abril 16, 2009

POR QUE SÃO SEMPRE OS MESMOS?




Já está ficando cansativa esta história, mas vamos lá: por que não se renovam nossas casas legislativas (Congresso, Assembleias e Câmaras)?

Porque o povo vota sempre nos mesmos candidatos.

Não, isso é simplismo. É reduzir um problema complexo a um só culpado, o povo.

Precisaríamos, talvez, para uma resposta razoável, pesquisar a história, a sociologia e artes de comunicação, além de filosofia e sei lá quantas outras disciplinas ou ciências.

Não é nosso objetivo, nesse breve artigo, nem nos estender muito nem elucubrar grandes teorias. Nem por isso, vamos ficar no simplismo de culpar apenas uma das pontas da causa.

Mas vou levantar, além das hipóteses históricas (clientelismo, reeleição, partidos políticos sem representatividade, conservadorismo etc.) a hipótese da manipulação do povo pelos meios de comunicação. Não é, de forma alguma, o único motivo de votarmos sempre nos mesmos, mas é apenas um desses motivos. E um bom motivo, sem dúvida.

Pode-se manipular a vontade do povo?

A resposta é: sim, pode-se e não apenas se pode como se manipula o tempo todo a vontade do povo através dos meios de comunicação (e nem vou falar dos nazistas...).

A grande imprensa teve seu boom no século XIX: basta ler Balzac (principalmente As Ilusões Perdidas) que odiava jornais e jornalistas, porque os considerava manipuladores e sem escrúpulos.

A grande imprensa (jornais e revistas) ganhou a companhia de outros meios (rádio, televisão, internet...) e ganhou ares solenes, com tentativas de código de ética e outras formas de passar a imagem de isenção. Tudo bobagem: não há mídia isenta.

A melhor resposta que conheço para a pergunta: por que nos comunicamos? – é, sem dúvida, esta: comunicamo-nos porque queremos influenciar o outro. Todo processo de comunicação humana está centrado neste aparente egoísmo: eu falo (ou escrevo...) porque quero influenciar alguém.

Assim, a mídia moderna existe para influenciar a nós, seus consumidores. A grande sacada moderna é haver dezenas, centenas, talvez milhares de comunicadores, com visões diversas da realidade, a tentar influenciar-nos com suas idéias (como estou eu fazendo agora a uns poucos que me leem).

No entanto, pulverizados em centenas e milhares, os comunicadores na verdade nada comunicam e nada influenciam. Só o fazem quando concentrados em grandes meios (redes de televisão, de rádio ou de jornais e revistas). E esses estão todos tentando passar a visão de seus fundadores que, por sua vez, dependem de seus grandes anunciantes.

Quem são os grandes anunciantes que, no frigir dos ovos, mandam na grande mídia? Bem, esses todo mundo sabe quem são: estão aí nas grandes Federações de indústria, de comércio, de bancos...

E pensam todos do mesmo modo (embora até divirjam nos detalhes): manter o status quo, para que seus lucros não sofram abalos. Ou seja, são... conservadores (mesmo que tenham visões espetaculares de modernidade, de futuro etc.). Só confiam em pessoas que comunguem seus interesses.

Vai daí que os empresários dos meios de comunicação (que também são conservadores, senão não seriam empresários) são financiados, custeados, mantidos pelos conservadores banqueiros, donos de indústrias, grandes comerciantes, fazendeiros, importadores, exportadores, donos de agronegócios (novo nome para os velhos latifundiários) etc... E todos sabemos qual é a verdadeira ideologia dessa gente.

E o que tem a ver a ideologia dos empresários (tanto donos dos grandes conglomerados de comunicação quanto seus fiadores) com a eleição dos mesmos políticos sempre?

De uma forma declarada ou sutil, os políticos são eleitos com a grana dessa gente, com o apoio dessa gente. Eles é que são os grandes eleitores, não o povo, que elege, sim, seus representantes, mas em muito menor número do que os representantes dos empresários, da gente que tem grana e que realmente manda no País.

Por isso e por muitos outros motivos, mas principalmente por isso, votamos (levados pela vontade dos senhores, sutil ou declaradamente apoiados pela mídia conservadora) sempre nos mesmos. Porque são confiáveis para quem os patrocina e financia.

Abram-se parênteses: você já pensou como ganha fácil uma eleição gente que trabalha na televisão? Vide o falecido Clodovil: teve a maior votação para deputado em São Paulo. Por que será? E olhe: nem estou julgando o valor de a ou b ou c... eu, hem? Fechem-se os parênteses. Ponto.

Assim, acabar com a reeleição?

Nem que a vaca tussa, voe e faça outras peripécias. Temos que engolir os mesmos, sempre os mesmos, ainda que alguns de nós votemos (e às vezes elegemos) alguns outros, até com boas intenções, mas que, para sobreviver, acabam quase sempre aderindo ao clube e tornando-se também eles os mesmos, sempre os mesmos... Sempre!

abril 14, 2009

A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS



A tal semana santa já passou. A igreja já pregou mais uma vez o seu deus na cruz e já o ressuscitou. Mas, por aqui, os mortos continuam renascendo. Continuam pulando de seus túmulos para nos azucrinar a vida. Agora mesmo, o Serra, o impoluto Governador de São Paulo, acaba de trazer de novo à vida o falecido ex-ministro da Educação de FHC, o senhor Paulo Renato. E segundo os noticiários, respira sem aparelhos e tem a língua solta, para falar as bobagens de sempre.

Mas, não é só na política que os mortos-vivos (por que o povo vota sempre neles é a pergunta que não quer calar) pulam de seus túmulos, em qualquer época, para ações as mais descabidas (aparentemente), mas, na verdade, contribuindo para ações sutis e muito bem orquestradas de gente que quer ressuscitar fantasmas muito mais poderosos.

Vamos tentar entender esse imbróglio.

Defensora dos tucanos e grande eleitora de Serra, a Folha de São Paulo, há tempos, tentou vender a idéia de que a ditadura brasileira, comandada por meia dúzia de gorilas que tomaram o poder no golpe de 1964, não foi tão terrível quanto outras do continente. Até meio pelo contrário (se se pode dizer assim), foi bastante complacente e generosa, podendo se chamada de “ditabranda” (um neologismo pavoroso, não só pela semântica).

Ou seja, copiando aquele comercial que diz que nossos japoneses são melhores do que os de outros países, nossos gentis militares foram melhores do que os vilelas ou do que os pinochês de nuestros hermanos. Mataram menos gente, sim. Torturaram menos gente, sim. Se bem compararmos com a violência ali pela Cordilheira ou ali pelo Plata. Como se isso fosse um mero concurso de “vamos ver que arranca mais orelhas” e nós fôssemos os distintos perdedores. Como se tortura e morte em porões, por motivos políticos, se contabilizassem apenas pela quantidade de mortos, feridos, desaparecidos e torturados.

Agora, o Estadão ameaça também entrar no coro dos que desejam a ressurreição dos mortos mais fantasmagóricos de nossa História, ao dar voz a uma senhora que serviu (e muito bem) aos governos militares, para vir a público e declarar que “hoje em dia, pela força de versões sempre repetidas, a atual geração aceita que o 31 de Março foi um golpe militar. Não foi. O verdadeiro golpe foi tramado por Brizola e deu errado. As Forças Armadas cumpriram o dever constitucional de manter os Poderes funcionando: Judiciário, Congresso e Executivo.”

Que é isso, cara pálida?

