abril 09, 2011

O DIA EM QUE PERDEMOS A INOCÊNCIA





“D., nesta fotografia
reviajo vinte e cinco anos:
regresso a tua mãe menina
em Barcelona, aos dois anos.

Reviajo à mesma pessoa
que nasceu pra dizer não,
que embora tenha vivido
pra ser desafirmação,
reencontrou na filha um sim
a que condicionou a vida
(não o Sim convencional:
o possível Sim da vida):
que ela não é o sistema
mas coisa de sim e não vestida,
e vejo como te veste,
no limpo em que estás vestida.”


O poemeto acima é de João Cabral de Melo Neto. Escreveu-o o poeta diante de uma fotografia da neta. Saiu no jornal O Estado de São Paulo de 8 de abril de 2011, no mesmo dia em que o massacre das crianças de uma escola de Realengo, bairro do Rio de Janeiro, tomava as manchetes de todos os órgãos de comunicação e estarrecia todos os brasileiros.

Um jovem de 23 anos, Wellingotn Menezes de Oliveira, inscreve seu nome no pavoroso painel dos assassinos em massa e insere o Brasil no circuito dos assassinatos de jovens escolares inocentes por loucos que têm nas mãos armas de fogo e na mente palavras da bíblia ou de outro livro dito sagrado.

Treze crianças, dois meninos e dez meninas, com idades ente 12 e 15 anos perderam a vida estupidamente.

Não dá mais para esconder fatos que saltam à lógica mais comezinha. Mas, vamos com calma, para analisar possíveis causas e consequências de ato tão monstruoso, mais ou menos recorrente em outros países, como os Estados Unidos.

O homem não é o anjo decaído que o deísmo apregoa, já o disse várias vezes. Temos em nossos genes, misturados no cadinho da experiência natural de milhares de anos, vestígios da evolução lenta e penosa que nos trouxe ao estágio atual de evolução. Temos ainda na boca o sangue das caçadas e das lutas pela sobrevivência, agravado esse sangue por heranças de desvios ocultos e ainda não devidamente estudados da sanidade. Trazemos todos o traço indelével de nossos antepassados, remotos e recentes.

O jovem atirador, diz-se, teve uma mãe esquizofrênica. E psicótica é sua mente, a deduzir-se de toda a sua trajetória de vida. Filho adotivo, sempre calado e introvertido, deve, com certeza, ter sido alvo de chacotas – e isso é mais do que comum, infelizmente – na escola em que estudou, a mesma que ele escolheu para vingar-se.

Porque seu ato é, no fundo, um ato de vingança.

Mas, continuemos. Adolescente, viu na televisão os aviões de Bin Laden derrubarem as torres gêmeas, nos Estados Unidos, outro ato de vingança. E acumulou em sua mente já doentia a vontade de também praticar algo semelhante. Faltava a motivação, ou melhor, o fogo que o levasse a agir.

E esse combustível, esse fogo, nasceu, cresceu e alimentou a mente esquizofrênica do jovem através da religiosidade exacerbada a com leitura e interpretação literal de histórias bárbaras contadas pelos antigos profetas da bíblia dos cristãos.

Não nos enganemos mais: está tudo lá, nos livros sagrados de todas as religiões, a condenação tácita dos ímpios, dos impuros, dos que não seguem a palavra do deus furibundo que passa a habitar o coração dos crentes. E esse deus exige vingança. Mesmo que essa vingança tenha por motivação apenas fatos comezinhos como o deboche de colegas de escola, a morte prematura ou não dos pais adotivos, a extrema timidez diante da vida, o horror aos prazeres sexuais – sempre condenados pelo deus furibundo de todas as religiões –, a ideia da necessidade de se manter puro para ganhar o beneplácito da vida eterna, a condenação implícita da mulher como origem da tentação carnal dos homens e da condenação da humanidade...

A mente esquizofrênica parte o mundo em duas metades, e essas duas metades são conformadas pelo combustível que encontrar: para a interiorização e o sofrimento íntimos ou para formular teorias malucas de perseguição ou de ódio a todos os que são diferentes. E a religião, com seus conceitos excludentes, traz a desculpa ou o grande mote para dividir o mundo entre bons e maus, entre aqueles que seguem as leis – de um deus, claro – e os que a ignoram e se tornam impuros.

Estão lá, na carta do atirador, as palavras que definem bem sua personalidade psicótica alimentada pelo desejo de vingança e de purificação de conteúdo e origem religiosa: “... os impuros não poderão me tocar sem usar luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter contato direto comigo (...) preciso da visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna”.

De tão imbuído da leitura dos textos ditos sagrados está o vingador, que até seu estilo, seu jeito de escrever, repete canhestramente o estilo dos escrevinhadores da bíblia. E mais: a certeza de que, diante do exorcismo da prece, o ato de matar jovens inocentes será devidamente perdoado, já que, de acordo com as doutrinas deístas em voga nas grandes religiões, os fins justificam plenamente os meios. Vale tudo para alcançar o reino eterno, desde perseguir os ímpios em cruzadas, em guerras santas ou em instituições inquisitoriais que julgem, condenem e queimem os diferentes, até simplesmente matar os impuros, seja a bala ou explodindo bombas no próprio corpo ou jogando aviões em edifícios. Vale tudo para obter a graça do deus e viver a vida eterna ou para fornicar, depois, no céu, com não sei quantas mil virgens prometidas aos que matam e morrem pela fé.

Os deuses antigos eram humanos ou humanizados, porque eram muitos e lutavam entre si pela preferência de culto. O deus único das religiões modernas perdeu a humanidade e ganhou foros de ser absoluto, dono da verdade e exigente em seus mandamentos. Também se masculinizou e desenvolveu na mente do macho o ódio à fêmea, que passou a carregar o estigma do pecado, como se, para o sexo, não fossem necessários dois seres. Do ódio à fêmea – culpada ou pelo pecado original ou pelas tentações do macho – passou esse deus único e excludentes (na verdade, deuses, porque cada uma das grandes religiões modernas tem, na verdade, um único deus exclusivo e excludente), a odiar o próprio sexo como fonte de prazer. Em que momento as religiões passaram a odiar o sexo não se sabe exatamente, nem mesmo exatamente por quê. Pode-se especular, apenas, mas o certo é que a perseguição à bruxa, ou seja, à mulher, passou a fazer parte do imaginário machista, o que justifica todos os atos de covardia contra o sexo feminino, desde o estupro até o assassínio pelos mais absurdos motivos.

Por isso, o jovem louco do ataque às crianças da Escola Municipal Tasso da Silveira perseguiu e matou principalmente garotas, meninas que se tornariam mulheres e, portanto, motivo de desejo e de pecado da mente criminosa imbuída de conceitos misóginos provenientes da pregação religiosa.

Não, não é a religião o mal absoluto. Porque o mal absoluto implica a existência de um bem absoluto. E bem e mal são categorias absurdas da metafísica, origem de todas as besteiras teológicas que se espalham por aí. Não existem nem o bem nem o mal absolutos, portanto. Existem pessoas, seres humanos, que praticam atos condenáveis, atos contra a humanidade e contra a vida. E o fazem imbuídos da crença no perdão divino e na estúpida certeza de que esta vida tem continução numa possível vida além-túmulo. Assim, cultivam mais a morte do que a própria vida. Assim, não dão o valor devido à vida, que é unica e insubstituível, o mais precioso bem do homem.

Não, não é a religião a culpada absoluta da existência de bestas-feras como Wellington e tantos outros vingadores da fé. Mas, não nos deixemos contaminar pelo discurso inocentador dos que minimizam os efeitos da pregação de padres, pastores, rabinos, aiatolás e tantos outros imbecis que, imbuídos das falsas verdades de seus livros sagrados, vociferam doutrinas estúpidas de seus púlpitos e incendeiam com suas interpretações absurdas de discursos antigos as mentes pertubadas de gente como Wellington. Poucos chegam à loucura que ele chegou, mas esses poucos são suficientes para causar a matança e o sofrimento que ele protagonizou e outros têm protagonizado mundo afora. E a existência de um, apenas um, assassino desse tipo já é suficiente para condenar não exatamente os princípios equivocados das religiões, mas principalmente os seus intérpretes insanos que lucram, e lucram muito, com a venda requentada e mal interpretada desses princípios.

Quando um conceito cultural como o das religiões passa a ser explorado por mentes interesseiras – como o são todos os que constituem a hierarquia dos profissionais da fé – e passa a ser motivo de crimes históricos, é porque, de há muito, muito tempo, deixou de ser cultura e elemento civilizacional para se tornar pretexto para a barbárie humana. E quando isso acontece, não se pode deixar de, hipocritamente, condenar toda a estupidez metafísica e deísta que dá origem a atos bárbaros, existente nos conceitos da fé religiosa.

