outubro 27, 2014

O RESULTADO DAS URNAS





Dilma Rousseff ganhou as eleições, porque conseguiu vencer três adversários poderosos:

Primeiro, certo grupo de empresários influentes, que têm uma visão estreita de política e que não suportam imaginar um País com direitos para trabalhadores, em que não possam contar, como em muitos outros lugares, com mão de obra semiescrava, ganhando mal e produzindo muito. Esse grupo de empresários - ligado a partidos de oposição - paralisou o Brasil, por mais de seis meses, com intenção deliberada de prejudicar a presidenta reeleita, numa das orquestrações mais criminosas da história do País, um crime difuso, cujos autores é impossível identificar. Paralisaram as máquinas, diminuíram a produção, despediram funcionários, contrataram somente o indispensável, assim mesmo com salários menores, tudo de forma sutil, como uma quadrilha que age no meio da noite, sorrateiramente, sob o olhar complacente da mídia sempre disposta a ver em cada índice econômico desfavorável o fundo do poço, o abismo. Isso não é teoria conspiratória: é a realidade que está em todos os jornais, em todas as revistas em todas as análises de âncoras de rádio e televisão, basta ter olhos para ver, perceber, analisar e chegar a uma conclusão.

Segundo, a mídia a serviço de um partido político. Nas mãos de meia dúzia de famílias (essa repetição já está ficando exaustiva), essa mídia manipula informações, distorce fatos, ergue e destrói reputações, sem nenhuma ética jornalística. Seus cães amestrados - jornalistas que só escrevem e falam o que mandam seus donos - cumprem a triste tarefa de se exporem ao ridículo de forjar notícias que sirvam aos interesses um único grupo político. Não desfrutam de nenhum liberdade de opinião em suas redações. Os que ousam desafiar orientações superiores são sumariamente demitidos. Os que restam ou cumprem as ordens por necessidade de sobrevivência ou se alinham ao pensamento dos superiores, de forma servil e indigna. Alguns órgãos de imprensa conseguem iludir seus leitores, publicando artigos de oposição, como a dizerem que são democráticos. Mas, se tal artigo (geralmente matéria encomendada a algum medalhão) obtém repercussão, seus cães amestrados logo se colocam na linha de tiro, para desconstruir inapelavelmente, e sem direito de resposta, qualquer argumento que contrarie a voz do dono. Enfim, um inimigo que não dá tréguas, martelando a consciência da população diuturnamente. Muitos são os que, enganados pela repetição exaustiva de mentiras, acabam por acreditar nesses avatares da desinformação e dos interesses escusos de seus patrões, de interferirem de forma criminosa nas decisões do povo.

Terceiro, a máquina partidária do PSDB. Um partido que nasceu para ser uma opção de centro-esquerda e que se bandeou para a extrema direita, levado, principalmente, pela mídia e pelas elites conservadoras do Estado de São Paulo. Abro um parêntese para uma velha anedota. Contava-se, na década de sessenta e setenta, que alguém chega a uma banca de jornal e pergunta se o jornaleiro tem "Estadão" atrasado e obtém como resposta que ali não se vende mapa do Estado de Minas Gerais. Essa mesma piada teria, hoje, por resposta exatamente o Estado que lhe deu origem: São Paulo. Os paulistas ainda não se deram conta de que não são mais a locomotiva do Brasil, de que o desenvolvimento de outros estados, de ponta a ponta do País, mas principalmente de Minas e dos estados nortistas e nordestinos, já há muito tem deslocado o polo econômico para essas regiões e tem oferecido oportunidades de crescimento a suas populações. Os paulistas ainda não se deram conta de que o desenvolvimento passado de seu Estado deveu-se, e muito, às ondas migratórias, principalmente do Nordeste. E hoje, politicamente, São Paulo é o estadão atrasado e preconceituoso, com uma elite de visão ultrapassada e conservadora, encastelada em visões do  passado, elegendo e reelegendo políticos do mesmo naipe, para governar o Estado, como se ele fosse uma capitania hereditária. O PSDB, cuja máquina partidária deveria ter o rumo de um partido político moderno, tornou-se uma máquina de rancor, de ódio e de ranço conservador de uma direita quase fascista, ao se deixar dominar pelos políticos paulistas.

Dilma Rousseff não ganhou as eleições porque o Norte e o Nordeste lhe deram expressiva votação. Ganhou porque obteve - apesar de não ser a maioria - expressiva votação também em todos os estados e, principalmente, porque ganhou em Minas Gerais. Foi esse último o fiel da balança e não, como pensam os preconceituosos, os nortistas e nordestinos.

E por que venceu Dilma em Minas, o Estado onde seu opositor foi governador?

Por três motivos. Primeiro, porque Aécio Neves exagerou ao apresentar seu governo como a maior vitrina de sua capacidade administrativa. Claro, não foi um mau governante e os índices de aprovação de sua administração são incontestáveis. Justifica-se: mineiro gosta do político conterrâneo que tenha por trás de si uma longa tradição de políticos e Aécio, afinal, é o herdeiro de um homem que, se não chegou a tomar posse como presidente, teve uma importância fundamental na história recente do País. Mas ele exagerou e mentiu, quando apresentou realizações muito acima daquilo que realmente fez, quando governador. Tanto, que acabou por entregar ao PT a próxima administração. Segundo, porque está enraizada no inconsciente coletivo dos mineiros uma história mal contada de traição, a de Tiradentes, seu herói maior. E mineiro odeia traição. Aécio, sem querer, talvez, por inadvertência, traiu os mineiros ao se aliar fortemente aos políticos paulistas. Seu candidato a vice confirma isso. Buscou ele no PSDB paulista os principais pontos de apoio e de programa de campanha e de governo, sem atentar que, inconscientemente, estava traindo os políticos e o povo mineiro. Que não lhe perdoou: votou na Dilma que, embora tivesse pouca relação com Estado, é também mineira, o que alivia bem a consciência do eleitor. Terceiro, porque fez uma campanha agressiva. Não há dúvida de que também "apanhou como gente grande", como se diz. Mas, por dever de oposição, como candidato, mais uma vez exagerou na dose, sem perceber que o brasileiro, inconscientemente, apesar de ser machista, não gosta de quem "bate em mulher". Mas não se saiu tão mal assim, já que, na primeira fase da campanha, não tinha nem a possibilidade de chegar ao segundo turno. Seu crescimento político e o número de votos conquistados o habilitam como um político hábil - que ele realmente é - que ainda pode sonhar com voos altos, se repensar sua posição e conseguir se livrar desse extremismo direitista paulista que agregou à sua persona política, nessa campanha.


Concluindo: Dilma Rousseff venceu as eleições com o voto de brasileiros de todos os pontos do País. Ao contrário do que pensam os imbecis e preconceituosos que estão a pregar uma divisão do povo, não existe voto qualificado: pela lei e pelos princípios de democracia solidamente constituídos de forma legal e filosófica, todos são iguais perante a lei e o meu voto vale exatamente igual ao seu, ao do meu vizinho ou ao do pescador de Rondônia ou ao do vaqueiro do Rio Grande do Sul. E a vontade soberana do povo, em eleições legítimas e legitimadas pelo poder de uma Justiça Eleitoral livre e independente, não pode ser desrespeitada e violentada por qualquer minoria derrotada, apenas por implicância ou preconceito, esse sim, um crime de lesa-pátria e de lesa-humanidade.

outubro 21, 2014

LIBERDADE DE IMPRENSA X IMPRENSA LIVRE







A Rede Globo de Televisão e também as assim chamadas co-irmãs, ou seja, todas as demais redes de rádio e televisão do País, acompanhadas da mídia impressa, enchem a boca de seus apresentadores de telejornais, de seus jornalistas, de seus comentaristas, para qualquer evento em que se discuta ou que alguém de peso defenda a liberdade de imprensa.

Sim, liberdade de imprensa (liberdade de opinião, liberdade de mídia) é um bem fundamental de qualquer democracia. Direito e dever. Inalienável. Como vários outros princípios democráticos.


Temos, no Brasil, assegurada pela Constituição Federal, amparada por leis, defendida por todos, total liberdade de imprensa. Total liberdade de mídia. Nenhum jornal, nenhuma emisssora de televisão ou de rádio, nenhuma revista ou qualquer outro tipo de mídia têm sido perseguidos ou seus integrantes, presos, por opinião ou pelo exercício de seu ofício. Os três poderes da República funcionam em harmonia e se respeitam, apesar de divergências, mas respeitam, acima de tudo, a liberdade de opinião de todo e qualquer cidadão.

Mas... E aí vem uma adversativa que a nossa imprensa adora: há sempre um "mas" em qualquer notícia que nossa mídia publique sobre a situação do País - "a economia cresce, mas...", "não há desemprego, mas..."