As Forças Armadas mantiveram os três poderes funcionando, sim. Lembram como? O Executivo com a borduna, a prender, matar, exilar, torturar a torto e a direito. O Congresso, amordaçado pelos puxa sacos da Arena, ameaçado de fechamento (e depois a ameaça se cumpriu!) e de cassações. O Judiciário, obrigado a cumprir as leis draconianas dos atos institucionais, que baniram direitos como habeas corpus.

Sim, os poderes, podres poderes, funcionavam!

Então, qual é o problema se a senhora Sandra Cavalcanti levanta de seu túmulo e vem escrever uma coluna política no Estadão? É a opinião dela e não do jornal...

Ora, vejamos. Claro que o jornal se exime da responsabilidade de artigos assinados, em termos legais. Mas, eticamente, se convidou tal “personalidade” para escrever, é porque, no fundo, endossa o que ela escreveu. Ou eles não sabem a opinião de quem convidam para suas páginas de editoriais? Ou acham que é por seus grandes serviços prestados à nação, que também o falecido Fernando Henrique Cardoso frequenta suas páginas periodicamente e citado a todo instante na imprensa tucana, como na Folha e naquela revistinha de quinta, chamada Veja?

Ora, senhores e senhoras, estão orquestrando, e muito bem, um movimento típico de nossa imprensa: lançam foguetes de prospecção, verdadeiros bois de piranha, ou seja, batem e recuam, como fez a Folha de São Paulo com a tal “ditabranda”, mas recuam estrategicamente, porque o estrago já foi feito. Já plantaram a ideia, já jogaram sob as penas da galinha o ovo da serpente.

O sábado de aleluia, com a ressurreição dos mortos, e sua consequente revisão do passado, está apenas começando, neste pobre País, destinado a conviver com esse tipo de gente.

Fiquemos, pois, espertos.

abril 07, 2009

CRIME PERFEITO




Há todo um folclore em torno do crime perfeito. Aquele que é cometido por alguém que tem motivos para cometê-lo, vai-se beneficiar do crime, mas nunca será preso, por não haver provas contra ele.

Pensamos, sempre, quando se fala de crime perfeito, em produções de Hollywood ou em romances noirs, aquelas tramas complexas que só os grandes escritores e roteiristas conseguem inventar, sem se perder em suas armadilhas. Ou nos grandes vilões de histórias em quadrinhos, cujos objetivos são o de eliminar o herói e conquistar o mundo, com elucubrações tenebrosas e máquinas destruidoras.

Todos eles, entretanto, acabam atrás das grades, desmoralizados pela astúcia e pela coragem de detetives malucos e introspectivos ou pela força bruta dos super-heróis.

Então, nossa imaginação ferve, em busca de tramas mirabolantes que possam levar ao crime perfeito. Como driblar a insistência lógica de Columbo ou a astúcia de Sherlock Holmes?

Envolvidos por essa idéia de que não existe o crime perfeito, esquecemo-nos de que tudo isso é ficção. E, muitas vezes, da melhor qualidade. A desafiar nossa inteligência, a alimentar nosso cérebro de enigmas e soluções complicadas. Esquecemo-nos de que há uma realidade à nossa volta, muito mais desafiadora e muito mais tenebrosa.

O crime perfeito existe, sim. E bem sob os nossos olhos, sob os nossos narizes. E ocorre quase todos os dias. E não estou falando das chacinas, não. E não estou falando dos milhares de assassínios que as nossas polícias não conseguem resolver, porque não têm investigadores suficientes, não têm bons e suficientes laboratórios de criminalística, não têm viaturas, não têm salários...

Não são crimes perfeitos. São crimes não investigados, não resolvidos.

Estou falando de outra espécie de crime. Esse também tão grave quanto assassínios e chacinas. Estou falando de falcatruas que corroem diariamente as finanças públicas, o nosso rico dinheirinho de impostos, que suamos para pagar. Estou falando da roubalheira feita por dezenas, centenas, talvez de milhares de indivíduos inescrupulosos que assaltam todos os dias os cofres da Nação.

São crimes perfeitos, sim, porque roubam e todos sabem que eles roubam e se beneficiam do produto de sua rapinagem, com suas mansões e jatinhos executivos, com suas gastanças em paraísos turísticos, com sua vida nababesca.

E mais perfeitos ainda se tornam esses crimes porque os ladrões, conhecidos, reconhecidos, não vão para a cadeia.

E não vão porque obtêm habeas corpus do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, ou de qualquer outro togado de nossa Corte Suprema.

É ou não é um crime perfeito?

abril 03, 2009

ESSE É "O CARA"!



Não, não resisto. As manchetes de jornais reproduzem a frase. Rádios e televisões repetem a cena. O mundo comenta. Interpreta. Destaca.

Na reunião das vinte nações mais poderosas do planeta, Obama, o presidente americano, brinca com Lula e aperta-lhe afetuosamente a mão: “Esse é o cara. Eu adoro esse cara. É o político mais popular do mundo”.

Aí, fico pensando e rio comigo mesmo: enquanto isso, lá em Higienópolis, certo ex-presidente deve estar retorcendo as tripas, numa diarréia de inveja e ciúmes. Deve estar pensando: “Eu! Eu sou o cara. Não esse metalúrgico bronco e barbudo! À merda minha sociologia! À merda meus diplomas! Tudo à merda, por esse... esse...” Não conclui a frase, que sairia ofensiva ao americano, lembrando que um dia afirmou ter um pé na cozinha.

E nas demais hostes tucanas? Penas voando. Bicos batendo de indignação. Consternação geral. Os articulistas daquela revistinha semanal sem vergonha, órgão oficial da tucanada, devem estar sem dormir, sem tomar seu uísque neoliberal no bar da moda, matutando um jeito de anular o estrago do sucesso do Lula, com a denúncia de mais algum escândalo forjado em suas mesas de mogno extraído ilegalmente da Amazônia.

E os demos? Ensimesmados na sua falta de criatividade, nem para ranger os dentes eles saem da mediocridade, para tentar qualquer reação que não seja destrambelhada. Por enquanto, nenhuma notícia de suicídio se confirmou.

Ah, e aquela ex-senadora, ex-candidata à presidência, ex-esquerda radical e agora amasiada ideológica de policiais sem eira nem beira? Conseguirá escapar de uma síncope? O tempo dirá.

Enfim, enquanto a banda desafina por aqui, com gente a morder o rabo de indignação, nós, brasileiros que elegemos o Lula, que sabíamos que o metalúrgico não precisa de diploma para ser o que é, rimos à socapa, aquele riso de quem tem guardado o melhor para o fim.

abril 02, 2009

O PODER LEGISLATIVO NÃO É UM MAL NECESSÁRIO




Uma série de escândalos tem abalado a credibilidade do Congresso Nacional – Câmara dos Deputados e Senado Federal. E as críticas da mídia repercutem na população, o que faz aumentar as críticas, numa ciranda de reclamações e cobranças.

Devagar com andor, no entanto, que o santo é de barro. Não são as instituições legisladoras – Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores – que devem ser alvo de protestos.

Expliquemos. Não pode haver democracia sem um Poder Legislativo, representante mais legítimo dos anseios e vontades do povo. Em nenhuma hipótese, sob pena de defendermos governos ditatoriais, pode-se esbravejar contra esse Poder.

A mesma mídia que esbraveja contra o senador fulano de tal por atos de improbidade foi exatamente a mesma que exaltou o seu partido ou contribuiu para sua eleição. É claro que sabemos que é impossível alguém ser totalmente isento, neutro, mas não pode nenhuma mídia – jornal, rádio, televisão ou qualquer outra - fingir que é isenta e manipular seus leitores a favor de tal ou qual partido político.