Enquanto nos comovemos pela beleza do canto à vida emanado dos versos de João Cabral de Melo Neto à neta ainda menina, lamentamos e nos desesperamos com o ato covarde de uma mente esquizofrência e assassina, alimentada pelos conceitos exatamente contrários ao “possível Sim da vida”, dos versos do poeta, este sim, um humanista, não os pregadores do eterno que ponteiam as inúmeras seitas deístas que proliferam por aí a vender a eternidade por trinta dinheiros, ou menos.

Há muito que perdemos a inocência para com as religiões e seus asseclas. Só não nos tínhamos dado conta disso. Porque a barbárie por ela provocada só nos chegava de longe, vinda do Norte, vinda de outros povos e outras culturas. Achávamos que nós, brasileiros, conservaríamos nossa estúpida inocência, apesar de todo o lixo religioso despejado diariamente sobre nós. Wellington Menezes de Oliveira tirou a vida de 13 jovens e, definitivamente, a nossa inocência.




(Ilustração: Stargträger, de Felix Nussbaum)

março 25, 2011

QUEM TRAIU A “FICHA LIMPA”?

(Alyssa Monks)


É óbvio que sinto alguma frustração, em relação à lei denominada “ficha limpa”. Mas não posso me calar diante do problema, que não está no STF, e sim na origem e readação da própria lei.

Ladrões e corruptos existem em todos os lugares, não apenas na política. E para eles, existem leis a que todos os cidadãos, e não apenas os políticos, estão sujeitos. E o império da lei está garantido pela lei máxima de uma nação, que é sua Constituição. Ou seja, nenhuma regra, preceito, portaria, exigência ou, mesmo, nenhuma, absolutamente nenhuma outra lei pode contrariar a Constituição.

A chamada lei da “ficha limpa” é inconstitucional. Em vários pontos, e não apenas no que concerne à sua aplicação no mesmo ano das eleições, coisa proibida pela Constituição: não pode haver mudança de regras enquanto o jogo está rolando, para usar uma expressão de fácil compreensão.

Essa lei pode até ser moralmente correta, ter boas intenções. Mas isso não basta. Uma lei, para ser aprovada pelo Congresso, sancionada pelo Presidente da República e acatada pelo Supremo Tribunal Federal precisa, além de legítima e eticamente correta, ser legal. Ou seja, estar de acordo com os preceitos constitucionais.

E legal a “lei da ficha limpa” não é. Vários de seus artigos contrariam claramente a Constituição Federal. Basta uma leitura atenta e a comparação de seu significado com o que diz a lei máxima da República.

Isso é profundamente lamentável. Por dois motivos.

Primeiro, porque foi uma lei elaborada por alguns “notáveis” advogados, que podem entender de redação de leis, mas não de sua compreensão mais profunda, em termos constitucionais. Não podiam ter elaborado um texto tão falho.

Segundo, porque foi vendido ao povo como uma lei de origem popular, com a arrecadação de milhões de assinaturas. E, agora, a sua não aplicação às eleições passadas deixa o povo desiludido com as instituições.

Além disso, vejo ainda alguns problemas.

A tal lei é moralista. E tudo o que está baseado na moral e não na ética pode conter julgamentos profundamente errôneos. O macartismo estabeleceu, nos Estados Unidos, um regime de terror e perseguição exatamente por estar baseado em princípios morais e não éticos. A moral da época exigia o expurgo de “esquerdistas”, de “comunistas”. Não a ética política, que diz que todos devem ter voz e ninguém pode ser punido por ter opinião divergente. A lei é moralista porque estabelece pré-julgamentos, ou seja, réus ainda não condenados definitivamente (não sou jurista, portanto não vou usar o “juridiquês) são considerados inelegíveis, ou seja, culpados. E isso é julgamento moral, de uma sociedade em busca de bodes expiatórios para sua incompetência em escolher bem seus representantes.

Há, também, o problema da especificidade da lei: se formos criar leis específicas para cada categoria de cidadãos, teríamos de ter uma lei para os crimes dos taxistas, outra para os médicos, outra para os advogados, outra para... Ou ainda: uma lei para os pobres, outra para os milionários, outra para os miseráveis... Enfim, isso é absurdo. Há uma lei geral, que penaliza os crimes cometidos por quaisquer cidadãos, não apenas por políticos ou por qualquer outro estamento social ou categoria profissional.

Assim é que matar é crime. Não importa se cometido pelo namorado ciumento ou pelo médico no exercício da profissão. A lei geral diz o que é crime de morte e quais são os casos em que esse crime tem atenuantes ou agravantes. Ponto.

Não se pode, portanto, na minha opinião, criar uma lei específica para políticos. Por isso é que a chamada “lei de imprensa” foi considerada inconstucional. Lembram-se?

Outro problema dessa “lei da ficha limpa”: foi enfiada goela abaixo da sociedade pela mídia como uma espécie de panaceia para todos os males morais dessa mesma sociedade, como se fosse resolver todos os problemas de corrupção que existem neste país. E mais: colocaram nas costas dos políticos – classe pela qual nutro pouco ou quase nenhum respeito, porque acho que nem devia existir (mas isso é outro papo) – a responsabilidade de toda a corrupção, quando basta ter olhos para ver que, quando há corrupção é porque há um corrupto (que pode ser um político ou um funcionário público) e um corruptor, ou seja, alguém que tem interesses eoconômicos (empresários, empreiteiros etc).

Enfim, a moralização da política em termos éticos e não moralistas (de perseguição às bruxas e aos que não concordam com a maioria, por exemplo) não passa, necessariamente, pela criação de mais leis, mas pela aplicação ou modificação ou atualização das já existentes e da criação de mecanismos que impeçam a impunidade, como o excessivo número de recursos e de tribunais para julgar um só crime. Precisamos deixar de ser um país de firulas jurídicas – campo fértil para os espertinhos – para ser um país que tenha mais cuidado na elaboração das suas leis. E mais do que cuidado na elaboração, precisão e rigor na sua aplicaç


Portanto, quem traiu a “lei da ficha limpa” não foi o Supremo Tribunal Federal, mas as pessoas que não souberam elaborar com precisão um texto legal e as pessoas que venderam esse texto ao povo como a salvação dos cofres públicos.

Esqueceram-se, no entanto, essas pessoas todas de avisar o povo para não continuar votando em políticos não confiáveis.

março 19, 2011

DUAS OU TRÊS COISAS IRRITANTES

(Franz von Stuck - Judith und Holofernes)



Primeira, o chororô descabido contra a Maria Bethânia.

Pois, é: porque o Ministério da Cultura aprovou captação de recursos – e nem importa quanto – para a cantora fazer um blog de poemas declamados por ela e gravados em vídeo, uma onda de protestos varreu os meios intelectuais do País.

Por quê?

Acho até que sei o motivo, mas é irrelevante. O que vale mesmo é verificar o quanto é burra, invejosa e canalha a chamada classe intelectual brasileira. O sujeito se diz intelectual, porque é escritor, jornalista ou sei lá o quê, mas só detém as plumas do pavão. É toda uma gentalha ignorante que não pode ver o sucesso do outro que se morde de inveja. Uma ciumeira geral. Por que cada um não cuida do seu curral e deixa de ver, em tudo, o dedo podre da corrupção, da vilania, quando há apenas o sucesso de alguém que nem obscurece o sucesso de ninguém? Que saco, essa gentalha que se diz intelectual!

Segunda, a invasão da Líbia pelas forças do Ocidente.

Se estivesse havendo massacre de inocentes num dos países periféricos, digamos, da África lá de baixo, da África pobre e empobrecida pelo longo histórico de pilhagem colonialista, com a morte de centenas ou de milhares de crianças, mulheres e homens negros – negros e pobres – não mandariam os países ricos tropas para a defesa dessa população.

Mas, como é a Líbia, recheada de petróleo, então a preocupação com os inocentes é de trazer lágrimas aos olhos. Que cambada de – ia dizer de filhos da puta, mas como esse blog é meio familiar, fico com a palavra hipócrita... Que cambada de hipócritas sãos esses países ocidentais e ricos, como França, Itália e Estados Unidos! Não estão protegendo o povo Líbio, como dizem, mas apenas seus interesses estratégicos, por causa do petróleo, e nada mais.

Terceira, a depredação do acampamento de uma empreiteira no Norte do País, por empregados ensandecidos.

Enquanto os japoneses dão uma lição de civilidade ao mundo, enfrentando com fidalguia os transtornos de um terremoto e de um tsunami que destruíram boa parte de seu país, sem distúrbios e sem saques a estabelecimentos comerciais, mesmo com a falta crescente de bens de primeira necessidade, um bando de funcionários vandalizam, numa barbárie sem justificativa, o acampamento de uma empreiteira de obras de uma usina no Norte do País.

