junho 08, 2009

AINDA O TRÁFICO, AINDA AS DROGAS, AINDA A HIPOCRISIA...




Consumo de drogas e tráfico. Problema cascudo. Que a sociedade não enfrenta do modo como devia: sem moralismos. Porque, ou discutimos isso como pessoas civilizadas ou estamos pondo em risco o próprio conceito de civilização.

Como jogar lenha nessa fogueira? Bem, o primeiro passo é deixarmos de ser hipócritas e reconhecermos que há, sim, quase total culpa pelo tráfico de uma certa classe média e média alta que consome toda e qualquer droga que se lhe apresentam como salvadora de suas neuroses. Não adianta combater o tráfico, se a sociedade não se conscientizar de que uma coisa não funciona sem a outra: o consumo é causa e o tráfico, efeito. Mas isso é apenas um lado do complexo prisma que envolve a discussão sobre drogas.

Primeiro, vou deixar clara minha opinião sobre o tema drogas: nunca consumi, não consumo e não consumirei jamais qualquer droga alucinógena, porque acredito que o ser humano não precisa disso. Não há provas de que cocaína ou maconha ou seja lá o que for aumentem em um átimo sequer a capacidade de entender a realidade ou de tornar alguém mais capaz do que é naquilo que faz. Nenhum artista (ou cientista ou quem quer que seja), e isto é mais do que provado, realizou qualquer obra-prima quando estava drogado, se não tivesse capacidade de criá-la sem o seu uso. Ou seja: a droga não aumenta a capacidade nem criativa nem intelectual de ninguém. Mas estão provadas cientificamente a dependência química e a deterioração física e mental dos usurários de drogas. Além dos problemas familiares, sociais, financeiros.

Dito isto, vamos a um argumento a favor da droga: a liberdade que tem o indivíduo de dispor de si como lhe aprouver. É um direito inalienável esse ou pode ser discutido? Pode, ou deve, o direito individual prevalecer sobre o social a despeito de quaisquer outras implicações? Acho que é esse um dos cernes da questão. Porque, na verdade, estaremos discutindo isto: que tipo de sociedade nós queremos?

Vamos, em tese, concordar com o argumento do direito individual. Que vantagens e desvantagens haveria na descriminalização das drogas? Com certeza, há muitas vantagens: eliminaríamos, em primeiro lugar, o tráfico, já que a droga seria comercializada de forma controlada, embora livre, com o pagamento de impostos e demais regulações legais. Só o fim do tráfico já seria um argumento poderoso a favor da legalização. Mas ainda há outros: o controle (pelo estado e, consequentemente, pela sociedade) impediria que menores usassem drogas e isso também pode ser um ponto altamente positivo. E mais: os drogados teriam assistência no uso, evitando-se as mortes por overdose; teriam locais certos de consumo, assistência médica e psicológica; tratamentos para desintoxicação quando resolvessem deixar o vício etc. etc. Há experiências dessa legalização em países europeus que comprovam que não há aumento significativo no uso de drogas, no início da liberalização, ocorrendo, inclusive, uma certa diminuição do número de usuários após algum tempo. Não sei se é verdade, mas parece lógico que isso ocorra. Portanto, teríamos uma sociedade mais justa, mais respeitosa dos direitos individuais, convivendo de forma pacífica com as diferenças. E isso parece bom. Há outras implicações? É lógico que sim, e esse pequeno artigo não pretende nem ir a fundo na questão nem levantar todos os problemas relacionados a tal decisão. Apenas dizer que, se pretendemos examinar sem moralismos o uso de drogas pela sociedade, devemos fazê-lo de forma desapaixonada e criteriosa, tendo sempre em mente a pergunta fundamental: que tipo de sociedade queremos?

E a descriminalização pode ser um caminho, porque o atual modelo repressivo tem-se revelado impotente para resolver o problema. Mas ela não é e não pode ser encarada como um modelo definitivo, tampouco como solução de todos os problemas, porque, a despeito da carga democrática e de aparente respeito humano que traz, ainda há questões mais profundas a serem discutidas, talvez mais adiante, talvez agora. Por exemplo: por que o homem precisa de drogas? Será que a necessidade de alienação está, de alguma forma, embutida na nossa herança genética ou terá sido criada em função das pressões do meio? Terá a ciência, algum dia, capacidade de anular os efeitos das drogas e libertar, para sempre, o homem desse tipo de dependência? Podemos entregar às drogas alguns indivíduos em nome da teórica salvação dos demais? Será que não estamos usando os drogados como bois de piranha de nossa própria incompetência como seres humanos? Vale a pena desperdiçar alguns cérebros para salvar outros? Não criaríamos uma nova casta de humanos, o que levaria à segregação e ao preconceito, futuramente? Não é perigoso demarcar, como gado, alguns indivíduos porque são diferentes e necessitam, para viver, de drogas e alucinógenos? Enfim, não será o melhor dos mundos um mundo em que se liberem as drogas, mas pode ser o início de uma discussão que leve à solução do problema. Ou vamos continuar sendo hipócritas na defesa do combate violento aos traficantes, esquecendo-nos de que eles são alimentados pelas mesmas pessoas, ou seus familiares, ou seus amigos, ou seus conhecidos, que vociferam nos meios de comunicação contra a violência do tráfico? Há aspectos emblemáticos nessa luta contra o tráfico: que outro empreendimento humano não se abalaria com prejuízos de milhões de dólares, ao serem apreendidas toneladas de drogas em todo o mundo, e continuaria suas atividades, como se nada tivesse acontecido? Não parece uma luta sem fim, sem qualquer perspectiva de vitória?

Acredito, e faço disso minha crença inabalável, que as drogas são perniciosas, sim, incluindo entre elas o álcool e o fumo, e que seu uso e abuso têm trazido mais, muito mais problemas que benefícios; e mais: acredito que o homem não precisa delas para se tornar melhor, ou pior, pois são apenas instrumentos de fuga da realidade, sinal, muitas vezes, de covardia diante do ato de viver, que é, sim, complexo e difícil, mas deve ser encarado como a experiência única e vital do ser humano. Também não estou me debandando assim facilmente para as fileiras dos que defendem de forma demagógica e irresponsável o uso indiscriminado de drogas e sua descriminalização. Não me iludo e nem devem se iludir as pessoas menos desavisadas com slogans e mecanismos de pressão de minorias. Mas, a discussão séria do problema e, até mesmo, a possibilidade de concordar com a liberalização do uso das drogas devem fazer parte da pauta de qualquer sociedade democrática e preocupada realmente com a relação entre seus membros e seus mecanismos de defesa, com seu funcionamento mais lógico e mais republicano, com seu futuro, enfim. Sem hipocrisias.



(Escrevi esse artigo em 11.4.2005 e republico-o, por continuar pensando o que pensava e porque leio no jornal a campanha da PUC/SP para impedir que seus alunos fumem maconha no campus da Universidade).


junho 05, 2009

O HOMEM E SUA CASA, A TERRA




A estupidez nos leva a julgar-nos únicos, na escala da vida. A estupidez nos leva a pensar que somos filhos de deuses. A estupidez nos leva a imaginar que podemos sobreviver.

Não. Não somos a escala final da evolução biológica, nem filhos de um deus maluco que nos pôs aqui para gozar as delícias do paraíso perdido, depois do pecado.

Somos parte de um mundo em equilíbrio. Dele dependemos. E ele, esse planeta sereno em comparação com milhares ou milhões que podem existir no Universo, não depende de nós.

