janeiro 16, 2026

POR QUE SOMOS (AINDA) DEÍSTAS E CRISTÃOS?




Edward Gibbon, historiador inglês do século XVIII, em seu ensaio “Os cristãos e a queda de Roma” [*], relaciona cinco motivos, além da vontade da Providência, pelos quais o cristianismo prevaleceu durante o Império Romano e se tornou a religião poderosa que é hoje:

1. O inflexível zelo e, se nos é permitido usar tal expressão, a intolerância dos cristãos — derivada, em verdade, da religião judaica, mas purificada pelo espírito acanhado e antissocial que, em vez de atrair, dissuadiu os gentios de abraçar a lei de Moisés.

2. A doutrina de uma vida futura, valorizada por toda e qualquer circunstância ocasional que pudesse dar peso e eficácia a essa importante verdade.

3. Os poderes miraculosos atribuídos à Igreja primitiva.

4. A pura e austera moralidade dos cristãos.

5. A união e a disciplina da república cristã, que formou aos poucos um Estado independente que se desenvolveu no coração do Império Romano.

As causas 1 e 5 podem ser classificadas como “históricas”, isto é, fruto de circunstâncias que não têm relação direta com a doutrina cristã, mas sim com a assimilação de um conceito de exclusão, herdado do judaísmo, a primeira; e pela capacidade de organização burocrática e de hierarquização de funções, praticamente herdada da estrutura do exército romano, que teve a Igreja Católica nos primeiros séculos de sua existência. Assim, vamos nos ater, em nossa análise, às demais causas.

Inicialmente, devo dizer que, na minha opinião, há uma causa histórica não referida pelo autor inglês, que é a circunstância de que o politeísmo, com seus deuses múltiplos e confusos, com sua exigência de sacrifícios e rituais que não levavam a nada e vários outros fatores que não valem a pena ser relacionados aqui, porque não é o escopo desse artigo, começava a entrar em esgotamento e decadência, quando os primeiros cristãos iniciaram sua jornada de conversão dos ímpios e gentios, como eram denominados os pagãos. A curva ascendente da seita ou das seitas cristãs corresponde a uma curva descendente do politeísmo greco-romano. Vamos às demais causas.

A doutrina de uma vida futura. Embora os filósofos gregos já tivessem esboçado a ideia de permanência de algo como espírito após a morte, essa doutrina nunca foi totalmente levada a sério ou difundida popularmente, por falta de embasamento ou por terem os povos interesses mais imediatistas, ou seja, não havia preocupação a salvação por um deus ou deuses. A crença em alma ou espírito, que sobrevive ao corpo após a morte, creio não precisar enfatizar, vem de antigas doutrinas do oriente, como o zoroastrismo, que pode ter tido origem na antiga Pérsia (hoje Irã) nos séculos VI antes de Cristo. O que os cristãos agregam como novidade é a ideia de salvação das almas que se arrependem de seus pecados, incorporando aí os conceitos de céu, inferno e perdão divino. O poder dessa concepção na mente das pessoas é imenso, e os cristãos se utilizam de todos os argumentos possíveis para incrementar a ideia de que só a fé em Cristo (e a fé é outro poderoso meme que se incute na mente das pessoas) pode levar à salvação.

Os poderes miraculosos da igreja. “A fé remove montanhas”, esse é um mantra poderoso que, repetido e incutido na mente do crente, convence as multidões de que os santos cristãos/católicos prodigalizam “milagres”, como a cura dos leprosos e até a ressurreição dos mortos. O discurso é convincente, ainda que não haja nenhuma prova desses milagres, só mesmo a fé e a esperança de que algo milagroso possa acontecer com aqueles que se convertem (e todos sabemos que fatos comuns podem se tornar extraordinários mediante uma boa narrativa) e que o deus cristão levará para o céu a alma daquele que se arrepende dos pecados e pratica o bem. E então, vem o coroamento desse ideário, a causa seguinte do sucesso do cristianismo.