Motivos? Mesmo que os houvesse, nada, absolutamente nada, justifica atos de vandalismo. Isso é barbárie pura. Isso apenas expõe o grau de incivilidade de um grupo humano – operários insanos – em oposição ao grau de civilidade de um povo, os japoneses.


São todos fatos irritantes, muito irritantes, de exemplos de estupidez humana e de barbárie que temos todos o dever de combater: o linchamento de uma cantora ou a invasão de um país ou a depredação de um acampamento são todos atos bárbaros, de exemplos de extrema desumanização humana, não importa se executados por intelectuais, chefes de governos ou operários.

janeiro 22, 2011

AES ELETROPAULO, A FILHA EXEMPLAR DO PRIVATISMO TUCANO





Uma das crias da privataria de Mário Covas (o ilustre tucano-mor de que se enchem os papos para dele falarem os demais tucanos), a AES ELETROPAULO distribui energia elétrica para a região metropolitana de São Paulo, cobrando tarifas assustadoras.

Apesar disso, oferece ao povo refém de seus preços abusivos um dos piores serviços de distribuição de energia elétrica e de assistência a seus clientes compulsórios.

Nesses quase onze anos, nada fez para modernizar uma rede que parece ter sido tecida por artesãos de dedos grossos do século XIX, uma rede obsoleta e perigosa, que deixa os paulistanos no escuro a qualquer ameaça de chuva.


Nesses tempos de tempestade, então, qualquer raio desliga dezenas de ruas e residências e deixa os desprotegidos paulistanos sem luz por horas a fio, jogando-os nas trevas da idade média, quando o escuro da noite escondia apenas malfeitores e delinquentes, o que parece ser o ambiente adequado para a incompetência e má vontade da AES ELETROPAULO.


Uma historinha exemplar: ontem, sexta-feira, 21 de janeiro de 2011 (século XXI, portanto), uma chuva forte assolou São Paulo. A luz logo seguiu os ventos da tempestade e deixou várias casas de minha rua no escuro, às 15h30. Até aí, nada demais: chuva e vento, casa no escuro.

No entanto, a luz só voltou vinte e duas horas depois! Às 13h30 de sábado! E assim mesmo, depois de dezenas, talvez centenas de pedidos e de avisos à impassibilidade estúpida dos funcionários da AES ELETROPAULO.

A cada telefonema, uma desculpa e uma promessa: árvore caída na rede e volta da energia às 18 horas; problema desconhecido e volta da energia às 22 horas... às 23 horas... às 8 horas de sábado... às 11 horas de sábado... e assim, até que...

Apareceu, finalmente, uma equipe de funcionários da famigerada distribuidora e, num trabalho que não durou nem 5 minutos, religou uma chave de um poste, a poucos metros de nossas casas, que se desligara com a sobrecarga de, talvez, um raio.

Uma simples chave desligada!

E demoraram quase VINTE E QUATRO HORAS para atender nossos desesperados pedidos!

Isso, numa cidade, a maior da América do Sul, e não no interior do Amazonas; isso, numa rua de um bairro de classe média, na boca do metrô Jabaquara, na Zona Sul!

Incompetência, má vontade, estupidez e mau caratismo!

Da AES ELETROPAULO?

Sem dúvida.

Mas, pensemos bem: uma empresa não é um ente abstrato, existente em algum limbo, flutuando no espaço. Uma empresa é formada de gente, de pessoas.

Quando consideramos uma empresa competente ou incompetente não estamos falando de nenhum anjo ou demônio que desce dos céus ou sobe dos infernos para nos abençoar com suas benesses ou nos amaldiçoar com seus garfos pontudos. Estamos falando dos funcionários dessa empresa: dos diretores (ou donos), dos gerentes, dos técnicos, dos burocratas, dos atendentes, dos operários e demais “colaboradores” dessa empresa.

Quando um operário veste o macacão da AES ELETROPAULO e vem à nossa rua ou à nossa casa a serviço da empresa, ele, o operário, nesse momento, é a própria empresa, pois a ela representa. Se temos reclamações, esse operário tem de ouvir e levar as reclamações a seus superiores ou a quem direito e não dizer, como disseram os operários com quem reclamamos a demora (e põe demora nisso!) do atendimento de um problema tão simples que fôssemos reclamar com seus patrões!

Nessa hora, não há patrões, não há diretores, não há gerentes: há apenas os representantes visíveis e devidamente autorizados da empresa à nossa frente. Portanto, além de mau atendimento, de manter sucateada por cupidez a rede elétrica da cidade, seus funcionários ainda são mal treinados para lidar com a população.

Maldita AES ELETROPAULO, fruto da privataria tucana, da venda arbitrária e a preço de banana dos bens públicos do senhor Mário Covas (se eu acreditasse em inferno, desejaria que lá estivesse o ex-governador!)!

É essa camarilha que governa o Estado de São Paulo há dezesseis anos e tem mais quatro para nos atormentar a vida com sua incompetência em vender a incompetentes o patrimônio público, cujo exemplo mais exemplar é a AES ELETROPAULO, a poderosa, arrogante e incompetente AES ELETROPAULO.

janeiro 15, 2011

TRAGÉDIAS MUNICIPAIS, CULPAS FEDERAIS?

(Até agora, quase seiscentos mortos na serra fluminense)


Somos todos reféns de um bando de incompetentes e politiqueiros chamados prefeitos. São eles os culpados da maioria absoluta das desgraças que acontecem com o povo. E somos míopes para não enxergar que são eles – os prefeitos – responsáveis por nossa vida, desde um simples alvará para um puxadinho até complexos problemas de saúde.

O homem urbano vive na cidade e não no País.

O País, a Nação, a União são conceitos abstratos de macropolítica, de distribuição de renda e dos bens gerais. Mas a administração do dia a dia, os problemas comezinhos que nos afligem são de responsabilidade dos prefeitos. Deles dependem a saúde, a educação, a ocupação do solo urbano, a conservação de ruas e calçadas, o trânsito, a ordenação da vida cotidiana, enfim.

No entanto, dos quase seis mil prefeituras existentes no Brasil, pode-se dizer que possivelmente nem dez por cento tem prefeitos realmente preparados para a administração de uma cidade, seja ela de 10 milhões de habitantes como São Paulo, seja o menor município, com menos de cinco mil pessoas.

Sabem muito bem fazer política os nossos prefeitos. Sabem fazer promessas. Sabem enganar o povo para serem eleitos. Sabem fazer qualquer negócio, aliás, para serem eleitos. Porque, tirando as capitais e as grandes cidades, o emprego de prefeito é uma das melhores sinecuras que existe. Ganha-se bem para não se fazer quase nada.

Os prefeitos de capitais e de algumas poucas grandes cidades ainda têm a mídia em seu encalço. Mas, quem sabe quem é o preito das milhares de cidadezinhas perdidas no mapa, mesmo que sejam estâncias turísticas como Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro?

E, no entanto, são eles – esses prefeitos incompetentes – que permitem a ocupação desordenada de morros, de várzeas de rios, de lugares onde nenhum ser humano devia morar. Claro que não estão sozinhos no crime: contam com a colaboração da própria população que não pensa no risco e constrói em qualquer lugar, confiante em rezas e proteção divina; contam, principalmente, com a ganância e estupidez de grileiros e incorporadores, que vendem terrenos condenados a preço de banana ou, às vezes, nem tão baratos assim, para os incautos e estúpidos, sob a vista grossa dos prefeitos. Que, para garantirem alguns votos a mais, prometem regularização dessas habitações, colocando luz, água e asfalto. Não falei esgoto, porque isso já um luxo e uma preocupação que poucos têm.

E então, uma pequena vila de duas ou três casas dependuradas no morro ou dentro de áreas inundáveis transforma-se em pouco tempo em um povoado com dezenas de habitações precárias, grudadas umas nas outras, construídas por pedreiros improvisados de fim de semana, vizinhos que trabalham e erguem armadilhas por um churrasco e uma garrafa de cerveja.

E tudo sob a vista grossa dos senhores prefeitos.

Quando há algum problema – um pequeno deslizamento ou uma cheia – os moradores pressionam o prefeito. E lá vai ele fazer “obra” contra a chuva: um muro de arrimo ali, uma terraplanagem acolá, uma pequena barragem mais adiante. E todos ficam contentes: votam de novo no “elemento” (ia dizer criminoso, mas relevo por enquanto) ou nos seus apaniguados.

