março 30, 2015

UM PIBINHO DE MERDA, SIM. E VOCÊ SABE POR QUÊ?




Decepcionante o crescimento do Brasil em 2014. Um verdadeiro "pibinho" de merda. Com todas as condições para dar munição aos partidos oposicionistas e aos jornalistas e comentaristas econômicos que pululam no PIG - o Partido da Imprensa Golpista. Todos comemoram. E tome pau no governo. Principalmente na presidenta. Dá para explicar? É complicado, talvez até meio inexplicável, mas vamos lá.

Primeiro, devo dizer que não acredito em teorias conspiratórias. Mas acredito, sim, em conspirações. A História do Brasil tem várias. Até a Inconfidência Mineira foi uma conspiração. Deu errado, porque dedo-duro já havia naquela época. A Proclamação da República foi outra. Que deu mais ou menos certo. O século XX teve várias. Algumas deram errado, outras deram certo. E a que deu mais certo resultou no golpe de 1964 e mais de vinte anos de pau no lombo do povo, com os ditadores militares.

Muito já se escreveu sobre o golpe militar de 64. Muito ainda há por escrever e esclarecer. O meu palpite por que o golpe deu certo? Bem, é só um palpite, baseado em fiapos de fatos e boatos, mas com uma grande dose de lógica. O golpe de 64 foi gestado e financiado aqui mesmo, por gente muito poderosa: os latifundiários da época. Eles se borravam de medo das reformas preconizadas pelos sindicatos, pelos trabalhadores, e mais ou menos encampadas pelo governo de João Goulart. Tinham medo, principalmente, da reforma agrária, até hoje um nó na garganta dessa gente. Eles, os latifundiários, que não eram muitos, naqueles tempos, mas detinham uma alta porcentagem do PIB, engendraram o golpe. Melhor dizendo, abriram os cofres e financiaram  o golpe. Com duas ajudas poderosas: a imprensa golpista da época - praticamente os mesmos de hoje - e a Igreja Católica Apostólica Romana. A imprensa descia a lenha no governo e berrava contra a iminência de um governo comunista; os padres pregavam o anticomunismo e atiçavam seus fiéis contra a ameaça vermelha. A "marcha com deus pela família" foi o teste de convencimento de uma ala radical das Forças Armadas. Com a promessa de grana e apoio político, o general Mourão sublevou as tropas de Minas. O resto é história. Tenebrosa. Mas história. Feita de sangue e lágrimas do povo. Com a grana do que hoje chamamos de agronegócio e que naquela época era "apenas" um bando de fazendeiros endinheirados e donos de muitas, muitas terras. A adesão das demais forças econômicas e conservadoras, como a indústria (paulista e paulistana, principalmente) se deu de forma praticamente natural. E vejam que a conspiração não contava com os recursos de comunicação que temos hoje. Mas eles, os endinheirados conspiradores da época, já possuíam recursos infinitamente superiores de comunicação do que nas conspirações anteriores. O Brasil já entrava celeremente na era das comunicações - que eram ainda ruins, sim, mas possíveis.

Agora, em pleno século XXI, um fax distribuído, por exemplo, da sede da Federação Paulista das Indústrias, pode alcançar praticamente todas as cidades do País em poucas horas e de forma sigilosa. Eu disse fax? Nossa, que atraso! Já existem outras formas bem mais avançadas e mais rápidas e mais seguras. Nem preciso dizer quais são, não é mesmo? Então, uma ordem, uma convocação, uma discussão de qual a melhor forma de derrubar um governo pode ter a facilidade de teleconferências cifradas entre os poderosos da indústria, do comércio, do agronegócio e espalhar-se em pouquíssimo tempo.

Houve, então, uma conspiração?

Posso afirmar, com quase absoluta certeza, que sim, houve uma bem urdida conspiração. Só que os tempos são outros. As Forças Armadas não têm mais aquele viés político de cinco décadas atrás. Só os velhinhos do Clube Militar é que ainda sonham com golpe militar, entre um bocejo e outro de um jogo de gamão. Então, a melhor forma de derrubar um governo é pela velha e boa manipulação do povo, para que vote na oposição, num candidato previamente preparado e alinhado com o conservadorismo e com a política econômica mais cara aos poderosos, aquela que vigorou até o final do século XX, o capitalismo selvagem de lucros absurdos, aliada a uma classe trabalhadora manietada pela pobreza e distante de quaisquer conquistas que a tirassem da miséria e da pobreza.

Mas, para manipular o povo, hoje, mesmo com a força do PIG - o Partido da Imprensa Golpista - totalmente do seu lado, é preciso criar condições. E as condições, em 2013, um ano antes das eleições, eram totalmente desfavoráveis ao conservadorismo (que, aliás, nem se queixava muito, pois seu lucro e seus ganhos estavam sendo preservados pelo governo): o Brasil alcançara o posto de sétima economia do mundo; o PIB não lá grande coisa, mas havia um crescimento sustentado e constante; a economia recebia investimentos do exterior, e mantinha-se aquecida; o desemprego atingia baixíssimas taxas históricas, praticamente um regime de pleno emprego; havia uma nova classe trabalhadora emergente e forte o bastante para manter o consumo; a pobreza absoluta, um mal crônico, era paulatina e poderosamente reduzida, com os programas sociais do governo; o petróleo do pré-sal começava a ser explorado e atingíamos marcas cada vez maiores de produção; a inflação estava domada e não havia sinais iminentes de que ela voltaria; enfim, havia uma onda otimista no ar, e a presidenta alcançava índices bastante generosos de aprovação popular.

Estou mentindo? Então, pegue os jornais do ano, até mais ou menos dezembro de 2013. Você verá e lerá que estávamos no caminho de um País próspero e mais justo, em termos econômicos e sociais. Se havia problemas? Claro que havia inúmeros gargalos: na educação, na infraestrutura, por exemplo, mas nada que não pudesse, com o tempo, ser devidamente equacionado.

De repente, a partir de janeiro de 2014, o ano das eleições, as condições econômicas começaram a se deteriorar. O castelo parecia de cartas e um vento forte soprava de todos lados e espalhava a crise, o anúncio da crise, o prognóstico da crise e, pouco a pouco, à medida que o ano eleitoral segue, a crise se instala. Os investimentos despencam. A inflação ameaça. O governo demora a fazer a leitura da situação e solta medidas emergenciais, como se tudo aquilo fosse apenas um vento mais forte soprado do exterior, que uma desoneração aqui, um socorro acolá não resolvesse, já que a economia do País tinha - ainda tem - fundamentos sólidos. Só não contava que suas medidas cairiam no vazio da não colaboração - que o governo, um tanto ingenuamente, esperava - das forças econômicas, ou seja uma reação da indústria, do comércio e do agronegócio. Eles - os grandes industriais, os grandes produtores - tinham simplesmente enfiado o pé no freio dos investimentos e começavam até mesmo a demitir funcionários. Uma medida engendrada e muito bem orquestrada nos meandros de suas associações de classe e rapidamente colocada em execução, na surdina, sem que ninguém, nem o povo nem o governo pudessem desconfiar, já que contavam com o silêncio e a colaboração da grande mídia.

Foi ou não foi uma bela conspiração?

Que contou, ainda, com uma mãozinha do destino: o acidente que matou Eduardo Campos acabou inflando, por tortuosos caminhos, que todos mais ou menos conhecemos, a candidatura de Aécio Neves, que chegou ao segundo turno, com chances de vitória. Aí, o povo da grana, que havia apostado na frenagem da economia, que havia parado suas máquinas e perdido dinheiro com isso, entrou em parafuso e jogou pesado para garantir a vitória de seu candidato. Não deu certo. Por uma margem pequena, mas sólida, Dilma venceu as eleições. E o parafuso em que eles entraram continuou girando para um possível terceiro turno: a desestabilização do segundo mandato da presidenta, num movimento inominável de sacanagem, que culmina com uma campanha sórdida pelo impeachment, em que entram elementos de preconceito e de ódio ao partido da presidenta, jogando em suas costas toda a culpa por tudo de ruim que esteja acontecendo no País, desde as prisões por corrupção de altos executivos envolvidos na chamada Operação Lavajato, até o crescimento da inflação provocado pelo desaceleramento da economia, que eles patrocinaram no começo de 2014.

E há mais motivos que alimentaram o ódio "deles", dos poderosos que sempre mamaram nas tetas do governo: os controles estabelecidos pouco a pouco pela Receita Federal têm feito com que "eles" tenham de pagar os impostos devidos, coisa que nunca fizeram até hoje. Haja vista a operação Zelotes, da Polícia Federal, a envolver "peixes graúdos" da indústria, do comércio, do setor bancário etc. num escândalo - esse sim, sem precedentes - de evasão fiscal. Além, é claro, de uma guinada realista do próprio governo rumo ao rearranjo e reorientação da economia, o que, se der certo, propiciará, até o final do ano, fôlego à presidenta e, possivelmente, uma nova derrota das forças conservadoras daqui a quatro anos.