A pureza e moralidade dos cristãos. Difunde-se a ideia de que os seguidores de Cristo são puros (e, por isso, suas almas serão salvas) e têm uma moralidade, uma ética, uma bondade, que vêm das doutrinas de humildade, de compreensão, do “amai-vos uns aos outros”, provindas da pregação do próprio Cristo. Um povo, portanto, incapaz de maldade, mas cujos membros praticam o amor ao próximo e... a caridade. Entende-se por que a Igreja Católica institui, mais tarde, as três verdades teologais: fé, esperança e caridade. Que devem ser praticadas por todo “bom” cristão.

O que vou dizer a seguir ofenderá cruelmente a todos os cristãos, mas a verdade é que:

1. Não existe alma nem outra encarnação (parodiando um velho samba): isso são criações absurdas da mente humana.

2. Nunca houve historicamente qualquer “milagre”: a ciência nunca comprovou qualquer cura miraculosa (aquilo que não entendemos é porque ainda não encontramos explicação) e ressurreição de mortos só existe na ficção científica e nos filmes de Hollywood.

3. A propalada “bondade” dos cristãos se desmancha como neve ao sol diante de intolerância das várias seitas cristãs entre si e de todas elas em relação aos não cristãos (esses vão todos para o inferno); diante das cruzadas da idade média, cuja finalidade era “libertar” a terra santa, com a dizimação dos gentios (os judeus); diante dos crimes de perseguição, prisão, tortura e morte promovida contra principalmente as mulheres (acusas de bruxaria) pela “santa inquisição”, desde a idade média até o século XVIII; a morte e dizimação das populações das Américas, sob o pretexto de convertê-los ao cristianismo, etc. etc. etc. E esses são só uns poucos exemplos históricos.

Ou seja, o cristianismo, via Igreja Católica Apostólica Romana (sua única representante até o século XVI), nasceu, cresceu e se tornou a potência religiosa do Ocidente através da imposição de uma doutrina baseada em mentiras, somente em mentiras. O cristianismo (como a própria criação da ideia de deus, como vou comentar mais adiante) é só discurso, nada mais que discurso. Um discurso tão convincente, que se tornou uma das mais poderosas mentiras inventadas pelo ser humano.

Não podemos nos esquecer que essa mentira se revestiu, nesses dois milênios de existência, de muita maldade, de crueldades extremas, para se impor. De perseguidos pelos romanos, no início, assim que se tornou a crença oficial do Império Romano, os cristãos passaram a perseguidores implacáveis. E construíram um arcabouço imenso e complexo de falsas teologias, de ritos e rituais hipnóticos (procissões, missas, exorcismos etc.). E mais: visaram sempre à aproximação com os poderosos de todas as épocas, buscando sua cooptação, para a consolidação do poder não só espiritual, mas também material, através do acúmulo absurdo de riquezas que se consubstanciam na construção de templos imensos e na imposição de sua doutrina a ferro e fogo ao maior número possível de povos. O “salvacionismo” impregna hoje toda e qualquer seita cristã, da ex-todo-poderosa Igreja Romana a qualquer igrejola caça-níquel comandada por pastores inescrupulosos, como uma forma de manter sob seu domínio os rebanhos amortecidos por suas mentiras históricas, mas de imenso apelo.

O ser humano continua acreditando, como nos princípios do cristianismo, lá no Império Romano, exatamente nas mesmas ideias e doutrinas: quer se salvar das penas do inferno e, para isso, crê piamente na capacidade da fé de resolver seus problemas e na palavra de seus guias religiosos, que são criaturas “escolhidas por deus”, para guiá-lo para o bem e para a salvação.

Então, a pergunta de um milhão de dólares: por que acreditamos?

A resposta é complexa e está em nosso cérebro, ou melhor, na evolução do nosso cérebro. Essa máquina poderosa que temos dentro de nosso crânio, fruto de milhares de anos de evolução, tem características e propriedades que ainda desafiam até hoje a ciência. Muito pouco compreendemos sobre seu funcionamento, apesar do muito que desenvolvemos quanto ao seu conhecimento nas últimas três décadas.

