novembro 22, 2021

COLABORACIONISTAS

O TEXTO ABAIXO REFLETE O QUE EU PENSO, POR ISSO AÍ ESTÁ PARA A DEGUSTAÇÃO DOS LEITORES DESTE BLOG, ASSIM COMO UMA FORMA DE MANTÊ-LO VIVO NA INTERNET, MUITO ALÉM DAS REDES SOCIAIS, NO CASO, DO FACEBOOK, DE ONDE O RETIREI.



Ao final da Segunda Guerra, com o avanço das tropas aliadas, Paris foi libertada. Explosão de alegria, comemoração e, como seria mais do que previsível, com muitos «acertos de contas» com os franceses que colaboraram com o exército de ocupação. E não foram poucos. Sob argumentos diversos muitos franceses seguiram suas vidas quase que normalmente apesar de toda a destruição civilizacional que os nazistas impunham. Não foram poucas as fracesas que, alegremente, namoraram soldados alemães e se deitaram com oficiais nazistas. Muitos comerciantes enriqueceram como fornecedores dos inimigos, muitos funcionários públicos, principalmente no judiciário, progrediram em suas carreiras por fazer o que deles esperavam os fascistas.

Libertos do fascismo alemão milhares de «colabôs» foram expostos à execração pública, e vários deles foram forçados a humilhantes desfiles pelas ruas em centenas de cidades francesas, cabeças raspadas, mulambentos.

Viveremos algo semelhante no Brasil quanto terminar a ocupação bolsonarista dos espaços públicos e institucionais?

Pensando sobre isso hoje topei com o texto do Márcio Sotelo Felippe sobre as similitudes entre a França ocupada pelos nazistas e o Brasil ocupado pela burrice, pela crueldade e pelo mau-caratismo bolsonarista.



Colaboracionistas


"Em um artigo publicado em 1944, A república do silêncio, Sartre escreveu que os franceses nunca foram tão livres quanto no tempo da ocupação alemã. Um chocante e brilhante paradoxo que só a grande Filosofia, como exercício de pensar fora do senso comum, é capaz de produzir. Por que os franceses eram livres se todos os direitos haviam sido aniquilados pelos alemães e não havia qualquer liberdade de expressão? Como se podia ser livre sob a cerrada opressão do invasor que fiscalizava os gestos mais triviais do cotidiano? Porque, dizia Sartre, cada gesto era um compromisso. A resistência significava uma escolha e, pois, um exercício de liberdade. Significava não renunciar à construção de sua própria existência quando os invasores queriam moldá-la, reduzindo-a a objeto passivo e sem forma.

Em linguagem retórica e poética Rosa de Luxemburgo disse algo semelhante: quem não se movimenta não percebe as correntes que o aprisionam.

Sartre era existencialista: a existência precede a essência. Isto significa que não há algo anterior à existência que impeça um ser humano de tomar livremente as decisões que construirão o seu futuro. Isto dá ao humano a plena imputabilidade pelos seus atos. O que ele faz da sua existência é culpa ou mérito exclusivamente seu. O que ela é hoje resulta de decisões que tomou no passado, e o que será resultará das decisões que toma no presente.

A experiência francesa durante a ocupação alemã guarda certa similitude com o Brasil de hoje. Na França parte da sociedade (muito maior do que os franceses gostam de admitir) foi complacente ou colaborou com o invasor que massacrava seu povo e aniquilava os mais elementares direitos dos franceses. Hoje, parte da sociedade brasileira assiste inerte, é complacente, apoia ou apoiou usurpadores que vão reduzindo a pó o pouco de direitos e garantias de um povo já miserável.

Na França colaborava-se por ser fascista ou filofascista. Por egoísmo social. Por ressentimento. Por ódio de classe. Para pequenas vinganças privadas, para atingir um inimigo pessoal. Colaborava-se por ausência de qualquer sentimento de solidariedade social. A colaboração com o invasor desvelava a mais baixa extração moral. Quanto a nós, tomo como paradigma uma cena do cotidiano que presenciei dia desses. Duas mulheres ao meu lado conversavam. Uma disse que seu filho de 13 anos era fã do Bolsonaro. A outra, algo espantada, faz uma crítica sutil, perguntando se ela não conversava com o filho sobre política. A resposta: “acho bonito que meu filho seja politizado nessa idade”. Com isto, quis dizer que não importava de que modo seu filho estava precocemente se politizando.

Pode-se razoavelmente supor que ela, mulher, ignore que Bolsonaro disse que há mulheres que merecem ser estupradas? Que saudou, diante de todo país, em rede nacional de televisão, o mais célebre torturador da ditadura militar? Que declarou que prefere o filho morto se ele for homossexual? Como ignorar isso tudo é altamente improvável, porque seria supor que tal mulher vive em uma bolha impenetrável em plena era das redes sociais, podemos concluir, com Sartre, que escolheu o sórdido para si e para seu filho. O que resultará dessa escolha não poderá ser imputado a Deus, ao destino, aos fatos da natureza ou a qualquer fórmula vaga e estúpida do tipo “a vida é assim”, mas a ela mesma e a seus pares brancos de classe média que tem atitudes semelhantes.

Do mesmo modo como a parcela colaboracionista da sociedade francesa escolheu a opressão do invasor estrangeiro, parcela da sociedade brasileira escolheu o retrocesso, o obscurantismo e a selvageria.

Foi em massa às ruas em nome do combate à corrupção apoiando um processo político liderado por notórios corruptos.

Regozija-se com o câncer e com o AVC do adversário politico, demonstrando completa ausência de qualquer traço de fraternidade e respeito ao próximo.

Suas agruras e dificuldades econômicas e sociais transformam-se em ódio justamente contra os excluídos e em apoio às ricas oligarquias que controlam a vida política do país (das quais julgam-se espelhos), a fórmula clássica do fascismo.

Permanece indiferente, omissa ou dá franco apoio ao aniquilamento de direitos, ao fim, na prática, da aposentadoria para milhões de brasileiros, à eliminação dos direitos trabalhistas, à entrega do patrimônio nacional a grandes empresas estrangeiras.

Seu ódio transforma em esgoto as redes sociais.

Não há como prever o que acontecerá a esta sociedade. Uma convulsão social poderá desalojar os usurpadores do poder, ou poderemos seguir para o cadafalso como povo. A História sempre é prenhe de surpresas. O que é certo, no entanto, tomando a frase de Sartre, é que somente poderão dizer no futuro que foram livres, no Brasil pós-golpe de 2016, os que agora estão se comprometendo e resistindo. É uma trágica liberdade de tempos sombrios, mas se nos foi dado viver neste tempo, que vivamos com a dignidade que somente os seres livres podem ostentar.

Hoje são livres os que resistem.""

Por Marcio Sotelo Felippe (pós-graduado em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Procurador do Estado, exerceu o cargo de Procurador-Geral do Estado de 1995 a 2000. Membro da Comissão da Verdade da OAB Federal.)

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outubro 14, 2021

VOCÊ RECONHECE ESSE NEGRO?




Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que visa a dar mais segurança jurídica ao reconhecimento de suspeitos de algum crime por foto ou, mesmo, por comparação do suspeito com outras pessoas.

Não posso julgar se o projeto é bom ou ruim, porque, muitas vezes, as boas intenções de uma lei esbarram na péssima redação dessa lei, deixando verdadeiras armadilhas jurídicas de que se aproveitam os advogados, para condenar ou absolver seus clientes.

No entanto, é importante que se dê menos peso ao reconhecimento facial por meio de fotos ou de apresentação de suspeitos para comparação, principalmente quando se está diante de indivíduos pretos ou pardos.

Isso, não só por causa da dificuldade inerente a esse reconhecimento, mas principalmente porque muitas pessoas “brancas” não têm olhos para ver corretamente as feições negras. O racismo histórico de nossa sociedade invisibilizou a população negra. O branco não olha realmente para o negro, apenas percebe sua cor, por isso não sabe reconhecer seus traços. Os olhos “brancos” não distinguem sutilezas nem mesmo de coloração da pele: há pretos mais pretos e pretos mais claros, uma vasta paleta de cores.

