outubro 30, 2012

AINDA AS ELEIÇÕES (ou, PESCADOR, SÓ SEI PESCAR)






Há poucas semanas, numa troca óbvia de favores, "aquela revista semanal" publicou matéria de capa perguntando se não estaríamos sendo injustos com o Kassab, o ainda prefeito de São Paulo.

Pois bem, vamos tentar fazer-lhe justiça.

Gilberto Kassab ganhou a prefeitura de São Paulo como vice de José Serra e herdou, claro, o prestígio do padrinho, nos dois anos que se seguiram, com os mesmos secretários de governo tocando a cidade. Isso garantiu-lhe um segundo mandato. Claro, parecia que ia tudo bem.

Mas, a verdade, é que, como administrador, Kassab é um desastre. Sua popularidade começou a despencar já no início de seu voo solo, quando tentou e não conseguiu dar uma rumo próprio à administração da cidade. Não vou comentar seus insucessos, porque isso é público, notório e muito claro na cabeça dos paulistanos, que o elegeram como um dos piores prefeitos, só perdendo para o Pitta, também ele uma criatura saída da esperteza de outro político. Parece que brincar de Frankenstein não dá muito certo em política: os mostrengos quase sempre fracassam.

Como político, no entanto, não podemos deixar de admirar sua esperteza e tirocínio.

Ligado visceralmente ao Serra, não teve dúvidas em apoiá-lo, quando este saiu candidato a prefeito. Até mesmo arquitetou com o padrinho uma jogada de mestre para ajudá-lo: deixar os cofres cheios e os projetos (todos envolvendo grandes empreiteiras e obras enormes) já adiantados, para que o padrinho pudesse, em dois anos, firmar-se como grande realizador e fazer caixa para... a campanha presidencial, claro. Não deu certo. Serra perdeu as eleições.

Não pense, no entanto, que esse tenha sido um fracasso de Kassab. De jeito nenhum. Retrocedamos um pouco. Oriundo do DEM, o melífluo prefeito de São Paulo logo detectou o grau de deterioração desse partido e, com seu faro apurado, tratou logo de cair fora, não para outra sigla, mas fundando o seu próprio partido, com os descontentes não apenas do DEM, mas de todos os demais partidos. Está insatisfeito? Sem espaço? Não tem problema, as portas do PSD estão abertas para todos, numa alegre festa colorida, um verdadeiro arco-íris, já que o próprio Kassab definiu seu partido como não sendo nem direita, nem de esquerda, nem de centro!

Assim, antes da candidatura Serra, Kassab já flertava abertamente com o PT e buscou sempre aproximação com a presidenta Dilma. Só recuou quando Serra entrou na disputa. Mas já havia, espertamente, acendido sua outra vela. E, passadas as eleições - em que seu partido fez quase quinhentos prefeitos, pouco menos de 10% das cidades do País - Kassab tem cacife político para negociar com o governo de Haddad, dando-lhe apoio na Câmara (essencial, para os planos do novo prefeito) e fincar pé na política nacional. Ou seja, lançar-se nos braços do Governo e, quem sabe, cavar um ministério.

Se isso se concretizar, eu ousaria sugerir à Presidenta que lhe desse o Ministério da Pesca. Se, como administrador, Kassab foi deixa muito a desejar (e isso é o mínimo que se pode dizer dele), como político, façamos-lhe justiça: tem inegáveis qualidades de pescador, já que soube lançar as redes de seu partido e apanhar bagres, lambaris, tubarões e não sei quantas outras espécies de peixes de todos os demais partidos. 

A PREFEITURA DE SÃO PAULO E O PT


(Foto de Aurelio Becherini)


Não sei se Fernando Haddad será o prefeito de meus sonhos ou dos sonhos dos paulistanos. Só o tempo o dirá. 

Mas, algumas coisas eu espero da administração do PT: melhoria do ensino municipal (como nos tempos da Erundina); uma visão mais humanista da cidade (obras podem ser importantes, mas não devem ser a principal meta de um prefeito), o que implica investir na melhoria de qualidade

 de vida, com tudo o que todos esperam: saúde, transporte, iluminação pública, calçadas mais acessíveis, centro recuperado etc. etc. etc.

Mas eu queria, mesmo, um PREFEITO QUE TIVESSE PEITO PARA FAZER DUAS COISAS:

1. juntamente com o GOVERNO DO ESTADO e com o GOVERNO FEDERAL, elaborar um PLANO DE ESVAZIAMENTO DA CIDADE, para que ela, primeiro, parece de crescer e, segundo, diminua (a nível de 8 milhões de pessoas, em 20 anos, seria uma boa meta). Como? Estimulando polos de atração a até 200 km de distância, onde as pessoas poderiam morar e trabalhar em São Paulo, com a construção de vias rápidas de acesso (trem bala, por exemplo); mudando a Capital do Estado para o interior (região de Sao Carlos me parece uma boa escolha: é centro geográfico do Estado), porque isso levaria daqui uma boa parte da infraestrutura burocrática do Estado;

2. peitar a máfia dos transportes, recriando a CMTC e promovendo a GRATUIDADE DO TRANSPORTE COLETIVO. Essa "gratuidade" seria relativa: seu financiamento poderia vir, primeiro, do subsídio dado às empresas privadas de transporte (parece que é da ordem de 1 bilhão por ano); segundo, da taxa de licenciamento de carros (uma parcela a ser definida iria direto para os cofres da prefeitura), ou seja, o proprietário de veículos ajudaria a pagar o transporte "gratuito" ou toda a população contribuiria com uma taxa anual (que provavelmente não seria muito alta) a ser descontada mensalmente na conta de água ou na conta de energia elétrica. Com um sistema "gratuito" (na verdade financiado por todo o povo), poder-se-ia estabelecer uma malha mais inteligente de circulação dos ônibus e até linha especiais para atendimento a polos de afluxo de trabalho, sem precisar "despejar" toda a população nos trens de metrô e CPTM, o que aliviaria esses sistemas.

Sei que isso é meio louco, mas, pensando bem, até que podeira dar certo. Afinal, a partir de ideias malucas é que o mundo, muitas vezes funciona e vai pra frente.

Enfim, São Paulo precisa de gente que não faça só viadutos e túneis, creches e escolas, mas também pense no seu futuro. 

O "MENSALÃO" E O PT





Agora que as eleições já passaram e os vitoriosos comemoram e os derrotados choram, vou deixar, aqui, registrada a minha opinião pessoal (desculpem a redundância, mas às vezes isso se torna necessário) sobre o tal do "mensalão".

Não conheço pessoalmente nenhum dos envolvidos no tal escândalo, nem lhes devo qualquer favor ou queira deles alguma coisa além daquilo que eles já v
iveram, em termos de história, nesse País. Também não tenho nenhuma procuração para defendê-los. Nem esse é, exatamente, o meu propósito.

O que eu quero dizer é que nem sempre aquilo que parece realmente é. A História está prenhe de pequenas e grandes injustiças cometidas por tribunais muito mais solenes e muito mais vetustos do que nosso Supremo Tribunal Federal.

Não me entusiasmo com o nome pomposo de "supremo", porque dele fazem parte homens e mulheres que, apesar de toda a sapiência acumulada em anos de estudo, apesar da solenidade na envergadura da toga, apesar da linguagem erudita e empolada, são apenas seres humanos, falíveis como todos nós.

Homens e mulheres investidos da tarefa de julgar têm - repito - cometido mais injustiças do que possamos imaginar. Basta consultar os livros, basta pesquisar por aí, basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. E a História tem, sistematicamente, ignorado os nomes dos juízes cujas penas foram absurdas na condenação de inocentes, e exaltado o nome dos que foram injustiçados. Porque assim se faz a História.

Não acredito na inocência absoluta dos réus do processo denominado "mensalão", porque não há inocentes absolutos sobre a Terra. Mas acredito que os crimes a eles imputados são muito mais fruto de uma bem urdida trama de inimigos, do que realmente uma conspiração quadrilheira para assaltar os cofres públicos. Sinto muito em dizer que um tribunal que se arvora o direito não apenas de julgar conforme as provas que existam nos autos, mas também o dever de vingar, seja em nome da sociedade que representa, seja em nome de princípios, seja em nome de uma pretensa e total independência, não faz jus ao nome pomposo que ostenta.

Por isso, por esse "espirito vingativo" de que está imbuído o nosso "supremo", acuado pela mídia totalitária e também vingativa a açular a opinião pública, sinto no ar o cheiro azedo de uma injustiça a caminho, mesmo que me acusem de defender o indefensável, de acreditar em duendes e papai noel.

Um julgamento, para ser honesto, de acordo com aquilo que manda a lei e a lógica da lei, tem que dar aos réus a prevalência da dúvida e não o contrário.

Um julgamento, para ser honesto, de acordo com aquilo que manda a lei e a lógica da lei, não pode ser decidido de forma terminal por uma úncia corte, tem de haver o legítimo direito ao recurso.

Um julgamento, para ser honesto, de acordo com aquilo que manda a lei e a lógica da lei, não pode ocorrer como espetáculo midiático, para agradar a quem que seja, nem com o intuito de servir como "exemplo para a sociedade". A sociedade tem seus exemplos em outras manifestações que não numa corte. A corte existe para julgar, não para exemplificar.

Enfim, que me apedrejem os idiotas do imediatismo, os sectários do moralismo e do ódio partidário, os ignorantes do verdadeiro senso de justiça ou todos aqueles que, por uma razão ou outra, advogam a máxima cínica "para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei", que, para todos esses eu direi: que se espere o juízo da História, antes que se acendam de novo as fogueiras.


setembro 30, 2012

O CORVO











E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".


(O Corvo, de Edgar Alan Poe, trad. de Fernando Pessoa)



A ave agourenta de Poe pousou no Supremo Tribunal Federal. Do alto de sua cadeira, com o dedo acusador de quem se reveste, não de Juiz, mas de vingador,  com sua toga negra a sugerir um Batman às avessas (embora a mídia de direita o tenha escolhido para paladino da Justina), Joaquim Barbosa é a própria imagem da desolação do sentido de Justiça por que anseiam todos os homens.

