março 19, 2011

DUAS OU TRÊS COISAS IRRITANTES

(Franz von Stuck - Judith und Holofernes)



Primeira, o chororô descabido contra a Maria Bethânia.

Pois, é: porque o Ministério da Cultura aprovou captação de recursos – e nem importa quanto – para a cantora fazer um blog de poemas declamados por ela e gravados em vídeo, uma onda de protestos varreu os meios intelectuais do País.

Por quê?

Acho até que sei o motivo, mas é irrelevante. O que vale mesmo é verificar o quanto é burra, invejosa e canalha a chamada classe intelectual brasileira. O sujeito se diz intelectual, porque é escritor, jornalista ou sei lá o quê, mas só detém as plumas do pavão. É toda uma gentalha ignorante que não pode ver o sucesso do outro que se morde de inveja. Uma ciumeira geral. Por que cada um não cuida do seu curral e deixa de ver, em tudo, o dedo podre da corrupção, da vilania, quando há apenas o sucesso de alguém que nem obscurece o sucesso de ninguém? Que saco, essa gentalha que se diz intelectual!

Segunda, a invasão da Líbia pelas forças do Ocidente.

Se estivesse havendo massacre de inocentes num dos países periféricos, digamos, da África lá de baixo, da África pobre e empobrecida pelo longo histórico de pilhagem colonialista, com a morte de centenas ou de milhares de crianças, mulheres e homens negros – negros e pobres – não mandariam os países ricos tropas para a defesa dessa população.

Mas, como é a Líbia, recheada de petróleo, então a preocupação com os inocentes é de trazer lágrimas aos olhos. Que cambada de – ia dizer de filhos da puta, mas como esse blog é meio familiar, fico com a palavra hipócrita... Que cambada de hipócritas sãos esses países ocidentais e ricos, como França, Itália e Estados Unidos! Não estão protegendo o povo Líbio, como dizem, mas apenas seus interesses estratégicos, por causa do petróleo, e nada mais.

Terceira, a depredação do acampamento de uma empreiteira no Norte do País, por empregados ensandecidos.

Enquanto os japoneses dão uma lição de civilidade ao mundo, enfrentando com fidalguia os transtornos de um terremoto e de um tsunami que destruíram boa parte de seu país, sem distúrbios e sem saques a estabelecimentos comerciais, mesmo com a falta crescente de bens de primeira necessidade, um bando de funcionários vandalizam, numa barbárie sem justificativa, o acampamento de uma empreiteira de obras de uma usina no Norte do País.

Motivos? Mesmo que os houvesse, nada, absolutamente nada, justifica atos de vandalismo. Isso é barbárie pura. Isso apenas expõe o grau de incivilidade de um grupo humano – operários insanos – em oposição ao grau de civilidade de um povo, os japoneses.


São todos fatos irritantes, muito irritantes, de exemplos de estupidez humana e de barbárie que temos todos o dever de combater: o linchamento de uma cantora ou a invasão de um país ou a depredação de um acampamento são todos atos bárbaros, de exemplos de extrema desumanização humana, não importa se executados por intelectuais, chefes de governos ou operários.

janeiro 22, 2011

AES ELETROPAULO, A FILHA EXEMPLAR DO PRIVATISMO TUCANO





Uma das crias da privataria de Mário Covas (o ilustre tucano-mor de que se enchem os papos para dele falarem os demais tucanos), a AES ELETROPAULO distribui energia elétrica para a região metropolitana de São Paulo, cobrando tarifas assustadoras.

Apesar disso, oferece ao povo refém de seus preços abusivos um dos piores serviços de distribuição de energia elétrica e de assistência a seus clientes compulsórios.

Nesses quase onze anos, nada fez para modernizar uma rede que parece ter sido tecida por artesãos de dedos grossos do século XIX, uma rede obsoleta e perigosa, que deixa os paulistanos no escuro a qualquer ameaça de chuva.


Nesses tempos de tempestade, então, qualquer raio desliga dezenas de ruas e residências e deixa os desprotegidos paulistanos sem luz por horas a fio, jogando-os nas trevas da idade média, quando o escuro da noite escondia apenas malfeitores e delinquentes, o que parece ser o ambiente adequado para a incompetência e má vontade da AES ELETROPAULO.


Uma historinha exemplar: ontem, sexta-feira, 21 de janeiro de 2011 (século XXI, portanto), uma chuva forte assolou São Paulo. A luz logo seguiu os ventos da tempestade e deixou várias casas de minha rua no escuro, às 15h30. Até aí, nada demais: chuva e vento, casa no escuro.

No entanto, a luz só voltou vinte e duas horas depois! Às 13h30 de sábado! E assim mesmo, depois de dezenas, talvez centenas de pedidos e de avisos à impassibilidade estúpida dos funcionários da AES ELETROPAULO.

A cada telefonema, uma desculpa e uma promessa: árvore caída na rede e volta da energia às 18 horas; problema desconhecido e volta da energia às 22 horas... às 23 horas... às 8 horas de sábado... às 11 horas de sábado... e assim, até que...

Apareceu, finalmente, uma equipe de funcionários da famigerada distribuidora e, num trabalho que não durou nem 5 minutos, religou uma chave de um poste, a poucos metros de nossas casas, que se desligara com a sobrecarga de, talvez, um raio.

Uma simples chave desligada!

E demoraram quase VINTE E QUATRO HORAS para atender nossos desesperados pedidos!

Isso, numa cidade, a maior da América do Sul, e não no interior do Amazonas; isso, numa rua de um bairro de classe média, na boca do metrô Jabaquara, na Zona Sul!

Incompetência, má vontade, estupidez e mau caratismo!

Da AES ELETROPAULO?

Sem dúvida.

Mas, pensemos bem: uma empresa não é um ente abstrato, existente em algum limbo, flutuando no espaço. Uma empresa é formada de gente, de pessoas.

Quando consideramos uma empresa competente ou incompetente não estamos falando de nenhum anjo ou demônio que desce dos céus ou sobe dos infernos para nos abençoar com suas benesses ou nos amaldiçoar com seus garfos pontudos. Estamos falando dos funcionários dessa empresa: dos diretores (ou donos), dos gerentes, dos técnicos, dos burocratas, dos atendentes, dos operários e demais “colaboradores” dessa empresa.

Quando um operário veste o macacão da AES ELETROPAULO e vem à nossa rua ou à nossa casa a serviço da empresa, ele, o operário, nesse momento, é a própria empresa, pois a ela representa. Se temos reclamações, esse operário tem de ouvir e levar as reclamações a seus superiores ou a quem direito e não dizer, como disseram os operários com quem reclamamos a demora (e põe demora nisso!) do atendimento de um problema tão simples que fôssemos reclamar com seus patrões!

Nessa hora, não há patrões, não há diretores, não há gerentes: há apenas os representantes visíveis e devidamente autorizados da empresa à nossa frente. Portanto, além de mau atendimento, de manter sucateada por cupidez a rede elétrica da cidade, seus funcionários ainda são mal treinados para lidar com a população.

Maldita AES ELETROPAULO, fruto da privataria tucana, da venda arbitrária e a preço de banana dos bens públicos do senhor Mário Covas (se eu acreditasse em inferno, desejaria que lá estivesse o ex-governador!)!

É essa camarilha que governa o Estado de São Paulo há dezesseis anos e tem mais quatro para nos atormentar a vida com sua incompetência em vender a incompetentes o patrimônio público, cujo exemplo mais exemplar é a AES ELETROPAULO, a poderosa, arrogante e incompetente AES ELETROPAULO.

janeiro 15, 2011

TRAGÉDIAS MUNICIPAIS, CULPAS FEDERAIS?

(Até agora, quase seiscentos mortos na serra fluminense)


Somos todos reféns de um bando de incompetentes e politiqueiros chamados prefeitos. São eles os culpados da maioria absoluta das desgraças que acontecem com o povo. E somos míopes para não enxergar que são eles – os prefeitos – responsáveis por nossa vida, desde um simples alvará para um puxadinho até complexos problemas de saúde.

O homem urbano vive na cidade e não no País.

O País, a Nação, a União são conceitos abstratos de macropolítica, de distribuição de renda e dos bens gerais. Mas a administração do dia a dia, os problemas comezinhos que nos afligem são de responsabilidade dos prefeitos. Deles dependem a saúde, a educação, a ocupação do solo urbano, a conservação de ruas e calçadas, o trânsito, a ordenação da vida cotidiana, enfim.