Somos o vírus da Terra, como quase tudo o que aqui existe.

Espécies mais fortes e gigantes, como os dinossauros, surgiram e desapareceram.

E assim com tantas outras espécies, que surgiram e desapareceram.

E a Terra continuou seu giro no espaço. Serena.

Serena, sim, mesmo com todos os terremotos, maremotos, tempestades e mudanças climáticas. Que são eventos mínimos, em comparação com eventos muito mais terríveis de inúmeros outros planetas no Universo.

Somos, os seres humanos, apenas mais uma espécie sobre esse planeta sereno. E temos, como, talvez, único diferencial de outras espécies, a possibilidade da escolha entre sobreviver ou morrer.

Se a espécie humana desaparecer de sobre a Terra, ela continuará serena a girar em torno de seu Sol, por muitos bilhões de anos ainda.

Mas temos a escolha: basta que cuidemos desse planeta sereno. Que não o maltratemos ao ponto de deixarmos com ele a escolha entre a nossa sobrevivência e a dele.

Porque ele, o planeta sereno, já escolheu, e sua escolha não nos contempla.

O equilíbrio está prestes a romper-se: é o momento de decidirmos se teremos herdeiros. Queimar o mundo em que vivemos não é matá-lo, porque ele se recupera, depois que se livrar de nós.

Então, o que você, ser humano, decide? Salvar o planeta e a si mesmo, ou deixar que ele, o planeta sereno, continue a girar em torno do sol sem a espécie humana?

maio 22, 2009

SOB O VÉU DA FÉ, DA ESPERANÇA E DA CARIDADE




As três virtudes teologais do cristianismo de fachada – fé, esperança e caridade – escondem há muito a farsa do preconceito, da intimidação, da humilhação, da exclusão. As religiões, cristianismo à frente, nunca foram flor que se cheirasse. De prestidigitação sempre viveram. Do engodo, para enriquecer, nenhuma das seitas que a humanidade já teve se livra. Em nome de deuses ou de um só deus disfarçado de muitos, as religiões têm feito muito mais mal à humanidade do que a fé ingênua de muitos possa suportar.

Agora, nesses dias de aumento da própria fé através do mundo, segundo cantam os líderes religiosos, as pessoas, a opinião pública, os meios de comunicação não dão a devida ênfase a duas notícias aterrorizadoras.

Na Irlanda, o caso de abusos e humilhações de centenas, talvez milhares, de crianças e jovens obrigados por seus pais católicos a frequentar escolas, abrigos, internatos e quejandos de padres, freiras e assemelhados, por mais de trinta anos. Eu diria, desde que a igreja católica é a igreja católica. O mal está no nascedouro. O ímpeto inquisitorial permanece no ímpeto evangelizador que torturou e matou milhões de seres humanos através da história. A evolução da sociedade, agora mais atenta a esse tipo de abuso, amenizou a maldade dessa gente, mas não a eliminou. Às vezes, transformou-a em exclusão e preconceito, como nos cultos neo-evangélicos, com suas demonstrações de amor, não ao ser humano, mas ao dinheiro, apenas ao dinheiro, e ao poder que ele traz. O reino de deus sempre esteve neste mundo, nunca em valores espirituais, tão decantados por esse triste cristianismo que domina as nossas vidas.

A segunda notícia também tem um fundo religioso de grande preocupação para a humanidade. Agora, do lado de lá, do oriente dominado por um islamismo antiquado e escravizador. Terroristas muçulmanos presos nos Estados Unidos pretendiam praticar uma série de atos contra os seus eternos inimigos judeus e contra os cidadãos estadunidenses, numa chamada guerra santa. Como se uma guerra, por qualquer motivo, pudesse ser santificada em nome de um deus que só deseja sangue, destruição. Um profeta louco a condenar indiscriminadamente qualquer pessoa que contrarie, por mínimo que seja, os seus princípios absurdos. Não podemos ter condescendência com esse tipo de pensamento deísta. A barbárie está na raiz desse tipo de seita, ou religião, ou chamem do que quiserem, mas nenhum deus, nenhum profeta, nenhum líder que pretensamente se diga representante de divindades que têm sede de sangue pode nos dizer o que fazer.

Não, não se pode ter contemplação ou qualquer tipo de condescendência para com superstições antigas que teimam em escravizar a mente do homem, baseadas em metafísicas inventadas apenas para confundir, para mentir, para manter o homem na ignorância e, assim, melhor torná-lo dócil ao domínio de seres inescrupulosos que se escondem sob mantos púrpuras ou de qualquer outra cor, com o nome de líder de seita ou religião.

Há um caminho longo, extremamente longo, à frente do homem, antes que ele se livre desse pesadelo que se chama deísmo. Porque são crenças arraigadas como ervas daninhas no pensamento universal. No entanto, os poucos que começam a ver o absurdo da trilha até agora seguida pelo homem não podem esmorecer. Um fósforo na imensa escuridão, por menor que seja. representa sempre uma esperança de dias melhores, quando se conseguirá, enfim, libertar a mente humana para coisas mais úteis que não sejam aquele desperdiçado no culto a deuses assassinos.

maio 19, 2009

A FARSA DA CPI DA PETROBRÁS




A cambada tucana ataca novamente.

Desde o desgoverno Collor, a direita brasileira quer porque quer privatizar a Petrobrás. Itamar Franco interrompeu o processo iniciado pelo falso caçador de marajás, mas Fernando Henrique Cardoso deu-lhe sequência. Só não obteve o seu intento, porque liminares na Justiça interromperam o processo.

Quem quiser que consulte os jornais, as revistas, a mídia, enfim, que, com aquela revistinha semanal safada, fizeram e têm feito campanhas mil para desmoralizar a empresa, a fim de que o capital internacional, há muito de olho em nossas riquezas, tenha pretexto para passarem a mão em nossa maior empresa.

Com as mais recentes descobertas do pré-sal, o olho grande aumentou de tamanho, tornado a Petrobrás uma das mais cobiçadas empresas do mundo, para a turma do quanto mais dinheiro melhor.

Com um governo nacionalista no poder, as coisas se tornam mais difíceis para essa cambada. Então, o que fazer?

Certos de que podem retomar o poder em 2010, já começaram a produzir factóides que comprometam a empresa diante da opinião pública, a fim de amenizar quaisquer campanhas futuras contra a privatização. E a melhor maneira de conseguirem isso é através de vendidos e canalhas como os senadores tucanos que armaram essa CPI que nem os “demos”, sabidamente os maiores entreguistas desse País, queriam que fosse formada.

A tucanalha se supera a cada dia que passa, em seu ímpeto entreguista e contra os interesses da Nação.

A finalidade implícita da CPI, a agenda oculta dessa cambada, consiste na retomada do jogo sujo de desmoralização de uma das maiores empresas do mundo, para entregá-la ao capital estrangeiro, de boca arreganhada para abocanhar mais uma fatia de nossa riqueza.

A mídia, mais uma vez, se presta ao serviço de agente a serviço das forças mais reacionárias e mais entreguistas desse País, corroborando o espetáculo que se arma diante do povo, para colocar na lama não a administração da Petrobrás (que essa pode ser substituída a qualquer momento), mas a própria empresa. E, assim, tornar viável o plano da tucanalha de vendê-la aos interesses estrangeiros.