Então, em relação à liberdade de imprensa/liberdade de mídia, também queremos ter o direito de colocar um "mas..."

E a nossa adversativa vem carregada de perplexidade, porque há um paradoxo nessa tão decantada liberdade que enche a boca de nossos ilustres apresentadores e comentadores só existe como quimera. Porque não há liberdade alguma dentro de nossa mídia, concentrada nas mãos férreas de cinco famílias. O que a nossa imprensa/mídia confunde é a liberdade de imprensa (liberdade de mídia) com imprensa livre (mídia livre).


Desafio qualquer jornalista de nossa grande mídia - Globo, Veja, Estadão, Folhão etc. - a dizer, sem muito óleo de peroba na cara, que tem liberdade de dizer e escrever o que pensa, dentro das redações e, principalmente, publicar em seus jornais, revistas e dizer em suas rádios e televisões opiniões que contrariem as opiniões de seus patrões.

Claro: muitos jurarão de pé junto que publicam o que pensam, porque há o outro lado cruel dessa moeda - não fica empregado nessas redações um só jornalista ou comentarista que destoe seu pensamento do pensamento do patrão. São todos escolhidos a dedo. Os que não se conformam às orientações que vêm de cima, se chegam a trabalhar, não permanecem.

E as famílias são oligopólios do pensamento único: suas ideias, sua ideologia, sua postura têm o cheiro pútrido do conservadorismo que nenhuma naftalina consegue disfarçar. São todos "quatrocentões" de todos os costados, aqui aportados nas naves vagabundas de Cabral. Nenhum pensamento modernizador ou de viés social, ou que implique a ascensão das massas populares ao poder, ou mesmo, às benesses do capitalismo selvagem que defendem, pode chegar a seus leitores, ouvintes ou telespectadores, que isso é visto como veneno ou ameaça a seu poder e ao poder que representam, fincado nos chãos de fábricas onde o operário é massa de manobra, ou fincado nos latifúndios lucrativos do agronegócio onde o lavrador é apenas o adubo que fertiliza a terra. Ambos - a indústria e o campo - nas mãos hábeis dos capitalistas internacionais, aqueles que lhes compram a consciência com o ouro negociado nas bolsas de Nova Iorque, Londres ou Tóquio e transformado em mais poder - econômico e político.

Portanto, a liberdade de imprensa/mídia - um bem inalienável em qualquer democracia - torna-se uma quimera, um jargão de noticiário do horário nobre, se não tem a contrapartida de uma imprensa/mídia livre. Não há realmente, liberdade de imprensa/mídia, enquanto a imprensa/mídia estiver sob o domínio oligopolizado de uns poucos.

E pior: de uns poucos que manipulam e mentem, que usam pesquisas e meios escusos de toda espécie, para influenciar a mente do povo, para fazer com que se elejam os seus cupinchas, os seus paus-mandados, como já fizeram no passado com um determinado presidente que foi, depois, devidamente defenestrado do poder, quando o povo percebeu o engodo.


A História que se repete, só se repete como farsa. E o povo sabe disso. Por isso, se muitos se deixam envolver pela mentira, pela falta de caráter de nossa mídia - que tenta mais uma vez manipulá-lo -, a maioria saberá dar o troco nessa gente e dar mais um passo à frente, no sentido de emancipação de um povo que se vê empobrecido e escravizado há quinhentos anos e está começando a gostar da liberdade que não têm os nossos jornalistas nas redações de suas empresas de mídia. Pobres coitados!

agosto 29, 2014

POLÍTICA BRASILEIRA É UM IMBROGLIO





É quase impossível pensar racionalmente, quando se tenta entender a política brasileira. Principalmente quando entra em campo a decantada, amaldiçoada e mal entendida "governabilidade".

A Constituição de 1988 abriu a porteira das ideologias - verdadeiras ou falsas - represadas desde o golpe militar e permitiu que inúmeros partidos políticos fossem criados. Com isso, pulverizou-se a ideia de partido majoritário. Cada partido que "ganha" as eleições, com alianças antes e, principalmente, depois das eleições, precisa garantir a tal governabilidade com longas e desgastantes negociações, senão não consegue aprovar nada. O exemplo crucial dessa política foi o governo FHC, que atingiu o ápice da troca de favores com o Congresso para a aprovação de matérias de interesse do Executivo, ao comprar, à custa da quebra do Estado, a sua reeleição. O políticos descobriram a mina de ouro: dificultar para obter favores. Contados os votos, lambem-se as feridas e é o momento em que os vitoriosos buscam e os derrotados negociam apoios. Formam-se novas e improváveis alianças. Quem fica de fora do butim, torna-se oposição e os "situacionistas" cobram o preço, às vezes de forma brutal, quase sempre com cargos e ministérios.

Essa é a realidade. 

E esta é a constatação mais infeliz: não há mais ideologias nos partidos políticos. Resta alguma em nanicos, como o PC do B, ou o PSOL. Mesmo o PT, que tem um berço nobre, acolhe em suas fileiras muitos aproveitadores, políticos e líderes que só querem a legenda para melhorar de vida. Para obter contratos. E não é possível impedir a entrada dos aventureiros, porque não existe atestado de ideologia. É como o jogador de futebol contratado por milhões que, ao vestir a camisa do time, beija seu escudo e jura fidelidade... e o torcedor acredita! Porque não é possível não acreditar. E porque, na maioria dos casos, deseja-se muito acreditar.

Dito e compreendido isso, vamos às eleições de 2014. Desde já deixemos claro que Marina Silva só é a cotada da vez para vencer essas eleições catapultada que foi pela espetacularização da mídia em torno da morte prematura de Eduardo Campos, um político neófito tratado como chefe de estado e grande estadista. Uma nova viúva Porcina: foi sem nunca ter sido. E entendamos as razões de a mídia ter feito isso: como seu queridinho, Aécio Neves, estava mal nas pesquisas, resolveram incrementar a candidatura de Marina, com a esperança de que, dividida a esquerda, ela tirasse votos da Dilma Rousseff, cuja reeleição parecia quase impossível de ser evitada, para desespero da mídia, alinhada com a direita mais retrógrada desse País, como sempre. Só que a canalha deu um tiro no pé: Marina tirou votos, sim, de Dilma, mas tirou muito muitos mais do minerim das baladas cariocas, jogando-o para o desesperador buraco dos perdedores de primeiro turno. E agora?

Se é sustentável a situação de Marina Silva, só o tempo - pouco, a essa altura - poderá dizer. Mas tudo indica que, passada a comoção da morte do moço de olhos azuis, avaliado o estrago que sua candidatura ocasionou ao queridinho da mídia e da direita, não há dúvida de que a ex-seringueira odiada pelo agro business começará a perder forças e essa perda (e não, "perca") será terrivelmente impulsionada por uma tentativa de desconstrução de sua figura, a começar pelo caso do jatinho acidentado, que parece ter conteúdo suficiente para fazer a poderosa rede Globo tentar achar em seus destroços sinais de corrupção e troca de favores que respinguem fortes em Marina Silva e seus acólitos. E uma campanha difamatória sutil e impiedosa começará a tomar conta de todos os meios de comunicação, como tentativa desesperada de inflar de novo o balão murcho de Aécio Neves. Claro que petistas desesperados tentarão aliar-se a essa guerra suja, o que será uma lástima, tanto para Dilma quanto para o próprio histórico do partido.

Especulemos, no entanto: e se Marina Silva ganhar as eleições?

Há, na mídia, como uma espécie de esperança consoladora, a ideia de que Marina Silva poderia aliar-se aos depenados tucanos de FHC, a essa altura curtindo uma profunda síndrome de abstinência de poder. Ora, se essa senhora tiver a cara dura de passar-se, a essa altura de sua trajetória, para a direita, teremos de reconhecer que, em matéria de política, tudo é mesmo possível. Nada, no seu ideário político até agora expresso, indica que isso possa acontecer, mesmo que ela venha, durante a campanha, por motivos eleitorais e eleitoreiros, a acenar com algumas concessões à direita, como tentativa de acalmar certos ânimos e obter financiamento para a campanha. Então, não será, quase com certeza, com o PSDB que ela irá governar. Talvez também não, no início, com o PT. Restará, então, qual partido com que aliar-se no Congresso para tentar aprovar suas propostas? Sem dúvida nenhuma, o PMDB, o partido que não é partido, ou melhor, é tão partido, que alinha em suas fileiras gente de todas as cores, de todas as ideologias. Tem, sim, PMDB para a esquerda e para a direita, para o centro e para qualquer outra nuance ideológica que se apresente no poder. É só saber estalar os dedos. Porque, hoje, no Brasil, nenhum presidente da República logra sucesso, sem o PMDB, porque ele é o maior, o mais bem estruturado, com bancadas sólidas no Congresso e em quase todas as casas legislativas. Só lhe falta - e isso é fruto de suas múltiplas faces e de sua origem como frente ampla - um líder de apelo nacional, que o conduza à Presidência.