Incauta e estúpida a população que os mantém, a esses prefeitos espertinhos e bonzinhos. “Tocadores de obra”, “políticos trabalhadores”, “bons administradores”. Porque fazem o que o povo quer e não o que povo precisa.

Impedir um loteamento clandestino no alto do morro ou na várzea do rio não dá voto a ninguém. Buscar alternativas para o desespero do povo, que quer casa para morar, dá muito trabalho, exige competência, planejamento, visão de futuro. E isso, esses espertalhões eleitos com o voto dos enganados não têm, porque são preguiçosos, porque são estúpidos, porque não sabem e porque não têm interesse em administrar pensando no bem do povo.

Afinal, para que se preocupar? Uma enchente só ocorre de vez em quando, e o povo se acostuma ou é acostumado a receber, em donativos, a conta do prejuízo; deslizamentos de morro são eventos cuja ocorrência ultrapassa o tempo de um ou, às vezes, de dois mandatos. Quem vier depois que se lasque, para não dizer coisa pior.

E como quem vem depois segue a mesma política porca de deixar tudo como está para ver como é que fica, um dia acontece a desgraça: uma chuva mais forte, um temporal, e centenas de pessoas perdem a vida e seus bens, como está acontecendo neste momento nas serras fluminenses, em cidades como Teresópolis, Petrópolis e Novo Hamburgo.

De quem a culpa? De ninguém, claro. Ou do clima.

Ou, dependendo dos interesses e da visão estreita de uma certa mídia mal intencionada, joga-se a culpa na União, ou, mais precisamente, despejam-se os cadáveres ainda insepultos no colo da presidenta recém-empossada.

É mais fácil, é mais cômodo, é mais conveniente.

Principalmente quando há interesses eleitoreiros muito mais prementes que a constatação pura e simples de que as catástrofes do tipo das que estão ocorrendo no Rio de Janeiro só acontecem por incompetência, estupidez e politicagem rasteira desses nossos prefeitos. De quem somos todos reféns.

janeiro 14, 2011

SÃO PAULO SOB ATAQUE... DAS CHUVAS DE VERÃO

 

(Passeio de canoa pelo Tietê, quando o Tietê ainda era um rio)



Assim como o Egito, nos dizeres do historiador Heródoto, era um presente do Nilo, São Paulo, a cidade, devia ser um presente da bacia hidrográfica do Tietê. Porque rios significam vida e civilização.


Mas não foi isso o que aconteceu com a grande metrópole: seus rios viraram pesadelos. Principalmente durante as chuvas de verão, quando os rios atingem seu máximo volume de água e alargam suas margens para fertilizar o solo e preparar a terra para o florescimento das lavouras.

Os paulistanos – seus prefeitos e administradores dos últimos oitenta anos – viram nos rios, riachos e córregos que abundam no planalto apenas inimigos que deviam ser aprisionados, para dar lugar ao progresso.

O plano de “modernização” de Prestes Maia, na década de trinta, resulta, hoje, num retumbante fracasso ecológico e urbanista. As “obras” de construção de grandes avenidas em fundos de vale e sobre os rios, retificando-os, aprisionando-os, sufocando-os, que teve seguidores nas administrações posteriores, impediram que a cidade crescesse voltada para suas águas e fizeram que ela crescesse em cima delas, das águas que correm e que deviam ser símbolo de vida.

Quando se dá poder a um engenheiro de obras, a um engenheiro civil, ele constrói pirâmides. E não há nada mais inútil na história das grandes edificações da humanidade do que pirâmides.

As pirâmides paulistanas são suas avenidas marginais – que impermeabilizaram as margens do Tietê – e suas avenidas construídas em fundos de vales, à custa da drenagem e entubação dos rios e de seus afluentes.

Com isso, a grande bacia hidrográfica que permeava a cidade e com ela deveria conviver harmonicamente transformou-se no pesadelo subterrâneo de onde emergem todas as águas represadas, a qualquer chuva. A ocupação desordenada do solo e sua impermeabilização com asfalto e cimento complementaram a “obra” de destruição dos rios. Que, agora, se “vingam”, provocando enchentes e alagamentos com as chuvas de verão.

São Paulo tornou-se, assim, o mais acabado exemplo da estupidez humana na relação com a natureza. O fracasso urbanístico está à vista de todos. E os engenheiros continuam mandando na cidade, com suas réguas de cálculo para construírem mais obras. Agora, obras contra enchentes.

E não há nada mais estúpido na engenharia civil e no planejamento urbanístico do que “obras contra enchentes”. Gastam-se bilhões de reais, dinheiro do povo, para enganar o povo. Porque toda “obra contra enchente” só resolve o problema por algum tempo, até que natureza encontre outros caminhos e provoque novas enchentes catastróficas em algum outro ponto. Porque nenhuma “obra” consegue o objetivo de represar as forças da natureza, principalmente as forças hídricas.

Se o homem aprendeu a tirar das águas a energia para suas casas e suas cidades, não depreendeu, no entanto, que essa mesma energia é a que, nos tempos de cheia dos rios, nos tempos de chuva, se acumula nas corredeiras e destrói tudo o que encontra pela frente. A lição é clara: com a água não se brinca. E os engenheiros paulistanos que administraram essa cidade, desde a década de trinta, só fizeram isto: desobedecer às regras mais simples da convivência com as águas, represando-as, canalizando-as, tentando domá-las ao enfurná-las nos subsolo.

Agora, não há piscinões que resolvam o problema de enchentes em São Paulo. Porque piscinões são mais uma daquelas ideias que parecem brilhantes no papel, mas que na prática se revelam absurdas. Primeiro, porque são obras caras (e já sabemos: obras contra enchentes são inúteis); segundo, porque sua manutenção é trabalhosa e também excessivamente cara; terceiro, porque durante o período de seca transformam-se em lixões cheios de ratos e outros bichos, a atormentar a vida da vizinhança; quarto, porque não há espaço na cidade para construir o número de piscinões necessários ao volume de água que precisa ser represado, no período das águas; quinto, mesmo se construírem todos os piscinões necessários (alguns falam em cerca de cento e quarenta!), a vazão de toda essa água acumulada exigiria um complexo sistema de administração, para que não houvesse enchentes pontuais, muito tempo depois do período das chuvas, o que levaria a que essa água tivesse de ficar parada por muitos meses, provocando ainda mais insalubridade do que já provoca, quando os piscinões estão vazios. Enfim, mais uma grande bobagem para usar mal o dinheiro do contribuinte, enganando-o com falsas promessas e obras caras e inúteis.

Conclusão: só há um jeito de resolver o problema das enchentes de São Paulo – refundar a cidade, reconstruindo-a em novas bases, com seus rios de volta, e não apenas de volta – descanalizados – mas com suas margens amplas e não ocupadas por avenidas ou habitações.

Como isso é utópico, que os habitantes das várzeas e das margens alagadas – e não apenas eles – aprendam a construir suas casas em palafitas, a conviver com as enchentes, comprando barcos e botes para usá-los nos tempos de chuva. Porque, se não se pode vencer o inimigo, a solução é aliar-se a ele. Apesar de que os rios não são nunca inimigos, nós é que não sabemos e não queremos compreendê-los, como os egípicios antigos o faziam.

dezembro 31, 2010

A DÉCADA DE DILMA ROUSSEFF


Em termos de política brasileira, a primeira década do século XXI foi a década de Lula, o presidente operário que colocou o País no rumo do futuro. Mesmo com a ferrenha torcida contra da imprensa golpista e de uma oposição raivosa.

A imprensa golpista continua aí, num dilema de dar dó: teme os marcos regulatórios do próximo governo, por um lado e, por outro, morre de medo da entrada do capital estrangeiro que poderia aniquilar seus impérios. Como sempre, não sabe encontrar o meio termo. Discute tudo em caixa-alta, aos brados, como se o mundo fosse acabar, como se fosse o final dos tempos o fato de a sociedade brasileira ganhar um pouco mais de voz, através de mecanismos legais e legítimos de direito de resposta, de contestação de sua voz única, de maior vigilância àquilo que, muitas vezes, de forma irresponsável, ela publica como verdade absoluta e que é apenas boato ou fato não comprovado. Isto é republicano e democrático: dar um basta à era do julgamento e condenação peremptórios e sistemáticos. Mas também é preciso que se protejam nossos canais de comunicação da sanha do capital internacional.

Quanto à oposição, depois da surra nas urnas, está desarvorada e mergulhada nos seus próprios erros, sem propostas, sem rumo, sem lideranças. Isso é ruim para a democracia. Não se espera uma oposição canalha, como a que tem sido a tônica até agora – e foi essa posição de radicalismo extremo um dos motivos de sua derrota - , mas também não se pode ter um governo democrático sem uma oposição bem estruturada, para evitar exageros e tentações totalitárias. Que encontrem um rumo e sejam responsáveis no seu papel, é o que se espera daqui daqui para a frente.