Se o povo não tomar consciência disso (e será difícil que tal aconteça, diante do imenso lobby de tucanos, demos e mídia), podemos ter a certeza de que a CPI da Petrobrás vai-se transformar num dos maiores circos do mundo, para nos fazer de palhaços, como sempre nos fizeram esses políticos hipócritas e vendidos do PSDB e desse outro partidinho sem vergonha que os apoia sempre.

TIREM AS GARRAS DE CIMA DA PETROBRÁS – deve ser a nova campanha pelo nosso petróleo, pela conservação de nossas riquezas!

maio 14, 2009

ESSA NOSSA IMPRENSA PAULISTANA!...



No meu blog VÁ LAMBER SABÃO, fiz ironia com o “presidente eleito” e governador de São Paulo, o senhor José Serra, por ter falado umas bobagens sobre ser a gripe suína (ou nova gripe, como quer a Globo) ser proveniente dos “porquinhos” e que, então, o que se tem que fazer para preveni-la é “ficar longe dos porquinhos”, achando que isso teria alguma (não muita, por motivos mais do que óbvios!) repercussão na imprensa. Mas, nada, nem uma linha (nem o CQC se interessou pelo vídeo, que é muito engraçado – é só procurar no Youtube).

Continua blindado o nosso ilustre governador, tão protegido pela digna e isenta mídia paulistana, que até notícia boa aparece pouco nos meios de comunicação. Nem quando ele, o Serra, lança algum programa ou projeto ou grande obra, a repercussão é proporcional ao feito. Parece que a mídia tem medo de falar dele, para não “queimar” a careca do ilustre governador, com alguma inconsistência ou algum furo que possa ser encontrado em suas realizações. Então, só se fala o mais essencial possível, só quando se pode tirar algum proveito para alfinetar a Dilma ou o Governo Federal.

Então, hoje, surpresa!

Encontro no Estadão esta nota:

IMPRESSÃO

“Pode comer carne suína à vontade. Vou virar freguês desse filé”

José Serra, governador de São Paulo, defendendo a carne de porco em almoço com produtores do alimento. O objetivo era desfazer o mal estar criado após sua declaração sobre como o porco transmite a gripe suína para humanos virar hit na internet.


Contaram as linhas? Seis! Seis linhas!

E mais: esta nota aparece no canto direito, embaixo, da página A18 do jornal, em corpo tão minúsculo, que quase só se pode ler com lupa!

Ou seja, ninguém pode negar à imprensa (no caso, ao Estadão) que não repercutiu as palavras idiotas de um ex-ministro da saúde, sobre a tal gripe suína.

Porém, se o Lula diz que a gripe não é tão perigosa, como apregoou a OMS (e isso é a mais pura verdade, mesmo que todo mundo fique alerta, para que ela não se espalhe), vira manchete como uma gafe do Presidente.

É o que temos!

maio 13, 2009

SÃO PAULO NÃO PRECISA DE ENGENHEIROS... NEM DE MILITARES!




O caos urbano de São Paulo é resultado de décadas de administrações equivocadas ou, simplesmente, incompetentes ou corruptas.

Dentre os equívocos, está a eleição ou escolha biônica (nos tempos da ditadura) de muitos engenheiros que governaram essa cidade. Nada tenho contra engenheiros. Precisamos deles. E são competentes naquilo a que se prestam: fazer os cálculos necessários para que as obras que se constroem saiam dentro de parâmetros corretos. E não caiam. Alguns até são bons administradores. Mas isso é exceção. Engenheiro não deve administrar cidades. Porque a cabeça deles é voltada para a construção, para obras. Não para uma visão integrada de homem, meio ambiente e obras.

Prestes Maia, engenheiro, é cantado em prosa e verso em São Paulo, por haver realizado muitas obras que modernizaram a cidade. Deixou um plano de grandes intervenções que foi seguido por muitos outros prefeitos, principalmente por Faria Lima, um brigadeiro com vocação de construtor. Faria Lima, praticamente, reinventou a cidade, mas cometeu um equívoco fundamental, cujo preço pagamos e pagaremos por muito tempo: não respeitou a geografia da cidade, não respeitou seus rios.

Suas intervenções podem ser hoje amadas e odiadas, porque, por um lado desafogaram a cidade, por outro contribuíram para a mentalidade de que os rios, os riachos, os córregos que existiam (e existem ainda) na cidade são um mal que precisa ser erradicado. Então, canalização se tornou obrigação: se um riacho provoca enchente, canalize-o, e transforme seu leito numa rua, numa avenida. E tome asfalto!

A cidade perdeu em beleza. A cidade perdeu em qualidade de vida. A cidade perdeu as várzeas que absorviam as águas no tempo das chuvas. E tornou-se o inferno de hoje: as ruas e avenidas não comportam o volume de tráfego e as águas que trariam vida e qualidade de vida se transformaram em motivos de grandes enchentes, por qualquer chuva mais forte, não respeitando os limites impostos pela canalização absurda.

Além disso, os poucos veios d’água que correm à superfície, até mesmo os grandes rios, como o Tietê e o Pinheiros, estão de tal forma poluídos que parecem esgoto a céu aberto, porque a população não aprendeu a respeitá-los e joga em suas águas toda a porcaria que produz, incentivada pela indiferença dos administradores que permitiram e ainda permitem que empresas e fábricas também joguem seus dejetos nas mesmas águas, em ligações clandestinas de esgoto e rejeitos industriais.

São Paulo é terra de ninguém, não há dúvida. A maioria da população não tem conceito de cidadania, porque não aprendeu a respeitar a cidade em que vive. E não estou falando apenas das populações mais pobres que vivem dependuradas nas margens dos rios. Estou falando principalmente dos grandes empreendedores que não souberam respeitar as várzeas e as margens de rios e represas, grileiros que, sob o olhar complacente e corrupto de muitos administradores, enganaram a população ao levá-la a ocupar desordenadamente imensas glebas de terras públicas ou, de forma ainda mais criminosa, a povoar áreas de proteção ambiental, comprometendo o próprio futuro da cidade.

Então, São Paulo precisa de cidadania. E de administradores que tenham sensibilidade para dar um basta no crescimento da metrópole, de dar um basta na construção desordenada de obras e mais obras que só enriquecem as construtoras. Não quero mais engenheiros, como o senhor Gilberto Kassab, que só pensam em mais obras e mais obras, como se o cimento fosse a única saída para o caos urbano que já se instalou.

E, principalmente, não quero dezenas de militares a dar ordens em todas as esferas do poder público, como parece ser a preferência do atual engenheiro cabeça gorda que nos governa. Militares parecem bons no início, quando suas ordens e sua postura de linha dura parecem levar a todos a um primeiro susto e a obedecer-lhes. Mas, logo se tornam arrogantes e, principalmente, não têm competência para entender e resolver os problemas humanos, esses sim, os que importam, numa metrópole problemática como São Paulo.

Haja vista o que se transformou os governos militares que mandaram e desmandaram nesse País por tantos anos. Quando os que os apoiaram perceberam, já era tarde: estava todo mundo levando porrada a torto e a direito. Com milico é assim: não há meio termo. E esses mais de quarenta (até hoje, quando escrevo essas linhas) militares que foram chamados pelo Kassab para impor respeito à administração pública desprestigiada e corrompida logo estarão fazendo os cidadãos dessa cidade a andar marchando e a cumprir algumas horas de ordem unida. Ou seja, não pode isso dar certo.