Não há sentido nesse julgamento de um fato que teve nos testemunhos de prejudicados e de desafetos a prova maior de sua existência. Diz-se que "o que não está nos autos não está no mundo", mas o que está no mundo não está nos autos do julgamento do chamado "mensalão": a versão dos acusados.

Tudo conspira para uma condenação puramente política, já a estão inextrincavelmente embaralhados os acusadores com acusados. Então, como "exemplo", no mais absurdo sentido de moral há muito proscrito nas leis de quase todas as nações, que se condenem os acusados a todos, indistintamente, para que nós, o público desse teatro grego de quinta categoria, purguemos o supremo pecado de uma ação que tem suas origens em fatos muito mais nebulosos do que sonham nossa imaginação.

Julgamento "exemplar" não é digno de uma corte que ostenta no nome o termo "Supremo", porque não é essa a sua função. Por tortuosidades políticas - criadas por políticos do passado, que desejavam a impunidade para si e para seus crimes - o Supremo Tribunal Federal aceitou julgar uma causa que devia ter seus trâmites regulares em cortes inferiores e que só deveria chegar ao Supremo, quando, esgotados todos os recursos, houvesse dúvidas jurídicas constitucionais, ou seja, relacionadas ao cumprimento da lei suprema da nação, a Constituição.

No entanto, como qualquer tribunal de primeira instância, lá estão os togados supremos a falar de detalhes incongruentes de um processo complexo, que lhes esgota a energia que devia ser gasta na defesa de ideais constitucionais. E o Corvo, juntamente com seus pares, encorpa-se à luz dos refletores da mídia, para apontar seu dedo justiceiro, que ameaça não apenas os réus, mas também aos pares que não concordam com sua metodologia ou com seus longos e complexos arrazoados.

Nunca mais, nunca mais - parece nos dizer a ave agourenta, do alto dos umbrais do Supremo - nunca mais essa corte será a mesma: contrariando sua vocação de guardiã da Legalidade e da Constitucionalidade, rasga sua história num julgamento infame e despropositado, para gáudio dos golpistas de plantão  que, enfileirados na mídia da direita conservadora e retrógrada, cerram e afiam os dentes para a retomada do poder, na senda aberta pela atual fornada de ministros do Supremo Tribunal Federal, apequenados diante da figura execrável do Corvo.

setembro 24, 2012

QUANTOS PECADOS DEUS PERDOA?






 (Artemísia Gentileschi)


Existem limites razoáveis para tudo. Até para a fé e a religiosidade.

Não posso levar a sério nenhuma religião. São todas, absolutamente todas, sanguinárias, excludentes e perversas.

Nem precisamos citar os crimes em nome da fé registrados no passado do cristianismo. As guerras santas. As cruzadas que tinham por objetivo matar e saquear populações árabes e muçulmanas, apenas porque eram árabes e muçulmanas.

Nem precisamos citar os horrores da fatwa islâmica, que condena à morte qualquer pessoa que contrarie seus princípios, emitindo opiniões que possam ofender um homem que viveu e morreu há centenas de anos e que, até hoje, comanda as mentes criminosas de seus seguidores.

Não, não precisamos citar todas as carnificinas promovidas pelos seguidores de deuses ou apenas de um dos deuses que o homem criou à sua imagem e, por isso, pregam a destruição do outro ou sua maldição para o quinto dos infernos de todos aqueles que não professam a mesma fé, através de seus chamados profetas ou padres ou aiatolás ou que nome se dê àqueles que são donos das mentes apodrecidas dos fanáticos de todas as crenças.

Deus é carnificina. Deus é morte. Deus é anti-humano, anti-humanidade.

Mas, também é perdão. Deus a tudo perdoa. Desde que o indivíduo se arrependa de seus crimes, por mais hediondos que sejam. Com certeza, deve estar perdoando, nesse momento mesmo, a Hitler e a todos os carniceiros da história da humanidade, a exemplo do perdão dado a um indivíduo chamado Florisvaldo de Oliveira.

Você talvez não o conheça por esse nome, mas se eu disser Cabo Bruno muita gente há de se lembrar.

E quem é o Cabo Bruno?

Cabo Bruno foi preso em 1983, acusado de ser um dos maiores matadores de jovens da periferia da zona sul de São Paulo. Em entrevista a jornais da época, dizia, orgulhoso, ter matado mais de 50 pessoas.

Não é portanto, um criminoso comum. Quem se orgulha de matar friamente mais de 50 pessoas, em qualquer lugar do mundo, seria considerado um indivíduo a ser afastado do convívio social para sempre. Não no Brasil: com suas leis criminais absurdas, um supercriminoso como esse pode ser posto em liberdade depois de menos de 30 anos de prisão.

Absurda é a lei, mas é a lei.

Chega, no entanto, às raias da insanidade, o que acontece em seguida com esse famigerado assassino, pois não existe ex-assassino, a não ser que revoguemos qualquer possibilidade de lógica.

"Convertido" à fé, ou seja, "arrependido" de seus crimes, o tal Florisvaldo ou Cabo Bruno, ao ser posto em liberdade, não apenas é acolhido pela comunidade de crentes da Igreja Refúgio em Cristo, de Taubaté, interior de São Paulo, como empossado como pastor dessa mesma igreja, em cerimônia pública e de "grande emoção" para todos os seus seguidores que, a partir de agora, passarão a ser ungidos pela mesma mão que ceifou a vida de mais de cinquenta jovens da periferia de São Paulo, numa das mais impressionantes sequências de barbárie já vistas até hoje nessa cidade.

O Cabo Bruno, o criminoso que julgava e matava suas vítimas, sem processo, sem possibilidade de defesa, fossem ou não culpadas, hoje é um homem "santo", porque o deus sanguinário dos cristãos de todos os tempos sempre perdoa àqueles que se arrependem, não importa o grau dos seus crimes, porque, está escrito que mais vale o filho que retorna ao seio do pai do que todos os outros que nunca pecaram. Ou mais ou menos isso.

E é longa a tradição cristã do perdão dos assassinos, dos criminosos, numa longa lista de "santos" e "santas". Não vale a pena citá-los. O que importa é que, por mais que berrem os seguidores desse deus "bondoso" e benevolente, isso é absolutamente contra todos os princípios humanos de justiça.

Mas, quem disse que os crentes - e uso a palavra para designar todos os deístas do mundo - estão preocupados com o humano? Quem disse que eles estão preocupados com a justiça dos homens? A eles só importa a justiça divina, aquela que nivela a todos os que se arrependem; somente importa o que vai acontecer com eles depois da morte, ou seja, serão todos acolhidos no céu ou paraíso ou seja o lugar para onde vão depois do tal julgamento final, para conviverem todos em harmonia eterna com esse deus tantas vezes vingador e tantas vezes misericordioso.

Ah, sim: a misericórdia desse deus só vale para os que aceitam sua vontade, claro! Para os demais, a porta do inferno é a serventia da fé.






(Nota: dois dias depois de publicado esse artigo, dia 26.9.2012, o Cabo Bruno foi sumariamente executado em frente à sua casa, em Pindamonhangaba, ao retornar à noite, de um culto na cidade de Aparecida do Norte).



agosto 28, 2012

SERRA E KASSAB PREPARAM MAIS GOLPE NO ELEITOR PAULISTANO







Que a obsessão do Serra em ser presidente não arrefeceu, isso todos sabem. O que não sabe o eleitor paulistano é o golpe que se está articulando contra ele. Mais uma vez. A Prefeitura será o meio e o trampolim para as ambições do eterno presidenciável tucano. Mais uma vez.

Sigam em detalhes como esse golpe vem sendo articulado e pode se transformar no maior estelionato eleitoral da história recente do País. Pode parecer página de ficção, mas essa ficção se tornará um pesadelo - mais uma vez - para o eleitor paulistano, se ele eleger Serra como prefeito.

A última campanha eleitoral parecia ter queimado definitivamente a candidatura do Serra à presidência. Muitas coisas pesavam contra: a ascensão do Aécio Neves, o desgaste interno do candidato dentro do partido, falta de dinheiro...

No entanto, pouco a pouco, o vampiro ressurge das trevas, através de uma série de coincidências favoráveis e de um plano muito bem articulado com o prefeito de São Paulo, credor de Serra por sua carreira política.

O primeiro sinal detectado de que as coisas poderiam ser revertidos veio com o lento mas consistente declínio de popularidade do ex-governador mineiro. Aécio deixou de ser o queridinho de uma determinada mídia, que o abandonou por sua inconsistência política e intelectual e por seu pouco apego à própria imagem. Tem feito coisas que podem comprometê-lo numa campanha, ou seja, deixou de ser um político sério.

O segundo sinal foi o estrago que a criatura do Serra, o prefeito de São Paulo, fez nas hostes democratas (o DEM não parecia muito disposto a apoiar de novo o Serra), ao fundar o seu próprio partido. Embora mal avaliado como administrador, Kassab revelou-se um hábil político, capaz de fazer alianças com deus e o capeta, se necessário. Seu partido não é nem direita, nem de esquerda, nem de centro, como disse uma vez o próprio prefeito. Ou seja, é um partido - que até nasceu forte - para apoiar quem ele quiser, sem compromissos ideológicos.


Quando percebeu tudo isso, Serra - que não era candidato a prefeito de São Paulo - chutou a ética interna do PSDB e os culhões dos pré-candidatos que se esfalfavam para vencer as prévias e se apresentou como o candidato da união do partido e toda aquela baboseira que todos sabemos. Claro, o Kassab começava a pavimentar seu caminho para a presidência com a possibilidade de dinheiro, muito dinheiro, e de prestígio.

Como?

Essa é a parte mais engenhosa do plano.


Atentem bem para o seguinte: faltando 4 meses para o final de seu mandato, o prefeito Gilberto Kassab tem em caixa o total de 8 BILHÕES E 700 MILHÕES!

