março 28, 2009

RATOS EMPLUMADOS



Se há indecisão, no PSDB, quanto ao candidato à Presidência em 2010, não há nenhuma indecisão sobre a formação de caixa para a campanha.

O que a Polícia Federal descobriu, ao investigar as falcatruas de diretores da Camargo Correa, deixa clara a ponta de um imenso iceberg: em conluio explícito do presidente da FIESP (o maior ninho conservador deste País) com as aves emplumadas do PSDB, mais os demos e outros partidos menores, da oposição, está-se a formar, talvez já há algum tempo, o caixa da campanha oposicionista do ano que vem.

Não há nenhuma dúvida de que o financiamento público de campanhas políticas não virá e, mesmo que venha, há sempre o recurso dos gastos por fora, patrocinados pelas empresas interessadas no próximo governo que, eles apostam alto, será formado pela galera sequiosa (e há muito na seca) de tucanos e demos, a dobradinha mais espúria da história política recente do Brasil.

Enquanto as investigações denunciam o escândalo, os impolutos deputados e senadores democratas e tucanos estarão no Congresso a esbravejar contra a politização da Polícia Federal, fazendo juras de honestidade que não passam nem no mais vergonhoso teste de veracidade que se possa fazer. São todos uns caras de pau, santinhos do pau oco, ladrões de casaca espoliados de suas boquinhas, de suas sinecuras, agora dispostos a tudo para voltar ao poder.

E a mídia, claro, vai dar uma mãozinha santa, publicando só o que interessa e, quando não for possível esconder mais a grande sacanagem que está aí, tentarão por panos quentes e desconversar. Mas a sujeira está aí, como a lavagem de dinheiro subtraído dos cofres públicos em obras superfaturadas, no que eles têm know-how há mais de cinquenta anos, desde a inauguração de Brasília. As grandes lavanderias desse País estão instaladas em redutos elegantes, como a Avenida Paulista, em São Paulo, e um dos seus maiores ratos, fantasiado de tucano ou vice-versa, é o presidente da FIESP, esse Paulo Skaf, ou PS, como aparece nos telefonemas grampeados da Camargo Correa.

Roubar é preciso, preciso como o corte cirúrgico de um médico, numa operação cardíaca. E roubar, para essa gente, é questão não apenas de sobrevivência, mas de hábito. Está no seu DNA. Todos os demais, mesmo os que se arriscaram nas bobagens do Marcos Valério, são amadores. Por isso, não acredito que o Ministério Público vá ter bala na agulha para investigar a fundo o que deve ser o verdadeiro mar de lama que invade os segmentos mais conservadores desse País.

Há caixas pretas espalhadas por aí: no Rio Grande do Sul, em São Paulo, em Minas e em muitos outros lugares. São tubarões, no verdadeiro sentido da palavra, gente muito poderosa, que não titubeia diante de juízes ou de promotores públicos, porque tem a seus pés forças de grande persuasão pública. O marketing de probidade está feito. É só enfrentar a onda com a cara de pau de sempre.

Pobre Brasil, esse que pode surgir das urnas em 2010!

março 24, 2009

ENFIM, O COMEÇO DA DEMOCRATIZAÇÃO DA CULTURA




Vai haver choradeira. Vai haver ranger de dentes. Afinal, o lobby da cultura é forte. E quando falo do lobby da cultura, estou falando dos três por cento dos grandes produtores que conseguem, por meio da Lei Rouanet, captar, principalmente no eixo Rio – São Paulo, mais da metade dos recursos disponíveis.

Claro, ninguém vai querer perder essa boca. E como esses grandes produtores têm peso na mídia, a coisa pode engrossar. Então, preparemos nossos ouvidos para a chiadeira da grande mídia contra a reforma da Lei Rouanet proposta pelo Ministério da Cultura. Talvez a proposta não seja a ideal, perfeita, totalmente acabada, mas na essência ataca o problema principal, que é a desigualdade de distribuição e captação de recursos. E é isso o que importa. Pode ser aperfeiçoada? Sim, claro que pode. Mas eu disse aperfeiçoada, não deturpada. Só espero que os artistas não entrem na choradeira dos grandes produtores e se tornem inocentes úteis na defesa da permanência dos privilégios e das distorções da atual redação dessa lei, que tem méritos, sim, mas precisa ser melhorada.

Outro aspecto da proposta do Ministério da Cultura que, com certeza, será ironizado e até bombardeado por um tipo de gente que frequenta a grande mídia, é a da criação do Bolsa Cultura. A idéia é distribuir uma espécie de vale subsidiado pelo Governo e pelas empresas a todos os trabalhadores que lhes permita adquirir bens culturais, como livros, ou frequentar museus, exposições etc.

Está aí uma excelente idéia. Porque não basta que se produzam bens culturais. É preciso incentivar e educar o público a consumi-los. Por exemplo: estou cansado de ir a espetáculos teatrais, aqui em São Paulo, em que o que menos importa é o número de pessoas na plateia, já que o espetáculo está pago, mesmo que os atores e técnicos recebam uma miséria. Como a divulgação é cara e não tem o mesmo incentivo que a produção, poucos ficam sabendo e muito poucos comparecem. E o produtor, que já embolsou o seu rico dinheirinho, está-se lixando se o público é ridículo.

Então, que venha o Bolsa Cultura, ou Vale Cultura, ou que nome lhe deem. Será uma forma de incentivar a que as pessoas pouco a pouco se acostumem a consumir um bem cultural, obtendo assim aquilo que todo artista deseja: público, gente que leia o seu livro, que assista ao seu filme, à sua peça, à sua dança, compre o seu disco etc.

O valor proposto pode até ser pouco: cinquenta reais por mês, mas já é um ótimo começo. E deixem que chiem os que não querem a democratização da cultura.

março 15, 2009

AINDA O BRUXO DO COSME VELHO



Não quero aprofundar análises psicanalíticas, literárias ou filosóficas sobre Dom Casmurro, a personagem do romance homônimo de Machado de Assis. Mas continuo achando míope a crítica que vê apenas Capitu e esquece que a personagem realmente enigmática do livro é Bentinho.

Perdoem-me as mulheres, mas Capitu é uma criação da mente obscura de Bento, numa estrutura que, hoje, denominaríamos expressionista. O grande truque de Machado é falar de Capitu para nos revelar Bentinho, escondendo-o. Por isso, o nome do livro não é Capitu, mas o resultado de uma vida complexa e de taras e traumas não totalmente resolvidos, ou seja, Dom Casmurro, aquele que se esconde atrás do pessimismo e da casmurrice.

A grande dúvida do livro não é a traição de Capitu. Isso, absolutamente, não importa. Porque, afinal, traições, de parte a parte, mesmo nas sociedades conservadoras, são um mote comum, analisadas, condenadas ou exaltadas na pena de grandes escritores em todas as literaturas. Já a dúvida de ordem sexual, principalmente do homem, só aparece na literatura dita erótica ou dissoluta, geralmente com as tintas fortes do escândalo. Machado não quer escândalo: quer a alma de Bentinho, suas dúvidas e frustrações numa sociedade absolutamente conservadora, que pode até passar por cima de pequenas diabruras de rapazes em colégios internos, mas que não admitiria o relacionamento homossexual maduro, já na ordem “superior” dos grandes sentimentos do homem adulto.

Acho que se reduz a genialidade de Machado, quando se analisa o livro apenas sob a óptica de Capitu e sua pretensa traição, uma situação bastante comum na literatura (e na vida). Não creio que somente esse fato, esse único motivo, digamos, banal levaria o autor a tecer de forma tão complexa o retrato desses seres e a transformação do jovem Bento no homem amargo que encontramos em Dom Casmurro.

Bentinho tem o destino traçado desde muito jovem pelo amor de Capitu. Mas, será mesmo um amor verdadeiro ou é apenas a imposição do conservadorismo que o leva a cultivar até o casamento um sentimento que deveria ser canalizado para o amigo Escobar? Ao casar-se, deprimido e reprimido, acaba vendo nas atitudes de Capitu as pegadas de uma possível traição com esse mesmo amigo Escobar. Sua angústia se volta para a mulher, mas não será, na verdade, o grande drama de Bento o fato de pensar em ter sido traído, sim, mas não por Capitu, mas pelo amigo? E então, renega o filho, que é o fruto de uma tripla traição, pelo menos em sua imaginação conturbada por sentimentos opostos: a traição da mulher, a traição do amigo e a traição de sua própria índole.