Então, já que a conspiração de 2014 não deu certo, tentam o golpe branco do impedimento da presidenta e a entrega do governo a uma pessoa um pouco mais confiável, no caso, o vice-presidente, do partido que hoje está na base do governo, mas que, diante de outras circunstâncias e diante de pressões econômicas feitas no momento e do jeito certo, pode mudar de lado.


"Yo no creo em las conspiraciones, pero que las hay, las hay".

 


PS: Ah, sim: se ouvir o PIG berrando que a PETROBRÁS está falida ou que a corrupção aumentou, NÃO ACREDITE, pois VOCÊ ESTÁ SENDO TERRIVELMENTE MANIPULADO com mentiras que se repetem, que se repetem, que se repetem, até que as pessoas pensem que são verdades.




março 01, 2015

NÃO DÁ PARA SE CONFIAR NELES, MAS ÀS VEZES CONSEGUEM SER UM POUCO DECENTES...




Todos sabemos a posição  política do jornal O Estado de São Paulo. Seus donos odeiam o PT e assumem clara defesa do neoliberalismo peessedebista. Dão voz ao ex-presidente FHC para escrever em suas páginas diatribes e demais vômitos de sua mente tacanha e estúpida. Criticam tudo o que faz o atual governo. Enfim, é um órgão comprometido com a direita.

No entanto, até eles - os intrépidos jornalistas do Estadão - são acometidos, de vez em quando, de laivos de decência política e conseguem publicar algo menos nojento do que a defesa das ideias de seus patrões. Foi o que ocorreu na edição de hoje, domingo, 1 de março de 2015.

No seu principal caderno de política, a reportagem de Lourival Sant"Anna, "Lista de Janot é o maior teste de credibilidade do Ministério Público" teria tudo para ser mais uma diatribe "anti tudo o que está aí". Mas, surpreendentemente, começa criticando as escolhas dos Procuradores da República da era FHC, quando o então presidente sempre ignorava as listas votadas pelos demais procuradores e escolhia  o nome mais conveniente, como o do famigerado Geraldo Brindeiro, o "engavetador-mor" da República, conduzido ao cargo por quatro vezes sucessivas, porque nunca levou adiante uma só denúncia contra o governo tucano.

Ressalta, ainda, a reportagem a liberdade que ganhou o Ministério Público a partir dos governos do PT. O ex-presidente Lula obteve retumbantes derrotas e amargou grandes dissabores nas mãos de Procuradores por ele nomeados, em vários momentos, principalmente na crise do denominado pela imprensa "escândalo do mensalão". No entanto, em nenhum momento deixou de ter uma postura altamente republicana, nomeando procuradores independentes. E mais: a reportagem termina enaltecendo o ex-presidente, com uma declaração de sua assessoria de que "o ex-presidente não se arrepende, ao contrário, tem orgulho de ter respeitado a autonomia do Ministério Público e sempre nomeado o primeiro colocado na lista tríplice". Ou seja: isso, sim, é ser republicano, é ser democrata, é não ter medo (como nunca tiveram os governos do PT, inclusive a presidenta Dilma) de ser investigado, de "cortar na própria carne", como muitas vezes teve de fazer, e de punir quem precisa ser punido por "mal feitos". Ao contrário, muito ao contrário, dos governos autoritários e corruptos que o Estadão defende, principalmente na figura de FHC, seu queridíssimo articulista.


Não dá para se confiar nessa gente, mas às vezes até eles dão a mão à palmatória e, diante da verdade translúcida dos fatos, publicam reportagens decentes, não distorcem os acontecimentos, mesmo que, mais adiante, em editoriais azedos, venham a cair de novo no seu ódio à verdadeira democracia e a enaltecer o neoliberalismo peessedebista.



janeiro 10, 2015

JE NE SUIS PAS CHARLIE...







... mas, dentro da minha concepção profundamente pacifista, abomino o atentado que matou os cartunistas da revista francesa "Charlie Hebdo" e outras várias pessoas, em Paris, nesse começo de ano que promete continuar a rotina de chacinas, atentados, levantes, guerras e outras misérias humanas, que não têm dado sinais de arrefecimento há, pelo menos, um século.

E por que condeno o atentado e não apoio o tal jornal?

Bem, vai ser uma longa conversa. Em que a única promessa que faço é: vou desagradar a gregos e troianos. Porque não acredito que haja mártires nem heróis nem inocentes nessa guerra suja em que a humanidade - principalmente os países da Europa e do Oriente e os Estados Unidos - estão metidos e enterrados até o pescoço, juntamente com todos as seitas religiosas que grassam pelo mundo.

Primeiro, o lado político, social e, claro, econômico.

Basta uma olhadinha na história da Europa e dos Estados Unidos, para perceber o grau de barbárie com que eles, os ditos "civilizados", se lançaram na conquista de colônias na África e no Oriente. Mataram e espoliaram todos os territórios conquistados, deixando um rastro de miséria e ódio que poucos historiadores tiveram coragem de detalhar. Espalharam o preconceito através da pregação da hegemonia "racial" contra todos os que eram diferentes, em termos de cor, de hábitos, de cultura. Engrossaram seus orçamentos à custa do butim e da dor de milhões de seres humanos tratados como gente de "segunda", como escravos, como escória. A segunda grande guerra foi o ápice desse processo de destruição e ódio. Quando os povos colonizados conseguiram, enfim, a alforria, seu território estava exaurido, suas economias em frangalhos e seus povos, muitas vezes, mergulhados em lutas intestinas e fratricidas, resultado da imposição de fronteiras artificiais, pelos "sábios" reunidos em grandes assembleias de vencedores. Aos poucos, a Europa, pela proximidade, começou a ser "invadida" por hordas de migrantes, atraídos pelas oportunidades oferecidas por um capitalismo selvagem, mas que ostentava índices crescentes de um progresso obtido principalmente pela especulação financeira, numa bolha que prometia estourar em algum momento e que, realmente, acabou estourando. De início "tolerados", esses imigrantes acabaram  pagando a conta da incúria dos europeus, quando a bolha estourou. Assim como os nazistas imputaram aos judeus suas mazelas, também os povos da Europa jogam nas costas dos imigrantes o seu ódio, o seu desprezo, os seus preconceitos. São as minorias que têm o lombo crestado de tanto apanhar que,  de novo, recebem as chicotadas dos "cultos" e "civilizados" eurasianos, que nunca os assimilaram totalmente. É claro que pesa nessa história um longo, longuíssimo estranhamento, desde os primórdios da alta idade média até nossos dias, de lutas, de invasões, de não convivência e aceitação, mas de olhares enviesados de uns para os outros, por serem "diferentes". E não se pense que os "coitadinhos" espoliados sejam assim tão inocentes: sempre que puderam, deram o troco, um troco miserável frente à grandeza da dívida, por absoluta falta de meios. Porque, se puderem, se tiverem a ocasião e os meios, terão contra os seus exploradores o mesmo espírito de vingança que tem norteado as relações entre esses povos. Enquanto isso, vão fazendo os estragos que podem, através de atos terroristas praticados por organizações criminosas que não representam exatamente o pensamento do povo ou dos povos de onde procedem. São apenas e tão somente criminosos com uma falsa causa, a causa religiosa.

E, então, entramos no problema religioso.