Descontados os gastos normais da Prefeitura, ele poderá deixará para seu sucessor a quantia de R$5.542.978.133,96. Isso mesmo: mais de 5 BILHÕES E QUINHENTOS MILHÕES DE REAIS!!!!

Aí, você poderá pensar: que legal, o próximo prefeito vai encontra dinheiro em caixa, para começar a governar!

Ingênuo pensamento!

Vejam o que realmente acontece:

Kassab prometeu, prometeu, prometeu... e só cumpriu 90 das 223 metas de seu governo (ou desgoverno. Preocupado com as questões políticas abandonou a administração da cidade).

Deixa, no entanto, dezenas de projetos prontos (só projetos!), como o túnel da Av. Jornalista Roberto Marinho/Imigrantes; túneis na Vila Mariana; Projeto da Nova Luz (um alentado, difícil e ambicioso projeto de recuperação de áreas deterioradas do centro, junto com a iniciativa privada); duplicação da Radial Leste até Guaianazes... etc...etc...etc... São todos projetos que demandam grandes obras, o que implica muito dinheiro. Para as empreiteiras, claro, e para quem executar os bilionários editais que já devem estar devidamente prontos e engavetados.

Qual é a mutreta, então?

Kassab tem uma grande dívida política para com seu padrinho, o Serra, e está na hora de pagar essa fatura e ainda faturar algum. Apoia fervorosamente o tucano e torce desesperadamente para que ele seja o seu sucessor.

Com todos os projetos prontos, com toda essa dinheirama em caixa, o SERRA não terá problemas em, já no primeiro ano de mandato, iniciar todas essas obras, lançando editais milionários, que vão transformar a cidade num canteiro de obras (pra infernizar ainda mais o trânsito) e chamar a atenção para sua administração.

Aí, você pensa: legal! Um prefeito dinâmico, empreendedor!

Mas, veja bem a armadilha: com tantas obras em execução nos dois primeiros anos de mandato, o (provável) prefeito Serra terá oportunidade de fazer CAIXA PARA SUA CAMPANHA À PRESIDÊNCIA: afinal, obras grandes significam propinas proporcionais (10% está bom para você? Ah, não: quero 20%, quero 30%... tudo se negocia!)

Então, COM DINHEIRO EM CAIXA, COM PRESTÍGIO EM ALTA, COM O APOIO DO KASSAB, o (provável) prefeito JOSÉ SERRA renuncia ao mandato - alegando pressão popular e aquela xaropada toda que já vimos antes - e se LANÇA CANDIDATO À PRESIDÊNCIA, mais uma vez, TENDO COMO VICE O SENHOR GILBERTO KASSAB!

Uma nota cômica: será que o Kassab joga - sendo vice-presidente - com a possibilidade de Serra renunciar ao mandato no meio para ser candidato a Papa?

Bem, brincadeiras à parte, aí está devidamente armado contra o eleitor paulistano - sempre enganado por uma mídia que morre de amores pele Serra e pelo PSDB - um bem articulado estelionato eleitoral.

Configurado para ser o crime perfeito. 

O vampiro arreganha, mais uma vez, os seus dentes.

julho 21, 2012

NÃO EXISTEM HERÓIS


(Tánatos, deus da morte)


A história da humanidade é pontilhada de conquistas sangrentas. O ser humano - mais besta que humano - não tem conseguido superar a barbárie de suas origens de lobo. Nossa boca tem gosto de sangue. E sangue que se estende desde os primeiros hominídeos até os dias de hoje.

As nações - praticamente todas elas - se formaram através de guerras de conquistas. Conquistas de territórios e eliminação dos nativos. Com garras e armas - desde a mais primitiva mordida e soco na cara até as de extermínio em massa - o ser humano tem marcado sua trajetória no planeta Terra com a destruição e o genocídio. E sistematicamente temos tratado esses assassinos conquistadores como heróis. Todos, absolutamente todos, foram apenas isto: assassinos e genocidas. Não há heróis, absolutamente, quando se trata de guerra e de conquistas.

Os Estados Unidos da América não fugiram a essa tradição. Seu território foi conquistado, alargado, dominado por gente feroz, vinda dos cantões do mundo velho, para erguer um "mundo novo" exatamente nos mesmos moldes de seus antepassados, fossem eles hunos ou outros bárbaros quaisquer. Com uma novidade: agora, depois de mais de mil e quinhentos anos de catequese, os novos conquistadores vinham imbuídos da fé cristã que os fortalecia na sua cruzada de ódio e destruição.

A história dos Estados Unidos da América é uma história de sangue. Uma história de "bravuras indômitas" construídas na porrada, no massacre, na destruição pura e simples do outro, para impor seus valores. Os fundadores da nação estadunidense era gente de muito má catadura, gente que não titubeava em assassinar para impor seus valores cristãos, brancos e europeus. Gente que tinha sangue nos olhos e uma vontade fortalecida pela fé de que estavam agindo em nome de um deus sangrento e vingador, que exige a submissão de todos os povos a seus desígnios.

Há uma novidade, porém, nesta nova trilha de sangue e dor: a partir do século XIX, quando os meios de comunicação começam a ganhar universalidade e rapidez na divulgação dos fatos e das ideias e ideologias, há a venda sistemática do processo de conquista sangrenta como valor maior da humanidade. A conquista do oeste é divulgada, primeiro pela imprensa (e coloque-se sob essa rubrica tudo o que é impresso: jornais, gibis, revistas, panfletos etc.) e, depois, pelas artes visuais, o cinema em primeiro lugar, como uma série de atos heroicos de cowboys valentes e matadores de índios. Uma maciça propaganda - um verdadeiro tsunami - dos valores bélicos dos estadunidenses toma o mundo, principalmente o mundo ocidental. Os Estados Unidos potência não se fizeram só com armas, progresso e guerras: foram construídos no imaginário popular universal e, principalmente interno, com um sólido, ferrenho e bem ordenado sistema publicitário, sem dúvida inédito na história da humanidade.

Convenceram. Convenceram principalmente a si mesmos, os estadunidenses, de que seus valores primitivos constituem aquilo que seu deus deseja para a humanidade: que eles são os xerifes desse deus no mundo. Esquecendo-se de que haviam construído uma sociedade doente, doente pelas armas e doente com as armas. Uma população que não pode viver sem um colt na cintura e um rifle debaixo do travesseiro,  porque precisam estar atentos e fortes todo o tempo, para defender-se do inimigo. E o inimigo, agora, parece estar dentro deles mesmos.

Dessa sociedade doente e doentia - que ama a violência, que adora as armas, que se arma cada dia mais (e defende isso com unhas e dentes) - brotam, de vez em quando, os assassinos seriais, os loucos que saem atirando a esmo, dentro de escolas, de supermercados, de shoppings, de cinemas, nas ruas ou em qualquer lugar onde se reúnam multidões que se transformem em alvo fácil de sua sanha vingadora.

E de que se vingam os assassinos estadunidenses?

 Individualmente, cada louco tem sua desculpa. Mas não são necessárias profundas análises sociológicas, históricas e de qualquer outra natureza para se concluir que, sim, são vingadores de uma sociedade doente, profundamente doente, que colhe internamente o fruto de seu rastro de sangue na conquista interna e do rastro de sangue de suas guerras pelo mundo afora.

O verniz civilizatório estadunidense rompe-se de vez em quando, para revelar o país profundo, o país que tem sangue em seu DNA. E a morte de dezenas de pessoas por um idiota qualquer, em qualquer momento de uma pacata cidadezinha do interior, é só a ponta desse imenso iceberg de violência e de tradições de chacinas, chamado Estados Unidos da América. 

Que nenhum deus salvará!

março 04, 2012

OS BASTIDORES DO CIRCO ELEITORAL PAULISTANO



No picadeiro do PSDB paulistano, o circo armado para as prévias ruiu diante da entrada na disputa de mais um palhaço, José Serra. Dois dos contendores, devidamente instruídos pelo governador Geraldo Alkmin, desistiram; outros dois espernearam e dizem que vão continuar com a disputa, certos, porém, de que o aplauso final acabará ficando para o palhaço cara de pau que atropelou a tudo e a todos, com sua decisão tardia.


Como nesse circo há mais palhaçada do que imagina nossa mais inocente avaliação, vamos tentar deslindar o que está por trás dessa falseta, dessa pantomima que tem por único objetivo transformar o eleitor em escada para mais um golpe eleitoral.


Primeiro degrau para o picadeiro é entender a relação José Serra e Gilberto Kassab. O prefeito, um obscuro político cujo futuro seria mofar em alguns cargos secundários ou, quando muito, obter mandatos para a Assembleia Legislativa, foi guindado à direção da maior cidade da América Latina, à frente de um orçamento de fazer inveja a inúmeros países, graças à confiança nele depositada pelo Serra. Os dois são assim como o Mickey e o Pateta: tem o Kassab uma fidelidade canina em relação a seu criador e líder. De administrador medíocre da cidade de São Paulo, tornou-se um político esperto nas artes e estratégias do jogo do poder.


O que fez Kassab em favor de seu amo e senhor?


Detonou o DEM, aliado incômodo de José Serra, com sua excessiva influência e minguados votos, ao criar um novo partido - o PSD, que não tem ideologia e está na praça para servir unicamente a interesses políticos que passam, necessariamente, pela vontade de José Serra: tudo o que meu mestre mandar. Mas, não ficou só nisso o papel de Kassab, nessa complicada teia de interesses, como veremos mais adiante.


O segundo degrau para o picadeiro está na ambição do próprio Serra. Derrotado nas eleições presidenciais, seu futuro político parecia ser o ostracismo. No entanto, o tempo de recolha do vampiro serviu-lhe para costurar sua ambição aos interesses de uma minoria que ainda o apoia dentro do PSDB e a mídia paulistana que o tem na conta de estadista e como tal o trata.