No entanto, dos quase seis mil prefeituras existentes no Brasil, pode-se dizer que possivelmente nem dez por cento tem prefeitos realmente preparados para a administração de uma cidade, seja ela de 10 milhões de habitantes como São Paulo, seja o menor município, com menos de cinco mil pessoas.

Sabem muito bem fazer política os nossos prefeitos. Sabem fazer promessas. Sabem enganar o povo para serem eleitos. Sabem fazer qualquer negócio, aliás, para serem eleitos. Porque, tirando as capitais e as grandes cidades, o emprego de prefeito é uma das melhores sinecuras que existe. Ganha-se bem para não se fazer quase nada.

Os prefeitos de capitais e de algumas poucas grandes cidades ainda têm a mídia em seu encalço. Mas, quem sabe quem é o preito das milhares de cidadezinhas perdidas no mapa, mesmo que sejam estâncias turísticas como Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro?

E, no entanto, são eles – esses prefeitos incompetentes – que permitem a ocupação desordenada de morros, de várzeas de rios, de lugares onde nenhum ser humano devia morar. Claro que não estão sozinhos no crime: contam com a colaboração da própria população que não pensa no risco e constrói em qualquer lugar, confiante em rezas e proteção divina; contam, principalmente, com a ganância e estupidez de grileiros e incorporadores, que vendem terrenos condenados a preço de banana ou, às vezes, nem tão baratos assim, para os incautos e estúpidos, sob a vista grossa dos prefeitos. Que, para garantirem alguns votos a mais, prometem regularização dessas habitações, colocando luz, água e asfalto. Não falei esgoto, porque isso já um luxo e uma preocupação que poucos têm.

E então, uma pequena vila de duas ou três casas dependuradas no morro ou dentro de áreas inundáveis transforma-se em pouco tempo em um povoado com dezenas de habitações precárias, grudadas umas nas outras, construídas por pedreiros improvisados de fim de semana, vizinhos que trabalham e erguem armadilhas por um churrasco e uma garrafa de cerveja.

E tudo sob a vista grossa dos senhores prefeitos.

Quando há algum problema – um pequeno deslizamento ou uma cheia – os moradores pressionam o prefeito. E lá vai ele fazer “obra” contra a chuva: um muro de arrimo ali, uma terraplanagem acolá, uma pequena barragem mais adiante. E todos ficam contentes: votam de novo no “elemento” (ia dizer criminoso, mas relevo por enquanto) ou nos seus apaniguados.

Incauta e estúpida a população que os mantém, a esses prefeitos espertinhos e bonzinhos. “Tocadores de obra”, “políticos trabalhadores”, “bons administradores”. Porque fazem o que o povo quer e não o que povo precisa.

Impedir um loteamento clandestino no alto do morro ou na várzea do rio não dá voto a ninguém. Buscar alternativas para o desespero do povo, que quer casa para morar, dá muito trabalho, exige competência, planejamento, visão de futuro. E isso, esses espertalhões eleitos com o voto dos enganados não têm, porque são preguiçosos, porque são estúpidos, porque não sabem e porque não têm interesse em administrar pensando no bem do povo.

Afinal, para que se preocupar? Uma enchente só ocorre de vez em quando, e o povo se acostuma ou é acostumado a receber, em donativos, a conta do prejuízo; deslizamentos de morro são eventos cuja ocorrência ultrapassa o tempo de um ou, às vezes, de dois mandatos. Quem vier depois que se lasque, para não dizer coisa pior.

E como quem vem depois segue a mesma política porca de deixar tudo como está para ver como é que fica, um dia acontece a desgraça: uma chuva mais forte, um temporal, e centenas de pessoas perdem a vida e seus bens, como está acontecendo neste momento nas serras fluminenses, em cidades como Teresópolis, Petrópolis e Novo Hamburgo.

De quem a culpa? De ninguém, claro. Ou do clima.

Ou, dependendo dos interesses e da visão estreita de uma certa mídia mal intencionada, joga-se a culpa na União, ou, mais precisamente, despejam-se os cadáveres ainda insepultos no colo da presidenta recém-empossada.

É mais fácil, é mais cômodo, é mais conveniente.

Principalmente quando há interesses eleitoreiros muito mais prementes que a constatação pura e simples de que as catástrofes do tipo das que estão ocorrendo no Rio de Janeiro só acontecem por incompetência, estupidez e politicagem rasteira desses nossos prefeitos. De quem somos todos reféns.

janeiro 14, 2011

SÃO PAULO SOB ATAQUE... DAS CHUVAS DE VERÃO

 

(Passeio de canoa pelo Tietê, quando o Tietê ainda era um rio)



Assim como o Egito, nos dizeres do historiador Heródoto, era um presente do Nilo, São Paulo, a cidade, devia ser um presente da bacia hidrográfica do Tietê. Porque rios significam vida e civilização.


Mas não foi isso o que aconteceu com a grande metrópole: seus rios viraram pesadelos. Principalmente durante as chuvas de verão, quando os rios atingem seu máximo volume de água e alargam suas margens para fertilizar o solo e preparar a terra para o florescimento das lavouras.

Os paulistanos – seus prefeitos e administradores dos últimos oitenta anos – viram nos rios, riachos e córregos que abundam no planalto apenas inimigos que deviam ser aprisionados, para dar lugar ao progresso.

O plano de “modernização” de Prestes Maia, na década de trinta, resulta, hoje, num retumbante fracasso ecológico e urbanista. As “obras” de construção de grandes avenidas em fundos de vale e sobre os rios, retificando-os, aprisionando-os, sufocando-os, que teve seguidores nas administrações posteriores, impediram que a cidade crescesse voltada para suas águas e fizeram que ela crescesse em cima delas, das águas que correm e que deviam ser símbolo de vida.

Quando se dá poder a um engenheiro de obras, a um engenheiro civil, ele constrói pirâmides. E não há nada mais inútil na história das grandes edificações da humanidade do que pirâmides.

As pirâmides paulistanas são suas avenidas marginais – que impermeabilizaram as margens do Tietê – e suas avenidas construídas em fundos de vales, à custa da drenagem e entubação dos rios e de seus afluentes.

Com isso, a grande bacia hidrográfica que permeava a cidade e com ela deveria conviver harmonicamente transformou-se no pesadelo subterrâneo de onde emergem todas as águas represadas, a qualquer chuva. A ocupação desordenada do solo e sua impermeabilização com asfalto e cimento complementaram a “obra” de destruição dos rios. Que, agora, se “vingam”, provocando enchentes e alagamentos com as chuvas de verão.

São Paulo tornou-se, assim, o mais acabado exemplo da estupidez humana na relação com a natureza. O fracasso urbanístico está à vista de todos. E os engenheiros continuam mandando na cidade, com suas réguas de cálculo para construírem mais obras. Agora, obras contra enchentes.

E não há nada mais estúpido na engenharia civil e no planejamento urbanístico do que “obras contra enchentes”. Gastam-se bilhões de reais, dinheiro do povo, para enganar o povo. Porque toda “obra contra enchente” só resolve o problema por algum tempo, até que natureza encontre outros caminhos e provoque novas enchentes catastróficas em algum outro ponto. Porque nenhuma “obra” consegue o objetivo de represar as forças da natureza, principalmente as forças hídricas.

Se o homem aprendeu a tirar das águas a energia para suas casas e suas cidades, não depreendeu, no entanto, que essa mesma energia é a que, nos tempos de cheia dos rios, nos tempos de chuva, se acumula nas corredeiras e destrói tudo o que encontra pela frente. A lição é clara: com a água não se brinca. E os engenheiros paulistanos que administraram essa cidade, desde a década de trinta, só fizeram isto: desobedecer às regras mais simples da convivência com as águas, represando-as, canalizando-as, tentando domá-las ao enfurná-las nos subsolo.