Assim, quero uma cidade mais humana, com os seus rios de volta. Uma cidade habitável, menos poluída, com menos gente (um plano de médio e longo prazo para esvaziar a cidade é necessário e factível: São Paulo precisa parar de crescer e, depois, começar a diminuir!). E isso não será conseguido com administradores com cabeça de engenheiro que tenta militarizar uma cidade que precisa de educação, de escolas, de cidadania, de melhores condições de vida, e não apenas de mais e mais obras.

E chega de obras contra enchentes. Que isso, para mim, é puro contrassenso!

maio 11, 2009

O "MENSALÃO", SEUS MISTÉRIOS E INJUNÇÕES



A prosa de hoje talvez seja um pouco longa, mas preciso por na rede o que penso sobre um assunto que tem preocupado minha mente por muitos meses: o que está por trás da denúncia do mensalão. Acho que ainda se lembram do escândalo, não? Ocupou a mídia, em manchetes escandalosas, em depoimentos absurdos na televisão, em performances circenses em CPIs transmitidas ao vivo, como um dos espetáculos mais estranhos de nossa recém-inaugurada democracia.

Que, diga-se de passagem, sobreviveu ao terremoto, ou maremoto, até que o tsunami virou marolinha, para usar um termo caro à atual mídia, para ironizar o Presidente da República.

Bem, vamos lá, que a missão é árdua. E mais uma coisinha importante: os fatos estão aí, não os reproduzo. Interpreto-os. À luz de minha lógica. Particular e idiossincrática, certo?

Para mim, há duas figuras centrais na pantomima armada: o deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson e o então ministro José Dirceu. O resto é resto, ou seja, todos os demais são figurantes mais ou menos importantes no caso, mas coadjuvantes.

Para tentar entender o imbróglio, vamos ter de analisar dois fatos: porque José Dirceu foi processado e cassado e Roberto Jefferson virou cantor e... saiu do armário.

Não acredito em teorias conspiratórias, principalmente universais, mas acredito, sim, em pequenas grandes armações paroquiais, às vezes articuladas com extrema inteligência, mas contando sempre com os acasos do momento.

Foi mais ou menos o que aconteceu com a direita golpista aliada a uma parte da mídia, não menos golpista, representada por grandes forças interessadas na volta da direita ao poder. Direita essa, hoje representada por dois grandes partidos: o PSDB e o DEM. O primeiro renegou há muito suas origens mais ou menos nobres de centro-esquerda para se aliar às forças mais conservadoras do País, para construir um ninho demotucano de grande apelo aos que detêm o capital: FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e demais associações de industriais; OAB/SP; os fazendeiros e agronecistas latifundiários; parcelas aqui e ali de outras instituições direitistas, além da mídia devidamente paga e cooptada pelas idéias neoliberais.

Então, aquilo que seria um escândalo idiota – o caixa dois – de que se valem todas as organizações partidárias desse País (que é ilegal e aética, sim!), transformou-se num açoite de proporções épicas, para demonizar o Partido dos Trabalhadores e tentar atingir o Presidente Lula, constitucionalmente eleito e em grande fase de apoio popular. Seria a vingança pelo que aconteceu com o “traidor das elites”, de triste memória, aquele das Alagoas, enfiado goela abaixo do povo pelas forças conservadoras.

Precisavam de um gatilho e de um nome de apelo, que grudasse, que caísse na boca do povo. Encontraram o gatilho no esperto e fanfarrão (e inteligente) presidente do PTB (aliado do Planalto, o que lhe conferia credibilidade), Roberto Jefferson.

Mas, porque tal elemento contribuiria para os planos da direita? Chantagem. Chantagem e promessas.

O presidente do PTB tem um segredo, o homossexualismo. E sonhos, claro. Além de um longo e belo rabo preso, sem nenhuma conotação sexual.

Então, foi fácil: ele botaria a boca no trombone, inventando, inclusive, o tal nome de apelo para a mídia – o mensalão – e teria, depois, o beneplácito da mídia para nunca demonizar a sua opção sexual, além da possibilidade de ter seus processos por corrupção amenizados por juízes corrompidos ou simpatizantes.

Armou-se, então, o circo.

Se o objetivo era atingir o Presidente, havia ainda uma preocupação secundária, mas fundamental: um homem de grande prestígio (por seu passado, por sua inteligência, por seu carisma) e de grande poder, dentro do Governo – José Dirceu, o nome certo para mais oito anos de poder do PT! Era preciso defenestrá-lo, custasse o que custasse.

Pode-se dizer o que quiser de José Dirceu, mas não que fosse corrupto ou desleal. Mas o mar de lama criado artificialmente pelas denúncias de Roberto Jefferson podia atingir o cerne do governo, ou seja, Lula. Para que isso não acontecesse, Dirceu foi para o sacrifício (graças à sua lealdade ao Partido e ao Presidente): salvavam-se, numa só cassação e desprestígio, o Governo e o Partido dos Trabalhadores.

E a direita lambeu os beiços: transformou um escândalo que teria proporções relativas numa grande crise que ameaçava até as instituições, para tirar de seu caminho um futuro candidato à Presidência, mesmo que para isso tivessem de engolir um possível segundo mandato de um Lula desprestigiado e enfraquecido.

Só não contavam que Lula – para compensar todo o desconforto da crise armada – voltasse com a corda toda para um segundo mandato e colocasse o Brasil no patamar em que se encontra hoje. E tivesse inalterado (e até aumentado) o seu prestígio tanto interno quanto no exterior.

Pobre direita (e mais pobres seremos nós, se seu candidato ganhar as próximas eleições!): ficou por um tempo zonza, sem bandeiras e, agora, precisa buscar qualquer pretexto para evitar o que seria para ela uma grande tragédia: a eleição de Dilma ou de qualquer outro candidato ligado às forças democráticas e não conservadoras.

E o “enorme” escândalo do “mensalão” está lá, nos escaninhos do Supremo Tribunal Federal, aguardando julgamento, sem, agora, mais nenhum charme, a não ser notas esparsas da mídia que insiste em chamar pelo apelido uma das práticas inventadas pela direita e apropriadas desastradamente por alguns destrambelhados do Partido dos Trabalhadores – o caixa dois no financiamento das campanhas políticas.

Por quanto tempo? Pelo passo de tartaruga do STF (para desespero dos inocentes), quem sabe? A não ser que o julgamento desse caso possa interessar às próximas eleições ou interferir em seu resultado.

Quem viver verá!

maio 05, 2009

HIGIENE, GENTE, HIGIENE, POR FAVOR!




Finalmente, a OMS – Organização Mundial da Saúde – enfatizou a noção simples de lavar as mãos várias vezes ao dia, como medida de prevenção a doenças.

Noções de higiene fazem parte da humanidade há muito pouco tempo. Somente no fim do século dezenove é que se descobriram os micro-organismos e se começou a associá-los como causa de doenças.

Manter não só as mãos, mas o ambiente em que se vive higienicamente limpo é condição fundamental para melhorar a saúde do povo. E bastam medidas simples, que não implicam gastos nem grandes esforços para isso: basta educação. E informação.

Falta de higiene não é privilégio de nenhuma classe social. Tanto ricos quanto pobres ou miseráveis podem não ter noções simples de higiene. E as bactérias não têm nenhum preconceito de classe: atacam em qualquer lugar, seja na favela ou no palacete, no boteco da esquina ou no restaurante estrelado.