A mídia e nós, eleitores, somos igualmente responsáveis por aqueles que elegemos como nossos representantes. No entanto, passada a temporada de escândalos, votamos de novo nos mesmos, sempre nos mesmos. E a mídia apoia sempre aqueles a quem deve favores, sempre os mesmos.

Por isso, o debate em torno dos escândalos e malversações de dinheiro público que nossos “nobres” representantes têm protagonizado, em todas as esferas legislativas do País, tem que ser travado em torno de uma reforma política séria, sem protecionismos a partidos de direita ou de esquerda.

Não podemos continuar tolerando reeleições indefinidas de quem quer que seja.

Não podemos continuar tolerando a existência de trinta ou mais legendas partidárias, sendo que a maioria só existe para negociatas espúrias.

Não podemos continuar tolerando que a classe política seja constituída de indivíduos que são mais iguais que todos nós: chega de mordomias e privilégios a quem quer que seja. Que ganhem bem, muito bem, nossos representantes, mas que trabalhem honestamente como qualquer outro trabalhador, com ponto de presença e desconto de faltas.

Enfim, precisamos parar de espernear e esbravejar. Aproveitemos o momento e tomemos nas mãos as rédeas de um debate sério que busque acabar de uma vez e para sempre com esse sistema que privilegia os mais espertos em detrimento dos mais capazes.

março 28, 2009

RATOS EMPLUMADOS



Se há indecisão, no PSDB, quanto ao candidato à Presidência em 2010, não há nenhuma indecisão sobre a formação de caixa para a campanha.

O que a Polícia Federal descobriu, ao investigar as falcatruas de diretores da Camargo Correa, deixa clara a ponta de um imenso iceberg: em conluio explícito do presidente da FIESP (o maior ninho conservador deste País) com as aves emplumadas do PSDB, mais os demos e outros partidos menores, da oposição, está-se a formar, talvez já há algum tempo, o caixa da campanha oposicionista do ano que vem.

Não há nenhuma dúvida de que o financiamento público de campanhas políticas não virá e, mesmo que venha, há sempre o recurso dos gastos por fora, patrocinados pelas empresas interessadas no próximo governo que, eles apostam alto, será formado pela galera sequiosa (e há muito na seca) de tucanos e demos, a dobradinha mais espúria da história política recente do Brasil.

Enquanto as investigações denunciam o escândalo, os impolutos deputados e senadores democratas e tucanos estarão no Congresso a esbravejar contra a politização da Polícia Federal, fazendo juras de honestidade que não passam nem no mais vergonhoso teste de veracidade que se possa fazer. São todos uns caras de pau, santinhos do pau oco, ladrões de casaca espoliados de suas boquinhas, de suas sinecuras, agora dispostos a tudo para voltar ao poder.

E a mídia, claro, vai dar uma mãozinha santa, publicando só o que interessa e, quando não for possível esconder mais a grande sacanagem que está aí, tentarão por panos quentes e desconversar. Mas a sujeira está aí, como a lavagem de dinheiro subtraído dos cofres públicos em obras superfaturadas, no que eles têm know-how há mais de cinquenta anos, desde a inauguração de Brasília. As grandes lavanderias desse País estão instaladas em redutos elegantes, como a Avenida Paulista, em São Paulo, e um dos seus maiores ratos, fantasiado de tucano ou vice-versa, é o presidente da FIESP, esse Paulo Skaf, ou PS, como aparece nos telefonemas grampeados da Camargo Correa.

Roubar é preciso, preciso como o corte cirúrgico de um médico, numa operação cardíaca. E roubar, para essa gente, é questão não apenas de sobrevivência, mas de hábito. Está no seu DNA. Todos os demais, mesmo os que se arriscaram nas bobagens do Marcos Valério, são amadores. Por isso, não acredito que o Ministério Público vá ter bala na agulha para investigar a fundo o que deve ser o verdadeiro mar de lama que invade os segmentos mais conservadores desse País.

Há caixas pretas espalhadas por aí: no Rio Grande do Sul, em São Paulo, em Minas e em muitos outros lugares. São tubarões, no verdadeiro sentido da palavra, gente muito poderosa, que não titubeia diante de juízes ou de promotores públicos, porque tem a seus pés forças de grande persuasão pública. O marketing de probidade está feito. É só enfrentar a onda com a cara de pau de sempre.

Pobre Brasil, esse que pode surgir das urnas em 2010!

março 24, 2009

ENFIM, O COMEÇO DA DEMOCRATIZAÇÃO DA CULTURA




Vai haver choradeira. Vai haver ranger de dentes. Afinal, o lobby da cultura é forte. E quando falo do lobby da cultura, estou falando dos três por cento dos grandes produtores que conseguem, por meio da Lei Rouanet, captar, principalmente no eixo Rio – São Paulo, mais da metade dos recursos disponíveis.

Claro, ninguém vai querer perder essa boca. E como esses grandes produtores têm peso na mídia, a coisa pode engrossar. Então, preparemos nossos ouvidos para a chiadeira da grande mídia contra a reforma da Lei Rouanet proposta pelo Ministério da Cultura. Talvez a proposta não seja a ideal, perfeita, totalmente acabada, mas na essência ataca o problema principal, que é a desigualdade de distribuição e captação de recursos. E é isso o que importa. Pode ser aperfeiçoada? Sim, claro que pode. Mas eu disse aperfeiçoada, não deturpada. Só espero que os artistas não entrem na choradeira dos grandes produtores e se tornem inocentes úteis na defesa da permanência dos privilégios e das distorções da atual redação dessa lei, que tem méritos, sim, mas precisa ser melhorada.

Outro aspecto da proposta do Ministério da Cultura que, com certeza, será ironizado e até bombardeado por um tipo de gente que frequenta a grande mídia, é a da criação do Bolsa Cultura. A idéia é distribuir uma espécie de vale subsidiado pelo Governo e pelas empresas a todos os trabalhadores que lhes permita adquirir bens culturais, como livros, ou frequentar museus, exposições etc.

Está aí uma excelente idéia. Porque não basta que se produzam bens culturais. É preciso incentivar e educar o público a consumi-los. Por exemplo: estou cansado de ir a espetáculos teatrais, aqui em São Paulo, em que o que menos importa é o número de pessoas na plateia, já que o espetáculo está pago, mesmo que os atores e técnicos recebam uma miséria. Como a divulgação é cara e não tem o mesmo incentivo que a produção, poucos ficam sabendo e muito poucos comparecem. E o produtor, que já embolsou o seu rico dinheirinho, está-se lixando se o público é ridículo.

Então, que venha o Bolsa Cultura, ou Vale Cultura, ou que nome lhe deem. Será uma forma de incentivar a que as pessoas pouco a pouco se acostumem a consumir um bem cultural, obtendo assim aquilo que todo artista deseja: público, gente que leia o seu livro, que assista ao seu filme, à sua peça, à sua dança, compre o seu disco etc.

O valor proposto pode até ser pouco: cinquenta reais por mês, mas já é um ótimo começo. E deixem que chiem os que não querem a democratização da cultura.

março 15, 2009

AINDA O BRUXO DO COSME VELHO



Não quero aprofundar análises psicanalíticas, literárias ou filosóficas sobre Dom Casmurro, a personagem do romance homônimo de Machado de Assis. Mas continuo achando míope a crítica que vê apenas Capitu e esquece que a personagem realmente enigmática do livro é Bentinho.

Perdoem-me as mulheres, mas Capitu é uma criação da mente obscura de Bento, numa estrutura que, hoje, denominaríamos expressionista. O grande truque de Machado é falar de Capitu para nos revelar Bentinho, escondendo-o. Por isso, o nome do livro não é Capitu, mas o resultado de uma vida complexa e de taras e traumas não totalmente resolvidos, ou seja, Dom Casmurro, aquele que se esconde atrás do pessimismo e da casmurrice.