Também os traços de rostos negros revelam milhares e milhares de detalhes diferentes, assim como todos os humanos, mas os humanos brancos apenas veem “o negro”, não o indivíduo de cor negra, um ser humano como outro qualquer, reconhecível por suas características idiossincráticas. Para o humano “branco”, o humano negro é só uma massa uniforme e indistinguível de caracteres, como se todos fossem quase uma única pessoa, como se todo negro fosse igual ao outro.

É claro que essa minha opinião de que o “branco” não sabe reconhecer sutilezas das feições negras é uma generalização, para efeito de desenvolver um raciocínio de que há ainda muito a se fazer em termos de combate ao racismo em nossa sociedade e, portanto, não quero dizer com isso que todo branco seja racista ou que todos os brancos não tenham “olhos de ver” e reconhecer os pretos e pardos.

Feito esse esclarecimento, concluo dizendo ser de grande importância um projeto que realmente dê mais segurança ao processo de arrolar provas de um crime. E, principalmente, que as autoridades policiais e jurídicas passem a ver com muita desconfiança e com extremo cuidado os testemunhos baseados em reconhecimento facial, principalmente de suspeitos de cor negra. Nossas prisões estão abarrotadas de pessoas pretas inocentes reconhecidas mal e porcamente por testemunhas brancas, cujos olhos, obscurecidos pelo maldito racismo, não conseguem perceber diferenças e características absurdamente diferentes de uma pessoa para outra, quando se trata de pretensos suspeitos pretos ou, até mesmo, pardos.

outubro 03, 2021

NÃO LHES BASTA SER ANTICOMUNISTAS: SÃO TAMBÉM FASCISTAS

 



Os comunistas da década de 30 do século passado protagonizaram a oposição mais feroz ao estado novo de Getúlio Vargas, conforme escrevi no texto anterior - A CONSTRUÇÃO DE UMA MENTIRA: O COMUNISMO NO BRASIL – replicando aqui as escaramuças entre eles e o fascismo que ocorriam na Europa.

Portanto, os fascistas tinham todo o motivo do mundo para odiar os comunistas e vice-versa.

Passados todos esses anos, sabemos que nunca houve regime comunista no Brasil; que a famosa revolta vermelha de 1935 não passou de um traque, devidamente sufocado pelas tropas fascistas de Vargas; que nunca houve e não há qualquer possibilidade de o Brasil se tornar comunista; que essa desculpa esfarrapada – usada também pelos generais carniceiros do golpe de 1964 – já devia estar devidamente sepultada como uma das grandes mentiras das tantas que se contam sobre nossa história.

No entanto, ressuscitam o “perigo vermelho”, com bobagens como “o Brasil nunca será comunista”, “vá para Cuba”, “aqui não é a Venezuela” etc., num verdadeiro atentado aos fatos, à realidade, à História (com H maiúsculo), que esses idiotas não conhecem e tripudiam sobre ela, já que são todos ignorantes que usam sua insipiência como os homens das cavernas deviam usar seus porretes para abater a caça.

Quem são eles?

São os seguidores do atual presidente da república, os trogloditas de hoje a ressuscitar slogans de ontem, para extravasar seu ódio ao povo, como se fossem todos eles “nobres” brancos e pertencentes às altas elites econômicas, e não pobres idiotizados por um “mito” analfabeto, grosseiro, assassino e genocida.

Na sua “santa” ignorância, não contentes de ressuscitar o anticomunismo, flertam abertamente com o fascismo, defendendo bandeiras (não as chamo nem de ideias) muito semelhantes às defendidas por Mussolini e Hitler:

· um estado miliciano, com o povo armado até os dentes: os seguidos decretos do inominável que, até mesmo contrariando leis existentes, tentam facilitar a venda de armas, ironizando os que preferem comprar feijão/comida a comprar armas; a repetição de gestos com as mãos imitando armas, para se identificarem;

· a destruição da cultura e das tradições: o ódio do atual governo a tudo que se refira à cultura e à educação, colocando no comando dessas duas áreas indivíduos totalmente despreparados para os cargos, mas que se alinham com os preceitos de manter o povo na ignorância;

· o racismo estrutural, para manter invisível a população negra, de preferência em guetos, nas periferias e nas favelas, longe das escolas e faculdades e o índio, visto como ameaça a seus interesses econômicos, o que os leva a defender grileiros, madeireiros e garimpeiros que destroem a floresta e o meio ambiente, sem respeitar as terras indígenas;

· a defesa da família tradicional, com toda a carga de ódio a homossexuais e a qualquer desvio do que eles definem como moral, uma moral que tem origem na estupidez de religiões fundamentalistas que se dizem fiscais do corpo alheio, enquanto enchem seus cofres com a exploração da fé do povo;

· a misoginia, que coloca a mulher como dependente e até escrava do homem, seu senhor e dono, o que incentiva o aumento dos crimes de feminicídio;

· o nacionalismo fanático, com o culto a símbolos como a bandeira e as cores nacionais, para ocultar seu entreguismo tosco e sua obediência cega a um falso líder que nada tem para lhes oferecer, senão palavras vazias de ódio, de incompetência e de destruição das políticas voltadas para recuperação do Estado e para a melhoria das condições sociais da população;

· o negacionismo, que é a excrescência maior de sua estupidez, a fazer campanhas contra a ciência; a defender a “terra plana” (muitos nazistas acreditavam na teoria da “terra oca”); a fazer campanhas contra a vacinação, o que pode levar nosso país a ressuscitar doenças endêmicas que pareciam erradicadas; a não acreditar nos alertas dos cientistas sobre o aquecimento global;

· o totalitarismo, com a defesa de ideias antidemocráticas, principalmente dos ditadores assassinos do regime militar: além de algum manual do exército, o atual presidente parece que leu (se é que leu!) apenas mais um livro em toda a sua vida: a biografia de um dos mais tenebrosos torturadores da época da ditadura de 64; e seus seguidores vivem defendendo o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal e a prisão de seus membros;

· divulgação de mentiras através das mídias sociais, utilizando a velha e desgastada máxima nazista de que uma “mentira mil vezes repetida torna-se verdade”, contribuindo ainda mais para o estado de ignorância do povo etc. etc.

Enfim, não lhes basta ser anticomunistas: precisam tentar impor e divulgar sua estupidez asinina através da defesa de bandeiras e ideais fascistas, como se todo o povo fosse ignorante como eles. Para isso, pregam o ódio, a dissenção e até a morte dos opositores, tal como fazia o estado novo getulista, que perseguiu, prendeu e matou muitos cidadãos, modelo copiado e levado ao extremo pelos ditadores militares de 1964.

Confundem direito de opinião, assegurada constitucionalmente, com o direito de propagar ideias que podem levar milhares de pessoas a evitar a vacinação contra a covid-19, a não se tratar e a confiar em drogas condenadas pela comunidade científica internacional, contribuindo para o aumento exponencial das mortes, durante a pandemia que assola o mundo e, especialmente, o Brasil, por incompetência desse governo negacionista que eles defendem.

Que a História não se repita numa trágica farsa de consequências inimagináveis e que os verdadeiros cidadãos deste País possam dar a esses facínoras, o mais rápido possível, uma resposta à altura, na defesa do Estado de Direito e de todas as Liberdades duramente conquistadas a partir da Constituição de 1998.


setembro 30, 2021

A CONSTRUÇÃO DE UMA MENTIRA: O COMUNISMO NO BRASIL

 


Sempre me incomodou essa estúpida ideia que o imbecil do atual presidente e seus seguidores divulgam com a boca cheia: de que ele livrou o Brasil do comunismo. E parece que o comunismo é o inimigo a ser combatido, como se estivessem os seguidores dessa ideologia política de armas em punho a aguardar atrás de cada árvore, de cada porta, de cada morro, para tomar de assalto o poder e matar todo mundo.

Fui em busca dos motivos por que se incutiu na mente das pessoas esse medo pânico de algo que não existe e nunca existiu. Uma pesquisa quase inglória, já que nem sabia bem por onde começar a procurar. Então, quase por acaso, encontrei o trabalho de dissertação de Felipe Menezes Pinto - O VERMELHO E O NEGRO: Intolerância, Construção da Identidade Nacional e Práticas Educativas durante o Estado Novo (1937 – 1945), de 2011, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, tendo como orientadora a Professora Dra. Regina Helena Alves da Silva.

