julho 17, 2010

CHUTANDO O BALDE CHEIO DE MERDA DA IMPRENSA BRASILEIRA


O balde da imprensa brasileira. Está cheio. De merda. E vou chutá-lo com toda a força que eu puder, porque a coisa está cheirando muito mal.

É tanta a merda desse balde, que é difícil até mesmo achar um ponto por onde começar a chutar no ventilador toda a sujeira que há nesse balde.

Mas, vamos lá.

Leio no Estadão, manchete de primeira página, hoje, 17 de julho de 2010: “Gasto do Planalto em 2010 com publicidade supera o limite legal”. Muito bem: leio a reportagem, cheia de gráficos e comentários e análises, que concluem que o Governo Federal gastou 13% a mais do que deveria ter gastado, com publicidade e comunicação. Só não ficamos sabendo que publicidade foi, porque entram nesta conta, campanhas institucionais e absolutamente necessárias, como vacinação, dengue etc. Aí, para mostrar que eles, os repórteres do Estadão, são isentos e maravilhosos e que não têm nenhuma segunda intenção, embaixo, sem nenhum destaque, outra matéria me informa que: “Governo de São Paulo aumenta gastos em em 26,8%”. O título não diz que esse aumento – o dobro do aumento do Governo Federal – foi com publicidade, coisa que só ficamos sabendo, se lemos a reportagem!

Dois pesos, duas medidas. Claro! Preciso comentar?

No mesmo jornal, o presidente da SIP – Sociedade Interamericana de Imprensa – ganha destaque porque disse que Lula não é democrata. Quem conhece o presidente da SIP? Quem é o presidente da SIP? Que credenciais tem esse merdinha – funcionário de um jornaleco estadunidense – para, como presidente dessa organização pelega, dizer quem é e quem e não é democrata na América Latina, atacando não só o presidente do Brasil, mas todos os demais presidentes que não rezam pela cartilha de Washington, como Cristinha Kirchner, Hugo Chávez, Evo Morales, Daniel Ortega, Porfirio Lobo, ou seja, todos eleitos democraticamente?

Prossegue o balde cheio de merda do Estadão (só vou falar do Estadão, porque seria demais para meu estômago comentar a Folha, o Globo e que tais): tudo o que possa ser, de forma sutil, contra o Lula ganha título de matéria:

“Lula ataca procuradora no comício de Dilma” – quem é essa “procuradora”? E vejam a sutileza do verbo “ataca”, como se o Presidente fosse uma fera enjaulada ou um animal que precisasse ser “domado”, que sai por aí “atacando” a tudo e a todos. Ah, e tem que ser no “comício da Dilma”, para deixar bem claro o objeto do desdém, da maledicência sutil;

“Lula acusa governo de SP de travar obra federal” – novamente o termo forte “acusa” e, claro, ao lado, em letras em negrito, a “defesa” do governo paulista, acusando o Ibama, ou seja, a matéria tem todo um viés habilmente tendencioso, que a torna impossível de ser declarada claramente tendenciosa e sacana;

“Lula e FHC são mais parecidos do que parece” – e o título, no alto da página, vem entre parênteses, como se os parênteses justificassem o “não temos nada com isso, foi o Serra quem disse”, ou seja, tudo o que o Serra diz contra o governo, por maior bobagem que seja, como esta, ganha manchete no alto da página!

E eles ainda posam de isentos, de jornalismo sério, como se a gente fosse idiota e não percebesse o jogo sujo por trás de cada reportagem, de cada comentário. Para eles – e aí está incluída praticamente quase toda a imprensa brasileira, o famoso PIG (Partido da Imprensa Golpista) – o candidato Serra tem que ganhar a qualquer custo. Eles não percebem que, assim como a Rede Globo manipulou o seu noticiário na famigerada eleição daquele facínora chamado Collor, eles agora também manipulam, mentem, escamoteiam informações, deformam até mesmo a lógica, para encher a bola do seu candidato.

É, sim, um balde cheio de merda que a tal imprensa livre brasileira derrama sobre nossas cabeças todos os dias, todos os momentos! Tornam-se órgãos oficiais – declarados, como aquela revistinha safada chamada Veja – ou disfarçados, como a maioria covarde que se esconde nas redações de quase todos os jornais, de um partido da direita que mantenha os seus privilégios e os privilégios das classes que eles defendem, ignorando a opinião de mais de oitenta por cento da população brasileira, que apoia o Governo que os tirou da miséria em que esse mesmo partido apoiado por esse bando de idiotas que se dizem jornalistas os manteve durante quinhentos anos!

Por isso, chuto, sim, esse balde cheio de merda! Chuto para bem longe, para que toda essa merda derrame na cabeça dessa gente que só tem merda na cabeça e que não se incomodará com mais um balde cheio dela!

junho 03, 2010

POR QUE NÃO VOTO NO SERRA


Não fosse apenas por coerência política – sempre votei nos candidatos do PT, na legenda do PT, mesmo não sendo exatamente um petista, porque nunca me filiei ao partido, nunca fui a um comício do partido, nunca participei da vida partidária – teria razões de sobra para não votar no ex-governador paulista, senhor José Serra.

E não é porque não simpatizo com sua figura pouco carismática, com seu jeito de fazer política. Até mesmo respeito sua história, seu “esquerdismo” do passado, sua luta contra a ditadura. Há outras razões, mais profundas, ligadas à minha própria experiência de vida e também ligadas à minha ideia de política, no sentido mais amplo do termo.

Razões políticas. Digo e repito: o PSDB, embora surgido de uma dissidência do PMDB, uma dissidência elitista em termos intelectuais, o que lhe traz algum desabono, a despeito de toda a mídia paulista, deveria ser um partido à direita do PT, mas à esquerda, bem à esquerda de toda aquela canalha que governara o País durante a ditadura. Aqueles que representaram sempre a direita mais tradicional, mais raivosa e assassina, aqueles que defenderam os milicos que prenderam, torturaram e fizeram desaparecer centenas de brasileiros que ousaram contrariar suas ordens ou, simplesmente, emitiram qualquer tipo de opinião contrária àquela gente de farda que se dizia representante do Exército brasileiro, mas que era apenas sua facção mais estúpida e sanguinária. No entanto, o PSDB aliou-se, sem nenhum pudor, à ARENA, ou melhor, aos herdeiros da ARENA, hoje reunidos sob a ridícula e inapropriada sigla DEM, como se o fato de se chamarem de democratas enganaria (e até tem enganado a alguns) aos trouxas que os considerariam realmente democratas (deveria haver uma lei impedindo que o termo democracia fosse assim tão achincalhado). Que fizessem alianças com qualquer outro partido – mesmo com os mais fisiológicos –, menos com essa direita que come pelas bordas e sempre soube impor aos governos tucanos um viés liberal de triste memória, com programas privatistas que diminuíram o poder do Estado e não resolveram o problema de distribuição de renda, porque sua economia é voltada para o mercado do mais forte e a favor do capital internacional sabidamente predador.