À grande mídia também também jogo a responsabilidade de tentar criar verdades repetindo mentiras. O governo Lula não foi continuação do governo FHC, porque se assim o fosse, teríamos mergulhado num abismo e numa crise sem precedentes, que é o que apontava para o País a continuação dos desmandos políticos, administrativos e econômicos do governo anterior. Se a inflação ainda não saíra de controle, é porque o monetarismo não deixava, mas o entreguismo e o desemprego – marcas da política neoliberal de FHC – logo iriam levar o Brasil a uma situação caótica, por causa da destruição do mercado interno. E Lula fez exatamente isto: fortaleceu o mercado interno, ao resgatar da pobreza milhões de pessoas e recuperar o poder de compra da classe média, o que o levou a surfar sobre a crise internacional de 2008. Exatamente o contrário das políticas do governo anterior.

E por falar em governo anterior, FHC está morto e enterrado. Só sobrevive nas idiotices de comentaristas que insistem em comparar o pior governo de todos os tempos com o melhor, ou seja, o falso embate entre Lula e FHC só existe na imaginação daqueles que insistem em manter vivo politicamente o ex-presidente.

E Lula – já também quase um ex-presidente – sai do governo com 87% de aprovação popular. Um recorde mundial! Números superiores ao mito Mandela. Ou seja, Lula também se transforma numa espécie de mito, embora condene – por ser antidemocrático – todo e qualquer culto personalista. Respeitemos o líder, aplaudamos sua capacidade, reverenciemos sua popularidade, mas não o mitifiquemos, por favor.

Lula teve a sua década. Agora é a vez de Dilma Rousseff.

Lula não criou Dilma Rousseff. Apenas a descobriu. Sua capacidade gerencial, mais do que comprovada durante os anos de Ministra Chefe da Casa Civil, e sua inteligência compensarão sua pouca experiência política. Talvez não alcance o brilho de seu antecessor, em termos de liderança, mas tem tudo para fazer um grande governo, já que não há herança maldita a ser tirada de debaixo dos tapetes e de dentro dos escaninhos do Palácio da Alvorada. Ela sabe, e muito bem, que o País ainda tem grandes desafios a vencer; que os oito anos de Lula não podiam contemplar de maneira uniforme a todos os setores carentes de nossa economia e de nossa população; que o trabalho de erguer um País e devolver-lhe a autoestima não depende do esforço e da capacidade de um só governante, mas também de todo o povo; que, enfim, há ainda muito a ser feito e que, pela primeira vez na história, há a possibilidade de uma continuidade administrativa responsável, dentro de uma situação política, econômica e social de absoluta normalidade, e que os avanços – necessários e fundamentais – não implicam rupturas.


A década que amanhã se inicia, portanto, deverá – e torcemos todos para isso – ser a década de Dilma Rousseff. A primeira mulher a governar de fato o País tem tudo para continuar uma obra notável, mas, principalmente, tem tudo para construir outra obra notável, o que permitirá fazer do Brasil a quinta economia do mundo ao final do seu mandato.

dezembro 16, 2010

NÃO, NÃO ME BELISQUEM: QUERO CONTINUAR SONHANDO!






Há oito anos, quando Lula foi eleito presidente, numa campanha histórica – ainda hoje me emociono – fui para a Avenida Paulista para participar da festa. Um misto de alegria imensa e temor, muito temor, batia forte em minha mente.

E se Lula não der certo?

É claro que o prazer de ver e ouvir, naquele palanque improvisado, o operário Lula discursar e levar ao delírio milhares de brasileiros, fazia com que a esperança realmente derrotasse todos os meus temores.

Fora uma campanha difícil, com toda a mídia – como sempre – ao lado dos opositores. E agora, como um cachorro que late para os automóveis e, quando eles param, não sabe o que fazer, eu me sentia desnorteado com a vitória.

E os tempos não foram fáceis. Porque, primeiro, o PT não é um partido fácil, dividido em várias correntes, com muita gente despreparada para o exercício do poder. E realmente, muitos “companheiros” deram trabalho, por estupidez, por radicalismo ou mesmo por improbidade. Segundo, não tinha o presidente maioria no Congresso. E as alianças com quem estava disponível nem sempre funcionaram ou o fizeram precariamente. Havia (como ainda há) muito fisiologismo e pouco espírito público. Terceiro, a imprensa nunca deu folga. Numa união ainda hoje espúria com a oposição, fez campanha sistemática contra o governo Lula, de forma declarada, muitas vezes, e outras tantas de forma sutil e subliminar, o que é a maneira mais cruel e deselegante de se fazer oposição.

E havia ainda o fator maior: a famosa “herança maldita” do governo anterior, que deixara um País em situação de quase inadimplência frente aos organismos internacionais, principalmente o FMI que, aqui, mandava e desmandava; uma política de total dependência dos Estados Unidos; um povo sem ânimo, um verdadeiro “complexo de vira-latas” a corroer as entranhas da Nação; um mercado interno em frangalhos, embora a inflação estivesse controlada; índices avassaladores de desemprego e de miséria. Enfim, um País sem rumo.

E Lula não apenas resistiu a todas as intempéries, mas ainda realizou sua obra com denodo. Inexperiente em termos administrativos, teve que lutar contra uma máquina pública emperrada e preguiçosa, para tocar seus projetos. Cometeu erros, sem dúvida, mas consegui superá-los.

E houve o episódio que ficou conhecido como “mensalão”. Naquele momento, todos os meus temores retornaram. Meses e meses de uma campanha sistemática e desalentadora da mídia. Sem tréguas. O lema era: atirar primeiro, perguntar depois. Ou seja, qualquer boato, qualquer detalhe escabroso, qualquer denúncia sem comprovação viravam manchetes e tornavam-se fatos verdadeiros e comprovados. Ministros caíram, o governo realmente balançou e eu pensei: o golpe está em curso, nada conseguirá impedir que, mais cedo ou mais tarde, consigam defenestrar do Governo o operário que eles – a mídia, as elites, as oposições e todos os que estão tendo interesses contrariados – não suportam ver no comando da Nação.

Mas Lula resistiu. E não só resistiu: venceu e convenceu.

Ganhou um segundo mandato, em mais uma campanha dura, contra a mídia, que preferia ver na Presidência um político sem carisma, sem realizações, como Geraldo Alckmin, cujo apelido (maldoso, claro) já indica sua condição de ser o queridinho apenas de uma pequena, mas forte em termos midiáticos, elite paulistana, mas o “picolé de chuchu” não resistiu ao segundo turno.

Com o homem forte do governo, José Dirceu, fora de combate, abatido na “guerra do mensalão”, a oposição e a grande mídia arrefeceram um pouco – só um pouco – o seu ímpeto golpista. Afinal, o próximo presidente já estava eleito: José Serra. Não conseguiria Lula transferir facilmente sua popularidade crescente, em virtude de um governo que teimava em acertar e colocar o Brasil rumo ao primeiro mundo, para algum outro político com condições de competir.

Mas Lula revelou sua outra face: a de estrategista político. Sacou do Ministério de Minas e Energia uma técnica competente e colocou-a na linha de frente do governo, na Casa Civil, dando-lhe pouco a pouco a visibilidade necessária a seus planos. E assim surgiu Dilma Rousseff.

A oposição subiu no salto alto, com José Serra. Por isso, a campanha da eleição de Dilma foi dura, com muitos golpes baixos, com toda – absolutamente toda – a grande mídia fazendo campanha para a oposição. Ao cúmulo de um grande e tradicional jornal – O Estado de São Paulo – publicar editorial inédito declarando apoio a Serra, terminando por dizer que Dilma era “o mal a ser evitado”!

Lula termina seus oito anos de governo com aprovação de 80% da população. Seu índice de popularidade bate nos 87%, um recorde histórico e difícil de ser alcançado. O sonho que, oito anos atrás, balançava entre esperança e temores, inacreditavelmente chega a 2010 mais renovado do que nunca. Lula fez a travessia de seu governo como o maior de todos os presidentes que já houve.

Sua presença, seu nome, seu carisma e sua competência deixaram para trás o jeito bonachão e, às vezes, meio grosso de elaborar metáforas futebolísticas para melhor expressar seu pensamento. O operário tornou-se figura internacional, respeitado em todo o mundo, por todos os demais governantes.

Lula, orgulho do Brasil. Hoje, oito anos depois.

Não. Não me belisquem: quero continuar sonhando. Com um País melhor, com um País mais justo e menos “vira-lata”, que a administração do presidente-operário soube, de forma exemplar, começar a construir.

dezembro 06, 2010

A GUERRA DO RIO OU UM RIO DE GUERRAS?