Enfim, acho que é esse o grande mistério de Dom Casmurro, a obra genial de um autor que compreendia como ninguém os sentimentos humanos e suas relações com o ambiente em que vivia. Machado está falando de uma época, de uma época que tem ecos muito profundos de recalques, de frustrações e de medos cristalizados na forma pecados e execrações cristãs. Uma época que ainda está muito longe de terminar.

março 10, 2009

RESPEITO AO POVO QUE ANDA A PÉ



Itanhaém é uma cidade do litoral sul de São Paulo. Chega-se até lá pelo complexo viário Anchieta – Imigrantes e, depois, pela rodovia SP55, uma estrada moderna, duplicada, que divide a cidade ao meio, praticamente deixando de um lado as praias e do outro inúmeros bairros e vilas.

Eu disse estrada moderna?

Bem, de meu ponto de vista, não sei exatamente se a SP55 é uma estrada moderna. Dá, sim, conforto ao motorista. É bem sinalizada, bem policiada, com radares de controle de velocidade etc. E as duas pistas são divididas por muretas que impedem que um veículo desgovernado, por exemplo, invada o outro lado. Mas...

Bem, um dia, vindo de Itanhaém para São Paulo, por essa estrada, deparei com um fato curioso: bem embaixo de uma passarela, empoleirado sobre a mureta que divide as duas pistas, um rapaz aguardava tranquilamente o momento de aventurar-se entre os carros e alcançar o outro lado.

Isso acontece milhares de vezes, principalmente durante o verão, quando as vilas e bairros do outro lado da rodovia se enchem de turistas. Há passarelas, claro. Enormes, altas, com dezenas e dezenas de degraus, que o povo, por preguiça, por costume, por cultura, enfim, se recusa a utilizar.

É mais ou menos como as calçadas em parques, que pretendem conduzir o pedestre pelos gramados: há sempre trilhas naturais, que a população elege em detrimento dos caminhos planejados, por hábito, por motivos que nem desconfiamos, como as formigas que traçam insondáveis trilhas por onde todas passam.

Quem planeja ruas, avenidas, estradas, ou seja, os caminhos humanos, tem que respeitar também esses usos e costumes do formigueiro humano. Do povo que anda a pé. O povo, por exemplo, reclama por passarelas para atravessar avenidas e estradas, mas, não as usa depois de prontas. Por quê? Por comodismo, por que são muito altas, por que as pessoas têm preguiça ou pressa ou preferem o perigo à segurança? Por tudo isso e por motivos mais entranhados em seus cérebros, por desígnios que ainda não entendemos, mecanismos não compreendidos de nosso cérebro.

Então, o que fazer?

Pode encarecer uma obra, mas acho que a única solução para estradas como a SP55 e para avenidas em grandes cidades é que se planejem formas que permitam ao pedestre manter sua caminhada no mesmo nível, ou seja, sem subir ou descer: nada de passarelas, nada de túneis para os pedestres, ciclistas e até mesmo trânsito local. As rodovias e as avenidas bem planejadas devem passar por cima ou por baixo desses pontos de passagem do povo a pé, das formiguinhas que não gostam de mudanças em suas trajetórias.

Se o argumento for o preço da obra, que me perdoem os planejadores, porém mais vale uma obra cara que vidas perdidas pela falta de respeito aos hábitos e costumes das pessoas. É a competência humanista, ou humanitária, que quase sempre falta a nossos engenheiros e economistas: não basta ser técnico, tem que pensar no lado humano de uma obra, de qualquer obra.

Isto é ser moderno; isto é ser, talvez, pós-moderno: respeitar o povo que anda a pé.

março 03, 2009

ESSES QUE NOS GOVERNARAM, NOS ÚLIMOS ANOS




Podia começar falando dos governos militares. Cresci com eles. Com medo deles. Mas, estão mortos e enterrados. Foram o fruto podre que nossa pobre República colheu, entre tantos outros. Não vou falar deles.

Democratização. Meio estranha, é verdade. Com conchavos e conversas, muita conversa de bastidores. E lá veio Tancredo. O homem certo, no momento certo, no lugar certo... Não deu certo. Morreu na antecâmara do poder e deixou Sarney em seu lugar. Tonta a Nação. Tonto um presidente a governar com um plano que não era o seu, com uma gente que não era a sua. Aliás, inventou um plano. O cruzado. Bem no queixo da inflação. Orgulho de ter, afinal, um presidente que ia trabalhar dirigindo o próprio carro. Um presidente que ousava desafiar as leis do mercado, em nome do povo. Pobre povo: o queixo não era o da inflação, era o dele. E o knock-out foi devastador.

Aí, inventaram um cara que só sabia fazer uma coisa: caçar marajá lá nas Alagoas. Marajá, nome forte, para gente que mamava nas tetas do pobre Estado. Virou hit nacional, na televisão do senhor Roberto Marinho, que o elegeu com o voto dos idiotas. E foi a idiotice que se viu: não um golpe de boxe, mas de jiu-jítsu, um ippon, que botou no tatame de novo o povo. Que, mais esperto, reagiu e foi o que se viu: renunciou o caçador (que, na verdade era um tremendo mão-leve) e deixou o poder para um come-quieto lá de Minas. Que não era assim tão quieto, não. Aprontou das suas, com modelos sem calcinha em célebre carnaval no Rio. Não podia dar certo o senhor Itamar, mas até que deixou um rastro de esperança: um sociólogo badalado, intelectual, metido a besta (já até fora humilhado pelo Jânio, numa eleição para a prefeitura de São Paulo), mas todo falastrão.

Até tive certo orgulho de seu preparo, de seu rompante (embora nunca tenha gastado meu voto em tal indivíduo): aparentemente, pôs ordem na economia e o País parecia nos trilhos. Um plano ousado, ainda dos tempos do mineirinho come-quieto, começava a dar os seus frutos. E, afinal, um presidente feito sob medida: culto, viajado, falava inglês até com os alemães! Bem, lábia tinha o Fernandinho Segundo (que o primeiro foi o caçador de marajás, lembra?): vendeu meio País e comprou um Congresso inteirinho, com todos (ou quase todos) os senhores deputados e senadores, para obter, na marra, um segundo mandato. E deixou a maior desgraceira que podia deixar: o País quebrado, sem autoestima e sem destino. Ladeira abaixo as esperanças de desenvolvimento, de primeiro mundo.

Quanto tempo perdido! Quanto idiota a dar palpites infelizes. Restava o quê? O sapo barbudo.

E lá veio ele, com sua barba, sua voz roufenha, seu jeito desengonçado. Votei nele, sim. Que jeito? Era votar e torcer, torcer muito para que o deixassem lá, por um mandato pelo menos. Porque, embora tivesse esperança no barbudo, não confiava que terminasse dois anos de governo. Eram muitas as torcidas organizadas – contra! Piores que as de campo de futebol. Mais violentas e mais sanguinárias. Pularam com tudo a que tinham direito na jugular de Lula, o sapo que as ditas elites não conseguiam engolir. Deram paulada, deram soco e pontapé, só não deram tiro, porque aí já seria demais! E nada...

Tiveram que engolir o sapo barbudo. E deglutir. Porque, finalmente, um homem que se preocupa com o povo, porque veio do povo, estava no poder. E aos trancos e barrancos, levando trombadas e pulando obstáculos, aí está o Brasil de 2009 a enfrentar os desacertos de um mundo em ebulição econômica, numa das maiores encrencas que o capitalismo podre podia engendrar, com suas políticas selvagens. O Brasil liderado por um metalúrgico que não tem curso superior, nunca caçou marajás, não tem o pó das minas nem o visgo do café, não tem marimbondos de Academia, nem pretende ser mais do que é: aquele que conseguiu tirar o atraso e os desencontros de uma democracia recém-fundada.

Chiem e chorem, portanto, os viúvos de Sarneys, de Itamares e Fernandos, que é para frente que se anda: bons frutos só podem vir da boa árvore que os produziu. Qualquer outra solução é andar de novo para o atraso, para as políticas higienistas e antissociais de governos entreguistas que nunca se preocuparam com o povo.