Comecemos corrigindo a expressão usada: religião. Essa palavra tem origem em "religare", ou seja, abrange o conceito de que é uma organização ou algo parecido que tenha por finalidade "religar" o homem com deus. Ora, se não há deus, não há o que "religar". Essa, a primeira questão. Portanto, não há "religiões", mas seitas que se dizem, cada uma à sua maneira, dona de deus, dona da verdade. Desde que o homem inventou a divindade, os espertalhões souberam se apossar da imagem dessa divindade, para tirar algum proveito da submissão da pessoas, obtendo várias benesses advindas principalmente do poder. As seitas nasceram intimamente ligadas (e não exatamente "religadas") ao anseio de poder. E com ele conviveram desde sempre. Seus líderes ou eram os chefes de tribos, de legiões, de estados, ou eram íntimos dos detentores do poder, influenciando de alguma forma todas as suas decisões. No ocidente, o cristianismo - uma seita tão bárbara quanto todas as outras - somente se tornou um pouco mais civilizado, quando, a partir do século XVIII, depois de torturar e queimar milhares de mulheres acusadas de bruxaria e de outras milhares de pessoas acusadas de heresia, para se apossar de seus bens, começou a desligar-se lentamente do poder político. As nações começaram a tornar-se laicas, pelo menos em termos oficiais. Já as demais seitas - o islamismo entre elas e, talvez, a mais importante - têm origem mais recente do que o cristianismo e ainda não passaram pelo processo de "modernização", ou seja, ainda não "largaram o osso do poder político". Não são, por isso, mais bárbaras do que o cristianismo. Estão apenas numa fase anterior de evolução. Os princípios gerais entre todas as seitas são, no fundo, extremamente semelhantes. Não há grandes diferenças filosóficas e teóricas entre elas. As diferenças mais profundas se situam todas na concretização da fé, ou seja, nos sistemas de relacionamento dos fiéis com seus profetas e líderes. Mas isso é o suficiente para despertar entre eles ódios seculares, porque o deus de cada uma é sempre um deus de exclusão: para defender seu território, seu rebanho, cada um prega a extinção do outro ou sua demonização. Se não está comigo, está contra mim (e nem vou colocar entre aspas a citação, porque, no fundo, ela não tem um dono exclusivo). E ponto.

Temos, até agora, dois dados de realidade: o preconceito entre os povos, com a inegável ojeriza do europeu a seus imigrantes africanos e orientais, por questões históricas, raciais, teístas e econômicas e seitas que se odeiam em nome de seus respectivos deuses e profetas.

Analisemos, agora, especificamente, o caso do "Charlie Hedbo".

Os países muçulmanos não têm o que nós chamamos de "liberdade de expressão", porque lá prevalece a lei islâmica, a voz do profeta, a teocracia. Se o profeta diz que sua imagem não pode ser reproduzida, isso não é, para eles, um preceito "religioso", mas a lei. E uma lei que tem o aval do deus é uma lei absoluta. No ocidente, eu posso xingar o papa, ironizar a fé das pessoas, criticar atos de extremismo etc. As pessoas atingidas ficarão com ódio de mim? Quase certamente, sim. Poderão fazer algo contra mim? Dentro da lei, sim. Podem me processar etc. Mas não passa disso. Porque, há alguns limites éticos que eu não posso ultrapassar. Se posso satirizar o Cristo, devo tomar cuidado para não exagerar na dose e não entrar em aspectos que sejam tabus ou de mau gosto. Imagine se alguém publica uma sátira com o profeta do cristianismo em ato libidinoso homossexual (deixo à sua imaginação): é claro que isso provocaria muito mais do que um escândalo. Eu tenho o direito de fazer isso? A resposta, por mais paradoxal que seja, é: sim, tenho o direito de fazer isso. E provavelmente - porque o cristianismo, em geral, não exatamente algumas de suas subseitas - já tendo mitigado a sua sede de sangue, de vingança, eu não correria grande risco de vida. Ou seja, não haveria nenhum líder religioso a exigir de seus fiéis, de forma clara e taxativa, a minha morte. Teria, no entanto, de enfrentar muitos protestos e quase certamente um processo legal por intolerância religiosa ou algo assim. Impensável tal atitude para os muçulmanos, entretanto.

Lembremos o caso romance "Versos Satânicos" de Salmon Rushdie, que se viu obrigado a viver longos anos totalmente escondido e sob proteção policial, porque um aiatolá decretou contra ele uma "fatva", uma sentença de morte, por considerar o seu livro ofensivo ao profeta do islamismo. E pergunta-se: têm os seguidores de tal profeta o direito de decretar a morte de quem quer que seja por ofensa - seja ela qual for - à sua crença, a seus valores, a seu profeta? A resposta é óbvia e taxativa: claro que não. Tal ato, em nome de um deus, é simplesmente barbárie, algo condenável sob todos os aspectos. Porque, embora todas as seitas sejam sanguinárias, tenham histórico de lutas e guerras, até mesmo de extermínio, e o deus de todas elas prescreva a destruição do "inimigo" (basta ler com atenção qualquer um dos livros ditos sagrados dessas seitas, que lá encontrarão histórias e exemplos de vingança em nome do deus), hoje, depois de tanto sangue derramado, nossos princípios éticos começam a despertar para o fato de que ninguém tem o direito de tirar a vida do outro, a não ser em casos excepcionalíssimos (autopreservação, por exemplo).

Os desenhistas do jornal francês tinham o direito de produzir charges e piadas contra os muçulmanos, por mais que isso incentivasse até mesmo o ódio contra esse povo e sua seita? Pelo que pensamos até agora, sim. Eles tinham o direito e a liberdade de fazer o que fizeram. Então, entramos na reta final de nosso raciocínio: deviam ser mortos pelo que fizeram? Absolutamente, não. Erraram eles, ao "cutucar a onça com vara curta", ao desprezarem princípios comezinhos de respeito ao outro e, não são por isso, exatamente heróis, por mais que reconheçamos seus talentos, mas absolutamente não mereciam morrer por causa disso. Essas mortes foram, repito, um ato de absoluta barbárie.


E uma última palavra, para pôr uma pá de cal nisso: os líderes de seitas, de todas elas, são muito estreitos de pensamento. Uma ofensa revidada repercute em favor de quem ofende. Alimenta a polêmica. Acende os holofotes para algo que, na maioria absoluta das vezes, ficaria restrito a um grupo específico de pessoas, sem maiores repercussões. Salmon Rushdie era um escritor de poucos leitores, em termos mundiais. Não sei se ganhou muitos mais leitores, depois da sua condenação à morte, mas esse fato tornou-o mundialmente conhecido. O mesmo vale para o "Charlie Hebdo": quantas pessoas realmente o leem? Na verdade, a maioria absoluta das pessoas que hoje estampam cartazes "Je suis Charlie" nunca tinham lido ou ouvido falar desse jornal. Com o assassinato cruel, brutal, ignominioso, absurdo de seus cartunistas, a próxima edição sairá com um milhão de exemplares e, com certeza, será reproduzida e comentada em termos mundiais. Se os terroristas, por sua vez, se tornaram "heróis", por seu feito odioso, para uma parcela de extremistas, milhões de pessoas estarão bradando por liberdade de expressão, em todo o globo, mesmo que muitos saibam que isso seja uma utopia. Como é uma utopia um mundo sem ódios. E sem retaliações e vinganças.


dezembro 21, 2014

PENSAR FORA DA CURVA







Incomoda-me o pensamento raso de pessoas inteligentes e cultas, ao dizer, por exemplo, que "nunca se roubou tanto neste país", ou, ainda, "votava no PT, mas quando Lula abraçou o Maluf, eu me desiludi"... Há vários outras afirmativas de mesmo teor por aí, mas vamos ficar nessas duas.

Corrupção. Não é invenção do PT. Não é invenção do PSDB. Não é invenção de nenhum partido político atual ou do passado. Ela existe, sim, desde que o mundo é mundo. Mas, para ficarmos apenas no nosso País, a corrupção instala-se com grandes negociatas a partir do começo da modernização, lá na década de quarenta, cinquenta, quando o Estado começa a investir em grandes obras. Brasília não estaria pronta e inaugurada em três anos, se houvesse Ministério Público naquela época, e se Juscelino não tivesse fechado os olhos às falcatruas das empreiteiras. Era uma questão de sobrevivência do Governo e, por extensão, do próprio Estado. As grandes empreiteiras nasceram ali, na construção de Brasília e começou assim, de uma forma singela: chegava o caminhão com material para descarregar e era registrado na entrada; mas ele não descarregava: saía do canteiro de obras e voltava a entrar pelo mesmo portão, e isso várias vezes. O candango encarregado do controle devia receber o seu quinhão para fechar os olhos e fazer os registros. E assim... o monstro cresceu, Brasília foi inaugurada, Juscelino deu a volta nos militares que o queriam deposto. A bomba só veio a estourar nas mãos de Jango. Mas isso é outra história.

O golpe militar colocou no poder a "moralidade pública" de fachada. Os generais tinham contas a pagar, pelo financiamento do movimento, contas que industriais e fazendeiros (os dois pilares da economia, naquela época, e talvez ainda hoje) cobraram com juros e muita correção monetária e incorreção ética. E os apoiadores do golpe tornaram-se grupos poderosos, à custa de muita estrada mal acabada, de muita obra superfaturada, que os militares engrandeceram com o mote desenvolvimentista. Não eram os ditadores exatamente corruptos (eles mesmos não enriqueceram devidamente), mas permitiram que os amplos e gordos úberes governamentais fossem devidamente sugados com muito apetite por quantos os apoiassem e entrassem no jogo cujas regras eles decidiam, sem Ministério Público, sem imprensa, sem oposição, sem fiscalização.

