que acordarão forças terríveis contra ele. Se ele não obtiver sucesso, da mesma forma despencará na avaliação do povo e cairá de maduro, sem ninguém que chore por ele as pitangas que nós, da oposição, choramos agora. E teremos um réquiem de consequências terríveis. Ou seja: não há saída, perdemos todos, por enquanto. A esperança estará sendo renovada para se reverter a situação com, aí sim, a apresentação de novo do candidato recém-saído das urnas com uma quase consagração. Uma campanha bem-feita, e eles, os nazistas, é que chorarão as pitangas. Para alívio de um povo que não merece ter sido enganado.


outubro 13, 2018

REFLEXÕES SOBRE BANCOS E CAPITALISMO



(Bernard Buffet (1928-1999) -LEnfer-de-Dante-Lucifer-1976)
 

Partamos da seguinte ideia: um almoço num restaurante qualquer. O prato que você pedir tem um preço e neste preço você está pagando, a grosso modo: 

· o custo de produção de cada um dos ingredientes 

· o custo da colheita desses mesmos ingredientes 

· o salário dos agricultores que os plantaram e colheram 

· o lucro do dono da terra 

· a embalagem e o transporte desses ingredientes 

· o lucro do intermediário na sua comercialização 

· o transporte dos centros distribuidores para o comércio 

· o lucro do comerciante, aí incluídos todas as suas despesas, inclusive salários dos seus funcionários 

· os impostos devidos aos municípios, aos estados e ao governo federal 

· o custo de construção do restaurante ou o seu aluguel 

· as despesas de manutenção do estabelecimento 

· os salários dos empregados do estabelecimento (cozinheiros, garçons etc.) 

· os impostos que o estabelecimento paga para funcionar 

· os equipamentos do estabelecimento, desde fogões, geladeiras etc. até mesas, cadeiras, pratos e talheres 

· a arte de quem elaborou a receita do seu prato 

· as perdas e refugos naturais desse tipo de estabelecimento (o que você deixa no prato, por exemplo; ou os alimentos que perdem a validade) 

· o lucro do dono do restaurante 

Bem, fiquemos por aqui. Já percebeu que você está sustentando uma longa cadeia produtiva, que vai do presidente da república ao catador de lixo da rua, com sua carroça, num simples (ou não) prato de comida. Mas, essa é apenas a rede que podemos vislumbrar, ou talvez, a mais concreta, embora complexa, tão complexa que possivelmente não tenhamos elencado todos os seus componentes, nem cheguemos a percebê-la em todos os seus detalhes. Há uma outra rede ainda mais complexa e mais extensa, que é aquela que envolve o que está no seu bolso: o dinheiro, seja ele em moeda corrente ou em qualquer outra forma de pagamento. 

Na verdade, é a rede que sustenta tudo o que você faz dentro de uma sociedade de consumo como a nossa. Sim, vivemos numa sociedade de consumo. E o consumo é a sua base. E o que sustenta o consumo, reiteramos, para não deixar dúvida é o dinheiro. Dinheiro que não é meu nem seu, nem exatamente de ninguém. O dinheiro que pertence a uma entidade ao mesmo tempo concreta e abstrata, que são os bancos. 

Os bancos são algo concreto, quando você entra em uma agência bancária, feita de tijolos, aço e vidro, de móveis e máquinas e... funcionários. Local onde as pessoas vão fazer inúmeros tipos de transações. E são essas transações que tornam os bancos uma instituição abstrata: eles – os bancos – fazem o dinheiro circular pelo mundo todo, e dessa circulação retiram seus lucros. Mas não são os lucros dos bancos aquilo que mais importa. Através dessas transações, dos grandes negócios, do financiamento dos empreendimentos, da intromissão em todos os aspectos da vida humana atualmente, os bancos obtêm aquilo de que vivem e aquilo que os mantém: o poder. 

E mais: o poder dos bancos e dos financistas é que constrói, mantém e engorda o sistema chamado capitalismo. Um sistema que nos aprisiona e do qual até agora não obtivemos meios de escapar, porque está presente em todos os aspectos de nossa vida, desde o nascimento até a morte. 

Os bancos são uma criação recente na história da humanidade. Surgiram no final da idade média, no início do Renascimento. Nesses poucos mais de quinhentos anos, foram eles que urdiram a trama que sustenta o sistema capitalista que sucedeu ao sistema feudal. 

