abril 04, 2010

O LIXÃO D’O ESTADÃO


Há muitos anos, quando surgiu o JORNAL DA TARDE, da empresa jornalística dos Mesquitas, um amigo meu decretou: é o lixão do Estadão. É onde eles publicam tudo o que não têm coragem de publicar no O ESTADO DE S. PAULO. Um pouco de exagero, claro. Mas...

Agora, os editores do tradicional e autodenominado quatrocentão da “família paulistana de quatrocentos costados”, repaginaram o vetusto jornal, para adaptá-lo aos novos tempos e à ameaça de total obsolescência ante as novas mídias, principalmente a Internet.

Até aí, tudo bem. Sempre se lamenta quando um órgão tradicional da velha imprensa se vê obrigado a encerrar suas atividades. Torço para que as cassandras do fim do jornalismo impresso estejam erradas e que, assim como o rádio sobreviveu à televisão, o jornalão também sobreviva a esses tempos eletrônicos.

Porém, ah, porém, como quase abertamente declarado participante do PIG – o PARTIDO DA IMPRENSA GOLPISTA (aquela que é contra o atual governo constitucional do País e desejou desde o primeiro dia a deposição do Lula) – hoje, 4 de abril de 2010, o ESTADÃO brinda seus leitores com o lixo do lixo da imprensa golpista: uma foto de página inteira do caderno “Aliás” do ex-presidente FHC, além de uma longa entrevista com o dito cujo, como se fosse ele o ideólogo-mor, o grande filósofo, o avatar das grande política brasileira.

Têm os Mesquitas o direito de publicar o que quiserem. Só não me neguem o direito de chamá-los de idiotas do conservadorismo, de golpistas e ressuscitadores de velhas ideias e mais velhos ainda ideais.

FHC está morto, enterrado!

Deixem-no em paz em seu túmulo. Que ele já fez mal demais a esse País, com seu governo – ou seria desgoverno – de oito anos de atraso, de roubalheira não investigada, de venda do patrimônio público, de demolição do Estado, de desemprego desenfreado – que o coloca entre os piores presidentes que o Brasil já teve em todos os tempos, incluindo aí até mesmo o período ou os períodos de ditadura. Porque – o que mais grave – estávamos numa época de liberdade e democracia, e mesmo assim o senhor FHC, com a conivência dessa mesma imprensa que ainda o endeusa, teve uma administração de total calamidade para o povo brasileiro, atrasando em oito anos o desenvolvimento sustentável desse País.

Mesmo que digam o contrário, não há nada mais diferente do que a administração Lula do governo desse senhor. Se os princípios macroeconômicos são os mesmos, é porque são princípios que, contrariados, dão no que já tivemos a oportunidade de ver durante as péssimas administrações do Sarney e do Collor, com seus planos mirabolantes de tentativa de contenção da inflação.

Lula conduziu e ainda está conduzindo o País para um estado de excelência que nunca antes na história desse povo se obteve. Lula é o primeiro grande passo para a emancipação total do Brasil de seu estado de letargia, de pobreza e de complexo de vira-latas em relação aos países desenvolvidos, principalmente com o desalinhamento de sua política externa – tanto diplomática quanto econômica – do “grande irmão” do Norte que, de irmão, nunca teve nada, a não ser o interesse de manter sob sua batuta os países da América do Sul, aos quais sempre olhou com desdém.

Então, senhores editores de O Estado de S. Paulo, poupem minhas diatribes: deixem em paz o morto, que ressuscitá-lo, como os senhores teimam em fazer, a cada edição vergonhosa como esta, só presta mesmo para atiçar os ânimos da tucanada invejosa e animar ainda mais os neoliberais de plantão, dispostos a tomar de novo o poder, sob as vistas mais do que grossas do PIG!

abril 01, 2010

O PAPA E A PEDOFILIA


A noção precisa de que a criança é um ser em formação e, portanto, especial, que depende de uma série de cuidados para se tornar um ser humano íntegro e integral, é muito recente. Talvez coisa de depois de Freud ou dos estudos mais avançados de educação, psicologia, sociologia etc.

A noção primitiva da criança era de um adulto pequeno e que podia, portanto, ser tratada como tal. Assim, justificavam-se todas as perversões e todos os maus tratos praticados contra elas, as crianças, desde o comércio escravo até o seu uso como grumetes nos navios que percorriam os mares. E grumete, na maioria dos casos, era só um eufemismo para a prática da pedofilia pelos marinheiros que ficavam muito tempo em alto mar.

Desde Grécia e Roma, adolescentes eram devidamente educados para práticas homoeróticas de seus amos ou de seus preceptores. Não há nada de novo, portanto, na recente onda de denúncia de pedofilia por parte da Igreja Católica Romana.

O que assusta, na verdade, é hipocrisia do prelado católico no trato da questão. Eles sempre souberam e praticaram a pedofilia e o homossexualismo. Essa era a regra. E são poucas a s exceções.

Nos confinamentos dos seminários, é impossível que um grupo de jovens na idade do afloramento de todos os hormônios consiga impedir o livre curso da natureza com rezas e admoestações. Principalmente porque todo pecado, se confessado, termina com o perdão, depois da devida penitência. Então, entre si, nada incomum que seminaristas jovens se dedicassem ou à masturbação ou a práticas sexuais mais avançadas. Nada demais até aí.

A coisa começa a complicar quando os preceptores adultos entram em cena, para abusar desses jovens, quando eles declaram seus “pecados” no segredo da confissão. Muito fácil, para esses pedófilos – e aí, não se pode dar outro nome: criminosos e tarados – se aproveitarem da situação para o abuso. Se todos ou quase todos praticam, o mais certo é que todos tenham conhecimento dos fatos. Impossível ignorá-los.


Portanto, não se pode tratar a pedofilia eclesiástica como exceção. O papa foi seminarista e ascendeu a todas as posições da igreja. Dizer que ignora o que acontecia e acontece sob os cobertores dos seminários e dos conventos é, simplesmente, hipocrisia. Ou então ele é burro demais para não ter percebido o que se passava sob seu nariz.

Solução? Não há, pelo menos não no curto prazo. Porque a extirpação de práticas sociais arraigadas – neste caso, a pedofilia – demanda tempo e conscientização. Mesmo que a igreja decretasse o fim desse absurdo que é o celibato clerical, isso não seria ainda garantia de que a pedofilia seria nesse mesmo momento totalmente extirpada. Porque há ainda uma outra prática absurda - o confinamento de adolescentes por longos períodos em seminários, colégios internos e conventos – a favorecer todo tipo de práticas que, embora condenadas em público, são impossíveis de serem impedidas no particular.

Além disso, precisaria a igreja católica e todas as demais religiões deixarem de demonizar o sexo. E isso é, sim, um dos conceitos mais arraigados nessas instituições e, por isso, de mais difícil extirpação. Porque vem de tradição muito mais antiga, decorrente dos mitos de criação e de formas de dominação de grandes grupos por parte dos líderes, ou seja, ao criar o medo do inferno pela prática do sexo fora do consentimento desses líderes, torna-se muito mais fácil controlar o rebanho e dele obter as benesses que estão acostumados a receber, como poder, dinheiro, condição social e outras coisas mais.

Conclusão: o papa, a igreja e todas as demais religiões têm culpa, sim, no cartório, com relação ao crime de pedofilia. E esse crime só poderá ser amenizado e extirpado quando se conscientizarem de que sexo é uma força da natureza, fonte tanto de prazer quanto de continuidade da raça humana e não tem nada de pecaminoso ou demoníaco.


E isso vai levar tempo...





(Ilustração: papa bento xvi - desenho de Bapstitão, segundo meu amigo Toni d'Agostinho, a quem agradeço)

março 17, 2010

NÃO CHORAREI EM TEU VELÓRIO, FERNANDO HENRIQUE


Quando morreste – e sei que morrerás – não chorei em teu velório nem chorarei lágrimas de crocodilo, Fernando Henrique Cardoso.