Entenderam, então? Dois mil dez já começou. Esqueçam as pauladas, esqueçam as diatribes, esqueçam a mídia vendida e comprada. Não subam a serra, nem de Minas nem de São Paulo! Que o Brasil ainda tem jeito, se o povo não for enganado de novo!

fevereiro 25, 2009

SAIDAS PARA A CIDADE DE SÃO PAULO



Inevitável a piadinha infame: as melhores saídas para São Paulo são os aeroportos e as estradas. No entanto, há um fundo de realidade trágica nisso. Porque, realmente as melhores saídas para os problemas da maior cidade do Brasil é, mesmo, a médio e longo prazo, primeiro a estabilização e depois o decréscimo de sua população.

É absolutamente inviável que 20 milhões de pessoas convivam numa mancha urbana única, constituída por uma cidade imensa, a própria São Paulo, mais suas dezenas de cidades satélites, que formam a chamada região metropolitana.

Aliás, o próprio conceito de região metropolitana, aqui, se esgarça e não tem o menor sentido, porque não há uma só tentativa séria de coordenação de esforços entre as várias prefeituras que compõem essa megalópole. É cada um por si e os problemas para todos.

Os problemas são tão imensos, que nenhuma política isolada e de curto prazo tem a mínima possibilidade de resolver a situação. E nenhum, absolutamente, nenhum prefeito de São Paulo, nesses últimos quarenta anos, teve a ousadia de propor um planejamento honesto e orgânico que freasse o crescimento dessa cidade.

Qualidade de vida é um conceito que não passa pela cabeça de nossos alcaides. Porque não conhecem o passado da cidade, não têm olhos suficientemente agudos para ler o presente e não se importam nem um pouco com o futuro.

Somente o planejamento de longo prazo pode pontuar ações imediatas que impliquem melhoria de vida para todos. E ações que respeitem o passado e a geografia da cidade, seus usos e costumes. Os erros se acumularam de forma tão devastadora, que somente políticas e medidas corajosas poderão começar a resolver a situação.

Se falamos em diminuição da população, isso não significa adotar políticas segregacionistas em relação a migrantes de outros estados, mas pensar em termos de planejamento familiar, de impedimento de novas ocupações de solo, de incentivo a que as pessoas busquem alternativas de trabalho e de vida em outras cidades do interior, que não sejam próximas à capital, até mesmo na possibilidade de mudança da capital do Estado para uma região central.

E dentre os inúmeros problemas desse caos urbano chamado São Paulo, a questão das águas é prioridade absoluta. O planalto onde se situa a cidade possui uma malha inumerável de rios, córregos e riachos. O que se fez até agora eu considero um crime contra a humanidade (sim, contra a humanidade!): canalizaram os córregos e riachos, retificaram rios, construíram ruas e avenidas sobre as águas canalizadas e, onde ainda há água corrente à vista, ocuparam suas margens de forma estúpida e criminosa. E mais: drenaram baixadas e várzeas, que alagavam e traziam vida à cidade e hoje continuam alagando e trazendo morte e destruição. Porque os rios estão mortos, mortos pela sujeira que o homem despeja continuamente em suas águas, desde a merda de milhões até dejetos industriais altamente perniciosos.

E as regiões de mananciais? Ocupadas desordenadamente pelos grileiros, um crime impune porque não os criminosos sãos os mesmos que sempre mandaram nesta cidade e continuam mandando. Seus comparsas estão em todos os poderes constituídos, prontos a permitir que loteamentos clandestinos proliferem, como forma de aumento de suas rendas. E a vilas e bairros irregulares surgem da noite para o dia, a jogar sua sujeira nas represas, a destruir os pequenos rios e riachos que as alimentam. Alguns milhares de ocupantes ilegais comprometem o presente e o futuro de milhões. E não há governo – estadual ou municipal – que tenha coragem de mover uma palha para tirar essa gente de lá.

A poluição, em todas as suas formas, deve ser combatida, mas a poluição das águas tem de ser prioridade absoluta. Milhões foram gastos em obras no rio Tietê. Obras? Sim, obras, obras de aprofundamento da calha, de retificação do rio, para domá-lo, para encaixotá-lo e estrangulá-lo ainda mais num canal de cimento, de milhões de sacos de cimento. Quando o rio queria apenas seguir seu curso, livre de esgotos, de sujeira, com margens amplas que lhe permitissem subir docemente nos tempos chuvosos e alagar as várzeas e dar-lhe vida e lazer para a população.

O rio não quer cimento, quer espaço. Simples assim. Mas isso implica em mudar a cabeça gorda de nossos dirigentes, implica mexer com gente que se diz dona absoluta dos destinos do povo, gente que nunca, em momento algum, se preocupou com algo que não fosse o seu próprio enriquecimento.

O povo? O povo que se dane. Ou busque as estradas para, simplesmente, ir embora, já que nem condições de usar os aeroportos esse povo sofrido tem.

fevereiro 17, 2009

ESTÁ ABERTA A TEMPORADA DE CAÇA AO GOVERNO LULA




Que tenho sérias restrições aos políticos brasileiros, o meu artigo anterior não deixa dúvidas. Não gosto deles apenas por ideologia, mas principalmente porque acho que formam uma casta de gente que é mais igual que os demais. Uma casta privilegiada. E odeio privilégios.

Ainda mais: não há dúvida de que uma boa parte dos que se dizem políticos não passa de uma caterva de salteadores dos cofres públicos. Incrustados em todos, absolutamente todos, os partidos políticos. E sedentos de poder, pois, para eles, poder é dinheiro. Que leva a mais poder.

Assim, não posso de todo discordar do desabafo do senador Jarbas Vasconcelos, ao dizer que há em seu partido, o PMDB, uma súcia de ladrões e outras coisas mais. Isso não é novidade para ninguém.

Agora, o que me deixa com a pulga atrás da orelha é o veículo que o ilustre senador escolheu para suas diatribes, que não ficaram apenas no âmbito partidário, mas pretenderam atingir o Governo Lula: aquela nossa caquética revistinha semanal porta-voz do PiG (Partido da imprensa Golpista).

É público e notório o ódio que essa revistinha desavergonhada cultiva em relação a qualquer tipo de governo que tenha um pouco (basta um pouco, apenas) de preocupação com o povo. Lula é populista e quer o terceiro mandato (esquecem-se os bravos articulistas e repórteres da tal revistinha que o golpe de um mandato a mais foi dado e comprado pelo senhor Fernando Henrique Cardoso, a quem ela defende de unhas e dentes). Chávez é ditador. Fidel, sanguinário. E vai por aí a fora.

Também é publico e notório que, para a tal revistinha, o próximo presidente da República (só falta empossar, claro) é o senhor José Serra, para quem ela tece loas e propagandeia a capacidade há muito, muito tempo. Ou seja, desde antes do golpe do senhor Alckmin contra o Serra, para sair candidato à Presidência. Como veem, há certos partidos que entendem bem de golpes e contragolpes, porque depois o mesmo Serra deu a volta no Alckmin, na eleição para a Prefeitura de São Paulo.

(Um parêntese: depois de se estapearam quase em público o ex e o atual governador de São Paulo, será quanto levou o senhor Alckmin para se encantar com o canto da sereia e tornar-se Secretário do Desenvolvimento do governo Serra, hem? Quanto? Ou quais benesses e promessas? Não acredito que tenha sido apenas um golpe contra o Aécio, não: nesse angu, tem mais caroço do que pululam as nossas panelas quentes).

Voltando ao assunto: a campanha presidencial de 2010, para esses capachos do capitalismo selvagem e do neoliberalismo mais selvagem ainda, já se iniciou no dia seguinte à derrota do PSDB, nas últimas eleições. E tome Serra!

Mas, o que tudo isso tem a ver com a entrevista do senhor Jarbas Vasconcelos?

Não creio em inocentes úteis. Portanto, acredito que a entrevista e o veículo foram propositadamente orquestrados. Com um fim, um único fim: dar início a uma campanha do PiG contra o Governo, com vistas às eleições do próximo ano.

Jarbas Vasconcelos deu a senha: está oficialmente aberta a temporada de caça ao governo Lula.