Além disso, não tenham dúvidas de que, não importa com qual PMDB ela se alie, Marina Silva tenderá sempre para a esquerda e poderá levar o País para um caminho que o PIG - o Partido da Imprensa Golpista - e a direita mais hidrófoba não irão, absolutamente, gostar: o caminho de um nacionalismo à Cristina Kirchner, talvez sem os desvarios da politicagem peronista que mantém os argentinos à beira de um ataque de nervos, mas com uma política econômica muito mais próxima da heterodoxia do que hoje se vem praticando com Lula e Dilma. E isso poderá trazer consequências desastrosas para o País. Não exatamente sua política, mas a oposição de cachorro louco que ela enfrentará depois de alguns meses de governo.


O que se quer dizer, ao fim e ao cabo, é: Marina Silva é mais esquerda que o PT, mais esquerda que Dilma e Lula juntos, se acreditarmos nas ideias que ela expôs até agora. E se acreditarmos na força que suas origem tem nas ideias que ela expressa. Isso, independentemente de seu evangelismo que, sendo outra vertente, de sua personalidade, se vier à tona, poderá trazer sérios atritos com a sociedade civil que luta por direitos importantes como o das mulheres (no caso, a regulamentação do aborto, e não sua penalização), como o dos grupos GLBT (no caso, a união civil entre pessoas do mesmo sexo), e muitas outras lutas e conquistas que a sociedade espera e deseja. Creio muito mais num certo vocacionismo místico meio sebastianista, resultante de sua concepções religiosas, do que a interferência dessas ideias nas políticas de seu pretenso futuro governo. Marina pode ser muita coisa do que dizem dela seus detratores, mas não é estúpida, nem amadora. Sabe o quer, e tem personalidade forte para impor sua vontade. Desde que faça as alianças certas, no Congresso. Se isso não acontecer, aí, sim, a tal "governabilidade" entrará em campo, para melar seu governo. E o desastre será inevitável.



julho 19, 2014

O EFEITO MANADA




Um pouco de saudosismo: quando o metrô começou a fazer os primeiros testes, e depois iniciou sua operação, com a linha (hoje chamada Azul) Jabaquara - Praça da Sé, o povo que utilizava seus serviços foi orientado a estabelecer alguns protocolos de civilidade: manter os vagões limpos (de pichações e de lixo), dar prioridade a quem sai, estabelecendo um fluxo que deixava livre o lado esquerdo etc. etc. etc. Naquele tempo, o número de passageiros era pequeno e foi, claro, aumentando pouco a pouco e esteve num nível razoável até uns dez anos atrás. A partir daí, estourou: hoje, a quantidade de gente que viaja pela Linha 1 - Azul é assustadora. Com isso, o protocolo de civilidade que estabelecia preferência a quem sai tem passado longe da manada que assalta cada porta que se abre, em cada estação, sem se preocupar com quem está saindo, ocasionando, claro, transtornos, empurrões e cotoveladas que só não se transformam em brigas porque o tempo urge e todos têm pressa e as portas logo se fecham. Permanecer à direita é um procedimento simples, que não exige sacrifício de ninguém, como no trânsito de veículos. No entanto, no meio da manada, o indivíduo age como se fosse bicho, e a atitude de um serve de exemplo para todos e todos se tornam bichos e todos se empurram, se trombam, e ficam mal humorados e vão para seu trabalho ou para sua casa com cara amarrada porque levaram cotovelada, levaram empurrão, levaram trombada no metrô.

Podia dar mil outros exemplos, como o das torcidas organizadas de futebol, compostas, em geral, por gente normal, que trabalha, que é bom filho, bom vizinho, mas quando se junta na manada vira bicho e sai espancando adversários como se fossem inimigos. Gente que, em situação normal,  não mataria uma mosca, assassina impiedosamente o outro porque ele está usando uma camisa diferente da sua, ou melhor, diferente da camisa de sua manada. Como os dos black blocs, fenômeno mais recente, que se misturam à manada pacífica para cometer suas atrocidades e depredações, porque ali são anônimos e estão protegidos pelo grupo, mesmo que o grupo pacífico não concorde com seus atos. Assim é o efeito manada, em qualquer circunstância: o ato de um torna-se coletivo e o coletivo é a força que leva o indivíduo a agir em nome de todos. E a manada tende a proteger o indivíduo, para proteger a si mesma.

Pois, é: assim é o ser humano. Viver em sociedade exige regras de civilidade. Regras claras, objetivas, que têm o contraponto da punição, quando necessário. Já a manada não tem claras as regras de ação e, mesmo quando as têm, são facilmente descumpridas, no calor da pugna ou da ação. Porque, enquanto, na sociedade, as pessoas se comportam porque têm inúmeros compromissos e relacionamentos profundos e duradouros, dentro da manada, esses compromissos e relacionamentos são frouxos e efêmeros, o comportamento de cada um está sujeito às explosões  momentâneas e às conquistas de território ou à confirmação de uma identidade surgidas ao sabor da necessidade imediata da manada ou de seus líderes.

E mais: os atos individuais cometidos dentro da manada ou em seu nome ou pela sua causa - não importa se justa ou injusta - dificilmente são punidos, porque se torna quase impossível individualizá-los perante a lei, e porque a manada, mesmo que, em princípio, não concorde com certos atos, tende a proteger os indivíduos que dela participam, porque desconfia tremendamente da noção de justiça que não venha de sua própria organização, ou seja, desconfia de que, se deixar que um de seus membros seja criminalizado, toda a manada o será. Haja vista a grita geral da manada em favor de alguns de seus membros que foram detidos ou presos pela polícia em manifestações recentes em que houve confronto e vandalismo. Não se conforma a manada com o fato de que esses indivíduos - mesmo que tenham seus crimes reconhecidos e provados, de forma individual - possam ser culpados de qualquer ato cometido com e pela manada.

O homem é um ser social. Isso é consenso. Mas, parece que a sociabilização tem limites. Há um ponto de equilíbrio. E o efeito manada confirma que a civilidade desaparece na mesma proporção que nos tornamos de novo o elemento anônimo dentro de uma massa informe. E mais: não é exatamente o tamanho da massa que determina o efeito manada, mas sim, a ausência de liderança firme e de objetivos reais. Um milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, há alguns anos, sob a liderança de políticos, artistas e comunicadores, não trouxe nenhum dissabor nem mesmo à polícia da ditadura, de olho nos participantes que, de forma civilizada e firme, protestaram contra o regime militar. No entanto, numa estação de metrô, com quinhentas pessoas, ou numa passeata de duas mil, em que não há objetivos claros de ação cidadã nem lideranças capazes de aglutinar, o efeito manada faz que cidadãos civilizados ou, pelo menos, razoavelmente civilizados, se empurrem, se xinguem, se atropelem, destruam bem público, arremessem pedras em lojas e queimem carros e ônibus que encontrem pela frente.

Não temos antídoto contra o efeito manada, senão a punição rigorosa de elementos que exageram na dose, quando conseguem ser identificados. Mas essa não é a melhor forma para resolver o problema, porque a manada acaba adquirindo a percepção errônea de que a criminalização de atos individuais atinge a própria liberdade de expressão da manada, o que tornaria a punição aparentemente antidemocrática. Fica-se, então, num dilema: punir como exemplo, ou esquecer e deixar tudo continuar como está? Não há resposta, sem que haja uma revisão nos conceitos de cidadania, sem que as pessoas percebam que a convivência pacífica entre as pessoas é possível, desde que se cumpram regras simples e elementares de respeito e de dignificação de si mesmo e do outro, e de que a vida é um bem único e inalienável e, não podendo ser reposta, não deve ser jamais desprezada e colocada em risco.








março 28, 2014

NÃO VAI TER COPA?