Também a falta de princípios simples de higiene não ataca apenas o ignorante, se não os hospitais não estariam lutando sempre contra a famigerada infecção hospitalar, porque os médicos não tomam cuidados simples de higiene, como lavar as mãos entre o atendimento de um e outro paciente. Aliás, acho vergonhoso o comportamento de certos médicos a passear seus aventais brancos pelas ruas e bares próximos a qualquer hospital. Basta prestar atenção. E depois vão atender seus pacientes com todas as bactérias recolhidas de fuligem de carros, de contato com assentos e com outras pessoas!...

Enfim, higiene é fundamental, não só para combater a atual gripe, como em todos os momentos de nossa vida. Lavar sempre as mãos é apenas o mais elementar de todos os princípios de saúde individual e pública, pois é preciso mais, muito mais: redes de esgoto, limpeza e varredura das ruas, combate a pragas urbanas, como pombos, ratos, cães vadios, piolhos etc. E, acima de tudo, limpar nossas águas, rios, riachos, ribeirões, pois das águas que correm depende a própria sobrevivência da humanidade.

abril 26, 2009

CUIDADO! ELES AINDA ESTÃO À ESPREITA!




O neoliberalismo levou um belo chute na bunda. Mas, como todo morto vivo ou monstro de filme b de terror, respira e dá sinais de, a qualquer momento, atacar novamente.

O mais impressionante, na cara de pau desses neoliberais, é que estão tentando buscar fôlego justamente no seu inimigo número um: o Estado.

É claro que não espero que o mundo se torne socialista de repente, nem que o capitalismo e seus tropeços periódicos sejam enterrados. O que eu espero é que a política neoliberal, com todos os seus cânones de total entrega dos destinos das nações ao mercado regulador, como um deus ex-machina, com sua pregação desavergonhada de Estado mínimo, deixando na mão milhões de trabalhadores, espalhando a fome e o desespero pelo mundo, seja devidamente enterrada, com uma estaca fincada bem no meio do coração.

Mas não é bem isso o que se vê por aí. Principalmente aqui, no nosso País, em que os demotucanos parece que não assimilaram bem a lição que levaram e continuam a estrebuchar de dentro de seus túmulos pútridos, em consequência da pregação monótona de certa mídia que anda por aqui e que deveu favores à ditadura e, agora, agarra-se de unhas e dentes à pregação neoliberal dessa gente.

Alguns sinais de como essa gente age estão aí, visíveis, tanto na pregação sistemática dos corvos que grassam e grasnam nas redações de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, na internet, como em projetos e resoluções de políticos em cargos mais ou menos importantes.

Vejamos dois desses sinais.

O primeiro é a questão dos impostos. Falar da carga tributária é ibope certo para presidentes de associações que congregam tanto industriais quanto latifundiários ou agronecistas. Todos latem unanimemente contra os impostos, principalmente, claro, os federais, já que a União está nas mãos de seus opositores. Sobre impostos municipais e estaduais eles se calam ou falam apenas en passant, como se todos os males do mundo, em termos de cobrança de impostos, estivessem nas costas do Governo Federal. Claro, há prefeitos e governadores demotucanos que não querem nem ouvir falar em redução de seus impostos ou, mesmo, em reforma tributária. O medo de perder receita, nesses rincões, é enorme.

Ora, imposto, para essa gente, rima com Estado mínimo. Ou seja, querem que o Estado interfira o menos possível em seus negócios, para que seus lucros sejam os maiores possíveis. E nada de impostos. Afinal, para eles, a iniciativa privada resolve todos os problemas. E aí está o primeiro e escandaloso erro de raciocínio dessa gente: as empresas têm, sim, de dar lucros, para crescer, produzir emprego e remunerar seus acionistas, mas não têm nenhuma outra função social que não sejam, primeiro, gerar empregos e, segundo, pagar impostos para que seus lucros não sejam tão escandalosos que impeçam um mínimo de justiça social.

Bancos, indústrias, agronegócios etc. não têm nem podem ter obrigações sociais caritativas. Não têm que ter escolas, projetos sociais e outras baboseiras desse tal marketing social que serve apenas de cala boca, de esmola, para satisfazer a consciência dessa gente e tentar manter os pobres longe de seus domínios.

A verdadeira justiça social se faz através dos Governos, do Estado, com o dinheiro dos impostos de todos os cidadãos e, principalmente, dos impostos pagos pelos empresários. Os países mais desenvolvidos socialmente são aqueles que têm altas cargas tributárias. Se o governo não gasta bem, se é corrupto, se não promove a justa distribuição de renda, ao converter o dinheiro dos impostos em programas sociais, em educação e saúde, em infraestrutura etc., tem-se que repensar o Governo, em dar ao povo a oportunidade para escolher melhor seus governantes. E isso passa, principalmente, pela eliminação dos políticos como classe. Não pode existir uma “classe dirigente” ou uma “classe política”. Por isso, uma reforma política tem de ser feita para que se acabe de uma vez por todas com isso. Como? Talvez impedindo a reeleição para um mesmo cargo de todo e qualquer ocupante de qualquer posto público do Executivo e do Legislativo. E também formas de eleição para os tribunais do Judiciário, nem que sejam eleições fechadas, mas se acabe com qualquer cargo vitalício. Em vez de investirmos contra os Poderes da República, é necessário que se revitalizem tais poderes, que se busquem novas formas de aplicar a velha e boa democracia.

Mas, não é bem isso o que se vê por aí. Demonizar as instituições não é o melhor caminho. Se temos deputados, senadores, vereadores, governadores, juízes corruptos é porque ou os escolhemos mal (e sempre os mesmos, pela famigerada reeleição, viciada pelo poder econômico ou pelo poder de mídia de alguns poucos) ou não os escolhemos e eles ficam lá, com suas togas eternas, a fazer e falar bobagens, apegados ao poder, como jabuticabas ao tronco.

O segundo sinal da permanência das ideias ultrapassadas dos neoliberais aparece em pregações e projetos que buscam dar à iniciativa privada ou ao mercado as funções de que um verdadeiro Estado democrático não pode abrir mão. É a famosa privatização. É dar à raposa o direito de tomar conta do galinheiro, na esgarçada metáfora. Privatiza-se a saúde, e o que vemos são planos privados de assistência médica a enfiar a faca em seus usuários, prestando serviços e atendimento sofríveis por preços extorsivos. Privatiza-se o transporte público das cidades, esquecendo-se de que o direito de locomoção é básico, além de constitucional, e os meios de transporte não podem ser objeto de lucros exorbitantes, como acontece em quase todas as cidades.

E agora (como exemplo de suma cara de pau dessa gente), o alcaide demotucano de São Paulo faz aprovar na Câmara, pelos seus capachos, um projeto que dá direito à iniciativa privada de desapropriar um imenso território no centro da cidade, com a desculpa de recuperar uma área degenerada e corrompida pelo descaso de inúmeros prefeitos, cujo apelido, “cracolândia”, dá bem a dimensão do estado em que está. Ora, desapropriar prédios e terrenos degradados é função do Estado e não de empresas nacionais ou multinacionais que só visam ao lucro. É tirar de muitos para dar a poucos. É simplesmente vergonhoso e, acredito, inconstitucional tal idéia estapafúrdia que, se conseguir vencer, dará bem ideia de como pensam os nossos neoliberais demotucanos que pretendem tomar conta do País nas próximas eleições, se o povo não se conscientizar de tal tipo de estupidez.

Eles não emendam. Mesmo com toda a encrenca em que meteram todas as nações do mundo, provocando recessão, fome, desemprego, com suas políticas de estado mínimo, de todo o poder ao mercado. Mercado que, agora, se socorre dos governos que eles tanto combateram e exauriram com suas idéias.