Agora, não há piscinões que resolvam o problema de enchentes em São Paulo. Porque piscinões são mais uma daquelas ideias que parecem brilhantes no papel, mas que na prática se revelam absurdas. Primeiro, porque são obras caras (e já sabemos: obras contra enchentes são inúteis); segundo, porque sua manutenção é trabalhosa e também excessivamente cara; terceiro, porque durante o período de seca transformam-se em lixões cheios de ratos e outros bichos, a atormentar a vida da vizinhança; quarto, porque não há espaço na cidade para construir o número de piscinões necessários ao volume de água que precisa ser represado, no período das águas; quinto, mesmo se construírem todos os piscinões necessários (alguns falam em cerca de cento e quarenta!), a vazão de toda essa água acumulada exigiria um complexo sistema de administração, para que não houvesse enchentes pontuais, muito tempo depois do período das chuvas, o que levaria a que essa água tivesse de ficar parada por muitos meses, provocando ainda mais insalubridade do que já provoca, quando os piscinões estão vazios. Enfim, mais uma grande bobagem para usar mal o dinheiro do contribuinte, enganando-o com falsas promessas e obras caras e inúteis.

Conclusão: só há um jeito de resolver o problema das enchentes de São Paulo – refundar a cidade, reconstruindo-a em novas bases, com seus rios de volta, e não apenas de volta – descanalizados – mas com suas margens amplas e não ocupadas por avenidas ou habitações.

Como isso é utópico, que os habitantes das várzeas e das margens alagadas – e não apenas eles – aprendam a construir suas casas em palafitas, a conviver com as enchentes, comprando barcos e botes para usá-los nos tempos de chuva. Porque, se não se pode vencer o inimigo, a solução é aliar-se a ele. Apesar de que os rios não são nunca inimigos, nós é que não sabemos e não queremos compreendê-los, como os egípicios antigos o faziam.

dezembro 31, 2010

A DÉCADA DE DILMA ROUSSEFF


Em termos de política brasileira, a primeira década do século XXI foi a década de Lula, o presidente operário que colocou o País no rumo do futuro. Mesmo com a ferrenha torcida contra da imprensa golpista e de uma oposição raivosa.

A imprensa golpista continua aí, num dilema de dar dó: teme os marcos regulatórios do próximo governo, por um lado e, por outro, morre de medo da entrada do capital estrangeiro que poderia aniquilar seus impérios. Como sempre, não sabe encontrar o meio termo. Discute tudo em caixa-alta, aos brados, como se o mundo fosse acabar, como se fosse o final dos tempos o fato de a sociedade brasileira ganhar um pouco mais de voz, através de mecanismos legais e legítimos de direito de resposta, de contestação de sua voz única, de maior vigilância àquilo que, muitas vezes, de forma irresponsável, ela publica como verdade absoluta e que é apenas boato ou fato não comprovado. Isto é republicano e democrático: dar um basta à era do julgamento e condenação peremptórios e sistemáticos. Mas também é preciso que se protejam nossos canais de comunicação da sanha do capital internacional.

Quanto à oposição, depois da surra nas urnas, está desarvorada e mergulhada nos seus próprios erros, sem propostas, sem rumo, sem lideranças. Isso é ruim para a democracia. Não se espera uma oposição canalha, como a que tem sido a tônica até agora – e foi essa posição de radicalismo extremo um dos motivos de sua derrota - , mas também não se pode ter um governo democrático sem uma oposição bem estruturada, para evitar exageros e tentações totalitárias. Que encontrem um rumo e sejam responsáveis no seu papel, é o que se espera daqui daqui para a frente.

À grande mídia também também jogo a responsabilidade de tentar criar verdades repetindo mentiras. O governo Lula não foi continuação do governo FHC, porque se assim o fosse, teríamos mergulhado num abismo e numa crise sem precedentes, que é o que apontava para o País a continuação dos desmandos políticos, administrativos e econômicos do governo anterior. Se a inflação ainda não saíra de controle, é porque o monetarismo não deixava, mas o entreguismo e o desemprego – marcas da política neoliberal de FHC – logo iriam levar o Brasil a uma situação caótica, por causa da destruição do mercado interno. E Lula fez exatamente isto: fortaleceu o mercado interno, ao resgatar da pobreza milhões de pessoas e recuperar o poder de compra da classe média, o que o levou a surfar sobre a crise internacional de 2008. Exatamente o contrário das políticas do governo anterior.

E por falar em governo anterior, FHC está morto e enterrado. Só sobrevive nas idiotices de comentaristas que insistem em comparar o pior governo de todos os tempos com o melhor, ou seja, o falso embate entre Lula e FHC só existe na imaginação daqueles que insistem em manter vivo politicamente o ex-presidente.

E Lula – já também quase um ex-presidente – sai do governo com 87% de aprovação popular. Um recorde mundial! Números superiores ao mito Mandela. Ou seja, Lula também se transforma numa espécie de mito, embora condene – por ser antidemocrático – todo e qualquer culto personalista. Respeitemos o líder, aplaudamos sua capacidade, reverenciemos sua popularidade, mas não o mitifiquemos, por favor.

Lula teve a sua década. Agora é a vez de Dilma Rousseff.

Lula não criou Dilma Rousseff. Apenas a descobriu. Sua capacidade gerencial, mais do que comprovada durante os anos de Ministra Chefe da Casa Civil, e sua inteligência compensarão sua pouca experiência política. Talvez não alcance o brilho de seu antecessor, em termos de liderança, mas tem tudo para fazer um grande governo, já que não há herança maldita a ser tirada de debaixo dos tapetes e de dentro dos escaninhos do Palácio da Alvorada. Ela sabe, e muito bem, que o País ainda tem grandes desafios a vencer; que os oito anos de Lula não podiam contemplar de maneira uniforme a todos os setores carentes de nossa economia e de nossa população; que o trabalho de erguer um País e devolver-lhe a autoestima não depende do esforço e da capacidade de um só governante, mas também de todo o povo; que, enfim, há ainda muito a ser feito e que, pela primeira vez na história, há a possibilidade de uma continuidade administrativa responsável, dentro de uma situação política, econômica e social de absoluta normalidade, e que os avanços – necessários e fundamentais – não implicam rupturas.


A década que amanhã se inicia, portanto, deverá – e torcemos todos para isso – ser a década de Dilma Rousseff. A primeira mulher a governar de fato o País tem tudo para continuar uma obra notável, mas, principalmente, tem tudo para construir outra obra notável, o que permitirá fazer do Brasil a quinta economia do mundo ao final do seu mandato.

dezembro 16, 2010

NÃO, NÃO ME BELISQUEM: QUERO CONTINUAR SONHANDO!






Há oito anos, quando Lula foi eleito presidente, numa campanha histórica – ainda hoje me emociono – fui para a Avenida Paulista para participar da festa. Um misto de alegria imensa e temor, muito temor, batia forte em minha mente.

E se Lula não der certo?

É claro que o prazer de ver e ouvir, naquele palanque improvisado, o operário Lula discursar e levar ao delírio milhares de brasileiros, fazia com que a esperança realmente derrotasse todos os meus temores.

Fora uma campanha difícil, com toda a mídia – como sempre – ao lado dos opositores. E agora, como um cachorro que late para os automóveis e, quando eles param, não sabe o que fazer, eu me sentia desnorteado com a vitória.

E os tempos não foram fáceis. Porque, primeiro, o PT não é um partido fácil, dividido em várias correntes, com muita gente despreparada para o exercício do poder. E realmente, muitos “companheiros” deram trabalho, por estupidez, por radicalismo ou mesmo por improbidade. Segundo, não tinha o presidente maioria no Congresso. E as alianças com quem estava disponível nem sempre funcionaram ou o fizeram precariamente. Havia (como ainda há) muito fisiologismo e pouco espírito público. Terceiro, a imprensa nunca deu folga. Numa união ainda hoje espúria com a oposição, fez campanha sistemática contra o governo Lula, de forma declarada, muitas vezes, e outras tantas de forma sutil e subliminar, o que é a maneira mais cruel e deselegante de se fazer oposição.

E havia ainda o fator maior: a famosa “herança maldita” do governo anterior, que deixara um País em situação de quase inadimplência frente aos organismos internacionais, principalmente o FMI que, aqui, mandava e desmandava; uma política de total dependência dos Estados Unidos; um povo sem ânimo, um verdadeiro “complexo de vira-latas” a corroer as entranhas da Nação; um mercado interno em frangalhos, embora a inflação estivesse controlada; índices avassaladores de desemprego e de miséria. Enfim, um País sem rumo.

E Lula não apenas resistiu a todas as intempéries, mas ainda realizou sua obra com denodo. Inexperiente em termos administrativos, teve que lutar contra uma máquina pública emperrada e preguiçosa, para tocar seus projetos. Cometeu erros, sem dúvida, mas consegui superá-los.