As pessoas apreensivas quanto ao movimento "não vai ter copa" deviam atentar para alguns aspectos do evento, antes de pensarem que poderão ocorrer fatos constrangedores durante a realização do mundial de futebol no Brasil:

1. em quase todos os países onde houve a Copa, ocorreram manifestações contrárias ao evento, sempre de grupos minoritários, sem qualquer repercussão;
2. não se pode menosprezar o poder da FIFA, em todos os sentidos, não só econômico, mas também de mobilizar o mundo (tem mais associados do que a própria ONU): conta com parceiros (grupos econômicos e empresas) que têm interesses imensos na realização da Copa, em termos de negócios e marketing;

3. FIFA + EMPRESAS + GOVERNO (e acho, até, que se poderia colocar a palavra "governo" no plural, abarcando outros Países, e não só as três esferas de governo brasileiras, municipais, estaduais e federal) vão atuar de forma maciça em termos de propaganda e marketing nos poucos meses que faltam para a Copa, e isso vai ser quase como uma "lavagem cerebral";

4. à medida que se aproxima a data do primeiro jogo, os meios de comunicação começam a dar, a cada dia que passa, mais destaque ao evento. Agora, imaginem quando as seleções começarem a ser convocadas, principalmente a brasileira; quando as seleções começarem a treinar e, portanto, a desenhar seus sistemas de jogos e definir seus times; quando as seleções realizarem seus jogos amistosos e jogos-treino; quando as seleções começarem a chegar ao Brasil; quando, enfim, os times estiverem todos aqui... - a cobertura de todos esses eventos fará com que a mídia tenha quase que um único assunto, futebol; política, economia etc. etc. etc., tudo ficará em segundo plano, tanto em cobertura, quanto na preocupação do povo;

5. pensem ainda: com a propaganda maciça da Copa, com a cobertura total da mídia, com todos os olhos voltados para o evento, a mobilização popular dará o ar de sua graça, claro, com as ruas sendo enfeitadas, com as pessoas usando as cores do País, a camiseta da seleção, consumido os milhares de produtos que já começam a tomar conta do comércio, o espaço para protesto começará a diminuir;

6. e pensem mais, no que é fundamental: a quantidade de dinheiro que começará a circular (aliás, já começou há muito, em termos macro, com a obras relacionadas à Copa) desde hotéis, restaurantes, comércio em geral até os pequenos vendedores de cachorro-quente e as pessoas que vão alugar casas, apartamentos e quartos para visitantes, afetando direta ou indiretamente a vida de dezenas de milhares, talvez milhões, de pessoas;

Juntem tudo isso e mais: o interesse que a Copa desperta em termos financeiros e, através do marketing, em termos emocionais, mobilizando "corações e mentes", levando a que se respire Copa do Mundo vinte e quatro horas por dia, diariamente - e agora respondam: acham que os pobres-diabos do movimento "não vai ter copa" terão alguma chance?

Se os gatos-pingados desse movimento resistirem até os jogos e resolverem colocar suas manguinhas de fora, protestando em frente aos estádios, será que alguém, em sã consciência, imaginará que terão oportunidade de sequer se aproximarem dos locais dos eventos, com todo o policiamento na rua, e mais, com toda a população mobilizada e ávida por ver os jogos, as torcidas dos times (que não estarão presentes nos estádios, já que a venda de ingressos pulveriza os torcedores), orgulhosas com os seus estádios (patrimônio de seu clube do coração e, por um processo óbvio de assimilação, patrimônio do próprio torcedor) estarão atentas para que não se depredem e destruam os seus estádios longamente sonhados, como o do Corinthians, em Itaquera, bairro essencialmente popular, que receberá a abertura e terá, portanto, a atenção do mundo todo?


Ora, ora, senhores e senhoras, tenham um pouco de calma, que esse movimento - que já dá claros sinais de esgotamento, com as ridículas manifestações de ontem, 27 de março - vai-se recolher ao seu tamanho original de meia dúzia de loucos ou idiotas a enfrentar o mundo, por uma causa que nem é, assim, tão apaixonante, por falta de consistência ideológica e por se revelar absolutamente inútil, diante de tudo o que dissemos acima. 



março 19, 2014

DURA LEX, SED LEX








Em política, só as ditaduras são absolutas; tudo o mais é relativo, absolutamente relativo. Nossa democracia, por exemplo: há liberdade de expressão, de manifestação, mas há também leis que regulam e, até certo ponto, relativizam tal liberdade, além do fato de que há temas sobre os quais a manifestação de posição favorável pode dar até cadeia, como racismo. Também somos livres para criticar nossa democracia, mas não pode haver liberdade absoluta de expressão para quem queira suprimi-la. Numa democracia, não se pode ser anti-democrático. Logo, em alguns aspectos, o regime democrático torna-se ditatorial, por mais que essa palavra nos cause asco. A diferença dos aspectos ditatoriais (e notem que nem usei aspas) de um regime democrático para os mesmos aspectos num regime ditatorial é que, no regime absolutista, a oposição a ele é tratada de forma absoluta, com prisão, condenação, prisão e, muitas vezes, morte, quase sempre sem julgamento, ou com julgamentos de cartas previamente marcadas. Já o regime democrático trata os opositores de forma relativa, levando-os às barras dos tribunais, sob leis o mais justas possível, com o mais amplo direito de defesa. E não se pode, e isso já é uma opinião estritamente pessoal, tergiversar com a aplicação da lei, pois, como sempre se disse, dura lex, sed lex.

Todo esse arrazoado vem a propósito do temor - justificado - de alguns setores democráticos com relação à convocação por um grupo de extremistas da direita de uma nova "marcha da família, com deus, pela democracia", de cunho claramente golpista e favorável à volta dos militares e sua ditadura. Que haja saudosistas dos tempos ditatoriais, não nos causa estranheza: muitos foram os apoiadores efetivos, com recursos e prestígio, aos militares da ditadura. Que sonhem com sua volta, para continuarem tendo os privilégios que tiveram, também é um direito deles, e um direito democrático. Já o fato de pregarem abertamente tal proposta ponho em sérias dúvidas se um regime realmente democrático deva permitir uma campanha contra os seus princípios. E conspirar, então - e conspiração parece existir nessa campanha -, merece com certeza que seus inspiradores e líderes respondam por seus atos e palavras nas barras dos tribunais, democraticamente, com direito claro à defesa, mas com um julgamento que não deixe dúvidas de que não se pode - pelo bem da democracia - ser conivente ou calar diante de ameaças ao sistema democrático que adotamos.


Querem se manifestar? Que se manifestem. Querem marchar com deus ou com o diabo? Que o façam. Porém, respondam, depois, pelos seus atos e palavras. Porque a tolerância democrática tem o limite de sua relatividade: não pode permitir-se a omissão diante de quem, de forma absoluta e absolutista, queira impor, de novo, um regime contrário aos princípios básicos e axiomáticos de um sistema democrático. Que se manifestem, portanto, os representantes da lei, com a justa dureza e isenção que exige o caso.

janeiro 26, 2014

A CRISE DAS CIDADES, DAS MEGA CIDADES





(Foto de Aurélio Becherini - São Paulo antiga)


São Paulo  completou ontem, dia 25/1/2014, quatrocentos e sessenta anos. Sem muito a comemorar. Embora seja um dos polos de desenvolvimento e de cultura do País, a mega cidade tem problemas crônicos que todo morador sabe de cor. Todos clamam por solução e protestam contra as condições de vida a que são submetidos, mas poucos oferecem sugestões de como serão resolvidas suas imensas carências.

"Tudo aqui é insuficiente. Quanto mais metrô se faz, mais insuficiente o metrô fica. Quanto mais hospitais se constroem e se instalam, mais hospitais são necessários. Quanto mais escolas se tem, mais escolas se precisa e menos ensino se consegue. Estamos no reinado de Alice do outro lado do espelho: quanto mais andava, mas distante ficava. Chegamos, finalmente, à lógica dos avessos. Nem o povo é inocente nessa história. Uma cidade que reclama da falta de transportes e queima ônibus todos os dias é uma cidade louca. É melhor chamar o Alienista, de Machado de Assis." Assim escreveu o sociólogo José de Souza Martins, num artigo publicado hoje no Estado de São Paulo.

Neste parágrafo está, para mim, a chave da compreensão da cidade de São Paulo: o crescimento desordenado da vila do século XIX para a mega cidade do século XXI, sem planejamento, sem respeito ao meio ambiente, sem pensar no futuro, ou seja, só tivemos governos municipais (e estaduais, que também se metem no planejamento da cidade) voltados para obras, para o imediato, para o aqui e agora.

Sim, colhemos o fruto - amargo - de décadas de mau planejamento. Isso todo mundo sabe. Isso todo mundo diz. Mas... e daí? Como sair dessa? Tem solução a cidade de São Paulo?

A doença é crônica e corrói não só São Paulo mas todas as mega cidades do mundo: chama-se explosão demográfica. Gente demais querendo viver num espaço exíguo. E gente quer casa, quer escola, quer água e esgoto, quer transporte, quer qualidade de vida. No entanto, é impossível prover tudo isso para uma população que explodiu de pouco mais de 4 milhões para 12 milhões em apenas quarenta anos. Mesmo que haja recursos - e, em parte, eles existem - tudo o que é necessário para tornar a vida melhor demora para ser feito. Não se fazem milhares de casas de um dia para o outro. Um quilômetro de linha de metrô demora meses para ficar pronto. Obras rápidas só no jogo de faz de conta de promessas políticas, ou na construção de pontes e viadutos que não resolvem absolutamente nada.