Sabemos, hoje, por exemplo, que o ser humano e todos os organismos dotados de algum tipo de cérebro ou sistema nervoso necessitam dormir, para recuperar a capacidade cerebral ou para religar as sinapses cerebrais, de tal modo que essa máquina incrível possa continuar seu trabalho complexo de comandar o que somos ou, mesmo, de constituir, na verdade, o que somos. Mas, por que, exatamente, precisamos dormir, não sabemos. Descobrimos, desde tempos imemoriais, que sonhamos enquanto dormimos, mas a matéria dos sonhos é algo absolutamente incompreensível.

Por que sonhamos? O que são os sonhos? Mistério.

Agora, imagine os primeiros homines sapiens: sua compreensão da vida de caçador e coletor era praticamente limitada à sobrevivência. A vida tribal, um passo enorme no processo evolutivo, levava-os a caçar em grupo. E então, o amigo do lado virava caça. Morria. Se não compreendia a vida, muito menos entendia a morte. Só percebia a matéria inerte a ser devorada ou largada para os abutres. À noite, no entanto, enquanto dormia, o sonho trazia de volta o amigo morto. A confusão mental que isso trazia ao homem primitivo evolui aos poucos para uma ideia de alma, de espírito, de sobrevivência após a morte, isso num processo de milhares de anos, até as primeiras civilizações. Essa mentira piedosa do cérebro primitivo, como uma forma de aliviar a perda dos mortos, torna-se, possivelmente, o cerne das primeiras religiões, promovendo a crença em espíritos protetores e, posteriormente, em deuses etc. Desafiemos nossa imaginação: não é preciso buscar muitos elementos para que construamos um edifício absurdo de interpretações que pouco a pouco preparam o cérebro humano para acreditar em tudo quanto a criação e a nossa capacidade de invenção permitiram que chegássemos a um grau de sofisticação ficcional que, no fundo, constitui a base de nossa civilização que acredita no impossível, que acredita em qualquer mentira que, desde o Império Romano, os cristãos nos impingiram, porque nosso cérebro estava e está condicionado a isso, a crer, a ter fé, a não aceitar que a vida é finita, que algo de nós sobrevive à morte.

O deísmo ou teísmo (tenho preferido a raiz latina à grega), a crença em deus ou em deuses, nascido provavelmente lá nos primórdios da evolução humana, forneceu a base constitutiva das crenças que permitiram a criação do edifício teórico que alimenta as seitas e religiões que todas as civilizações acabaram por transformar em ritos e rituais, ao longo da história. Um meme quase impossível de ser extirpado do cérebro humano. Somente a adoção de um racionalismo extremo permite que se deixe de acreditar em deus ou em deuses, pois o lobby deísta massacra-nos ideologicamente desde o berço e está presente em quase tudo que nos rodeia. Confessar alguém ser ateu, em quase todas as sociedades, provoca espanto, rejeição ou de até mesmo de ódio.

No entanto, eu acredito que somente o ateísmo poderá livrar a humanidade da praga da crença em deuses ou em deus, uma crença que não evitou que o ser humano se dividisse em nações, em sociedades, em tribos que se odeiam e guerreiam entre si, muito ao contrário, o deísmo está na raiz de todos os ódios humanos e de inúmeros outros imensos problemas, como o capitalismo, por induzir o ser humano à submissão e à escravidão, já que a fé e a esperança de ganhar o reino dos céus é alimentada para exatamente isto, o amortecimento dos ânimos para uma revolução libertadora, já que, como diz a bíblia, “é mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no reino de deus”, o que faz a alegria e a perdição dos cristãos, aqui, neste reino de injustiças, desigualdades e de exploração de quase todos por uma minoria capitalista e poderosa, que não está nem pouco preocupada com recompensas abstratas de uma mais que improvável vida além da morte.




Nota:

[*] Gibbon, Edward; Os cristãos e a queda de Roma (capítulos 15 e 16 do original Decline and fall of the Roman Empire); tradução e notas de José Paulo Paes e Donaldson M Garschagen; Penguin & Cia. das Letras.



(Ilustração: Nicolas Poussin - The Blind of Jericho or Christ Healing the Blind - 1650)