Manterei a fleuma que tu, quando tentavas nos governar, mantinhas diante de descalabros, de compras de votos, de vendas assustadoras do patrimônio que nós, eu inclusive, claro, mantivemos por tanto tempo.

Não posso negar-te, no entanto, Fernando Henrique Cardoso, a confissão de alguns pecadilhos que cometi em relação àquilo que prometias ser. Não, não te assustes, em tua urna a haver, senhor: não votei em ti. Nunca.

Mas, quando assumiste o Governo, senti por dentro, sim, humilde me confesso, senti por dentro um pouco de orgulho do que eras, do que representavas. Afinal, um homem declaradamente de esquerda, culto, intelectual, viajado, fluente em várias línguas, professor emérito, ex-exilado político, risonho, franco, assumia a cadeira presidencial.

Mesmo que pensasse no sapo barbudo, no metalúrgico tosco e quase analfabeto em quem votara, deixei por algum tempo a viuvez e outros sentimentos menos nobres, para olhar com um olho otimista tua ascensão, tua posse, teus primeiros tempos de governo.

Afinal, pensei: ele tem tudo para dar certo. Mesmo que a sombra do metalúrgico me assombrasse, dei-te meu voto de confiança.

Ah, dias de dúvida! Ah, esperanças desfolhadas! Ah, tempos inúteis!

Tu, Fernando Henrique Cardoso, tiveste olhos para a Nação por exatos dois anos. E então, a mosca azul da soberba picou-te inexoravelmente.

Vendeste teu passado, vendeste tua capacidade, vendeste teus sonhos e, com isso, vendeste todos os meus ainda incipientes anelos, que não era teu correligionário (se o fosse, choraria ainda mais!), para comprar por míseros vales e linhas telefônicas a tua perpetuidade no poder.

Quiseste ser apolo, quiseste ser hércules, quiseste ser deus, Fernando Henrique Cardoso!

E teus seis anos seguintes de poder se arrastaram para o fundo, levando meus sonhos, levando a Nação, levando o orgulho que tínhamos de ter um intelectual na Presidência. Foram-se as esperanças como no poema de Vicente de Carvalho – A Flor e a Fonte: “Dizia a flor a chorar / Eu fui nascida no monte / Não me leves, não me leves para o mar”.

Não! Não fomos para o mar, onde podíamos, ainda, tentar navegar. Fomos para o brejo, de chifre e tudo, como a velha vaca.

E só saímos do brejo, Fernando Henrique Cardoso, porque aquele metalúrgico tosco, barbudo, quase analfabeto, sem um dedo na mão, a tua antítese, Fernando Henrique, nos tirou do atoleiro em que tuas práticas políticas e teu desgoverno nos colocaram.

Por isso, senhor, se ainda te guardo algum respeito, é o respeito que temos pelos mortos, ou por aqueles que ainda não morreram, mas que deviam agir como tal. Enquanto estiveres quedo e belo em tua tumba, pensarei em ti como aquele que podia ter sido mas não foi.

Entretanto, Fernando Henrique Cardoso, se te moves em tua campa, se lá das trevas de onde nenhum mortal voltou (tu reconheces aí uma pontinha de Shakespeare, não é? – coisa que o metalúrgico nem sonha, não é?) ainda tentas comunicar a outros natimortos tuas decepções e frustrações, ah!, não, senhor, não posso pensar em outra coisa senão em jogar-te em cima uma bela porção de água-benta e fincar-te no peito a velha estaca de matar vampiro!

Então, por isso, Fernando Henrique, não choro agora por ti, em teu futuro jazigo, que estás há muito morto, desde aquele início do segundo ano do teu mandato, quando te transformaste no chupa-sangue de nosso povo, em prol de uma imortalidade que, infelizmente, senhor, tu alcançaste apenas pelo cargo que ocupaste, não pela obra que deixaste.

Não, não chorarei por ti, desde há muito tempo, agora e nunca.



(Ilustração: Caravaggio - Narciso)

março 15, 2010

POLITICAMENTE CORRETO: QUE SACO!


Quando eu era professor, há muitos anos, num colégio de Belo Horizonte, deparei com um caso simples e ilustrativo de uma certa paranoia que anda por aí. Reparei que um dos meus aluninhos da quinta série decorava seus cadernos com desenhos de armas. Imbuído do politicamente correto, preocupei-me. Pensei: vou informar à direção do colégio. Que chamem psicólogos, educadores, sei lá, gente especializada para tratar do moleque! Que pode estar revelando uma personalidade psicótica...

Antes, porém, resolvi abordá-lo. “Por que esses desenhos”? E o moleque, na maior tranquilidade, explicou-me: “Meu pai é um colecionador de armas e eu também gosto de armas... “

Desarmado fiquei eu, a ouvir o menino me mostrar, encantado com meu interesse, os diversos tipos de armas que seu pai tinha e ele desenhava, como prova, não de que pudesse se tornar um perigoso assassino, mas de amor filial, de orgulho do pai.

Outra historinha: eu e meus quatro filhos, desde muito pequenos, gostávamos de assistir a filmes de terror. Quanto mais “melecado”, melhor. Divertíamos com os freddy kruger, com as sextas-feiras treze, com as serras elétricas e com muitos outros monstros do cinemão. Depois, eles foram crescendo e descurtindo esse tipo de filme. Ainda damos muita risada,quando nos lembramos deles. E todos os meus quatro filhos são hoje cidadãos e cidadãs que abominam a violência e vivem suas vidas absolutamente normais.

Histórias infantis: todas, absolutamente todas elas contam histórias de arrepiar. Falam de bruxas más que assam criancinhas, de lobos que comem vovozinhas ou destroem a casa dos pobres porquinhos, para comê-los, claro, e muitas, muitas maldades. Fomos criados, eu e muitas gerações antes de mim, ouvindo esses “horrores”.

Nas velhas brincadeiras de rodas, quase todas as canções que cantávamos falavam de morte, de traição, de maldades: nem vou lembrar o cravo e a rosa, atirei o pau no gato etc. etc. etc.

Quando moleque, cansei de matar “índios” e “cowboys” inimigos, em lutas que duravam horas, pelas ruas, pelas praças, inspirados pelos gibis que tinham por heróis pistoleiros sanguinários como Rock Lane, Flecha Ligeira e tantos outros. Nem Pato Donald e os demais personagens da Disney escapam de malvadezas ou de histórias bastante violentas. Também não preciso lembrar os super-heróis e seus arquiinimigos, os simpáticos vilões que infernizam suas vidas, tentando ou conquistar ou destruir o planeta.

Nem por isso, fui ou sou uma pessoa violenta. Muito pelo contrário: abomino armas e exércitos e guerras e militares e terroristas em geral e não acredito que o homem supere a barbárie enquanto cultivar a violência. Aliás, a maioria absoluta das pessoas não é adepta da violência, principalmente por conta de leituras da infância, de cantigas de rodas ou de contos da carochinha de nossos avós.

Então, leio que “pedagogos” e “tias” das atuais crianças estão mudando as histórias clássicas, para torná-las “politicamente corretas”, ou seja, em vez de o lobo comer a vovozinha... o que mesmo ele vai fazer? Ou mudando a famosa canção para uma bobagem como “não atire o pau no gato”!

Ora, ora, ora: deixem as crianças “atirar o pau no gato” e morrer de medo do lobo mau que come a vovozinha e quer fazer churrasquinho da Chapeuzinho Vermelho, porque isso é da natureza dos lobos de histórias infantis. São peças catárticas, que criam no imaginário da criança não exatamente a vontade de serem violentas, mas a repulsa aos atos violentos. Ninguém, absolutamente ninguém, até hoje, se tornou assassino em série porque leu um livro violento ou assistiu a um filme de terror. Não há absolutamente nenhuma prova de que literatura, gibis, cinema ou qualquer outra forma de arte possam contaminar mentes e torná-las perigosas para a sociedade. Porque a criança distingue de alguma forma o que é ficção e o que é realidade, a partir de um determinado momento.