A grande dúvida do livro não é a traição de Capitu. Isso, absolutamente, não importa. Porque, afinal, traições, de parte a parte, mesmo nas sociedades conservadoras, são um mote comum, analisadas, condenadas ou exaltadas na pena de grandes escritores em todas as literaturas. Já a dúvida de ordem sexual, principalmente do homem, só aparece na literatura dita erótica ou dissoluta, geralmente com as tintas fortes do escândalo. Machado não quer escândalo: quer a alma de Bentinho, suas dúvidas e frustrações numa sociedade absolutamente conservadora, que pode até passar por cima de pequenas diabruras de rapazes em colégios internos, mas que não admitiria o relacionamento homossexual maduro, já na ordem “superior” dos grandes sentimentos do homem adulto.

Acho que se reduz a genialidade de Machado, quando se analisa o livro apenas sob a óptica de Capitu e sua pretensa traição, uma situação bastante comum na literatura (e na vida). Não creio que somente esse fato, esse único motivo, digamos, banal levaria o autor a tecer de forma tão complexa o retrato desses seres e a transformação do jovem Bento no homem amargo que encontramos em Dom Casmurro.

Bentinho tem o destino traçado desde muito jovem pelo amor de Capitu. Mas, será mesmo um amor verdadeiro ou é apenas a imposição do conservadorismo que o leva a cultivar até o casamento um sentimento que deveria ser canalizado para o amigo Escobar? Ao casar-se, deprimido e reprimido, acaba vendo nas atitudes de Capitu as pegadas de uma possível traição com esse mesmo amigo Escobar. Sua angústia se volta para a mulher, mas não será, na verdade, o grande drama de Bento o fato de pensar em ter sido traído, sim, mas não por Capitu, mas pelo amigo? E então, renega o filho, que é o fruto de uma tripla traição, pelo menos em sua imaginação conturbada por sentimentos opostos: a traição da mulher, a traição do amigo e a traição de sua própria índole.

Enfim, acho que é esse o grande mistério de Dom Casmurro, a obra genial de um autor que compreendia como ninguém os sentimentos humanos e suas relações com o ambiente em que vivia. Machado está falando de uma época, de uma época que tem ecos muito profundos de recalques, de frustrações e de medos cristalizados na forma pecados e execrações cristãs. Uma época que ainda está muito longe de terminar.

março 10, 2009

RESPEITO AO POVO QUE ANDA A PÉ



Itanhaém é uma cidade do litoral sul de São Paulo. Chega-se até lá pelo complexo viário Anchieta – Imigrantes e, depois, pela rodovia SP55, uma estrada moderna, duplicada, que divide a cidade ao meio, praticamente deixando de um lado as praias e do outro inúmeros bairros e vilas.

Eu disse estrada moderna?

Bem, de meu ponto de vista, não sei exatamente se a SP55 é uma estrada moderna. Dá, sim, conforto ao motorista. É bem sinalizada, bem policiada, com radares de controle de velocidade etc. E as duas pistas são divididas por muretas que impedem que um veículo desgovernado, por exemplo, invada o outro lado. Mas...

Bem, um dia, vindo de Itanhaém para São Paulo, por essa estrada, deparei com um fato curioso: bem embaixo de uma passarela, empoleirado sobre a mureta que divide as duas pistas, um rapaz aguardava tranquilamente o momento de aventurar-se entre os carros e alcançar o outro lado.

Isso acontece milhares de vezes, principalmente durante o verão, quando as vilas e bairros do outro lado da rodovia se enchem de turistas. Há passarelas, claro. Enormes, altas, com dezenas e dezenas de degraus, que o povo, por preguiça, por costume, por cultura, enfim, se recusa a utilizar.

É mais ou menos como as calçadas em parques, que pretendem conduzir o pedestre pelos gramados: há sempre trilhas naturais, que a população elege em detrimento dos caminhos planejados, por hábito, por motivos que nem desconfiamos, como as formigas que traçam insondáveis trilhas por onde todas passam.

Quem planeja ruas, avenidas, estradas, ou seja, os caminhos humanos, tem que respeitar também esses usos e costumes do formigueiro humano. Do povo que anda a pé. O povo, por exemplo, reclama por passarelas para atravessar avenidas e estradas, mas, não as usa depois de prontas. Por quê? Por comodismo, por que são muito altas, por que as pessoas têm preguiça ou pressa ou preferem o perigo à segurança? Por tudo isso e por motivos mais entranhados em seus cérebros, por desígnios que ainda não entendemos, mecanismos não compreendidos de nosso cérebro.

Então, o que fazer?

Pode encarecer uma obra, mas acho que a única solução para estradas como a SP55 e para avenidas em grandes cidades é que se planejem formas que permitam ao pedestre manter sua caminhada no mesmo nível, ou seja, sem subir ou descer: nada de passarelas, nada de túneis para os pedestres, ciclistas e até mesmo trânsito local. As rodovias e as avenidas bem planejadas devem passar por cima ou por baixo desses pontos de passagem do povo a pé, das formiguinhas que não gostam de mudanças em suas trajetórias.

Se o argumento for o preço da obra, que me perdoem os planejadores, porém mais vale uma obra cara que vidas perdidas pela falta de respeito aos hábitos e costumes das pessoas. É a competência humanista, ou humanitária, que quase sempre falta a nossos engenheiros e economistas: não basta ser técnico, tem que pensar no lado humano de uma obra, de qualquer obra.

Isto é ser moderno; isto é ser, talvez, pós-moderno: respeitar o povo que anda a pé.

março 03, 2009

ESSES QUE NOS GOVERNARAM, NOS ÚLIMOS ANOS




Podia começar falando dos governos militares. Cresci com eles. Com medo deles. Mas, estão mortos e enterrados. Foram o fruto podre que nossa pobre República colheu, entre tantos outros. Não vou falar deles.

Democratização. Meio estranha, é verdade. Com conchavos e conversas, muita conversa de bastidores. E lá veio Tancredo. O homem certo, no momento certo, no lugar certo... Não deu certo. Morreu na antecâmara do poder e deixou Sarney em seu lugar. Tonta a Nação. Tonto um presidente a governar com um plano que não era o seu, com uma gente que não era a sua. Aliás, inventou um plano. O cruzado. Bem no queixo da inflação. Orgulho de ter, afinal, um presidente que ia trabalhar dirigindo o próprio carro. Um presidente que ousava desafiar as leis do mercado, em nome do povo. Pobre povo: o queixo não era o da inflação, era o dele. E o knock-out foi devastador.

Aí, inventaram um cara que só sabia fazer uma coisa: caçar marajá lá nas Alagoas. Marajá, nome forte, para gente que mamava nas tetas do pobre Estado. Virou hit nacional, na televisão do senhor Roberto Marinho, que o elegeu com o voto dos idiotas. E foi a idiotice que se viu: não um golpe de boxe, mas de jiu-jítsu, um ippon, que botou no tatame de novo o povo. Que, mais esperto, reagiu e foi o que se viu: renunciou o caçador (que, na verdade era um tremendo mão-leve) e deixou o poder para um come-quieto lá de Minas. Que não era assim tão quieto, não. Aprontou das suas, com modelos sem calcinha em célebre carnaval no Rio. Não podia dar certo o senhor Itamar, mas até que deixou um rastro de esperança: um sociólogo badalado, intelectual, metido a besta (já até fora humilhado pelo Jânio, numa eleição para a prefeitura de São Paulo), mas todo falastrão.