Há coisas que me irritam. Frases feitas. Ou, pior: conceitos feitos. De encomenda.

Um deles: o “crime organizado” começou com a instrução dos presos políticos de conceitos de guerrilhas aos presos comuns, na época da ditadura.

Será?

Será que uns poucos intelectuais conseguiriam influenciar tanto assim a bandidagem? Bandido,que eu saiba, não tem ideologia. E guerra de guerrilha tem: se não os vietcongs não teriam derrotado o império estadunidense, com seus túneis, com seu conhecimento do território, com suas surpresas e emboscadas...

Bandido pensa em lucro imediato, não em conquistas posteriores. Portanto, essa história de “organização” só existe, entre a bandidagem, em termos de quadrilha: um grupo se une em torno de um “líder” (o mais esperto) e quem não seguir as regras – toscas e imediatistas – do grupo e, principalmente, do chefe, morre.

Além disso, a “organização” é mais fruto da sofisticação de meios que o mundo modernizado e globalizado oferece: tem que haver gente que entenda esse mundo especializado e cada vez mais especializado. O comércio de drogas, por exemplo, exige conhecimentos de línguas, de comércio exterior, de armamentos (cada dia mais sofisticados), de geografia, de informática etc. Então, as quadrilhas também se sofisticam, dentro de suas possibilidades. E se organizam.

E aí entra a minha segunda coisa que me irrita: “crime organizado”. Não existe. É invenção de quem tem o pensamento raso, imediatista e de comunicação instantânea. Nem a famigerada máfia é organizada. Suas quadrilhas ou “famílias”, sim. Organizam-se em torno de um “chefe” ou “babo” (para usar uma expressão em uso), ou “capo” ou “padrinho”, com leis próprias e regras de conduta: quem não as segue, é punido, ou melhor, morre. Não há segunda chance.

“Crime organizado” é ficção. De noticiário rasteiro. O que há são quadrilhas mais ou menos organizadas em torno de um líder. Com lutas internas e externas. O mais esperto mata o que “deu bobeira” e toma o “poder”, que é restrito a uma comunidade relativamente pequena: só se expande pelo terror, pela ameaça, por ter a arma mais poderosa ou ser aquele que mata mais os inimigos ou intimida mais a comunidade.

Mas seus chefes, ou líderes, cometem o erro da ganância ou do orgulho: arrotam seu poder (que é relativamente pequeno) como verdadeiros monarcas – julgam, condenam e matam ou absolvem com a mesma idiota pretensão de reis medievais que se julgavam “representantes de deus” na terra. Acabam, quase sempre, mortos: ou pela polícia ou por um de seus “súditos” (em “golpes de estado”) ou pelos inimigos que estão de olho em seu “território” ou “reino”, outro conceito que absorvem e tentam estabelecer. Na verdade, o “território” é ilusório e seus “súditos”, traidores ou descontentes, já que sabem que estão sob um jugo absolutista, capaz tanto de recompensá-los quanto de eliminá-los por motivos incompreensíveis.

Como as quadrilhas têm um inimigo comum – a polícia –, parece que se unem para combater esse inimigo comum. Na verdade, apenas parecem que se unem, porque, quando a situação aperta, é cada um por si. A união é falsa, ou só ocorre em momentos de crise, quando, então, as decisões tomadas são eivadas de motivação imediatista e, quase sempre, equivocadas, ou seja, sem visão de futuro.


As quadrilhas dos morros cariocas formam-se quase sempre em torno de um elemento comum: o tráfico. E as drogas só são um poderoso ponto de interesse porque têm mercado certo: a classe média, média alta e alta dos bairros da Zona Sul. Ou seja, o mercado determina a criação, organização e existência das quadrilhas. Se não houvesse mercado – e um mercado consumidor de alta capacidade – não haveria tantas quadrilhas e tantas lutas para conquistar e manter territórios que, na verdade, só são conquistados e mantidos por bandidos estúpidos, que querem usar a droga como poder não apenas econômico, mas também político ou territorial. Os verdadeiros criminosos ou “importadores” estão nos gabinetes simples e refrigerados de escritórios discretos e levam a vida de nababos sem chamar a atenção de ninguém. Sabem que seu poder só subsiste se se mantiverem à sombra, com os idiotas indo para a linha de frente do enfrentamento, lutando por poderes limitados de território, totalmente inúteis e sem sentido, se pensarmos em termos econômicos. O “tráfico do morro” é o boi de piranha de interesses muito mais altos e espertos, no mundo da alta bandidagem.

A grana que as quadrilhas de morro ganham transformam-se em motivo de ostentação fútil – casas com mil e um equipamentos, mulheres, muitas mulheres e ouro, muito outro, inutilmente pendurados nos corpos, como forma de atração sexual. Não saem, portanto, do morro, porque, se saírem, sabem que são presa fácil da polícia. Daí, a noção de território: é o território, ou seja, o entorno amedrontado e humilhado pelo poder das armas, a segurança do bandido de morro.

Armas! Outro ponto nevrálgico das quadrilhas: pretendem-se, todas elas, armar-se o mais possível, e nisso gastam boa parte do que ganham com a droga. Elas são essenciais para a intimidação não só dos moradores do “território ocupado”, mas também da polícia. Mas, com certeza, serão poucos os que sabem usar realmente o armamento mais sofisticado, que exige perícia e treinamento. O problema é como chegam ao morro: seu comércio, feito através das extensas fronteiras terrestres e marítimas do País, é um caso complicado de se resolver. Por mais apreensões que a Polícia Federal faça, ainda assim vale a pena, para o tráfico, porque o dinheiro é fácil, tentar contrabandear armamento pesado e sofisticado. Assim, acredito que os traficantes devam comprar uma quantidade bem maior de armas e contar com a sorte – já que uma boa parte é apreendida – para que elas cheguem até eles.

E a sociedade que se escandaliza com o armamento pesado dos bandidos tem, sim, o seu quinhão de contribuição para as armas do tráfico: quando, há alguns anos, debateu-se o desarmamento civil, essa mesma sociedade que hoje se sente ameaçada não concordou com a tese de proibição de fabricação e distribuição de armas no País. Armas que aqui são fabricadas passam a fronteira dos países vizinhos e voltam em forma de contrabando, para as mãos dos traficantes, enriquecendo e desenvolvendo, assim, uma indústria que emprega uma quantidade bem menor de pessoas do que apregoou anos atrás o seu poderoso lobby.

Assim como as armas são uma espécie de fetiche – manipulado pela propaganda da indústria armamentista que, tal qual a do cigarro, também enriquece e ganha milhões a custa da desgraça alheira – as drogas “inocentemente” consumidas pelas classes mais abastadas em suas festinhas de embalo são também um ponto intocável na questão da guerra ao tráfico.

Assim como todos aplaudem – muitos falsamente – o combate sistemático às quadrilhas dos morros e das favelas por esses brasis afora, deviam também exigir que se aplicassem pesados recursos na identificação, tratamento e cura dos milhares e milhares de usuários de drogas que as famílias desesperadas mantêm sob o manto da hipocrisia, sem terem coragem de assumir que financiam, sim, o tráfico de drogas e contribuem para o banho de sangue de bandidos e inocentes, nessa “guerra” sem inimigos declarados que a própria sociedade exige que se faça.

Portanto, tenhamos coragem de assumir que não há apenas uma guerra no Rio, mas rios de combates que acontecem em todos os lugares, em todos os lares onde haja viciados – inocentes ou não – mas principalmente indivíduos que fumam, injetam, consomem não somente drogas – maconha, cocaína, crack, anfetaminas, heroína, ecstasy etc. – mas também sangue e vida de milhares de vítimas – homens, mulheres e crianças dos morros e de suas próprias famílias – das quadrilhas de traficantes que infestam a sociedade e que só estão “organizadas” na mídia: são só um bando de indivíduos sem qualificação a querer se aproveitar de uma situação que nós mesmos, e aí, sim, a chamada “sociedade organizada” temos criado, com nossa hipocrisia no trato da dependência química.

novembro 19, 2010

CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEMPO, O TEMPO DA DOR

(Bruegel - os cegos)



Talvez seja o tempo a matéria de instigação filosófica mais complexa, para o homem. Só o que podemos afirmar sobre ele, o tempo, é que o futuro vem, inexoravelmente. E, por ainda não existir, podemos moldá-lo conforme nossas ações ou nossos desejos. Se ele vai confirmar nossas ações ou nossos desejos já é uma outra história.

O presente, não sabemos exatamente o que é e não o dominamos, por ser fluido como as letras que vou encadeando neste artigo: só estão no presentes no exato momento em que se materializam diante de meus olhos, para no instante seguinte, tornar-se passado. E quando se tornam passado, eu posso voltar e modificá-las. Como, aliás, fazemos com o passado.