Portanto, cuidado, povo, muito cuidado. Eles estão aí, à espreita, prontos para começar tudo de novo!

abril 22, 2009

A FELICIDADE



Sim, o título lembra bem a canção de Tom: “A felicidade é uma gota orvalho numa pétala de flor, brilha tranquila, depois de breve oscila e cai como uma lágrima de amor”.

Pois é, o poeta persegue a felicidade, mas tem consciência de sua brevidade. E nós, os que não somos poetas, também temos a mesma visão poética desse que é um dos objetivos mais comuns de nossa vida: a busca da felicidade?

Pra começo de conversa, não acredito na felicidade.

Não, não sou nenhum pessimista, nem uma pessoa depressiva a chorar pelos cantos, desanimado da vida, maldizendo a existência ou com tendências suicidas. Apenas não acredito no “ente” abstrato, metafísico, chamado de “felicidade”, algo como um estado permanente placidez. Eu ia dizer estado de “idiotia e estupidez”, mas contive-me a tempo, não o suficiente para, no entanto, deixar de reconhecer a tal “busca da felicidade” pelos humanos é uma das coisas mais idiotas que pode fazer qualquer pessoa.

Tentemos explicar melhor. A coisa começa, como quase tudo de nossa chamada civilização ocidental, lá na Grécia antiga. Ainda não se conhece o vírus que atacou uma grande quantidade de sábios gregos que os transformaram em filósofos. E o filósofo, como uma vez me explicou minha irmã, quando eu tinha os meus seis, sete anos, é uma pessoa que fica o dia inteiro pensando assim: “o meu boi morreu, eu vou morrer também...” Ou seja: pensando no tal sentido da vida. Como eram pessoas inteligentes, os tais filósofos gregos, de tanto pensar nisso e não chegar a conclusão nenhuma, inventaram a metafísica. Tudo que não se explica, no mundo físico, palpável, pertence ao inefável, ao transcendente, à metafísica.

Assim, criaram entes que seriam os modelos ideais de cada coisa concreta. Por exemplo, teria de haver, para explicar a existência das pedras, uma pedra primeira, transcendente, que guardaria em si todas as características das pedras reais. Talvez uma espécie de modelo, de pedra ideal.

Com isso, estavam criados os entes metafísicos, abstratos, transcendentais, absolutos, que conteriam todos os nossos sonhos e objetivos, ou explicariam o tal “sentido da vida”. E muitos chegaram à conclusão de que o homem está na terra para ser feliz, numa espécie de missão impossível.

Desde essa época, a humanidade, ou parte dela, segue nessa busca, como se a felicidade fosse um estado permanente de doçura, de esplendor, de placidez, onde nada mais importa, tudo se resolve e ali não há mais nada, nem mesmo vida, acrescento eu.

Ora, a vida, quem se importa com a vida? Se o mais importante é ser feliz?

Para mim, esse tipo de pensamento, entranhado no inconsciente de bilhões de pessoas, ao longo de dois, três mil anos, ou mais, tem entorpecido a nossa visão para as coisas simples da vida, como a “gota de orvalho numa pétala de flor”. Porque a vida é constituída de momentos, momentos bons e gostosos, momentos tristes e terríveis. Ia repetir Shakespeare, com o seu som e fúria, mas isso já está muito manjado. Todo mundo conhece. Conhece mas não entende. Imagina-se que é apenas retórica do bardo (que sabia de muitas coisas). Não, a tal felicidade não existe, como não existe a “pedra de todas as pedras”, a pedra ideal.

Não percamos tempo na sua busca, porque, enquanto a buscamos, deixamos, muitas vezes, de viver os momentos que a vida nos proporciona. Não estamos aqui para buscar o que não existe, mas estamos no mundo para a coisa mais prosaica que a natureza pôs ao nosso alcance: para viver, apenas, e nada mais.

abril 21, 2009

TEXTOS SÃO NAVIOS




Nós somos cais, trapiches, embarcadouros. Os textos – contos, livros, poemas, falas, dicionários... – são navios. Partem dos cais em busca de outras terras, de outros trapiches, de outros cais. Sempre.

Depois de partirem, não temos mais como controlá-los. Navegam em mares calmos ou revoltos, enfrentam procelas, às vezes naufragam e voltam às ondas, mas seguem impolutos em busca de seus destinos.

Mesmo quando esse destino se faz de ilhas misteriosas, envoltas em brumas, nossos navios não desistem: arrebentam-se nos abrolhos e não batem nunca em retirada.

Transportam esses navios nunca fantasmas, sempre o nosso mais íntimo intuito de oferecer aos outros aquilo que nos arrebenta por dentro, quando não conseguimos enfurná-los em cascos e velas.

Mortais e estúpidos, não percebemos que esses navios não se perdem nunca. Ficam por aí, a assombrar, mesmo que não encontrem algum cais que os receba, porque são fruto de nossa mais lídima luta por marcar nossa existência. Mesmo que o vento os leve a regiões ignotas, só fato de terem zarpado já faz deles, dos navios que saem de nossos cais, um marco, um ponto que seja no horizonte azul.


Povoam nossos sonhos todos os atos de comunicação. Alcançamo-los quando menos esperamos, ao lançar nossas redes, através de sinais que nossas sinapses cerebrais captam, sem nos darmos conta. Assim, de repente, mesmo quando dormimos, sonhamos e repovoamos os mares, fazemo-los cúmplices de nosso destino de buscar sempre o outro.

Sim, são navios os nossos textos. Atiremo-los aos mares e aguardemos, com a íntima certeza (senão não lhes confiaríamos nossos segredos) de que há neles marinheiros prontos a lutar por não deixar que sigam vazios à procura de seus portos, de suas ilhas, de seus cais ou de seus continentes.

abril 16, 2009

POR QUE SÃO SEMPRE OS MESMOS?




Já está ficando cansativa esta história, mas vamos lá: por que não se renovam nossas casas legislativas (Congresso, Assembleias e Câmaras)?

Porque o povo vota sempre nos mesmos candidatos.

Não, isso é simplismo. É reduzir um problema complexo a um só culpado, o povo.

Precisaríamos, talvez, para uma resposta razoável, pesquisar a história, a sociologia e artes de comunicação, além de filosofia e sei lá quantas outras disciplinas ou ciências.

Não é nosso objetivo, nesse breve artigo, nem nos estender muito nem elucubrar grandes teorias. Nem por isso, vamos ficar no simplismo de culpar apenas uma das pontas da causa.

Mas vou levantar, além das hipóteses históricas (clientelismo, reeleição, partidos políticos sem representatividade, conservadorismo etc.) a hipótese da manipulação do povo pelos meios de comunicação. Não é, de forma alguma, o único motivo de votarmos sempre nos mesmos, mas é apenas um desses motivos. E um bom motivo, sem dúvida.

Pode-se manipular a vontade do povo?

A resposta é: sim, pode-se e não apenas se pode como se manipula o tempo todo a vontade do povo através dos meios de comunicação (e nem vou falar dos nazistas...).

A grande imprensa teve seu boom no século XIX: basta ler Balzac (principalmente As Ilusões Perdidas) que odiava jornais e jornalistas, porque os considerava manipuladores e sem escrúpulos.