Razões mais do que pessoais. Primeira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o cacique-mor da tucanada, o homem que, mesmo longe do poder, ainda deseja dar as cartas e o consegue, com a arrogância que caracteriza seu caráter. Como presidente, FHC governou o País durante apenas dois anos e nesses dois anos, sua obra mais meritória foi a compra da reeleição, mesmo enterrando a economia brasileira, mesmo quebrando o Brasil e colocando-o de joelhos frente ao capital internacional, com a venda de estatais e com a subserviência ao FMI. Nos seis anos seguintes, para tentar consertar as bobagens dos dois primeiros anos, manteve o País na pior recessão que se podia desejar, com o empobrecimento e quase desaparecimento das classes médias e sua inserção nas fronteiras da miserabilidade. Para os miseráveis, então, a condenação a uma situação sem saída, com o desemprego chegando às raias do loucura.

E com o desemprego, chego à segunda de minhas razões pessoais: meus filhos. Entravam eles exatamente neste período na idade de começar a trabalhar. Mas, onde achar empregos decentes, onde os caminhos para a realização pessoal que eu, mesmo vivendo no período mais negro da ditadura, encontrei nos anos sessenta e setenta? Nem a estupidez econômica dos milicos conseguiram impor ao País tal situação de desespero. Porque, sem uma economia saudável, não há empregos e sem empregos, não há futuro. FHC foi o nosso mais bem acabado “exterminador do futuro”. Acho que não preciso dizer mais nada sobre o desespero de um pai – e eu sou apenas um entre os milhões de desesperados – que vê seus filhos sem perspectiva de vida.

E o José Serra com isso? Bem, nada indica, nas ideias expressas pelo ex-governador, que ele seja diferente de tudo isso que eu disse acima, pois seu partido continua pregando as mesmas políticas da desastrada era FHC, e suas alianças continuam fundadas nos mesmos pilares podres do DEM, essa excrescência de políticos e empresários nazifascistas que insiste em permanecer em nossa política, agora devidamente travestidos de democratas – os lobos na pele de cordeiro, para usar a gasta metáfora.

Por isso, não posso, não devo e não vou, de forma alguma, nem que seja ele o último político sobre a face da Terra, votar em José Serra para presidente. E ficarei muito, muitíssimo insatisfeito, depressivo mesmo, se ele ganhar as eleições, para inaugurar mais uma era de políticas liberais e entreguistas nesse País. E, quiçá, com mais desemprego e mais miséria.

maio 08, 2010

AS ESTRATÉGIAS MAIS DO QUE GOLPISTAS DO PIG


Vou buscar no futebol um exemplo claro do que eu quero dizer. Santos e Santo André fizeram as finais do Campeonato Paulista. Santos era considerado pela mídia e pelos entendidos o grande favorito. Mas, bastava ter visto os últimos jogos do Santo André para chegar à conclusão de que não era bem assim a história: com um time muito bem armado e também jogando ofensivamente, não seria apenas um sparring, mas um adversário de respeito, de muito respeito. No segundo jogo, no entanto, quis ganhar o jogo no grito, na intimidação, quando tinha time para ganhar na bola, como de fato venceu, embora o placar precisasse ser maior. Ganhou, mas não levou.

O mesmo acontece mais ou menos com o PIG – o Partido da Imprensa Golpista. Defendem com unhas e dentes o seu candidato, o ex-governador José Serra. Até aí, todos sabemos que as viúvas das derrotas anteriores do PSDB sairiam agora à toda para tentar ganhar no grito, na intimidação, usando de todas as formas possíveis de artimanhas para defenestrar o governo Lula e seus apoiadores.

O que eles não percebem é que têm, sim, oportunidade de ganhar as eleições. Sem precisar usar de tais artimanhas, de tanta (perdoem-me o vocábulo chulo) sacanagem.

Explico-me. Nunca gostei e continuo não gostando de certos partidos que constituem a tal base aliada do Governo. E, principalmente, sempre abominei e continuo abominando certas figuras que hoje fazem parte dessa base.

Refiro-me, no momento, entre outros, ao senador Tuma e seu filho. Foi esse senhor uma criação do PIG, aqui em São Paulo, em termos políticos. Era o queridinho da mídia, na disputa ao senado e, de fato, foi eleito. Prestigiado pela direita, adorado pelo PIG, o senhor Tuma, no entanto, por circunstâncias político-partidárias que não vou analisar agora, acabou nos braços do governo. E seu filho ganhou um cargo na administração federal. Coisas dessa nossa democracia maluca, que não permite que o vencedor governe sem fazer alianças, às vezes espúrias, às vezes claramente necessárias à governabilidade do País.

Muito bem. A família Tuma nunca foi e nunca será flor que se cheire, em termos ideológicos. E agora, também em termos éticos. O filhinho secretário de justiça foi surpreendido por manter ligações suspeitíssimas com um conhecido (e devidamente engaiolado) cidadão de origem chinesa, useiro e vezeiro em importar bugigangas eletrônicas por baixo do pano. Ou seja, um claro contrabandista.

Ora, nessa nossa hipócrita sociedade, em que todos sabemos que jogos de influências mudam o rumo de investigações, inocentam bandidos e aliviam todo tipo de falcatruas, nada nos diz que o Tuma júnior seja inocente. E se for realmente culpado, que a justiça se faça e ele pague por seus delitos. E mais: isso deve, sim, ser noticiado, informado e todos os cidadãos temos direito de saber exatamente o que acontece.

Mas... e aí é que está o busílis da questão: o senhor Tuma júnior só tem o nome do pai e não o seu prestígio. Como político e protegido, é só mais um, na imensa malha da administração pública. As notícias de suas façanhas policialescas merecem, no máximo, meia página interna de jornal, já que não tem nem prestígio nem a força corruptora de um Arruda, por exemplo.

No entanto, o PIG – principalmente o de São Paulo, representado pelo Estadão – tem trazido todos os dias manchetes e mais manchetes de primeira página (deixando, inclusive, em segundo plano, a crise na Europa, o derramamento de óleo no Golfo do México e outras notícias muito mais importantes) sobre o tal Tuma júnior e suas relações perigosas.

O que isso quer dizer? O óbvio, na minha opinião: retaliação, vingança, de um lado, por ter a família Tuma embarcado no governo Lula e, por outro lado, claro, o motivo maior: é preciso que toda e qualquer denúncia, por mínima que seja, contra o governo federal ganhe ares de grande escândalo, para que o idiota do senador Álvaro Dias venha a público falar sempre a mesma coisa e para que, indiretamente, se fortaleça a candidatura tucana.

É o caso do futebol: podem ganhar limpo, mas preferem o jogo sujo, a intimidação, a mentira deslavada, as denúncias sem fundamento ou a ampliação de pequenos escândalos de funcionários públicos, com o objetivo claro de favorecer seus candidatos preferidos. O Santo André ganhou o jogo, mas não levou o campeonato, mas o PIG, com suas táticas antidemocráticas e nitidamente golpistas pode nem ganhar o jogo.


Porque o povo não é, assim, tão bobo quanto eles pensam.



(Ilustração: foto antiga, s/crédito - le tambour de la comune, pregoeiro das vilas e cidades do século XIX e início do século XX)

abril 24, 2010

O CRISTIANISMO E A PEDOFILIA


Mesmo com todas as denúncias e, até mesmo, uma pequena revolta da chamada opinião pública ou a cobertura indignada de algumas mídias, ainda se está sendo muito condescendente com o papa pedófilo que mora naquele palácio imenso, na Itália, cercado de todas as mordomias possíveis, num lugar chamado Vaticano.