As mentes psicopatas serão psicopatas mesmo que criadas num convento, mesmo que nunca tenham lido ou ouvido falar de guerras e morticínios. Não são, absolutamente, influenciadas pela ficção. Podem, sim, ser influenciadas pela realidade, pelo convívio com pessoas violentas, pelo exemplo de pais, amigos ou pelo ambiente em que vivem, se tiverem já o instinto para aquilo que denominamos “o mal”.

Porque é da natureza humana haver pessoas “boas” e pessoas “más” – caberá ao educador, sejam pais ou mestres, cuidar para que essas pessoas se tornem melhores, claro, mas não podem impedir que aquele garotinho ou aquela garotinha tão sensíveis e delicados se tornem, de repente, o pior dos pesadelos de uma sociedade.

O mundo, a vida, a convivência em sociedade não são passíveis de serem colocados em bolhas higiênicas, politicamente corretas, como forma de prevenir a violência, a barbárie. Há um longo caminho para que o homem supere tudo isso, mas esse caminho não passa, absolutamente, por conceitos como o “politicamente correto” aplicados dessa forma ingênua ou, mesmo, idiota.

Princípios éticos – que podem ser extraídos até do lobo mau – são muito mais importantes do que ensinar as criancinhas a cantar essa bobagem de “não atire o pau no gato”. E um moleque de quinta série, ao desenhar armas em seu caderno de deveres, pode estar apenas exprimindo orgulho ou amor filial. Sem nenhum outro componente psicótico. Que pode estar em nossas cabeças...

março 06, 2010

A SÍNDROME DE GALILEU



Diz a lenda que, ao sair do tribunal da inquisição católica, que o condenou a abjurar de suas crenças, Galileu Galilei teria dito “eppur si muove” – e, no entanto, ela se move, referindo-se à Terra.

Mesmo assim, passou à história como aquele que renegou suas verdades, para salvar a vida. A “santa” inquisição não perdoava. Numa cena famosa da peça de Bertold Brecht, o genial dramaturgo resume o poder de um papa, quando Urbano é vestido com os trajes papais e, perguntado se deveriam torturar Galileu, responde, ao colocar a mitra, que bastava mostrar-lhe os instrumentos.

Para muitos, em pleno século XXI, num estado democrático como o Brasil, os instrumentos a que foram expostos os nossos galileus não são os da tortura inquisitorial, mas os da possibilidade de conquista social, do dinheiro gordo na conta bancária todo mês, dos tapinhas nas costas de gente que acha que liberdade de imprensa é escrever e dizer o que querem os patrões.

Expliquemos. Li, há pouco, um artigo de Emir Sader (*), sobre a miséria moral dos ex-esquerdistas que viraram a casaca para se tornarem cães de guarda da direita, nas redações da mídia. São, agora, mais realistas que os reis que lhes pagam os salários. Mais inescrupulosos em sua defesa dos “ideais” patronais do que os próprios patrões, bem mais pragmáticos do que eles.

Diz o articulista que “a redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente”.

Têm esses ex-esquerdistas a síndrome de Galileu, sem nem uma réstia sequer de sua grandeza. São pobres diabos que não teriam coragem nem de dizer, em prol de um resto de dignidade que por acaso ainda tivessem lá no fundo de suas consciências compradas com os instrumentos da cooptação mais vil – o dinheiro – um mal balbuciante “eppur si muove”.

São, agora, pagos para mentir, para trapacear, para defender com unhas e dentes a “liberdade de imprensa” dos que sugam sua capacidade, para jogá-los depois no lixo da história, já que sabem muito bem que quem trai uma vez trairá sempre.

Dois dias atrás, ouvi de uma notória comentarista da CBN, que o presidente Lua iria se licenciar do cargo, para se engajar na candidatura da ministra Dilma. No seu delírio voltado a plantar na mente dos ouvintes essa notícia estapafúrdia – desmentida logo depois pelo próprio presidente – ela chegou ao cúmulo de visualizar, na linha sucessória possível, a tomada da presidência, nada mais, nada menos, por José Sarney. Ou seja, puro terrorismo. Que ela não desmentiu, mesmo diante da fala explícita de Lula, ao condenar tal possibilidade.

É assim que funciona a cabeça dessa gente.

E não é preciso dizer mais do já disse o Emir Sader. Só é preciso que busquemos o antídoto contra o veneno que escorre de suas mentes – às vezes brilhantes – mas corrompidas pelo poder, pelo dinheiro, pelo prestígio.

Esse antídoto é a democracia. O voto popular. Esse mesmo voto que está jogando no ostracismo, pouco a pouco, os que sempre mandaram neste País e nada fizeram pelo povo. Os que guardam em suas gavetas de mogno, em seus escritórios luxuosos, o velho chicotinho que brandiram e vêm brandindo desde que aqui aportaram com Cabral. Chicotinho que tão bem souberam usar nos tempos da ditadura militar.

E saibam todos que “chicotinho”, aqui, é só um eufemismo para coisas muito piores de que o povo já anda cheio há muito tempo, pois sabe muito bem esse povo que, enquanto a Terra se move, é pra frente que se anda.

(*)http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=424

fevereiro 18, 2010

“MENSALÃO” DO DEM? ISSO É BOBAGEM!


Um idiota – que tem nome, RG, e foi deputado e presidente do PTB – inventou, orientado por uma bem orquestrada turma golpista (e todo mundo sabe quem é ele e quem são os golpistas!) – o nome “mensalão”, para designar o caixa 2 do PT.

Sim, caixa dois. E do PT. Coisa, aliás, que só não fazem os partidos que nem caixa têm. Prática mais do que comum. Crime? Contravenção, talvez. Punível? A Justiça Eleitoral que investigue e puna, como sempre o fez.

No entanto, o tal “mensalão” golpista, por ser um nome forte na mídia, por ela foi adotado como cortina de fumaça para encobrir a verdade – que teve CPI transmitida ao vivo por redes de televisão e resultou numa das mais terríveis campanhas contra um governo democrático da história desse País. Só comparável – e perdendo por muitas cabeças – à campanha que levou Getúlio ao suicídio.

O azar do PIG – o Partido da Imprensa Golpista – e de seus idealizadores (de alta plumagem) foi que, primeiro, Lula não é Getúlio; segundo, Lula tinha e tem o respeito e o apoio do povo; terceiro, os meios alternativos de comunicação conseguiram, com muito esforço, anular parte da tramoia que tinha por objetivo derrubar o Presidente.

Sim, derrubar o Presidente. Porque o PIG e seus seguidores não podiam admitir um governo que governasse para o povo, apesar de todas as dificuldades. Porque o PIG e seus cupinchas não podiam admitir que um operário consertasse o País e o levasse a índices de desenvolvimento jamais igualados. Porque o PIG e a cambada que sempre governou esse País não podiam admitir que Lula conseguisse desfazer o nó de atraso e desemprego deixado pelo “príncipe dos mendigos”, o senhor Fernando Henrique Cardoso, em seus oito anos de governo.

Agora, o PIG, sutilmente, ataca de novo, mesmo quando a encrenca ocorreu no galinheiro deles – do DEM e seus “paladinos da honestidade” aliados ferrenhos da alta tucanagem mais atrasada. Não é, como nunca foi, nenhum mensalão o que ocorreu – e está ocorrendo – no Distrito Federal. Arruda está enfiado até o pescoço em corrupção (não em pagamento de parlamentares por apoio, coisa que só houve na imaginação marqueteira e podre do inventor desse nome) e recebimento de propina resultante de dinheiro público envolvido em grossas negociatas de concorrências com cartas marcadas, com empreiteiros e empresários corruptos e corruptores.