Até tive certo orgulho de seu preparo, de seu rompante (embora nunca tenha gastado meu voto em tal indivíduo): aparentemente, pôs ordem na economia e o País parecia nos trilhos. Um plano ousado, ainda dos tempos do mineirinho come-quieto, começava a dar os seus frutos. E, afinal, um presidente feito sob medida: culto, viajado, falava inglês até com os alemães! Bem, lábia tinha o Fernandinho Segundo (que o primeiro foi o caçador de marajás, lembra?): vendeu meio País e comprou um Congresso inteirinho, com todos (ou quase todos) os senhores deputados e senadores, para obter, na marra, um segundo mandato. E deixou a maior desgraceira que podia deixar: o País quebrado, sem autoestima e sem destino. Ladeira abaixo as esperanças de desenvolvimento, de primeiro mundo.

Quanto tempo perdido! Quanto idiota a dar palpites infelizes. Restava o quê? O sapo barbudo.

E lá veio ele, com sua barba, sua voz roufenha, seu jeito desengonçado. Votei nele, sim. Que jeito? Era votar e torcer, torcer muito para que o deixassem lá, por um mandato pelo menos. Porque, embora tivesse esperança no barbudo, não confiava que terminasse dois anos de governo. Eram muitas as torcidas organizadas – contra! Piores que as de campo de futebol. Mais violentas e mais sanguinárias. Pularam com tudo a que tinham direito na jugular de Lula, o sapo que as ditas elites não conseguiam engolir. Deram paulada, deram soco e pontapé, só não deram tiro, porque aí já seria demais! E nada...

Tiveram que engolir o sapo barbudo. E deglutir. Porque, finalmente, um homem que se preocupa com o povo, porque veio do povo, estava no poder. E aos trancos e barrancos, levando trombadas e pulando obstáculos, aí está o Brasil de 2009 a enfrentar os desacertos de um mundo em ebulição econômica, numa das maiores encrencas que o capitalismo podre podia engendrar, com suas políticas selvagens. O Brasil liderado por um metalúrgico que não tem curso superior, nunca caçou marajás, não tem o pó das minas nem o visgo do café, não tem marimbondos de Academia, nem pretende ser mais do que é: aquele que conseguiu tirar o atraso e os desencontros de uma democracia recém-fundada.

Chiem e chorem, portanto, os viúvos de Sarneys, de Itamares e Fernandos, que é para frente que se anda: bons frutos só podem vir da boa árvore que os produziu. Qualquer outra solução é andar de novo para o atraso, para as políticas higienistas e antissociais de governos entreguistas que nunca se preocuparam com o povo.

Entenderam, então? Dois mil dez já começou. Esqueçam as pauladas, esqueçam as diatribes, esqueçam a mídia vendida e comprada. Não subam a serra, nem de Minas nem de São Paulo! Que o Brasil ainda tem jeito, se o povo não for enganado de novo!

fevereiro 25, 2009

SAIDAS PARA A CIDADE DE SÃO PAULO



Inevitável a piadinha infame: as melhores saídas para São Paulo são os aeroportos e as estradas. No entanto, há um fundo de realidade trágica nisso. Porque, realmente as melhores saídas para os problemas da maior cidade do Brasil é, mesmo, a médio e longo prazo, primeiro a estabilização e depois o decréscimo de sua população.

É absolutamente inviável que 20 milhões de pessoas convivam numa mancha urbana única, constituída por uma cidade imensa, a própria São Paulo, mais suas dezenas de cidades satélites, que formam a chamada região metropolitana.

Aliás, o próprio conceito de região metropolitana, aqui, se esgarça e não tem o menor sentido, porque não há uma só tentativa séria de coordenação de esforços entre as várias prefeituras que compõem essa megalópole. É cada um por si e os problemas para todos.

Os problemas são tão imensos, que nenhuma política isolada e de curto prazo tem a mínima possibilidade de resolver a situação. E nenhum, absolutamente, nenhum prefeito de São Paulo, nesses últimos quarenta anos, teve a ousadia de propor um planejamento honesto e orgânico que freasse o crescimento dessa cidade.

Qualidade de vida é um conceito que não passa pela cabeça de nossos alcaides. Porque não conhecem o passado da cidade, não têm olhos suficientemente agudos para ler o presente e não se importam nem um pouco com o futuro.

Somente o planejamento de longo prazo pode pontuar ações imediatas que impliquem melhoria de vida para todos. E ações que respeitem o passado e a geografia da cidade, seus usos e costumes. Os erros se acumularam de forma tão devastadora, que somente políticas e medidas corajosas poderão começar a resolver a situação.

Se falamos em diminuição da população, isso não significa adotar políticas segregacionistas em relação a migrantes de outros estados, mas pensar em termos de planejamento familiar, de impedimento de novas ocupações de solo, de incentivo a que as pessoas busquem alternativas de trabalho e de vida em outras cidades do interior, que não sejam próximas à capital, até mesmo na possibilidade de mudança da capital do Estado para uma região central.

E dentre os inúmeros problemas desse caos urbano chamado São Paulo, a questão das águas é prioridade absoluta. O planalto onde se situa a cidade possui uma malha inumerável de rios, córregos e riachos. O que se fez até agora eu considero um crime contra a humanidade (sim, contra a humanidade!): canalizaram os córregos e riachos, retificaram rios, construíram ruas e avenidas sobre as águas canalizadas e, onde ainda há água corrente à vista, ocuparam suas margens de forma estúpida e criminosa. E mais: drenaram baixadas e várzeas, que alagavam e traziam vida à cidade e hoje continuam alagando e trazendo morte e destruição. Porque os rios estão mortos, mortos pela sujeira que o homem despeja continuamente em suas águas, desde a merda de milhões até dejetos industriais altamente perniciosos.

E as regiões de mananciais? Ocupadas desordenadamente pelos grileiros, um crime impune porque não os criminosos sãos os mesmos que sempre mandaram nesta cidade e continuam mandando. Seus comparsas estão em todos os poderes constituídos, prontos a permitir que loteamentos clandestinos proliferem, como forma de aumento de suas rendas. E a vilas e bairros irregulares surgem da noite para o dia, a jogar sua sujeira nas represas, a destruir os pequenos rios e riachos que as alimentam. Alguns milhares de ocupantes ilegais comprometem o presente e o futuro de milhões. E não há governo – estadual ou municipal – que tenha coragem de mover uma palha para tirar essa gente de lá.

A poluição, em todas as suas formas, deve ser combatida, mas a poluição das águas tem de ser prioridade absoluta. Milhões foram gastos em obras no rio Tietê. Obras? Sim, obras, obras de aprofundamento da calha, de retificação do rio, para domá-lo, para encaixotá-lo e estrangulá-lo ainda mais num canal de cimento, de milhões de sacos de cimento. Quando o rio queria apenas seguir seu curso, livre de esgotos, de sujeira, com margens amplas que lhe permitissem subir docemente nos tempos chuvosos e alagar as várzeas e dar-lhe vida e lazer para a população.

O rio não quer cimento, quer espaço. Simples assim. Mas isso implica em mudar a cabeça gorda de nossos dirigentes, implica mexer com gente que se diz dona absoluta dos destinos do povo, gente que nunca, em momento algum, se preocupou com algo que não fosse o seu próprio enriquecimento.

O povo? O povo que se dane. Ou busque as estradas para, simplesmente, ir embora, já que nem condições de usar os aeroportos esse povo sofrido tem.

fevereiro 17, 2009

ESTÁ ABERTA A TEMPORADA DE CAÇA AO GOVERNO LULA




Que tenho sérias restrições aos políticos brasileiros, o meu artigo anterior não deixa dúvidas. Não gosto deles apenas por ideologia, mas principalmente porque acho que formam uma casta de gente que é mais igual que os demais. Uma casta privilegiada. E odeio privilégios.