Digo e repito, por mais estranha que algumas pessoas possam achar a ideia: São Paulo precisa, primeiro, parar de crescer; segundo, começar a diminuir. Sim, diminuir. Somente um plano racional de esvaziamento da cidade pode garantir seu futuro. É estupidez nos orgulharmos de sermos tão grandes. Se, num barco furado, entram duzentos litros de água por hora e só temos capacidade de tirar cinquenta, quanto tempo levará para que esse barco afunde?

São Paulo está afundando em seus problemas porque há gente demais exigindo recursos demais, recursos que não são possíveis de serem colocados à disposição das pessoas em curto prazo. Recursos que se tornam obsoletos no momento mesmo em que são disponibilizados. É como enxugar gelo.

Então, o que fazer para diminuir a população de São Paulo?

Não, não pense que eu estou propondo expulsar a quem quer seja da cidade. Isso é higienismo e fascismo. A cidade precisa de sua população e de sua diversidade. O que não pode é abrigar um número exagerado de pessoas a demandar recursos de que não dispõe.


Há duas formas básicas de fazer com que a população diminua ao longo de duas ou três décadas.

A primeira é transferir a capital do Estado para o interior, para o centro do Estado, com toda a sua infraestrutura burocrática. Liberar a cidade do peso de ser a capital e abrigar centenas de órgãos públicos e toda a burocracia que os envolve, tornando-a, ao mesmo tempo, livre de atração de dezenas de pessoas que buscam a capital para a solução de seus problemas ou de realização pessoal. Creio que não é necessário fundar e construir uma nova Brasília para isso: há, por exemplo, São Carlos, bem no centro geográfico de São Paulo, que pode muito bem receber a honra de tornar-se capital (e esse é só um exemplo!).

A segunda forma é alocar recursos municipais, estaduais e federais para realizar um plano que permita a muitos cidadãos paulistanos morar fora de São Paulo e, ao mesmo tempo, aqui manter seu emprego, seu lazer, sua vida. Polos de atração a até 200 quilômetros da cidade - outras pequenas cidades, vilas, condomínios etc. - integrados à cidade por trens de alta velocidade (trem bala). Provavelmente o tempo de deslocamento entre esses polos e o centro será bem menor do que hoje se leva para ir de um bairro a outro vizinho, em horário de pico.

Prevejo, com essas medidas, uma redução de até um terço da população atual. E, com cerca de 8 milhões de habitantes fixos, até mesmo a atual infraestrutura já seria suficiente. Mas, o governo municipal teria ainda como melhorar a qualidade de vida de seus habitantes com medidas mais efetivas de despoluição de rios e do ar; de saneamento básico; de arejamento da cidade com o aumento de áreas verdes, parques, praças etc.; de mobilidade urbana; de permeabilização do solo, que diminuam os tormentos das enchentes; de recuperação das margens de rios e riachos, após o desenterramento de muitos deles; de ensino de qualidade; de mais lazer etc. etc. etc.

Enfim, teríamos uma cidade mais civilizada e menos violenta. Porque creio que a violência não é fruto de pobreza ou de imigrantes ou de outra coisa que não seja a excessiva aglomeração de pessoas. E São Paulo, repito, tem gente demais. E gente demais é sinônimo de conflito, de crise, por causa de demandas não atendidas e impossíveis de atender, porque, como disse o articulista citado, "quanto mais se anda, mas distante se fica" e, então, nem o Alienista pode dar jeito.


janeiro 21, 2014

"ELES" NÃO APRENDEM...








Durante alguns anos, militei na área de atendimento ao público, estudando e dando cursos e palestras. Li e aprendi muita coisa. Conceitos que, há vinte anos, pareciam utópicos, como "encantar o cliente", foram-se popularizando, principalmente nas empresas mais sérias, mas preocupadas com seu relacionamento com o consumidor, o seu cliente, aquele que paga seu investimento e salário de seus "colaboradores".

No entanto, há bolsões enormes de resistência ao bom atendimento. Em todos os setores. São pessoas empedernidas em velhos paradigmas, de que "cliente bom é o que compra o serviço e não reclama". E um dos piores, nesse quesito, sem dúvida nenhuma está na chamada área da construção civil, mais especificamente as pequenas e micro empresas voltadas para o atendimento a uma vasta, enorme clientela de pessoas que precisam de pequenos e médios reparos em suas casas e apartamentos. Falamos de pedreiros, carpinteiros, encanadores (no Rio, são "bombeiros"), pintores etc.

Dez entre dez pessoas atendidas por esses "formiguinhas" têm histórias para contar. E histórias nada lisonjeiras, como a minha vizinha que contratou um desses profissionais para pintar o se apartamento e teve a surpresa de, ao alinhar um dos quadros na parede, perceber que o indivíduo era tão bom pintor, que conseguiu pintar a sala sem tirar um só quadro da parede, contornando-os todos, com grande perícia. Enfim, são muitas e muitas as histórias. Mas, vamos falar principalmente de atendimento. De relação sadia com o cliente. Para isso vou contar uma história particular, como exemplo.

Em julho de 2012, contratei a micro empresa CHIBRAS MANUTENÇÃO DE CONDOMÍNIOS, CNPJ 09.500.785/0001-36, localizada na Rua Jurupari, 39, Jabaquara, São Paulo, de propriedade do senhor Dean Freddy Delgado Ovalle, autodenominado "técnico responsável pela mão de obra", com a finalidade de cobrir o telhado da minha casa, especialmente o da cozinha, com manta asfáltica, para evitar vazamentos contínuos, no período da chuva. Assinamos o contrato, com garantia de cinco anos, "à luz do código civil/2002 , art. nº 618 e do código de defesa do consumidor lei 8.078/90", e o serviço foi feito e devidamente pago.

Seis meses depois, com as chuvas fortes do verão, constatou-se que houve um erro de execução do projeto, não constatado pelo senhor "técnico responsável pela mão de obra", o senhor Freddy, e houve um grande vazamento na minha cozinha. Chamei o senhor Freddy à minha casa, mostrei-lhe o vídeo que fizemos da quase "cachoeira", ele subiu ao telhado, detectou o problema, prometeu resolvê-lo (já que não era complicado) e... sumiu!

Durante todo o ano de 2013, liguei para ele. Sempre uma desculpa. Sempre uma promessa. E nada. Como o verão de chuvas forte só ocorre no começo do ano, acabei relaxando a cobrança e o tempo passou. Chegamos a um novo período de chuvas forte e novamente procurei, sem sucesso, o senhor Freddy, já que, na primeira tempestade, uma nova "cachoeira" inundou minha cozinha. Dessa vez ameacei com "medidas drásticas", isto é, iria procurar o PROCON, iria procurar a Justiça e processá-lo, se ele não resolvesse o problema em três dias.

Realmente reapareceu o senhor Freddy, com o material necessário para o reparo e um funcionário a tiracolo, devidamente uniformizado com a camiseta o logo de sua empresa. Deve ter muito orgulho de sua empresa o senhor Freddy. Muito. Mas, orgulho não basta. Precisa o senhor Freddy entender que tratar bem o consumidor é, hoje, requisito fundamental para o sucesso. Que não basta vender e esquecer: há todo um processo de pós-venda, para fidelizar o consumidor. E mais: se há um contrato em vigor, ele tem que ser respeitado. Com a urgência necessária e de acordo com as normas em vigor e, principalmente, visando à satisfação do cliente.

Mas o senhor Freddy não sabe disso, ou é burro, muito burro, para perceber que um cliente irritado espalha para muita gente a sua irritação, como estou a fazer agora. E perdem-se oportunidades que esse cliente lhe daria, com outros serviços (que é o meu caso: estou precisando de vários consertos em minha casa, e titubeio e adio a contratação e outros profissionais, pelos traumas anteriores, principalmente este último) e com outro clientes, vizinhos, amigos etc.

O senhor Freddy é também muito burro, ao não perceber que, apesar da demora - um ano! -, ele ainda podia tentar reconquistar o cliente ou minorar o seu erro, com um bom pedido de desculpas e não com explicações implausíveis, como dizendo que "estava viajando". E mais, ainda: é muito burro o senhor Freddy por aparecer na minha casa com a cara amarrada de quem só veio mesmo para não ser obrigado pela polícia ou pela justiça, ou seja, além de tudo o senhor Freddy mostrou uma educação, na relação com o consumidor, no caso eu, que deixa muito, muito a desejar, para dizer o mínimo.