A partir de agora, uma enxurrada de opiniões de medalhões da oposição (que, a meu ver, fazem o que se espera de uma oposição; até aí, nada demais que demos e tucanos soem as trombetas); de denúncias de corrupção, geralmente baseados em pequenos desvios do sistema corrupto que consome o tecido da política brasileira, mas orquestradas de forma a atingir diretamente o presidente Lula; de reportagens exaltadas contra qualquer obra do Governo, como sendo de conteúdo eleitoreiro (em ano anterior à eleição, toda obra é eleitoreira, para a oposição); de exaltação às ações, por mais simples que sejam, dos adversários do Governo, como o melífluo governador de São Paulo; enfim, vamos ter de aguentar o mais sujo e promíscuo vale tudo do PiG, numa aliança dos grandes jornais e revistas, das rádios e seus comentaristas, das televisões e seus apresentadores, contra tudo e contra todos que estejam no Governo.

Enfim, 2009 está apenas começando. Quem tiver estômago fraco que saia de baixo, ou seja, faça-se de morto: não ouça, não leia, não assine... não veja!

fevereiro 04, 2009

UM CLÁSSICO DO CINEMA DE HORROR: A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, DE DAN O'BANNON




O filme é de 1985. Recria, com sexo, drogas e rock’n’roll, um clássico de George Romero, Noite dos Mortos Vivos, de 1968. Um tema recorrente, portanto. E assustador: cadáveres que voltam à vida e se alimentam de cérebros humanos!

Brasil, 2009. Os mortos vivos fazem sua reentrée triunfal. E o pior: não é filme. Também não é o pesadelo que nos assusta em noites de tempestades e inundações. É realidade. Realidade vinda dos corredores e salões amplos do Congresso Nacional.

As duas cúpulas dos prédios projetados por Niemayer escondem perigos inimagináveis.

Mas, é melhor começarmos essa história pelo começo, para tentar encontrar algum sentido, se significado pode ter a ressurreição de tantos cadáveres (há um livro de Érico Veríssimo que trata também desse assunto, mas, por enquanto fiquemos com o filme, que está mais fresco na memória dos cinéfilos).

Não votei em Fernando Henrique Cardoso para presidente. No entanto, tinha-lhe certo apreço. E muito respeito. Afinal, era um homem de esquerda, ex-asilado político, professor emérito, intelectual reverenciado aqui e do outro lado do Atlântico. Tê-lo como presidente constituía, até certo ponto, motivo de orgulho, numa democracia incipiente como a nossa e depois dos desastres de governos anteriores (e não estou falando do regime de terror dos militares, não).
Enfim, democrata como sou, admirava FHC. Nos dois primeiros anos de governo. Aí, a coisa desandou: num golpe branco contra a democracia (porque não se pode chamar de outra coisa a não ser golpe o que aconteceu), o senhor Fernando Henrique Cardoso comprometeu seu passado e seu futuro político e o de seu partido – o PSDB – com a vergonhosa compra de um segundo mandato, via reeleição. Quebrou o Brasil duas vezes, para obter seu intento. E teve um dos mais pífios governos da história do Brasil, nos seis anos seguintes.

Reeleição. Um estatuto com o qual não concordo, nem em gênero, nem em número, nem em qualquer outra condição normal de temperatura e pressão. Inadmissível. E não concordo com reeleição nem para inspetor de quarteirão ou síndico de prédio. Ou seja: acho que se poderia ou deveria instituir um mandato de cinco ou seis anos, sem reeleição, para todos os cargos políticos, de vereador a presidente da República.

Por quê?

Para não termos de assistir à volta dos mortos vivos, que não voltam apenas uma ou duas vezes, mas sempre. Ficam lá, os mortos, pelos corredores do Congresso, esperando o momento certo de comer nossos cérebros e voltar ou voltar para comer nossos cérebros. Não descansam nunca, os mortos. Porque, a qualquer descuido, alimentados por paixões que não sabemos de onde vêm, alimentados pelas regras de um jogo sujo da política de reeleição a que nenhum político pode ou consegue escapar, de repente, eles abrem suas tumbas e ressurgem, impolutos, orgulhosos de seus trinta e tantos anos de vida parlamentar.

Isso acontece em Brasília e repercute em todas as mídias. Mas não é só lá, não, que os mortos vivos dão o ar fedorento de suas graças: em todas as câmaras municipais e estaduais, eles reaparecem com menor ou maior denodo, fazendo estragos, comendo cérebros.

E eles têm nomes, sim, os mortos vivos: chamam-se, no âmbito federal, José Sarney, Michel Temer, Collor de Mello, Heráclito Fortes, Renan Calheiros, Marconi Perillo, Mão Santa etc. etc. etc. Basta abrir os jornais, assistir aos noticiários da televisão, ouvir os comentaristas de rádios, que lá estão eles, firmes e fortes, sorridentes de seus podres poderes, famintos de nossos pobres cérebros, em seus ternos bem cortados e com suas gravatas de seda.

Culpados pela existência deles? Nós, pobres descerebrados, que os alimentamos com nossos votos, com nossa apatia, com nossa complacência.

Um horror, um verdadeiro filme de horror! Que não está em cartaz em nenhum cinema, mas em nossas consciências. E o pior: não tem sexo nem rock’n’roll. Só droga!

janeiro 24, 2009

UM MUNDO MAIS RACIONAL



Há muito, cheguei à conclusão de que a metafísica é uma das maiores fraudes do pensamento humano. Nela enfiados até o pescoço, não temos tido oportunidade de trilhar caminhos mais reais, caminhos menos penosos e menos enganadores.

Buscamos, por exemplo, a felicidade. E o que é a felicidade, senão mais um conceito metafísico, um ente inexistente, impossível de ser alcançado?

Temos, sim, momentos de satisfação, de alegria, de prazer. Que podem durar uma vida ou ser fugazes como uma chuva de verão. Alternados com momentos de desconforto, de dor, de insatisfação. Que também podem durar uma vida ou ser fugazes como o vôo da andorinha. E mais: entre esses extremos, vivemos. Porque a vida é assim, cheia de som e fúria, mas também um lago sereno.

Não precisamos perseguir uma categoria inexistente da metafísica, a tal da felicidade, para vivermos bem. Acho até que é o contrário: quanto menos nos preocuparmos com essa senhora improvável e impossível, mais temos o conforto da vida em toda a sua plenitude.

Nascemos para viver, não para sermos felizes ou para qualquer outra coisa. E a vida é o bem mais precioso do homem, por ser única. Não há nenhuma razão que me leve a acreditar que sobrevivamos à vida, que existe um paraíso, ou entes além-túmulo que nos protegem ou nos encaminham para uma outra existência. Acreditar nisso é enganar-se, pelo menos na minha opinião. Mas isso é problema de cada um, pois é um princípio de fé, e não de realidade.

A metafísica cria entidades abstratas.

E outra abstração a que nos dedicamos com imensa sofreguidão é o ente chamado humanidade. O que é humanidade? O conjunto de todas as características humanas, em oposição a todos os demais seres vivos? Bobagem. Quais são essas características humanas? A suprema, a que todos acham que define o homem, a inteligência, não é privilégio do ser humano. Todo ser vivo é provido de inteligência. A nossa pode ser, teoricamente, mais desenvolvida, mas dominamos a Terra não por causa única da inteligência, mas principalmente porque desenvolvemos a capacidade de nos adaptarmos e, assim, sobrevivemos a catástrofes e às adversidades.

Nem a racionalidade nos distingue. Porque não sabemos bem o que é ser racional. Cometemos tantos atos insanos, tantas loucuras, como assassínios, tortura, guerras, genocídios e muitos outros horrores, que duvido seriamente de que todos os homens sejam seres racionais. Os animais agem com muito mais pragmatismo do que o homem: reagem à ameaça ou à fome. Assim, não se tornam assassinos. Só algumas espécies mais “avançadas” de símios (nossos irmãos, portanto) atentam contra a vida por outros motivos que não esses.

Rejeito todas as metafísicas. Rejeito todas as utopias.

Não posso admitir outra forma de convivência que não seja aquela baseada no respeito. Respeito ao consenso. Respeito à maioria. Sem fanatismos. Sem imposições.