Os governos democráticos subsequentes herdaram a estrutura corrupta montada - e muito bem montada - durante os governos militares. Era simplesmente impossível ir contra ela. Podia-se ser mais leniente ou mais rigoroso com as licitações, mas seria suicídio político ir contra a óbvia cartelização das grandes empreiteiras. Fizeram-se leis, leis até rigorosas contra isso. Mas - todos sabem - malandro que é malandro se adapta. Quanto mais rigor de um lado, mais criatividade do outro, para driblar a lei e continuar mamando. Sempre foi assim. E não é  porque foi sempre assim que devemos ser vacas de presépio e nos conformarmos. Ao contrário: a luta contra a corrupção deve ser um processo diário e contínuo de todos os cidadãos, a começar pela suas próprias vidas privadas. E sem moralismos. Porque é uma questão de sobrevivência e melhoria de condições da sociedade. Sabemos todos que cada centavo que vai para a corrupção significa menos serviços públicos de qualidade.

A punição à corrupção sempre ficou restrita aos entes públicos, isto é, quando - e isso ocorria, sim, mas de forma bem menos sistemática do que gostaríamos - se descobriam "mal feitos", o funcionário público era demitido, processado e raramente ia para a cadeia. Aí incluindo na categoria "funcionário público" os políticos e governantes de todos os escalões do poder. Só agora, de muito pouco tempo para cá, é que há uma intensa fiscalização por órgãos bem estruturados e independentes, como o Ministério Público e a Polícia Federal. Mesmo que esses órgãos cometam exageros, de vez em quando, e até mesmo errem, sua independência e competência só são possíveis se houver um governo que banque essa ideia e realmente permita que eles façam o seu trabalho. Por mais que queiramos, a influência política nesses órgãos é, sim, intensa. Basta uma palavra, um despacho do Palácio da Alvorada, para que muitas investigações acabem na gaveta da CGU (Controladoria Geral da União), como muito bem sabemos, ou fiquem anos e anos nos meandros da Justiça. Além do que, é o Palácio do Planalto que escolhe e nomeia -  direta ou indiretamente - os responsáveis pela investigação e julgamento dos corruptos.

Portanto, pensar um pouco fora da curva, neste momento, em relação à corrupção, é não entrar no jogo da mídia, que nos quer fazer crer que "nunca se roubou tanto neste País", quando, na verdade, a afirmação correta é: "nunca se puniram tantos corruptos neste País"! Porque há independência e competência dos órgãos investigativos, mesmo que algumas denúncias possam estar viciadas por jogos de interesse, e certos "vazamentos" se tornem, muitas vezes, seletivos. É o preço que se paga. E parece que há disposição da atual - e próxima - governante de continuar a pagar esse preço, mesmo que tenha de cortar em sua própria carne, o que vem acontecendo.

Jogo político. A redemocratização trouxe a necessidade de uma nova Constituição. E a "Constituição cidadã", nos dizeres de Ulysses Guimarães, sacramentou princípios éticos muito salutares para a sociedade que estamos construindo. Mas seu bojo - extenso e contemporizador - apresenta distorções que, pouco a pouco, comprometeram e estão comprometendo o desenvolvimento político do País. Se nos deu segurança jurídica e permitiu um novo modelo de sociedade menos injusta, o seu lado político - construído por políticos - deixa muito a desejar. Se a ditadura restringiu os partidos políticos a apenas dois, ARENA e MDB, faces ambos da mesma moeda, por mais que o segundo tentasse ser oposição (era uma oposição consentida, acuada, devidamente controlada por mecanismos de perseguição e cassação de direitos), a atual Constituição tomou o caminho oposto e permitiu a criação de uma quantidade tão grande de partidos políticos, que  nenhum ser humano consegue imaginar tantas ideologias a justificar cada um deles. São, portanto, partidos "fisiológicos", legendas de aluguel, que vivem e sobrevivem de uns poucos "puxadores de votos" que não têm nenhum tipo de escrúpulo, quanto mais algum tipo de pensamento ou de ideologia política, muito menos projeto político para a sociedade, apenas o projeto pessoal de chegar ao poder ou dele se aproveitar, não importando qual partido esteja governando.

No meio desse imbróglio, três grandes agremiações: PT e PSDB que, por injunções eleitorais e ideológicas, têm polarizado as atenções e têm-se revezado no poder, sem, no entanto, alcançar a maioria, e, entre eles, talvez o maior partido de todos, o PMDB que, também por injunções mais eleitorais e menos ideológicas, é grande e forte, mas não tem obtido sucesso na ascensão ao poder. Tornou-se, por isso, o fiel da balança. Em geral, apoia o vencedor, que não pode prescindir de seus votos em qualquer casa legisladora, desde o Senado até a menor câmara de vereadores de qualquer município. Tem, no entanto, o PMDB um defeito de origem: como era uma "frente ampla", um "movimento" contra a ditadura, abrigando descontentes de todos os naipes ideológicos, desde a direita insatisfeita com os militares até o mais radical comunista, continua abrigando em suas fileiras uma razoável quantidade de facções que não tiveram força para formar outro partido (como os petistas e peessedebistas, dos quais muitos vieram do PMDB) ou não lhes interessa sair do partido, pela força da sigla ou por outros interesses, muitas vezes regionais. Exemplifico com o PMDB do falecido Orestes Quércia, em São Paulo, que sempre divergiu da direção nacional, mas nunca partiu para a independência. Assim, há dentro do PMDB facções que são de direita e apoiam a direita, e há facções que são de esquerda e apoiam a esquerda, além dos "fisiologistas" de sempre.

Assim, nem PT nem PSDB, quando chegam ao governo - qualquer governo - conseguem governar sem o apoio do PMDB. Que tem sempre uma facção disposta a apoiar, e outra que se diz "independente" ou, às vezes, até fazendo o papel de oposição ao próprio governo que o partido apoia. Uma miscelânea, como podemos imaginar. Logo, quem está no poder precisa contar com alguma parte do PMDB, sem dúvida, mas quase sempre isso não é suficiente. E aí entram os "nanicos", as siglas "de aluguel", com seus parcos, poucos e importantes representantes legislativos. E negociar com eles é um jogo de paciência e de acomodação de interesses conflitantes.

Pergunta-se: por que negociar com eles? Porque existe a tal "governabilidade". Se o chefe do executivo - desde o prefeito até a presidência da República - não tiver votos no legislativo, para aprovar suas medidas, seu governo, suas contas, ele simplesmente não consegue governar.

Então, quando Lula é abraçado por Maluf, muito mais do que o abraça, ele não estava acolhendo o político e corrupto Paulo Maluf, filhote e sobrevivente da ditadura, mas abraçando e acolhendo o seu partido, porque, naquele momento, sem o partido do Maluf, Lula não conseguiria maioria suficiente de votos para governar. Dizem que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. A frase é forte, mas não a interpretemos apenas como corrupção financeira e ética, mas também como a corrupção decorrente da própria necessidade do poder, que é governar. E o ato de governar, em quase todas as democracias constitucionais, não importa o tipo de regime, recai nas mãos do mandatário principal, presidente, primeiro ministro ou que outro nome tenha. Esse, sim, tem que ser ético o suficiente para saber que, ao chegar ao "inferno", ao poder, tem que abraçar o capeta, em nome de seus próprios princípios. Se esses princípios são legítimos, ou visam ao bem público, esse "pecado" é o que os católicos chamam de "venial", de pouca monta, sem importância. Se esses princípios não "rezam" (para continuar com as metáforas "cristãs") pela melhor ética, então, sim, o ato de "abraçar o capeta" pode se traduzir na transformação da vida do cidadão em um verdadeiro "inferno". No caso de Lula, pelo que vimos de seu governo - que teve erros e acertos, mas muito mais acertos do que erros - o "inferno" ficou longe, muito longe, da vida do cidadão comum. Porque foi o presidente que iniciou uma verdadeira revolução neste País, ao conseguir iniciar o movimento de inclusão de milhões de brasileiros no mercado de trabalho, tirando-os da pobreza absoluta. Note que disse "iniciar", porque o caminho é longo, como todos sabemos, depois de mais de quatrocentos e cinquenta anos de governos preocupados apenas com a elite e com os mais ricos.