Acabou? Não: há ainda um detalhe. Feito o serviço de reparo no telhado, o senhor Freddy veio buscar o material utilizado com a mesma cara amarrada e, detalhe: nem perguntou se o serviço fora bem executado ou - o que seria sua obrigação, como "técnico responsável pela mão de obra" e dono da empresa - fazer a devida vistoria do trabalho. Catou suas coisas e foi embora, emburrado, como se cara feia fosse tudo o que merece quem contrata seus serviços e pede respeito ao não ter o trabalho executado de acordo com o que o foi combinado.


É isso. Essa gente não aprende, mesmo. Que sirva de exemplo para os demais prestadores de serviço, porque não quero ver esse senhor na minha porta nunca mais, nem pintado de ouro. E se perguntarem quem executou o serviço em minha casa, darei a "ficha completa" desse mau prestador de serviços, desse indivíduo que eu considero burro, muito burro, por não perceber que as relações entre prestadores e consumidores têm mudado, e muito. Que o consumidor quer algo fundamental: respeito!

janeiro 19, 2014

O MIMIMI DOS REDUCIONISTAS






Os chuveirinhos de praia da Zona Sul do Rio podem (eu disse "podem") estar contaminados. Um notícia desagradável, principalmente para os banhistas das praias cariocas. Sai a notícia e algum comenta: não basta tudo isso que aí está e o brasileiro ainda toma banho de merda. Reducionismo. Puro reducionismo: o Brasil se reduziu à Zona Sul do Rio de Janeiro, mais precisamente, aos chuveirinhos das praias cariocas.

Moleques - de 14 a 18 anos - de bairros periféricos de São Paulo combinam se encontrar num determinado shopping, para jogar conversa fora, paquerar, tomar sorvete e se divertir. A rede social - que tudo amplia - leva a que milhares compareçam ao "encontro", que assusta pessoas, que chamam a polícia, que provoca tumulto (a presença da polícia em um shopping é sempre motivo de susto, preocupação e até pânico). Não aconteceu nada. Mas a moda "pega" entre a molecada, de São Paulo e outras grandes e poucas cidades que têm shopping centers, esses templos elitistas da moda. A imprensa amplia o alcance e a importância disso que eles mesmos, os moleques de férias e sem lugar para se encontrar, denominaram de "rolezinho", festinha, "encontrinho". Detalhe: apesar de muitos morarem em bairros de periferia, e até em favelas, não são exatamente os "excluídos", pois usam tênis e roupas de marca e têm celulares de última geração, através dos quais marcam seus encontros via internet. Aliás, até admiram os shoppings, porque lá estão as mercadorias que são o seu sonho de consumo. Mas, como a "coisa" se ampliou, haja análise sociológica e haja repressão, dos donos dos shoppings e da polícia. Os primeiros, em geral por "segurança" e "burrice": segurança, porque não percebem que não são esses moleques que vão pôr em risco o seu empreendimento; burrice, porque poderiam achar formas de capitalizar esses encontros e torná-los até mesmo lucrativos para seu estabelecimento, com uma boa e inteligente campanha de marketing. A polícia, porque adora reprimir e descer o cacete. E a discussão se alastra nas redes sociais, como se o Brasil se resumisse a isso, "rolezinho" de moleques em férias. Reducionismo. Puro reducionismo. Já que um fenômeno circunscrito - que até pode se alastrar para algumas outras cidades - torna-se parâmetro e paradigma de todos os fatores de exclusão social do País.

O repórter histérico da televisão repete dezenas, sim, dezenas de vezes, o assalto ocorrido no interior do Paraná (ou de qualquer outro estado), no qual morreu alguém ou alguém foi seriamente baleado. Ficamos com a impressão de que o fato ocorreu à porta de nossa casa e basta colocarmos o pé na rua, para sermos assaltados, roubados e mortos. E o repórter esbraveja contra a falta de segurança do País, ampliando ainda mais a sensação de insegurança, de medo, de pavor. Reducionismo. Puro reducionismo: o Brasil inteiro é medido e avaliado por uma única ou por algumas poucas ocorrências policiais devidamente filmadas e repetidas à exaustão.

E assim ocorre com todos os fatos que vemos diariamente na televisão, ouvimos no rádio, lemos nos jornais e revistas: enchentes, rebeliões em presídios, desabamentos, acidentes em estradas, mortes de motociclistas etc. etc. etc. São, muitas vezes, fatos graves, sem dúvida nenhuma, mas que têm a marca única de serem localizados, ou seja, não são fatos que estão acontecendo a todo momento em todos os lugares. Sua repetição e ampliação - e mais: a tentativa, muitas vezes com sucesso, de transformá-los em referência para tudo - fazem desses fatos a medida de tudo, como se o País, tão grande, tão múltiplo, se reduzisse a eles, apequenando-se diante da expressão que ouvimos a todo momento: "isto é Brasil', ou "o brasileiro é assim ou assado". E também isso se transfere para o reducionismo estúpido de julgarmos o comportamento de grupos como se fosse o comportamento de todos: "o homem brasileiro é machista" ou "o carioca é preguiçoso", "o paulistano é estressado" etc. Até mesmo características físicas - que podem, sim, às vezes, parecer ser de todos, mas é de apenas uma parcela da população - tornam-se "a" marca: "a mulher brasileira tem bunda grande". E tantas e tantas besteiras ouvimos todos os dias, repetidas e repetidas como mantras de ideologias ou de quem tem preguiça de pensar ou de unir os dois neurônios para olhar a realidade, que achamos que são verdades absolutas, truísmos que aceitamos sem qualquer senso crítico.

Quer saber? Isso tudo é um saco!

Por isso, não leio, não ouço, não compartilho opiniões de "especialistas", sejam eles de economia, de sociologia, de meteorologia, de culinária, de qualquer coisa, quando convidados a dar opiniões no calor dos acontecimentos, diante de câmeras de televisão ou de repórteres de jornais e revistas. Porque, mesmo que sejam pessoas estudiosas e sérias, aparecem na mídia a falar o que a mídia quer que eles falem, ou sejam, são especialistas em reducionismos idiotas com aparência de seriedade. Servem apenas para enganar, num engodo que se repete e torna "a" verdade tudo o que afirma com cara de "doutores", como se a verdade fosse única, indivisível e absoluta.


E esse mal - o reducionismo corrosivo que nos torna reféns de ideias rasas e  pré-concebidas estabelecidas como verdade - está na raiz de preconceitos de todos os tipos; na raiz de insatisfações e rebeldias sem causa; na raiz de julgamentos sem prova escorados em interesses escusos; na raiz de nossos terrores mais infundados; na raiz, enfim, de nossa ignorância da realidade. Porque o reducionismo funciona como antolhos, que nos obrigam a ver uma só realidade e, assim mesmo, distorcida.

novembro 01, 2013

UM LONGO, MAS NECESSÁRIO DESABAFO






"O que está a acontecer no Brasil é o que as pessoas, as que têm a compreensão do que é ser de esquerda, bem como entendem o processo político e econômico em andamento e colocado em prática pelo PT, chamam de esquerdismo infantil praticado por partidos de esquerda, a exemplo do PSOL, do PSTU e do PCO. Essas agremiações, apesar de serem antagônicas aos partidos direitistas, unem-se a eles em um frenesi político, que lembra a ferocidade dos tubarões ou dos leões na hora de se alimentar. É surreal ao tempo que real."



Não só concordo com o "infantilismo" desses partidos, que beira à ingenuidade, como também o debito na conta de movimentos sociais, como o MPL - Movimento Passe Livre - que pode até ter propostas sérias, mas que não entende nada de política e faz o jogo dos adversários.

Fatos: vivemos num País, livre e democrático. Não confundam, por favor, DEMOCRACIA com SISTEMA POLÍTICO. Nosso sistema político deixa a desejar, claro, mas isso só se modificará com uma reforma política séria. Mas, enquanto isso, o jogo democrático é o presidencialismo de coalizão (por causa da grande quantidade de partidos políticos - mais de 30!) e disso não se pode fugir. É ingenuidade pensar que um único parido político possa governar hegemonicamente o País.

Temos, e isso também é um fato incontestável, um governo de ESQUERDA no poder central. Depois de centenas de anos de lutas. O que não se pode fazer é as forças de esquerda, por motivos de querelas infantis, fazerem o jogo da direita hidrófoba e, em vez de negociar com o governo, confrontá-lo e tratá-lo como inimigo. O inimigo não são o PT ou o PMDB ou outros partidos da base governista, mas o PSDB, o DEM e seus agregados, além de toda a massa conservadora incrustada nas redações da grande mídia concentrada na mão de cinco "famiglias" que estão a fazer de tudo para retomar o poder e destruir as conquistas sociais inegáveis dos últimos dez anos.