A mídia paulistana é um caso à parte. Creio não haver algo mais podre e, ao mesmo tempo, mais pretensioso do que a mídia paulistana. Abriga e professa o pensamento conservador da chamada elite dos Jardins, o conjunto de bairros paulistanos onde se concentra a gente endinheirada, a "massa cheirosa" cuja percepção do mundo cabe nos contornos da Loja Daslu (hoje um símbolo decadente dessa elite). Os ideais dessa classe - tão zelosamente defendidos pela mídia - são os mesmos dos primeiros colonizadores, os bandeirantes, e dos primeiros barões do café dos primórdios do século XX: conquista à base do porrete (no lombo dos índios, pelos bandeirantes), poder da grana e ostentação (simbolizados pelos magníficos palacetes dos primeiros anos da avenida Paulista e, hoje, pelas mansões dos Jardins). Essa gente poderosa não gosta, no entanto, de se misturar ao povão e democraticamente disputar eleições: prefere deixar o trabalho sujo para seus apaniguados. E José Serra, por suas posições conservadoras, é um de seus queridinhos e, por isso, tem o beneplácito do apoio irrestrito da mídia paulistana. Não à toa, um dos porta-vozes serristas, a Folha de São Paulo, imediatamente após Serra anunciar que entrara na disputa, já fez uma mal ajambrada pesquisa de opinião, para publicar que o vampiro tem 30% das intenções de voto. No circo, os auxiliares de picadeiro agem rápido, para manter o público distraído com os números de prestidigitação dos palhaços.


Mais um detalhe fundamental neste tabuleiro: o PSDB nacional não suporta mais a arrogância dos seus líderes de São Paulo. Liderados por Minas, os tucanos querem uma cara nova para a disputa presidencial e o seu candidato "natural" é o ex-governador mineiro Aécio Neves. Serra seria, por isso, uma carta fora do baralho na escolha do partido para as próximas eleições.


Mas o vampiro não está morto. E precisa levantar rápido de seu túmulo, antes que seja tarde demais. Então costura com Alkmin a entrada nas eleições municipais.


Por que o governador topa avalizar sua candidatura? Primeiro, apesar de detestar o Serra e viverem às turras, tem o "rabo preso" a Serra: quando o sucedeu no governo paulista , Serra manteve intocados os esquemas de Alkmin, o que lhe possibilitou retomar com tranquilidade o governo nas eleições seguintes. E essa - dentro do jeito Serra de fazer política, com truculência e através de bem fornidos dossiês de "amigos" e adversários - é uma dívida vencida. O segundo motivo: o compromisso de Serra de não disputar novamente o governo de São Paulo, deixando o caminho livre para ele e seu grupo.


Então, a pergunta que não quer calar: como José Serra irá disputar de novo a presidência, se não tem apoio de seu partido?


Voltamos a duas coisas importantes: a ambição de Serra e Gilberto Kassab. A ambição: ele não tem nenhuma vontade ou vocação de ser prefeito. Está - me desculpem - cagando e andando para o povo de São Paulo. Mas precisa da prefeitura para fazer caixa de campanha. E aí entra mais uma vez o prefeito Kassab. E em dose dupla, para socorrer seu criador.


Primeiro, seguindo o plano de seu padrinho, Kassab fez de seu segundo mandato na Prefeitura o esteio para criar um novo partido e, por isso, tem sua avaliação como administrador despencando para índices que o nivelam ao famigerado Pitta (esse, uma criatura de Maluf). Porque, claro, não teve tempo de dedicar-se à cidade. Fez, no entanto, algo de fundamental importância para seu criador: planos. Mil planos e projetos. Se eleito, Serra terá apenas o trabalho de iniciar ou dar continuidade aos processos licitatórios para as inúmeras obras que Kassab prometeu e que não saíram do papel. E são obras bilionárias, como o túnel e o parque na região do Jabaquara ou o complexo turístico da Zona Norte, muito maior do que o Anhembi. E obras bilionárias rendem propinas milionárias, suficientes para, em dois anos, encher o caixa da campanha de José Serra à presidência.


E o problema partidário? É a segunda perna do "grande favor" de Kassab a seu padrinho: Serra sai do PSDB e candidata-se pelo partido de sua criatura. E mais: retribui-lhe o favor, deixando na prefeitura de São Paulo um vice devidamente escolhido por Kassab, mesmo que, por razões legais e de tempo na televisão, esse vice não pertença - agora - aos quadros do PSD. A continuidade da "gestão" Kassab estaria assegurada.


Está fechado, portanto, o enredo do gran-circo das eleições paulistanas, na versão da dupla José Serra - Gilberto Kassab. A banda de música da mídia já começou a bater o bumbo, todos os palhaços estão devidamente maquiados e prontos para - com fé, alegria e muita disposição - subir ao picadeiro, para nos fazer, a nós, eleitores, paulistanos, de idiotas - mais uma vez - por acreditar que marmelada só acontece nos verdadeiros e dignos circos de palhaços da periferia, esses, sim, merecedores de nosso respeito, mesmo quando se tornam políticos.


Só não nos equeçamos de uma coisa: o palhaço-mor está armado - de más intenções - e é perigoso!

janeiro 04, 2012

OS TEMPLOS DOS VENDILHÕES




Está lá, no dicionário (Aurélio):

Vendilhão, sm. 1. Vendedor ambulante; vendelhão. 2. Fig. Aquele que trafica publicamente em coisas de ordem moral.

Não gosto de citar a bíblia, essa colcha de retalhos de histórias judaicas e conselhos religiosos ou pseudo-religiosos, mas está lá, com todas as palavras:

"A minha casa será chamada casa de oração. Porém, vós a tendes transformado em covil de ladrões" (Mateus, XXI; 12 e 13).

E consta que o profeta do cristianismo expulsou os vendilhões do templo, correndo com eles debaixo de chicote.

Então, para que tudo isso?

Bem, é que neste último fim de semana (coincidentemente, o primeiro do ano de 2012), inauguraram próximo à Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, na cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, mais uma grande, uma imensa CAIXA REGISTRADORA. Que atende pelo apelido de templo. Templo de uma seita cristã autodenominada igreja mundial do poder de deus, ou algo parecido.

Não gosto de falar de seitas, porque elas são o menor problema do deísmo. Gosto de atacar diretamente na veia, isto é, aprecio o raciocínio que desmonta a crença absurda em deus ou em deuses; que comprova a inexistência de aspectos metafísicos num mundo que não tem nenhum resquício de qualquer coisa que se possa chamar de "espiritualidade"; que, enfim, afirma peremptoriamente que a vida é o bem mais precioso e que só temos esta vida, aqui, agora, a que estamos vivendo, sem nenhuma outra possibilidade.

No entanto, a inauguração dessa "caixa registradora" tornou-se algo de tão grande estupidez e de desrespeito às demais pessoas, que resolvi tecer alguns comentários sobre essa história de vender a salvação.

Primeiro, esperava-se que comparecessem à tal inauguração cerca de trinta mil pessoas. No entanto, o número de gente que gosta de ser enganada é muitas vezes superior a isso. Então, o que se viu foi um absoluto desrespeito que essas igrejolas de quinta categoria têm para com as pessoas, inclusive com seus próprios clientes (ou crentes, como gostam de ser chamados): centenas de ônibus entupiram a Rodovia, de ambos os lados da pista, fazendo com que as pessoas atravessassem a estrada, provocando congestionamentos imensos; outras centenas entupiram ruas próximas, impedindo as pessoas de sair de casa, ao estacionarem, com a arrogância que o deus deles lhes dá, em ruas estreitas e em frente a garagens de moradores; outras centenas de carros e ônibus consgestionaram as ruas próximas ao aeroporto, o que levou muita gente a perder voos; enfim, um desrespeito total e absoluto ao próximo, que eles dizem amar, mas que só odeiam, por não comungarem com as mesmas crenças que eles.

Agora, vamos ao aspecto moral e financeiro da questão.

Se são cristãos, se dizem que seguem a bíblia (e o fazem de uma maneira fundamentalista e fanática), como não se dão conta esses milhares e milhares de seguidores que os tais pastores não passam de pessoas - sem dúvida muito envolventes e simpáticas - mas apenas pessoas ávidas por dinheiro? Será que são tão absurdamente cegos, surdos ou estúpidos, para não perceberem - esses milhares e milhares de crentes dessas igrejolas chamadas "apostólicas" - que eles não passam massa de exploração desses  "pastores" que não lhes dão nada em troca?

Não veem que tais pastores não têm poder nenhum - seja moral ou espiritual - e que só tiram o seu poder da capacidade de enganar, de levar as pessoas a depositarem parte de salários miseráveis para enriquecer os bolsos dessa canalha que finge dar apoio espiritual a um bando de trouxas que neles confiam?

Será que esses milhares de crentes não entendem o que leem no seu chamado livro sagrado, que está cheio de condenações a todo tipo de comércio da fé?

No entanto, multiplica-se a construção desses templos imensos, verdadeiras caixas registradoras, templos de vendilhões que só querem enfiar a mão no bolso de seus seguidores, para comprarem mansões, fazerem viagens internacionais e viverem vidas de nababos da crença, enquanto os pobres coitados que pagam o dízimo e dão seu suado dinheirinho continuam como sempre foram, pobres diabos e, agora, pobres diabos enganados com falsas promessas de que deus lhes dará, num pretenso céu, a recompensa por enriquecerem os vendilhões desses templos de exploração e de sacanagem.

Mesmo que aceitemos a ideia mais que absurda da existência de um deus todo poderoso, com todas as qualidades que se lhes atribuem os vendilhões dos templos e tempos modernos, é ser muito tosco ou estar muito desesperado para acreditar que esse deus seja assim tão necessitado de dinheiro, que precise se vender por alguns reais para levar quem quer que seja para o seu paraíso.