No entanto, a mídia do PIG só fala em “mensalão”, para que a população não esqueça o termo original, com todas as implicações que ele contém de lembranças de um tempo em que eles, os golpistas, tentaram atingir de todas as formas o Presidente e seu governo.

Sacanagem assim ninguém merece!


(Ilustração: caricatura de Toni d'Agostinho)

fevereiro 10, 2010

IRÃ: A BOLA DA VEZ PARA MAIS UM MAR DE SANGUE?


Claro que prefiro os erros do presidente Barack Obama aos acertos da direita republicana representada, até então, por Bush e seus seguidores. Mas, tudo tem limite. Ou melhor, há sempre um lado ruim do lado bom.

Obama, como presidente, tem de enfrentar desafios titânicos, para consertar as bobagens feitas nos últimos oito anos. E para isso, com certeza precisa de coragem, de decisões difíceis e medidas complexas, o que leva tempo. Uma besteira destrói uma economia em poucos dias. Já para consertá-la, podem ser anos de trabalho duro. E o presidente está enfrentando com valentia a crise.

O lado ruim da presidência Obama: sua política externa.

Não adianta: a política estadunidense – entre quem quer que seja – para o resto do mundo é sempre a mesma. Primeiro, o cacete. Depois, talvez, quem sabe, a tentativa de diálogo.

Foi assim, sempre. Nem o Vietnã serviu de lição.

Agora, a bola da vez é o Irã. Está certo: um país dominado por uma elite clerical de aiatolás afundados em dilemas absurdos do Corão e com um presidente que parece nascido da mesma fôrma que outros tantos aventureiros e cretinos, de que a História tem exemplos às pencas, não pode, mesmo, ter a confiança de ninguém.

Mas, uma coisa é o governo de um país. Outra coisa é o seu povo.

E isso, os estadunidenses não distinguem: o governo é mau, puna-se a nação, pau no lombo do povo, sanções e mais sanções!

Quantas vezes, a ONU (e outros organismos internacionais, como a OEA), refém da política externa dos Estados Unidos, não impôs inutilmente sanções de toda ordem, principalmente econômicas, a países que, com ou sem razão, fugiram à cartilha autoritária do governo estadunidense, com grande sofrimento para sua população que, muitas vezes, é mais vítima do que culpada pelas insanidades de seus governantes.

Não adianta impor ao Irã sanções econômicas, por causa da questão atômica. Isso resultará em recrudescimento do ódio ao Ocidente, em imposição de mais sacrifícios ao povo pelo governo dos aiatolás, para a obtenção da bomba atômica, agora tendo uma ótima desculpa para iludir o povo. Com apoio popular, aí sim: a bomba virá, como a salvação do Islã, como a redenção do povo! E mais uma vez teremos carnificina, e mais uma vez teremos guerra, com resultados catastróficos.

Fico pensando: será que a inteligência, a capacidade de dialogar e a competência para resolver conflitos estão ausentes do gene de todos os políticos estadunidenses, como uma falha absoluta de visão do mundo que lhes impede ver além do próprio umbigo?

fevereiro 02, 2010

A ARCA DE NOÉ


Serra-Kassab não têm, claro, culpa do dilúvio que o ano de 2010 trouxe para São Paulo. Hoje, dois de fevereiro, já se contam quase 40 dias que chove todos os dias. E chuvas fortes, ainda que, às vezes, localizadas em pontos específicos da capital.

Mas Serra-Kassab estão enclausurados em paradigmas antigos de governança. Não compreendem que a cidade – e o Estado, o País – precisam de novas formas de governo, de um novo tipo de mentalidade. Que não se resume apenas a obras, mas à visão do ser humano como um todo, em harmonia com a natureza.

Até agora, todos os governantes dessa cidade só a pensaram em termos de obras. Obras que enriquecem empreiteiras e o bolso de políticos envolvidos em sua consecução, através de superfaturamentos e outras maracutaias.

Eu falo da dupla Serra-Kassab porque o primeiro foi o prefeito que abandonou a cidade para se tornar governador e inventou o segundo para nos governar. E o povo – iludido mais uma vez por promessas absurdas – consagrou o etéreo Gilberto por fazer de um projeto de custo quase zero para a Prefeitura – o Cidade Limpa – a vitrina de sua administração. Eliminaram-se todos os outdoors da cidade, diminuiu-se a níveis civilizados o número de propagandas nas ruas... mas, e o resto da cidade? E a limpeza urbana? E a saúde pública? E o planejamento?

E a dupla Serra-Kassab vai mais longe: o primeiro, como governador, lança-se numa obra de mais de um bilhão para ampliar as pistas da Marginal do Rio Tietê, uma obra que lança mais asfalto na já impermeabilizada margem do rio que gastou, há pouco, mais de outro bilhão para ter sua calha aumentada (obra de outro tucano ilustre – o picolé de chuchu, Alkimin) e, no entanto, continua a transbordar. E o segundo, como Prefeito, só pensa em fazer piscinões, mas não os mantém limpos e eles até passam a contribuir para mais enchentes.

Enfim, os paulistanos vão-se acostumando com o caos nosso de todos os dias, de todas as tardes, enquanto a dupla Serra-Kassab articula a candidatura do primeiro à presidência, já que ele só pensa nisso, sonhando em berço esplêndido, lá no alto do Morumbi, na arca de Noé em que se transformou o Palácio dos Bandeirantes que eu, em outra crônica, ao constatar que nenhum de seus ocupantes já chegou à presidência, denominei de túmulo de presidenciáveis.



(Ilustração: Palácio dos Bandeirantes, foto da internet, sem crédito)

janeiro 20, 2010

REPENSANDO SÃO PAULO, NO MÊS DE SEU ANIVERSÁRIO


A urbanização é um fenômeno recente da história do homem. E as metrópoles são ainda mais recentes. Coisa do século XX, praticamente, quando se consolidam e realmente começam a se expandir as grandes cidades, com populações na casa dos milhões. E já se fala em megalópoles, grandes manchas populacionais urbanas que se estendem por quilômetros e quilômetros, unindo, por exemplo, Rio de Janeiro e São Paulo.

Essa experiência humana precisa, no entanto, ser repensada. Está certo que o homem é um ser sociável, gregário, mas tudo tem um limite. Não acredito que milhões de seres humanos convivendo num único espaço urbano seja o mais saudável.

Veja-se a cidade de São Paulo, por exemplo.

Está certo que o seu crescimento desordenado, por falta de políticas corretas de urbanização e de planejamento adequado, tem levado a seu esgotamento. Para isso, contribuíram administrações sem visão, ou com visão de engenharia, de obras, como se somente obras pudessem resolver os problemas decorrentes de seu rápido crescimento. Nenhuma administração dos últimos cinquenta ou sessenta anos de São Paulo está isenta de culpa pelos problemas que hoje se enfrentam, como poluição, enchentes, falta de transporte e de moradias, favelização etc. E o atual prefeito segue a mesma cartilha e a mesma lengalenga de sempre: quando o rio sobe, pensa em piscinões; quando a população reclama de atendimento médico, pensa em construir hospitais e assim segue o modelo que enche os bolsos das empreiteiras e esvazia a paciência dos paulistanos.

E a cidade, ou melhor, seus moradores continuam sofrendo os mesmos dramas, reclamando as mesmas atenções, pedindo as mesmas coisas de sempre: melhor condição de vida, mais transportes, mais asfalto, mais isso ou aquilo, também equivocadamente, por não saber direito o que pode realmente melhorar a convivência de onze milhões de pessoas com um ecossistema degradado exatamente por essas onze milhões de pessoas.