Ainda mais: não há dúvida de que uma boa parte dos que se dizem políticos não passa de uma caterva de salteadores dos cofres públicos. Incrustados em todos, absolutamente todos, os partidos políticos. E sedentos de poder, pois, para eles, poder é dinheiro. Que leva a mais poder.

Assim, não posso de todo discordar do desabafo do senador Jarbas Vasconcelos, ao dizer que há em seu partido, o PMDB, uma súcia de ladrões e outras coisas mais. Isso não é novidade para ninguém.

Agora, o que me deixa com a pulga atrás da orelha é o veículo que o ilustre senador escolheu para suas diatribes, que não ficaram apenas no âmbito partidário, mas pretenderam atingir o Governo Lula: aquela nossa caquética revistinha semanal porta-voz do PiG (Partido da imprensa Golpista).

É público e notório o ódio que essa revistinha desavergonhada cultiva em relação a qualquer tipo de governo que tenha um pouco (basta um pouco, apenas) de preocupação com o povo. Lula é populista e quer o terceiro mandato (esquecem-se os bravos articulistas e repórteres da tal revistinha que o golpe de um mandato a mais foi dado e comprado pelo senhor Fernando Henrique Cardoso, a quem ela defende de unhas e dentes). Chávez é ditador. Fidel, sanguinário. E vai por aí a fora.

Também é publico e notório que, para a tal revistinha, o próximo presidente da República (só falta empossar, claro) é o senhor José Serra, para quem ela tece loas e propagandeia a capacidade há muito, muito tempo. Ou seja, desde antes do golpe do senhor Alckmin contra o Serra, para sair candidato à Presidência. Como veem, há certos partidos que entendem bem de golpes e contragolpes, porque depois o mesmo Serra deu a volta no Alckmin, na eleição para a Prefeitura de São Paulo.

(Um parêntese: depois de se estapearam quase em público o ex e o atual governador de São Paulo, será quanto levou o senhor Alckmin para se encantar com o canto da sereia e tornar-se Secretário do Desenvolvimento do governo Serra, hem? Quanto? Ou quais benesses e promessas? Não acredito que tenha sido apenas um golpe contra o Aécio, não: nesse angu, tem mais caroço do que pululam as nossas panelas quentes).

Voltando ao assunto: a campanha presidencial de 2010, para esses capachos do capitalismo selvagem e do neoliberalismo mais selvagem ainda, já se iniciou no dia seguinte à derrota do PSDB, nas últimas eleições. E tome Serra!

Mas, o que tudo isso tem a ver com a entrevista do senhor Jarbas Vasconcelos?

Não creio em inocentes úteis. Portanto, acredito que a entrevista e o veículo foram propositadamente orquestrados. Com um fim, um único fim: dar início a uma campanha do PiG contra o Governo, com vistas às eleições do próximo ano.

Jarbas Vasconcelos deu a senha: está oficialmente aberta a temporada de caça ao governo Lula.

A partir de agora, uma enxurrada de opiniões de medalhões da oposição (que, a meu ver, fazem o que se espera de uma oposição; até aí, nada demais que demos e tucanos soem as trombetas); de denúncias de corrupção, geralmente baseados em pequenos desvios do sistema corrupto que consome o tecido da política brasileira, mas orquestradas de forma a atingir diretamente o presidente Lula; de reportagens exaltadas contra qualquer obra do Governo, como sendo de conteúdo eleitoreiro (em ano anterior à eleição, toda obra é eleitoreira, para a oposição); de exaltação às ações, por mais simples que sejam, dos adversários do Governo, como o melífluo governador de São Paulo; enfim, vamos ter de aguentar o mais sujo e promíscuo vale tudo do PiG, numa aliança dos grandes jornais e revistas, das rádios e seus comentaristas, das televisões e seus apresentadores, contra tudo e contra todos que estejam no Governo.

Enfim, 2009 está apenas começando. Quem tiver estômago fraco que saia de baixo, ou seja, faça-se de morto: não ouça, não leia, não assine... não veja!

fevereiro 04, 2009

UM CLÁSSICO DO CINEMA DE HORROR: A VOLTA DOS MORTOS VIVOS, DE DAN O'BANNON




O filme é de 1985. Recria, com sexo, drogas e rock’n’roll, um clássico de George Romero, Noite dos Mortos Vivos, de 1968. Um tema recorrente, portanto. E assustador: cadáveres que voltam à vida e se alimentam de cérebros humanos!

Brasil, 2009. Os mortos vivos fazem sua reentrée triunfal. E o pior: não é filme. Também não é o pesadelo que nos assusta em noites de tempestades e inundações. É realidade. Realidade vinda dos corredores e salões amplos do Congresso Nacional.

As duas cúpulas dos prédios projetados por Niemayer escondem perigos inimagináveis.

Mas, é melhor começarmos essa história pelo começo, para tentar encontrar algum sentido, se significado pode ter a ressurreição de tantos cadáveres (há um livro de Érico Veríssimo que trata também desse assunto, mas, por enquanto fiquemos com o filme, que está mais fresco na memória dos cinéfilos).

Não votei em Fernando Henrique Cardoso para presidente. No entanto, tinha-lhe certo apreço. E muito respeito. Afinal, era um homem de esquerda, ex-asilado político, professor emérito, intelectual reverenciado aqui e do outro lado do Atlântico. Tê-lo como presidente constituía, até certo ponto, motivo de orgulho, numa democracia incipiente como a nossa e depois dos desastres de governos anteriores (e não estou falando do regime de terror dos militares, não).
Enfim, democrata como sou, admirava FHC. Nos dois primeiros anos de governo. Aí, a coisa desandou: num golpe branco contra a democracia (porque não se pode chamar de outra coisa a não ser golpe o que aconteceu), o senhor Fernando Henrique Cardoso comprometeu seu passado e seu futuro político e o de seu partido – o PSDB – com a vergonhosa compra de um segundo mandato, via reeleição. Quebrou o Brasil duas vezes, para obter seu intento. E teve um dos mais pífios governos da história do Brasil, nos seis anos seguintes.

Reeleição. Um estatuto com o qual não concordo, nem em gênero, nem em número, nem em qualquer outra condição normal de temperatura e pressão. Inadmissível. E não concordo com reeleição nem para inspetor de quarteirão ou síndico de prédio. Ou seja: acho que se poderia ou deveria instituir um mandato de cinco ou seis anos, sem reeleição, para todos os cargos políticos, de vereador a presidente da República.

Por quê?

Para não termos de assistir à volta dos mortos vivos, que não voltam apenas uma ou duas vezes, mas sempre. Ficam lá, os mortos, pelos corredores do Congresso, esperando o momento certo de comer nossos cérebros e voltar ou voltar para comer nossos cérebros. Não descansam nunca, os mortos. Porque, a qualquer descuido, alimentados por paixões que não sabemos de onde vêm, alimentados pelas regras de um jogo sujo da política de reeleição a que nenhum político pode ou consegue escapar, de repente, eles abrem suas tumbas e ressurgem, impolutos, orgulhosos de seus trinta e tantos anos de vida parlamentar.

Isso acontece em Brasília e repercute em todas as mídias. Mas não é só lá, não, que os mortos vivos dão o ar fedorento de suas graças: em todas as câmaras municipais e estaduais, eles reaparecem com menor ou maior denodo, fazendo estragos, comendo cérebros.