Nesse trabalho, o autor disseca a ideologia implantada por Getúlio Vargas nas escolas do País, tendo como principais eixos a educação moral e cívica, como o culto a valores e símbolos nacionais, principalmente o culto à bandeira nacional; a invisibilização da população negra, considerada como indesejável, num racismo sutil e deliberadamente construído para levar ao “embranquecimento” da nação e, por último, a intolerância aos vermelhos, considerados como inimigos do povo e do Brasil.

Percebe-se claramente um propósito nesses três eixos que eram desenvolvidos através dos livros e das instruções pedagógicas do Ministério da Educação: formar uma geração extremadamente nacionalista, anticomunista e racista. Não é necessário dizer que os objetivos foram obtidos com bastante sucesso: e somos nós os filhos, netos e bisnetos dessa geração. Fomos todos nós que aqui vivemos hoje criados de forma direta ou indireta por avós e pais nacionalistas (de um nacionalismo utópico e exacerbado, que acredita que o “gigante adormecido” precisa ser acordado, para a felicidade de todos – mote que aparece até hoje em manifestações fascistas – o que foi bastante explorado pela ditadura militar, a partir de 1964), racistas (de um racismo estrutural, cujos males ainda sentem na pele os negros e pardos, relegados quase sempre às favelas – as modernas senzalas - e à marginalização social, escolar e econômica) e anticomunistas.

O anticomunismo tem seu nascedouro nos anos 20 do século passado, após a revolução russa, cujo sentido e objetivos nunca foram bem compreendidos pelo Ocidente, principalmente quando a Rússia se transformou, sob o domínio de Stálin, de um país medieval em uma nação poderosa, embora à custa de muitas vidas e, infelizmente, também da atroz perseguição desse líder a seus opositores. A sombra de Stalin e, por extensão, do comunismo, assombrou a Europa e os Estados Unidos, por razões que não nos cabe discutir aqui, principalmente razões políticas e econômicas. A chamada “guerra fria”, estabelecida entre as duas potências que emergiram da segunda grande guerra – Estados Unidos e União Soviética – só fez agravar o medo ocidental do comunismo, visto como ameaça a todos, embora só ameace mesmo o capitalismo e os capitalistas, ciosos de seus negócios e temerosos de perder suas vastas propriedades.

No Brasil, criou-se o mito da “intentona” comunista, um golpe que parece sair das sombras de um poderio que os comunistas nunca tiveram. O interessante é que a Aliança Nacional Libertadora, fundada em 1935 por Luís Carlos Prestes, tinha por principal intenção refletir no Brasil o que acontecia na Europa, os embates violentos entre comunistas e fascistas, ou seja, tentar derrubar – sim, derrubar! – o governo fascista de Getúlio Vargas. Pretendiam, nessa empreitada, contar com o apoio dos operários, mas isolados em Natal e Recife, foram derrotados e isso serviu de pretexto para a decretação do Estado Novo, principalmente com a divulgação de um falso Plano Cohen e sua ambição de tornar o Brasil um país comunista.

Portanto, o anticomunismo brasileiro nasce de um imenso engano – a força dos comunistas –, de uma falsidade histórica (uma fake News) – o plano Cohen – e de uma verdade – a luta contra o fascismo. Se o fascismo getulista se revelou uma nuvem negra que passou e se foi, embalado por interesses políticos e econômicos e pela estratégia de atração dos Estados Unidos, ao afundar navios brasileiros na nossa costa e atribuir essa ação à Alemanha (um fato que não se comprovou totalmente, mas que faz parte do mística da adesão de Vargas às forças aliadas), o anticomunismo permaneceu, implantado desde os primeiros anos do governo de Getúlio, através de um processo educacional bastante eficiente.

Para se ter ideia do que foi esse processo de implantação da mentalidade anticomunista em nossos jovens, veja esse texto de uma obra publicada em 1938: “No Brasil, em qualquer recanto desta grande e hospitaleira terra, terá de predominar o nosso sangue; terá de imperar a nossa língua portuguesa-brasileira, ainda que, para isso, tenhamos que amordaçar algumas bocas; terá de prevalecer a nossa história, nem que tenhamos de fuzilar todos os bolchevistas do mundo [...]” (TABORDA, Radagasio. Crestomatia cívica: uma só pátria, uma só bandeira!. 1. ed. Porto Alegre: Globo, 1938. Acervo Memória Infantil da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa), conforme a tese do professor Felipe Menezes Pinto, citada acima.

E assim, todo material didático destinado às nossas escolas estava eivado de citações diretas ou indiretas que incentivavam o medo e o ódio ao comunismo. Isso durante todo o chamado “estado novo” e, com certeza, de forma mais sutil após esse período, mas sempre a pregação do anticomunismo permaneceu mesmo durante os breves períodos democráticos e foi incrementado às mentes das crianças e dos jovens a partir do golpe de 1964. Aliás, a desculpa, mais uma vez esfarrapada para a ditadura militar, foi o velho refrão do “perigo vermelho”, já que essa ideia estava implantada na cabeça de todos e devidamente cultivada pelas nossas instituições, como a igreja, as associações comerciais e agrícolas, a escola, a imprensa etc.

A palavra “intentona” tem o sentido de “tentativa tresloucada, projeto insensato”, além da própria sonoridade soturna, o que a tornou uma espécie de “bicho papão” para o populacho, que mal conhece o seu significado. Dado à insurreição comunista de 35, um movimento que teve repercussão a repercussão que interessava aos donos do poder, essa palavra serviu de mote para amedrontar a população e até hoje a maioria da população acha que o Brasil ou foi comunista em algum momento ou esteve à beira de sê-lo. Tornou-se, portanto, um meme, uma mentira repetida como se verdade fosse; um fantasma a assombrar as mentes dos idiotas bolsonaristas de hoje, a servir de pretexto para bobagens e falsidades históricas de quem não conhece os fatos e não se interessa por conhecê-los.

Portanto, repito: nunca houve ameaça comunista no Brasil nem qualquer possibilidade de que isso acontecesse. E mais: comunismo não é exatamente aquilo que as pessoas mal-informadas pensam que é: só quem tem medo de uma doutrina que prega o fim da desigualdade social, que deseja emprego e uma vida melhor para o povo são as oligarquias que não querem largar o osso da sua condição de senhores de escravos (todos nós que não fazemos parte das elites econômicas) e donos das riquezas do Brasil.

Somos, a nossa geração, filhos, netos e bisnetos de um engodo construído pelo chamado “estado novo” fascista de Getúlio Vargas, cujo governo tem contradições históricas de defesa do fascismo, num nacionalismo doentio e absurdo, e de aliado das forças estadunidenses na segunda grande guerra até ao alinhamento à política econômica dessa nação após a guerra. E esse alinhamento automático ao grande “irmão” do norte tem sido a tônica de nossos governos, com honrosas exceções, desde a década de 30 do século passado, transformado muitas vezes em total subserviência.

Esse nosso anticomunismo é, portanto, absurdo, estúpido, sem qualquer base histórica e, pior, profundamente injusto para com nós mesmos, um antolho em olhos de burros, já que nos impede de perceber a importância política de apoiarmos partidos de esquerda que possam levar nosso país a suplantar a desigualdade e a miséria, através de políticas sociais e educacionais libertadoras, partidos que tenham ideais patrióticos sadios e não uma política entreguista, como vêm pregando e estabelecendo com muita competência os falsos nacionalistas de hoje.

março 11, 2021

BOLSONARO É O COCÔ DOS CAVALOS DOS BANDIDOS

 



O excremento mal cheiroso da famigerada operação lava jato, que destruiu o país e nos deixou de herança o fétido governo desse nojento, acaba de ser jogado na sentina da história.

Agora temos a certeza do que sempre afirmamos: os degenerados de curitiba tinham uma só ideia na cabeça: destruir o PT, impedir Lula de concorrer à presidência.

Para isso, fizeram alianças espúrias com o "grande irmão do norte", inventaram provas, corromperam testemunhas, trouxeram ideologias jurídicas alheias ao nosso sistema de direito, manipularam sentenças e destruíram a Petrobrás.