Se pensarmos friamente, sem os bancos e a urdidura capitalista, a humanidade não teria um milésimo do desenvolvimento alcançado nestes quinhentos anos. Os bancos financiaram as grandes expedições, incentivaram o comércio, a indústria, a ciência. Estabeleceram, com isso, as bases do capitalismo e propiciaram ao ser humano a possibilidade até mesmo de viajar a outros planetas, além dos óbvios avanços em cada um dos setores do dia a dia. O sistema capitalista, sem dúvida, tem esse lado incontestável de sua história e existência. Sem ele, o ser humano estaria ainda tateando luzes medievas em busca de soluções para a sua dura sobrevivência. 

A pergunta é : seríamos mais felizes? Responda você, se for capaz, meu caro leitor. 

Mas... Como em toda história, há o lado cruel do capitalismo. Ele trouxe o desenvolvimento, a riqueza. Mas trouxe também a pobreza, a miséria, a morte de milhões de seres humanos que não têm acesso aos bens de consumo e a todas as demais benesses que o capitalismo trouxe. E esse é o seu paradoxo: trazer o bem e fazer o mal. 

Difícil, muito difícil explicar isso. Tentemos. Sem fabulações. 

O sistema capitalista aufere lucros fantásticos de suas benesses, de seus negócios e negociatas, enfim, do poder que ele tem sobre o dinheiro e sobre todos os meios de produção. Poder-se-ia perguntar: se é tão poderoso, se tem tantos lucros, porque não acaba com a miséria do mundo, não redistribui melhor os seus ganhos e não torna melhor a vida de milhões e milhões de seres humanos? 

Porque sua força, seu poder, provém justamente da exploração da força de trabalho do ser humano, ou seja, daquilo que todas as pessoas fazem para lhe dar mais poder ainda – sua energia. Um sistema energético não pode contrariar uma lei da física, ou seja, produzir energia por si mesmo, retroalimentar-se, num moto perpétuo. Para criar energia, é necessário queimar energia. Isso acontece com um mecanismo, com uma máquina, mas é reproduzido a grosso modo no sistema financeiro e produtivo capitalista: ele precisa consumir energia, para produzir energia. A energia que ele consome é a força de trabalho humano, e como toda queima de energia gera desperdício e refugo, os miseráveis são o refugo do capitalismo. Para manter a máquina funcionando, há necessidade de uma sobra de energia que o realimente, que é dada por aquilo que Marx chama de mais valia. Se a máquina usar toda a energia e não gerar refugo, ela entra em entropia e se destrói, se desintegra. A perda de energia, a entropia, tem ocorrido periodicamente, as famosas crises periódicas do capitalismo, mas a crise se resolve com o derrame do excesso, representado por desemprego, mais miséria e sofrimento de seres humanos, e logo se estabiliza, reequilibrando as perdas com a redução da energia e sua retomada gradual, retirando da sociedade combalida e sem forças a força que o sistema precisa para novamente atingir um pico de desenvolvimento e consumo, até uma nova crise, ou uma nova perda de energia. 

E por que o ser humano não se aproveita dessas crises para se livrar do capitalismo? 

Aqui entramos no terreno pantanoso das relações da humanidade com o consumo, que faz com que as pessoas imaginem que a crise é passageira para todos e que, logo, estarão de novo na cadeia produtiva. Pagam o preço do sonho de consumo com suas vidas, se necessário, mas pagam. E para isso contribuem outras forças poderosas, aliadas do sistema, além do controle dos meios de produção (que já é em si um tsunami em cima de pobres e indefesas populações): o controle dos sistemas educacionais e o controle dos meios de comunicação. 

Ou seja, o capitalismo escraviza o homem não só com o trabalho, mas escraviza sua mente, seus desejos, sua visão de mundo. Entorpece os seus sonhos e conforma-os ao consumo, à sobrevivência diária, à falta de perspectiva. Por isso, os pobres e miseráveis do mundo não se revoltam: estão encharcados até a medula de toda uma doutrinação de vida de gado, de conformismo. Quando a corda arrocha demais o pescoço, quando há possibilidades de rebelião, quando até mesmo explodem revoltas e sedições, a morte comanda o espetáculo, através da mais torpe repressão, a mando de governos que se dizem democráticos, mas que o são apenas na aparência, já que sustentados pelas forças poderosas dos mais poderosos, que é o poder econômico. E as fogueiras de esperança nunca recebem o combustível de sua permanência ou o alimento para sua vitória, porque não há tempo para que os líderes construam na mente das pessoas um novo imaginário, uma nova perspectiva de vida, são todos presos, mortos e devidamente calados para sempre.