E eles têm nomes, sim, os mortos vivos: chamam-se, no âmbito federal, José Sarney, Michel Temer, Collor de Mello, Heráclito Fortes, Renan Calheiros, Marconi Perillo, Mão Santa etc. etc. etc. Basta abrir os jornais, assistir aos noticiários da televisão, ouvir os comentaristas de rádios, que lá estão eles, firmes e fortes, sorridentes de seus podres poderes, famintos de nossos pobres cérebros, em seus ternos bem cortados e com suas gravatas de seda.

Culpados pela existência deles? Nós, pobres descerebrados, que os alimentamos com nossos votos, com nossa apatia, com nossa complacência.

Um horror, um verdadeiro filme de horror! Que não está em cartaz em nenhum cinema, mas em nossas consciências. E o pior: não tem sexo nem rock’n’roll. Só droga!

janeiro 24, 2009

UM MUNDO MAIS RACIONAL



Há muito, cheguei à conclusão de que a metafísica é uma das maiores fraudes do pensamento humano. Nela enfiados até o pescoço, não temos tido oportunidade de trilhar caminhos mais reais, caminhos menos penosos e menos enganadores.

Buscamos, por exemplo, a felicidade. E o que é a felicidade, senão mais um conceito metafísico, um ente inexistente, impossível de ser alcançado?

Temos, sim, momentos de satisfação, de alegria, de prazer. Que podem durar uma vida ou ser fugazes como uma chuva de verão. Alternados com momentos de desconforto, de dor, de insatisfação. Que também podem durar uma vida ou ser fugazes como o vôo da andorinha. E mais: entre esses extremos, vivemos. Porque a vida é assim, cheia de som e fúria, mas também um lago sereno.

Não precisamos perseguir uma categoria inexistente da metafísica, a tal da felicidade, para vivermos bem. Acho até que é o contrário: quanto menos nos preocuparmos com essa senhora improvável e impossível, mais temos o conforto da vida em toda a sua plenitude.

Nascemos para viver, não para sermos felizes ou para qualquer outra coisa. E a vida é o bem mais precioso do homem, por ser única. Não há nenhuma razão que me leve a acreditar que sobrevivamos à vida, que existe um paraíso, ou entes além-túmulo que nos protegem ou nos encaminham para uma outra existência. Acreditar nisso é enganar-se, pelo menos na minha opinião. Mas isso é problema de cada um, pois é um princípio de fé, e não de realidade.

A metafísica cria entidades abstratas.

E outra abstração a que nos dedicamos com imensa sofreguidão é o ente chamado humanidade. O que é humanidade? O conjunto de todas as características humanas, em oposição a todos os demais seres vivos? Bobagem. Quais são essas características humanas? A suprema, a que todos acham que define o homem, a inteligência, não é privilégio do ser humano. Todo ser vivo é provido de inteligência. A nossa pode ser, teoricamente, mais desenvolvida, mas dominamos a Terra não por causa única da inteligência, mas principalmente porque desenvolvemos a capacidade de nos adaptarmos e, assim, sobrevivemos a catástrofes e às adversidades.

Nem a racionalidade nos distingue. Porque não sabemos bem o que é ser racional. Cometemos tantos atos insanos, tantas loucuras, como assassínios, tortura, guerras, genocídios e muitos outros horrores, que duvido seriamente de que todos os homens sejam seres racionais. Os animais agem com muito mais pragmatismo do que o homem: reagem à ameaça ou à fome. Assim, não se tornam assassinos. Só algumas espécies mais “avançadas” de símios (nossos irmãos, portanto) atentam contra a vida por outros motivos que não esses.

Rejeito todas as metafísicas. Rejeito todas as utopias.

Não posso admitir outra forma de convivência que não seja aquela baseada no respeito. Respeito ao consenso. Respeito à maioria. Sem fanatismos. Sem imposições.

Não quero a cabeça dos déspotas espetadas no alto de fogueiras, nem enforcados em patíbulos públicos. Mas não os quero por perto, também. Longe deles, somos mais humanos. Ou tornamo-nos mais humanos.

Rejeito a imposição pura e simples de formas de governo alienígenas e defendo o direito de cada povo decidir seu destino, sem deuses, sem altares, sem perseguições. O homem só é lobo do homem, quando defende ideologias. Abaixo, portanto, todas as ideologias, estejam elas de que lado estiverem do espectro político.

O socialismo laico pode ser um bom sistema. Desde que sem burocracias e imposições. O Estado não pode ser ditador nem omisso. Há que se justo e ter o tamanho certo para atender as necessidades de seus cidadãos e mantenedores. Nenhum homem tem o direito de apontar para o horizonte e dizer que o caminho certo é este ou aquele. Só a vontade soberana das pessoas, sem a manipulação dos poderosos, pode decidir os destinos de um povo.

Mas que em cada constituição, de cada país, esteja escrita e declarada e devidamente aceita como cláusula pétrea a política de não agressão, o compromisso com a paz. Nenhum povo tem o direito de declarar guerra ao outro nem de provocá-lo à guerra. O respeito entre as nações é a base mais sólida para um mundo melhor. E isso não é utopia. É necessidade.

Os recursos que se desperdiçam com ao aparato militar, com exércitos, armas, mobilizações, campanhas e lutas inúteis seriam e serão aqueles que devem ajudar a estabilizar a economia mundial e tirar da miséria absoluta milhões e milhões de seres humanos. E isso também não é utopia, é sobrevivência.

A Terra é um planeta de recursos finitos. O ser humano não pode continuar a transformar-se no vírus que a destruirá e destruirá a vida. É necessário um controle rigoroso da população em relação com os recursos disponíveis. E isso não é utopia, é não matar o planeta em que vivemos e nos matar, também.

A democracia tem inúmeras facetas, muitas variáveis, dezenas de aplicações, mas é o único sistema que garante uma tentativa em direção a uma igualdade entre os homens e mulheres. Nada, absolutamente nada, pode atentar contra os regimes democráticos. O que não quer dizer que se possa impor a democracia pela força a qualquer outro povo. O efeito testemunho é sempre a melhor forma de disseminar a democracia.

Desejar e trabalhar para que os homens entendam que o respeito entre si, o respeito entre os povos é o único caminho para alcançar a estabilidade e salvar o planeta, o único caminho para garantir a sobrevivência do próprio homem, isto não é utopia: é, sim, e inelutável e única possibilidade que temos de afirmar perante nós mesmos de que somos capazes de construir um mundo mais racional.

janeiro 21, 2009

NEM TUDO QUE RELUZ É OURO



Essas seitas pentecostais que grassam pelo Brasil e pelo mundo crescem e prosperam à custa de muito embuste, muita enganação, muita saliva para cima de seus fiéis seguidores. A maioria tem por dirigentes verdadeiros picaretas, que enriquecem graças ao dízimo de pessoas que acreditam poder comprar um lugar no paraíso dando dinheiro para pastores desavergonhados e impudicos que têm fazendas imensas, haras de plantéis caríssimos, mansões no Brasil e no exterior, redes de televisão e muito mais coisas do que possa sonhar nossa imaginação.

Não pagam impostos, ou sonegam vergonhosamente a parte que a tributação cobra. Tornam-se poderosos. E temidos. Não se pode falar deles, que arrotam o argumento de perseguição religiosa. A imprensa os teme; os órgãos públicos são coalhados de fiéis seguidores dispostos a dar qualquer tipo de jeitinho para impedir que processos avancem, que denúncias cheguem aos órgãos competentes ou a instâncias superiores. Colocam-se acima da lei e da justiça. Em nome de deus, de Jesus, de seus credos, encastelados em receitas prontas de fanatização de um público não apenas fiel, mas rebanho cego, surdo e burro.