O passado é o tempo que dominamos. Porque podemos mudá-lo à vontade, de acordo com a nossa percepção. E cada um tem do mesmo fato passado a sua visão particular. Portanto, não existe um passado, mas inúmeros passados para um mesmo acontecimento. Ou o que muitos chamam de versões, não importa.

Por que, mesmo, estou falando do tempo? E especialmente do passado? Porque quero falar do passado de Dilma Rousseff, presidente eleita do Brasil.

Sabe-se que lutou contra a ditadura, foi presa e torturada. São três fatos que podem ter, cada um deles, a versão que quisermos dar, conforme os interesses atuais de quem quer que os rememore, os reconte ou os interprete. Podem, portanto, constituir-se em algo nobre ou maléfico. Se sou de direita e apoiei a ditadura, são fatos tremendamente desabonadores. Se, pelo contrário, fui forte opositor ao regime, isso a torna uma heroína, aos meus olhos.

Onde está a verdade?

Poder-se-ia argumentar que a verdade estaria, como, no budismo, no caminho do meio, na zona cinzenta entre a traição à pátria e o heroísmo. Que a presidente eleita não é nem santa nem demônio.

Mesmo aí, nessa pretensa e quase impossível ortodoxia do politicamente correto, não teríamos qualquer certeza, diante das inúmeras possibilidades dessa zona cinzenta: são inúmeras as versões, são inúmeros os detalhes, assim como as circunstâncias em que os fatos ocorreram têm inúmeros atores, cada um com sua versão, e infinitos detalhes que podem ou não ter influenciado cada instante, cada ato, cada palavra.

E por que tudo isso, agora?

Às vésperas da eleição de Dilma Rousseff, algo estava para acontecer, como uma espada de Dâmocles suspensa sobre a Democracia brasileira: o jornal A Folha de São Paulo tinha entrado no Supremo com um pedido de liminar para ter acesso às informações da ficha da candidata nos arquivos da ditadura.

Que interesse teria o jornal em publicar o que está escrito em documentos produzidos pelos militares que prenderam e torturaram a então candidata? A versão deles é a versão de quem a considerava “elemento perigoso”, “inimiga do regime”, “terrorista” .
E todos que lutaram, com ou sem armas, contra a ditadura foram perseguidos como inimigos, muitos foram presos, torturados, mortos e enterrados, sem que tivessem a mínima possibilidade de contar com a Justiça ou com um julgamento justo.

Naquele momento crucial da eleição, publicar a palavra dos ditadores, dos militares que estavam no comando, dos torturadores enfim, teria por único objetivo conturbar o ambiente eleitoral e tentar intervir no resultado das urnas, de forma unilateral e desesperada, como foram unilateral e desesperadamente anti-democráticas todas as ações dos militares durante o período ditatorial. Ou seja, queria o jornal A Folha de São Paulo abalizar, como já o fez no passado, quando apoiou e até contribuiu para o regime militar, as versões unilaterais de carniceiros torturadores que seriam, em qualquer país civilizado do mundo, presos e julgados por crimes imprescritíveis, que são os crimes de tortura.

É essa a democracia que deseja e defende A Folha de São Paulo?

E agora que, passadas as eleições, eles – os donos e jornalistas de A Folha de São Paulo – obtiveram o acesso a esses dados da ditadura, o que pretendem fazer? Vão ter a hombridade de publicar todas as versões, inclusive a da presidente eleita e de todos os envolvidos? E mesmo que o façam, com que finalidade? De provocar comoção e vender mais jornais? Saberão as cabeças quentes pela derrota de seu preferido manter uma certa idoneidade, para trabalhar com rigor histórico os dados que lhes oferecerem os registros dos torturadores?

O passado da presidente eleita, como tudo aquilo que é passado, tem inúmeras versões e pode ser reconstruído de acordo com infinitas possibilidades, em função de interesses atuais, em função da cabeça de quem o manipula ou interpreta e até em função da ignorância de alguns ou de todos os fatos, porque, afinal, ninguém, absolutamente ninguém, conseguirá reproduzir o passado tal como de fato aconteceu.

Então, eu pergunto: qual o passado que a Folha de São Paulo pretende resgatar? O da sua verdade, eivada de preconceito, como têm demonstrado todas as suas “reportagens” políticas atuais ou o passado de apoio e ajuda aos mesmos elementos que prenderam e torturam a jovem Dilma, naqueles idos e terrivelmente vividos dias de dor e confronto?

Alguém, em sã consciência, acredita em alguma boa intenção desse jornal?

outubro 19, 2010

EU TENHO O PRIVILÉGIO DE TER VIVIDO OITO ANOS COM LULA NA PRESIDÊNCIA!



Já disse uma vez, e repito, agora: quando Lula foi eleito Presidente, eu tive uma das maiores emoções da minha vida, como cidadão brasileiro. Houvera apenas dois outros momentos tão fortes, em termos cívicos: o comício de um milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, pelas diretas e, depois, o processo de democratização que culminou com a morte de Tancredo Neves e a posse de Sarney.

Mas, a posse de Lula trazia preocupações terríveis. Terminará o mandado? Ou melhor, deixarão que ele termine o mandato? O cheiro de golpe sempre pairou no ar, durante os primeiros anos de Lula. Como a esquerda (bem moderada, aliás) defenestrara o Collor, o ungido da Globo e de uma certa imprensa que hoje denominamos PIG (Partido da Imprensa Golpista), acreditava que buscariam pretexto para também afastá-lo da Presidência.

Foram anos difíceis. Inventaram mil histórias. Que atingiram até mesmo o homem forte de Lula, José Dirceu, no episódio marqueteado do chamado “mensalão”. Os odiados (por essa mesma mídia) companheiros do PT de Lula souberam, muitas vezes, sacrificar-se pelo líder maior, porque sabiam que era mais importante o projeto de governo, o desenvolvimento do País. Porque o Brasil precisava, sim, de um homem como Lula, para afastá-lo da beira do abismo em que o deixara o queridinho da direita, o scholar e “preparado” Fernando Henrique Cardoso.

E Lula, como bom marinheiro, tocou o barco devagar, no meio daquela fumaça toda, que o PIG articulava e martelava diariamente na cabeça das pessoas. O objetivo era claro: tirar o operário da Presidência, ou por um processo de impeachment, ou pelas urnas, nas próximas eleições. Deram dois tiros no pé: o primeiro, ao não acreditar na capacidade administrativa de Lula, no seu governo realmente voltado para melhorar as condições de vida do povo; o segundo, quando brigas internas da direita demotucana colocaram como adversário de Lula, nas eleições, um homem sem carisma, um quase nada político, chamado Geraldo Alkmim. Assim mesmo, o PIG levou as eleições para segundo turno, para ter a surpresa de ver minguarem os votos do seu queridinho.

E os quatro anos seguintes do mandato de Lula foram de consolidação de um novo modelo de gestão, de governo voltado para os reais interesses do País, num clima de democracia tal, que o PIG ainda tentou e tentou inúmeras vezes desmoralizar o Presidente. Tudo inútil. Como se cantava na época das diretas, o povo não é bobo. E a popularidade de Lula alcança píncaros jamais sonhados ou imaginados pela mídia adversa, pelas cassandras que escondem seus signos fascistas sob o manto de democratas e frequentam redações de jornais e revistas ou comandam jornais televisivos.

Então, eu devo confessar que, do alto meus muitos anos de vida, tenho o privilégio ter vivido durante os oito anos de Presidência de um homem probo, inteligente, carismático, que fez o melhor governo de toda a história da República, sem sombra de dúvida. Acima, até, de Juscelino Kubstcheck, talvez o mais democrata de todos, mas que não teve a possibilidade de consolidar o seu governo, porque não havia reeleição. Lula está de fato tirando o País do estigma de “gigante adormecido” e colocando-o como o país das grandes oportunidades do presente.

Lula, o metalúrgico, aquele cujo primeiro diploma foi o da presidência da República, como ele mesmo o disse na primeira posse, agora é doutor, doutor em política, doutor honoris causa do povo brasileiro. Sairá da Presidência aclamado e não pelas portas dos fundos, nem com a popularidade em queda, mas como talvez um dos grandes estadistas deste século que está mal começando.