Se todos os juízes fossem honestos e isentos, não havia necessidade de instâncias várias, para tantos recursos. No entanto, a operação lava jato reuniu numa só quadrilha juízes, promotores, advogados não só da primeira instância, mas também da segunda. Todos ideologizados no único objetivo de destruir o PT, prender o Lula e deixar um rastro de merda que culminou com a eleição desse indivíduo que é a condensação de todas as ideologias de poder baseado na eliminação de todo e qualquer pensamento crítico, de qualquer outra ideologia que não comungue com seus objetivos torpes de tornar o Brasil uma nação "cristã" no pior sentido do conservadorismo e do moralismo, para se perpetuarem no poder e, assim, rapinarem melhor os cofres públicos, jogando o país nas trevas do negacionismo e da estupidez.

Bolsonaro e seus asseclas estão destruindo a educação, a saúde, o meio ambiente, a cultura, a ciência, a indústria e qualquer possibilidade de desenvolvimento do país. Não há uma só medida tomada por esse desgoverno que tenha por objetivo sanar as diferenças sociais, tirar o Brasil do atoleiro do subdesenvolvimento e retomar o crescimento.

Qualquer um que seja pró-desenvolvimento, que pense em melhorar as condições do povo, que sonhe com um país melhor é taxado de "comunista", de "progressista", como se isso fosse um crime. E o gado aplaude.

Das mais de 250 mil mortes por covid-19 ocorridas aqui, metade poderia ter sido evitada se esse degenerado não tivesse sido tão estupidamente negacionista, se tivesse tomado medidas imediatas de enfrentamento da pandemia, se tivesse feito acordos com as farmacêuticas que desenvolviam vacinas (como muitos países o fizeram), se tivesse apoiado governadores e prefeitos nas medidas de distanciamento social, se não tivesse destruído o programa mais médicos (os cubanos teriam tido um papel importante na orientação das populações carentes nas medidas de prevenção), se não tivesse se aferrado a divulgar notícias falsas e a defender medicamentos que não funcionam, se, enfim, tivesse liderado com responsabilidade a luta contra o corona vírus.

Por tudo isso, Bolsonaro, esse imbecil, canalha, prepotente, ignorante e estúpido presidente saído da cloaca do lavajatismo, é, sim, o ASSASSINO DE MILHARES DE BRASILEIROS, por sua incúria, estupidez e incompetência.

BOLSONARO É O COCÔ DOS CAVALOS DOS BANDIDOS DA LAVA JATO.


novembro 24, 2020

NÓS, OS VIRA-LATAS...

 



Nós, os vira-latas, os excluídos, os oprimidos, os assalariados; nós, os brancos, os pardos, os negros, os indígenas, os amarelos e todas as demais cores do espectro que nos querem dividir em raças; nós, seres humanos de todas as etnias que habitam este país; nós, as mulheres e as lésbicas e as transexuais e as bissexuais; nós, os homens heterossexuais, os homossexuais, os transexuais, os bissexuais, e tantas outras denominações que se nos deem; enfim, nós – o povo que nesses quinhentos anos de governos elitistas, queremos lançar nosso uivo de vira-latas exaustos de todas essas injustiças perpetradas contra nós. 

Queremos dizer que não basta construir hospitais, e o povo continuar vivendo amontoado em favelas, em ocupações, em quilombos, em aldeias e vilas sem saneamento básico, com as pessoas, principalmente as crianças, pisando na merda, vivendo na merda, adoecendo e morrendo como moscas. Queremos dizer que não basta construir escolas e uma grande parcela da população continuar passando a fome endêmica que leva à subnutrição e à apatia, que leva à evasão escolar, que leva à gravidez precoce e à prostituição de nossas jovens. Queremos dizer que não basta construir obras faraônicas como hidrelétricas e abrir estradas e construir aeroportos e avenidas, se o povo continua com empregos mal pagos, com mulheres e pessoas negras ganhando menos do que os brancos, com milhões de desempregados ou subempregados a viver de subterfúgios e das migalhas que caem da mesa dos ricos. 

Queremos dizer que não mais aceitamos que essa elite empresarial burra que destrói florestas e polui nossos rios em nome de um capitalismo selvagem e assassino continue sua obra demoníaca. Queremos dizer que não mais aceitamos que o capital financeiro tenha a palavra final sobre nossas vidas, nossos destinos e nos escravize e não nos dê nenhuma réstia de esperança. Queremos dizer que nosso uivo, nosso grito de protesto, não vai mais deixar que eles – os poderosos desse país – comam em paz o seu caviar, se nós, o povo que lhes propiciamos os recursos para suas orgias com nosso braço, nossa força de trabalho, continuamos a comer o pão que o diabo amassou, isso quando ainda temos algum pão para comer, porque uma grande maioria mal consegue uma só refeição digna por dia. 

Queremos dizer que nós, os vira-latas, vamos tomar nosso destino em nossas mãos e, através de nosso uivo, vamos incomodar todos os dias do ano, todas as horas do dia, com nosso protesto e com a exibição de nossas mazelas em todos os meios de comunicação, a placidez dessa elite que nos olha apenas como mão de obra descartável e como seres dotados de apatia e covardia para lutar por seus direitos. 

Sim, nós, os vira-latas, temos direitos e vamos exigir que o poder seja devolvido a nós, que somos maioria, que constituímos o verdadeiro pilar dessa nação. Queremos hospitais, queremos escolas, queremos obras, mas também queremos saneamento básico e moradias decentes; e rios limpos, e florestas em pé, e ares despoluídos e respiráveis. Queremos emprego decente e remuneração digna para todos. Queremos igualdade social, por mais utópica e absurda que os senhores julguem tal coisa. Acreditamos que ninguém precisa ter dez carros na garagem, cinco aviões, três helicópteros, várias mansões. Acreditamos que o acúmulo de riqueza nas mãos de uns poucos constitui um crime contra a humanidade. Acreditamos que grandes fortunas são uma injúria à própria existência do ser humano. Não somos contra o conforto, a vida digna, mas o conforto e a vida digna devem ser direito de todos e não apenas de uns poucos. Os privilégios dessa casta que tem suas mãos a indecente maioria de mais de noventa por cento da riqueza do país representam a morte de milhares e milhões de homens, mulheres, crianças, por doenças endêmicas, pela fome, pelo desespero de não ter outra perspectiva a não ser baixar a cabeça. E isso é um atentado à dignidade e à existência do ser humano sobre a terra. 

E se essas ideias os amedrontam, se acham que não podem dividir com todos as suas riquezas e que não podem viver sem suas mansões, seus incontáveis bens que só servem para que desfilem sua arrogância e seu poder de dominar e escravizar, ouçam bem o que digo: a revolução dos miseráveis e escravizados, dos famintos e dos desassistidos chegará um dia e a revolta desse povo levará a luta para dentro de seus castelos e e de suas bastilhas aparentemente inexpugnáveis. 

A fome, o desespero, o não ter nada mais a perder levarão um dia as massas incontroladas a tomar com a força de suas mãos – a única arma que possuem – os direitos e a dignidade que almejamos e os poderosos não querem conceder por bem. E nesse dia, quando os escravizados levantarem a cabeça e perceberem que são maioria, não deixarão pedra sobre pedra nos domínios dos poderosos, porque esse uivo, esse grito que agora lançamos, terá se transformado em ódio, em brutalidade, em destruição. 

Portanto, que ouçam nossos lamentos, que atendam nossas reivindicações - a partir de agora - e que nos próximos anos não deixem que nosso uivo caia no descaso de sua indiferença, pois o preço dessa indiferença será a revolução radical dos desesperados, quando, não tendo mais nada a perder, estarão dispostos a jogar tudo, a morrer lutando, mas, antes de morrer, destruirão os seus castelos, os seus domínios e deixarão arrasada uma terra que tem tudo para uma convivência harmônica e menos cruel. 