Não quero a cabeça dos déspotas espetadas no alto de fogueiras, nem enforcados em patíbulos públicos. Mas não os quero por perto, também. Longe deles, somos mais humanos. Ou tornamo-nos mais humanos.

Rejeito a imposição pura e simples de formas de governo alienígenas e defendo o direito de cada povo decidir seu destino, sem deuses, sem altares, sem perseguições. O homem só é lobo do homem, quando defende ideologias. Abaixo, portanto, todas as ideologias, estejam elas de que lado estiverem do espectro político.

O socialismo laico pode ser um bom sistema. Desde que sem burocracias e imposições. O Estado não pode ser ditador nem omisso. Há que se justo e ter o tamanho certo para atender as necessidades de seus cidadãos e mantenedores. Nenhum homem tem o direito de apontar para o horizonte e dizer que o caminho certo é este ou aquele. Só a vontade soberana das pessoas, sem a manipulação dos poderosos, pode decidir os destinos de um povo.

Mas que em cada constituição, de cada país, esteja escrita e declarada e devidamente aceita como cláusula pétrea a política de não agressão, o compromisso com a paz. Nenhum povo tem o direito de declarar guerra ao outro nem de provocá-lo à guerra. O respeito entre as nações é a base mais sólida para um mundo melhor. E isso não é utopia. É necessidade.

Os recursos que se desperdiçam com ao aparato militar, com exércitos, armas, mobilizações, campanhas e lutas inúteis seriam e serão aqueles que devem ajudar a estabilizar a economia mundial e tirar da miséria absoluta milhões e milhões de seres humanos. E isso também não é utopia, é sobrevivência.

A Terra é um planeta de recursos finitos. O ser humano não pode continuar a transformar-se no vírus que a destruirá e destruirá a vida. É necessário um controle rigoroso da população em relação com os recursos disponíveis. E isso não é utopia, é não matar o planeta em que vivemos e nos matar, também.

A democracia tem inúmeras facetas, muitas variáveis, dezenas de aplicações, mas é o único sistema que garante uma tentativa em direção a uma igualdade entre os homens e mulheres. Nada, absolutamente nada, pode atentar contra os regimes democráticos. O que não quer dizer que se possa impor a democracia pela força a qualquer outro povo. O efeito testemunho é sempre a melhor forma de disseminar a democracia.

Desejar e trabalhar para que os homens entendam que o respeito entre si, o respeito entre os povos é o único caminho para alcançar a estabilidade e salvar o planeta, o único caminho para garantir a sobrevivência do próprio homem, isto não é utopia: é, sim, e inelutável e única possibilidade que temos de afirmar perante nós mesmos de que somos capazes de construir um mundo mais racional.

janeiro 21, 2009

NEM TUDO QUE RELUZ É OURO



Essas seitas pentecostais que grassam pelo Brasil e pelo mundo crescem e prosperam à custa de muito embuste, muita enganação, muita saliva para cima de seus fiéis seguidores. A maioria tem por dirigentes verdadeiros picaretas, que enriquecem graças ao dízimo de pessoas que acreditam poder comprar um lugar no paraíso dando dinheiro para pastores desavergonhados e impudicos que têm fazendas imensas, haras de plantéis caríssimos, mansões no Brasil e no exterior, redes de televisão e muito mais coisas do que possa sonhar nossa imaginação.

Não pagam impostos, ou sonegam vergonhosamente a parte que a tributação cobra. Tornam-se poderosos. E temidos. Não se pode falar deles, que arrotam o argumento de perseguição religiosa. A imprensa os teme; os órgãos públicos são coalhados de fiéis seguidores dispostos a dar qualquer tipo de jeitinho para impedir que processos avancem, que denúncias cheguem aos órgãos competentes ou a instâncias superiores. Colocam-se acima da lei e da justiça. Em nome de deus, de Jesus, de seus credos, encastelados em receitas prontas de fanatização de um público não apenas fiel, mas rebanho cego, surdo e burro.

Quando acontecem acidentes, como o que matou nove pessoas ao desabar o teto do templo da famigerada Renascer em Cristo, no bairro do Cambuci, em São Paulo, deixam no ar os seus dirigentes mentirosos e mal informados a idéia de que, afinal, acidentes acontecem por obra e graça de Deus e que os fiéis mortos tiveram a sua graça para alcançar o paraíso, numa desfaçatez que nenhum órgão de imprensa denuncia.

Igreja é negócio. E como negócio dos mais lucrativos, não tem essa de não pagar impostos. Se o fiel quer ser enganado e espoliado de seus bens, de seu salário, para enfiar na garganta dos falsos milagres de pastores que fingem tirar demônios do corpo de pessoas que se prestam à palhaçada por uma graninha a mais no bolso ou são sugestionadas pelo clima de terror que eles criam em seus cultos, brandindo a bíblia e usando e abusando do discurso apocalíptico, que esses fiéis doem seus bens, mas que a igreja, os pastores e dirigentes paguem impostos como todos os demais cidadãos desse País.

Que seus templos sejam devidamente vistoriados e muito bem vistoriados pelos bombeiros e pelos fiscais da Prefeitura; que sejam construídos de acordo com as normas de segurança do Município; que tenham proteção acústica contra a gritaria para um deus surdo que atormenta vizinhos como se fosse um estádio de futebol, com o agravante de que ocorre a qualquer hora do dia e da noite; que não se permitam templos a torto e a direito, em qualquer salão improvisado, sem nenhuma segurança, onde os tais fiéis são recebidos como gado num matadouro.

Isso não é perseguição religiosa, não. Isso é preocupação com a segurança dos próprios seguidores desses cultos, é respeito às leis e aos demais cidadãos. Se eu tenho preconceito contra esses cultos, por achar que são apenas igrejas caça-níqueis, eu tenho todo o direito de me manifestar, sim. Sou cidadão, vivo num País livre e tenho liberdade de criticar a quem quiser: nenhuma autoridade está acima do meu direito de protestar, de criticar, de exigir que as leis sejam cumpridas.

Perseguição religiosa é o que fazem esses cultos pentecostais uns contra os outros ou contra seitas que seguem princípios diferentes dos seus, como os cultos afros, que são discriminados e considerados cultos ao demônio, como se cultuar o demônio ou qualquer outro ser ou deus fosse proibido. A inquisição católica terminou no século XVIII, mas muitos desses fanáticos pastores bem gostariam de revivê-la, de reacender as tochas para alimentar fogueiras e queimar vivos os seus críticos, como bruxos e bruxas de antanho. Felizmente outros são os tempos, mas a forma como se defendem, atacando seus pretensos inimigos ou críticos nos faz temer que, afrouxada a lei, coisas muito ruins podem advir dessa gente.

Seus templos fulgurantes escondem mazelas e armadilhas aos incautos, como verdadeiros mangues ou areias movediças. Nem tudo o que lá parece tão belo, tão puro, tão iluminado, é realmente aquilo que aparenta. A voracidade dos tais pastores e bispos e bispas e não sei mais que falsos títulos eles se atribuem leva a que os seus fiéis sejam explorados ao limite de seus bens, de suas forças. Há pessoas que gostam, porque acham que recebem graças, ou que receberão benesses no outro mundo. Pobres diabos. Deles temos dó, por eles alertamos contra as armadilhas desses templos, embora saibamos ser inúteis quaisquer admoestações, cegos que ficam todos eles pelas falácias e pelas falsas promessas.

Enfim, que não se venha com argumentos de perseguição religiosa para a punição dos irresponsáveis que tratam o seu povo, o povo que lhes dá a riqueza em que eles chafurdam, como os porcos que são mais iguais do que os outros da fábula de George Orwell, como idiotas que merecem morrer, porque são os tais justos que irão herdar o reino dos céus. Já que é impossível acabar com essa exploração, que pelo menos os tais irresponsáveis sejam punidos, exemplarmente punidos, pelas leis humanas, como forma de se evitarem tragédias que ainda poderão ocorrer por esse País afora, em nome da ganância de poucos na exploração de muitos.

janeiro 07, 2009

NOVA IDADE



Anoiteço. Ainda não o lusco-fusco do fim do dia, mas a curva descendente para a noite. Aquele tempo em que não se comemora mais um ano, e sim, lamenta-se menos um ano. Deprimente? Talvez. Mas assim a vida é, assim somos nós, pobres mortais.