Por isso, repito, tenho, sim, o privilégio de ter vivido esse tempo. O tempo de Luiz Inácio Lula da Silva, o metalúrgico que reinventou uma nação.

outubro 15, 2010

ÁGUAS QUE CORREM

(Rio Tietê, em São Paulo, em 1905)



Sempre fui fascinado pelas águas que correm. Menino ainda, na velha cidade mineira de Lavras, encantava-me a enxurrada que levava o barquinho de papel. Para onde? Ficava o mistério. Depois, a descoberta do córrego bem lá no fundo do quintal, onde havia um barranco com areias coloridas, moldado pelas cheias, pelas águas. Mais tarde, o riacho longe, aonde íamos em bando tomar banho de cachoeira, no poço redondo, de pedras e areia. E havia, ainda, muito mais longe, o Rio Grande, que passava perto da minha cidade e inundava a pequena Ribeirão Vermelho, de tempos em tempos. E depois, já adolescente, o Rio Verde de Três Corações, onde minha irmã morava. Rio bravo, cortando a cidade e lambendo a Escola de Sargentos das Armas, a ESA. Rio que comia gente. Não era raro juntar povo na ponte, para ver o resgate de um corpo que descia a correnteza, depois de três dias sumido o jovem recruta que se aventurara em suas águas.

Memórias. Memórias de águas que correm, de rios de minha infância.

Se tivesse que escolher a mais bela frase de todos os tempos, acho que escolheria a do historiador grego, Heródoto: o Egito é um presente do Nilo. Não conheço o Rio Nilo, a não ser de fotos ou filmes, mas deve ser um rio fantástico, como tantos outros no mundo. Das velhas lições de geografia: a Mesopotâmia, região entre rios, o Tigre e o Eufrates. O Tamisa, na Inglaterra. E o Danúbio? Para inspirar uma valsa tão famosa, só pode ser um rio de encantos mil!

A imaginação sempre correu frouxa, quando penso em rios, riachos, córregos, águas que correm. Águas que produzem cachoeiras, corredeiras, margens de bosques ou apenas limam as pedras até torná-las redondas. Águas que correm, que sobem com as chuvas e se estreitam com a seca. Acho que são, todas as terras, presentes das águas que correm. Sem elas, o mundo seria estéril, não existiriam animais, florestas, frutos: não existiria o homem. Só a bíblia vê as águas como ameaça: o dilúvio, o mar que Moisés abre com seu bastão. Mesmo quando usa as águas para batismo, elas são não a ligação do homem com a vida, com a terra, mas a religação com um deus furibundo e mal humorado. Mas isso já é implicância minha...

Águas que correm. Que provocam enchentes. Que levam os bens que os homens, teimosamente, amontoam em suas margens.

Águas que correm. Águas que deviam ser limpas, cristalinas, livres, soltas, com imensas margens a serem fertilizadas (como no Egito de Heródoto). Que deviam, em todos os pontos do mundo, trazer vida, saúde, prazer. E penso: será que ainda estão azuis as águas do Danúbio? Não estão ensanguentadas as águas do Tigre e do Eufrates? Não estão barrentas as águas do Velho Chico? Ah: e o nosso Tietê, o rio que corre para dentro, para o coração do estado, quando nasce tão perto do mar! São Paulo, a cidade e o estado, são, em grande parte, um presente do Tietê, com seus inúmeros afluentes a inundar, cada vez que chove, a metrópole que o matou...

Tietê, Tietê, o rio assassinado, que só ressurge impávido colosso só muitos quilômetros abaixo: orgulhoso, na sua resistência, que, nós, os paulistanos, não sabemos admirar, só reclamar, como se fosse possível haver obras contra enchentes, contra as cheias que são a natureza dos rios, dos riachos, dos córregos, das águas que correm.

E as águas que correm pela cidade de São Paulo levam o meu barquinho de sonho para o mistério das profundezas da terra, porque foram elas todas aprisionadas, enterradas, afundadas, emporcalhadas e desprezadas. Só aparecem, a cada ano, durante o verão. Às vezes, um pouco antes.

outubro 06, 2010

COM QUANTAS MENTIRAS DE FAZ UMA VERDADE?


A Folha de São Paulo, jornal de direita e financiado pelo Governo do Estado de São Paulo, voltou a veicular publicidade na televisão, usando a figura do Hitler para dizer que uma mentira muitas vezes repetida se torna uma verdade.

Uma publicidade que veicula exatamente o tipo de política de difamação a que a Folha tem-se dedicado desde os tempos da ditadura militar.

Um jornal que tem o rabo preso, por apoiar escandalosamente a Operação Bandeirante, permitindo que seus veículos transportassem presos políticos para os porões do DOI-CODI, de sinistra memória, nos idos dos anos 60 e 70, agora quer-se arvorar em paladino da verdade publicando e republicando mentiras, repetindo e repetindo inverdades e difamações.

A intenção é clara: desconstruir a trajetória do PT e, principalmente, de sua candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff.

Porque a Folha de São Paulo, assim como a chamada grande imprensa, que está nas mãos de poucas famílias, nunca soube e não saberá jamais o que é ética jornalista: esconde-se sob a rubrica de “imparcial”, para publicar barbaridades.

Sua tática é simples: quando há uma notícia contra o seu candidato, o senhor José Serra, ou contra o PSDB, ela publica, sim, mas só aquela notícia que fará mínima cócega no “prestígio” do partido ou do seu queridinho. Ou seja, ela finge que ataca, mas na verdade está escondendo ou omitindo a verdade, dourando a pílula, enganando o seu leitor.

Notícias desfavoráveis ao PSDB são cuidadosamente escolhidas e publicadas, para dar a falsa impressão de neutralidade.

Já qualquer vestígio ou boato ou disse-me-disse envolvendo o PT e sua candidata não precisam ser verificadas ou confirmadas quanto à sua veracidade: ganham manchete e, se não for verdade, o desmentido vem nas páginas internas ou na palavra de seu ombudsman, num singelo “erramos” perdido entre as demais mentiras e aleivosias que ela publica diariamente.

Jornalismo desse naipe não tem correspondência em nenhum lugar do mundo: mesmo tomando posição a favor desse ou daquele partido político, a imprensa internacional tem procurado adotar certa postura ética.

Mas os jornalistas da Folha de São Paulo parecem desconhecer completamente qualquer senso de responsabilidade ou do que seja correção, compromisso com a verdade, ética, enfim.

Tem, pois, razão a Folha de São Paulo, ao erigir como garoto propaganda de sua canalhice a figura de Hitler, já que ela pratica um jornalismo de cores nitidamente fascistoides, de baixo nível e de permanente desrespeito a seus próprios leitores.

Contra esse tipo de imprensa é que todos nós, verdadeiros democratas, nos insurgimos. Mas o fazemos com a força de nosso protesto, e não com o uso de leis de exceção, como o fizeram quase todas as “famílias” que mandam no jornalismo brasileiro, durante o regime militar.

Não precisamos de leis que controlem a imprensa, mas queremos ter voz para protestar, sim, de todas as formas, contra as mentiras mil vezes repetidas na imprensa com a clara intenção de se tornarem verdades!

outubro 04, 2010

O VOTO PAULISTA: TIRIRICA E OUTRAS TRANQUEIRAS


O palhaço Tiririca obteve uma das mais expressivas votações para Deputado Federal, da história deste País.

Em São Paulo.

O Estado mais politizado, mais rico e poderoso, na hora de votar, escolhe mal seus representantes.

Tiririca tem, sim, o direito de se candidatar. E pode, sim, ser eleito, como todo cidadão que vota e pode ser votado. Afinal, representação popular é isto: até os palhaços podem ser políticos. E dos bons. Já que há tantos políticos que são palhaços... dos ruins!

O problema não está na eleição do palhaço. O problema está na quantidade de votos que ele obteve. E mais: na quantidade de votos que outros piores do que ele também obtiveram.

Até o Paulo Maluf – suspenso pela Justiça Eleitoral até que se julgue se ele pode ou não se candidatar, de acordo com a famosa “Lei da Ficha Limpa” – obteve quase quinhentos mil votos!

Os eleitores paulistas abusam de escolher mal seus representantes. Basta uma olhada na lista dos eleitos, para identificarmos muitas tranqueiras ideológicas, muitos falsos políticos, muitos aproveitadores de fama instantânea,de uma profissão pública ou da fé do povo ou da proximidade a ídolos ou falsos ídolos, de todos os matizes.

Não vou nem citar nomes, mas há tranqueiras ideológicas em todas as classes sociais, e não apenas dentre aqueles que buscam o voto de brincadeira ou o voto das pessoas menos despolitizadas.

Então, um eleitorado que vota assim tão mal merece, sim, que seja eleito governador um homem como Geraldo Alkmin, cuja maior “qualidade” é não ter qualidade nenhuma, ser um zero à esquerda em termos de administrador, mas que milita no conservadorismo tão caro aos paulistas.

Afinal, qual a maior palhaçada? Tiririca no Congresso ou Alkmin no Palácio dos Bandeirantes?