Nós, os vira-latas, estamos avisando e quem avisa sabe do que é capaz uma horda de famintos e desesperados. Ouçam, portanto – agora! - o nosso grito, o nosso uivo!

agosto 23, 2020

E A DIREITA CRIOU O MONSTRO

 



A direita hidrófoba jamais imaginou que o governo de Dilma Rousseff daria certo. Seu perfil mais “duro”, em termos políticos, que beirava à inabilidade para tratar com os entes federativos, principalmente com um Congresso conservador, para dizer o mínimo, fazia prever um governo abaixo do que foram os anos de Lula. No entanto, Dilma superou as expectativas, chegando ao final de seu mandato com taxas de aprovação recordes, o que levava à possibilidade de sua reeleição. E o Partido dos Trabalhadores não teve outra opção, diante de sua disposição de disputar mais um mandato, senão o de sagrar o seu nome, quando tudo caminhava para uma nova candidatura, mais lógica, de Lula. E o próprio Lula, democraticamente, cedeu a vez à companheira. Não se atentou para o desastre que já se previa no horizonte, com as articulações da direita para impedir que Dilma alcançasse a vitória. O PT foi tomado, por um momento, da síndrome de Casssandra: não viu, ou não quis ver, que o futuro já se desenhava no presente, com a campanha da mídia de direita a desconstruir todos os dias o governo de Dilma, com as articulações no Congresso, para jogar no colo da presidenta um conjunto de medidas econômicas que a impediriam de governar, as chamadas “pautas bomba”. 

Todo o cenário estava armado e devidamente arrumado para a vitória de Aécio Neves, no segundo turno. A apuração seguia apertada e, até os últimos votos computados, parecia que o plano da direita estava dando certo. Chegaram até a comemorar a vitória. No entanto, Dilma venceu. Por uma margem não muito grande de votos, mas venceu. E a direita esperneou. Esperneou e começou a agir, quase que imediatamente. Dilma já tomou posse com o bafo quente dos golpistas no seu encalço. Os índices econômicos que, até seis meses antes das eleições, colocavam o País no caminho de um círculo virtuoso de crescimento, de baixas taxas de inflação e pleno emprego, começaram a desabar, por obra e graça do empresariado cooptado pela campanha sórdida da mídia: meteram o pé no freio dos investimentos e começaram, literalmente, a chutar a bunda dos trabalhadores, fazendo aumentar os índices de desemprego. É provável que tenham se arrependido mais tarde, já que, vindo o golpe, derrubado o governo de Dilma, o País não conseguiu retomar o mesmo grau de investimento e desenvolvimento anteriormente alcançados: o governo do traidor Temer, além de todas as suas mazelas políticas e de corrupção desenfreada, mostrou-se também incompetente para tirar o Brasil do buraco em que se metera. 

Mas, de arrependimentos não vive a direita hidrófoba nesses pobres trópicos. Era tocar o bonde, que o poder era deles, e devia continuar em suas mãos. O PT fora colocado para escanteio, com a ajuda dos canalhas da operação lava jato, com a prisão de Lula e com toda a campanha de ódio contra os petistas, desencadeada pela mídia comprada e vendida, como sempre. 

Era um céu de quase brigadeiro para a direita. No entanto, enquanto isso, o famigerado centrão do Congresso urdia uma trama maléfica do fundo da podridão política em que se move, para engendrar um monstro. Esse “centrão”, formado por uma massa amorfa de deputados sem nenhum pudor ou sem nenhum sentido de patriotismo, de ética parlamentar, que não seja a defesa de seus interesses difusos, todos eles relacionados, claro, aos aspectos mais degradantes da vida pública, agrupa um bando de corruptos e espertalhões provindos dos rincões mais conservadores da política brasileira, onde ainda se praticam o voto de cabresto, o toma-lá-dá-cá, a troca de favores e favorecimentos, a corrupção mais deslavada. Esse centrão já dera demonstração de sua força, quando elegeu, em 2005, Severino Cavalcanti como presidente da Câmara. Ganhara experiência e, agora, chegara a sua vez de interferir de uma vez por todas nos destinos da Nação. Engendrou, então, o monstro que, já há alguns anos começara uma carreira política absolutamente anódina, medíocre, mas que conquistava pouco a pouco mentes e corações desprevenidos – ou não – com sua pregação de extremismos e arroubos pseudo-patrióticos. Essa figura ganhou notoriedade durante os embates do impeachment de Dilma, principalmente quando, ao declarar seu voto, homenageou um notório torturador da época da ditadura militar. Esse ser, que não tinha nenhum perfil político para chegar aonde chegou, que não estava nos planos de nenhum dos vários espectros da direita, eu chamo de “mulo”, uma “coisa” que não é natural e, portanto, não podia ser prevista, como num dos livros futuristas de Isaac Asimov, Fundação, quando a galáxia, mergulhada em lutas políticas entre várias facções, não percebe a ascensão do Mulo (aí, personagem, portanto com letra maiúscula). E o “mulo” da política brasileira tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. 

Se o PT errou, quando aceitou a indicação de Dilma para concorrer ao segundo mandato, atraído pelo canto das sereias de uma continuidade que lhe permitiria governar o País por, pelo menos, 24 anos, a direita também errou, quando não encontrou um novo Aécio Neves que lhe desse potência de voz, se dividiu em vários candidatos à sucessão de Temer e, principalmente, quando imaginou que o “inimigo” estava definitivamente fora de combate. Não estava. E o segundo turno trouxe uma surpresa para a direita: o embate entre Bolsonaro, o “mulo”, e Haddad, o candidato do... PT! 

A direita, atônita, quase nas cordas, não se deu por vencida. Já que não podia se aliar ao “inimigo”, que se buscasse uma saída para engolir a pílula amarga e o risco que seria eleger esse “mulo”. Apoiou 
Bolsonaro, com o pacto sinistro de manter pelo menos um aspecto crucial para seus interesses: a economia. Aceitaria, sim, um governo que tinha tudo para ser um desastre anunciado em praticamente todas as áreas, se pudesse ter um de seus próceres como ministro da economia. Vão-se os dedos, fiquem os anéis. E pariu o guru econômico do mulo, o famigerado Paulo Guedes, um obscuro financista e especulador financeiro, formado pela escola de Chicago, que tinha/tem o perfil para não deixar que o “mulo”, um perfeito ignorante de tudo quanto se refere à economia, não se aventurasse e não se aventure por caminhos não desejados. 

O que aconteceu todos sabemos: emulado (sem trocadilho!) por um falso atentado que, até hoje, ninguém investigou a fundo e pelo velho truque de não comparecer a nenhum debate, para não se expor, já que ficaria flagrante seu despreparo, diante de raposas da política e até mesmo de candidatos muito mais inteligentes e espertos do que ele, o “mulo” virou definitivamente o mulo: para surpresa de todos, venceu! 

Não tem o mulo que preside esta pobre Nação nenhum programa de governo, nenhum princípio ético, nenhum outro objetivo que não seja a imposição de suas ideias toscas e absurdas, de seu falso patriotismo, eivado de preconceitos étnicos, sexuais, religiosos e, principalmente, seu intuito de destruir tudo o que foi construído pelo “inimigo”, ou seja, pelo Partido dos Trabalhadores, durante os anos que o precederam. Não tem políticas para a educação, nem para a saúde. Não tem programas sociais. Não tem, enfim, nada que se possa prever que algum dia tenhamos alguma possibilidade de trilhar por algum caminho que não seja o desastre. Salva-se a economia? Talvez, por enquanto. A corda é bamba e Paulo Guedes é o equilibrista dos empresários, entre tantos desmandos. Se o governo do mulo tem sido demolidor do presente, ao destruir tudo o que foi construído, tem tido ainda mais sucesso na destruição do futuro: ao colocar o playboy e alpinista social, Ricardo Salles, à frente do Ministério do Meio Ambiente, escancara sua face mais cruel, já que toda a política ambiental desse ser desprezível se concentra em entregar a Amazônia e toda a fauna e flora brasileiras nas mãos dos interesses de madeireiros, de garimpeiros e da facção imediatista e estúpida do agronegócio que não olha para o futuro e quer apenas o lucro, sem preocupação com o futuro, com a mudança climática, com a possibilidade até mesmo de o Brasil se tornar, em pouco tempo, um amplo deserto inútil para a agricultura e a pecuária. E tem mais um ponto de crueldade em tudo isso: o descaso para com os indígenas, o que supõe uma política genocida de nossos primeiros brasileiros. 

Enfim, isto é o que plantou o ódio que se disseminou pelo País, a partir do ódio ao PT e a tudo que seja de esquerda: um governo genocida, criminoso, incompetente, surreal. 