Uma pesquisa do Ibope, encomendada pelo Movimento Nossa São Paulo, revela que 57% dos entrevistados gostariam de sair de São Paulo, se pudessem. Ou seja, a cidade virou uma arapuca: é ruim morar nela, mas é pior sair dela.

E exatamente nessa intenção – sair de São Paulo – está a solução para os imensos problemas da grande metrópole. A cidade não só precisa parar de crescer, mas precisa diminuir!

Exatamente isto: diminuir!

Não exatamente expulsar seus moradores, muitos dos quais para aqui vieram por falta de outras possibilidades, por não encontrar alternativas para sua mais do que justa necessidade de melhoria de vida. E realmente, às vezes é melhor morar numa favela de São Paulo (com todos os problemas que isso implica) do que continuar no seu lugar de origem, onde o futuro é palavra desconhecida. Pelo menos, na favela, há uma tênue esperança de melhoria de vida.

E os mais desesperados ou desesperançados constroem seus barracos em qualquer lugar, e isso implica, por ignorância dessa população, interesses escusos de grileiros e aproveitadores e leniência do poder público, construir em margens inundáveis de rios, riachos e ribeirões, ou em encostas altamente perigosas em tempos de chuva, ou, ainda, às margens de represas de abastecimento de água, lugares que deviam ser preservados como reservas e razão de sobrevivência da própria cidade. Degradam-se a si mesmos, ao ambiente e à cidade que os recebe e não tem política e polícia para impedir que continuem sendo enganados e espoliados em seus direitos fundamentais de moradia decente, de infraestrutura e de condições de vida.

Enquanto isso, os governos do Estado e do Município se unem para mais obras: mais asfalto, mais pistas para automóveis, mais piscinões, mais canalizações de veios d’água, ou seja, mais obras.

Apesar de cara, controversa, mal planejada e mal executada, a única obra atualmente em andamento em São Paulo que vai realmente beneficiar a cidade é o chamado rodoanel, estrada ou via que irá impedir que milhares de caminhões passem por ela, principalmente os que vão em direção ao porto de Santos.

Qual a saída? Políticas de curto, médio e longo prazos que levem à diminuição populacional da cidade, que está exaurida em seus recursos naturais.

Em vez de o Governo do Estado investir em obras em São Paulo, pode começar essa política simplesmente mudando a sede do Governo para o interior. Além de levar uma boa parte da burocracia estadual que aqui vive, ainda vai sinalizar para os migrantes, com a mudança de lugar do poder, que já há outros polos de atração. Só não se pode repetir na nova sede os mesmos erros cometidos aqui, claro. Mas isso já é outra história...

Criar polos de atração por todo o Estado e, em acordos com o Governo Federal e até mesmo com outros Estados, propiciar que muitos dos que se dirigiriam a São Paulo e mesmo muitos paulistanos possam ter oportunidade e condição de fazer a vida nesses polos ou em regiões mais ou menos distantes da grande metrópole. Que ela já não é única solução para suas vidas.

Depois, definir com exatidão, de modo democrático, a verdadeira vocação da cidade que, estabilizada num número x de habitantes, compatível com suas condições, possa crescer não mais no sentido de ampliação de população ou de território, mas em melhoria de vida para os que aqui continuarem. E isso implica, por exemplo, em melhorar a mobilidade dos cidadãos, com um projeto de transporte público eficiente. E para ser eficiente, precisa ser tirado das mãos dos particulares que só visam ao lucro. Isto é: ressuscitar a empresa pública de transporte coletivo e, através dela, implantar uma política de financiamento, pela própria população, de um sistema de ônibus urbanos de boa qualidade e... gratuito!

Isso é possível? Claro que é. Basta vontade política para discutir com a população a possibilidade de cobrança de uma taxa mínima em contas de água ou de luz, de modo que todos contribuam com pouco, para a vantagem de muitos: com um sistema de ônibus urbanos integrados ao metrô e com linhas que cobrissem todas as necessidades dos paulistanos, sem pensar em lucro, a só a sua gratuidade poderia garantir que a maioria da população abandonaria o uso de transporte individual para trabalhar, melhorando as condições de tráfego e, principalmente, de poluição do ar, com vantagens para todos, em termos de melhoria de vida e de saúde.

Enfim, idéias é que não faltam. O que falta é vontade política, criatividade e vergonha na cara de nossos políticos e administradores para acabar com o loteamento da cidade por quadrilhas que tomam conta de certos setores e ali se aboletam para tirar vantagem das desgraças da população.

Com uma cidade com menos gente, com demandas resolvidas em setores específicos, apareceria dinheiro para investir em saúde, em educação, em qualidade de vida. Porque, definitivamente, não acredito que grandes, imensas cidades, sejam o lugar ideal para o convívio higiênico, isto é, harmônico, do homem consigo mesmo e com o meio-ambiente.




(Ilustração: vista aérea do centro de São Paulo - foto da internet, sem crédito)

janeiro 14, 2010

AI DE TI, HAITI!




O mundo “branco” – América do Norte e Europa – sempre olhou com desdém os países “negros” – África, principalmente.

Atrasados economicamente, por inúmeras razões, desde guerras tribais por terras artificialmente reunidas sob a mesma bandeira, pelos conquistadores europeus, até por motivos que historicamente fogem à nossa compreensão, os países africanos aos poucos emergem da pobreza crônica, embora estejam ainda muito longe do melhor dos mundos.

Mas, há, incrustado nas águas complicadas do Caribe, um país “negro” que tem uma história de luta e de superação. Surgido da revolta de escravos, foi o segundo a libertar-se do jugo europeu, no século XIX. Tinha tudo para ser exemplo.

Por que não deu certo?

Difícil responder. A História é complicada e os homens traçam caminhos ainda mais complexos, mesmo quando a lógica e a racionalidade estabelecem com precisão o que é necessário fazer.

O Haiti.

País “negro”. Inventado por ex-escravos. Seguiu a trajetória de seus irmãos africanos. Não conseguiu superar o atraso. Mergulhou, principalmente na segunda metade do século XIX nas promessas populistas e estapafúrdias de líderes enlouquecidos.

O que foi o Papa Doc – o papai doutor – senão um ensandecido líder de bichos papões –os tontons macoutes – a espezinhar e amedrontar a população? Sob as bênçãos de quem? Ou sob a indiferença de quais países?

Afinal, eles são negros. Que se entendam!

O mundo moderno, industrializado, mercadológico, globalizado, avançado, tecnológico e, sobretudo, anestesiado pelo consumismo e pelo orgulho de ser o que é, nunca teve paciência com os pobres irmãos negros da grande África.

Ia ter com o pequenino e perdido Haiti?

Agora, a catástrofe. Um terremoto de proporções impensáveis destrói o que dolorosamente começava a ser construído. E o Haiti, o pequenino e desprezado Haiti, é o centro das atenções.

Não importa quantos tenham morrido ou venham a morrer. É negra a pele da maioria absoluta das vítimas que se arrastam pelas ruas, que se rebelam em grupos desesperados de seres que veem sua última esperança ser destruída em segundos.

E, por ser negra sua pele, o mundo olha com olhos de espanto: eles existem! E são seres humanos!

Crianças, jovens, velhos, moços, homens e mulheres que sofrem não apenas a perda de sua capital, de seus bens, mas do pouco de dignidade que vinham tentando construir de forma tão dura, tão difícil, tão sozinhos.

Poucos os que se comoviam com sua tragédia surda.

Agora, o grande tremor acordou o mundo. Revelou sua existência. Chamou a atenção para a morte súbita de milhares, não a morte lenta de outros milhares nos becos da miséria e da violência.

Esses, o mundo nunca os viu.

Quem sabe, agora, os milhões antes prometidos e nunca enviados se transformem em milhões efetivamente usados para a sua recuperação?

Ai de ti, Haiti! Ai de ti!