E houve o episódio que ficou conhecido como “mensalão”. Naquele momento, todos os meus temores retornaram. Meses e meses de uma campanha sistemática e desalentadora da mídia. Sem tréguas. O lema era: atirar primeiro, perguntar depois. Ou seja, qualquer boato, qualquer detalhe escabroso, qualquer denúncia sem comprovação viravam manchetes e tornavam-se fatos verdadeiros e comprovados. Ministros caíram, o governo realmente balançou e eu pensei: o golpe está em curso, nada conseguirá impedir que, mais cedo ou mais tarde, consigam defenestrar do Governo o operário que eles – a mídia, as elites, as oposições e todos os que estão tendo interesses contrariados – não suportam ver no comando da Nação.

Mas Lula resistiu. E não só resistiu: venceu e convenceu.

Ganhou um segundo mandato, em mais uma campanha dura, contra a mídia, que preferia ver na Presidência um político sem carisma, sem realizações, como Geraldo Alckmin, cujo apelido (maldoso, claro) já indica sua condição de ser o queridinho apenas de uma pequena, mas forte em termos midiáticos, elite paulistana, mas o “picolé de chuchu” não resistiu ao segundo turno.

Com o homem forte do governo, José Dirceu, fora de combate, abatido na “guerra do mensalão”, a oposição e a grande mídia arrefeceram um pouco – só um pouco – o seu ímpeto golpista. Afinal, o próximo presidente já estava eleito: José Serra. Não conseguiria Lula transferir facilmente sua popularidade crescente, em virtude de um governo que teimava em acertar e colocar o Brasil rumo ao primeiro mundo, para algum outro político com condições de competir.

Mas Lula revelou sua outra face: a de estrategista político. Sacou do Ministério de Minas e Energia uma técnica competente e colocou-a na linha de frente do governo, na Casa Civil, dando-lhe pouco a pouco a visibilidade necessária a seus planos. E assim surgiu Dilma Rousseff.

A oposição subiu no salto alto, com José Serra. Por isso, a campanha da eleição de Dilma foi dura, com muitos golpes baixos, com toda – absolutamente toda – a grande mídia fazendo campanha para a oposição. Ao cúmulo de um grande e tradicional jornal – O Estado de São Paulo – publicar editorial inédito declarando apoio a Serra, terminando por dizer que Dilma era “o mal a ser evitado”!

Lula termina seus oito anos de governo com aprovação de 80% da população. Seu índice de popularidade bate nos 87%, um recorde histórico e difícil de ser alcançado. O sonho que, oito anos atrás, balançava entre esperança e temores, inacreditavelmente chega a 2010 mais renovado do que nunca. Lula fez a travessia de seu governo como o maior de todos os presidentes que já houve.

Sua presença, seu nome, seu carisma e sua competência deixaram para trás o jeito bonachão e, às vezes, meio grosso de elaborar metáforas futebolísticas para melhor expressar seu pensamento. O operário tornou-se figura internacional, respeitado em todo o mundo, por todos os demais governantes.

Lula, orgulho do Brasil. Hoje, oito anos depois.

Não. Não me belisquem: quero continuar sonhando. Com um País melhor, com um País mais justo e menos “vira-lata”, que a administração do presidente-operário soube, de forma exemplar, começar a construir.

dezembro 06, 2010

A GUERRA DO RIO OU UM RIO DE GUERRAS?







Há coisas que me irritam. Frases feitas. Ou, pior: conceitos feitos. De encomenda.

Um deles: o “crime organizado” começou com a instrução dos presos políticos de conceitos de guerrilhas aos presos comuns, na época da ditadura.

Será?

Será que uns poucos intelectuais conseguiriam influenciar tanto assim a bandidagem? Bandido,que eu saiba, não tem ideologia. E guerra de guerrilha tem: se não os vietcongs não teriam derrotado o império estadunidense, com seus túneis, com seu conhecimento do território, com suas surpresas e emboscadas...

Bandido pensa em lucro imediato, não em conquistas posteriores. Portanto, essa história de “organização” só existe, entre a bandidagem, em termos de quadrilha: um grupo se une em torno de um “líder” (o mais esperto) e quem não seguir as regras – toscas e imediatistas – do grupo e, principalmente, do chefe, morre.

Além disso, a “organização” é mais fruto da sofisticação de meios que o mundo modernizado e globalizado oferece: tem que haver gente que entenda esse mundo especializado e cada vez mais especializado. O comércio de drogas, por exemplo, exige conhecimentos de línguas, de comércio exterior, de armamentos (cada dia mais sofisticados), de geografia, de informática etc. Então, as quadrilhas também se sofisticam, dentro de suas possibilidades. E se organizam.

E aí entra a minha segunda coisa que me irrita: “crime organizado”. Não existe. É invenção de quem tem o pensamento raso, imediatista e de comunicação instantânea. Nem a famigerada máfia é organizada. Suas quadrilhas ou “famílias”, sim. Organizam-se em torno de um “chefe” ou “babo” (para usar uma expressão em uso), ou “capo” ou “padrinho”, com leis próprias e regras de conduta: quem não as segue, é punido, ou melhor, morre. Não há segunda chance.

“Crime organizado” é ficção. De noticiário rasteiro. O que há são quadrilhas mais ou menos organizadas em torno de um líder. Com lutas internas e externas. O mais esperto mata o que “deu bobeira” e toma o “poder”, que é restrito a uma comunidade relativamente pequena: só se expande pelo terror, pela ameaça, por ter a arma mais poderosa ou ser aquele que mata mais os inimigos ou intimida mais a comunidade.

Mas seus chefes, ou líderes, cometem o erro da ganância ou do orgulho: arrotam seu poder (que é relativamente pequeno) como verdadeiros monarcas – julgam, condenam e matam ou absolvem com a mesma idiota pretensão de reis medievais que se julgavam “representantes de deus” na terra. Acabam, quase sempre, mortos: ou pela polícia ou por um de seus “súditos” (em “golpes de estado”) ou pelos inimigos que estão de olho em seu “território” ou “reino”, outro conceito que absorvem e tentam estabelecer. Na verdade, o “território” é ilusório e seus “súditos”, traidores ou descontentes, já que sabem que estão sob um jugo absolutista, capaz tanto de recompensá-los quanto de eliminá-los por motivos incompreensíveis.

Como as quadrilhas têm um inimigo comum – a polícia –, parece que se unem para combater esse inimigo comum. Na verdade, apenas parecem que se unem, porque, quando a situação aperta, é cada um por si. A união é falsa, ou só ocorre em momentos de crise, quando, então, as decisões tomadas são eivadas de motivação imediatista e, quase sempre, equivocadas, ou seja, sem visão de futuro.


As quadrilhas dos morros cariocas formam-se quase sempre em torno de um elemento comum: o tráfico. E as drogas só são um poderoso ponto de interesse porque têm mercado certo: a classe média, média alta e alta dos bairros da Zona Sul. Ou seja, o mercado determina a criação, organização e existência das quadrilhas. Se não houvesse mercado – e um mercado consumidor de alta capacidade – não haveria tantas quadrilhas e tantas lutas para conquistar e manter territórios que, na verdade, só são conquistados e mantidos por bandidos estúpidos, que querem usar a droga como poder não apenas econômico, mas também político ou territorial. Os verdadeiros criminosos ou “importadores” estão nos gabinetes simples e refrigerados de escritórios discretos e levam a vida de nababos sem chamar a atenção de ninguém. Sabem que seu poder só subsiste se se mantiverem à sombra, com os idiotas indo para a linha de frente do enfrentamento, lutando por poderes limitados de território, totalmente inúteis e sem sentido, se pensarmos em termos econômicos. O “tráfico do morro” é o boi de piranha de interesses muito mais altos e espertos, no mundo da alta bandidagem.

A grana que as quadrilhas de morro ganham transformam-se em motivo de ostentação fútil – casas com mil e um equipamentos, mulheres, muitas mulheres e ouro, muito outro, inutilmente pendurados nos corpos, como forma de atração sexual. Não saem, portanto, do morro, porque, se saírem, sabem que são presa fácil da polícia. Daí, a noção de território: é o território, ou seja, o entorno amedrontado e humilhado pelo poder das armas, a segurança do bandido de morro.