A saída? Nem pelos aeroportos, fechados quase todos pela pandemia. Nenhum outro país nos quer. Então, só nos resta a saída da Justiça, com o Tribunal Superior Eleitoral cassando a chapa Bolsonaro-Mourão, pelos seus vários crimes eleitorais, ou a saída do impeachment, o que pode ser um tiro no escuro – para usar uma metáfora de violência, de que tanto gostam os neo-fascistas que nos governam -, se assumir a outra besta que está na vice-presidência.

agosto 19, 2020

OS DOIS MAIORES ERROS DOS ESTRATEGISTAS DO PARTIDO DOS TRABALHADORES

 


O PT cometeu erros. Não, o PT não cometeu erros. Corrijamos a frase: pessoas do Partido dos Trabalhadores, partidários do Partido dos Trabalhadores, dirigentes do Partido dos Trabalhadores cometeram erros. Uma coisa é a instituição; outra, os seus membros. A instituição Democracia pode ter muitos defeitos, mas ela não comete erros. Democratas, sim, erram. E erram feio. Assim, qualquer partido político, não importa seu espectro ideológico, pode ter uma doutrina extremamente cruel, como a nazista, mas não se pode dizer que o Partido Nazista que assassinou milhões de pessoas, foram os nazistas, os dirigentes e partidários do nazismo quem cometeu todas as atrocidades que sabemos. Não por isso, vamos “passar pano” na doutrina nazista: ela é anti-tudo aquilo que consideramos humano e, por isso, deve ser combatida com todas as nossas forças. É possível proscrever o nazismo de nossas mentes, de nossa sociedade, mas não é possível colocá-lo entre as grades. 

Voltemos à primeira frase, ou melhor, à frase corrigida que abre esse artigo: partidários do PT cometeram erros. E os erros foram desde o envolver-se com corrupção até o adotar medidas ou o não adotar medidas necessárias ao povo, num determinado momento. Os indivíduos pertencentes ao primeiro grupo devem, óbvio, ser julgados e, comprovado o delito, ser condenados. Já os pertencentes ao segundo grupo, os que cometeram os chamados erros políticos, esses só a História poderá julgá-los. Não vou tratar, aqui, da lavagem de roupa suja em relação aos que se envolveram em corrupção, mas, sim, porque é o que realmente importa, aos erros políticos, alguns perfeitamente justificáveis, outros nem tanto, ou talvez jamais justificáveis, embora sejam todos explicáveis. Ou seja, tudo se explica, mas nem tudo se justifica. 

Um parêntese: nunca fui filiado ao PT, embora, desde sua fundação, tenha procurado votar em seus candidatos, embora nem sempre o tenha feito, já que votei também em outros candidatos do espectro político do que se costuma chamar “esquerda”. Um espectro amplo, no qual cabem inúmeras ideologias. Portanto, sou um indivíduo de esquerda, porque não vejo nenhum horizonte minimamente defensável nas doutrinas e teorias do espectro do que se costuma chamar “direita”. Mas, confesso, sou um fã ardoroso de Luiz Ignácio Lula da Silva, independente de suas crenças: admiro sua vida, sua trajetória e sua inteligência, além, claro, do muito que fez pelo País, durante sua presidência. Dito isso, feche-se o parêntese, vamos ao escopo desse artigo: os chamados erros políticos que se possam atribuir a dirigentes do PT. 

Desde a proclamação da República, tínhamos tido apenas presidentes da direita. A única exceção foi o breve período de João Goulart. Quase todos os presidentes fizeram o que quiseram, ou pela força política ou pela força das armas. Quando Jango assumiu, pretendia abraçar as chamadas reformas de base, dentre elas a mais temida, a reforma agrária. Todos sabem o triste fim de seu governo e o longo período de ditadores militares travestidos de presidentes que tivemos e as consequências desses governos. Após a redemocratização, um processo complexo, que envolveu longas negociações e até mesmo um certo pacto de não agressão, todos os presidentes foram de direita... até que surgiu Lula como uma luz no fim do longo túnel de miséria e desigualdade social em que trilhávamos até então. 

Para se eleger, Lula teve de fazer um pacto de não agressão com a direita, leia-se: principalmente com os empresários. Foi a sua famosa “Carta aos brasileiros”. Sabia bem o que o esperava e sabia bem o que queria. Sua obsessão: diminuir as desigualdades, primeiro com medidas paliativas, como o assistencialismo de seus programas (a fome não espera, mata – era o que pensava) e depois com políticas que pudesse tirar da miséria e da pobreza milhões de brasileiros. Foi o que fez. Dentro do possível. Porque sabia o que o esperava: a perseguição sem trégua das forças conservadoras. Governos de direita sempre podem e sempre fizeram o que bem entenderam. Já um partido de esquerda no governo só pode fazer o que for possível, assim mesmo com muito jogo de cintura. Seu primeiro governo, que chamo de “travessia”, foi, a despeito de toda a sua perícia política, uma caçada de gato e rato, com o surgimento do famigerado “mensalão”, uma das primeiras e sórdidas armadilhas que a direita lhe armou. Sobreviveu e reelegeu-se. 

Porém, é preciso ficar claro, nunca teve Lula o direito que tiveram todos os demais presidentes: o direito de implantar realmente suas ideias, seu programa, já que sua maioria no Congresso era frágil e dependia da adesão de partidos fisiológicos, como o PMDB. O Brasil era um País, desde 2000, em frangalhos. Economicamente falido, politicamente dependente de forças externas, como os Estados Unidos, sem voz, sem perspectivas. Lula devolveu ao povo o orgulho de ser brasileiro, em seus oito anos de mandato. O complexo de vira-latas estava, aparentemente, superado. O País crescia e começava a ganhar o respeito das comunidades internacionais. Para jogar pedra no seu governo, costumam dizer que nunca, antes na história desse País, os bancos ganharam tanto dinheiro. Ora, banco ganha dinheiro até com a desgraça. Então, num processo de ciclo virtuoso da economia, nada mais óbvio que todos que se engajassem nesse processo não deixassem de obter lucros. O mais importante: o País crescia. Porém, voltado para a execução de uma política que tirasse o País do buraco, realmente o governo não conseguiu abrir os olhos para outras prioridades e outros aspectos fundamentais: aprofundar algumas reformas extremamente necessárias e, principalmente, fazer o que todos os governos anteriores fizeram ou tentaram fazer: cooptar o povo para seu projeto, para seus programas. Aquilo que um dos próceres do próprio Partido dos Trabalhadores, Jaques Wagner, chama de “politizar o povo”, fazer a reforma política. A reforma da política e das consciências, através da educação. Houve avanços nessa área, mas tímidos, muito tímidos. 

Sim, o PT errou (e aqui assumo a sinédoque: a parte, os dirigentes, pelo todo, o partido, por uma questão de simplificação), quando não fez essa reforma política, quando não soube aprofundar seu discurso reformista e levá-lo de forma clara ao povo, para que o povo – agora mais ou menos de barriga cheia – pudesse aprovar e seguir por novas sendas, que apontavam para um longo ciclo de prosperidade. Ciclo que se iniciaria com a eleição de Dilma Rousseff e continuaria com Lula, logo em seguida. E aí vem o segundo grande erro do PT: aceitar que Dilma disputasse um segundo mandato. 

Abramos mais um pequeno parêntese: o pacto entre Lula e os empresários, naquele já longínquo ano de sua primeira eleição, esgarçava-se. A direita, os empresários, os banqueiros, os donos do agronegócio iam muito bem, sim, mas não confiavam que o prosseguimento de governos sucessivos do PT não pudesse levar o governo esquerdista às chamadas vias de fato, ou seja, temiam que o partido ganhasse força suficiente para aprofundar reformas ou aprovar projetos indesejados, que pudessem prejudicar seus negócios – sempre eles, os negócios acima de qualquer prurido ético ou patriótico, como sempre. Por isso, num gesto de desespero, procuraram “derreter” o governo Dilma, com o auxílio da mídia. Só um dado: seis ou oito meses antes das eleições, Dilma tinha a aprovação recorde de um governo, em toda a história, e navegava nas águas tranquilas de uma economia estável, com taxas baixíssimas de desemprego. O fogo da mídia foi impiedoso e a reeleição de Dilma, até então tranquila, foi para o segundo turno e obteve um índice mínimo sobre o segundo colocado, o preferido das forças conservadoras, Aécio Neves. Chegaram até a comemorar a vitória, que não veio nos últimos votos de uma apuração apertada. Fechemos o parêntese. 