Esses pobres e enganados crentes compram a salvação como compram cebola no supermercado. Aliás, essas seitas pentecostais ou evangélicas nada mais são que supermercados da fé, com negociantes espertalhões - os tais vendilhões que o profeta de sua crença expulsaria a golpes de relho - a vender um pedaço inefável de céu a preço de concretos e muito bem vindos reais que lhes dão o conforto material que tiram, com a maior cara de pau, do bolso de seus seguidores.

O tal Jesus lá dos evangelhos - se tiver mesmo existido - deve estar se revirando em seu túmulo. De raiva dos vendilhões ou de rir dos trouxas que neles acreditam.

Aos crentes eu só pediria: leiam com um pouco mais de atenção a sua bíblia, leiam!

outubro 12, 2011

AINDA ESSA HISTÓRIA DE PÚBLICO E PRIVADO



Digo, repito e repetirei mil vezes, se preciso for: futebol pode ser paixão. Mas o clube de futebol, sua diretoria, seus funcionários e seus jogadores são propriedade particular.


Como torcedor, só posso mesmo exercer o nome, o título de torcedor, ou seja, aquele que torce, que gosta do time e deseja (e apenas deseja) que o time jogue bem e vença seus jogos. Nada mais.


Se um time vai mal, se os jogadores fazem corpo mole, se o técnico não sabe armar o time, se perdem jogos, o azar é deles, somente deles. O time perde público e patrocínio, fontes de receita; os sócios perdem dinheiro e, principalmente, o patrimônio do clube se desvaloriza e os jogadores perdem valor no mercado e também perdem dinheiro, juntamente com seu empresário e com o staff que o acampanha. E o técnico perde o emprego.


E o torcedor, o que perde? Nada. Talvez umas horas de sono. Nada mais.


No entanto...


Há alguns elementos nessa paixão, nessa mistura de público e privado que trazem consequências funestas, para pessoas, para clubes e para torcedores.


Vejamos.


Primeiro: torcidas organizadas. Foi a invenção mais estúpida de toda a história dos esportes. Criada de forma talvez inocente, para a união de torcedores de um mesmo time, transformaram-se em pesadelo de preconceito, violência e mortes. E pior: os clubes, talvez um tanto inocentemente, talvez vendo nessas hordas de vândalos a possibilidade de aumentar arrecadação, enchendo estádios, acabaram apoiando essas torcidas. Um grande equívoco. Elas usam os símbolos e a camisa do clube – que são patrimônio e motivo de ganho em ações de marketing, para insultar outras torcidas, destruir patrimônio público, brigar e matar em nome... de quem? Do clube, claro. Apropriam-se de um bem particular – a imagem do clube – para prejudicar o prejudicar esse mesmo clube, pois acabam espantando dos estádios o torcedor comum, que teme a violência e as brigas constantes.


Segundo: a equivocada cobertura das mídias. Repórteres e comentaristas esportivos, até mesmo gente bastante inteligente e decente, não percebem que, falando asneiras, criticando de forma apaixonada e, até mesmo, violenta, dirigentes, jogadores, técnicos, incentivam o lado irracional do torcedor, que se acha no direito de também fazer cobranças, de também exigir o que ele não tem direito de exigir: que o seu time jogue aquilo que ele pensa que deve jogar; que os jogadores são seus apadrinhados ou que ele é dono ou o empregador dos jogadores, o que o leva a cobrar, às vezes de forma violenta, que esses jogadores deem o sangue, mostrem “raça”, seja lá o que isso queira dizer, na defesa de uma camisa que, no fundo, é apenas uma forma de ganhar a vida, de fazer um trabalho. Jogador de futebol, salvo raríssimas exceções, não joga mal porque quer, mas porque está atravessando uma má fase, porque não está bem fisicamente. E se ele prefere ir para a balada e beber até cair em detrimento de sua performance, o azar é todo dele: desvalorizado como atleta, perderá a confiança de seu empregador (o clube) e poderá até mesmo encerrar sua carreira.




Terceiro: o torcedor. Se um jogador tem problemas – sejam particulares ou não – o clube é que deverá buscar soluções para resolvê-los, não o torcedor. Mas, incentivado pela mídia, o torcedor vira um cobrador furioso, um agressor, a exigir, até com sopapos, resultados que o time não obtém não porque não queira, mas porque há sempre muita coisa em jogo num time de futebol, muita coisa além das quatro linhas do campo. E isso é problema do clube. Ele é que deve resolver. Não o torcedor.


Um clube de futebol – quantas vezes será preciso repetir? – é uma instituição privada, não pública, que depende do dinheiro, sim, do torcedor, através da bilheteria, o que não é algo compulsório: a decisão de ir ao campo e toda dele e de ninguém mais. Torcemos por um time, como torcemos por qualquer outra coisa em nossa vida, pelo sucesso de nossos filhos, pela vitória de um atleta, pela melhoria das condições de vida do povo, pelo progresso da Nação.


Apenas com um detalhe fundamental: muitas de nossas torcidas, na vida, podem depender do nosso trabalho, da nossa conduta ética, dos nossos esforços por viver bem em sociedade. Mas, a torcida por um time de futebol – se não somos sócios e, portanto, “donos” ou acionistas desse clube – só pode, mesmo, ficar na torcida: festejar nas vitórias, chorar nas derrotas e ignorar as provocações de outros torcedores, porque, afinal, um jogo termina no apito do juiz e seu resultado não modificará a vida de ninguém, nem o mundo em que vivemos.


Torcedor não tem o direito de bater em jogador (como aconteceu esta semana com um dos jogadores do Esporte Clube Palmeiras, de São Paulo, quando foi agredido na porta do clube por um bando de estúpidos e idiotas); não tem o direito de exigir que fulano ou beltrano não jogue ou se esforce mais; não tem o direito de nada além do torcer... e até criticar, vaiar, deixar de ir aos jogos. Nada além disso. Nada!

setembro 16, 2011

ESSA MISTURA DE PÚBLICO E PRIVADO



Há certas coisas que eu não entendo e não vou entender nunca.


Está rolando na internet um abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Eis aí uma coisa bastante idiota de se fazer: abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira.


Por quê?


Bem, vou tentar explicar.


Primeiro, deixe-me esclarecer uma coisa: não tenho absolutamente nada contra nem a favor do senhor Ricardo Teixeira. Também não lhe tenho nenhuma simpatia, e isso é apenas uma coisa pessoal. Como pessoa pública que ele é, posso até reclamar de suas palavras e atitudes. Posso criticá-lo ou elogiá-lo. E, se ele me fizer algo, posso até processá-lo. E só. Mais nada.


Agora, acompanhe meu raciocínio.


Sou torcedor do Santos Futebol Clube. Como tal, desejo que meu time jogue bem, que os jogadores se esforcem pela vitória, que o treinador escolha o melhor esquema de jogo e coloque em campo os melhores. Tenho consciência, no entanto, de que aquilo que eles – os jogadores, o técnico, a diretoria e demais pessoas ligadas ao clube – fazem é o trabalho deles. Ou seja, essas pessoas ganham e, às vezes, ganham muito bem, para isso.


Ora, se a diretoria do Santos for incompetente, o que eu posso fazer? Nada. Não sou sócio do clube, apenas torcedor.


Se o técnico não sabe treinar o time, o que eu posso fazer? Nada. Não sou da diretoria, apenas torcedor.


Se o time não joga direito, se os jogadores fizerem corpo mole, ou se começarem a perder jogos seguidos, o que ou posso fazer? Nada. Apenas ficarei triste e, até, posso deixar de torcer pelo Santos. Com muita pena, claro. Mas não posso fazer nada. Absolutamente nada.


Afinal, se o meu time estiver mal, eu posso sofrer (e, mesmo assim, relativizemos o máximo possível esse “sofrer”, porque a minha vida não muda nada com as vitórias e derrotas de meu time), mas o azar maior será dos próprios jogadores, que se desvalorizarão no mercado; do técnico, que vai perder o emprego; da diretoria, que vai perder sócios; dos sócios, que vão ter seu patrimônio desvalorizado... E assim por diante.


Como torcedor, não posso, não devo e não vou fazer absolutamente nada.


Por quê?


Ora, um time de futebol pertence a um clube que é uma entidade privada. Embora me proporcione momentos de lazer (raiva ou prazer, neste caso), fazer campanha para tirar, por exemplo, o seu presidente é o mesmo que eu fizesse campanha pública para tirar o presidente da Rede Globo de Televisão ou o presidente do Banco Itaú.


Se o presidente da Rede Globo ou do Bando Itaú forem corruptos, inescrupulosos, sacanas, o problema é com a polícia, com a justiça, com os sócios da emissora e do banco. O que eu posso fazer é não mais assistir à Rede Globo e não colocar mais o meu dinheiro no Banco Itaú. Isso eu posso fazer. E, se me sentir prejudicado por um dos dois, recorrer à justiça. Isso também eu posso fazer.


Com um clube de futebol, do qual eu sou apenas torcedor, é a mesma coisa: o que eu posso fazer, se não estiver satisfeito, é deixar de torcer por esse time e não mais ver os seus jogos. Se me sentir prejudicado, como consumidor (por exemplo: me venderem ingresso e não haver o jogo), posso até recorrer à justiça pelos meus direitos


Com a Confederação Brasileira de Desportos, a CBF, na minha opinião, o caso é o mesmo: se o senhor Ricardo Teixeira é incompetente ou corrupto, o problema é dos sócios dessa empresa. Ou da polícia, se houver denúncia de roubo. E da justiça, se houver inquérito.


Acho tão estúpido a torcida de um grande time de São Paulo, de vez em quando, insatisfeita com os jogadores, ir lá na sede do clube cobrar deles “sangue, suor e lágrimas”, quanto fazer campanha para tirar da presidência de uma entidade privada o seu presidente ou quem quer que seja. Se os jogadores desse grande clube não estão correspondendo àquilo que deles se espera, é problema da diretoria, dos sócios, de quem trabalha para esse clube e está perdendo dinheiro, não dos torcedores.