Quando digo que o MPL abriu a caixa de Pandora, estou tentando passar um recado claro: enquanto derem abrigo ou se acovardarem diante da meia dúzia de fascistas a soldo da direita que tomam de assalto qualquer manifestação ou não tiverem uma estratégia clara de repúdio aos grupos minoritaríssimos e violentos a soldo da direita, os movimentos sociais não podem continuar na mesma toada de convocação de manifestações que provoquem confronto e aticem a sanha da PM e provoquem reações falsamente iradas da mídia.

Há que se repensar o que é "manifestação pacífica" que acaba em depredações e ocasiona transtorno à maioria absoluta da população, que começa a associar "vandalismo" com reivindicações legítimas, o que pode provocar um imenso retrocesso nas lutas populares.

São idiotas os que pensam que não há nada por trás das máscaras dos truculentos. E é ingenuidade total pensar que eles não estão ali a soldo de gente muito mais perigosa, que usa o niilismo desembestado desses paspalhos para promover comoção social e desestabilizar o processo eleitoral que se inicia. E mais ainda: máscara por máscara, não só os grupelhos fascistoides se aproveitam do anonimato, mas também grupos de bandidos e traficantes começam a perceber que têm um filão interessante a ser explorado para chantagear as forças repressivas e o governo. Mais uma vez, a política instrumentaliza a bandidagem comum. E a história se repete como farsa, uma farsa grotescamente articulada por gente que sabe muito bem o que quer e o que "eles" querem não é nada bom para o futuro do País, porque já o sabemos há muito o que vem no rastro de um governo de certas forças da direita que sempre esteve no poder.

Enquanto a esquerda faz reuniões e apoia os "movimentos legítimos do povo", as manifestações, sejam elas por demandas sociais ou de protesto e exalta a liberdade de expressão e de manifestação, a direita se articula e bota na rua o bloco dos mascarados - pagos e devidamente instruídos - para, depois, nas redes midiáticas esbravejar contra a destruição do patrimônio público e, especialmente, particular.
Esses aprendizes de feiticeiro se esquecem, no entanto, que, quando se soltam os demônios, ninguém mais os detém. E o controle começa a ser perdido, quando agridem covardemente - ou seria de caso pensado? - um comandante da PM, em São Paulo, desafiando quem os contratou.

Passo a acreditar que tudo é de caso pensado, pois a repercussão foi imediata: pesquisas de institutos da direita logo trataram de publicar que 95% da população repudiam a ação dos mascarados (e a associação entre eles e os movimentos sociais começa a ganhar força), enquanto a PM promete reação. Qual pode ser o resultado dessa "reação"? Não é difícil de imaginar: os "profissionais" da provocação fazem o seu "trabalho" de sempre e sabem muito bem fugir no momento certo, deixando pessoas inocentes (ponha "inocentes" nisso) na mira de armas, agora não mais de balas de borracha, mas de balas reais. E teremos, então, os mártires que a esquerda idiota deseja e a direita esperta só espera para pedir o retorno da "ordem" e da "linha dura", com o velho discurso de que "antes, não havia disso"!

Qual é esse "antes"? Imaginem: os mesmos grupos oligárquicos do passado a cometer as mesmas sacanagens, com leis mais duras contra o povo, com privatizações e entreguismo desenfreado, com concentração de renda, com desemprego e retrocesso total de todas as conquistas sociais rumo, quem sabe?, a um utópico paraíso.


Ou seja (para usar a velha metáfora deísta): voltaremos ao inferno, depois de já termos percorrido quase todo o purgatório.

setembro 10, 2013

QUANDO UM GAROTO DE TREZE ANOS MATA A FAMÍLIA...




(Keun Chul Jang)

Um crime cujos motivos jamais entenderemos completamente: um garoto de 13 anos mata os pais, ambos policiais, a tia e a avó e, em seguida se mata. Os detalhes estão em todos os jornais e não é necessário repeti-los.

Por quê?

Eu tenho uma hipótese, apenas uma hipótese, algo que me vem ao observar o comportamento humano, principalmente o familiar. Sempre digo que a "família" - essa instituição tão antiga quanto o próprio homem - tornou-se, em si mesma, a maior armadilha da humanidade e, pior, se desfeita, não há nenhuma outra forma de associação e proteção ao ser humano para se colocar no lugar. Somos reféns e prisioneiros das nossas relações familiares, sejam elas constituídas de um núcleo ligado pela genética ou por quaisquer outras formas de associação através de adoção, de instituições particulares ou governamentais, de grupos informais etc. etc. etc.

Na "família" crescemos e formamos nossa visão de mundo. É quase impossível a sobrevivência humana fora de um grupo familiar de proteção.

O nosso foco, no entanto, não são os grupos "diferentes" ou de exceção, mas a família "tradicional": dois indivíduos adultos (não importa se do mesmo sexo) e uma ou mais crianças. 

Um ou ambos os adultos dessa família têm uma profissão, óbvio. Fechemos o foco um pouco mais para a profissão desses "protetores". Todas as profissões são respeitáveis, já que exercidas em função de aptidões, de condicionadores ambientais e de necessidades desses indivíduos. Quando as pessoas estão trabalhando, elas estão dentro de um determinado "papel": executores de uma tarefa, seja ela qual for, e dentro dela se relacionam e criam vínculos. Quando deixam o emprego, elas se despem desse papel e assumem outros papéis sociais, como "vizinhos", "amigos", "pais", "mães", "consumidores", "torcedores de um time de futebol", "sócios do clube" etc. etc. etc. No entanto, alguns indivíduos - e não são poucos - fazem dessa profissão, muitas vezes, o motivo de sua existência. Principalmente se essa profissão exerce um poderoso atrativo social, como aquelas que levam o indivíduo a ter poder e a constituir a massa dos poucos que são considerados "formadores de opinião" ou a ser invejados e admirados por alguma expertise.

Um exemplo apenas, para tentar tornar mais claro o que eu quero dizer: uma família de músicos. Mais ou menos comum, na sociedade, que um pai ou uma mãe ou ambos, quando são musicistas de certa expressão, carreguem esse "estigma" para dentro de sua própria casa. Ou seja, não se despem do papel, exercem-no durante vinte e quatro horas, influenciando, nesse caso podemos dizer positivamente, os "filhos" (de sangue ou não), levando-os quase sempre a seguirem os passos dos pais e tornarem-se eles mesmos músicos.

No caso do garoto de 13 anos que matou os pais, na minha opinião, aconteceu algo semelhante. Ambos os pais eram policiais. E vestiam esse papel vinte e quatro horas. Tanto é que a mãe ensinou o filho a dirigir e o pai, a atirar. Consumiam jogos eletrônicos violentos. As conversas diárias deviam girar sempre em torno de prisões, de ações policiais. Deviam assistir a programas de televisão em que o crime é o assunto primordial. Ou seja, a profissão dos pais do garoto devia ser o centro de todas as atenções do menino, desde tenra idade. Ele, o garoto, dizia aos amigos - com quem formava uma espécie de grupo, em que ele era o líder - que queria ser matador profissional. E mais, em bravatas comuns a esse tipo de pré-adolescente, pregava a morte dos pais, como indicador de valentia e poder. A violência - que a profissão dos pais exigia e que devia ser mantida fora das paredes do lar - era corriqueira para o garoto. 

Não, não foi a violência vivida e compartilhada da profissão dos pais ou a violência de jogos eletrônicos que levaram o garoto ao crime de matá-los, mas a violência banalizada contribuiu para que uma mente confusa e ainda em formação e, talvez, com alguns resquícios demenciais genéticos, quase sempre controláveis pelo ambiente, começasse a confundir realidade e imaginação em sua cabeça. A fantasia prevaleceu, num determinado momento. É o que talvez possa ser chamado de "surto". Já que os crimes ocorreram todos em sequência, por volta de meia noite, e só mais de doze horas depois - tempo em que o garoto dirigiu o carro da mãe (onde dormiu) e o estacionou perto de sua escola, assistiu às aulas do período da manhã e voltou para casa - é que ele se matou, diante do cadáver dos pais, isso nos leva a pressupor que a realidade pouco a pouco voltou à mente conturbada do menino. E ele se arrependeu do que fizera.