Armas! Outro ponto nevrálgico das quadrilhas: pretendem-se, todas elas, armar-se o mais possível, e nisso gastam boa parte do que ganham com a droga. Elas são essenciais para a intimidação não só dos moradores do “território ocupado”, mas também da polícia. Mas, com certeza, serão poucos os que sabem usar realmente o armamento mais sofisticado, que exige perícia e treinamento. O problema é como chegam ao morro: seu comércio, feito através das extensas fronteiras terrestres e marítimas do País, é um caso complicado de se resolver. Por mais apreensões que a Polícia Federal faça, ainda assim vale a pena, para o tráfico, porque o dinheiro é fácil, tentar contrabandear armamento pesado e sofisticado. Assim, acredito que os traficantes devam comprar uma quantidade bem maior de armas e contar com a sorte – já que uma boa parte é apreendida – para que elas cheguem até eles.

E a sociedade que se escandaliza com o armamento pesado dos bandidos tem, sim, o seu quinhão de contribuição para as armas do tráfico: quando, há alguns anos, debateu-se o desarmamento civil, essa mesma sociedade que hoje se sente ameaçada não concordou com a tese de proibição de fabricação e distribuição de armas no País. Armas que aqui são fabricadas passam a fronteira dos países vizinhos e voltam em forma de contrabando, para as mãos dos traficantes, enriquecendo e desenvolvendo, assim, uma indústria que emprega uma quantidade bem menor de pessoas do que apregoou anos atrás o seu poderoso lobby.

Assim como as armas são uma espécie de fetiche – manipulado pela propaganda da indústria armamentista que, tal qual a do cigarro, também enriquece e ganha milhões a custa da desgraça alheira – as drogas “inocentemente” consumidas pelas classes mais abastadas em suas festinhas de embalo são também um ponto intocável na questão da guerra ao tráfico.

Assim como todos aplaudem – muitos falsamente – o combate sistemático às quadrilhas dos morros e das favelas por esses brasis afora, deviam também exigir que se aplicassem pesados recursos na identificação, tratamento e cura dos milhares e milhares de usuários de drogas que as famílias desesperadas mantêm sob o manto da hipocrisia, sem terem coragem de assumir que financiam, sim, o tráfico de drogas e contribuem para o banho de sangue de bandidos e inocentes, nessa “guerra” sem inimigos declarados que a própria sociedade exige que se faça.

Portanto, tenhamos coragem de assumir que não há apenas uma guerra no Rio, mas rios de combates que acontecem em todos os lugares, em todos os lares onde haja viciados – inocentes ou não – mas principalmente indivíduos que fumam, injetam, consomem não somente drogas – maconha, cocaína, crack, anfetaminas, heroína, ecstasy etc. – mas também sangue e vida de milhares de vítimas – homens, mulheres e crianças dos morros e de suas próprias famílias – das quadrilhas de traficantes que infestam a sociedade e que só estão “organizadas” na mídia: são só um bando de indivíduos sem qualificação a querer se aproveitar de uma situação que nós mesmos, e aí, sim, a chamada “sociedade organizada” temos criado, com nossa hipocrisia no trato da dependência química.

novembro 19, 2010

CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEMPO, O TEMPO DA DOR

(Bruegel - os cegos)



Talvez seja o tempo a matéria de instigação filosófica mais complexa, para o homem. Só o que podemos afirmar sobre ele, o tempo, é que o futuro vem, inexoravelmente. E, por ainda não existir, podemos moldá-lo conforme nossas ações ou nossos desejos. Se ele vai confirmar nossas ações ou nossos desejos já é uma outra história.

O presente, não sabemos exatamente o que é e não o dominamos, por ser fluido como as letras que vou encadeando neste artigo: só estão no presentes no exato momento em que se materializam diante de meus olhos, para no instante seguinte, tornar-se passado. E quando se tornam passado, eu posso voltar e modificá-las. Como, aliás, fazemos com o passado.

O passado é o tempo que dominamos. Porque podemos mudá-lo à vontade, de acordo com a nossa percepção. E cada um tem do mesmo fato passado a sua visão particular. Portanto, não existe um passado, mas inúmeros passados para um mesmo acontecimento. Ou o que muitos chamam de versões, não importa.

Por que, mesmo, estou falando do tempo? E especialmente do passado? Porque quero falar do passado de Dilma Rousseff, presidente eleita do Brasil.

Sabe-se que lutou contra a ditadura, foi presa e torturada. São três fatos que podem ter, cada um deles, a versão que quisermos dar, conforme os interesses atuais de quem quer que os rememore, os reconte ou os interprete. Podem, portanto, constituir-se em algo nobre ou maléfico. Se sou de direita e apoiei a ditadura, são fatos tremendamente desabonadores. Se, pelo contrário, fui forte opositor ao regime, isso a torna uma heroína, aos meus olhos.

Onde está a verdade?

Poder-se-ia argumentar que a verdade estaria, como, no budismo, no caminho do meio, na zona cinzenta entre a traição à pátria e o heroísmo. Que a presidente eleita não é nem santa nem demônio.

Mesmo aí, nessa pretensa e quase impossível ortodoxia do politicamente correto, não teríamos qualquer certeza, diante das inúmeras possibilidades dessa zona cinzenta: são inúmeras as versões, são inúmeros os detalhes, assim como as circunstâncias em que os fatos ocorreram têm inúmeros atores, cada um com sua versão, e infinitos detalhes que podem ou não ter influenciado cada instante, cada ato, cada palavra.

E por que tudo isso, agora?

Às vésperas da eleição de Dilma Rousseff, algo estava para acontecer, como uma espada de Dâmocles suspensa sobre a Democracia brasileira: o jornal A Folha de São Paulo tinha entrado no Supremo com um pedido de liminar para ter acesso às informações da ficha da candidata nos arquivos da ditadura.

Que interesse teria o jornal em publicar o que está escrito em documentos produzidos pelos militares que prenderam e torturaram a então candidata? A versão deles é a versão de quem a considerava “elemento perigoso”, “inimiga do regime”, “terrorista” .
E todos que lutaram, com ou sem armas, contra a ditadura foram perseguidos como inimigos, muitos foram presos, torturados, mortos e enterrados, sem que tivessem a mínima possibilidade de contar com a Justiça ou com um julgamento justo.

Naquele momento crucial da eleição, publicar a palavra dos ditadores, dos militares que estavam no comando, dos torturadores enfim, teria por único objetivo conturbar o ambiente eleitoral e tentar intervir no resultado das urnas, de forma unilateral e desesperada, como foram unilateral e desesperadamente anti-democráticas todas as ações dos militares durante o período ditatorial. Ou seja, queria o jornal A Folha de São Paulo abalizar, como já o fez no passado, quando apoiou e até contribuiu para o regime militar, as versões unilaterais de carniceiros torturadores que seriam, em qualquer país civilizado do mundo, presos e julgados por crimes imprescritíveis, que são os crimes de tortura.

É essa a democracia que deseja e defende A Folha de São Paulo?

E agora que, passadas as eleições, eles – os donos e jornalistas de A Folha de São Paulo – obtiveram o acesso a esses dados da ditadura, o que pretendem fazer? Vão ter a hombridade de publicar todas as versões, inclusive a da presidente eleita e de todos os envolvidos? E mesmo que o façam, com que finalidade? De provocar comoção e vender mais jornais? Saberão as cabeças quentes pela derrota de seu preferido manter uma certa idoneidade, para trabalhar com rigor histórico os dados que lhes oferecerem os registros dos torturadores?

O passado da presidente eleita, como tudo aquilo que é passado, tem inúmeras versões e pode ser reconstruído de acordo com infinitas possibilidades, em função de interesses atuais, em função da cabeça de quem o manipula ou interpreta e até em função da ignorância de alguns ou de todos os fatos, porque, afinal, ninguém, absolutamente ninguém, conseguirá reproduzir o passado tal como de fato aconteceu.

Então, eu pergunto: qual o passado que a Folha de São Paulo pretende resgatar? O da sua verdade, eivada de preconceito, como têm demonstrado todas as suas “reportagens” políticas atuais ou o passado de apoio e ajuda aos mesmos elementos que prenderam e torturam a jovem Dilma, naqueles idos e terrivelmente vividos dias de dor e confronto?

Alguém, em sã consciência, acredita em alguma boa intenção desse jornal?

outubro 19, 2010

EU TENHO O PRIVILÉGIO DE TER VIVIDO OITO ANOS COM LULA NA PRESIDÊNCIA!