E o pior: tanto a torcida desse clube quanto os abaixo-assinados para tirar o presidente da CBF têm o respaldo de uma certa mídia, que acaba encampando essas teses absurdas, como se isso fosse uma coisa absolutamente comum.


Ou seja: eles dão aval à mistura de público e privado, sem pensar que isso é uma grande estupidez. E depois, ficam querendo que os políticos não façam também essa geleia geral de misturar o que é do Estado com o que é particular.


É tão errado o político meter a mão no dinheiro e nas coisas públicas, como se fossem particulares, quanto querermos interferir nos negócios privados seja de quem for.


Está certo: a CBF é a detentora da marca e das realizações da seleção brasileira de futebol. E daí?


Por mais que a seleção brasileira de futebol ganhe as manchetes de jornais; por mais que mexa com o imaginário dos torcedores de futebol; por mais que digam que ela é “a Pátria de chuteiras” (uma grande frase do Nelson Rodrigues, mas uma grande bobagem também), não temos nada com os desmandos do senhor Ricardo Teixeira no comando da CBF.


Se os governantes de meu país derem dinheiro público para a CBF, isso me diz respeito. E contra isso, podemos, devemos e vamos todos protestar, se esse dinheiro não tiver respaldo legal ou se não for por uma causa absolutamente justa.


Mas, se alguma empresa privada der dinheiro ou propina ao presidente da CBF, isso é problema dessa empresa e de quem deu o dinheiro ou propina. Pode ser caso de polícia e da justiça, mas eu, como cidadão, não tenho absolutamente nada com isso.


Assim, não me venham com essas campanhas idiotas de “Fora Ricardo Teixeira”, ou com abaixo-assinados contra o presidente da CBF. Que ele pode até ser um refinado escroque, ou um idiota completo, ou um corrupto de carteirinha, não tenho nada com isso. Não posso, não devo e não vou fazer absolutamente nada.


Torço pela seleção. Fico chateado e critico o seu futebol, quando não joga bem. Como torcedor, tenho até o direito de achar que fulano ou beltrano não deviam ser convocados ou que o técnico devia ser substituído. Mas é a minha opinião e nada além de dar a minha opinião eu posso fazer de concreto. A única coisa que posso fazer é torcer para que as coisas deem certo. Por isso é que sou e somos todos “torcedores”.


Não vou nunca me compactuar com qualquer mistura de público e privado. Nem no futebol, nem na política... Não vou nunca me compactuar com falcatruas, sejam públicas ou privadas. Mas as falcatruas privadas só me dizem respeito quando me prejudicam (vejam o meu blog “Comida sem cocô”, por exemplo: http://comidasemcoco.blogspot.com/).

agosto 09, 2011

ÉTICA E EMPRESAS DE COMUNICAÇÃO







Jornalista, pessoa física, o sujeito que estuda e termina uma faculdade “de jornalismo” ou abraça a carreira de jornalista, ou seja, trabalha numa empresa de comunicação, esse, sim, pode, deve ter ética. E, geralmente, a tem. Ou não.


Se tem ética, princípios morais, respeito ao público, busca cultivar a verdade, mesmo que, às vezes, como todo ser humano cometa erros. Erros de avaliação ou de julgamento. Erros que podem ser sanados com a famosa “retratação”.


Se não tem princípios sólidos, vai, com certeza, produzir matérias de acordo com interesses escusos e fazer de sua profissão uma forma de enriquecimento ilícito, como qualquer outro cidadão que não tenha princípios e exerça qualquer outra atividade.


Mas jornalista tem nome, endereço, RG, paga impostos, tem amigos e inimigos, família etc. Ou seja, é um ser palpável, concreto, encontrável. Mesmo se foragido.


Já as empresas de comunicação, as grandes empresas de comunicação, também têm nome, registro nos órgãos competentes, endereço, pagam impostos, e têm funcionários, muitos funcionários. No entanto, não são seres palpáveis, concretos, encontráveis. Escondem-se sob uma montanha de palavras escritas por outros, mas insufladas por donos, presidentes, diretores poderosos que comandam suas empresas de acordo com interesses sempre escusos.


Um jornalista, qualquer jornalista, se pessoa física pode incomodar muita gente. Mas pode também levar um processo, um pé na bunda ou, até mesmo, uma surra de seus desafetos.


Mas uma empresa de comunicação é intocável. Pode, quando muito, levar um processo que fica rolando de juiz em juiz, de tribunal em tribunal, até as calendas gregas.


Um jornalista pode tentar influenciar seu público. Com suas opiniões, com seus conceitos e pontos de vista. Mas o publico de um jornalista é apenas o público de um jornalista. Por mais seguidores que tenha.


Já uma empresa de comunicação não apenas tenta influenciar o seu público: ela usa de toda a sua força, de toda a sua capacidade de mobilização – e nisso inclui toda a mão de obra formada por seus empregados jornalistas – para determinar rumos para o povo, de acordo com seus interesses. Que são sempre escusos.


Sim, escusos. São sempre escusos os interesses das empresas de comunicação. Das grandes empresas de comunicação.


Porque, por princípio republicano e democrático, nenhuma empresa de comunicação devia poder ter o direito de influenciar a quem quer que seja.


Mais ainda: se republicanos e democráticos forem os princípios de uma sociedade, de um país, não devia nunca haver grandes empresas de comunicação nesse país.


Uma grande empresa de comunicação é tudo. Menos republicana e democrática. Porque uma grande empresa de comunicação tem sempre interesses, e esses interesses nunca, absolutamente nunca, são os interesses do povo. São os interesses de seus donos. Que querem dinheiro. Que querem mais do que dinheiro: querem poder.


E uma grande e poderosa empresa de comunicação ilude o povo. Engana uma nação. E elege aqueles que a apóiam, aqueles que defendem os seus interesses. Sejam eles políticos, econômicos ou filosóficos.


Um jornalista pessoa física a sociedade repudia. Ou não.


Já uma grande, poderosa e influente empresa de comunicação é um quisto, um câncer, uma doença que cresce e se avoluma. E não há repúdio ou remédio contra ela. Porque ela tem nas suas mãos os poderosos. Que a temem e fazem aquilo que ela deseja.


Não há esperança para a democracia enquanto houver grandes, poderosas e influentes empresas de comunicação num país ou, mesmo, no mundo.


Ou, dizendo o mesmo de outra maneira: nenhuma nação é realmente democrática enquanto estiver nas garras de grandes, poderosas e influentes empresas de comunicação.


Porque elas, as poderosas e influentes empresas de comunicação, se julgam acima do bem e do mal. E escondem suas falcatruas sob a égide da “liberdade de imprensa”. Que todos nós compramos como um bem inalienável. Enquanto seus poderosos chefões escarnecem de nossa ingenuidade.


Porque as empresas de comunicação – com seu poder e sua influência – estão pouco ligando para nós e para a tal “liberdade de imprensa”. O que elas querem, de fato, é a liberdade de fazerem o que fazem: mentir e influenciar.


E comprar – com suas mentiras, com seu poder corruptor – mentes e corações. Para se tornarem cada vez mais poderosas.


Jornalista pessoa física tem ética. Ou não.


Empresas de comunicação, jamais. Ética e empresas de comunicação são como o óleo e a água: não se misturam. São incompatíveis.


Mesmo que apregoem a quatro ventos suas cartilhas, códigos, receituários ou seja lá o que quiserem chamar seus tratados de princípios, normas... e ética!


Servem apenas para enganar trouxas.


(Ilustração: Giger)

julho 25, 2011

A OUTRA DROGA DA HUMANIDADE: O DESRESPEITO À VIDA


(Honoré Daumier - Don Quixote)


Não somos anjos decaídos, mas animais em evolução. Temos em nossa memória genética e em nosso inconsciente a luta pela sobrevivência, ao longo de milhões de anos. Nossa civilização, no entanto, tem uns poucos milhares de anos, que mal chegam a uma ínfima porcentagem da trajetória do homem, do estado de ameba ao de ser pensante.


Desenvolvemos, nesses poucos milhares de anos de consciência, de pensamento dito racional, crenças e valores que nos levaram para caminhos tortuosos, ainda mais tortuosos do que a evolução genética nos conduziu.


Criamos a metafísica e, com ela, as crenças absurdas em vidas além da vida, em deuses criadores ou fundadores, em seres inexistentes e, dentro de uma espiral de ignorância misturada com arrogância, construímos para nós mesmos a armadilha da falsa imortalidade.


Como seres razoavelmente inteligentes, temos construído, nesses últimos séculos, uma civilização tecnológica que nos dá a falsa impressão de seres superiores. Destruímos a natureza, em prol de valores consumistas e de total conforto. E, com isso, colocamos em risco o equilíbrio do próprio planeta onde vivemos, sem pensar na sobrevivência da raça humana.


Mais grave ainda: juntamos o ânimo guerreiro da luta pela sobrevivência a crenças em divindades que privilegiam a morte ao invés da vida. Construímos, com isso, uma verdadeira orgia de entidades metafísicas totalmente absurdas para justificar os atos de guerra, de matança, de assassínio, de submissão do outro e de covardia em relação a qualquer ser que julguemos inferior a nós.


Deuses e religiões se unem na mente do homem para justificar todos os atos de barbárie que se cometem em nome de valores não-humanos, de valores que trazem em seu bojo o sangue de ancestrais unido ao total desrespeito à vida. Porque adoramos deuses da morte e não deuses da vida.


Todos os livros ditos sagrados – que são a base do pensamento deísta do homem atual, de todas as partes da Terra – são livros que pregam a exclusão do outro baseada no princípio básico de que só os “irmãos em fé” podem agradar ao tal criador carniceiro. Todos os demais são relegados ao fogo do inferno, como castigo máximo, ou à não permanência junto ao deus ou a seus profetas.


Matar o outro, porque é diferente, está no DNA do homem pio, do homem que crê que seu deus é melhor do que o deus da outra tribo. Porque ainda somos divididos, por obra e graça do deísmo e suas religiões, em tribos que, no fundo, se odeiam e desejam a destruição da tribo inimiga. O deus de cada uma dessas tribos exige o domínio total e absoluto do mundo, mesmo que para isso seja necessário destruir todos os demais.