O cristianismo e seu maior representante – a igreja católica apostólica romana – acumularam crimes contra a humanidade desde os tempos de Paulo, o seu verdadeiro fundador. Porque o cristianismo não era nada, antes dele. Apenas uma seita de fanáticos que se vangloriavam de servir de comida aos leões nas arenas romanas, em nome de uma fé absurda em princípios religiosos judaicos, reformulados por um profeta que, segundo se diz, morreu crucificado entre dois ladrões. O cristianismo tomou forma graças a Paulo, de Tarso chamado, um soldado romano convertido e pervertido, pois odiava todas as mulheres.

Daí em diante, a história do cristianismo católico é só uma sucessão de crimes, de genocídios, de guerras, de torturas. Contra todos os que se opuseram aos seus princípios. A famosa inquisição, por incrível que pareça, é olhada hoje como um mero fato histórico, como se todas as barbaridades praticadas pelos sacerdotes católicos contra judeus, contra heréticos de toda espécie e, especialmente, contra as mulheres fossem página virada de um falso folhetim.

Assassinaram mais de cem mil mulheres, durante a famosa inquisição, apenas porque as mulheres eram, primeiro, alvo fácil de sua sanha odiosa contra aquela que é considerada a culpada pela queda do homem e, segundo, porque a violência contra a mulher tem requintes de perversão sexual. Com certeza, muitos padres e bispos deviam se masturbar sob as amplas vestes sacerdotais enquanto assistiam à queima na fogueira das bruxas que eles torturaram sadicamente nos calabouços das igrejas e condenaram à morte, por luxúria, por pacto com o diabo ou por qualquer motivo.

Se Paulo odiava as mulheres, procurou disfarçar esse ódio com a repulsa ao sexo. E a igreja católica romana cresceu e se organizou como uma instituição exclusivamente masculina e, pior, como um ideário de condenação total ao ato sexual como fonte de prazer e como algo da natureza humana. Sexo só para procriação. Ou seja, a seguir a cartilha católica, os praticantes deviam fazer sexo apenas no período fértil da mulher, com a única finalidade de engravidá-la. E mate-se o desejo! E reprimam-se todas as forças naturais da sexualidade humana!

Assim, a mais que imbecil regra de celibato dos sacerdotes católicos, muito além de evitar que divisões testamentárias fragmentassem o patrimônio da igreja, tem por objetivo deixar bem claro a todos a repulsa ao sexo que emana do Vaticano.

No entanto, homens são homens. E têm desejos. E poucos, muito poucos, conseguirão realmente sublimar esse desejo. Fechados em longos anos de internamento em seminários anti-naturais, não é preciso muita imaginação para chegar à conclusão do que ocorre por trás de seus muros, quando os hormônios adolescentes emergem nas longas madrugadas de solidão. E também não é preciso pensar muito para imaginar os confessores, os diretores, os professores, todos padres, a se esbaldarem na carne jovem de seus pupilos.

E o uso do cachimbo faz a boca torta.

Portanto, não é um problema de homossexualismo, possivelmente quase normal entre os sacerdotes católicos, que os leva à pedofilia e ao abuso de jovens leigos em quase todas as paróquias. Porque, até agora, que eu saiba, nenhum padre, nenhum bispo ou cardeal fizeram qualquer denúncia de abuso sexual, durante seus anos de reclusão nos seminários do mundo todo. O abuso de jovens leigos é uma consequência natural de um hábito arraigado, que dificilmente será abolido por qualquer medida que o papa – também ele, com certeza, envolvido na mesma teia – venha a tomar. Suas lágrimas e seus pedidos de perdão são lágrimas de jacaré, são apenas um meio de comover e, mais uma vez, chantagear a opinião pública, sempre pronta a esquecer os crimes que a igreja comete, como já quase se esqueceram da inquisição e do mal que ela fez à humanidade.

Não dá, portanto, para ser condescendente com os pedófilos religiosos – agora, na berlinda, os sacerdotes da igreja católica, mas não se pode deixar de pensar que deus é fiel não apenas aos papistas mas a todas as outras seitas que se dizem cristãs. Que a opinião pública se escandalize e não poupe aqueles que abusam de crianças, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. E que, feito o pedido de perdão, pode ser mais crime a ser esquecido.

O perdão é só mais uma invenção cristã, para fugir ao pagamento da pena, que é relevada ou deixada para ser cumprida nos quintos dos infernos, pelos pecadores mais renitentes, já que os que pedem perdão são sempre perdoados. E vão para o céu.

Assim, não nos iludamos: nada de deixar com deus a obrigação de punir os pedófilos. Queremos, nós mesmos, como sociedade que não admite que crianças sejam abusadas, mandar para a cadeia todos, absolutamente todos, os pedófilos, sejam da igreja católica ou de suas subsidiárias!



(Ilustração: Clovis Trouille - l'enfer de Sade)

abril 04, 2010

O LIXÃO D’O ESTADÃO


Há muitos anos, quando surgiu o JORNAL DA TARDE, da empresa jornalística dos Mesquitas, um amigo meu decretou: é o lixão do Estadão. É onde eles publicam tudo o que não têm coragem de publicar no O ESTADO DE S. PAULO. Um pouco de exagero, claro. Mas...

Agora, os editores do tradicional e autodenominado quatrocentão da “família paulistana de quatrocentos costados”, repaginaram o vetusto jornal, para adaptá-lo aos novos tempos e à ameaça de total obsolescência ante as novas mídias, principalmente a Internet.

Até aí, tudo bem. Sempre se lamenta quando um órgão tradicional da velha imprensa se vê obrigado a encerrar suas atividades. Torço para que as cassandras do fim do jornalismo impresso estejam erradas e que, assim como o rádio sobreviveu à televisão, o jornalão também sobreviva a esses tempos eletrônicos.

Porém, ah, porém, como quase abertamente declarado participante do PIG – o PARTIDO DA IMPRENSA GOLPISTA (aquela que é contra o atual governo constitucional do País e desejou desde o primeiro dia a deposição do Lula) – hoje, 4 de abril de 2010, o ESTADÃO brinda seus leitores com o lixo do lixo da imprensa golpista: uma foto de página inteira do caderno “Aliás” do ex-presidente FHC, além de uma longa entrevista com o dito cujo, como se fosse ele o ideólogo-mor, o grande filósofo, o avatar das grande política brasileira.

Têm os Mesquitas o direito de publicar o que quiserem. Só não me neguem o direito de chamá-los de idiotas do conservadorismo, de golpistas e ressuscitadores de velhas ideias e mais velhos ainda ideais.

FHC está morto, enterrado!

Deixem-no em paz em seu túmulo. Que ele já fez mal demais a esse País, com seu governo – ou seria desgoverno – de oito anos de atraso, de roubalheira não investigada, de venda do patrimônio público, de demolição do Estado, de desemprego desenfreado – que o coloca entre os piores presidentes que o Brasil já teve em todos os tempos, incluindo aí até mesmo o período ou os períodos de ditadura. Porque – o que mais grave – estávamos numa época de liberdade e democracia, e mesmo assim o senhor FHC, com a conivência dessa mesma imprensa que ainda o endeusa, teve uma administração de total calamidade para o povo brasileiro, atrasando em oito anos o desenvolvimento sustentável desse País.