Então, pensar fora da curva, no caso da política (que exemplificamos com o abraço entre Lula e Maluf - o ético e o corrupto), não é imaginar que Lula passou a apoiar o Maluf ou a ser igual a ele, como nos quis e nos quer fazer pensar a mídia de um olho só, mas dar a ele o crédito de sua história pessoal, política e do estadista que ele foi. E achar que, assim como há tantos políticos desonestos e safados, há outros tantos honestos e bem intencionados. Desistir da política por causa dos primeiros é fazer o jogo dos que querem continuar a apoiar aqueles mesmos de sempre, aqueles que fizeram desse País um dos campeões de desigualdade e de pobreza no mundo, apesar de sua riqueza territorial zelosamente explorada por poucos. Se esses que corrompem, que roubam, que querem a manutenção do status quo de pobreza de nosso povo continuam a ter votos - como o próprio Maluf e muitos outros - é graças ao pensamento dentro da curva que nos impõem os meios de comunicação que estão  nas mãos exatamente dos que pensam como os que sempre governaram esse País.


Sei que é difícil, muito difícil, pensar fora da curva. Mas não temos outra saída. E se você pensou que pensar fora da curva é apoiar o PT (como eu, até agora, apoio), você está saindo de uma curva para outra. Pensar fora da curva é ter a liberdade de apoiar qualquer partido ( e é essa a liberdade que eu exerço), mas não ficar no discursinho padrão da direita, e dizer coisas como as que colocamos nos dois exemplos acima. Apoie você o PT, o PSDB, o PMDB ou qualquer outro partido, mas não entre no jogo sujo e manipulador de pensar só o que eles querem que você pense: saia do quadrado, entre também no redondo, no triângulo, no tetraedro...



novembro 21, 2014

"EU TENHO MEDO DA DEMOCRACIA"






A frase acima eu a encontrei na timeline da escritora Márcia Denser, no Facebook, que afirma tê-la visto num muro da rua Vergueiro, em São Paulo.

À primeira vista, parece só uma dessas frases de impacto que encontramos por aí, sem maiores consequências. Frases que lemos, achamos divertidas e depois esquecemos.

Porém, essa me fez pensar: quem pode ter medo da democracia?

Pensei um pouco e cheguei a uma conclusão: há, sim, dois tipos de pessoas que temem a democracia. Primeiro, os que clamam por um governo ditatorial, tipo militar linha dura, do qual já nos livramos há duas décadas. Gente saudosa das regras claras e rígidas dos milicos, da ordem unida, do Brasil grande para os tubarões e o povo contrário na cadeia, mesmo que fosse assim tão contrário. Bastava não concordar com alguma coisa e já era isso motivo de preocupação. Tive um colega, professor de geografia, no estabelecimento em que ambos lecionávamos, que disse em sala de aula que o País não teria como patrulhar as duzentas milhas decretadas pelo ditador de plantão. Foi parar no DOPS, para esclarecimentos. Essa gente é a mesma que quer anular eleições livres, que quer impor a ditadura dos perdedores, a ditadura das minorias e dos que gritam mais alto, e podem fazê-lo, porque têm o poder das armas. Acho que essa gente não merece mais do que o já que escrevi até aqui.

Mas, há um segundo tipo de pessoas que teme a democracia: o verdadeiro democrata. Por motivos exatamente opostos ao anterior. Teme porque sabe que a democracia é, primeiro, quase uma utopia. Estou falando de um verdadeiro e absoluto estado democrático. Em que todos, absolutamente todos, são iguais perante a lei. Em que não há quase pobreza, em que a palavra de um lixeiro vale tanto quanto a do/a presidente/a do País. Em que as oportunidades são exatamente iguais para todos, e não há discriminação de cor, de sexo ou sexual, de classe ou de qualquer outra coisa. Enfim, um regime em que as diferenças sociais tendem a zero, porque o dono de uma indústria não precisa ter ganhos fantásticos para ter o mesmo tratamento na escola ou no hospital que o seu faxineiro, que tem um salário tão digno quanto o dele... Enfim, não disse que era uma quase utopia? Ou quase utopia é otimismo demais?

Voltemos à democracia. Agora, à democracia mais próxima de nossa realidade. O regime em que, apesar de todos os defeitos - e são muitos! - é aquele que promete, e às vezes cumpre, uma vida melhor para todos os cidadãos, dentro de um princípio de busca da igualdade. Um  regime em que há leis, regras, regulamentos que devem ser cumpridos por todos, não porque haja punições aos que não os cumprem, mas porque é a melhor forma de todos os cidadãos viverem em harmonia uns com os outros. Ordenações que, a partir de um certo grau de civilização e de civilidade dos cidadãos, podem tornar-se até mesmo obsoletas, porque interiorizadas numa só palavra: respeito. E respeito implica negociar com o próximo o meu direito, para não avançar sobre o direito dele. E isso é uma das coisas mais difíceis do mundo.

Democracia implica desde não fraudar o imposto de renda até recolher da calçada as fezes do cachorro que levo a passear. Democracia implica saber que as leis valem e valem para todos, que as regras - acordadas e aprovadas - devem ser sempre absolutamente respeitadas. Democracia implica jogar o jogo e saber ganhar tanto quanto saber perder.

Então, a democracia é um regime temível. Um regime que arrepia todos os nossos pelos, porque não posso estacionar meu carro na vaga de idosos; não posso cuspir no chão; não posso furar a fila na porta do cinema; não posso assediar a garota de saia curta no metrô; não posso impedir que dois rapazes se beijem; não posso quebrar o retrovisor do carro que fechou a minha passagem de moto; não posso olhar com cara feia o negro sentado a meu lado no banco da faculdade; não posso dar uns tapas na minha mulher, porque ela é a parte mais fraca da relação; não posso jogar o meu lixo no córrego ao lado de minha casa; não posso pedir a volta da ditadura; não posso... Chega! A lista é grande. Além do mais, numa democracia eu posso fazer tudo isso, porque afinal é uma democracia, porra!


Percebeu por que o democrata verdadeiro tem medo da democracia?

novembro 14, 2014

CHEGA DE PATRULHAS!







Viver numa ditadura é fácil: as regras são claras e desrespeitá-las implica punição, cadeia ou morte. Melhor seria dizer: morrer numa ditadura é fácil.

Já numa democracia, a vida é mais complicada. Porque significa pluralidade. E não só pluralidade, mas o direito de ser diferente e de expressar essa diferença. E "pior": aceitar que as pessoas pensem de modo diverso e sejam diferentes, que as pessoas possam dizer o que pensam, sem medo de serem presas, de serem torturadas, de morrerem. Ou seja: liberdade de opinião.

Liberdade total de opinião?

Talvez alguns pensem que sim. Mas não é exatamente isso. Há regras. E uma delas se chama RESPEITO. Pode-se opinar, sem dúvida. Mas não se pode deixar de respeitar o outro. Porque, numa democracia, a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro.

Complicado isso. Muito complicado. Onde está o limite, a linha divisória, a cal que delimita o meu campo do campo do adversário, onde um atacante pode ser considerado "impedido"?

Pois, é: o limite, a linha divisória, a cal - essa coisa tão clara na ditatadura e  que na democracia é invisível. Invisível,  mas elementar e fundamental e não é uma linha, não: é algo chamado bom senso.

E bom senso não tem na farmácia, nem no supermercado, nem na feira. Não se compra, não se vende. Só se usa. E, se usado mal, vira outra coisa, vira desrespeito.

E aí, já não há democracia que aguente. Que se sustente.

Posso criticar o meu semelhante, o meu vizinho, o gato do meu vizinho, como posso criticar o governador e a presidenta da República. Sim, tenho esse direito. Temos todos esse direito, o de criticar, o de opor a uma opinião a nossa opinião. De dizer sim, ou de dizer não. De lutar por aquilo em que acredito.

Mas...

Ah! Essa adversativa, essa maldita adversativa, que os totalitários odeiam. Ou só a usam a seu favor, porque não conseguem entender os sutis mecanismos da democracia e a cospem de suas falas, de seus textos.

Para eles, não há possibilidade de oposição. Porque são os recalcados do pensamento único. E se alguém é diferente, se alguém pensa diferente, é "pau na moleira dele", que está marchando com pé trocado. Todos têm que marchar exatamente no mesmo passo. Aliás, eles adoram uma "marcha", um "ombro-armas"!

São os patrulheiros do pensamento alheio. Não largam nunca seus fuzis, suas metralhadoras giratórias, suas granadas: o "inimigo" somos todos nós, que temos opinião e são todos os que dizem ou fazem alguma coisa com a qual não concordam.

E, o pior: muitas vezes, não concordam e se lançam ao ataque, sem nem mesmo entenderem o que o outro falou, ou escreveu. Tudo é motivo de "patrulhamento": a piada mal contada, a ironia não entendida, a crítica não assimilada, o posicionamento filosófico, a opção sexual, o voto declarado, o apoio ou não a alguém...