Não percebemos que o fundo de toda e qualquer guerra consiste em eliminar o diferente, por motivos tribais, mais até do que econômicos, como somos levados a crer, por teorias que buscam ofuscar o verdadeiro motivo de agirmos assim.


Os pensadores de todas as tribos, sejam do ocidente ou do oriente, estão definitivamente contaminados pelos conceitos deístas, pelas crenças absurdas em sobrevivência espiritual da humanidade, como se a vida que vivemos fosse apenas um estágio para uma vida melhor após a morte. E isso é arrogância, pura arrogância instilada pelas falsas crenças de tal modo, que ficamos cegos à vida e à natureza, ao mundo que nos cerca, que são a única coisa real que existe.


Perdemos tempo em pensar na “essência” das coisas, na perenidade do mundo, quando tudo ao nosso redor muda, transforma-se, evolui, dentro de leis naturais precisas e fundamentais, cujos princípios nos afetam de forma concreta e não inventada, como na crença em milagres ou em deuses.


Enquanto a humanidade persistir na interpretação de palavras toscas de livros sagrados; enquanto a humanidade ignorar as leis claras da natureza; enquanto a humanidade não se livrar das metafísicas idiotas, proclamadas por profetas ou falsos filósofos; enquanto a humanidade não substituir o culto da morte pelo culto da vida e passar a respeitar a vida como o único e insubstituível bem que possuímos, continuaremos a ter guerras, massacres, carnificinas, assassínios e ataques terroristas praticados por imbecis em nome de causas as mais absurdas possíveis, mas transformadas em formas de justiça por esse processo destruidor da racionalidade que se chama deísmo.


Até quando permitiremos que os deuses carniceiros e prepotentes dominem a mente do homem? Até quando?

junho 03, 2011

A DITADURA DO INDIVIDUALISMO, OU: POR QUE CONSUMIMOS DROGAS


(Bosh - seven sins)


Introdução



Esta é uma longa reflexão sobre o homo sapiens e seu desassossego existencial que leva ao consumo das drogas. Não é fruto de experiência, mas de busca filosófica, de tentativa de explicar o inexplicável, talvez. Mas vale como uma contribuição – estritamente individual – sobre o que representa o consumo de drogas para o homem e por que ele aprecia tanto escapar da realidade através de meios químicos.




O público e o pessoal


Entre o que é essencialmente pessoal e o que é público, há abismos insondáveis. Difíceis de transpor e impossíveis de se conciliarem. Há indivíduos absolutamente lúcidos e inteligentes que propõem, por exemplo, a descriminalização das drogas, porque defendem que o indivíduo tem o direito de se estragar, de fazer de si o que acha melhor, sem que o poder público tenha nada com isso. 

Cada um tem o direito de se entupir, por exemplo, de comidas gordurosas tanto quanto de fumar maconha ou cheirar cocaína até uma overdose fatal. É o direito individual levado ao extremo, como o de se destruir através de todas as loucuras, desde que o fato de se drogar ou de se entupir de colesterol ou de usar uma arma de fogo não ocasione prejuízos a terceiros, no que, então, seria punido pelas leis existentes. 

Abre-se, aí, um universo novo de total liberdade, em que a responsabilidade individual parece ganhar ares de absolutismo, numa fórmula que condiciona a sociedade a existir e insistir no respeito às individualidades, num mundo que ganharia, afinal, os moldes de um idealismo de liberdade total. Liberdade que faria com que o indivíduo percebesse que ele pode tudo até o limite do outro, ou seja, aquele ponto em que suas ações e atitudes ofendam ou coloquem em risco o outro. As leis só existiriam como estatuto de proteção e conciliação ente os interesses individuais e a sociedade, não importando se milhões de zumbis alcoolizados, drogados e obesos andassem pelas ruas, porque, afinal, ninguém teria nada com isso. 

Um novo socialismo utópico se construiria, com uma sociedade não mais voltada para os valores de consumo de massa, mas para o consumo das drogas, como forma de inanição diante dos problemas comezinhos do dia a dia e de fuga da vida burguesa ou capitalista a que somos todos condenados a viver, há muito tempo. Parece lógico para essas pessoas que as doenças advindas do consumo das drogas não deveriam, então, ser tratadas. Se alguém estiver morrendo de overdose, na rua, que morra em paz. Se os obesos consumidores fanáticos de picanha se estrebucham num ataque cardíaco ou num derrame cerebral, que se contorçam sozinhos, sem que o sistema assistencial pago também com o dinheiro dos que se cuidam tenha o dever de interferir e de salvar as suas vidas. Ou, então, que os que se arvoram o direito de se suicidarem lentamente tenham os seus próprios sistemas assistenciais, pagos com seu trabalho e seu suor, seja como for que o façam, sem que venham a onerar o sistema de saúde dos outros, daqueles que não se drogam, não se estragam, não se suicidam lentamente. 

Então, numa sociedade assim, teríamos dois sistemas econômicos, não importando que se viva sob regime capitalista ou socialista. O direito a consumir-se não pode onerar o sistema dos que não defendem tais direitos, porque, afinal, espera-se, se a droga e o direito de estragar-se se tornarem consuetudinários, que se respeitem aqueles que não querem e não desejam estragar-se e consumir-se do mesmo modo. 

Talvez se proponham, até mesmo, dois governos: um para os cidadãos que não se consomem e outro para os que se arvoram o direito de estragar-se. Seria bastante curioso, por algum tempo, perceber como os que se consomem iriam administrar o sistema produtivo, se é que conseguirão constituir algum, que possa sustentar o outro sistema, o de produção e consumo das drogas. 

Também seria necessário que houvesse regras e leis precisas de abdução de um sistema para outro. Alguém que se droga e quer deixar de fazê-lo: de quem seria o ônus pela mudança? Ou vice-versa: alguém que não se droga e resolve apenas experimentar, por haver facilidade de aquisição, como seria o impasse resolvido? Passaria automaticamente para o outro lado ou haveria um tempo de tolerância, para ver se o indivíduo quer isso mesmo? 

Como estamos num mundo extremamente voltado para os valores individuais, é claro que um tempo de tolerância seria o ideal, restando apenas saber a quem caberia o ônus econômico de tal decisão. Não há dúvida de que muitos impasses podem ser resolvidos. Outros, nem tanto. De qualquer modo, o direito individual seria a lei suprema, o norteador de todas as ações sociais e políticas. 


Drogas e sociedade


E então, eu pergunto: é esse o caminho do homem, na sua trajetória sobre a face da terra? O que viria de uma sociedade em que as drogas, todas as drogas, fossem livres? Não seria essa uma forma eugênica de escolher os melhores para continuar o processo evolutivo, depois de uma fase de caos absoluto? O destino do homem estaria definitivamente associado e atrelado aos interesses individuais, ou seja, toda a sociedade construída, e muitíssimas vezes muito mal construída, até agora foi apenas um arremedo do verdadeiro destino humano? Estão nas drogas que amortecem o pensamento o futuro e o nascimento de um novo homem que se consumirá até desaparecer, dando lugar a uma outra espécie geneticamente imune ao seu uso? 

São questões que me assolam, quando penso que muitas pessoas defendem a total descriminalização das drogas, como forma de resolver os seus problemas pessoais, a sua inabilidade para tratar as coisas comuns da vida, a sua inadaptação orgânica à própria existência ou as suas crises existenciais e o desconforto perante o mundo que as ameaça com cobranças, com regras e leis às quais não conseguem se conformar. 

O ser humano é, mesmo, o mais complexo elemento da natureza e a convivência com desigualdades tem sido o grande salto de humanização do próprio homem, mas levantamos dúvidas cruéis quando está em jogo o absolutismo do direito individual contra o absolutismo do direito social.

Qualquer julgamento que se faça a esse respeito resvala no moralismo absurdo da defesa de um dos dois extremos. Porque julgo moralista tanto a condenação de um lado quanto a condenação do outro lado. Defender o direito de contrariar a sociedade de forma total e absoluta é assumir uma posição moralista de condenação do outro tipo de vida, da mesma forma que condenar de forma absoluta os que se arvoram o direito de fazer o que quiserem com o próprio corpo e com a própria vida também se constitui numa posição moralista. 

O equilíbrio entre as duas posições torna-se quase impossível. 

Como não há o que se condenar, a visão de quem observa os contendores nessa luta parece indicar que, primeiro, embora sejam muitos os que pregam a liberdade absoluta, não são a maioria; segundo, a sociedade constituída, não importa em que tipo de regime, tem o fôlego de milhares de anos de imposição de valores e não vai abrir mão deles; terceiro, e talvez o mais importante a favor da sociedade, há o fator econômico, aquele que pesa mais do que qualquer ideologia religiosa ou filosófica: as drogas, ao mesmo tempo em que movimentam um lado economicamente ativo da sociedade, enriquecendo a uns tantos, não pode se tornar bem comum, simplesmente porque não interessa a quem aufere esses lucros que eles se coletivizem e, além disso, a própria sociedade economicamente produtiva, que se utiliza das drogas em suas festas e nos seus momentos de revolução individualista, não tem nenhum interesse em se desestabilizar em prol de uma causa de futuro incerto, preferindo manter tudo como está, sem o ônus de permitir o descontrole que pode levar ao caos o sistema produtivo. 

Porque liberar significa democratizar, e democratizar significa a possibilidade de perder o controle sobre a mão de obra que sustenta, com seu trabalho de formigas mal pagas, todo o sistema construído de forma sistemática por gerações e gerações de umas poucas famílias que dominam a economia em cada uma das nações da Terra.

Portanto, continuarão a ganir ao longo dos caminhos os que a sociedade vê como cães desgarrados a defender a liberalização total das drogas como solução que essa mesma sociedade vê, com olhos às vezes condescendentes, às vezes com olhos condenadores, como uma ilusão, como um sonho ou pesadelo que a mão pesada da repressão e da polícia irá, com certeza, no seu devido tempo, coibir. Porque, numa visão extremamente pragmática, aquilo que não tem solução solucionado está.