O erro do PT, nesse momento: diante dos números do governo Dilma, ou seja, diante de seu até mesmo inesperado sucesso, não tiveram a coragem de lhe dizer: companheira, você está de parabéns, fez um ótimo serviço, mas a hora é, de novo, de Lula. Além dessa falta de coragem e de visão (já que os cães de caça já estavam com os dentes afiados para a degola de Dilma), os dirigentes do PT sonharam com a possibilidade de quatro anos da Dilma e, depois, possivelmente, mais oito anos de Lula. Ou seja: o projeto de poder subiu-lhes à cabeça – 24 anos de governo! Uma eternidade, em temos de Brasil, o suficiente para “lavarem a égua”, ou seja, tempo suficiente para implantar definitivamente os programas sociais e – por que, não? –, políticos e econômicos que jogassem inexoravelmente o País rumo a uma espécie de socialismo tupiniquim, de superação de desigualdades e, finalmente, de potência econômica. Sonhos que, como se sabe, se transformaram em pesadelo, já que a vitória de Dilma rompe de vez o pacto de não agressão. Consequência: o golpe. E tudo o que veio depois. 

E tudo o que vivemos - sofremos - hoje.

março 21, 2020

UMA BREVE CRÔNICA DOS TEMPOS DA GRIPE ESPANHOLA





A gripe espanhola, há mais de dois séculos, lá pelos idos de 2018-2019, dizimou milhares de pessoas pelo mundo afora. E aqui, na terra do faz de conta que combatemos qualquer pandemia, não foi diferente. Diante da inércia – crônica – dos governantes, São Paulo se transformou num cemitério a céu aberto, conforme os relatos da época. 

Sem saber o que fazer, muitas pessoas buscavam esconder-se da doença em lugares o mais distantes possível da epidemia. E um desses lugares era, naquela época, as bandas do Tucuruvi, ao qual só se chegava em lombo de burro. 

Pois, então, como em toda época de aperto e de consternações, sempre há os que pensam em ganhar um dinheirinho extra à custa da crendice daqueles que acham que existem curas milagrosas: espalhou-se mais que o vírus da gripe que uma senhorinha do bairro Parada Inglesa tinha um chá milagroso que curava os males ocasionados pela tal gripe. 

E lá se foram os incautos de sempre a formar filas na porta da casa da tal senhorinha. Como em toda epidemia ou pandemia, há sempre os que pegam logo a doença e morrem e há os que ou são resistentes ou conseguem resistir ao vírus e sobrevivem. Então, os que tomaram o tal chá e sobreviveram porque sobreviveriam de qualquer modo acreditaram que foram curados pelas artes herbáticas da tal tiazinha; e os que morreram não disseram nada. 

Assim, meu caro eventual leitor, não acredite em chás, em poções milagrosas, em rezas e artimanhas de cura, mesmo que vindas de gente travestida até mesmo de médicos – falsos – cujo diploma foi conquistado nas quebradas da safadeza e da arte de enganar as pessoas para ganhar um troco. Confiem apenas na palavra das autoridades constituídas e dos verdadeiros especialistas, mesmo que, às vezes, eles também errem. Mas seus erros podem ser corrigidos. Já a crença em bobagens só é corrigida pelos vermes que vão se banquetear com suas carnes.


julho 23, 2019

LAS BRUJAS (SEGUNDA PARTE)





Enquanto o mulo se traveste de palhaço no picadeiro da mídia, o grupo las brujas, encastelado em algum escritório da Av. Paulista ou em Wall Street, puxa os cordões e determina medidas de destruição do país, comendo pelas beiradas, com nomeações de apaniguados em cargos chave, com a edição de portarias e mudanças na composição de determinados conselhos, com decretos que passam desapercebidos, mas que têm força para mudar aos poucos os rumos do país. 

Eu chamo esse escritório de las brujas (baseado no ditado paradoxal “no creo en las brujas, mas que las hay, las hay”), porque as pessoas não acreditam muito nisso, acham que é teoria da conspiração. Mas o fio da meada está no escritório do Steve Bannon, amiguinho do futuro embaixador em Washington, por acaso filho do mulo, que é o representante da direita internacional para a América do Sul. O posto nos Estados Unidos lhe garantirá acesso a informações privilegiadas, para abastecer o desmonte das democracias ainda resistentes aqui nesse pobre Sur. 

A força dessa direita, que começou a se articular a partir da coleta e processamento de bilhões de dados, que lhes permitem analisar tendências e identificar grupos e pessoas susceptíveis de adotar suas opiniões, já provou seu poder com a eleição fraudulenta do Trump e com o brexit inglês (no começo da campanha, a opinião pública era claramente contra a saída da Inglaterra do Mercado Comum Europeu, mas eles conseguiram alterar o resultado, através, principalmente, da divulgação de fake news – veneno que conhecemos bem). Agora acabam de emplacar o novo primeiro ministro da Inglaterra, aliado do Trump e filhote da direita mundial hidrófoba. 

Essa direita internacional está preocupadíssima com o avanço da China, com a Coreia do Norte e com o Irã. Mas, como são países poderosos ou que têm aliados poderosos, precisam estabelecer políticas de bloqueio econômico ou de tarifas às suas exportações, para tentarem sufocá-los. Na América do Sul, o alvo é a Venezuela, com seu petróleo. Por isso, o Brasil se torna uma espécie de cereja do bolo conservador, com o atual governo. 

Sim, é uma mistureba muito grande, mas é isso mesmo, tudo é uma trama que se interliga e só faz sentido quando se pensa em termos globais. O mulo é só um títere nas entranhas e nas tramas dessa gente. O grupo las brujas deve ser constituído de meia dúzia de cérebros pensantes e computadores possantes (sim, a direita tem muita inteligência e também inteligentsia) que lhes fornecem bilhões de dados e informações que os ajudam a tomar as decisões e manipular o governo do mulo, que não tem inteligência nem capacidade de estabelecer essas estratégias, mas faz exatamente o que o grupo las brujas manda: encena-se uma pantomima com os palhaços todos no picadeiro da política, o mulo à frente, dando coices que chamam a atenção, enquanto o caldeirão das bruxas cozinha nos bastidores, em fogo brando, a entrega do País ao mercado internacional, com todas as suas riquezas presentes e futuras, além do seu alinhamento incondicional à política dos Estados Unidos.




(Ilustração: Francisco de Goya - Le Sabbat)


julho 18, 2019

LAS BRUJAS






O emburrecimento de um povo é a estrada por onde marcha triunfalmente o despotismo, por onde caminha o fascismo. Esse emburrecimento teve a etapa do amortecimento dos sentidos, aquele momento em que se implantou a ideia de que “pior não fica”, ou “tentar o novo para ver no que dá”. Deu nisto: um governo que parece ter um plano de “comer pelas beiradas” a paciência do povo, de impor uma pauta ultraconservadora, através da nomeação sutil - apesar dos protestos, na maioria tímidos - de “gente de confiança”, ou seja, o pessoal que está realmente implantando medidas coercitivas, entreguistas e politicamente de acordo com o “pensamento estupidamente cristão” do mandatário. 

O que todos conseguimos apreender com muita clareza é que há forças reacionárias poderosas que estão por trás desse plano maléfico de transformar um país num quintal dos Estados Unidos, sendo as mais predadoras delas as grandes empresas multinacionais. Sabemos que o “grande irmão do norte” e seu presidente topetudo tem interesses políticos e econômicos; sabemos que há empresas multinacionais interessadas em nossas riquezas atuais e futuras. Tudo isso nós sabemos, mas são entidades difusas, citáveis, mas não exatamente passíveis de serem apontadas na rua, por exemplo, ou ter seu retrato nos jornais, com exceção do topetudo estadunidense, mas esse nós sabemos que é transitório, pode ser trocado daqui a dois anos. No entanto, seja que for o presidente lá os interesses deles aqui continuarão os mesmos. 

Estou falando especificamente do gato cujo rabo mal se consegue vislumbrar: estou falando do grupo de pessoas que planejam, em algum obscuro escritório da Avenida Paulista ou em Wall Street, as táticas de guerrilha que esse governo – estúpido como é – não teria capacidade de articular. 

É caso de dizer: no creo em las brujas, mas que las hay, las hay. Deve haver um staff comandado pelas tais forças superiores, para traçar os rumos, as medidas, indicar as pessoas a serem nomeadas, para redigir ou sugerir decretos, portarias etc. aos ministros e ao pessoal do segundo escalão. Vou denominar esse staff de “las brujas”, por falta de termo melhor e para dar a ele esse tom, não exatamente conspiratório, mas misterioso. 