Já disse uma vez, e repito, agora: quando Lula foi eleito Presidente, eu tive uma das maiores emoções da minha vida, como cidadão brasileiro. Houvera apenas dois outros momentos tão fortes, em termos cívicos: o comício de um milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, pelas diretas e, depois, o processo de democratização que culminou com a morte de Tancredo Neves e a posse de Sarney.

Mas, a posse de Lula trazia preocupações terríveis. Terminará o mandado? Ou melhor, deixarão que ele termine o mandato? O cheiro de golpe sempre pairou no ar, durante os primeiros anos de Lula. Como a esquerda (bem moderada, aliás) defenestrara o Collor, o ungido da Globo e de uma certa imprensa que hoje denominamos PIG (Partido da Imprensa Golpista), acreditava que buscariam pretexto para também afastá-lo da Presidência.

Foram anos difíceis. Inventaram mil histórias. Que atingiram até mesmo o homem forte de Lula, José Dirceu, no episódio marqueteado do chamado “mensalão”. Os odiados (por essa mesma mídia) companheiros do PT de Lula souberam, muitas vezes, sacrificar-se pelo líder maior, porque sabiam que era mais importante o projeto de governo, o desenvolvimento do País. Porque o Brasil precisava, sim, de um homem como Lula, para afastá-lo da beira do abismo em que o deixara o queridinho da direita, o scholar e “preparado” Fernando Henrique Cardoso.

E Lula, como bom marinheiro, tocou o barco devagar, no meio daquela fumaça toda, que o PIG articulava e martelava diariamente na cabeça das pessoas. O objetivo era claro: tirar o operário da Presidência, ou por um processo de impeachment, ou pelas urnas, nas próximas eleições. Deram dois tiros no pé: o primeiro, ao não acreditar na capacidade administrativa de Lula, no seu governo realmente voltado para melhorar as condições de vida do povo; o segundo, quando brigas internas da direita demotucana colocaram como adversário de Lula, nas eleições, um homem sem carisma, um quase nada político, chamado Geraldo Alkmim. Assim mesmo, o PIG levou as eleições para segundo turno, para ter a surpresa de ver minguarem os votos do seu queridinho.

E os quatro anos seguintes do mandato de Lula foram de consolidação de um novo modelo de gestão, de governo voltado para os reais interesses do País, num clima de democracia tal, que o PIG ainda tentou e tentou inúmeras vezes desmoralizar o Presidente. Tudo inútil. Como se cantava na época das diretas, o povo não é bobo. E a popularidade de Lula alcança píncaros jamais sonhados ou imaginados pela mídia adversa, pelas cassandras que escondem seus signos fascistas sob o manto de democratas e frequentam redações de jornais e revistas ou comandam jornais televisivos.

Então, eu devo confessar que, do alto meus muitos anos de vida, tenho o privilégio ter vivido durante os oito anos de Presidência de um homem probo, inteligente, carismático, que fez o melhor governo de toda a história da República, sem sombra de dúvida. Acima, até, de Juscelino Kubstcheck, talvez o mais democrata de todos, mas que não teve a possibilidade de consolidar o seu governo, porque não havia reeleição. Lula está de fato tirando o País do estigma de “gigante adormecido” e colocando-o como o país das grandes oportunidades do presente.

Lula, o metalúrgico, aquele cujo primeiro diploma foi o da presidência da República, como ele mesmo o disse na primeira posse, agora é doutor, doutor em política, doutor honoris causa do povo brasileiro. Sairá da Presidência aclamado e não pelas portas dos fundos, nem com a popularidade em queda, mas como talvez um dos grandes estadistas deste século que está mal começando.


Por isso, repito, tenho, sim, o privilégio de ter vivido esse tempo. O tempo de Luiz Inácio Lula da Silva, o metalúrgico que reinventou uma nação.

outubro 15, 2010

ÁGUAS QUE CORREM

(Rio Tietê, em São Paulo, em 1905)



Sempre fui fascinado pelas águas que correm. Menino ainda, na velha cidade mineira de Lavras, encantava-me a enxurrada que levava o barquinho de papel. Para onde? Ficava o mistério. Depois, a descoberta do córrego bem lá no fundo do quintal, onde havia um barranco com areias coloridas, moldado pelas cheias, pelas águas. Mais tarde, o riacho longe, aonde íamos em bando tomar banho de cachoeira, no poço redondo, de pedras e areia. E havia, ainda, muito mais longe, o Rio Grande, que passava perto da minha cidade e inundava a pequena Ribeirão Vermelho, de tempos em tempos. E depois, já adolescente, o Rio Verde de Três Corações, onde minha irmã morava. Rio bravo, cortando a cidade e lambendo a Escola de Sargentos das Armas, a ESA. Rio que comia gente. Não era raro juntar povo na ponte, para ver o resgate de um corpo que descia a correnteza, depois de três dias sumido o jovem recruta que se aventurara em suas águas.

Memórias. Memórias de águas que correm, de rios de minha infância.

Se tivesse que escolher a mais bela frase de todos os tempos, acho que escolheria a do historiador grego, Heródoto: o Egito é um presente do Nilo. Não conheço o Rio Nilo, a não ser de fotos ou filmes, mas deve ser um rio fantástico, como tantos outros no mundo. Das velhas lições de geografia: a Mesopotâmia, região entre rios, o Tigre e o Eufrates. O Tamisa, na Inglaterra. E o Danúbio? Para inspirar uma valsa tão famosa, só pode ser um rio de encantos mil!

A imaginação sempre correu frouxa, quando penso em rios, riachos, córregos, águas que correm. Águas que produzem cachoeiras, corredeiras, margens de bosques ou apenas limam as pedras até torná-las redondas. Águas que correm, que sobem com as chuvas e se estreitam com a seca. Acho que são, todas as terras, presentes das águas que correm. Sem elas, o mundo seria estéril, não existiriam animais, florestas, frutos: não existiria o homem. Só a bíblia vê as águas como ameaça: o dilúvio, o mar que Moisés abre com seu bastão. Mesmo quando usa as águas para batismo, elas são não a ligação do homem com a vida, com a terra, mas a religação com um deus furibundo e mal humorado. Mas isso já é implicância minha...

Águas que correm. Que provocam enchentes. Que levam os bens que os homens, teimosamente, amontoam em suas margens.

Águas que correm. Águas que deviam ser limpas, cristalinas, livres, soltas, com imensas margens a serem fertilizadas (como no Egito de Heródoto). Que deviam, em todos os pontos do mundo, trazer vida, saúde, prazer. E penso: será que ainda estão azuis as águas do Danúbio? Não estão ensanguentadas as águas do Tigre e do Eufrates? Não estão barrentas as águas do Velho Chico? Ah: e o nosso Tietê, o rio que corre para dentro, para o coração do estado, quando nasce tão perto do mar! São Paulo, a cidade e o estado, são, em grande parte, um presente do Tietê, com seus inúmeros afluentes a inundar, cada vez que chove, a metrópole que o matou...

Tietê, Tietê, o rio assassinado, que só ressurge impávido colosso só muitos quilômetros abaixo: orgulhoso, na sua resistência, que, nós, os paulistanos, não sabemos admirar, só reclamar, como se fosse possível haver obras contra enchentes, contra as cheias que são a natureza dos rios, dos riachos, dos córregos, das águas que correm.

E as águas que correm pela cidade de São Paulo levam o meu barquinho de sonho para o mistério das profundezas da terra, porque foram elas todas aprisionadas, enterradas, afundadas, emporcalhadas e desprezadas. Só aparecem, a cada ano, durante o verão. Às vezes, um pouco antes.

outubro 06, 2010

COM QUANTAS MENTIRAS DE FAZ UMA VERDADE?


A Folha de São Paulo, jornal de direita e financiado pelo Governo do Estado de São Paulo, voltou a veicular publicidade na televisão, usando a figura do Hitler para dizer que uma mentira muitas vezes repetida se torna uma verdade.

Uma publicidade que veicula exatamente o tipo de política de difamação a que a Folha tem-se dedicado desde os tempos da ditadura militar.

Um jornal que tem o rabo preso, por apoiar escandalosamente a Operação Bandeirante, permitindo que seus veículos transportassem presos políticos para os porões do DOI-CODI, de sinistra memória, nos idos dos anos 60 e 70, agora quer-se arvorar em paladino da verdade publicando e republicando mentiras, repetindo e repetindo inverdades e difamações.