Mesmo que digam o contrário, não há nada mais diferente do que a administração Lula do governo desse senhor. Se os princípios macroeconômicos são os mesmos, é porque são princípios que, contrariados, dão no que já tivemos a oportunidade de ver durante as péssimas administrações do Sarney e do Collor, com seus planos mirabolantes de tentativa de contenção da inflação.

Lula conduziu e ainda está conduzindo o País para um estado de excelência que nunca antes na história desse povo se obteve. Lula é o primeiro grande passo para a emancipação total do Brasil de seu estado de letargia, de pobreza e de complexo de vira-latas em relação aos países desenvolvidos, principalmente com o desalinhamento de sua política externa – tanto diplomática quanto econômica – do “grande irmão” do Norte que, de irmão, nunca teve nada, a não ser o interesse de manter sob sua batuta os países da América do Sul, aos quais sempre olhou com desdém.

Então, senhores editores de O Estado de S. Paulo, poupem minhas diatribes: deixem em paz o morto, que ressuscitá-lo, como os senhores teimam em fazer, a cada edição vergonhosa como esta, só presta mesmo para atiçar os ânimos da tucanada invejosa e animar ainda mais os neoliberais de plantão, dispostos a tomar de novo o poder, sob as vistas mais do que grossas do PIG!

abril 01, 2010

O PAPA E A PEDOFILIA


A noção precisa de que a criança é um ser em formação e, portanto, especial, que depende de uma série de cuidados para se tornar um ser humano íntegro e integral, é muito recente. Talvez coisa de depois de Freud ou dos estudos mais avançados de educação, psicologia, sociologia etc.

A noção primitiva da criança era de um adulto pequeno e que podia, portanto, ser tratada como tal. Assim, justificavam-se todas as perversões e todos os maus tratos praticados contra elas, as crianças, desde o comércio escravo até o seu uso como grumetes nos navios que percorriam os mares. E grumete, na maioria dos casos, era só um eufemismo para a prática da pedofilia pelos marinheiros que ficavam muito tempo em alto mar.

Desde Grécia e Roma, adolescentes eram devidamente educados para práticas homoeróticas de seus amos ou de seus preceptores. Não há nada de novo, portanto, na recente onda de denúncia de pedofilia por parte da Igreja Católica Romana.

O que assusta, na verdade, é hipocrisia do prelado católico no trato da questão. Eles sempre souberam e praticaram a pedofilia e o homossexualismo. Essa era a regra. E são poucas a s exceções.

Nos confinamentos dos seminários, é impossível que um grupo de jovens na idade do afloramento de todos os hormônios consiga impedir o livre curso da natureza com rezas e admoestações. Principalmente porque todo pecado, se confessado, termina com o perdão, depois da devida penitência. Então, entre si, nada incomum que seminaristas jovens se dedicassem ou à masturbação ou a práticas sexuais mais avançadas. Nada demais até aí.

A coisa começa a complicar quando os preceptores adultos entram em cena, para abusar desses jovens, quando eles declaram seus “pecados” no segredo da confissão. Muito fácil, para esses pedófilos – e aí, não se pode dar outro nome: criminosos e tarados – se aproveitarem da situação para o abuso. Se todos ou quase todos praticam, o mais certo é que todos tenham conhecimento dos fatos. Impossível ignorá-los.


Portanto, não se pode tratar a pedofilia eclesiástica como exceção. O papa foi seminarista e ascendeu a todas as posições da igreja. Dizer que ignora o que acontecia e acontece sob os cobertores dos seminários e dos conventos é, simplesmente, hipocrisia. Ou então ele é burro demais para não ter percebido o que se passava sob seu nariz.

Solução? Não há, pelo menos não no curto prazo. Porque a extirpação de práticas sociais arraigadas – neste caso, a pedofilia – demanda tempo e conscientização. Mesmo que a igreja decretasse o fim desse absurdo que é o celibato clerical, isso não seria ainda garantia de que a pedofilia seria nesse mesmo momento totalmente extirpada. Porque há ainda uma outra prática absurda - o confinamento de adolescentes por longos períodos em seminários, colégios internos e conventos – a favorecer todo tipo de práticas que, embora condenadas em público, são impossíveis de serem impedidas no particular.

Além disso, precisaria a igreja católica e todas as demais religiões deixarem de demonizar o sexo. E isso é, sim, um dos conceitos mais arraigados nessas instituições e, por isso, de mais difícil extirpação. Porque vem de tradição muito mais antiga, decorrente dos mitos de criação e de formas de dominação de grandes grupos por parte dos líderes, ou seja, ao criar o medo do inferno pela prática do sexo fora do consentimento desses líderes, torna-se muito mais fácil controlar o rebanho e dele obter as benesses que estão acostumados a receber, como poder, dinheiro, condição social e outras coisas mais.

Conclusão: o papa, a igreja e todas as demais religiões têm culpa, sim, no cartório, com relação ao crime de pedofilia. E esse crime só poderá ser amenizado e extirpado quando se conscientizarem de que sexo é uma força da natureza, fonte tanto de prazer quanto de continuidade da raça humana e não tem nada de pecaminoso ou demoníaco.


E isso vai levar tempo...





(Ilustração: papa bento xvi - desenho de Bapstitão, segundo meu amigo Toni d'Agostinho, a quem agradeço)

março 17, 2010

NÃO CHORAREI EM TEU VELÓRIO, FERNANDO HENRIQUE


Quando morreste – e sei que morrerás – não chorei em teu velório nem chorarei lágrimas de crocodilo, Fernando Henrique Cardoso.

Manterei a fleuma que tu, quando tentavas nos governar, mantinhas diante de descalabros, de compras de votos, de vendas assustadoras do patrimônio que nós, eu inclusive, claro, mantivemos por tanto tempo.

Não posso negar-te, no entanto, Fernando Henrique Cardoso, a confissão de alguns pecadilhos que cometi em relação àquilo que prometias ser. Não, não te assustes, em tua urna a haver, senhor: não votei em ti. Nunca.

Mas, quando assumiste o Governo, senti por dentro, sim, humilde me confesso, senti por dentro um pouco de orgulho do que eras, do que representavas. Afinal, um homem declaradamente de esquerda, culto, intelectual, viajado, fluente em várias línguas, professor emérito, ex-exilado político, risonho, franco, assumia a cadeira presidencial.

Mesmo que pensasse no sapo barbudo, no metalúrgico tosco e quase analfabeto em quem votara, deixei por algum tempo a viuvez e outros sentimentos menos nobres, para olhar com um olho otimista tua ascensão, tua posse, teus primeiros tempos de governo.

Afinal, pensei: ele tem tudo para dar certo. Mesmo que a sombra do metalúrgico me assombrasse, dei-te meu voto de confiança.

Ah, dias de dúvida! Ah, esperanças desfolhadas! Ah, tempos inúteis!

Tu, Fernando Henrique Cardoso, tiveste olhos para a Nação por exatos dois anos. E então, a mosca azul da soberba picou-te inexoravelmente.

Vendeste teu passado, vendeste tua capacidade, vendeste teus sonhos e, com isso, vendeste todos os meus ainda incipientes anelos, que não era teu correligionário (se o fosse, choraria ainda mais!), para comprar por míseros vales e linhas telefônicas a tua perpetuidade no poder.

Quiseste ser apolo, quiseste ser hércules, quiseste ser deus, Fernando Henrique Cardoso!