Mas, não pensem que atacam com argumentos, com ideias, com oposição. Não. As patrulhas atacam com o mais rasteiro dos argumentos: o xingamento, a ofensa, a ameaça. O argumento dos que não têm argumentos. E quando podem, com "carteiradas" - "sabem com quem está falando?" "Não sou deus, mas sou juiz" (ou delegado, ou deputado, ou... qualquer outra "otoridade")!

É quase impossível acabar com as patrulhas. Mas, está na hora de se começar a dizer: chega!

Se quer discutir, discuta. Se quer criticar, critique. Se quer opinar, opine. Sem patrulha, no entanto. Com civilidade. Dentro das regras da democracia.


Chega! Chega de patrulhamento!



outubro 27, 2014

O RESULTADO DAS URNAS





Dilma Rousseff ganhou as eleições, porque conseguiu vencer três adversários poderosos:

Primeiro, certo grupo de empresários influentes, que têm uma visão estreita de política e que não suportam imaginar um País com direitos para trabalhadores, em que não possam contar, como em muitos outros lugares, com mão de obra semiescrava, ganhando mal e produzindo muito. Esse grupo de empresários - ligado a partidos de oposição - paralisou o Brasil, por mais de seis meses, com intenção deliberada de prejudicar a presidenta reeleita, numa das orquestrações mais criminosas da história do País, um crime difuso, cujos autores é impossível identificar. Paralisaram as máquinas, diminuíram a produção, despediram funcionários, contrataram somente o indispensável, assim mesmo com salários menores, tudo de forma sutil, como uma quadrilha que age no meio da noite, sorrateiramente, sob o olhar complacente da mídia sempre disposta a ver em cada índice econômico desfavorável o fundo do poço, o abismo. Isso não é teoria conspiratória: é a realidade que está em todos os jornais, em todas as revistas em todas as análises de âncoras de rádio e televisão, basta ter olhos para ver, perceber, analisar e chegar a uma conclusão.

Segundo, a mídia a serviço de um partido político. Nas mãos de meia dúzia de famílias (essa repetição já está ficando exaustiva), essa mídia manipula informações, distorce fatos, ergue e destrói reputações, sem nenhuma ética jornalística. Seus cães amestrados - jornalistas que só escrevem e falam o que mandam seus donos - cumprem a triste tarefa de se exporem ao ridículo de forjar notícias que sirvam aos interesses um único grupo político. Não desfrutam de nenhum liberdade de opinião em suas redações. Os que ousam desafiar orientações superiores são sumariamente demitidos. Os que restam ou cumprem as ordens por necessidade de sobrevivência ou se alinham ao pensamento dos superiores, de forma servil e indigna. Alguns órgãos de imprensa conseguem iludir seus leitores, publicando artigos de oposição, como a dizerem que são democráticos. Mas, se tal artigo (geralmente matéria encomendada a algum medalhão) obtém repercussão, seus cães amestrados logo se colocam na linha de tiro, para desconstruir inapelavelmente, e sem direito de resposta, qualquer argumento que contrarie a voz do dono. Enfim, um inimigo que não dá tréguas, martelando a consciência da população diuturnamente. Muitos são os que, enganados pela repetição exaustiva de mentiras, acabam por acreditar nesses avatares da desinformação e dos interesses escusos de seus patrões, de interferirem de forma criminosa nas decisões do povo.

Terceiro, a máquina partidária do PSDB. Um partido que nasceu para ser uma opção de centro-esquerda e que se bandeou para a extrema direita, levado, principalmente, pela mídia e pelas elites conservadoras do Estado de São Paulo. Abro um parêntese para uma velha anedota. Contava-se, na década de sessenta e setenta, que alguém chega a uma banca de jornal e pergunta se o jornaleiro tem "Estadão" atrasado e obtém como resposta que ali não se vende mapa do Estado de Minas Gerais. Essa mesma piada teria, hoje, por resposta exatamente o Estado que lhe deu origem: São Paulo. Os paulistas ainda não se deram conta de que não são mais a locomotiva do Brasil, de que o desenvolvimento de outros estados, de ponta a ponta do País, mas principalmente de Minas e dos estados nortistas e nordestinos, já há muito tem deslocado o polo econômico para essas regiões e tem oferecido oportunidades de crescimento a suas populações. Os paulistas ainda não se deram conta de que o desenvolvimento passado de seu Estado deveu-se, e muito, às ondas migratórias, principalmente do Nordeste. E hoje, politicamente, São Paulo é o estadão atrasado e preconceituoso, com uma elite de visão ultrapassada e conservadora, encastelada em visões do  passado, elegendo e reelegendo políticos do mesmo naipe, para governar o Estado, como se ele fosse uma capitania hereditária. O PSDB, cuja máquina partidária deveria ter o rumo de um partido político moderno, tornou-se uma máquina de rancor, de ódio e de ranço conservador de uma direita quase fascista, ao se deixar dominar pelos políticos paulistas.

Dilma Rousseff não ganhou as eleições porque o Norte e o Nordeste lhe deram expressiva votação. Ganhou porque obteve - apesar de não ser a maioria - expressiva votação também em todos os estados e, principalmente, porque ganhou em Minas Gerais. Foi esse último o fiel da balança e não, como pensam os preconceituosos, os nortistas e nordestinos.

E por que venceu Dilma em Minas, o Estado onde seu opositor foi governador?

Por três motivos. Primeiro, porque Aécio Neves exagerou ao apresentar seu governo como a maior vitrina de sua capacidade administrativa. Claro, não foi um mau governante e os índices de aprovação de sua administração são incontestáveis. Justifica-se: mineiro gosta do político conterrâneo que tenha por trás de si uma longa tradição de políticos e Aécio, afinal, é o herdeiro de um homem que, se não chegou a tomar posse como presidente, teve uma importância fundamental na história recente do País. Mas ele exagerou e mentiu, quando apresentou realizações muito acima daquilo que realmente fez, quando governador. Tanto, que acabou por entregar ao PT a próxima administração. Segundo, porque está enraizada no inconsciente coletivo dos mineiros uma história mal contada de traição, a de Tiradentes, seu herói maior. E mineiro odeia traição. Aécio, sem querer, talvez, por inadvertência, traiu os mineiros ao se aliar fortemente aos políticos paulistas. Seu candidato a vice confirma isso. Buscou ele no PSDB paulista os principais pontos de apoio e de programa de campanha e de governo, sem atentar que, inconscientemente, estava traindo os políticos e o povo mineiro. Que não lhe perdoou: votou na Dilma que, embora tivesse pouca relação com Estado, é também mineira, o que alivia bem a consciência do eleitor. Terceiro, porque fez uma campanha agressiva. Não há dúvida de que também "apanhou como gente grande", como se diz. Mas, por dever de oposição, como candidato, mais uma vez exagerou na dose, sem perceber que o brasileiro, inconscientemente, apesar de ser machista, não gosta de quem "bate em mulher". Mas não se saiu tão mal assim, já que, na primeira fase da campanha, não tinha nem a possibilidade de chegar ao segundo turno. Seu crescimento político e o número de votos conquistados o habilitam como um político hábil - que ele realmente é - que ainda pode sonhar com voos altos, se repensar sua posição e conseguir se livrar desse extremismo direitista paulista que agregou à sua persona política, nessa campanha.


Concluindo: Dilma Rousseff venceu as eleições com o voto de brasileiros de todos os pontos do País. Ao contrário do que pensam os imbecis e preconceituosos que estão a pregar uma divisão do povo, não existe voto qualificado: pela lei e pelos princípios de democracia solidamente constituídos de forma legal e filosófica, todos são iguais perante a lei e o meu voto vale exatamente igual ao seu, ao do meu vizinho ou ao do pescador de Rondônia ou ao do vaqueiro do Rio Grande do Sul. E a vontade soberana do povo, em eleições legítimas e legitimadas pelo poder de uma Justiça Eleitoral livre e independente, não pode ser desrespeitada e violentada por qualquer minoria derrotada, apenas por implicância ou preconceito, esse sim, um crime de lesa-pátria e de lesa-humanidade.

outubro 21, 2014

LIBERDADE DE IMPRENSA X IMPRENSA LIVRE







A Rede Globo de Televisão e também as assim chamadas co-irmãs, ou seja, todas as demais redes de rádio e televisão do País, acompanhadas da mídia impressa, enchem a boca de seus apresentadores de telejornais, de seus jornalistas, de seus comentaristas, para qualquer evento em que se discuta ou que alguém de peso defenda a liberdade de imprensa.

Sim, liberdade de imprensa (liberdade de opinião, liberdade de mídia) é um bem fundamental de qualquer democracia. Direito e dever. Inalienável. Como vários outros princípios democráticos.