A intenção é clara: desconstruir a trajetória do PT e, principalmente, de sua candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff.

Porque a Folha de São Paulo, assim como a chamada grande imprensa, que está nas mãos de poucas famílias, nunca soube e não saberá jamais o que é ética jornalista: esconde-se sob a rubrica de “imparcial”, para publicar barbaridades.

Sua tática é simples: quando há uma notícia contra o seu candidato, o senhor José Serra, ou contra o PSDB, ela publica, sim, mas só aquela notícia que fará mínima cócega no “prestígio” do partido ou do seu queridinho. Ou seja, ela finge que ataca, mas na verdade está escondendo ou omitindo a verdade, dourando a pílula, enganando o seu leitor.

Notícias desfavoráveis ao PSDB são cuidadosamente escolhidas e publicadas, para dar a falsa impressão de neutralidade.

Já qualquer vestígio ou boato ou disse-me-disse envolvendo o PT e sua candidata não precisam ser verificadas ou confirmadas quanto à sua veracidade: ganham manchete e, se não for verdade, o desmentido vem nas páginas internas ou na palavra de seu ombudsman, num singelo “erramos” perdido entre as demais mentiras e aleivosias que ela publica diariamente.

Jornalismo desse naipe não tem correspondência em nenhum lugar do mundo: mesmo tomando posição a favor desse ou daquele partido político, a imprensa internacional tem procurado adotar certa postura ética.

Mas os jornalistas da Folha de São Paulo parecem desconhecer completamente qualquer senso de responsabilidade ou do que seja correção, compromisso com a verdade, ética, enfim.

Tem, pois, razão a Folha de São Paulo, ao erigir como garoto propaganda de sua canalhice a figura de Hitler, já que ela pratica um jornalismo de cores nitidamente fascistoides, de baixo nível e de permanente desrespeito a seus próprios leitores.

Contra esse tipo de imprensa é que todos nós, verdadeiros democratas, nos insurgimos. Mas o fazemos com a força de nosso protesto, e não com o uso de leis de exceção, como o fizeram quase todas as “famílias” que mandam no jornalismo brasileiro, durante o regime militar.

Não precisamos de leis que controlem a imprensa, mas queremos ter voz para protestar, sim, de todas as formas, contra as mentiras mil vezes repetidas na imprensa com a clara intenção de se tornarem verdades!

outubro 04, 2010

O VOTO PAULISTA: TIRIRICA E OUTRAS TRANQUEIRAS


O palhaço Tiririca obteve uma das mais expressivas votações para Deputado Federal, da história deste País.

Em São Paulo.

O Estado mais politizado, mais rico e poderoso, na hora de votar, escolhe mal seus representantes.

Tiririca tem, sim, o direito de se candidatar. E pode, sim, ser eleito, como todo cidadão que vota e pode ser votado. Afinal, representação popular é isto: até os palhaços podem ser políticos. E dos bons. Já que há tantos políticos que são palhaços... dos ruins!

O problema não está na eleição do palhaço. O problema está na quantidade de votos que ele obteve. E mais: na quantidade de votos que outros piores do que ele também obtiveram.

Até o Paulo Maluf – suspenso pela Justiça Eleitoral até que se julgue se ele pode ou não se candidatar, de acordo com a famosa “Lei da Ficha Limpa” – obteve quase quinhentos mil votos!

Os eleitores paulistas abusam de escolher mal seus representantes. Basta uma olhada na lista dos eleitos, para identificarmos muitas tranqueiras ideológicas, muitos falsos políticos, muitos aproveitadores de fama instantânea,de uma profissão pública ou da fé do povo ou da proximidade a ídolos ou falsos ídolos, de todos os matizes.

Não vou nem citar nomes, mas há tranqueiras ideológicas em todas as classes sociais, e não apenas dentre aqueles que buscam o voto de brincadeira ou o voto das pessoas menos despolitizadas.

Então, um eleitorado que vota assim tão mal merece, sim, que seja eleito governador um homem como Geraldo Alkmin, cuja maior “qualidade” é não ter qualidade nenhuma, ser um zero à esquerda em termos de administrador, mas que milita no conservadorismo tão caro aos paulistas.

Afinal, qual a maior palhaçada? Tiririca no Congresso ou Alkmin no Palácio dos Bandeirantes?

setembro 26, 2010

CIDADÃO SÃO PAULO: ADONIRAN BARBOSA


O veneno desta cobra, hoje, se adoça, vira mel. E enche-se de saudade de um tempo em que São Paulo, já metrópole, ainda se curvava ao talento de um homem simples, sempre de terno e gravata “brabuleta”, que cantava o Bairro do Bixiga, as ruas da cidade, as personagens comuns, que viviam, trabalhavam, cantavam ou morriam em seus becos.

Estamos falando do Charutinho.

Estamos falando de Adoniran. Aquele palhaço que transformava tragédia em samba. Que ignorava o falar elegante dos salões, para criar letras em legítimo dialeto popular, italianado, para falar de gente como ele.

Assisti, mais uma vez (quantas?), a um vídeo que qualquer um pode ver na internet, em que ele, Adoniran, encontra-se com Elis Regina num bar do Bexiga. Um bar simples, pé-sujo, onde almoçam, trocam confidências, cantam e, principalmente, dão muitas risadas.

A simplicidade da grande dama da canção ao lado do gênio de sambas inesquecíveis, seu inequívoco prazer em estar ao lado daquele homem alegre e de fala popular, a atmosfera de bar, os músicos concentrados no acompanhamento de uma letra que fala em tragédia – Iracema, meu grande amor foi você – a declamação séria e ao mesmo tempo irônica de Adoniran – você atravessou a rua São João, veio um carro te pincha no chão, o chofer num teve curpa, paciência, paciência – tudo isso torna o vídeo um momento de grande emoção, para quem admira a obra de ambos – Elis e Charutinho, o Adoniran Barbosa, cidadão São Paulo, símbolo da mixórdia étnica da grande metrópole.

E depois, eles saem pelo bairro, pelas ladeiras e escadarias do Bixiga, conversam com pessoas simples, interrompem por alguns segundos o jogo de bola da molecada, espiam por sobre os muros os terrenos abandonados, as casas decadentes dos mestres artesãos italianos do início do século, atravessam ruas cheias de kombis velhas e automóveis antigos, até a porta do teatro, onde se despedem. Cúmplices da beleza antiga e decadente da cidade que os acolheu e que os aplaudiu, talvez menos do que merecessem.

Realmente um momento antológico de saudade, de beleza, de emoção. Fica em nossa boca o sabor da culinária italiana, da carne de panela e da macarronada, e não deixa de surgir, no canto de nossos olhos, uma lágrima, uma lágrima por aqueles que cantaram uma São Paulo que ainda existe, sim, na nossa imaginação, na emoção do riso cristalino de Elis e no jeito bonachão de Adoniran.

Esse encontro ocorreu ontem mesmo, no ano de 1978.

Inesquecível Elis, com sua gargalhada, com sua bossa.

Inesquecível cidadão São Paulo, símbolo dessa terra, o velho Charutinho.

setembro 25, 2010

UMA CERTA ELITE CAIPIRA

(Henry Tuke - sous le soleil)



São ricos, muito ricos. Ricos e mal afamados. Ricos e inconsequentes. Ricos e bagunceiros.

Não têm o menor respeito à vida, alheia e própria. Não têm o menor respeito às pessoas. Não têm o menor respeito às mulheres. Tratam-nas como objeto, e ponto. Que devem estar disponíveis, sempre, mesmo que à força – da grana ou do muque.

Porque são moleques fortes, acostumados à vida rural, às vezes até mesmo a montar touros bravos em rodeios regados a uísque importado, animados por duplas sertanejas famosas e com muitas, muitas mulheres, algumas até famosas, modelos de revistas ou figurinhas carimbadas da televisão.

Constituem, com seus pais, familiares e agregados, a elite caipira do interior de São Paulo. E são a lata de conserva do que há de mais tradicional, antiquado e moralista jeito de viver das cidades médias e grandes do interior do Estado mais rico do País.

Copiam dos Estados Unidos da América aquilo que eles têm de mais conservador e fascistoide: desde as roupas estilo country, com chapéus, camisas listradas, jeans, botas e esporas, até o jeito de andar e falar, como os machões do velho oeste.