E teus seis anos seguintes de poder se arrastaram para o fundo, levando meus sonhos, levando a Nação, levando o orgulho que tínhamos de ter um intelectual na Presidência. Foram-se as esperanças como no poema de Vicente de Carvalho – A Flor e a Fonte: “Dizia a flor a chorar / Eu fui nascida no monte / Não me leves, não me leves para o mar”.

Não! Não fomos para o mar, onde podíamos, ainda, tentar navegar. Fomos para o brejo, de chifre e tudo, como a velha vaca.

E só saímos do brejo, Fernando Henrique Cardoso, porque aquele metalúrgico tosco, barbudo, quase analfabeto, sem um dedo na mão, a tua antítese, Fernando Henrique, nos tirou do atoleiro em que tuas práticas políticas e teu desgoverno nos colocaram.

Por isso, senhor, se ainda te guardo algum respeito, é o respeito que temos pelos mortos, ou por aqueles que ainda não morreram, mas que deviam agir como tal. Enquanto estiveres quedo e belo em tua tumba, pensarei em ti como aquele que podia ter sido mas não foi.

Entretanto, Fernando Henrique Cardoso, se te moves em tua campa, se lá das trevas de onde nenhum mortal voltou (tu reconheces aí uma pontinha de Shakespeare, não é? – coisa que o metalúrgico nem sonha, não é?) ainda tentas comunicar a outros natimortos tuas decepções e frustrações, ah!, não, senhor, não posso pensar em outra coisa senão em jogar-te em cima uma bela porção de água-benta e fincar-te no peito a velha estaca de matar vampiro!

Então, por isso, Fernando Henrique, não choro agora por ti, em teu futuro jazigo, que estás há muito morto, desde aquele início do segundo ano do teu mandato, quando te transformaste no chupa-sangue de nosso povo, em prol de uma imortalidade que, infelizmente, senhor, tu alcançaste apenas pelo cargo que ocupaste, não pela obra que deixaste.

Não, não chorarei por ti, desde há muito tempo, agora e nunca.



(Ilustração: Caravaggio - Narciso)

março 15, 2010

POLITICAMENTE CORRETO: QUE SACO!


Quando eu era professor, há muitos anos, num colégio de Belo Horizonte, deparei com um caso simples e ilustrativo de uma certa paranoia que anda por aí. Reparei que um dos meus aluninhos da quinta série decorava seus cadernos com desenhos de armas. Imbuído do politicamente correto, preocupei-me. Pensei: vou informar à direção do colégio. Que chamem psicólogos, educadores, sei lá, gente especializada para tratar do moleque! Que pode estar revelando uma personalidade psicótica...

Antes, porém, resolvi abordá-lo. “Por que esses desenhos”? E o moleque, na maior tranquilidade, explicou-me: “Meu pai é um colecionador de armas e eu também gosto de armas... “

Desarmado fiquei eu, a ouvir o menino me mostrar, encantado com meu interesse, os diversos tipos de armas que seu pai tinha e ele desenhava, como prova, não de que pudesse se tornar um perigoso assassino, mas de amor filial, de orgulho do pai.

Outra historinha: eu e meus quatro filhos, desde muito pequenos, gostávamos de assistir a filmes de terror. Quanto mais “melecado”, melhor. Divertíamos com os freddy kruger, com as sextas-feiras treze, com as serras elétricas e com muitos outros monstros do cinemão. Depois, eles foram crescendo e descurtindo esse tipo de filme. Ainda damos muita risada,quando nos lembramos deles. E todos os meus quatro filhos são hoje cidadãos e cidadãs que abominam a violência e vivem suas vidas absolutamente normais.

Histórias infantis: todas, absolutamente todas elas contam histórias de arrepiar. Falam de bruxas más que assam criancinhas, de lobos que comem vovozinhas ou destroem a casa dos pobres porquinhos, para comê-los, claro, e muitas, muitas maldades. Fomos criados, eu e muitas gerações antes de mim, ouvindo esses “horrores”.

Nas velhas brincadeiras de rodas, quase todas as canções que cantávamos falavam de morte, de traição, de maldades: nem vou lembrar o cravo e a rosa, atirei o pau no gato etc. etc. etc.

Quando moleque, cansei de matar “índios” e “cowboys” inimigos, em lutas que duravam horas, pelas ruas, pelas praças, inspirados pelos gibis que tinham por heróis pistoleiros sanguinários como Rock Lane, Flecha Ligeira e tantos outros. Nem Pato Donald e os demais personagens da Disney escapam de malvadezas ou de histórias bastante violentas. Também não preciso lembrar os super-heróis e seus arquiinimigos, os simpáticos vilões que infernizam suas vidas, tentando ou conquistar ou destruir o planeta.

Nem por isso, fui ou sou uma pessoa violenta. Muito pelo contrário: abomino armas e exércitos e guerras e militares e terroristas em geral e não acredito que o homem supere a barbárie enquanto cultivar a violência. Aliás, a maioria absoluta das pessoas não é adepta da violência, principalmente por conta de leituras da infância, de cantigas de rodas ou de contos da carochinha de nossos avós.

Então, leio que “pedagogos” e “tias” das atuais crianças estão mudando as histórias clássicas, para torná-las “politicamente corretas”, ou seja, em vez de o lobo comer a vovozinha... o que mesmo ele vai fazer? Ou mudando a famosa canção para uma bobagem como “não atire o pau no gato”!

Ora, ora, ora: deixem as crianças “atirar o pau no gato” e morrer de medo do lobo mau que come a vovozinha e quer fazer churrasquinho da Chapeuzinho Vermelho, porque isso é da natureza dos lobos de histórias infantis. São peças catárticas, que criam no imaginário da criança não exatamente a vontade de serem violentas, mas a repulsa aos atos violentos. Ninguém, absolutamente ninguém, até hoje, se tornou assassino em série porque leu um livro violento ou assistiu a um filme de terror. Não há absolutamente nenhuma prova de que literatura, gibis, cinema ou qualquer outra forma de arte possam contaminar mentes e torná-las perigosas para a sociedade. Porque a criança distingue de alguma forma o que é ficção e o que é realidade, a partir de um determinado momento.

As mentes psicopatas serão psicopatas mesmo que criadas num convento, mesmo que nunca tenham lido ou ouvido falar de guerras e morticínios. Não são, absolutamente, influenciadas pela ficção. Podem, sim, ser influenciadas pela realidade, pelo convívio com pessoas violentas, pelo exemplo de pais, amigos ou pelo ambiente em que vivem, se tiverem já o instinto para aquilo que denominamos “o mal”.

Porque é da natureza humana haver pessoas “boas” e pessoas “más” – caberá ao educador, sejam pais ou mestres, cuidar para que essas pessoas se tornem melhores, claro, mas não podem impedir que aquele garotinho ou aquela garotinha tão sensíveis e delicados se tornem, de repente, o pior dos pesadelos de uma sociedade.

O mundo, a vida, a convivência em sociedade não são passíveis de serem colocados em bolhas higiênicas, politicamente corretas, como forma de prevenir a violência, a barbárie. Há um longo caminho para que o homem supere tudo isso, mas esse caminho não passa, absolutamente, por conceitos como o “politicamente correto” aplicados dessa forma ingênua ou, mesmo, idiota.