Quando acontecem acidentes, como o que matou nove pessoas ao desabar o teto do templo da famigerada Renascer em Cristo, no bairro do Cambuci, em São Paulo, deixam no ar os seus dirigentes mentirosos e mal informados a idéia de que, afinal, acidentes acontecem por obra e graça de Deus e que os fiéis mortos tiveram a sua graça para alcançar o paraíso, numa desfaçatez que nenhum órgão de imprensa denuncia.

Igreja é negócio. E como negócio dos mais lucrativos, não tem essa de não pagar impostos. Se o fiel quer ser enganado e espoliado de seus bens, de seu salário, para enfiar na garganta dos falsos milagres de pastores que fingem tirar demônios do corpo de pessoas que se prestam à palhaçada por uma graninha a mais no bolso ou são sugestionadas pelo clima de terror que eles criam em seus cultos, brandindo a bíblia e usando e abusando do discurso apocalíptico, que esses fiéis doem seus bens, mas que a igreja, os pastores e dirigentes paguem impostos como todos os demais cidadãos desse País.

Que seus templos sejam devidamente vistoriados e muito bem vistoriados pelos bombeiros e pelos fiscais da Prefeitura; que sejam construídos de acordo com as normas de segurança do Município; que tenham proteção acústica contra a gritaria para um deus surdo que atormenta vizinhos como se fosse um estádio de futebol, com o agravante de que ocorre a qualquer hora do dia e da noite; que não se permitam templos a torto e a direito, em qualquer salão improvisado, sem nenhuma segurança, onde os tais fiéis são recebidos como gado num matadouro.

Isso não é perseguição religiosa, não. Isso é preocupação com a segurança dos próprios seguidores desses cultos, é respeito às leis e aos demais cidadãos. Se eu tenho preconceito contra esses cultos, por achar que são apenas igrejas caça-níqueis, eu tenho todo o direito de me manifestar, sim. Sou cidadão, vivo num País livre e tenho liberdade de criticar a quem quiser: nenhuma autoridade está acima do meu direito de protestar, de criticar, de exigir que as leis sejam cumpridas.

Perseguição religiosa é o que fazem esses cultos pentecostais uns contra os outros ou contra seitas que seguem princípios diferentes dos seus, como os cultos afros, que são discriminados e considerados cultos ao demônio, como se cultuar o demônio ou qualquer outro ser ou deus fosse proibido. A inquisição católica terminou no século XVIII, mas muitos desses fanáticos pastores bem gostariam de revivê-la, de reacender as tochas para alimentar fogueiras e queimar vivos os seus críticos, como bruxos e bruxas de antanho. Felizmente outros são os tempos, mas a forma como se defendem, atacando seus pretensos inimigos ou críticos nos faz temer que, afrouxada a lei, coisas muito ruins podem advir dessa gente.

Seus templos fulgurantes escondem mazelas e armadilhas aos incautos, como verdadeiros mangues ou areias movediças. Nem tudo o que lá parece tão belo, tão puro, tão iluminado, é realmente aquilo que aparenta. A voracidade dos tais pastores e bispos e bispas e não sei mais que falsos títulos eles se atribuem leva a que os seus fiéis sejam explorados ao limite de seus bens, de suas forças. Há pessoas que gostam, porque acham que recebem graças, ou que receberão benesses no outro mundo. Pobres diabos. Deles temos dó, por eles alertamos contra as armadilhas desses templos, embora saibamos ser inúteis quaisquer admoestações, cegos que ficam todos eles pelas falácias e pelas falsas promessas.

Enfim, que não se venha com argumentos de perseguição religiosa para a punição dos irresponsáveis que tratam o seu povo, o povo que lhes dá a riqueza em que eles chafurdam, como os porcos que são mais iguais do que os outros da fábula de George Orwell, como idiotas que merecem morrer, porque são os tais justos que irão herdar o reino dos céus. Já que é impossível acabar com essa exploração, que pelo menos os tais irresponsáveis sejam punidos, exemplarmente punidos, pelas leis humanas, como forma de se evitarem tragédias que ainda poderão ocorrer por esse País afora, em nome da ganância de poucos na exploração de muitos.

janeiro 07, 2009

NOVA IDADE



Anoiteço. Ainda não o lusco-fusco do fim do dia, mas a curva descendente para a noite. Aquele tempo em que não se comemora mais um ano, e sim, lamenta-se menos um ano. Deprimente? Talvez. Mas assim a vida é, assim somos nós, pobres mortais.

Viver é morrer um pouco a cada ano, a cada mês, a cada dia, a cada minuto, a cada segundo. A areia que cai da clépsidra não retorna, mesmo que invertamos o fluxo. E viver é também contar os que ficaram nos obstáculos da vida, desde os mais simples, como a escolha de parar de viver (eu disse simples? – que idiota!) até os mais complexos, como o definhar-se em longos leitos brancos de casas que não são as nossas. Eles, os que ficaram pelos caminhos, estão lá, inúteis e belos no seu momento. E nós, aqui, envelhecendo com suas lembranças. Melhor deixá-los.

Olho-me no espelho. Não sou eu, claro, aquele velho gordo e grisalho que me olha, desconfiado. Sorrio. E reconheço o sorriso, mesmo disfarçado pelo grotesco do tempo. Consolo-me: ainda sorrio como soía. Mas dói. Esta a imagem clássica: o velho que procura o jovem nos traços obtusos do espelho. Caio na armadilha. Sabendo, embora, que, literariamente, e só literariamente, esse truque funciona. Lembra-me Dorian Gray e almejo um espelho que fosse a verdade e um jovem que fosse mentira. Ah, a literatura!

Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse. Não sei mais agora do que sabia antes, não pude antes mais do que posso agora. Jogo com as palavras, buscando consolo ou isso é a mais pura verdade? Não sei. Apenas sei que não me acho o velho sábio que um dia disseram que eu seria, e já não tenho o frescor de quando consolavam minha ignorância. Mais um truque de quem não se conforma com o que vê?

Ah! gostaria de não me conformar. Realmente, gostaria. Pintar os cabelos, arrepiá-los como vejo os dos jovens de hoje (e rio-me das tantas toucas para amansar os rebeldes cabelos de criança!); vestir uma daquelas bermudas largonas de não sei quantos bolsos; comprar o tênis mais caro da loja mais chique; orgulhar-me da camiseta de banda, com uma caveira brilhante; e muitos, muitos piercings, no nariz, na orelha, no umbigo... e nem me importar que fosse tudo isso muito, muito ridículo para a minha idade, principalmente ao limitar o vocabulário a meio dúzia de tá ligado, é isso aí!

Não, isso é bobagem. São delírios dessa merda que chamam de terceira idade, para nos domesticar, para nos colocar no nosso mundo, no nosso tempo, como se nós, os jovens de mais de sessenta pudéssemos ser todos empalhados e colocados à visitação publica numa estante envidraçada de um museu de história natural.

Mesmo que tempo faça em todos os homens e em todas as mulheres os mesmos estragos (que nem silicone e cirurgia resolvem, depois da algum tempo), é sábio o suficiente o tempo para passar de modo diferente para cada um. Carrego comigo, como indivíduo único, alegrias, tristezas, experiências e caminhos que nenhum outro ser humano pode compartilhar. Por isso, não me importa que o velho gordo e grisalho ria de mim no espelho: dou-lhe uma banana (que ele retribui) e solto uma gargalhada, que ele não sabe como imitar.

E vou em frente, nessa nova idade. Ou novidade.