Viver é morrer um pouco a cada ano, a cada mês, a cada dia, a cada minuto, a cada segundo. A areia que cai da clépsidra não retorna, mesmo que invertamos o fluxo. E viver é também contar os que ficaram nos obstáculos da vida, desde os mais simples, como a escolha de parar de viver (eu disse simples? – que idiota!) até os mais complexos, como o definhar-se em longos leitos brancos de casas que não são as nossas. Eles, os que ficaram pelos caminhos, estão lá, inúteis e belos no seu momento. E nós, aqui, envelhecendo com suas lembranças. Melhor deixá-los.

Olho-me no espelho. Não sou eu, claro, aquele velho gordo e grisalho que me olha, desconfiado. Sorrio. E reconheço o sorriso, mesmo disfarçado pelo grotesco do tempo. Consolo-me: ainda sorrio como soía. Mas dói. Esta a imagem clássica: o velho que procura o jovem nos traços obtusos do espelho. Caio na armadilha. Sabendo, embora, que, literariamente, e só literariamente, esse truque funciona. Lembra-me Dorian Gray e almejo um espelho que fosse a verdade e um jovem que fosse mentira. Ah, a literatura!

Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse. Não sei mais agora do que sabia antes, não pude antes mais do que posso agora. Jogo com as palavras, buscando consolo ou isso é a mais pura verdade? Não sei. Apenas sei que não me acho o velho sábio que um dia disseram que eu seria, e já não tenho o frescor de quando consolavam minha ignorância. Mais um truque de quem não se conforma com o que vê?

Ah! gostaria de não me conformar. Realmente, gostaria. Pintar os cabelos, arrepiá-los como vejo os dos jovens de hoje (e rio-me das tantas toucas para amansar os rebeldes cabelos de criança!); vestir uma daquelas bermudas largonas de não sei quantos bolsos; comprar o tênis mais caro da loja mais chique; orgulhar-me da camiseta de banda, com uma caveira brilhante; e muitos, muitos piercings, no nariz, na orelha, no umbigo... e nem me importar que fosse tudo isso muito, muito ridículo para a minha idade, principalmente ao limitar o vocabulário a meio dúzia de tá ligado, é isso aí!

Não, isso é bobagem. São delírios dessa merda que chamam de terceira idade, para nos domesticar, para nos colocar no nosso mundo, no nosso tempo, como se nós, os jovens de mais de sessenta pudéssemos ser todos empalhados e colocados à visitação publica numa estante envidraçada de um museu de história natural.

Mesmo que tempo faça em todos os homens e em todas as mulheres os mesmos estragos (que nem silicone e cirurgia resolvem, depois da algum tempo), é sábio o suficiente o tempo para passar de modo diferente para cada um. Carrego comigo, como indivíduo único, alegrias, tristezas, experiências e caminhos que nenhum outro ser humano pode compartilhar. Por isso, não me importa que o velho gordo e grisalho ria de mim no espelho: dou-lhe uma banana (que ele retribui) e solto uma gargalhada, que ele não sabe como imitar.

E vou em frente, nessa nova idade. Ou novidade.

dezembro 27, 2008

A CANOA FURADA DA MÍDIA ISENTA, OU MESMO, HONESTA




Não sei se conseguirei , sobre o tema a que me propus neste artigo, dizer tudo o que eu penso e de forma sucinta que não leve algum pretenso leitor ao tédio e à desistência. O que eu sei, apenas, é que o assunto é complexo, polêmico e árduo. Tentarei, pois, enxugar o pensamento e, para isso, abandono de imediato esta já meio longa introdução, para ir direto àquilo que desejo discutir.

A realidade. Parece estar diante de nossos olhos. Fácil apreendê-la e compreendê-la, portanto.

Ledo engano. Temos, do mundo que nos cerca, somente uma visão parcial e completamente deturpada por nossos olhos, imperfeitos e limitados; por nossa weltanshauung, tão variada e complexa quanto cada cabeça pensante existente no mundo; por nossa herança genética, de resultados imprevisíveis; pelo meio em que vivemos, que tanto influenciamos quanto por ele somos influenciados; por nossa educação, a que se juntam tanto os elementos próximos, como pais, parentes,mestres, amigos e conhecidos, quanto distantes, como toda a rede de conhecimentos que nos chegam através de todos os meios e de todos os nossos sentidos; por todos os elementos que nos cercam e que contribuem para que olhemos o mundo com um viés próprio e absolutamente diferente de todos os demais.

Uma paisagem, por exemplo. Mesmo que duas pessoas conseguissem sobrepor os seus olhos para contemplá-la, ainda assim veria cada uma um aspecto, um detalhe, uma cor que o outro não conseguiria captar, além de obter impressões totalmente diferentes a partir de estados diferentes de consciência, de pensamento, de conhecimento. A mesma paisagem poderia despertar indiferença em mim e saudades em você.

Se conseguíssemos reunir todos os olhares de todos os homens, desde o mais primitivo ser humano que surgiu sobre a terra, teríamos um painel tão absurdo de realidades, que seria tudo, menos a própria realidade.

Portanto, se há apenas uma natureza, uma única realidade, há tantas interpretações quantos são os indivíduos que a contemplam.

Dito isso, é preciso ficar claro: não há isenção. Ou seja, não existe nenhuma possibilidade de que aquilo que eu digo, escrevo ou comunico não esteja contaminado definitivamente por minha visão de mundo, por minha weltanshauung.

Nenhuma mídia (jornal, televisão, revista, internet), nenhuma arte (literatura, escultura, pintura etc.), nenhum ato humano, afinal, são descolados do ponto de vista de quem os emite, porque todo ser humano tem a sua própria e inconfundível visão de mundo, como se fosse uma espécie de registro único, uma impressão digital.

A grande ilusão humana é querer juntar uma grande quantidade de pessoas sob um mesmo guarda-chuva ideológico, como a religião, por exemplo. O cristianismo pode ter alguns bilhões de seguidores, mas certamente cada indivíduo que se confessa cristão professa a sua crença de forma diferente dos demais, embora não o perceba ou não seja capaz de detectar as infinitas nuances de sua fé em relação a todos os outros indivíduos.

E a grande ilusão de aglutinar tudo em grandes blocos de pensamento nasceu e desenvolveu-se a partir da criação do pensamento metafísico, que consiste em criar um mundo paralelo, um mundo além do mundo, uma projeção perfeita de uma realidade que nos parece imperfeita porque não a apreendemos nem a compreendemos em sua totalidade. Assim, existe o mundo que vemos, com todas as suas limitações e deformações promovidas por nossos sentidos, e o mundo mágico, ilimitado, organizado em torno de leis imutáveis. Perfeito. Nele habitam nossas almas, nossos anseios. E nele habita o deus ou os deuses que criamos para nos proteger e a quem entregamos nossos sonhos.

A metafísica, dizem, descobriu-a os gregos. Mas já existia muito antes deles, desde que o primeiro homem teve consciência de que não conseguiria explicar fenômenos que ele não compreendia, como a vida e a morte, ou toda a gama de sentimentos físicos ou provocados por um cérebro que se desenvolvia e que se transformava numa usina de conhecimentos, de criatividade e de consciência da realidade.

Voltando à mídia e à comunicação humana que são, na verdade, o objetivo de discussão desse emaranhado de idéias a que tento ordenar, talvez meio canhestramente: se eu escrevo, aqui, essas linhas, está claro que o que eu penso está contaminado por aquilo que eu sou e, quando me comunico, ou tento me comunicar, o meu objetivo, por mais que eu queira ser isento, será sempre trazer o meu receptor (ouvinte , leitor etc.) para dentro de minha visão de mundo, ou seja, eu quero influenciá-lo. Este o objetivo da comunicação entre os homens: tentar influenciar uns aos outros.

Quando, por exemplo, um jornal, se diz isento, ele está mentindo. Está sendo desonesto, na sua comunicação, porque está vendendo como verdade a mentira da isenção. É humanamente impossível uma comunicação, por mais simples que seja, não ter a finalidade de influenciar o outro. Porque em tudo que comunicamos trazemos indelével e definitivamente a marca de tudo aquilo que somos, de tudo aquilo que nos formou como indivíduos.