(Ilustração: menino da Cité Soleil, em Ti Haiti - foto de Marcello Casal Jr.)

janeiro 09, 2010

DIREITOS HUMANOS: A HORA DO RESPEITO

Os cretinos de sempre protestaram. Porque sua função é protestar. Respeitemos também os cretinos, porque eles também são humanos e devem ser respeitados. O que não nos impede de criticá-los.

É sempre assim: primeiro, eles criticam. Depois, tentam medidas desesperadas. Ao final, vence o bem senso. Ou a Justiça, em última instância.

Foi mais ou menos assim com o caso do garoto que a Lei e a lógica mandavam entregar ao pai e que a avó materna queria manter (e isso é sequestro, é cativeiro!). E não eram apenas as leis brasileiras que dão o direito ao pai de criar o filho, na falta da mãe: eram acordos internacionais! Mas os cretinos tinham que protestar.

Agora, o Programa de Direitos Humanos, divulgado pelo Governo, após anos e anos de discussões.

Reclamam que é contra a liberdade de informação, quando as indicações prevêem apenas a proteção do cidadão contra o mau uso da informação. Lembram a Escola Base? Informação é uma coisa, julgamento pela mídia é outra. E é crime. E deve ser combatido, porque é contra o direito das pessoas de terem defesa e julgamento justo.

Reclamam contra a recomendação de buscar, primeiro, a negociação, em caso de conflitos agrários. Ninguém é a favor de invasão de propriedades privadas, é um direito constitucional. Mas atirar primeiro e perguntar depois não tem contribuído em nada para minimizar o problema. E essa tem sido a constante, com a lamentável perda inútil de vidas humanas.

Reclamam contra a abertura dos porões da ditadura, quando todos os países que passaram por períodos de repressão já lavaram a sua roupa suja. Porque uma coisa é a defesa do Estado, outra é o cidadão usar essa desculpa para torturar, para estuprar, para satisfazer seus instintos monstruosos. Tortura não é crime político, é crime de lesa-humanidade!

Reclamam contra a proibição de símbolos religiosos em espaços públicos, como repartições, tribunais etc., como se isso representasse perigo à crença religiosa. Ora, senhores religiosos, respeitem-se, por favor. O Estado é laico. Não pode privilegiar tal ou qual seita ou religião. Além do mais, ninguém é obrigado a ter religião. A crer no mesmo que vocês acreditam. Ninguém vai obrigar a demolir o Cristo Redentor por causa disso (embora eu preferisse ver sobre o Corcovado qualquer outra coisa que não aquela estátua horrorosa!)

E há, ainda, muitos itens no Plano de Direitos Humanos que os cretinos deverão contestar, como a questão dos quilombolas, dos homossexuais, da união civil, taxação das grandes fortunas... Há lobby para todos! Para todos que não querem que os direitos humanos sejam respeitados.

Enfim, reclamem, seus cretinos. E deixem-me ter o direito de chamá-los de cretinos, por reclamarem. Assim como sempre tiveram o direito – que agora começa a mudar – de impor suas convicções.

Viva a liberdade! De pensamento, de expressão, de tudo! Porque respeito é bom e todos merecem!

dezembro 24, 2009

O CASO DO MENINO SEAN, UM CASO LAMENTÁVEL


(Chema Madoz)


Dizia a minha mãe: - “Quando a cabeça não dá, o corpo é quem padece”. Sábias palavras, signifiquem elas o que quer que seja. De qualquer forma, quando a estupidez e os interesses mesquinhos (mesmo sob o manto do tal “amor”) prevalecem, há sempre muito sofrimento e dor.

Estou-me referindo ao caso do menino Sean, cuja mãe, brasileira, morreu no parto de outra filha, de outro casamento, aqui no Brasil e cujo pai, americano, devia ser, pela lógica, o responsável pela criação e educação do menino. No entanto, num ato de estupidez amorosa, o padrasto brasileiro pediu a guarda provisória do menino. E noutro ato de estupidez jurídica, algum juiz a concedeu. Afinal, o sobrenome ilustre do requerente deve ter pesado, e muito, nesta decisão. Lins e Silva, uma família de juristas!

Cinco anos de luta. Entre o verdadeiro pai e a família da mãe. Cinco anos em que não se pensou, nem por um minuto, primeiro, na lógica; segundo, na lei; terceiro, nas implicações internacionais e, quarto, na cabeça da própria criança, centro de uma disputa kafkiana, entre juristas de dois países.

Lógica: se o pai é vivo, e capaz, e contra ele não pesa nenhuma acusação de abandono ou maus tratos, não se pode simplesmente, por um ato discricionário de uma avó ou de quem quer que seja, abolir o seu direito paterno. Isso não cabe em nenhuma cabeça. Por maior que fosse o amor da nova família à criança. Um acordo, nesses casos, tornaria a transição menos dolorosa para todas as partes envolvidas, sem necessidade de transformar um caso familiar em incidente diplomático internacional.

E entramos, então, nos aspectos legais e internacionais. A legislação brasileira sempre esteve a favor do pai americano, e somente os recursos protelatórios, totalmente descabidos e absurdos, avalizados pelo sobrenome ilustre da família, é que conduziram o caso para o terreno do Direito Internacional, que tem tratados muito definidos quanto ao assunto. Tratados de que o Brasil é signatário, não podendo, portanto, deixar de cumprir. Porque isso se constituiria em sequestro, simplesmente, sequestro de menor, agravado pelo fato de se realizar em pleno estado de direito e contra todas as evidências legais.

E, finalmente, não se pensou na própria criança. Se a Lei estava a favor do pai, por que não se tentou, antes de qualquer medida, o mais simples: um acordo, um acordo amigável, entre as duas famílias? Em benefício da criança. Que poderia, muito bem, conviver tanto com o pai americano quanto com a família brasileira, para benefício do menino, que teria o privilégio de conviver com duas culturas, duas línguas, dois países.

Mas, não: preferiu-se o confronto. Com o risco de, ao final, saírem todos perdendo, e deixando sequelas difíceis de serem cicatrizadas. E o pior: mesmo sabendo a família brasileira, de ilustres juristas, que seria uma causa perdida. Ou alguém duvida de que eles sabiam das condições legais de sua demanda? Claro que sabiam que só remotamente ganhariam a causa, muito remotamente.

E nessa luta absurda, envolveram-se elementos que não podiam nem deviam ser envolvidos, principalmente de parte dos Estados Unidos, quando seu próprio presidente foi instado a pressionar o governo brasileiro por uma solução que era eminentemente jurídica, e não política. Até mesmo um senador americano boicotou a aprovação de tratado internacional que beneficiaria o Brasil, entre outros países, por causa do menino.

E, ao final do caso, o fato de o governo americano fretar um jatinho para levar para casa o pai e a criança deixou bem clara a mensagem de que não confiava na Justiça brasileira, na sua visão, pusilânime, demorada e sujeita a mudanças. E isso é totalmente lamentável, em termos internacionais!

E a família brasileira, por sua vez, veio a público, também pressionando o Presidente da República que interviesse no caso, como se um presidente, num estado de direito, pudesse transformar-se em juiz de um caso cuja legislação é clara, tanto em termos nacionais quanto internacionais.

Até os argumentos de que é “tradição” uma criança ser criada pela avó materna, na falta da mãe, são falaciosos e inventados para dar apelo emocional ao caso e, com isso, conquistar a simpatia da imprensa e da opinião pública. E mais: dizer que a criança foi “vendida” em troca da aprovação de um tratado, por alguns milhões de dólares, é só um ato de desespero, que não deve ser levado em conta.

Portanto, um caso simples de lógica, de respeito à lei, de compreensão da vida, quase se transforma em incidente internacional. Se estivéssemos em outras épocas, seria até o caso de desencadear-se uma guerra entre dois países amigos, por uma questão de caráter puramente familiar. Não estou exagerando, pois a História, desde a guerra de Tróia, está cheia de exemplos em que muitas vidas foram perdidas em lutas fratricidas por encontrarem as nações o pretexto para a guerra em fatos corriqueiros da vida particular, transformados em “honra nacional”.