Em vez de cavalos, montam caríssimas vans e jipes de mais de cem mil dólares, com vidros escuros e aparelhagem de som de dar inveja a qualquer show de rock, para tocar em volumes ensurdecedores o último hit de uma dupla sertaneja qualquer ou de uma cantora cobiçada e admirada mais por suas pernas e seios do que pelas qualidades vocais.

Nos rodeios, gastam o dinheiro dos pais para verem e serem vistos, na ostentação barata de um poder provindo daquilo que move a economia não só do Estado mas também do País: o agronegócio.

Influenciam, com seu jeito rude de quem fez alguma faculdade apenas para colocar na parede o diploma inútil (isso quando terminam a faculdade) as milhares de pessoas que lucram de forma direta ou indireta com os negócios de seus pais, tios, primos etc., porque assim como os pais, tios e demais familiares, também eles serão, passados os arroubos da juventude, os líderes políticos regionais e até mesmo, aqueles mais espertos e menos broncos, de renome estadual ou nacional.

Suas idéias políticas, no entanto, não ultrapassam os muros do conservadorismo mais comum e mesquinho, com conceitos como família, trabalho, honra etc. É claro que a família é a deles, sempre; o trabalho, o dos empregados mal pagos e mal tratados de seus canaviais e fazendas e a honra, bem, a honra é aquela do “prenda suas cabritas que meu bode está solto”.

Catalisadores desse conservadorismo, são os novos coronéis de negócios milionários que implicam exportar milhões dólares de etanol, laranja, café, carne etc. e importar carrões, ideias e preconceitos estadunidenses, para manter cativo um extenso e bem nutrido eleitorado, espalhado pelas outrora afamadas terras roxas do Estado de São Paulo.

E como dinheiro traz poder e dinheiro e poder juntos arrebatam e arrebanham, eles, os jovens (e também os velhos) donos do agronegócio paulistano mandam e desmandam no Estado, inclusive sob os auspícios de uma certa mídia que lhes abana o rabo, sedenta ela também das migalhas desse poder e dessa grana toda.

É essa elite – enlatada e conservada em agro dólares – que vota e leva todos os seus agregados a votar em gente como Geraldo Alkmim – o arrogante primaz da Opus Dei – para manter o maior Estado do País nos trilhos seguros do conservadorismo demotucano aqui profundamente arraigado.

setembro 09, 2010

ATÉ ONDE VAI A ESTUPIDEZ HUMANA

(Bosch - pássaro)


Muito difícil abordar esse assunto, sem se indignar profundamente. Porque a estupidez humana, neste mundo globalizado, parece não conhecer limites.

Vamos aos fatos: um obscuríssimo pastor americano, cuja igreja é frequentada por não mais do que duzentos fiéis, ameaça pòr fogo no Corão, como forma de protesto contra os atentados de onze de setembro. Isso não passaria de uma grande bobagem, se, primeiro, não tivesse tido repercussão internacional e, segundo, não houvessem as lideranças islâmicas feito protestos veementes e até ameaças, o que deixou o mundo inteiro à beira de um ataque de nervos.

Ora, é estúpido queimar livros. Quaisquer que sejam. Mesmo como ato simbólico ou de protesto. Também é uma estupidez dar tanto valor a um mero objeto, considerado “sagrado”, por quem quer seja.

Nada é sagrado.

Em nome do sagrado, milhões de pessoas têm morrido diariamente. Em nome do sagrado, os homens têm-se engalfinhado e se matado ao longo da longa trajetória do deísmo absurdo e inútil, em nome de deuses carniceiros que esbravejam suas ameaças em páginas de livros considerados sagrados pelas religiões estúpidas que se espalham como praga pelo mundo afora.

Absurdos são todos os deuses e todos os seus profetas. E estúpidos são todos os homens que neles crêem, principalmente, quando essa crença se transforma em razão não de viver, mas de morrer em seu nome ou em nome de seus princípios.

Por isso, um pastorzinho fanático e medíocre, líder louco e megalomaníaco de uma mais que obscura igrejola do interior dos Estados Unidos, ameaça a paz mundial (o que é uma total exagero, claro), ao fazer ameaças idiotas em nome do seu deus, porque considera que todos os que não seguem esse seu deus são demoníacos. Aliás, como todos os demais que seguem outras religiões também consideram todos os demais filhos do demônio.

Cultivam deuses e demônios como cultivam couve em suas hortas esses imbecis. E em nome de seus deuses e de seus demônios, ameaçam centenas, milhares, talvez milhões de vidas em todo o mundo.

A estupidez humana, regada a deísmo e fanatismo, não tem mesmo nenhum limite.

agosto 18, 2010

O PRAGMATISMO DAS CAMPANHAS POLÍTICAS


A campanha política está no ar. Começa, pouco a pouco, a ganhar as esquinas, as conversas, as mentes das pessoas.

Será um embate duro entre duas forças que só aparentemente se parecem: PSDB E PT.

Porque a campanha tende a nivelar a todos os candidatos por uma régua de poucos recursos: ou o que o candidato fez (seu currículo, suas realizações) ou, agora uma novidade, o que ele não fez (sua ficha limpa, ou seja, o fato de não ter problemas com a justiça).

O fato de ter ficha limpa é fundamental, claro. Mas vamos falar disso em outra ocasião. Fiquemos, por enquanto, na reflexão sobre aquilo que os analistas políticos, os entrevistadores e o próprio programa eleitoral obrigam que o candidato diga e propague e enalteça: suas realizações.

É como se o povo só soubesse votar por este diapasão: o que ele fez para mim ou para minha comunidade? Ou seja, cai-se sempre no voto pragmático, no voto simplista, no voto da vantagem pessoal ou social.

Depois, vêm a público os mesmos analistas políticos para dizer que os partidos no Brasil não têm ideologia, não se distinguem uns dos outros. E que todos os políticos prometem sempre as mesmas coisas.

Ora, se eles são obrigados a repetir como mantras malditos o que vão fazer, o que vão realizar, caso contrário a mídia vai deixar bem claro que fulano não tem experiência ou que sicrano nunca exerceu cargos públicos em detrimento daqueles que, às vezes às custas de muita maracutaia, realizaram obras e mais obras inúteis quase sempre, eleitoreiras sempre.

Bem, esse paradigma idiota do “rouba, mas faz” parece permear definitivamente a campanha política. E estão aí vários políticos absolutamente podres a confirmar minhas palavras.

No entanto, há uma parcela da população (dentre a qual eu me incluo) que que está se lixando para os “fazedores” de obras, e sim muito mais preocupados com a ideologia dos candidatos.

Sim, caro amigo ou amiga que me lê: a ideologia.

Há coisas que todos têm de fazer: administrar e melhorar as condições de vida dos cidadãos. Há, no entanto, “n” maneiras de se fazer isso. E aí é que entra a tal da ideologia.

Um exemplo bem simples, até mesmo fora do escopo da atual campanha, para que, pelo menos neste artigo, não revelemos preferência por tal ou qual partido: dois candidatos podem prometer tirar os mendigos da rua. O eleito da ideologia “x” cumprirá sua promessa expulsando todos os mendigos da cidade, exportando-os para outros lugares, impedindo que permaneçam nas ruas, intimidando-os com a arcaica lei da vagabundagem etc. O eleito da ideologia “y” cumprirá sua promessa construindo albergues, ou dando aos mendigos algum tipo de trabalho comunitário, como coleta de lixo ou jardinagem nas áreas públicas, procurando saber os motivos de sua vida na rua e tentando dar-lhes algum apoio para mudar, enfim, através de alguma ação social.

Ambos cumpriram sua promessa ao final de algum tempo. O custo social, no entanto, é obviamente muito diverso.

É isso o que eu chamo de ideologia.

E essa ideologia é que deve pautar o meu voto e o voto de muita gente. Não o utilitarismo de quem fez mais estrada ou mais viaduto. Porque obra é fácil fazer. O difícil é fazer a obra certa, no lugar certo, da forma certa, para beneficiar as pessoas certas e não apenas aos empresários ou construtores.

Por isso, eu disse no começo: será um embate duro entre duas forças parecidas. Porque, na verdade, PT e PSDB são forças absolutamente opostas na ideologia, no modo como as coisas vão ser feitas ou continuarão a ser feitas.

E caberá a nós, eleitores, escolher o que queremos para o nosso País. Com base na ideologia, não no pragmatismo.