Temos, no Brasil, assegurada pela Constituição Federal, amparada por leis, defendida por todos, total liberdade de imprensa. Total liberdade de mídia. Nenhum jornal, nenhuma emisssora de televisão ou de rádio, nenhuma revista ou qualquer outro tipo de mídia têm sido perseguidos ou seus integrantes, presos, por opinião ou pelo exercício de seu ofício. Os três poderes da República funcionam em harmonia e se respeitam, apesar de divergências, mas respeitam, acima de tudo, a liberdade de opinião de todo e qualquer cidadão.

Mas... E aí vem uma adversativa que a nossa imprensa adora: há sempre um "mas" em qualquer notícia que nossa mídia publique sobre a situação do País - "a economia cresce, mas...", "não há desemprego, mas..."

Então, em relação à liberdade de imprensa/liberdade de mídia, também queremos ter o direito de colocar um "mas..."

E a nossa adversativa vem carregada de perplexidade, porque há um paradoxo nessa tão decantada liberdade que enche a boca de nossos ilustres apresentadores e comentadores só existe como quimera. Porque não há liberdade alguma dentro de nossa mídia, concentrada nas mãos férreas de cinco famílias. O que a nossa imprensa/mídia confunde é a liberdade de imprensa (liberdade de mídia) com imprensa livre (mídia livre).


Desafio qualquer jornalista de nossa grande mídia - Globo, Veja, Estadão, Folhão etc. - a dizer, sem muito óleo de peroba na cara, que tem liberdade de dizer e escrever o que pensa, dentro das redações e, principalmente, publicar em seus jornais, revistas e dizer em suas rádios e televisões opiniões que contrariem as opiniões de seus patrões.

Claro: muitos jurarão de pé junto que publicam o que pensam, porque há o outro lado cruel dessa moeda - não fica empregado nessas redações um só jornalista ou comentarista que destoe seu pensamento do pensamento do patrão. São todos escolhidos a dedo. Os que não se conformam às orientações que vêm de cima, se chegam a trabalhar, não permanecem.

E as famílias são oligopólios do pensamento único: suas ideias, sua ideologia, sua postura têm o cheiro pútrido do conservadorismo que nenhuma naftalina consegue disfarçar. São todos "quatrocentões" de todos os costados, aqui aportados nas naves vagabundas de Cabral. Nenhum pensamento modernizador ou de viés social, ou que implique a ascensão das massas populares ao poder, ou mesmo, às benesses do capitalismo selvagem que defendem, pode chegar a seus leitores, ouvintes ou telespectadores, que isso é visto como veneno ou ameaça a seu poder e ao poder que representam, fincado nos chãos de fábricas onde o operário é massa de manobra, ou fincado nos latifúndios lucrativos do agronegócio onde o lavrador é apenas o adubo que fertiliza a terra. Ambos - a indústria e o campo - nas mãos hábeis dos capitalistas internacionais, aqueles que lhes compram a consciência com o ouro negociado nas bolsas de Nova Iorque, Londres ou Tóquio e transformado em mais poder - econômico e político.

Portanto, a liberdade de imprensa/mídia - um bem inalienável em qualquer democracia - torna-se uma quimera, um jargão de noticiário do horário nobre, se não tem a contrapartida de uma imprensa/mídia livre. Não há realmente, liberdade de imprensa/mídia, enquanto a imprensa/mídia estiver sob o domínio oligopolizado de uns poucos.

E pior: de uns poucos que manipulam e mentem, que usam pesquisas e meios escusos de toda espécie, para influenciar a mente do povo, para fazer com que se elejam os seus cupinchas, os seus paus-mandados, como já fizeram no passado com um determinado presidente que foi, depois, devidamente defenestrado do poder, quando o povo percebeu o engodo.


A História que se repete, só se repete como farsa. E o povo sabe disso. Por isso, se muitos se deixam envolver pela mentira, pela falta de caráter de nossa mídia - que tenta mais uma vez manipulá-lo -, a maioria saberá dar o troco nessa gente e dar mais um passo à frente, no sentido de emancipação de um povo que se vê empobrecido e escravizado há quinhentos anos e está começando a gostar da liberdade que não têm os nossos jornalistas nas redações de suas empresas de mídia. Pobres coitados!

agosto 29, 2014

POLÍTICA BRASILEIRA É UM IMBROGLIO





É quase impossível pensar racionalmente, quando se tenta entender a política brasileira. Principalmente quando entra em campo a decantada, amaldiçoada e mal entendida "governabilidade".

A Constituição de 1988 abriu a porteira das ideologias - verdadeiras ou falsas - represadas desde o golpe militar e permitiu que inúmeros partidos políticos fossem criados. Com isso, pulverizou-se a ideia de partido majoritário. Cada partido que "ganha" as eleições, com alianças antes e, principalmente, depois das eleições, precisa garantir a tal governabilidade com longas e desgastantes negociações, senão não consegue aprovar nada. O exemplo crucial dessa política foi o governo FHC, que atingiu o ápice da troca de favores com o Congresso para a aprovação de matérias de interesse do Executivo, ao comprar, à custa da quebra do Estado, a sua reeleição. O políticos descobriram a mina de ouro: dificultar para obter favores. Contados os votos, lambem-se as feridas e é o momento em que os vitoriosos buscam e os derrotados negociam apoios. Formam-se novas e improváveis alianças. Quem fica de fora do butim, torna-se oposição e os "situacionistas" cobram o preço, às vezes de forma brutal, quase sempre com cargos e ministérios.

Essa é a realidade. 

E esta é a constatação mais infeliz: não há mais ideologias nos partidos políticos. Resta alguma em nanicos, como o PC do B, ou o PSOL. Mesmo o PT, que tem um berço nobre, acolhe em suas fileiras muitos aproveitadores, políticos e líderes que só querem a legenda para melhorar de vida. Para obter contratos. E não é possível impedir a entrada dos aventureiros, porque não existe atestado de ideologia. É como o jogador de futebol contratado por milhões que, ao vestir a camisa do time, beija seu escudo e jura fidelidade... e o torcedor acredita! Porque não é possível não acreditar. E porque, na maioria dos casos, deseja-se muito acreditar.

Dito e compreendido isso, vamos às eleições de 2014. Desde já deixemos claro que Marina Silva só é a cotada da vez para vencer essas eleições catapultada que foi pela espetacularização da mídia em torno da morte prematura de Eduardo Campos, um político neófito tratado como chefe de estado e grande estadista. Uma nova viúva Porcina: foi sem nunca ter sido. E entendamos as razões de a mídia ter feito isso: como seu queridinho, Aécio Neves, estava mal nas pesquisas, resolveram incrementar a candidatura de Marina, com a esperança de que, dividida a esquerda, ela tirasse votos da Dilma Rousseff, cuja reeleição parecia quase impossível de ser evitada, para desespero da mídia, alinhada com a direita mais retrógrada desse País, como sempre. Só que a canalha deu um tiro no pé: Marina tirou votos, sim, de Dilma, mas tirou muito muitos mais do minerim das baladas cariocas, jogando-o para o desesperador buraco dos perdedores de primeiro turno. E agora?

Se é sustentável a situação de Marina Silva, só o tempo - pouco, a essa altura - poderá dizer. Mas tudo indica que, passada a comoção da morte do moço de olhos azuis, avaliado o estrago que sua candidatura ocasionou ao queridinho da mídia e da direita, não há dúvida de que a ex-seringueira odiada pelo agro business começará a perder forças e essa perda (e não, "perca") será terrivelmente impulsionada por uma tentativa de desconstrução de sua figura, a começar pelo caso do jatinho acidentado, que parece ter conteúdo suficiente para fazer a poderosa rede Globo tentar achar em seus destroços sinais de corrupção e troca de favores que respinguem fortes em Marina Silva e seus acólitos. E uma campanha difamatória sutil e impiedosa começará a tomar conta de todos os meios de comunicação, como tentativa desesperada de inflar de novo o balão murcho de Aécio Neves. Claro que petistas desesperados tentarão aliar-se a essa guerra suja, o que será uma lástima, tanto para Dilma quanto para o próprio histórico do partido.

Especulemos, no entanto: e se Marina Silva ganhar as eleições?