Las brujas são o grupo que de fato manipulam o boneco articulado chamado Jair Bolsonaro, que tem intenções e maldades, mas é tosco demais para articular sutilezas, como soltar fake news, por ele próprio ou por um dos seus filhotes; desviar a atenção da imprensa e do público, com crítica, por exemplo, às taxas cobradas aos turistas ricos de Fernando de Noronha; articular uma embaixada para o filho 03 nos Estados Unidos, enquanto se nomeiam pessoas determinadas para cargos de aparente pouca importância, como diretores de reservas naturais ou áreas de proteção de interesse dos agricultores ou os outros títeres do ministério tomam medidas de desmonte do ensino público ou da saúde, etc. etc. etc. 

Deve ter saído de las brujas a tal reforma da previdência que destrói o sistema previdenciário baseado na tríplice contribuição – assalariados (1/3), patronato (1/3) e orçamento federal (1/3) – para despejar em cima apenas do povo a responsabilidade por sua aposentadoria, transformando esse povo em escravo do trabalho, para gáudio dos empregadores, e levando a que uma parcela significativa dos assalariados – aqueles que tenham renda acima da média – a buscar na previdência privada algum ganho suplementar, para a felicidade das instituições financeiras. 

E muitas outras medidas semelhantes virão por aí; nenhuma, absolutamente nenhuma, para a melhoria da situação do trabalhador, para amenizar a situação de miséria do povo. Se não acenou com nada até agora, não espere que isso aconteça. Toda e qualquer medida que esse governo – ou desgoverno, se preferir – tomar terá por objetivo beneficiar parcelas específicas da população, como o ensino familiar, ou outros grupos de interesse, como beneficiar o agronegócio ou agradar os evangélicos que o apoiam. 

Não está em curso uma conspiração, está em curso um processo claro de emburrecimento do povo, para que ele não perceba os caminhos traçados por las brujas, para que esse governo atinja seus objetivos obscuros de totalitarismo e de sujeição do País a desígnios torpes, muito torpes. 

Enquanto o presidente fake fala bobagens por aí, provocando riso e escárnio do mundo, por suas ideias toscas, como transferir a embaixada de Israel para Jerusalém, ou bater continência para a bandeira dos Estados Unidos, ou brincar com os líderes do Mercosul, com provocações infelizes, o grupo de las brujas deve estar manipulando o poder real, tomando medidas extremas de entreguismo contrárias ao povo, articulando formas de desmontar o Estado social e deixar para a inciativa privada (nunca um termo foi mais preciso para indicar a canalhice: privada) a administração de setores fundamentais para o bem estar social, sem falar na futura total privatização da Petrobrás. 

E a única liderança que tem voz, que pode ter um discurso que monopolize a oposição, porque tem autoridade, porque tem alcance internacional e, portanto, pode incomodar e até mesmo reverter essa situação, está, por artes e artimanhas de las brujas, cujo braço jurídico canalha é a operação lava jato e seus juízes veniais, aprisionado num cubículo da Polícia Federal em Curitiba. Todas as demais lideranças ou foram cooptadas ou foram dizimadas por processos espúrios ou não obtêm eco em seus protestos, porque a grande mídia os ignora de forma olimpicamente criminosa. Então, se não cremos nas bruxas, aceitemos que elas existem. Porque seu poder de destruição parece inconteste.



(Ilustração: Francisco de Goya - flying witches)



junho 05, 2019

O "COISO" E AS LEIS: IGNORÂNCIA PAQUIDÉRMICA





Uma lei só "pega", ou seja, é realmente cumprida, quando há punição, alguma forma de punição, ao seu descumprimento. Infelizmente é assim. O ser humano não se "conscientiza" apenas com campanhas educativas. Claro, estou exagerando. Ou melhor, estou falando possivelmente de uma parte dos seres humanos. Os que são renitentes, os que descumprem leis e regulamentos, ou por ignorância (e dê a esse termo o sentido mais amplo possível) ou por “vocação”, por desafio à sociedade. Acho entendem o que eu quero dizer, sem precisar me estender muito. 

Alguns exemplos. 

Há uma postura municipal de São Paulo que proíbe bares e estabelecimentos comerciais de jogarem à rua água servida. Quando se lava um bar, um açougue etc., a água usada não pode ser despejada na calçada ou na sarjeta. Pergunto: alguém já viu algum dono de estabelecimento comercial cumprir essa lei? Ninguém fiscaliza, ninguém pune, ninguém cumpre. (Abro um parêntese: quando minha filha transformou a garagem de minha casa numa brigaderia, o Universo do Brigadeiro, fiz questão de que os pedreiros nivelassem o piso de tal forma, que toda a água de lavagem fosse para o esgoto, através de ralo interno, e não para a rua. Não é uma jactância minha, mas apenas consciência de que não podia e não devia incomodar o meu vizinho de baixo, para onde fatalmente escorreria a água servida da lavagem diária do estabelecimento). 

Cinto de segurança. Desde que os veículos começaram a sair de fábrica com esse equipamento, todas as pessoas sabiam que ele era importante para salvar vidas, em caso de acidente. No entanto, seu uso só se popularizou quando o Código de Trânsito Brasileiro estabeleceu sua obrigatoriedade e multas a quem não o usasse. Assim mesmo, ainda se encontram recalcitrantes, e seu uso no banco traseiro – também obrigatório – é quase nulo. 

Mais um exemplo do trânsito, porque, afinal, será de leis de trânsito que vou tratar neste artigo. Quando o Congresso aprovou o Código de Trânsito Brasileiro, havia um artigo que vetava às motocicletas o trânsito entre os automóveis. Em nome da mobilidade desses veículos, o senhor presidente da república, Fernando Henrique Cardoso, vetou esse artigo. Consequência: morre pelo menos um motociclista por dia na cidade de São Paulo, por causa da tal “mobilidade”, pela pressa dos chamados motoboys, que “costuram” e trânsito e provocam inúmeros acidentes. Um pequeno artigo que poderia salvar milhares de vida. Mas, uma irresponsabilidade de um presidente tornou a vida nas grandes cidades brasileiras uma espécie de sucursal do inferno. 

O lado punitivo de uma lei não existe apenas para arrecadar multas, como no caso das leis de trânsito, mas principalmente para salvar vidas. Para assegurar que o tal “cidadão de bem” não cometa imprudências e mate e morra, apenas para ganhar às vezes alguns minutos no caminho de casa, por exemplo. Mesmo com todas as punições pecuniárias – que doem bastante no bolso – há muitos que se “especializam” no acúmulo de multas, daí a contagem de pontos e a suspensão da Carteira Nacional de Habilitação, quando um determinado número de pontos é atingido. E mais: quantas vezes esse mesmo “cidadão ordeiro” não comete infrações de trânsito, apenas porque não há ninguém vendo, fiscalizando, não há um radar que fotografe seu excesso de velocidade? 

Portanto, não é apenas uma grande burrice uma lei que afrouxe mecanismos de controle de infrações de trânsito, é de uma irresponsabilidade criminosa. Eliminar exame toxicológico para motoristas profissionais, dobrar o número de pontos para perda da CNH, transformar multa por não usar cadeirinhas de bebês e crianças menores em simples advertência, eliminar radares móveis da estradas, tudo isso é dar permissão aos renitentes, aos recalcitrantes, aos imbecis – que os há por aí a rodo – para matar e morrer. Ou mutilar. Ou não pensar – e a imbecilidade pode chegar a esse ponto – que uma criança solta dentro de um carro, o seu filho ou filha, o seu neto ou neta etc. pode não sofrer traumas terríveis e até morrer por uma simples batida de carro, até mesmo em baixa velocidade. 

Enfim, o projeto de lei do “capitão”, entregue pessoalmente ao Congresso por ele, ontem, 4 de junho de 2019, é um crime de lesa-humanidade, o que comprova a estupidez de um homem que não sabe o que está fazendo na presidência. E mais: comprova que ele realmente não tem nenhuma sensibilidade, nenhuma empatia para com o outro. É um ser absolutamente insensível. Que está destruindo o País com suas medidas absurdas. Que não pode continuar na presidência!