Tudo isso são suposições, claro, que desenham, para mim, um cenário possível e provável. No entanto, nunca poderemos saber as reais motivações dessa criança para fazer o que fez. Infelizmente. Seria um estudo para desvendar um pouco mais a mente humana. Só o que podemos tirar como conclusão desse fato lamentável é que ainda estamos muito distantes de nos entender a nós mesmos, de entender como funcionam os mecanismos evolucionários que nos levaram a ser o que somos, seres humanos, mas não muito distantes de nossos instintos primitivos, de nossos medos primordiais, de nossas origens, afinal. 





agosto 28, 2013

NOSSAS ILUSÕES PERDIDAS NA GRANDE MÍDIA





Quando Balzac escreveu "As ilusões perdidas", deixou-nos explicitamente como legado o nascimento da grande imprensa como algo que servia aos interesses dos poderosos, manipulada por gente que se tornava capacho desses poderosos, a troco de posição, dinheiro e, principalmente, das migalhas de poder que displicentemente eram lançadas para baixo das mesas do grande banquete. Não havia escrúpulos em criar ou destruir reputações de figuras públicas. Ética parecia ser uma palavra totalmente desconhecida. Descobria-se que a mentira muitas vezes repetida torna-se verdade.

Mais de cem anos se passaram. O mundo parece que mudou. Novas tecnologias foram incorporadas ao dia a dia. E mais: a explosão demográfica do final do século XX aliada à rapidez da informação transformou o mundo - que era restrito - numa grande aldeia. Se, no século de Balzac, a mentira tinha o tamanho da cidade, no caso, Paris, hoje a mentira tem o tamanho do mundo. A cara de pau e o mau caratismo não se restringem ao entorno das redações de jornais, mas correm com a velocidade da luz pela internet, algo inimaginável até há poucas décadas.

Há pessoas de retidão de caráter entre jornalistas e comentaristas das grandes empresas de comunicação dos nossos dias, mas nem a mais potente das lupas será capaz de identificá-los, pois não podem ou não querem ser identificados, presos que estão às ideologias de seus patrões. A maioria desses profissionais, no entanto, não têm mesmo nenhum escrúpulo, professam à larga a ideologia de seus donos, com o prazer sarcástico de que, com suas diatribes, ganham notoriedade e tentam, com isso, interferir nas mentes e corações de seus leitores, para conduzir o País aos desígnios das forças conservadoras que lhes pagam o salário.

Muitos são mais realistas que os reis a quem obedecem cegamente. Obscurecidos pela notoriedade, criam monstros, fabricam factoides, inventam teorias e as oferecem como verdades absolutas a leitores desprevenidos ou desprovidos de senso crítico.

Lembro as manchetes de certo jornal popular - que poucos liam, mas que todos comentavam, o "Notícias Populares". Ficou famosa a primeira página em que noticiou em letras garrafais: "Cachorro faz mal a moça". Tudo dúbio e, espertamente, a palavra "cachorro" entre mínimas aspas, já que se tratava de um mal fadado "cachorro quente" estragado. De outra vez, a criatividade foi longe, ao noticiarem que um jovem cantor (Geraldo Vandré) havia quebrado e jogado seu violão na plateia, ao ser vaiado pelo auditório: "Violada em pleno auditório"!

Lembro essas manchetes, porque, nas grandes cidades, o povo não lê jornais, mas lê todos os dias as manchetes dos jornais, a primeira página, nas bancas, onde são expostos para chamar a atenção. Assim, a primeira página, a manchete, os títulos explosivos ajudam a formar opinião, a estabelecer polêmicas que nem sempre se resolvem, porque a maioria fica mesmo com a informação primária e primeira da primeira página. E a irresponsabilidade jornalística ilimitada se exerce aí, nessa primeira página.

No jornalismo radiofônico e televisivo, a influência está toda na inflexão de voz, na postura, na superficialidade da notícia. Um comentarista econômico, por exemplo, não precisa entender de economia (aliás, quem entende de economia?): basta ganhar as simpatias do público, manipular gráficos modernosos que nunca funcionam e informam precariamente e, por isso, podem conter não exatamente mentiras, mas pequenas distorções na apresentação de tamanho e cores, apresentar dados inconsistentes e, sempre, ser extremamente crítico ao governo, adotando, muitas vezes, o tom professoral e apocalíptico dos burros que nada sabem, mas zurram mais alto.

Há monstros que se criam e que eles, os jornalistas, não sabem, depois, como se livrar deles e, por isso, alimentam-nos permanentemente. Busco o exemplo no futebol.

Criou-se o mito da torcida do Corinthians, a partir de alguns dados reais: quando o time ficou infinitos anos sem ganhar um campeonato e quando "invadiu" o Maracanã, num jogo contra uma equipe carioca. Esses dois fatos alimentaram a noção de que a torcida corintiana era "fiel", aumentava na diversidade e até ganhava jogos com sua força. Hoje, essa torcida, organizada e feroz, transformou-se (e serviu de exemplo para outras) num monstro violento e assassino, que convoca e provoca conflitos com outras torcidas em estádios e nas proximidades de estádios ou onde quer que vá jogar o seu time. Usam os torcedores a camisa do clube, o distintivo do clube, o nome do clube e até mesmo as dependências do clube para dar vazão a seus instintos inferiores. Matam e morrem. Podem até ser constituídos de pacatos filhos, irmãos e pais fora da malta a que pertencem, mas, quando se juntam, transformam-se em loucos sedentos de sangue, com seus sinalizadores (que já até mataram um menino num jogo na Bolívia), seus gritos de guerra, suas bordunas e até armas de fogo. Foram criados e alimentados pela mídia, que sempre viu no Corinthians grande potencial de venda de jornais e de notícias. Agora, alguns poucos jornalistas mais conscientes reclamam da violência por eles mesmos criada e alimentada. Não deixam, no entanto, de dar voz aos violentos, quando esses mesmos rapazes têm a audácia de cobrar da diretoria do clube ou dos jogadores, em conversas públicas ou reservadas, aquilo que eles consideram sua "religião": ganhar jogos e dar a vida pelo clube.

Esses são até exemplos menores da tentativa - muitas vezes bem sucedida - de influenciar a opinião pública através de factoides e invencionices. Há casos piores. Quando o jogo é na política, as regras são claras: aos amigos, todos os elogios e, principalmente, o conveniente silêncio; aos inimigos, o achincalhe devidamente mascarado em notícias, em fatos distorcidos ou mal contados, em manchetes de duplo sentido, em insinuações e em até mesmo mentiras deslavadas em grandes títulos ou reportagens que, quando desmentidos, são jogados para rodapés de páginas secundárias. Vale a caixa-alta, o colorido de fotos manipuladas ou devidamente escolhidas por seus ângulos mais inusitados. Com isso, já até elegeram um presidente da República, Collor de Mello, devidamente defenestrado depois, por sua roubalheira e pela voz do povo nas ruas. Não se emendam, no entanto, pois continuam em suas campanhas para eleger os queridinhos dos patrões, aqueles que seguem a cartilha ideológica da direita, porque, por mais óbvio que possa parecer, é preciso que se esclareça que não há um só grande conglomerado de mídia de esquerda no mundo, que possa fazer contraponto àquilo que Washington ou Wall Street consideram ser a verdade.

Agora, é a vinda dos médicos estrangeiro para trabalhar no Brasil e ocupar os postos avançados que nossos profissionais não quiseram, por não fazer parte de seu objetivo de vida atender populações carentes em rincões distantes (preferem trabalhar em grandes hospitais, onde a infraestrutura lhes permite diagnosticar sem tocar o paciente, apenas com pedidos de exames complexos e caros ou, ainda, abrir consultórios em bairros elegantes, para atender a demanda de cirurgias plásticas de madames e seus cachorrinhos): primeiro, a grande mídia demonizou-os, principalmente aos cubanos, chamando-os de incompetentes; depois, lançaram dúvidas sob o sistema de remuneração, para tachá-los de escravos. Por fim, abriram guerra contra o programa do governo como um todo, com a desculpa de que é necessário infraestrutura de atendimento, sem perceber, os imbecis, que se tenta justamente quebrar um círculo vicioso - não há médico, porque não há infraestrutura e não há infraestrutura porque não há médico. Com isso, atiçaram o preconceito e, depois, o rancor e o ranço corporativista de médicos e suas associações ricas e distantes da população. Motivo do ódio? Político, meramente jogo político, pois a grande mídia atual tem um único objetivo: desmoralizar os governos de esquerda democraticamente eleitos, para tentarem, mais uma vez, jogar o País nos braços e na roubalheira dos que sempre mandaram e alimentaram, com verbas públicas diretas ou indiretas, as redações de jornais, revistas, rádios e televisões.


Não sei se Balzac, se vivesse hoje, com sua ojeriza ao mau jornalismo que, se era praticado em seu tempo, hoje, está elevado a potências inimagináveis no século XIX, em termos de mau caratismo, de falta de ética e, sobretudo, de capacidade de espalhar o vírus da mentira pelo mundo todo, estaria vomitando todos os dias. Eu estou!