Há, na mídia, como uma espécie de esperança consoladora, a ideia de que Marina Silva poderia aliar-se aos depenados tucanos de FHC, a essa altura curtindo uma profunda síndrome de abstinência de poder. Ora, se essa senhora tiver a cara dura de passar-se, a essa altura de sua trajetória, para a direita, teremos de reconhecer que, em matéria de política, tudo é mesmo possível. Nada, no seu ideário político até agora expresso, indica que isso possa acontecer, mesmo que ela venha, durante a campanha, por motivos eleitorais e eleitoreiros, a acenar com algumas concessões à direita, como tentativa de acalmar certos ânimos e obter financiamento para a campanha. Então, não será, quase com certeza, com o PSDB que ela irá governar. Talvez também não, no início, com o PT. Restará, então, qual partido com que aliar-se no Congresso para tentar aprovar suas propostas? Sem dúvida nenhuma, o PMDB, o partido que não é partido, ou melhor, é tão partido, que alinha em suas fileiras gente de todas as cores, de todas as ideologias. Tem, sim, PMDB para a esquerda e para a direita, para o centro e para qualquer outra nuance ideológica que se apresente no poder. É só saber estalar os dedos. Porque, hoje, no Brasil, nenhum presidente da República logra sucesso, sem o PMDB, porque ele é o maior, o mais bem estruturado, com bancadas sólidas no Congresso e em quase todas as casas legislativas. Só lhe falta - e isso é fruto de suas múltiplas faces e de sua origem como frente ampla - um líder de apelo nacional, que o conduza à Presidência.

Além disso, não tenham dúvidas de que, não importa com qual PMDB ela se alie, Marina Silva tenderá sempre para a esquerda e poderá levar o País para um caminho que o PIG - o Partido da Imprensa Golpista - e a direita mais hidrófoba não irão, absolutamente, gostar: o caminho de um nacionalismo à Cristina Kirchner, talvez sem os desvarios da politicagem peronista que mantém os argentinos à beira de um ataque de nervos, mas com uma política econômica muito mais próxima da heterodoxia do que hoje se vem praticando com Lula e Dilma. E isso poderá trazer consequências desastrosas para o País. Não exatamente sua política, mas a oposição de cachorro louco que ela enfrentará depois de alguns meses de governo.


O que se quer dizer, ao fim e ao cabo, é: Marina Silva é mais esquerda que o PT, mais esquerda que Dilma e Lula juntos, se acreditarmos nas ideias que ela expôs até agora. E se acreditarmos na força que suas origem tem nas ideias que ela expressa. Isso, independentemente de seu evangelismo que, sendo outra vertente, de sua personalidade, se vier à tona, poderá trazer sérios atritos com a sociedade civil que luta por direitos importantes como o das mulheres (no caso, a regulamentação do aborto, e não sua penalização), como o dos grupos GLBT (no caso, a união civil entre pessoas do mesmo sexo), e muitas outras lutas e conquistas que a sociedade espera e deseja. Creio muito mais num certo vocacionismo místico meio sebastianista, resultante de sua concepções religiosas, do que a interferência dessas ideias nas políticas de seu pretenso futuro governo. Marina pode ser muita coisa do que dizem dela seus detratores, mas não é estúpida, nem amadora. Sabe o quer, e tem personalidade forte para impor sua vontade. Desde que faça as alianças certas, no Congresso. Se isso não acontecer, aí, sim, a tal "governabilidade" entrará em campo, para melar seu governo. E o desastre será inevitável.



julho 19, 2014

O EFEITO MANADA




Um pouco de saudosismo: quando o metrô começou a fazer os primeiros testes, e depois iniciou sua operação, com a linha (hoje chamada Azul) Jabaquara - Praça da Sé, o povo que utilizava seus serviços foi orientado a estabelecer alguns protocolos de civilidade: manter os vagões limpos (de pichações e de lixo), dar prioridade a quem sai, estabelecendo um fluxo que deixava livre o lado esquerdo etc. etc. etc. Naquele tempo, o número de passageiros era pequeno e foi, claro, aumentando pouco a pouco e esteve num nível razoável até uns dez anos atrás. A partir daí, estourou: hoje, a quantidade de gente que viaja pela Linha 1 - Azul é assustadora. Com isso, o protocolo de civilidade que estabelecia preferência a quem sai tem passado longe da manada que assalta cada porta que se abre, em cada estação, sem se preocupar com quem está saindo, ocasionando, claro, transtornos, empurrões e cotoveladas que só não se transformam em brigas porque o tempo urge e todos têm pressa e as portas logo se fecham. Permanecer à direita é um procedimento simples, que não exige sacrifício de ninguém, como no trânsito de veículos. No entanto, no meio da manada, o indivíduo age como se fosse bicho, e a atitude de um serve de exemplo para todos e todos se tornam bichos e todos se empurram, se trombam, e ficam mal humorados e vão para seu trabalho ou para sua casa com cara amarrada porque levaram cotovelada, levaram empurrão, levaram trombada no metrô.

Podia dar mil outros exemplos, como o das torcidas organizadas de futebol, compostas, em geral, por gente normal, que trabalha, que é bom filho, bom vizinho, mas quando se junta na manada vira bicho e sai espancando adversários como se fossem inimigos. Gente que, em situação normal,  não mataria uma mosca, assassina impiedosamente o outro porque ele está usando uma camisa diferente da sua, ou melhor, diferente da camisa de sua manada. Como os dos black blocs, fenômeno mais recente, que se misturam à manada pacífica para cometer suas atrocidades e depredações, porque ali são anônimos e estão protegidos pelo grupo, mesmo que o grupo pacífico não concorde com seus atos. Assim é o efeito manada, em qualquer circunstância: o ato de um torna-se coletivo e o coletivo é a força que leva o indivíduo a agir em nome de todos. E a manada tende a proteger o indivíduo, para proteger a si mesma.

Pois, é: assim é o ser humano. Viver em sociedade exige regras de civilidade. Regras claras, objetivas, que têm o contraponto da punição, quando necessário. Já a manada não tem claras as regras de ação e, mesmo quando as têm, são facilmente descumpridas, no calor da pugna ou da ação. Porque, enquanto, na sociedade, as pessoas se comportam porque têm inúmeros compromissos e relacionamentos profundos e duradouros, dentro da manada, esses compromissos e relacionamentos são frouxos e efêmeros, o comportamento de cada um está sujeito às explosões  momentâneas e às conquistas de território ou à confirmação de uma identidade surgidas ao sabor da necessidade imediata da manada ou de seus líderes.

E mais: os atos individuais cometidos dentro da manada ou em seu nome ou pela sua causa - não importa se justa ou injusta - dificilmente são punidos, porque se torna quase impossível individualizá-los perante a lei, e porque a manada, mesmo que, em princípio, não concorde com certos atos, tende a proteger os indivíduos que dela participam, porque desconfia tremendamente da noção de justiça que não venha de sua própria organização, ou seja, desconfia de que, se deixar que um de seus membros seja criminalizado, toda a manada o será. Haja vista a grita geral da manada em favor de alguns de seus membros que foram detidos ou presos pela polícia em manifestações recentes em que houve confronto e vandalismo. Não se conforma a manada com o fato de que esses indivíduos - mesmo que tenham seus crimes reconhecidos e provados, de forma individual - possam ser culpados de qualquer ato cometido com e pela manada.

O homem é um ser social. Isso é consenso. Mas, parece que a sociabilização tem limites. Há um ponto de equilíbrio. E o efeito manada confirma que a civilidade desaparece na mesma proporção que nos tornamos de novo o elemento anônimo dentro de uma massa informe. E mais: não é exatamente o tamanho da massa que determina o efeito manada, mas sim, a ausência de liderança firme e de objetivos reais. Um milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, há alguns anos, sob a liderança de políticos, artistas e comunicadores, não trouxe nenhum dissabor nem mesmo à polícia da ditadura, de olho nos participantes que, de forma civilizada e firme, protestaram contra o regime militar. No entanto, numa estação de metrô, com quinhentas pessoas, ou numa passeata de duas mil, em que não há objetivos claros de ação cidadã nem lideranças capazes de aglutinar, o efeito manada faz que cidadãos civilizados ou, pelo menos, razoavelmente civilizados, se empurrem, se xinguem, se atropelem, destruam bem público, arremessem pedras em lojas e queimem carros e ônibus que encontrem pela frente.

Não temos antídoto contra o efeito manada, senão a punição rigorosa de elementos que exageram na dose, quando conseguem ser identificados. Mas essa não é a melhor forma para resolver o problema, porque a manada acaba adquirindo a percepção errônea de que a criminalização de atos individuais atinge a própria liberdade de expressão da manada, o que tornaria a punição aparentemente antidemocrática. Fica-se, então, num dilema: punir como exemplo, ou esquecer e deixar tudo continuar como está? Não há resposta, sem que haja uma revisão nos conceitos de cidadania, sem que as pessoas percebam que a convivência pacífica entre as pessoas é possível, desde que se cumpram regras simples e elementares de respeito e de dignificação de si mesmo e do outro, e de que a vida é um bem único e inalienável e, não podendo ser reposta, não deve ser jamais desprezada e colocada em risco.