Se eu fosse o pai dessa criança, moveria mundos e fundos, lá dos Estados Unidos, para processar por perdas e danos ao menino a família brasileira, como uma lição para que nunca mais, no mundo, acontecesse um fato lamentável como esse, de tentativa de burlar leis nacionais e internacionais, além da própria lógica da vida, por motivos sentimentais ou por quaisquer outros motivos.

Fique, pois, o caso do menino Sean como uma lição, para todos, de como um ato aparentemente de “amor” pode transformar-se num incidente de proporções incontroláveis, por ser, ao verdade, ao fim e ao cabo, um ato de insensatez humana.

“Quando a cabeça não dá...”

dezembro 18, 2009

AS VIÚVAS DE FHC





Há uma “fábula” rodando por aí:




Um belo dia o príncipe se olhou no espelho mágico e perguntou:

- Diga-me, espelho meu, existe alguém mais Presidente, mais Inteligente, mais Competente, mais Príncipe do que eu? 

Respondeu o espelho:

- Sim: o Sapo!

Pois, é: o Sapo não tem diploma (a não ser o de Presidente), não é bonito, não é elegante, não fala inglês e se atrapalha com o português, não tem charme, tem um dedo a menos numa das mãos, mas...

É o cara! Um dos homens, hoje, mais influentes do planeta Terra. Cortejado por todos os poderosos. Admirado mundo afora. E tem 80% (eu disse oitenta!) de aprovação do povo brasileiro.

Também, pudera: começou a construir, agora pra valer, o Brasil do futuro. Tirou trinta milhões de pessoas da linha absoluta da pobreza. Livrou-nos do FMI. Estabilizou de vez a economia. Domou a inflação. Criou 10 milhões de novos empregos. Enfim, fez exatamente o contrário do que fizera antes o Príncipe, com sua elegância, com seus diplomas, com seu inglês fluente, com sua fala melíflua e seus modos de gente que comia três refeições por dia e estudava na USP.

No entanto, as viúvas do Príncipe continuam por aí, a carpir, com saudade, as várias recessões econômicas promovidas por ele, com o consequente extermínio de empregos, os apagões, a venda do patrimônio público a preço de bananas, enfim, todo aquele corolário neoliberal que todos conhecemos e que deixou o País quebrado e sem esperanças.

As viúvas espalham-se por aí, embora não sejam muitas. Fazem, no entanto, um barulho infernal, com seus lamentos e sua choradeira. Tentam ressuscitar seu Príncipe em políticos que rezem pela mesma cartilha, principalmente o atual ocupante do Palácio dos Bandeirantes, que é o seu atual preferido para ser o próximo Príncipe.

Dizem que as viúvas têm um partido – o PIG (Partido da Imprensa Golpista) – porque se alojam, principalmente, em redações de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão. Daí, a aparente (e eu acho, na verdade, que não é tão aparente assim, é real) força desse grupo. Mas eu acho que as viúvas formam, na verdade, um bloco carnavalesco, um bloco de sujos. Um bloco de sujos barulhento. Que fala e escreve bobagens por aí, no intuito de emplacar a candidatura do já eleito, na opinião deles, governador de São Paulo.

Essas carpideiras todas não são inocentes, não. São perigosas, porque têm força na mídia e um poder imenso de comunicação. Por isso, todo cuidado é pouco com essas viúvas – as mesmas que nos deram os governos militares (lembram como a mídia da época apoiou o golpe de 64? – eu não esqueço, não); depois nos impingiram um tal de caçador de marajás (lembram como a mídia da época fez até trapaça para eleger o cara? – eu não esqueço, não); e finalmente nos brindaram com o exterminador de empregos, o glorioso FHC, pelo qual elas, as viúvas, vivem ainda em lamento profundo, esquecidas de que ele já morreu há tempos, embora um fantasma seu siga por aí a falar e a escrever bobagens, consultando de vez em quando o seu espelho mágico que lhe repete sempre, num mantra para ele desesperador: o Sapo, o Sapo, o Sapo!

Ah, as viúvas do FHC! É preciso temê-las! É preciso exorcizá-las! É preciso isolá-las nos cemitérios em que trabalham, mas isso é quase impossível. Deixemo-las carpir e não lhes demos ouvidos, portanto!

dezembro 12, 2009

LULA E A MERDA











O povo que votou – duas vezes – em Lula para Presidente, o povo que lhe dá, hoje, mais de 80% de aprovação, esse povo conhece bem o jeito dele, a franqueza dele. Porque é assim que esse povo fala. Palavrão, para esse povo, é fome, é miséria, é doença, é falta de esgoto, é morar onde não mora ninguém, como dizia um velho samba. Para esse povo, que vivia – e muitos ainda vivem – na merda, essa palavra não é palavrão, é convivência diária, pelo pouco que têm, pela comida ruim, pela rua esburacada, pelo córrego que transborda e leva tudo, quando tudo é quase nada, pela falta de condução.

Para esse povo, merda é dia a dia. E não choca a esse povo que seu Presidente diga o que eles estão cansados de viver – na merda.

Já para os ouvidos sensíveis de certos colunistas de jornal, de certa mídia que frequenta restaurantes franceses onde só o vinho custa dois anos de salário do pobre, para essa gente, que come caviar – que vai também virar a mesma merda que o arroz com feijão do pobre – para essa gente, o Presidente é grosso, é inconveniente, por trazer à baila um assunto que sempre esteve debaixo do tapete dos políticos corruptos que eles apoiam: saneamento básico.

O Brasil tem quase seis mil municípios, quase seis mil prefeitos e um número incalculável de vereadores espalhados por suas quase seis mil casas legislativas. A maioria absoluta desses municípios são pequenos, pequenos mas orgulhosos. Não exatamente dos prefeitos que escolhe o seu povo, ou que é obrigado a escolher, pelo sistema partidário atual. Ser prefeito de cidade pequena é, em geral, o melhor emprego do mundo: ganha-se bem, não se faz nada e tem-se prestígio local. E aquele pequeno poder que enche a cabeça dos que não nada têm na cabeça, a não ser a vontade de enriquecer.

Vá a qualquer cidade pequena e, por mais miserável que seja, procure a casa do prefeito: é, quase sempre, a mais bonita da cidade. E, quase sempre, o prefeito é fazendeiro ou pertence à chamada elite local. Pergunte por saneamento básico, isto é, serviço de água e esgoto. Quase sempre, a resposta será a mesma: esgoto? Pode até ter. Mas... é tratado? Em 99% por cento dos casos, pode ter certeza: tratamento de esgoto é coisa que ninguém nem sabe o que é.

Vou dar um exemplo extremo, em todos os sentidos: na Grande São Paulo, há uma cidade chamada Guarulhos. É um dos mais populosos municípios de São Paulo, com mais de um milhão e duzentos mil habitantes. Vá ao site da Prefeitura de Guarulhos – há todo tipo de informação. Procure saneamento, ou saneamento básico. Nada. Por quê? Porque, simplesmente, a grande cidade de Guarulhos não trata um só litro de seu esgoto, que é todo lançado no rio Tietê!

Prefeito que é prefeito não se preocupa com isso. Fazer esgoto e tratar esgoto é enterrar votos, como sempre se diz.

Saneamento básico, tratamento de esgoto, isso é condição fundamental de qualidade de vida, de saúde. Mas, não: eles, os prefeitos, preferem asfaltar ruas, construir pontes e viadutos, fazer obras que dêem dinheiro às empreiteiras e comissão para eles, para seus secretários, para seus seguidores políticos. E comprar ambulância, que é a única preocupação que eles têm com a saúde de seus munícipes, porque basta colocar o doente na ambulância e levá-lo para a capital.