Por que gostamos de drogas


A posição moral oficial é condenar e criminalizar definitivamente o uso das drogas, ou ainda, numa posição mais radical, demonizar consumidores, traficantes e dependentes. Tal posição torna-se extremamente confortável, porque, a partir dela, todas as objeções caem por terra: não há discussão, não há racionalidade.

Fiquei, então, preocupado: se condeno o uso de drogas, assumo um moralismo com o qual não concordo. 

Um beco sem saída? 

Devo buscar uma razão que não esteja ligada à metafísica, ao moralismo platônico, ou mudo de lado. Apelo para a ciência: se tenho pensamento científico, se a ciência condena o uso de drogas, logo, não devo estar errado ao assumir uma posição também contrária. Mas isso é ir a reboque de informações que me passam e que eu não posso conferir se estão certas ou erradas. 

Penso, então, no indivíduo, apenas no indivíduo. Por que razão alguém há de se drogar? Que prazer é esse? 

Como nunca me droguei, também aí o terreno é movediço, pois não tenho nem experiência nem conhecimento suficiente para dizer em que estado fica o indivíduo que se droga. 

Tudo é, portanto, muito nebuloso para mim. Passar pela experiência de uma viagem para a qual não estou preparado, isto é, experimentar alguma droga para ver como é, isso, definitivamente está fora de meus propósitos. Portanto, tudo o que vou escrever a partir de agora situa-se no terreno da especulação, do ouvir dizer, do haver lido e pesquisado, enfim, da experiência tomada emprestada.

Posso passar longe da verdade, ao tentar explicar o que eu penso do uso de drogas e, até mesmo, passar por moralista sem causa. Um risco menor do que ficar no lusco-fusco das idéias mal resolvidas e não tomar uma posição clara a respeito. 

Volto ao indivíduo.

Nele pode estar o motivo de minha recusa às drogas e por ele começo a investigar a minha própria ojeriza ao ato de drogar-se. 

Ao nascer, trazemos em nossos corpos imperfeitos uma grande carga genética de que não sabemos a origem, ou sabemos muito, muitíssimo pouco. Há em nossas células, a conformar nossa índole, milhares de influências de inúmeras gerações, desde que o homem se descobriu a pensar ou até mesmo antes, quando ainda rastejávamos nos pântanos como organismos primitivos. Nesses milhões de atos evolucionistas que nos transformaram em seres pensantes e comunicativos, nossos antepassados caminharam por sendas inimagináveis, na luta pela vida e pela sobrevivência em ambientes hostis. Experimentaram de tudo. Comeram de tudo. Mataram e morreram milhares e milhares de vezes, para chegarem a um organismo que hoje atende por homem e mulher, num cadinho misterioso de influências, de heranças das quais ainda não temos a mínima idéia. E mais: nessa trajetória intrincada, cada organismo humano é único, apesar da quase total semelhança. Impossível quantificar o quanto somos iguais e o quanto somos diferentes. Talvez, numa tentativa de aproximação, sejamos muito semelhantes numa percentagem que se aproxima em muitas casas decimais dos cem. Mas, a milésima da milionésima parte de diferença que temos de uns para com os outros já nos torna únicos e completamente diferentes. E todos, desde que nascemos até a nossa morte, lutamos para nos adaptar. Ou seja, viver é tentar adaptar-se ao mundo. De milhões de formas diferentes, procuramos nos adaptar ao meio em que vivemos. Isolados ou gregários. Em pequenas ou grandes comunidades, felizes ou infelizes, loucos ou sadios, todos temos um só objetivo: adaptarmo-nos. 

Então, as dificuldades começam aí: na luta para nos tornarmos coerentes com o mundo que nos cerca, para não sermos levados pela maré, para não sermos surpreendidos na contramão da vida. Uns mais, outros menos, todos buscam viver o máximo possível. E como temos consciência de que vivemos e morremos, e como temos consciência de que o corpo em que habitamos é nossa única ligação com o mundo, com a vida, podemos, em função das milhares e milhares de heranças genéticas que carregamos, não obter um nível desejável de adaptação, não só ao meio em que vivemos, mas também ao corpo que nos dá vida. 

Por menor que seja essa inadaptação, há sofrimento. Em graus tão variados, que não nos permitimos quantificá-lo. Sofrimento que gera tanto os gênios quanto os idiotas. Se, na natureza, o animal que não se adapta é morto pelos seus ou é abandonado para morrer, entre os homens não há essa possibilidade, porque o nosso grau de consciência de nossa humanidade não nos permite que assassinemos friamente um filho que nasça com algum tipo de inadaptação, embora haja registros históricos de povos que o fizeram (ou ainda o fazem?). 

Além disso, não há apenas as inadaptações físicas: muitas dessas inadaptações são fruto de nossa química cerebral, que nos faz pensar diferente do comum dos mortais, que nos faz ver o mundo de forma enviesada em relação aos outros, ou que nos faz agir de forma diferente, configurando desvios de comportamento mais ou menos inaceitáveis pela sociedade. Dentre os milhões de seres humanos com algum tipo de desvio do que se chama normalidade, uma categoria arbitrária, muitos e muitos só vislumbram saída em algum tipo de fuga através de fármacos que lhes entorpeçam o pensamento diferenciado ou lhes permitam agarrar-se a algum tipo de lucidez possível na luta pela adaptação à sociedade, ao mundo e, principalmente, a si mesmos. 

As drogas, não importa quais sejam, agem na química cerebral e modificam as sinapses mentais, alterando a percepção que as pessoas têm do mundo, enquanto estão agindo. Não há nenhuma porta metafísica de percepção de outras realidades, mas apenas a exacerbação de uma visão que já existe no cérebro e que a droga, ao estabelecer ligações esquecidas ou obliteradas pela realidade, ativa ou reativa como fuga dessa mesma realidade. Como são elementos químicos, viciam e, ao viciarem, a droga faz de seu usuário um escravo de estados alterados da consciência como forma de adaptação a um mundo que, agora, não é mais o real, mas o mundo criado e transfigurado pela capacidade inaudita do cérebro de inventar e imaginar, a partir da realidade, outras realidades mais agradáveis ao indivíduo. 

Alguns mitos se formam a partir daí, mitos que a ciência nunca comprovou. Por exemplo, um indivíduo criativo não tem essa qualidade exacerbada pela droga e, às vezes, pelo contrário, tem-na diminuída, mas o cérebro engana o pensamento lógico e faz que ele acredite estar tendo visões fantásticas e ideias ainda mais incríveis do que em estado normal. O vício químico obriga, por outro lado, a que o indivíduo tome doses cada vez maiores ou que as tome sempre, ligando-o definitivamente a um estado de imaginação a que os drogados chamam de viagem. 

Não há viagem, há apenas estados enganosos de falsa felicidade ou de falso bem estar do cérebro, para exigir que o indivíduo se drogue. Portanto, a droga não faz do indivíduo um ser mais adaptado do que outro, apenas leva-o a acreditar que o mundo a seu redor tornou-se menos agressivo para ele, ou que o seu corpo deixou de ser motivo de sofrimento ou, ainda, que as barreiras morais impostas pela sociedade desapareceram e o indivíduo pode tudo, inclusive matar ou matar-se. Assim, a tendência é buscar sempre o estado de distanciamento da realidade provocado pela droga, como forma de driblar as angústias da inadaptação. 

O artificialismo da situação leva-me, portanto, a concluir que a tal fuga pelas drogas é uma rota sem saída, porque o individuo perde aquilo que é um dos bens mais preciosos da vida, além da própria vida: o domínio de seu pensamento, o domínio de si mesmo, a sua capacidade de sonhar os seus próprios sonhos, de imaginar os seus próprios caminhos e viver a sua própria vida. Perde o direito de decidir sobre si mesmo. O efeito das drogas deve ser, guardadas todas as devidas proporções, como contemplar um pôr do sol tirado por uma foto ou visto na tela do cinema e o verdadeiro ocaso. Por mais belo que seja o do filme, não terá comparação com a realidade, por mais simples que ela seja. Perder a consciência, perder a lucidez da visão do mundo, por mais dolorida que seja essa visão, por mais difícil que seja a realidade a ser enfrentada, não vale o prazer ou até mesmo o desprazer de enfrentar o mundo como ele é. Essa visão é uma experiência milhares de vezes mais rica do que fugir através de um estado alterado de consciência provocado seja por que droga for. 

Por isso, a minha ojeriza em relação às drogas: funcionam tanto como entorpecimento e desfiguramento da realidade, quanto qualquer fuga dessa mesma realidade através da metafísica ou da religião. Pode-se explicar, portanto, o uso e abuso de drogas, mas não se pode justificar.

Há, sob a minha condenação, uma visão estritamente humana, muito humana. A depuração de todos esses desvios (que constituem uma trajetória necessária), segundo a minha concepção, se dará de forma lenta e gradual, para a formação de uma humanidade livre da necessidade de usar muletas para enfrentar a realidade e com ela conviver de forma lúcida e racional. 


Conclusão


O homo sapiens – ou melhor, muitos de sua espécie – ainda vai levar muitas gerações para se livrar da necessidade do consumo de drogas, sejam elas químicas ou metafísicas. Enquanto isso, precisamos aprender a controlar tal vício (entendendo-se como vício toda necessidade de fuga da realidade, por inadaptação ao mundo em que vivemos). Se a repressão total não funciona e se a liberalização total poderá ser um caminho sem volta para a destruição do organismo social através da corrosão dos valores individuais e sua imposição à sociedade, teremos que buscar, com toda a nossa capacidade de imaginar e de criar (principalmente através da ciência) um caminho que seja menos doloroso e menos desastroso para o indivíduo e para a humanidade. Qual será esse caminho? Não sei. Só sei que ele precisa ser – e será – encontrado.