A grande imprensa (jornais e revistas) ganhou a companhia de outros meios (rádio, televisão, internet...) e ganhou ares solenes, com tentativas de código de ética e outras formas de passar a imagem de isenção. Tudo bobagem: não há mídia isenta.

A melhor resposta que conheço para a pergunta: por que nos comunicamos? – é, sem dúvida, esta: comunicamo-nos porque queremos influenciar o outro. Todo processo de comunicação humana está centrado neste aparente egoísmo: eu falo (ou escrevo...) porque quero influenciar alguém.

Assim, a mídia moderna existe para influenciar a nós, seus consumidores. A grande sacada moderna é haver dezenas, centenas, talvez milhares de comunicadores, com visões diversas da realidade, a tentar influenciar-nos com suas idéias (como estou eu fazendo agora a uns poucos que me leem).

No entanto, pulverizados em centenas e milhares, os comunicadores na verdade nada comunicam e nada influenciam. Só o fazem quando concentrados em grandes meios (redes de televisão, de rádio ou de jornais e revistas). E esses estão todos tentando passar a visão de seus fundadores que, por sua vez, dependem de seus grandes anunciantes.

Quem são os grandes anunciantes que, no frigir dos ovos, mandam na grande mídia? Bem, esses todo mundo sabe quem são: estão aí nas grandes Federações de indústria, de comércio, de bancos...

E pensam todos do mesmo modo (embora até divirjam nos detalhes): manter o status quo, para que seus lucros não sofram abalos. Ou seja, são... conservadores (mesmo que tenham visões espetaculares de modernidade, de futuro etc.). Só confiam em pessoas que comunguem seus interesses.

Vai daí que os empresários dos meios de comunicação (que também são conservadores, senão não seriam empresários) são financiados, custeados, mantidos pelos conservadores banqueiros, donos de indústrias, grandes comerciantes, fazendeiros, importadores, exportadores, donos de agronegócios (novo nome para os velhos latifundiários) etc... E todos sabemos qual é a verdadeira ideologia dessa gente.

E o que tem a ver a ideologia dos empresários (tanto donos dos grandes conglomerados de comunicação quanto seus fiadores) com a eleição dos mesmos políticos sempre?

De uma forma declarada ou sutil, os políticos são eleitos com a grana dessa gente, com o apoio dessa gente. Eles é que são os grandes eleitores, não o povo, que elege, sim, seus representantes, mas em muito menor número do que os representantes dos empresários, da gente que tem grana e que realmente manda no País.

Por isso e por muitos outros motivos, mas principalmente por isso, votamos (levados pela vontade dos senhores, sutil ou declaradamente apoiados pela mídia conservadora) sempre nos mesmos. Porque são confiáveis para quem os patrocina e financia.

Abram-se parênteses: você já pensou como ganha fácil uma eleição gente que trabalha na televisão? Vide o falecido Clodovil: teve a maior votação para deputado em São Paulo. Por que será? E olhe: nem estou julgando o valor de a ou b ou c... eu, hem? Fechem-se os parênteses. Ponto.

Assim, acabar com a reeleição?

Nem que a vaca tussa, voe e faça outras peripécias. Temos que engolir os mesmos, sempre os mesmos, ainda que alguns de nós votemos (e às vezes elegemos) alguns outros, até com boas intenções, mas que, para sobreviver, acabam quase sempre aderindo ao clube e tornando-se também eles os mesmos, sempre os mesmos... Sempre!

abril 14, 2009

A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS



A tal semana santa já passou. A igreja já pregou mais uma vez o seu deus na cruz e já o ressuscitou. Mas, por aqui, os mortos continuam renascendo. Continuam pulando de seus túmulos para nos azucrinar a vida. Agora mesmo, o Serra, o impoluto Governador de São Paulo, acaba de trazer de novo à vida o falecido ex-ministro da Educação de FHC, o senhor Paulo Renato. E segundo os noticiários, respira sem aparelhos e tem a língua solta, para falar as bobagens de sempre.

Mas, não é só na política que os mortos-vivos (por que o povo vota sempre neles é a pergunta que não quer calar) pulam de seus túmulos, em qualquer época, para ações as mais descabidas (aparentemente), mas, na verdade, contribuindo para ações sutis e muito bem orquestradas de gente que quer ressuscitar fantasmas muito mais poderosos.

Vamos tentar entender esse imbróglio.

Defensora dos tucanos e grande eleitora de Serra, a Folha de São Paulo, há tempos, tentou vender a idéia de que a ditadura brasileira, comandada por meia dúzia de gorilas que tomaram o poder no golpe de 1964, não foi tão terrível quanto outras do continente. Até meio pelo contrário (se se pode dizer assim), foi bastante complacente e generosa, podendo se chamada de “ditabranda” (um neologismo pavoroso, não só pela semântica).

Ou seja, copiando aquele comercial que diz que nossos japoneses são melhores do que os de outros países, nossos gentis militares foram melhores do que os vilelas ou do que os pinochês de nuestros hermanos. Mataram menos gente, sim. Torturaram menos gente, sim. Se bem compararmos com a violência ali pela Cordilheira ou ali pelo Plata. Como se isso fosse um mero concurso de “vamos ver que arranca mais orelhas” e nós fôssemos os distintos perdedores. Como se tortura e morte em porões, por motivos políticos, se contabilizassem apenas pela quantidade de mortos, feridos, desaparecidos e torturados.

Agora, o Estadão ameaça também entrar no coro dos que desejam a ressurreição dos mortos mais fantasmagóricos de nossa História, ao dar voz a uma senhora que serviu (e muito bem) aos governos militares, para vir a público e declarar que “hoje em dia, pela força de versões sempre repetidas, a atual geração aceita que o 31 de Março foi um golpe militar. Não foi. O verdadeiro golpe foi tramado por Brizola e deu errado. As Forças Armadas cumpriram o dever constitucional de manter os Poderes funcionando: Judiciário, Congresso e Executivo.”

Que é isso, cara pálida?

As Forças Armadas mantiveram os três poderes funcionando, sim. Lembram como? O Executivo com a borduna, a prender, matar, exilar, torturar a torto e a direito. O Congresso, amordaçado pelos puxa sacos da Arena, ameaçado de fechamento (e depois a ameaça se cumpriu!) e de cassações. O Judiciário, obrigado a cumprir as leis draconianas dos atos institucionais, que baniram direitos como habeas corpus.

Sim, os poderes, podres poderes, funcionavam!

Então, qual é o problema se a senhora Sandra Cavalcanti levanta de seu túmulo e vem escrever uma coluna política no Estadão? É a opinião dela e não do jornal...

Ora, vejamos. Claro que o jornal se exime da responsabilidade de artigos assinados, em termos legais. Mas, eticamente, se convidou tal “personalidade” para escrever, é porque, no fundo, endossa o que ela escreveu. Ou eles não sabem a opinião de quem convidam para suas páginas de editoriais? Ou acham que é por seus grandes serviços prestados à nação, que também o falecido Fernando Henrique Cardoso frequenta suas páginas periodicamente e citado a todo instante na imprensa tucana, como na Folha e naquela revistinha de quinta, chamada Veja?

Ora, senhores e senhoras, estão orquestrando, e muito bem, um movimento típico de nossa imprensa: lançam foguetes de prospecção, verdadeiros bois de piranha, ou seja, batem e recuam, como fez a Folha de São Paulo com a tal “ditabranda”, mas recuam estrategicamente, porque o estrago já foi feito. Já plantaram a ideia, já jogaram sob as penas da galinha o ovo da serpente.