Princípios éticos – que podem ser extraídos até do lobo mau – são muito mais importantes do que ensinar as criancinhas a cantar essa bobagem de “não atire o pau no gato”. E um moleque de quinta série, ao desenhar armas em seu caderno de deveres, pode estar apenas exprimindo orgulho ou amor filial. Sem nenhum outro componente psicótico. Que pode estar em nossas cabeças...

março 06, 2010

A SÍNDROME DE GALILEU



Diz a lenda que, ao sair do tribunal da inquisição católica, que o condenou a abjurar de suas crenças, Galileu Galilei teria dito “eppur si muove” – e, no entanto, ela se move, referindo-se à Terra.

Mesmo assim, passou à história como aquele que renegou suas verdades, para salvar a vida. A “santa” inquisição não perdoava. Numa cena famosa da peça de Bertold Brecht, o genial dramaturgo resume o poder de um papa, quando Urbano é vestido com os trajes papais e, perguntado se deveriam torturar Galileu, responde, ao colocar a mitra, que bastava mostrar-lhe os instrumentos.

Para muitos, em pleno século XXI, num estado democrático como o Brasil, os instrumentos a que foram expostos os nossos galileus não são os da tortura inquisitorial, mas os da possibilidade de conquista social, do dinheiro gordo na conta bancária todo mês, dos tapinhas nas costas de gente que acha que liberdade de imprensa é escrever e dizer o que querem os patrões.

Expliquemos. Li, há pouco, um artigo de Emir Sader (*), sobre a miséria moral dos ex-esquerdistas que viraram a casaca para se tornarem cães de guarda da direita, nas redações da mídia. São, agora, mais realistas que os reis que lhes pagam os salários. Mais inescrupulosos em sua defesa dos “ideais” patronais do que os próprios patrões, bem mais pragmáticos do que eles.

Diz o articulista que “a redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente”.

Têm esses ex-esquerdistas a síndrome de Galileu, sem nem uma réstia sequer de sua grandeza. São pobres diabos que não teriam coragem nem de dizer, em prol de um resto de dignidade que por acaso ainda tivessem lá no fundo de suas consciências compradas com os instrumentos da cooptação mais vil – o dinheiro – um mal balbuciante “eppur si muove”.

São, agora, pagos para mentir, para trapacear, para defender com unhas e dentes a “liberdade de imprensa” dos que sugam sua capacidade, para jogá-los depois no lixo da história, já que sabem muito bem que quem trai uma vez trairá sempre.

Dois dias atrás, ouvi de uma notória comentarista da CBN, que o presidente Lua iria se licenciar do cargo, para se engajar na candidatura da ministra Dilma. No seu delírio voltado a plantar na mente dos ouvintes essa notícia estapafúrdia – desmentida logo depois pelo próprio presidente – ela chegou ao cúmulo de visualizar, na linha sucessória possível, a tomada da presidência, nada mais, nada menos, por José Sarney. Ou seja, puro terrorismo. Que ela não desmentiu, mesmo diante da fala explícita de Lula, ao condenar tal possibilidade.

É assim que funciona a cabeça dessa gente.

E não é preciso dizer mais do já disse o Emir Sader. Só é preciso que busquemos o antídoto contra o veneno que escorre de suas mentes – às vezes brilhantes – mas corrompidas pelo poder, pelo dinheiro, pelo prestígio.

Esse antídoto é a democracia. O voto popular. Esse mesmo voto que está jogando no ostracismo, pouco a pouco, os que sempre mandaram neste País e nada fizeram pelo povo. Os que guardam em suas gavetas de mogno, em seus escritórios luxuosos, o velho chicotinho que brandiram e vêm brandindo desde que aqui aportaram com Cabral. Chicotinho que tão bem souberam usar nos tempos da ditadura militar.

E saibam todos que “chicotinho”, aqui, é só um eufemismo para coisas muito piores de que o povo já anda cheio há muito tempo, pois sabe muito bem esse povo que, enquanto a Terra se move, é pra frente que se anda.

(*)http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=424

fevereiro 18, 2010

“MENSALÃO” DO DEM? ISSO É BOBAGEM!


Um idiota – que tem nome, RG, e foi deputado e presidente do PTB – inventou, orientado por uma bem orquestrada turma golpista (e todo mundo sabe quem é ele e quem são os golpistas!) – o nome “mensalão”, para designar o caixa 2 do PT.

Sim, caixa dois. E do PT. Coisa, aliás, que só não fazem os partidos que nem caixa têm. Prática mais do que comum. Crime? Contravenção, talvez. Punível? A Justiça Eleitoral que investigue e puna, como sempre o fez.

No entanto, o tal “mensalão” golpista, por ser um nome forte na mídia, por ela foi adotado como cortina de fumaça para encobrir a verdade – que teve CPI transmitida ao vivo por redes de televisão e resultou numa das mais terríveis campanhas contra um governo democrático da história desse País. Só comparável – e perdendo por muitas cabeças – à campanha que levou Getúlio ao suicídio.

O azar do PIG – o Partido da Imprensa Golpista – e de seus idealizadores (de alta plumagem) foi que, primeiro, Lula não é Getúlio; segundo, Lula tinha e tem o respeito e o apoio do povo; terceiro, os meios alternativos de comunicação conseguiram, com muito esforço, anular parte da tramoia que tinha por objetivo derrubar o Presidente.

Sim, derrubar o Presidente. Porque o PIG e seus seguidores não podiam admitir um governo que governasse para o povo, apesar de todas as dificuldades. Porque o PIG e seus cupinchas não podiam admitir que um operário consertasse o País e o levasse a índices de desenvolvimento jamais igualados. Porque o PIG e a cambada que sempre governou esse País não podiam admitir que Lula conseguisse desfazer o nó de atraso e desemprego deixado pelo “príncipe dos mendigos”, o senhor Fernando Henrique Cardoso, em seus oito anos de governo.

Agora, o PIG, sutilmente, ataca de novo, mesmo quando a encrenca ocorreu no galinheiro deles – do DEM e seus “paladinos da honestidade” aliados ferrenhos da alta tucanagem mais atrasada. Não é, como nunca foi, nenhum mensalão o que ocorreu – e está ocorrendo – no Distrito Federal. Arruda está enfiado até o pescoço em corrupção (não em pagamento de parlamentares por apoio, coisa que só houve na imaginação marqueteira e podre do inventor desse nome) e recebimento de propina resultante de dinheiro público envolvido em grossas negociatas de concorrências com cartas marcadas, com empreiteiros e empresários corruptos e corruptores.

No entanto, a mídia do PIG só fala em “mensalão”, para que a população não esqueça o termo original, com todas as implicações que ele contém de lembranças de um tempo em que eles, os golpistas, tentaram atingir de todas as formas o Presidente e seu governo.

Sacanagem assim ninguém merece!


(Ilustração: caricatura de Toni d'Agostinho)

fevereiro 10, 2010

IRÃ: A BOLA DA VEZ PARA MAIS UM MAR DE SANGUE?


Claro que prefiro os erros do presidente Barack Obama aos acertos da direita republicana representada, até então, por Bush e seus seguidores. Mas, tudo tem limite. Ou melhor, há sempre um lado ruim do lado bom.

Obama, como presidente, tem de enfrentar desafios titânicos, para consertar as bobagens feitas nos últimos oito anos. E para isso, com certeza precisa de coragem, de decisões difíceis e medidas complexas, o que leva tempo. Uma besteira destrói uma economia em poucos dias. Já para consertá-la, podem ser anos de trabalho duro. E o presidente está enfrentando com valentia a crise.