Vamos a um caso simples: os Estúdios Disney, que todos conhecem. Tudo o que a Disney faz, desde o primeiro desenho de seu fundador, tem por características, primeiro, a busca da excelência do produto, em termos formais; em segundo, tudo, absolutamente tudo, está contaminado por um ideal (que credito também ao pensamento do fundador): a transmissão e a fixação dos valores e princípios que norteiam a sociedade estadunidense, que podemos, de acordo com nosso ponto de vista, achar que são válidos para o mundo todo (como acham os que trabalham nos, para e com os Estúdios Disney) ou achar que são um veneno para as demais seres humanos.

No Brasil, os grandes conglomerados midiáticos têm, todos, absolutamente todos, a sua ideologia, que se reflete em cada linha ou em cada evento que eles patrocinem, publiquem ou divulguem. Não há como escapar.

Você pode eleger, de acordo com critérios pessoais (e também aí está presente a sua weltanshauung), a mídia mais honesta, ou aquele jornal ou revista ou canal de televisão que menos tenta manipular seu pensamento, embora saiba que todos eles o fazem. Mesmo aquela mídia que parece cometer certas incoerências, que costuma vender camufladamente com o nome de isenção o dar a palavra ao contraditório, no fundo, o que faz, sempre, e em todos os momentos, é tentar fazer você engolir o peixe deles, ou seja, a sua ideologia.

Exemplifico: a poderosa Rede Globo, entre outros princípios, tem e transmite sempre uma ideologia católica romana. No entanto, em nome do entretenimento (que é o seu guarda-chuva maior, no ramo, tanto que até os seus jornais são leves e agradáveis, mesmo quando transmitem a mais negra tragédia), permite-se levar a seus telespectadores um filme como “O Código da Vinci”, uma bobagem, uma brincadeira, mas uma grande bobagem anticristã, anticatólica, condenada veemente pelo Vaticano. Isso é isenção? Claro que não. É apenas manipulação da mente, ao dizer: olhe como nós somos isentos, permitimos que você assista a esse filme. Na verdade, de forma sutil, quer dizer: é uma grande brincadeira ficcional, senão não o estaríamos veiculando, ou seja, reafirma os valores cristãos através da exposição do contrário

Assim, para concluir esse já longo arrazoado, que não sei bem se tem a clareza necessária para a compreensão de todos, o que eu quero, mesmo, é influenciar um ou outro possível ou provável leitor para a minha ideologia. E se esse leitor tiver um pouquinho, só um pouquinho de paciência,para atentar para as minhas palavras, perceberá muito bem qual é o pensamento que norteia o que eu disse e qual, enfim, é a minha weltanshauung. Porque é assim que devemos ver a mídia que nos massacra em todos os momentos de nossa vida: com cuidado e com visão crítica, embora embarquemos a todo instante em canoas furadas que eles nos vendem, como a isenção ou, mesmo, a honestidade de seus propósitos.

dezembro 22, 2008

AFINAL, QUE MUNDO É ESTE?



Vou falar principalmente da geração que viveu os anos 60 e 70. Intensamente. Uma geração pós-guerra que mudou, para sempre, as relações entre os homens e entre os sexos. Uma geração que encontrou um mundo cheio de preconceitos e ainda bastante arcaico e, a duras penas, conseguiu deixar um legado. Talvez discutível. E nem sempre foi o melhor dos mundos o que essa geração construiu, mas foi o mundo possível, dentro das circunstâncias.

A Grande Guerra mudou a relação de trabalho, nos países envolvidos. O esforço de guerra tirou as mulheres dos lares para as fábricas e fixou a idéia de que as diferenças entre os sexos eram fruto de mais de dois milênios de crenças e crendices. E os homens e mulheres que nasceram logo após souberam tirar proveito disso, encontrando nesse cadinho confuso de idéias o mote para a chamada revolução sexual.

O mundo bárbaro das guerras, dos conflitos, dos jogos de interesse, no entanto, ainda está aí, a nos atormentar, nas lideranças de homens que jogam o tempo todo com noções de poder e com a manipulação de conceitos arcaicos. No entanto, um novo conflito mundial ou o surgimento de doutrinas nazi-fascistas e assemelhadas, hoje, encontram e encontrarão dificuldade de prosperar, diante do poder de comunicação alcançado pelo homem, capaz de interferir diretamente, com suas opiniões e seus protestos, em quase todos os pontos do globo.

Globalizamos o mundo, que já era globalizado desde as grandes navegações, de um modo diferente. Não resolve todos os problemas, mas leva a que as nações e os seus líderes manipulem com menos facilidade as mentes e as opiniões.

A Europa uniu-se, meio a trancos e barrancos. Um avanço importante, tão importante quanto alguns recuos, como a volta de certa xenofobia. O Oriente nos ameaçou e nos ameaça com o terrorismo de alguns poucos em nome da grande maioria. Cristo e Maomé, mais do que nunca, parecem inimigos. Mas, temos, hoje, mais instrumentos para lidar com essas diferenças do que tínhamos na época das cruzadas. Só os idiotas, como Bush e Bin Laden, não sabem disso.

A África aguarda o seu resgate. Uma dívida que todos os homens temos para com o continente de onde, provavelmente, todos viemos. A China já é a potência que há quarenta anos vislumbrávamos com temor ou orgulho. Enquanto países como Rússia, Brasil e Índia tentam elevar-se à categoria de potências. De emergentes, viraram interferentes na imensa onda global. Não há mais papéis secundários no jogo da política internacional: são todos protagonistas.

As diferenças sociais e econômicas ainda são imensas. Mas, também nesse campo, temos condições de melhorar e crescer e fazer com que o mundo não chore mais por surtos de fome, de doenças, de grandes catástrofes, como até agora tem chorado. Falta vontade, apenas, vontade política. Aliás, retiro o apenas, porque a vontade política do homem para a melhoria do mundo em que vive passa, obrigatoriamente, por um longo período de esforço de convencimento de líderes ainda empedernidos. Chegaremos a convencê-los? Só a democracia e o esforço de todos poderão fazê-lo. Não importa quanto tempo demore.

A questão climática, a meu ver, pode ser a oportunidade única para que o homem consiga salvar-se de si mesmo. Sua discussão mal começou, mas, quando todos se conscientizarem de que é preciso recuperar o planeta, senão o homem desaparecerá de sua face, talvez esteja aí a grande motivação para que se superem as divergências e se busquem novos caminhos de paz e de respeito entre os povos e entre as pessoas.

No varejo, muita coisa mudou. Será inútil listar os detalhes. Preconceitos caíram. Muitos outros ficaram. A democracia avançou. E democracia, no seu sentido mais amplo, de oportunidade para todos. De superação das diferenças. Tanto no campo social quanto sexual. Ou, pelo menos, construímos teorias e avançamos cientificamente no sentido de superar conceitos e crendices que nos impediam de propor novos desafios no campo do conhecimento.

Ainda em termos de avanço social e político, demos passos importantes, como a recente eleição de Obama nos Estados Unidos e, antes, a de um presidente operário no Brasil. Coisas impensáveis naquele mundinho herdado por essa geração, com a sociedade devidamente dividida em compartimentos estanques e reacionários. São fatos de que devemos nos orgulhar, e não execrar, como muitos ainda o fazem, imbuídos, talvez, das velhas idéias que demoram a morrer. E não há, aí, qualquer viés político-partidário. Não se precisa gostar de algo, para reconhecer-lhe a importância.

Enfim, um mundo complexo foi o que essa geração pós-guerra está deixando para os jovens de mais de trinta anos que começam a tomar a direção das coisas. Um mundo de certezas e de dúvidas, mas um mundo um pouco melhor do que aquele que emergiu dos grandes conflitos do século vinte. Há ainda muita barbárie no homem, mas já demos um passo, um passo pequeno como o do primeiro passo do homem na Lua, mas um grande salto, se olharmos com olhos críticos a história do homem.

dezembro 18, 2008

BENTO, BENTINHO, QUE TE QUERO CASMURRO



O Bruxo de Cosme Velho deve estar quase feliz. Seu nome corre por todas as mídias. Comemora-se bem a sua caturrice. Um sorriso, o máximo que se pode conseguir dele, já velho e casmurro, viúvo inconsolável, assoma em seus lábios encarquilhados, enquanto perambula pelo velho casarão. Abre e lê os jornais. Vê a televisão. Compra revistas bem editadas. A tudo aprova, batendo na beira da cadeira de balanço com seu velho pincenês, enquanto se diverte por dentro com tantas e tantas análises feitas de sua obra.