Contratar empréstimos com o BNDES – o Banco Nacional de Desenvolvimento Social – para saneamento básico, quase sempre a fundo quase perdido, para o que basta vontade política e um pouco de preocupação social e um pouco, muito pouco, de visão de futuro, isso não lhes passa nunca pela cabeça. O povo? Ah, o povo que viva na merda, como sempre viveu.

Agora que o Lula escancarou essa realidade, com uma simples palavra – merda – que os idiotinhas das redações de uma certa imprensa que só pensa em um novo governo liberal que escancare as burras dos governos para seus donos, as elites que comandam os impérios midiáticos do Brasil, pois esses idiotinhas dizem que Presidente falar palavrão é feio, é inconveniente, é sinal de que não tem preparo para governar o País, esquecidos todos eles, claro, da merda que seus preferidos políticos sempre fizeram no Brasil, em termos de administração pública e de safadeza com o povo.

Cagam – literalmente – esses idiotinhas as regras para um tipo de governo que não interessa ao povo, porque essa gente que aqui esteve antes do Lula, com seu linguajar empoado, com seu jeito empavonado, com seus diplomas emoldurados, nada fez para tirar o povo da merda, como Lula está fazendo.

Então, é preferível, sim, um Presidente que fale merda do que presidentes que sempre fizeram merda!

dezembro 08, 2009

"DESVIOS DE CONDUTA"







O título acima está entre aspas, porque não é meu: é de um articulista de O Estado de São Paulo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), JOSÉ DE SOUZA MARTINS.

No domingo, 6 de dezembro deste ano de 2009, publicou ele no caderno “Aliás”, um artigo em que afirma, já no subtítulo da matéria, que “violência de bandidos e polícia escancara uma sociedade em que o desenvolvimento social ficou muito aquém do econômico”.

Só por aí já se pode ter alguma idéia do discurso do ilustre professor. Listando uma série de crimes, como a da “jovem vendedora, de 21 anos de idade, moradora no morro de São Carlos, no centro do Rio, (...) detida e sequestrada, roubada (...), objeto de tentativa de extorsão (...), ferida com um tiro na boca e jogada de penhasco na Floresta da Tijuca, por um cabo e um soldado da Polícia Militar”; passando pelo caso da favela Naval em São Paulo, em que “um sargento, dois cabos e seis soldados (...)” foram filmados “na prática de violência contra a população pobre e indefesa” até o crime do menor (na época) Champinha, que sequestrou, torturou e matou um jovem casal de classe média que acampava num sítio abandonado de Embu-Guaçu, grande São Paulo, José de Souza Martins conclui que “esses episódios nos falam do profundo estado de anomia da sociedade brasileira, de desencontro entre valores e condutas, pesada herança histórica de uma sociedade em que o desenvolvimento social ficou muito aquém do desenvolvimento econômico, a sociedade de uma modernidade fictícia, sustentada pelos arcaísmos de nosso atraso crônico”.

Belas palavras, à primeira vista: somos bárbaros porque somos pobres.

Será?

Ora, todos sabemos que a sociedade brasileira não é, em primeiro lugar, anômica, ou seja, desregulada, sem leis ou regulamentos sociais. Muito ao contrário, temos até leis demais. Apenas ou não são cumpridas, ou são muito complacentes em relação a alguns crimes, principalmente os que envolvem assassínios (essa história de progressão de pena para crimes de morte é um absurdo jurídico).

O problema está nos argumentos seguintes – desencontro de valores e condutas, herança histórica, desenvolvimento social aquém do econômico, modernidade fictícia, arcaísmos e atraso crônico.

Vejamos: se tomarmos um país de primeiro mundo, como os Estados Unidos, podemos listar uma série de crimes bárbaros, sendo que os piores e mais grotescos são, primeiro, os assassínios em série (serial killers) e as chacinas promovidas por jovens de classe média (nos padrões americanos, o que não é pouca coisa) que, de vez em quando, enlouquecidos por doutrinas esdrúxulas e armados até os dentes (por uma sociedade complacente quanto ao uso de armas) matam colegas e professores de uma tranquila escola de alguma mais do que tranquila cidade do interior. Em seguida, poderíamos citar a violência policial (também comum, principalmente contra negros, latinos e pobres), ou a barbárie dos soldados surpreendidos a torturar civis no Iraque.

Não podíamos usar exatamente as mesmas palavras de conclusão do ilustre professor?

Vamos à civilizada Europa. Podemos listar, também, uma série de crimes bárbaros, tais como o do holandês a manter em cárcere privado, por quase trinta anos, a filha a quem abusava e com quem teve vários filhos, ou o alemão que atraiu e comeu (literalmente, pela boca!) a outro conterrâneo, ou ainda a polícia inglesa (tão fria e tão profissional!) a assassinar barbaramente um rapaz (brasileiro!), no vagão de um metrô, por confundi-lo (ou supostamente confundi-lo) com um terrorista, sem lhe dar nenhuma oportunidade de explicar ou sem que ele esboçasse qualquer reação. E também poderíamos citar os hooligans ou a violência policial de quase todos os países europeus a espancar e expulsar os imigrantes, por preconceito ou por motivos econômicos.

Não podíamos usar exatamente as mesmas palavras de conclusão do ilustre professor?

Então, será que ser pobre é sinônimo de ser violento? Uma sociedade pobre é uma sociedade violenta?

A pobreza pode, sim, justificar revoltas, sublevações, protestos e tudo o que advém desse tipo de atitude de populações carentes, em confronto com forças policiais repressoras. “Violência” (colocada entre todas as aspas possíveis) de cunho social ou, às vezes, até de base política. Mas, nunca, em absoluto, nem mais nem menos crimes hediondos individualizados, isto é, cometidos por pessoas sem formação ética, poderiam ser atribuídos à condição social desses indivíduos, já que crimes bárbaros acontecem em todas as classes sociais, desde a jovem adolescente a permitir friamente a morte dos pais, até a clássica violência contra mulheres e crianças dentro de lares perfeitamente constituídos, tanto na favela quanto no condomínio de luxo.

Não somos uma sociedade violenta porque somos pobres ou porque nosso modelo de desenvolvimento privilegia o econômico e não o social. Aliás, esse modelo, senhor professor, é o que permaneceu vigindo desde os anos mil e quinhentos até hoje. E mais, senhor professor, é modelo importado de praticamente todos os demais países. Além disso, está sendo quebrado por políticas sociais que nunca aconteceram antes, mesmo que caiamos no bordão do atual presidente da República.

Temos uma sociedade violenta, senhor professor, por mil e uma causas. E, talvez, entre essas causas possamos até incluir a miserabilidade de nosso povo. Mas não com exclusividade. O pobre não é mais violento do que o rico, em termos de crimes individuais como os que o senhor citou. E se cairmos no problema do tráfico, iremos bater, necessariamente, à porta das classes consumidoras que, em absoluta maioria, localiza-se nos apartamentos elegantes e nas mansões de milhões de dólares de condomínios de luxo. Enquanto o rico consome a cocaína (felizmente batizada) em carreirinhas distribuídas em pratos de prata, separadas pelo acinte do chavão de um cartão de crédito internacional, os miseráveis se consomem com a cocaína vagabunda do crack que o vicia com poucas doses e mata em pouco tempo.

Portanto, senhor professor acadêmico da USP, não sei se os seus argumentos são ilógicos e escamoteadores da realidade por simplismo de análise ou porque há um viés político nas suas entrelinhas. De qualquer maneira, começo a pensar que há, sim, muitas pessoas que pensam certo, mas escrevem por linhas tortas, porque fazem parte da parcela de vinte por cento da população brasileira que não concorda em que temos um presidente, pela primeira vez na história, que não saiu dos quadros de suas pretensas elites – pensantes ou econômicas.