O lado ruim da presidência Obama: sua política externa.

Não adianta: a política estadunidense – entre quem quer que seja – para o resto do mundo é sempre a mesma. Primeiro, o cacete. Depois, talvez, quem sabe, a tentativa de diálogo.

Foi assim, sempre. Nem o Vietnã serviu de lição.

Agora, a bola da vez é o Irã. Está certo: um país dominado por uma elite clerical de aiatolás afundados em dilemas absurdos do Corão e com um presidente que parece nascido da mesma fôrma que outros tantos aventureiros e cretinos, de que a História tem exemplos às pencas, não pode, mesmo, ter a confiança de ninguém.

Mas, uma coisa é o governo de um país. Outra coisa é o seu povo.

E isso, os estadunidenses não distinguem: o governo é mau, puna-se a nação, pau no lombo do povo, sanções e mais sanções!

Quantas vezes, a ONU (e outros organismos internacionais, como a OEA), refém da política externa dos Estados Unidos, não impôs inutilmente sanções de toda ordem, principalmente econômicas, a países que, com ou sem razão, fugiram à cartilha autoritária do governo estadunidense, com grande sofrimento para sua população que, muitas vezes, é mais vítima do que culpada pelas insanidades de seus governantes.

Não adianta impor ao Irã sanções econômicas, por causa da questão atômica. Isso resultará em recrudescimento do ódio ao Ocidente, em imposição de mais sacrifícios ao povo pelo governo dos aiatolás, para a obtenção da bomba atômica, agora tendo uma ótima desculpa para iludir o povo. Com apoio popular, aí sim: a bomba virá, como a salvação do Islã, como a redenção do povo! E mais uma vez teremos carnificina, e mais uma vez teremos guerra, com resultados catastróficos.

Fico pensando: será que a inteligência, a capacidade de dialogar e a competência para resolver conflitos estão ausentes do gene de todos os políticos estadunidenses, como uma falha absoluta de visão do mundo que lhes impede ver além do próprio umbigo?

fevereiro 02, 2010

A ARCA DE NOÉ


Serra-Kassab não têm, claro, culpa do dilúvio que o ano de 2010 trouxe para São Paulo. Hoje, dois de fevereiro, já se contam quase 40 dias que chove todos os dias. E chuvas fortes, ainda que, às vezes, localizadas em pontos específicos da capital.

Mas Serra-Kassab estão enclausurados em paradigmas antigos de governança. Não compreendem que a cidade – e o Estado, o País – precisam de novas formas de governo, de um novo tipo de mentalidade. Que não se resume apenas a obras, mas à visão do ser humano como um todo, em harmonia com a natureza.

Até agora, todos os governantes dessa cidade só a pensaram em termos de obras. Obras que enriquecem empreiteiras e o bolso de políticos envolvidos em sua consecução, através de superfaturamentos e outras maracutaias.

Eu falo da dupla Serra-Kassab porque o primeiro foi o prefeito que abandonou a cidade para se tornar governador e inventou o segundo para nos governar. E o povo – iludido mais uma vez por promessas absurdas – consagrou o etéreo Gilberto por fazer de um projeto de custo quase zero para a Prefeitura – o Cidade Limpa – a vitrina de sua administração. Eliminaram-se todos os outdoors da cidade, diminuiu-se a níveis civilizados o número de propagandas nas ruas... mas, e o resto da cidade? E a limpeza urbana? E a saúde pública? E o planejamento?

E a dupla Serra-Kassab vai mais longe: o primeiro, como governador, lança-se numa obra de mais de um bilhão para ampliar as pistas da Marginal do Rio Tietê, uma obra que lança mais asfalto na já impermeabilizada margem do rio que gastou, há pouco, mais de outro bilhão para ter sua calha aumentada (obra de outro tucano ilustre – o picolé de chuchu, Alkimin) e, no entanto, continua a transbordar. E o segundo, como Prefeito, só pensa em fazer piscinões, mas não os mantém limpos e eles até passam a contribuir para mais enchentes.

Enfim, os paulistanos vão-se acostumando com o caos nosso de todos os dias, de todas as tardes, enquanto a dupla Serra-Kassab articula a candidatura do primeiro à presidência, já que ele só pensa nisso, sonhando em berço esplêndido, lá no alto do Morumbi, na arca de Noé em que se transformou o Palácio dos Bandeirantes que eu, em outra crônica, ao constatar que nenhum de seus ocupantes já chegou à presidência, denominei de túmulo de presidenciáveis.



(Ilustração: Palácio dos Bandeirantes, foto da internet, sem crédito)

janeiro 20, 2010

REPENSANDO SÃO PAULO, NO MÊS DE SEU ANIVERSÁRIO


A urbanização é um fenômeno recente da história do homem. E as metrópoles são ainda mais recentes. Coisa do século XX, praticamente, quando se consolidam e realmente começam a se expandir as grandes cidades, com populações na casa dos milhões. E já se fala em megalópoles, grandes manchas populacionais urbanas que se estendem por quilômetros e quilômetros, unindo, por exemplo, Rio de Janeiro e São Paulo.

Essa experiência humana precisa, no entanto, ser repensada. Está certo que o homem é um ser sociável, gregário, mas tudo tem um limite. Não acredito que milhões de seres humanos convivendo num único espaço urbano seja o mais saudável.

Veja-se a cidade de São Paulo, por exemplo.

Está certo que o seu crescimento desordenado, por falta de políticas corretas de urbanização e de planejamento adequado, tem levado a seu esgotamento. Para isso, contribuíram administrações sem visão, ou com visão de engenharia, de obras, como se somente obras pudessem resolver os problemas decorrentes de seu rápido crescimento. Nenhuma administração dos últimos cinquenta ou sessenta anos de São Paulo está isenta de culpa pelos problemas que hoje se enfrentam, como poluição, enchentes, falta de transporte e de moradias, favelização etc. E o atual prefeito segue a mesma cartilha e a mesma lengalenga de sempre: quando o rio sobe, pensa em piscinões; quando a população reclama de atendimento médico, pensa em construir hospitais e assim segue o modelo que enche os bolsos das empreiteiras e esvazia a paciência dos paulistanos.

E a cidade, ou melhor, seus moradores continuam sofrendo os mesmos dramas, reclamando as mesmas atenções, pedindo as mesmas coisas de sempre: melhor condição de vida, mais transportes, mais asfalto, mais isso ou aquilo, também equivocadamente, por não saber direito o que pode realmente melhorar a convivência de onze milhões de pessoas com um ecossistema degradado exatamente por essas onze milhões de pessoas.

Uma pesquisa do Ibope, encomendada pelo Movimento Nossa São Paulo, revela que 57% dos entrevistados gostariam de sair de São Paulo, se pudessem. Ou seja, a cidade virou uma arapuca: é ruim morar nela, mas é pior sair dela.

E exatamente nessa intenção – sair de São Paulo – está a solução para os imensos problemas da grande metrópole. A cidade não só precisa parar de crescer, mas precisa diminuir!

Exatamente isto: diminuir!