O sábado de aleluia, com a ressurreição dos mortos, e sua consequente revisão do passado, está apenas começando, neste pobre País, destinado a conviver com esse tipo de gente.

Fiquemos, pois, espertos.

abril 07, 2009

CRIME PERFEITO




Há todo um folclore em torno do crime perfeito. Aquele que é cometido por alguém que tem motivos para cometê-lo, vai-se beneficiar do crime, mas nunca será preso, por não haver provas contra ele.

Pensamos, sempre, quando se fala de crime perfeito, em produções de Hollywood ou em romances noirs, aquelas tramas complexas que só os grandes escritores e roteiristas conseguem inventar, sem se perder em suas armadilhas. Ou nos grandes vilões de histórias em quadrinhos, cujos objetivos são o de eliminar o herói e conquistar o mundo, com elucubrações tenebrosas e máquinas destruidoras.

Todos eles, entretanto, acabam atrás das grades, desmoralizados pela astúcia e pela coragem de detetives malucos e introspectivos ou pela força bruta dos super-heróis.

Então, nossa imaginação ferve, em busca de tramas mirabolantes que possam levar ao crime perfeito. Como driblar a insistência lógica de Columbo ou a astúcia de Sherlock Holmes?

Envolvidos por essa idéia de que não existe o crime perfeito, esquecemo-nos de que tudo isso é ficção. E, muitas vezes, da melhor qualidade. A desafiar nossa inteligência, a alimentar nosso cérebro de enigmas e soluções complicadas. Esquecemo-nos de que há uma realidade à nossa volta, muito mais desafiadora e muito mais tenebrosa.

O crime perfeito existe, sim. E bem sob os nossos olhos, sob os nossos narizes. E ocorre quase todos os dias. E não estou falando das chacinas, não. E não estou falando dos milhares de assassínios que as nossas polícias não conseguem resolver, porque não têm investigadores suficientes, não têm bons e suficientes laboratórios de criminalística, não têm viaturas, não têm salários...

Não são crimes perfeitos. São crimes não investigados, não resolvidos.

Estou falando de outra espécie de crime. Esse também tão grave quanto assassínios e chacinas. Estou falando de falcatruas que corroem diariamente as finanças públicas, o nosso rico dinheirinho de impostos, que suamos para pagar. Estou falando da roubalheira feita por dezenas, centenas, talvez de milhares de indivíduos inescrupulosos que assaltam todos os dias os cofres da Nação.

São crimes perfeitos, sim, porque roubam e todos sabem que eles roubam e se beneficiam do produto de sua rapinagem, com suas mansões e jatinhos executivos, com suas gastanças em paraísos turísticos, com sua vida nababesca.

E mais perfeitos ainda se tornam esses crimes porque os ladrões, conhecidos, reconhecidos, não vão para a cadeia.

E não vão porque obtêm habeas corpus do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, ou de qualquer outro togado de nossa Corte Suprema.

É ou não é um crime perfeito?

abril 03, 2009

ESSE É "O CARA"!



Não, não resisto. As manchetes de jornais reproduzem a frase. Rádios e televisões repetem a cena. O mundo comenta. Interpreta. Destaca.

Na reunião das vinte nações mais poderosas do planeta, Obama, o presidente americano, brinca com Lula e aperta-lhe afetuosamente a mão: “Esse é o cara. Eu adoro esse cara. É o político mais popular do mundo”.

Aí, fico pensando e rio comigo mesmo: enquanto isso, lá em Higienópolis, certo ex-presidente deve estar retorcendo as tripas, numa diarréia de inveja e ciúmes. Deve estar pensando: “Eu! Eu sou o cara. Não esse metalúrgico bronco e barbudo! À merda minha sociologia! À merda meus diplomas! Tudo à merda, por esse... esse...” Não conclui a frase, que sairia ofensiva ao americano, lembrando que um dia afirmou ter um pé na cozinha.

E nas demais hostes tucanas? Penas voando. Bicos batendo de indignação. Consternação geral. Os articulistas daquela revistinha semanal sem vergonha, órgão oficial da tucanada, devem estar sem dormir, sem tomar seu uísque neoliberal no bar da moda, matutando um jeito de anular o estrago do sucesso do Lula, com a denúncia de mais algum escândalo forjado em suas mesas de mogno extraído ilegalmente da Amazônia.

E os demos? Ensimesmados na sua falta de criatividade, nem para ranger os dentes eles saem da mediocridade, para tentar qualquer reação que não seja destrambelhada. Por enquanto, nenhuma notícia de suicídio se confirmou.

Ah, e aquela ex-senadora, ex-candidata à presidência, ex-esquerda radical e agora amasiada ideológica de policiais sem eira nem beira? Conseguirá escapar de uma síncope? O tempo dirá.

Enfim, enquanto a banda desafina por aqui, com gente a morder o rabo de indignação, nós, brasileiros que elegemos o Lula, que sabíamos que o metalúrgico não precisa de diploma para ser o que é, rimos à socapa, aquele riso de quem tem guardado o melhor para o fim.

abril 02, 2009

O PODER LEGISLATIVO NÃO É UM MAL NECESSÁRIO




Uma série de escândalos tem abalado a credibilidade do Congresso Nacional – Câmara dos Deputados e Senado Federal. E as críticas da mídia repercutem na população, o que faz aumentar as críticas, numa ciranda de reclamações e cobranças.

Devagar com andor, no entanto, que o santo é de barro. Não são as instituições legisladoras – Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores – que devem ser alvo de protestos.

Expliquemos. Não pode haver democracia sem um Poder Legislativo, representante mais legítimo dos anseios e vontades do povo. Em nenhuma hipótese, sob pena de defendermos governos ditatoriais, pode-se esbravejar contra esse Poder.

A mesma mídia que esbraveja contra o senador fulano de tal por atos de improbidade foi exatamente a mesma que exaltou o seu partido ou contribuiu para sua eleição. É claro que sabemos que é impossível alguém ser totalmente isento, neutro, mas não pode nenhuma mídia – jornal, rádio, televisão ou qualquer outra - fingir que é isenta e manipular seus leitores a favor de tal ou qual partido político.

A mídia e nós, eleitores, somos igualmente responsáveis por aqueles que elegemos como nossos representantes. No entanto, passada a temporada de escândalos, votamos de novo nos mesmos, sempre nos mesmos. E a mídia apoia sempre aqueles a quem deve favores, sempre os mesmos.

Por isso, o debate em torno dos escândalos e malversações de dinheiro público que nossos “nobres” representantes têm protagonizado, em todas as esferas legislativas do País, tem que ser travado em torno de uma reforma política séria, sem protecionismos a partidos de direita ou de esquerda.

Não podemos continuar tolerando reeleições indefinidas de quem quer que seja.

Não podemos continuar tolerando a existência de trinta ou mais legendas partidárias, sendo que a maioria só existe para negociatas espúrias.

Não podemos continuar tolerando que a classe política seja constituída de indivíduos que são mais iguais que todos nós: chega de mordomias e privilégios a quem quer que seja. Que ganhem bem, muito bem, nossos representantes, mas que trabalhem honestamente como qualquer outro trabalhador, com ponto de presença e desconto de faltas.

Enfim, precisamos parar de espernear e esbravejar. Aproveitemos o momento e tomemos nas mãos as rédeas de um debate sério que busque acabar de uma vez e para sempre com esse sistema que privilegia os mais espertos em detrimento dos mais capazes.