Pois é, podemos imaginar a cena. Afinal, tudo é possível, em se tratando de Machado de Assis. Só não é possível deixar de reconhecer sua importância, sua grandeza, sua genialidade.

O maior escritor brasileiro, talvez um dos maiores do mundo – sou obrigado a curvar-me, mesmo admirando um Rosa ou um Graciliano, tão grandiosos quanto ele – tem, no seu centenário um momento raro de reconhecimento desse povo que lê tão pouco e que precisaria realmente reencontrar seus grandes autores.

Machado já tem aquela aura que o tempo dá aos que são eternos. Além de ter nascido no século XIX, um dos mais prolíficos séculos das letras de toda a história da humanidade e ter vivido aquele momento transformador que formou nossa consciência, nossa cultura.

Mas, do que eu quero falar, mesmo, nesse breve e despretensioso artigo, é de Don Casmurro, o romance-enigma, a obra mais comentada de Machado, tendo já direito a filmes, a mini-séries na televisão, a centenas talvez milhares de artigos a falar, quase todos de... Capitu.

A mulher de olhos de ressaca tomou corações e mentes. Lê-se romance para entender Capitu, para falar de Capitu, para buscar razões de Capitu, para decifrar o mistério de Capitu. Quando, na verdade, pelo menos em minha opinião, o grande mistério, a grande personagem não é Capitu, mas Bentinho.

Não há dúvida de que Capitu é uma grande personagem, mas é criação de Bentinho, vista e observada por ele, o narrador que vive a vida através do espelho Capitu, para mostrar a si mesmo, para se criar como personagem. A que assistimos, então, ao acompanhar a saga de Capitu, vista pelos olhos de Bento? A transformação lenta de um menino em homem e desse homem em um ser amargo, casmurro, ensimesmado e duro.

Dom Casmurro é um romance alquímico: Machado coloca no cadinho da dúvida de Bentinho toda a sua arte de escritor, desvelando pouco a pouco aquilo que a vida faz de um ser humano ao longo de sua trajetória em busca do conhecimento, do autoconhecimento. E não deixa pedra sobre pedra, nessa construção amarga. O pessimismo do autor destila em cada linha, em cada palavra, a mensagem cruel de que é preciso duvidar, de tudo e de todos, para encontrar a sabedoria, mesmo que nos arrisquemos a nos tornar tão amargos, que os amigos nos alcunhem de Casmurro, tendo o dom sido acrescentado pela ironia da situação.


Dom Casmurro, e não Capitu, na verdade, é a grande personagem de Machado, a despeito de tudo o que já se escreveu sobre ela. Que me desculpem as mulheres e aqueles que adoram ficar na duvidazinha meio besta da traição ou não de Capitu.

dezembro 10, 2008

SOMOS TODOS MUITO COMPLACENTES

(L'assassin - Edvard Munch, 1910)


Vou meter minha colher num assunto complicado. Complicado e polêmico. Que não deverá agradar a muita gente, diria, até, que não agradará à maioria quase absoluta dos seres humanos. Mas, vamos lá. Verité oblige.

A crença deísta baseia-se e se desenvolveu na mais estúpida forma de filosofia criada pelo ser humano, a metafísica. Acreditar na simples possibilidade de que há um mundo etéreo, além do real, fez-nos reféns de crenças absurdas, que cultivamos desde tempos imemoriais. Crenças que destroem no homem qualquer possibilidade de uma melhor compreensão de si mesmo e dos fenômenos naturais.

Somos fruto de um longo e aleatório processo evolutivo, natural, harmônico às vezes, cruel, na maioria das vezes, por envolver a luta de forças poderosas e antagônicas. Da batalha evolutiva de bilhões de anos, aqui estamos, um estágio da célula primeva, mas um estágio. De onde viemos exatamente e para onde vamos, como seres vivos, não sabemos e talvez não venhamos a saber nunca. Isso, porém, absolutamente, não importa. Porque, dentro da linha evolutiva, uma geração de humanos é um nada, um milésimo de milímetro em bilhões de quilômetros percorridos e a percorrer. O tempo, o nosso tempo, é tão finito e vago como o piscar de um vaga-lume na escuridão da noite.

Criar a possibilidade absurda da permanência, através de uma alma imortal, determinou um tipo de pensamento mágico que persegue o homem desde os primórdios de suas mais primitivas estruturas mentais. A metafísica contida nessa magia destruiu sua capacidade de pensar logicamente em suas origens e destino. Deuses e rituais mágicos são, apenas, conseqüência de uma necessidade absurda de imortalidade, como se, criado por criatura surgida dessa necessidade, ele tivesse que sobreviver para comprovar a si mesmo que é o produto máximo dessa pretensa criação. É, portanto, a demonstração mais acabada de nossa arrogância, mais até que fruto da ignorância.

A civilização dos homens fundou-se, então, em princípios deístas, metafísicos, de crença em deuses, profetas, vida além da morte e todos os demais ritos e pensamentos ilógicos daí provenientes. Um manto perverso de miséria e cegueira cobriu, talvez para sempre, a capacidade do homem de se ver como um produto da evolução, como um animal evoluído, e não, como pregam as metafísicas deístas, um anjo decaído, uma criatura formada à imagem e semelhança de um criador que tem todas as qualidades que o ser humano, individualmente, gostaria de ter, para se imortalizar.

As conseqüências disso estão aí: todas as religiões, todas as seitas, todas as filosofias deístas condenam a vida e exaltam a morte. São crenças de adoração a deuses mortos que ressuscitam, a deuses que prometem benesses celestiais, a deuses que condenam o pretenso materialismo dos seres humanos e enaltecem o espírito, seja lá o que queiram dizer com esse tal de espírito. Tão forte a idéia, que o termo se tornou absolutamente banal, e sinônimo de todas as boas qualidades do homem. Um absurdo completo!

Cultuar a morte é dar pouco valor à vida. Afinal, a vida só começa, mesmo, com a salvação prometida pelo deus. No céu, no paraíso, no tal outro lado da vida. E não adianta dizer que, nesses milhares e milhares de anos de civilização e de documentação, não há uma só prova, uma única, de que alguém tenha voltado de além-túmulo, ou sobrevivido à morte. Os deístas apresentam como provas milhões de falsos testemunhos, de meros desejos ou, mesmo, de inúmeros casos da mais clara prestidigitação, para encher os ouvidos e as mentes dos crentes no poder de deuses que nunca, em tempo algum, alguém viu ou com eles alguém teve contato que se provasse cientificamente.

Então, morrer é o que de menos pior pode acontecer ao ser humano. Mesmo que a morte de um ser querido nos atormente e nos faça sofrer. Resignamo-nos, porque, primeiro, é vontade do deus; segundo, porque deverá estar, o ente querido, no paraíso ou ao lado desse deus; terceiro, porque iremos todos nos reencontrar um dia, seja quando morrermos, seja num pretenso juízo final.

Então, matar também não faz muita diferença, embora condenemos o assassínio. Condenamo-lo, em termos. Porque lhe perdoamos. Afinal, a vontade de um deus cumpriu-se pelas mãos de um mortal, também filho desse deus. Choramos muito os assassinados, os que morrem pelas mãos de outro ser humano, mas, no fundo, nos consolamos. E queremos, mais que a justiça dos homens, a justiça divina.

Por isso, quando vejo o desespero nos rostos de pais, mães, irmãos, familiares e amigos de pessoas assassinadas inutilmente em nossas ruas, em nossas cidades, em qualquer lugar, seja por balas perdidas, seja por bandidos e assaltantes, seja por terroristas ou soldados em campos de batalha, não consigo deixar de pensar em como somos todos tão complacentes com esses assassinos. Em como pedimos inutilmente justiça aos homens, quando, na verdade, só confiamos, como idiotas ancestrais, na tal justiça divina que alimenta todos esses assassinatos.