Não exatamente expulsar seus moradores, muitos dos quais para aqui vieram por falta de outras possibilidades, por não encontrar alternativas para sua mais do que justa necessidade de melhoria de vida. E realmente, às vezes é melhor morar numa favela de São Paulo (com todos os problemas que isso implica) do que continuar no seu lugar de origem, onde o futuro é palavra desconhecida. Pelo menos, na favela, há uma tênue esperança de melhoria de vida.

E os mais desesperados ou desesperançados constroem seus barracos em qualquer lugar, e isso implica, por ignorância dessa população, interesses escusos de grileiros e aproveitadores e leniência do poder público, construir em margens inundáveis de rios, riachos e ribeirões, ou em encostas altamente perigosas em tempos de chuva, ou, ainda, às margens de represas de abastecimento de água, lugares que deviam ser preservados como reservas e razão de sobrevivência da própria cidade. Degradam-se a si mesmos, ao ambiente e à cidade que os recebe e não tem política e polícia para impedir que continuem sendo enganados e espoliados em seus direitos fundamentais de moradia decente, de infraestrutura e de condições de vida.

Enquanto isso, os governos do Estado e do Município se unem para mais obras: mais asfalto, mais pistas para automóveis, mais piscinões, mais canalizações de veios d’água, ou seja, mais obras.

Apesar de cara, controversa, mal planejada e mal executada, a única obra atualmente em andamento em São Paulo que vai realmente beneficiar a cidade é o chamado rodoanel, estrada ou via que irá impedir que milhares de caminhões passem por ela, principalmente os que vão em direção ao porto de Santos.

Qual a saída? Políticas de curto, médio e longo prazos que levem à diminuição populacional da cidade, que está exaurida em seus recursos naturais.

Em vez de o Governo do Estado investir em obras em São Paulo, pode começar essa política simplesmente mudando a sede do Governo para o interior. Além de levar uma boa parte da burocracia estadual que aqui vive, ainda vai sinalizar para os migrantes, com a mudança de lugar do poder, que já há outros polos de atração. Só não se pode repetir na nova sede os mesmos erros cometidos aqui, claro. Mas isso já é outra história...

Criar polos de atração por todo o Estado e, em acordos com o Governo Federal e até mesmo com outros Estados, propiciar que muitos dos que se dirigiriam a São Paulo e mesmo muitos paulistanos possam ter oportunidade e condição de fazer a vida nesses polos ou em regiões mais ou menos distantes da grande metrópole. Que ela já não é única solução para suas vidas.

Depois, definir com exatidão, de modo democrático, a verdadeira vocação da cidade que, estabilizada num número x de habitantes, compatível com suas condições, possa crescer não mais no sentido de ampliação de população ou de território, mas em melhoria de vida para os que aqui continuarem. E isso implica, por exemplo, em melhorar a mobilidade dos cidadãos, com um projeto de transporte público eficiente. E para ser eficiente, precisa ser tirado das mãos dos particulares que só visam ao lucro. Isto é: ressuscitar a empresa pública de transporte coletivo e, através dela, implantar uma política de financiamento, pela própria população, de um sistema de ônibus urbanos de boa qualidade e... gratuito!

Isso é possível? Claro que é. Basta vontade política para discutir com a população a possibilidade de cobrança de uma taxa mínima em contas de água ou de luz, de modo que todos contribuam com pouco, para a vantagem de muitos: com um sistema de ônibus urbanos integrados ao metrô e com linhas que cobrissem todas as necessidades dos paulistanos, sem pensar em lucro, a só a sua gratuidade poderia garantir que a maioria da população abandonaria o uso de transporte individual para trabalhar, melhorando as condições de tráfego e, principalmente, de poluição do ar, com vantagens para todos, em termos de melhoria de vida e de saúde.

Enfim, idéias é que não faltam. O que falta é vontade política, criatividade e vergonha na cara de nossos políticos e administradores para acabar com o loteamento da cidade por quadrilhas que tomam conta de certos setores e ali se aboletam para tirar vantagem das desgraças da população.

Com uma cidade com menos gente, com demandas resolvidas em setores específicos, apareceria dinheiro para investir em saúde, em educação, em qualidade de vida. Porque, definitivamente, não acredito que grandes, imensas cidades, sejam o lugar ideal para o convívio higiênico, isto é, harmônico, do homem consigo mesmo e com o meio-ambiente.




(Ilustração: vista aérea do centro de São Paulo - foto da internet, sem crédito)

janeiro 14, 2010

AI DE TI, HAITI!




O mundo “branco” – América do Norte e Europa – sempre olhou com desdém os países “negros” – África, principalmente.

Atrasados economicamente, por inúmeras razões, desde guerras tribais por terras artificialmente reunidas sob a mesma bandeira, pelos conquistadores europeus, até por motivos que historicamente fogem à nossa compreensão, os países africanos aos poucos emergem da pobreza crônica, embora estejam ainda muito longe do melhor dos mundos.

Mas, há, incrustado nas águas complicadas do Caribe, um país “negro” que tem uma história de luta e de superação. Surgido da revolta de escravos, foi o segundo a libertar-se do jugo europeu, no século XIX. Tinha tudo para ser exemplo.

Por que não deu certo?

Difícil responder. A História é complicada e os homens traçam caminhos ainda mais complexos, mesmo quando a lógica e a racionalidade estabelecem com precisão o que é necessário fazer.

O Haiti.

País “negro”. Inventado por ex-escravos. Seguiu a trajetória de seus irmãos africanos. Não conseguiu superar o atraso. Mergulhou, principalmente na segunda metade do século XIX nas promessas populistas e estapafúrdias de líderes enlouquecidos.

O que foi o Papa Doc – o papai doutor – senão um ensandecido líder de bichos papões –os tontons macoutes – a espezinhar e amedrontar a população? Sob as bênçãos de quem? Ou sob a indiferença de quais países?

Afinal, eles são negros. Que se entendam!

O mundo moderno, industrializado, mercadológico, globalizado, avançado, tecnológico e, sobretudo, anestesiado pelo consumismo e pelo orgulho de ser o que é, nunca teve paciência com os pobres irmãos negros da grande África.

Ia ter com o pequenino e perdido Haiti?

Agora, a catástrofe. Um terremoto de proporções impensáveis destrói o que dolorosamente começava a ser construído. E o Haiti, o pequenino e desprezado Haiti, é o centro das atenções.

Não importa quantos tenham morrido ou venham a morrer. É negra a pele da maioria absoluta das vítimas que se arrastam pelas ruas, que se rebelam em grupos desesperados de seres que veem sua última esperança ser destruída em segundos.

E, por ser negra sua pele, o mundo olha com olhos de espanto: eles existem! E são seres humanos!

Crianças, jovens, velhos, moços, homens e mulheres que sofrem não apenas a perda de sua capital, de seus bens, mas do pouco de dignidade que vinham tentando construir de forma tão dura, tão difícil, tão sozinhos.

Poucos os que se comoviam com sua tragédia surda.

Agora, o grande tremor acordou o mundo. Revelou sua existência. Chamou a atenção para a morte súbita de milhares, não a morte lenta de outros milhares nos becos da miséria e da violência.

Esses, o mundo nunca os viu.

Quem sabe, agora, os milhões antes prometidos e nunca enviados se transformem em milhões efetivamente usados para a sua recuperação?

Ai de ti, Haiti! Ai de ti!


(Ilustração: menino da Cité Soleil, em Ti Haiti - foto de Marcello Casal Jr.)